Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

José Roberto Balestra (Papelzinho de bala)

Lembro-me da primeira vez que vi você caminhando pela minha rua. Era manhã duma quinta-feira, fazia um pouco de frio, um arzinho gelado, chato, e você ia com pressa, mas pisava tão leve que sequer eu ouvia o som de seus sapatos tocando o chão enquanto passava perto de mim. Com sua roupa simples e bonita, parecia flutuar, mas muito além de ser só bonita sua roupa; caia-lhe especial. Sem me dar conta do tempo, do portão fiquei te olhando, te olhando, você indo já lá longe, quase no fundo da rua, foi ficando menor, menor, até que sumiu num cruzamento.

Voltei para dentro de casa, retomei a ordinariedade das coisas tão triviais da vida; o arrumar da cama, o dobrar minhas roupas que usava em casa, o escovar e o guardar dos sapatos na gaveta. Assim ia eu meu dia. Todavia, de repente vi que sua imagem andando fincara-me, fixada como um painel de rua no breu da noite chamando sua presença: iluminava-se, crescia, eu olhava, via, e depois tudo ia sumindo afunilado. Em pouco, como as ondas de um lago em dias de vento brando, voltava. Sinceramente, não entendi o porquê daquilo comigo.

Mas saí também à minha faina; era preciso trabalhar. Sem perceber o meu projetor daquele filminho desligou-se. As coisas da cidade, os carros passando, a vida corrida, meus anseios de vitória, o trabalho, os bancos, a escola, contas pra pagar, o namoro rápido às vitrines das lojas com a moda chegando, tudo isso me reconduziu à normalidade, à velha ordinariedade de que falei.

A semana acabou, veio o domingo. Fui à missa das sete na catedral, lugar mágico que a gente, esquecendo as vaidades tão vãs, acha que fica mais perto de Deus de verdade. À saída do templo assustei-me: vi você de novo. E como uma caixa de tarol à frente duma fanfarra, meu coração rufou acelerado. Pensei que ia morrer. Mas se fosse, teria sido muito bom ter morrido daquele jeito, feliz, te vendo! De novo você, sem perceber nada que comigo acontecia, se misturou ao povo que respeitosamente deixava a igreja. Desapareceu como bruma ventilada...

Parei na escadaria da catedral, olhei para os lados para te achar, e por fim conclui: sumira mesmo dos meus olhos, que pena! Resolvi ir pra casa. Misturei-me também à pequena multidão. E quando parei na calçada para olhar os carros e atravessar a rua, novamente outro luminoso susto me invadiu; você estava ali, pertinho de mim, até ao alcance de minhas mãos, desenrolando o papel duma bala de cereja.

Como se conhecidos fôssemos de muito tempo, meus olhos cruzaram-se com os seus. Você me sorriu. Depois é que percebi que eu, ao impulso do coração rufando, houvera lhe sorrido primeiro. Você apenas me respondera. Ou correspondera? Atacou-me essa dúvida insana. Fingi esperar um pouco, e assim que você atravessou a rua, discreta e rapidamente abaixei-me e peguei o papelzinho de bala, da sua bala. O vento repentino dum carro que passava o soprou para mais longe de mim, mas apressei-me e pude recolhê-lo sem você ver. Enrolei-o em borboleta, com carinho. Por algum tempo fiquei olhando pr’aquilo. Depois, levantei os olhos. Não mais lhe vi. Então guardei comigo o meu troféuzinho do coração.

Os ventos da vida fizeram seus itinerários sobre mim, até que num sábado de manhã, enquanto eu comprava uma revista na banca, sem que eu visse você chegou bem perto de mim e disse bom dia! Pensei que fosse alguém cumprimentando o dono da banca, e continuei olhando as capas expostas, distraidamente. Mas aí, mais perto de mim, você me desmontou ao repetir: 

– Bom dia! Como vai? 

E antes que a resposta presa na minha garganta saísse você quase me matou do coração:

– Ainda está guardado?

– O quê?

– O papelzinho de bala?!

Sem palavras, naquel’instante meus olhos correram-lhe o corpo de cima a baixo. Sorri sem graça, disfarcei um olhar sobre as revistas e jornais expostos e, perdoe-me aquele meu atrevimento, mas eu não pude me conter quando meus braços, como um autômato, levantaram-me as mãos e foram encontrar-se com as suas que estavam tão quentinhas. Foi mais que um aperto de mãos aquele cumprimento: eu te abracei sem você saber...

Um fiozinho de raio de sol bateu em meus olhos. À estranha sensação, acordei. Olhei para o teto, reviajei comigo:

– Que coisa? Sonho? Que sonho lindo eu tive? Dá um conto, ou mais... Puxa!...

Então sentei-me na beira da cama, pisei o macio do tapete de algodão trançado, esfreguei o rosto com as mãos, enchi os pulmões com o ar novo do dia, espreguicei-me, e só então foi que vi sobre o criado-mudo:

- ...um papelzinho de bala? Borboleteado? Então não foi um sonho?...

.. e senti quando todas aquelas maravilhas se recolheram pro mais fundo do meu coração, na sua morada perpétua.

Fonte:
http://zerobertoballestra.blogspot.com/2016/11/papelzinhode-bala-12.html

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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