Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Cícero Galeno Lopes (Não sei se disse)

Na mocidade a gente olha pra vida como vinda. É como madrugada, toda luz de porvir. De repente você se encontra com dois filhos, olha ao redor, está sozinha. Você fica olhando pela janela de muitos vidros que tem a esperança.

Você quer as coisas como gostaria que elas lhe fossem, como elas deveriam ser. Não vim aqui pra dizer só os sacrifícios nem só o desespero. Vim por trabalho. Nesta cidade, antiga e grande, só menor que a capital, as coisas vão ficando mais velhas a cada dia, porque seu coração vai se cobrindo de idas sem vindas. Tudo se vai, tudo vai indo. Vai indo seu rosto, vão indo seus cabelos, vão se sumindo as luzes, o dia vai caindo pra tarde. Os muitos vidros da janela lhe impedem ao invés de lhe abrir a vista. São obstáculos ao invés de passagens. Em lugar de você olhar pra terra, pras ruas, você fica olhando é pras estrelas, pras aves, que parece que nelas a vida não para. Porque são muitas estrelas, e você não sabe os nomes delas, porque são tantas que você duma noite pra outra não sabe se é a mesma ou outra que está na mira do seu olhar. Porque você não vê os corpos dos pássaros que morrem de natureza. Você vê apenas os que foram matados por pedradas ou venenos. Esses você vê no seu caminho.

Depois que fiquei sozinha moro numa peça emprestada, porque faz muito que nada posso pagar. A fila assim enorme que se formou pra vir falar aqui com os senhores assusta. Estou esperando minha vez desde ontem. Se os senhores vissem minha casa – a gente diz assim – aí que iam se assustar. Se eu voltar de mãos vazias desta fala com os senhores, meus filhos, de oito e dez, magrinhos e tristinhos, eles vão ter que voltar outras vezes pro hospital. De mês em mês, lá vão eles, como lá estão neste momento, tomando soro. Noutras vezes, vão amparados em mim, na busca de comer a sopinha que o hospital pode dar, que todos lá sabem que estão lá porque não têm o que engolir. Em casa, o que bebem é água e água com açúcar. Vão querer dizer, como já disseram, que sou mãe despreocupada, porque eles não vão ao colégio.

Me digam os senhores: como ir? Quando passo por um banco, fico pensando no dinheiro dos que têm. Chego a pensar - credo! - que algum assaltante até pode ter um pouco de razão de fazer o que faz. Não que concorde. Mas olhos de filho com fome, amarelinhos de desalimentação, têm força de virar pessoa. O choro deles, muito mais. Tive empregos, não coisa boa, mas possível de suportar momentos tristes.

Fiquei sozinha, porque o pai dos meninos não suportou olhar pra eles nem me ver como sou. Às vezes vem, chora disfarçado, cospe no chão, sem levantar os olhos, sem falar comigo mais que um grunhido de chegada e outro de saída, as roupas sujas, arqueado como se levasse sempre pesos mais pesados que ele. Pega um, se encosta noutro, ficam os três no chão sentados, algumas palavras que os meninos perguntam. Quando pode, bebe até dormir, caído onde estiver, nem se esconde mais. Com esta aparência alguém me dá emprego? Quer dizer, alguns, quase todos não dão. Mas aqui é emprego público. Falei com alguns na fila. Tem gente com estudos, marcas no jeito de ser de quem teve boa vida, trabalhando. Agora estão como eu. Todos não vão poder entrar: tem mais gente que lugar.

Eu, pela benção de Deus e compreensão mesmo dos senhores, tenho que pedir não dinheiro, mas emprego, que não é de fato coisa de se pedir, não deveria. Não façam por mim; façam por dois meninos que neste mesmo momento estão na cama do hospital, pra depois voltar pra casa – é como a gente se acostuma a dizer – e depois voltar pra lá. Tem outro jeito? Tem pessoas que às vezes me dizem quase sempre que compreendem minha situação. Como? Se compreendessem, me permitiriam um trabalho, mesmo que passageiro. Se deixo meus filhos todos os dias, como vai ser? Se compreendessem não negariam. As pessoas – acho – pensam que compreendem. Compreender só se vivessem como nós, eu com os meninos.

Todas as coisas que pude ter, que não foram muitas nem tão boas, se foram pra pagar armazém. Hoje pra duzentos gramas de bolachinha. Amanhã pra dois saquinhos de chá. Depois, pra meio quilo de açúcar. Quero - é o que mais preciso - pegar esse emprego. Estou cansada de virar saco de lixo. Não resolve. Não me importa que seja com lixo. O que quero é varrer as ruas, arrancar a erva, quero um salário no fim do mês. Quero de novo ter outra panela, ter caneca com alça, quero poder ter fogo de gás, um fogão, cama e uma casinha, um buraco qualquer, meu.

Quando pegar os meninos no hospital, vou contar pra eles que estou empregada, que vou ter uma chance de emprego fixo, vou poder comprar de novo com livreta pra o fim do mês e pagar do meu trabalho. Vão poder ter comida nos horários.

Se tem taxa, não posso pagar. Suas perguntas não respondi, acredito. Mais que respostas vim lhes trazer a vida que rola pelas ruas e becos desta cidade, que quero ajudar a limpar, é o que mais quero, preciso como nada. Nem é preciso muito saber pra isso. Caprichosa sempre fui, quando tinha com que. Sempre moradas humildes, de gente pobre, mas tinha. Fico pensando quando me lembro que contam que esta cidade tinha até banco com nome dela. Aonde foi? Que fizeram com ele? O governo tem parte nos bancos. Por que não ajuda quem precisa? Não quero dizer que é o que faz este governo. Quero e preciso. Me desculpem se falo mal, entorto a conversa, se meto pé por mão. Desculpem. A necessidade não é amiga da fala mansa e macia. Esse emprego é mais que emprego, é a minha vida e a dos meninos que os senhores vão devolver, queira Deus e a compreensão mesmo dos senhores. A gente vota, a gente espera. Sei ler até bem ligeiro, faço contas, posso pegar condução. Me determino.

E vassoura, empurrar carrinho de cisco, ensacar não requerem tanto mais. Acho que já disse. Se não disse o que era preciso, olhem pros meus olhos, pras covas da minha boca, vejam meus cabelos, as marcas. No verão, quando os que podem vêm ao Cassino, daqui me vou, moro na rua, fazemos biscates, os meninos ajudam. Quando se vão, vem o inverno, aí a gente teme, a gente treme. A vida vira isso de ter que pedir até mesmo pra trabalhar, porque atrás do trabalho vem o fim do mês, seguro. Não sei se disse?

Fonte:
LOPES, Cicero Galeno.A curva da estrada. Porto Alegre: Movimento, 2000.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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