Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 21 de julho de 2013

André Telucazu Kondo (As Curvas do Trabalho)

Pintura de Anita Malfatti
André é de Caraguatatuba – SP
(Cronica Vencedora do VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013)

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    Como muitos descendentes de japoneses de minha geração, refiz o caminho inverso àquele trilhado pela geração anterior. Se meus pais haviam emigrado do Japão ao Brasil, para aqui trabalhar, eu buscava o Sol Nascente para iluminar o meu labor. Só que raramente via o sol nascer ou se pôr. Saía para o trabalho antes que o sol semeasse a luz nas planícies e chegava em casa muito tempo após ele ter sido colhido pelas montanhas.

    Nas poucas folgas que tinha, gostava de pedalar por entre as plantações, sentindo o sol na pele. Morava em uma pequena localidade, um pouco afastada da fábrica em que trabalhava e, principalmente, do frenético pulsar dos apressados trabalhadores das grandes cidades. Porém, mesmo naquele ambiente bucólico, o labor se fazia presente.

    Não pude deixar de reparar em algumas velhinhas trabalhando na lavoura. Suas costas arqueadas mostravam o peso do trabalho que carregavam por toda a vida. A primeira vez que vi aquilo, senti uma ponta de tristeza. Pobres senhoras, tendo que trabalhar em idade tão avançada...

    Vi as velhinhas preparando e semeando a terra. Vi a paisagem se transformar, como se o verde brotasse das mãos daquelas senhoras. Vi a plantação crescendo, ficando cada vez mais bonita. Mas nada aliviava a visão daquelas corcundas tão curvadas. Sentia pena daquelas senhoras, ao mesmo tempo em que me questionava se teria que trabalhar pelo resto da vida, até que a idade me curvasse também.

    Após um longo tempo pedalando por entre as plantações, chegou o dia da colheita... Por todos os cantos, as velhinhas se curvavam ainda mais para buscar na terra o fruto de seus labores. Quando elas se levantaram, mesmo com as costas ainda encurvadas, é que eu finalmente enxerguei a beleza das curvas.

    Não eram mais as curvas das costas que eu via, mas as curvas em suas faces. A curva do sorriso do trabalho bem feito, o sorriso de satisfação de poder colher os frutos do labor. Então, eu sorri também. Senti alegria por aquelas idosas trabalhadoras. E desejei ter a saúde necessária, para que mesmo que o tempo me curve as costas, eu ainda possa trabalhar também. E, claro, que esse labor me curve o rosto, em um sorriso como aqueles que colhi, na terra de meus trabalhadores avós.

Fonte:
Livro do VI Concurso Literário “Cidade de Maringá” 2013

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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