Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A. A. de Assis (Microcrônicas) Parte II


33
Cada mês que passa vai passando
a ser passado. Nós também.
34
Santo mesmo é o peixe. Sequer
precisou da arca para se salvar.
35
Casal de velhinhos na janela
olhando a Lua. Tão longe a de mel...
36
Futuro adiado. Ainda há gente
que namora escrevendo cartas.
37
Doce portuñol. Para los niños
los nidos... y los abuelos.
38
Do dente por dente ao voto
por dentadura. A lei da mordida.
39
Flores na enxurrada. Vão ter afinal
bom hálito as bocas de lobo.
40
Veja a parasita: parece gente
que a gente acha até bonita...
41
Teste de audição. Canta ao longe
um passarinho... e eu posso escutar.
42
Ouro, incenso e mirra. Que será
que fez Jesus com tais luxozinhos?
43
Tens que ter estudo.
Sem estudo és nada.
44
Cubram-se as estrelas. Tem gente capaz
de ao vê-las lhes roubar as pilhas.
45
Tão meninas elas, as meninas
dos teus olhos. Pedem colo, ainda.
46
Garrincha e Pelé. Depois deles
nunca mais houve igual olé.
47
Crocante e cheiroso, com garapa,
na feirinha. Pastel de saudade.
48
Um pulo, medalha. Milhões
de cabeças boas tão longe das loas.
49
Chovem meteoritos. Enxame
de pirilampos na noite da roça.
50
Na fila de idosos, troca-troca
de sintomas. Quem não tem inventa.
51
Nós e os nossos rios, cada qual
segue o seu curso. Reencontro na foz.
52
Labor, ciência e ternura. Quanto mais
amado, mais produz o chão.
53
Viva a companheira... Valeu
perder por ela o jardim do Éden.
54
Zunzunzum... zunzum... É um pernilongo
brincando de fórmula um.
55
Menina se abaixa, acaricia a flor,
sorri. Amigas se entendem.
56
Apressados passos passam
nas pistas do parque. Por que não passeiam?
57
Era transromântica. A poesia
hoje se nutre na física quântica.
58
Homo erectus. Não nasci para ser
vírgula; sou ponto de exclamação.
59
Um homem ao relento no gelado
chão. Por que não samaritamos?
60
Tinha um pé de pinha no quintal vizinho.
Tinha. Nem quintal tem mais.
61
Era um frango assado, e além de assado
era assim. Teve à mesa um fim.
62
Velhinhos na praça jogando
conversa fora. Também jogam damas.
63
Era uma era em que o neto
ouvia histórias do avô. Aí veio o celular...
64
Matuto, matuto... chego enfim
à conclusão: que matuto eu sou...
65
Nunca fui à Lua. Tampouco a Viena.
Porém amo as duas.
66
O Sol que se cuide. Volta e meia
a meia-lua chega em casa cheia.
67
Ave, avós. Hão de um dia
devolver a vós a voz.
68
Amor é isto e tão só: ou dá certo
e é fogo vivo, ou dá curto e vira pó...
69
Mataram Jesus.
E Jesus queria apenas acender a luz.
70
"Deixai vir a mim, em paz e sãs,
as criancinhas." Não estão deixando.
71
Serra-serra, será dor.
Cessa a serra, será flor.
72
Que bom ver de novo o verde.
Ver de novo a vida.
73
No cosmo, a cosmética: o puro,
a verdade e o bem. A perfeita estética.
74
“Pedro, tu és pedra”. Empresta
uma a Francisco pra reconstrução.
75
Um pingo... dois pingos... não parou
mais de pingar. E se fez o mar.
76
Nobre flamboyant. O facho que traz
nos cachos acende a manhã.
77
Branquinhas, branquinhas,
voam as garças em V. Vitória da paz.
78
Profissão de fé: eu creio
que Deus existe porque Deus existe.
79
Infinda é a esperança. Os galos
cantam ainda na aurora de cada dia.
80
Bem-aventurados os que sonham.
Chama-os Deus poetas.

Fontes:
Microcrônicas enviadas pelo autor.
Imagem: criação por J.Feldman

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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