Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Olivaldo Junior (A Poesia)

(Conto para 21 de março: Dia Mundial da Poesia)

Quase às seis da tarde, hora em que muitos voltam para casa e vão se preparar para o jantar, foi a essa hora que a danada resolveu aparecer. "Muito prazer!", disse ela ao jovem homem, estupefato, entrando em casa. "Posso entrar com você, em seu lar?", disse a moça de olhos negros, tão fundos quanto um buraco negro desse cosmo que nos cerca. O jovem, que chegava do trabalho, meio sem jeito, não soube bem o que dizer, mas aceitou que ela entrasse. Ah, as coisas de que uma moça é capaz com um jovem cavalheiro!... Fechada a porta, pediu à estranha moça que se sentasse um pouco e, deixando sua bolsa de trabalho de lado, foi à cozinha pegar o óbvio, um copo d'água, a sua "visita". "Quero café...", pediu a moça, num tom de voz mais elevado, para que o jovem homem pudesse ouvi-la. "E agora? Não sei fazer café!...", pensou o jovem procurando uma embalagem de Chá da China que a mãe lhe tinha comprado outro dia. "Tenho chá!...", gritou, da cozinha, o rapaz. "Serve!...", assentiu a moça, um tanto contrafeita, é verdade, mas há situações em que é melhor uma xícara de chá na mão do que mil bules de café voando, sabe-se lá em que cozinha...

O jovem voltava para a sala com a bandeja nas mãos, quando a moça olhava um porta-retratos em que ele, ao pé de uma velha árvore, agachado, mão direita apegada ao tronco, sorria muito. "Gostei dessa foto!...", disse a ele já pegando sua xícara de fumegante Chá da China, a moça que já se sentia em casa, mesmo tendo entrado há pouco em sua vida. "Pois é, eu também gosto...", respondeu a ela o jovem que já começava a se incomodar com aquela desconhecida ali, em pé, como se tivesse vindo inspecionar-lhe a vida, e sem licença nenhuma para isso. "Vou ficar aqui.", declarou ao jovem, se sentando na poltrona mais macia da sala, uma relíquia deixada pela avó do rapaz, pouco antes de ela morrer, ou melhor, "subir no telhado"... "Claro, pode sentar-se aí!.., respondeu gentilmente à moça, que lhe acrescentou: "Você não me entendeu. Vou ficar morando aqui.". O jovem deu um salto da cadeira em que se havia sentado e, como já se encaminhasse para a porta, decretou: "Me desculpe, mas você não pode. A casa não é só minha, minha mãe já vai chegar, não temos lugar. Me desculpe mesmo, mas é hora de você ir.". Nisso, começou a ventar e a chover.

"Não vou embora nunca mais de sua casa, nem de sua vida, foi você que me deixou entrar...", respondeu ao jovem homem aquela moça, toda em preto, dona de si, confortavelmente sentada na melhor poltrona da sala. "Serei sua hóspede para sempre, é melhor se acostumar.", e levou mais uma vez a xícara de Chá da China aos lábios faiscantes de vermelho, tão rubros quanto as faces daquele jovem que não sabia o que fazer. Deixou a porta de lado e jogou-se na mesma cadeira. Não sabia o que pensar. "Não vou dar muito trabalho, menino...", falou a moça ao pobre homem. "Como não?", perguntou-lhe o jovem. Barulho na porta. Era a mãe. Entrou, falou das comadres que encontrara no mercado, do calor e que o jantar sairia em breve. Não, sua mãe não vira a moça. "Quem é você?", assustado, indagou o jovem à incógnita mulher que, para responder a ele, se inclinou um pouco para a frente e, quase num sussurro, lhe disse: "Muito prazer, menino. Sou a Poesia. Ando a visitar homens e mulheres do mundo todo, todos os dias, há uns três mil anos, talvez há mais tempo, não sei, insuflando-lhes muitos versos e muitas ideias poéticas, para que possam compreender melhor o avesso das cotidianas horas vividas. Aceita a minha companhia? Serei só sua enquanto estiver com você, mas o que eu lhe puser no colo você repartirá com todos os seus, como quem reparte o pão de fome aos famintos do universo. O que me diz?".

Anos depois, numa livraria da cidade, num evento simples, mas marcante, o jovem homem lançava seu primeiro livro de versos, singelamente intitulado: "A visita da Poesia".

Com licença, alguém bate à porta. Um momento!...

Fonte: O Autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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