sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Contos e Lendas Indígenas (Tribo Kadiwéu*) Alagadiélali

Quando Deus fez a criação dele aqui na terra, de certo que tinha muito poder. Por isso, os índios têm tantas histórias do que ocorreu naquele tempo.

Conta-se que, naquele tempo, havia um animal dentro de uma lagoa, chamado alagadiélali. Fez o Criador uma coberta de palha de acuri, para sondar aquele animal que devorava outros animais existentes na região e que eram suas criações.

Ficou sondando a lagoa e viu um veado se aproximar para beber água e ele sumiu, devorado que fora pelo monstro.

Pensou o Criador em matá-lo e se pôs a dialogar com o martim-pescador:

– Martim, empreste-me seu capote!

– Senhor, se eu o emprestar, morro de frio.

Mesmo assim aceitou o empréstimo e desvestiu-se.

Então, o Criador se fantasiou de pássaro e foi matar o alagadiélali dentro d’água.

O monstro foi puxado para terra e cortado em pedaços, pois estava gordo. O Criador distribuía o sebo desse monstro aos outros animais, razão do porco ter a natureza de gordo, porque dele comeu bastante.

Depois, o Criador tocou uma buzina e os outros animais começaram a chegar, para receber as fatias de gordura do alagadiélali. O primeiro a aparecer, como se percebe, foi o porco. Depois apareceu o boi que também engoliu o sebo, do mesmo que o cavalo e a capivara.

O veado e a ema comeram pouco sebo e, por isso, se tornaram magros, pois chegaram atrasados ao chamado, longe que estavam.

Além do mais, a ema resolveu descansar em cima de um formigueiro, antes de chegar ao Criador. Dormiu e teve suas asas roídas pelos insetos, o que conserva até hoje.

O cágado, quando está gordo, tem apenas o fígado gorduroso, pois, vagaroso que é, chegou por último. Achou ele apenas uma brasa engordurada e engoliu. Assim, se explica não ter ele carne alguma.
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Os Kadiwéu, conhecidos como "índios cavaleiros", por sua destreza na montaria, guardam em sua mitologia, na arte e em seus rituais o modo de ser de uma sociedade hierarquizada entre senhores e cativos. Guerreiros, lutaram pelo Brasil na Guerra do Paraguai, razão pela qual, como contam, tiveram suas terras reconhecidas. Integrantes da única "horda" sobrevivente dos Mbayá, um ramo dos Guaikurú.

Fontes:
FERNANDES, José; BATISTA, Orlando Antunes. Lendas terena e kadiwéu. Disponível em http://www.jangadabrasil.com.br/julho35-im35070b-htm/index.htm
Povos Indígenas do Brasil.
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kadiw%C3%A9u
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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 71 *


Trova de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

A espreguiçadeira fala 
para a rede: - Que injustiça! 
- Ninguém mais em ti se embala, 
e em mim, ninguém se espreguiça! 
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Soneto de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Entardecer 

A paz do entardecer...Fascinação... 
Com mil beijos de cor sobre o universo!
Eu sinto, bem no fundo, o coração 
querer cantar essa beleza em verso. 

Fazendo, dessa paz, sublimação, 
inundando-se no belo, submerso, 
vivendo, assim, total transmutação, 
esquecendo que o mundo é tão perverso. 

Vai sonhando mil sonhos coloridos, 
cantando mil canções, só de alegria, 
e esquece a solidão dos tempos idos. 

Realizando assim sua utopia, 
de posse, então, de sétimos sentidos, 
contempla o pôr-do-sol em poesia! 
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Trova de
ALCY RIBEIRO SOUTO MAIOR
Rio de Janeiro/RJ (1920 – 2006)

Janela fechando e abrindo,
batendo a todo momento,
parece estar aplaudindo
a dança infernal do vento!
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Poema de
ARNALDO SANTOS  
Luanda/ Angola

A Vigília do Pescador

Na praia o vulto do pescador
É mais denso que a noite...

E enquanto espera
A sua ânsia solidifica em concha
E sonoriza os ventos livres do mar.

E enquanto espera
A sua ânsia descobre
os passos da maré na praia
e o sono do borco das canoas.

É manhã
e o pescador
ainda espera

e enquanto o mar
Não lhe devolve o seu corpo de sonhos
Num lençol branco de escamas

Um torpor de baixa-mar                   
Denuncia algas nos seus ombros.
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Trova de
EDGAR BARCELOS CERQUEIRA 
Rio de Janeiro/RJ, 1913 - ????

De verde, toda vestida,
de esperança, tu povoas
o vácuo de minha vida
somente de coisas boas.
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Soneto de
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980

Poética II

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!
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Trova de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Cascata, teu pranto triste,
parece que não tem fim!...
Comparo ao pranto que existe
doendo dentro de mim!
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Poema de
MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Cantiga

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela d’alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
= = = = = = 

Trova de 
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Belo Horizonte/MG

Envolta em brilhos e cores,
a natureza se esmera
para, em delírio de flores,
eclodir na primavera.
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Poema de 
ROLF JACOBSEN
Kristiania (atual Oslo)/Noruega, 1907 - 1994

Quando Dormem

Todas as pessoas são crianças quando dormem.
Nenhuma guerra as assola então.
Abrem as mãos e respiram
naquele ritmo sossegado que o paraíso lhes concedeu.
 
Vincam os lábios como pequenas crianças
e abrem ligeiramente as mãos,
soldados e estadistas, senhores e escravos.
As estrelas ficam de guarda
e uma neblina cobre o céu,
breves horas em que ninguém fará mal a ninguém.

Se ao menos pudéssemos falar uns com os outros então,
quando os nossos corações são flores semiabertas.
As palavras seriam espalhadas
pelo vento como pólen.
- Deus, ensina-me a linguagem do sono.
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Trova de
ZAÉ JÚNIOR
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

O sol fura a telha vã
e em dança que me seduz,
faz no chão, toda manhã,
um baile de sombra e luz!
= = = = = = 

Hino de
PAULO FRONTIN/PR

Uma serra chamada Esperança
Fez da mata uma oferta de paz
E acolheu este povo de longe
Que chegou sem olhar para trás
Com o tronco viçoso do pinho
Altaneiro sobre os cereais
Foi subindo uma prece a Sant'Ana
Pela força de um braço capaz.

Estribilho:
Lá no alto a bandeira se inflama
Alcançando o horizonte sem fim
De um herói exaltando a fama
É a cidade de Paulo Frontin.

O Iguaçu que divide fronteiras
Também une num mesmo ideal
As visões de um engenheiro valente
Com a fonte que verte cristal
O perfil ondulante borbulha
A riqueza latente no chão
Garantindo progresso e fartura
Ao que saiba dar seu coração.
= = = = = = 

Trova de
RITA MOURÃO 
Ribeirão Preto/SP

Num cenário à luz de vela,
papai repassando a lida
deixou-me a lição mais bela
encenando a própria vida.
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Poema de
KHALIL GIBRAN
Bsharri/ Líbano 1883 – 1931

Divina Música!

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
e do Amor.
Sonho do coração humano,
fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
e a ouvir com os corações.
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Trova de
SONIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016

Entre todos os recantos
é aqui que me sinto bem:
- o meu lar tem tais encantos
que outros lugares não têm!
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Um crítico cítrico

É, sem tirar nem pôr, um grande jornalista.
Quando erra ou quer errar, erra com matemática.
Faz uma escaramuça e o jogo salta à vista
Mas não há quem resista à formidável tática.

Torce algebricamente a verdade e conquista
O aplauso até de quem tenha traquejo e prática.
Sei-o mesmo por mim que, apesar de trocista,
Nunca deixo de o ler (restrições à gramática).

Mas, em arte, Jesus! Nem se aproveita a cinza.
Como crítico é igual aos outros. Deixa o suco
E, fibra a fibra, toda a bagaceira espinza.

Todo o crítico é assim, mais ou menos, caduco.
Sendo em arte incapaz, na obra alheia é ranzinza.
— O crítico, em geral, é uma espécie de eunuco.
= = = = = = 

Trova de
DELCY CANALLES
Porto Alegre/RS

Esperança, este meu ego,
está sempre a te esperar!
Volta depressa, pois cego,
não sei se vai te encontrar!
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Poema de
FLÁVIO SILVEIRA STEFAN
São Sebastião do Paraíso/MG

Outono

Passa-se o tempo, passa-se a aurora
O Sol se põe devagar indo embora.
Os ventos sopram como outrora.

Alguns clamam:
será que é agora?!
Outros pelejam:
será que é a hora?

É tempo de recolhimento
de cultivar verdadeiros sentimentos.
Recolhe-te e trabalha-te por dentro!
= = = = = = 

Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

Amar… verbo transitivo
que em qualquer conjugação
traz um novo lenitivo
para o nosso coração!
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Soneto de
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA 
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

Meu corpo

Quase um século de vida aqui na terra
Tem o corpo que altivo me sustenta,
E a gene de ancestrais nele descerra
Em várias circunstâncias que ele enfrenta.

Exausto, algumas  vezes se declina,
Mas retorna para a luta cotidiana,
Porque aquilo que eu sou, lhe determina
Cumprir o que, do Alto então se emana.

E relembrando o tempo já vivido
Esse corpo se sente agradecido
Pela alma que dirige os passos seus.

Porque entende que o corpo necessita
De uma alma que o dirija e que reflita
Nos respeitos que devemos para Deus.
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Trova de
JOSÉ MOREIRA MONTEIRO
Nova Friburgo/RJ

Perguntaram-me: tens caspas 
no teu couro cabeludo?
Eu respondi: não... e entre aspas
– Os piolhos comem tudo!
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Poema de 
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Definindo saudade

Saudade, ternura ausente,
que sempre se faz presente
quando nos quer ver sofrer...
Saudade, ternura ingrata
mesmo amando, nos maltrata
Sem nos deixar entender.
= = = = = =

Trova de
LISETE JOHNSON
Butiá/RS, 1950 – 2020, Porto Alegre/RS

Num arco-íris de cores,
fui descendo de mansinho
sem, se quer, pisar nas flores
que plantaste em meu caminho.
= = = = = =

Poema de
LUCIANA SOARES CHAGAS
Rio de Janeiro/RJ

A mulher da moldura

Ela via a moldura como escudo
Escudo como janela
Janela de uma prisão
Prisão com um carcereiro
Que a impedia de se aventurar
Semblante pérfido a lhe vigiar.

Ela sonha em caminhar por uma alameda
Vestida com seda.
A moldura se revela um retrato
Olha o opressor e trama sua fuga de fato
É o fim deste cárcere, afinal
Ele dormirá, ela menciona em tom triunfal.

Atravessa a moldura...
Coração pulsante, olhos atentos
Avista o destino a um passo da porta
Um instante que acolhe e conforta
E a alma que antes sofria,
Dança com liberdade e alegria.
= = = = = =

Trova de
OLYMPIO DA CRUZ SIMÕES COUTINHO
Belo Horizonte/MG

Estrela que me seduz
és a imagem da esperança:
- brilhante, mas não traz luz;
tão linda, mas não se alcança.
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Poema de 
JAQUELINE MACHADO
Cachoeira do Sul/RS

Extravagância e elegância

Gosto de extravagância
porque ela rima com fragrância.
Almas perfumadas me interessam...

Gosto de certos exageros!
De sorrisos largos,
pensamentos loucos
e abraços demorados.

Mas acredito que, extravagância
e elegância precisam andar juntas.
Uma tem a energia do “dar”,
e a outra, do “receber”.

A pessoa elegante sabe se vestir
e se portar com as vestes da educação,
da reciprocidade e da
empatia pelo que o outro sente...

Elegância é amor, razão,
estudo, acerto, proteção.
Extravagância é sentimento, paixão,
audácia e liberdade plena.

Gosto de pessoas que possuem
em suas entranhas, essa mistura
de loucura com docilidade.
Elas sempre conquistam o meu coração...
= = = = = =

Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

Desconfio das vitórias
que neste mundo colhi.
- Se as coisas são ilusórias,
quem garante que eu venci?
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Mensagem na Garrafa 143 (Tito Olívio Henriques) O Verão de Antigamente

TITO OLÍVIO HENRIQUES
(Vila Cova do Covelo/Portugal, 1931 – 2024, Faro/Portugal)

O verão de antigamente

Nos anos 30 e 40 do século passado, que incluíam os seis anos da Segunda Guerra Mundial, já havia uma grande afluência às praias, mas ao domingo, que era o único dia de descanso semanal. No campo ainda se trabalhava de sol a sol e só tinham férias de um mês os funcionários públicos. Na atividade privada, os patrões davam quinze dias de férias por ano e apenas aos empregados mais antigos.

Como a quase totalidade das pessoas tinha de utilizar os transportes públicos, somente podia frequentar as praias servidas por eles. Quem vivia em Lisboa tinha ao seu dispor o elétrico, o comboio de Cascais e os barcos do Tejo. O primeiro chegava até o Dafundo, permitindo que se aproveitasse a praia de Algés ou a da Cruz Quebrada; o segundo tinha início no Cais do Sodré e servia toda a chamada linha, permitindo usar as praias de Caxias, Paço de Arcos, Parede, Estoril e Cascais; os terceiros partiam de Belém e dirigiam-se para a Trafaria, de onde havia autocarros (chamavam-se camionetas) para a Costa da Caparica. O transporte mais barato era o elétrico, mas, mesmo assim, andava-se muito a pé, para poupar uns centavos. O custo dos bilhetes estava dividido em três escalões, conforme a distância, sendo de cinquenta (verde), oitenta centavos (amarelo) e um escudo (vermelho). Aos dias de semana e antes das oito horas da manhã, este último tinha um desconto para setenta e cinco centavos e chamava-se bilhete operário.

Os pobres atravessavam a cidade de Lisboa, a pé, descendo para a rua marginal, onde apanhavam o elétrico que partia de Xabregas e seguia até à Cruz Quebrada, passando pelo Terreiro do Paço, Cais do Sodré, Alcântara, Belém e Algés, cujo bilhete custava um escudo, estando isentas as crianças até os quatro anos.

Na praia, os banheiros instalavam barracas e toldos, mas os mais pobres sentavam-se na sombra formada nas traseiras das barracas, onde não tinham de pagar. Os banhos eram de manhã e à tarde e o almoço não era menos importante. Comia-se de prato e garfo e ninguém dispensava o garrafão de vinho. Para isso, as mulheres levavam, em alcofas de palha ou em cestos de verga, a comida feita, a louça e talheres necessários. Estas refeições também não dispensavam o guardanapo de pano e a fruta. Por essa altura, estavam na moda os piqueniques, que, fora do Verão, eram feitos nos campos de cultivo e nas hortas dos arredores da capital, porque ainda não estavam ligados a Lisboa o Lumiar, Odivelas, Sacavém e Olivais.

As férias escolares eram de três meses, de Julho a Setembro. A burguesia alugava casas de pescadores nas praias do litoral oceânico, entre Sintra e Mafra, onde, os homens deixavam a família e as criadas, ficando em Lisboa a trabalhar, apenas podendo aproveitar aquela mudança de ares nos domingos e nas suas pequenas férias. As pessoas do povo, porém, não podendo dar-se a esse luxo, iam ao domingo à praia, de transporte público. Os oriundos de fora da capital aproveitavam as férias do chefe da família para irem para a terra, exibindo, na pobreza das aldeias provincianas, uma falsa riqueza de quem vivia em Lisboa, traduzida em roupas novas e em dinheiro para gastar nas vendas.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
TITO OLÍVIO HENRIQUES mudou-se para Lisboa ainda durante a infância, tendo feito os seus estudos naquela cidade. Em 1958, licenciou-se em engenharia civil, e em 1981 concluiu a licenciatura em Sociologia. Viveu na cidade de Faro desde 1963. Trabalhou como técnico superior da Direção-Geral dos Recursos Naturais, e dirigiu os Serviços Regionais de Hidráulica do Guadiana, em Faro. Membro da Ordem dos Engenheiros. Professor de ensino técnico em Silves e de Faro, e ensino no Liceu de Faro. Destacou-se pelo apoio que deu às associações de Faro, tendo dirigido o Cineclube de Faro, o Sporting Clube Farense, a Comissão Distrital de Árbitros de Faro, a Comissão Administrativa do Sport Faro e Benfica, a Associação de Xadrez de Faro, a Delegação de Faro da Cruz Vermelha Portuguesa, a Santa Casa da Misericórdia de Faro e a Direção dos Bombeiros Voluntários de Faro, membro da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Foi responsável pela organização de conferências e de vários eventos culturais. Fundador e editor do jornal Poetas de Faro, e subdiretor do Jornal Escrito. Publicou vários textos em prosa e versa em jornais e revistas regionais, além de antologias. Lançou cerca de sessenta livros, incluindo poesia, prova, ensaio e crónicas. Participou em várias edições dos Jogos Florais, tanto em Portugal como no Brasil. Recebeu mais de cem prêmios literários, tanto em Portugal como no Brasil. Em 1973 recebeu a medalha de louvor da Cruz Vermelha Portuguesa, em 2011 foi condecorado com a Medalha de Mérito, Grau Ouro da Câmara Municipal de Faro 

Fontes> Carlos Leite Ribeiro e Iara Melo (eds.). Recanto da Prosa e do Verso. Ano II - Agosto - 2009. http://www.caestamosnos.org/Recanto_Prosa_e_Verso/Agosto_2009.html 
Biografia = https://pt.wikipedia.org/wiki/Tito_Olívio
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Nei Garcez (A Música no tempo)


Deus criando a terra – Alteza -
fê-la, em música, ao cantá-la
entre os sons da natureza,
para os homens imitá-la!

Desde Arezzo à Renascença,
desde a Grécia até Jesus,
sempre a música é presença
dos espíritos de luz.

E por não ter contratempo
entre as línguas das nações,
eis que a música no tempo
une todas gerações.

Com as letras da magia,
que nos dá, o compositor,
a música é a poesia
vestida em traje a rigor!

Musicando, entre outros nomes,
feliz o país que tem 
Villa-Lobos, Carlos Gomes,
compondo, ao mundo também!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Nei Garcez, poeta e trovador, nasceu em 1944, em Curitiba/PR. Formado em Direito, trabalhou como consultor em assuntos relacionados à legislação farmacêutica; depois, por concurso público, foi perito oficial da Secretaria de Segurança Pública do Paraná. Para um projeto para alunos do Ensino Fundamental, produziu trovas pedagógicas: "A Trova em Sala de Aula". Autor do Hino da Polícia Científica do Paraná, foi premiado em vários concursos de trovas no Brasil.
Fontes:
Enviado pelo autor.
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Renato Frata (Raízes, segredos...)

Vez ou outra dona Quitéria, parteira e benzedeira, parava no portão para conversar com minha mãe, e entrava para um café com bolinhos. A prosa seguia na troca de amenidade e receitas. Eu não ficava bisbilhotando, mas a chuva fina da tarde me carregou para dentro, de modo que mesmo elas falando baixo na cozinha, e estando eu na sala com meus brinquedos, fiapos de conversa vazavam chamando-me à atenção, e o assunto girava sobre ervas de benzimentos como arruda, guiné, jurema, comigo-ninguém-pode, espadas de São Jorge, eucalipto, pimenta, mamona, fumo de corda, casca-cebola, manjericão, sálvia, alecrim, manjerona, hortelã, calêndula, pitanga, camomila, alfavaca, anis estrelado, boldo, canela pau, louro, entre outras utilizadas raspadas, quentes, frias, em forma de chás ou banhos equilibradores, os de busca da energização do corpo, alinhamento de órgãos, defesa contra energias ruins e até contra quebranto e fuxicos de vizinha.

A conversa fluiu em meio a causos de espinhela caída, bucho encarangado,  frieiras brabas, pescoço duro, bebedeiras e até de marido fujão que saía para comprar cigarro e se perdia pelo mundo. Ou se achava... encontrando outras e outras pessoas mais interessantes do que a havia deixado.

Minha mãe ouvia calada, estatelava os olhos diante da força que Dona Quitéria demonstrava possuir, na sua maneira de contar, nos gestos finos e nobres de parteira com a decisão de curandeira. Para ela, os médicos estudavam só para se enricarem, mas não curavam bulhufas. Não fossem as suas ervas espalhadas pela comunidade, elaboradas com amor e carinho e ministradas na dosagem correta, metade daquele povo já teria morrido... a depender dessas drogas que mal aplicavam injeção.

De repente minha mãe mexeu na cadeira arrastando-a para perto e cochichou. Vi pela fresta e esse cochichar me aguçou a curiosidade fazendo-me aproximar e aquietar, preso em casa quando poderia estar no barro a fazer estripulias. Mas ali, naquela hora, olhar pela fresta e aguçar ouvidos às conversas das duas foi o programa escolhido... claro, sem ser chamado a elas. Minha mãe falava, parava e olhava pelos cantos desconfiada. Até que a visitante disse; - Liga não, mulher! Tò cansada de ouvir isso... os homens se cansam mais cedo...mas não se arrelie... eu tenho solução para esse caso, e não vai lhe custar nada...

- Nada, nada? 

Ela balançou a cabeça, enfiou a mão na sacola e retirou dali um pedaço de pau, dizendo: - Ele bebe suco?

- Não, só água. Bebe cerveja, pinga... no boteco. Aqui, só água.

- Pois a senhora vai ralar essa madeira mole até encher uma colher, depois vai ferver bem, mas bem mesmo, e vai coar e deixar esfriar no tempo. Tem que ser no tempo, viu? Depois de fria, pode guardar. Quando ele pedir água, dê essa a ele e deixe que beba tudo. Depois, espere. Espere c'oas coisas preparadas - e riu colocando os dedos sobre os lábios... para afogar a vergonha... E espere. Preparada, viu? Seu homem vai virar um touro... Desses valentes, que fungam a mais ouvir. E atacam mesmo...

- Virgem mãe! - respondeu ela assustada, ao tempo que, ligeiro, enfiava o pedaço de pau no bolso do avental, a bem guardá-lo, passando a se abanar com as próprias mãos. 

Não a vi sorrir, mas sua face mudou. Seus olhos ganharam cor de esperança, seu semblante se rejuvenesceu perdendo as rugas e sua respiração se afogueou como se pimenta tivesse sido espremida... com a sensação de se dar bem a lhe cutucar o coração. 

Lembro que meu pai, depois dessa chuva ficou caseiro, chegava mais cedo em casa e ia também dormir mais cedo e, com gestos meigos, passarinhando passos, a chamava: - Vem descansar... vem... você trabalhou muito hoje... - ao que ela de sorriso estampado, tomava com força o cabo da caneca, enchia-a da água mantida no guarda-comida e o seguia...

Seus chinelos de pano deslizavam rápidos e arteiros pelo assoalho como se desconfiassem que alguma coisa incomum iria acontecer...

- Dona Quitéria sabia mesmo das coisas...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
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Sílvio Romero (O homem pequeno)


(Folclore do Sergipe)

UMA VEZ UM PRÍNCIPE saiu a caçar com outros companheiros, e enterraram-se numa mata. O príncipe, que se chamava D. João, adiantou-se muito dos companheiros e se perdeu. Depois de muito andar, avistou um muro muito alto, que parecia uma montanha, e para lá se dirigiu. Quando lá chegou percebeu que estava numa terra estranha, pertencente a uma família de gigantes. O dono da casa era um gigante enorme, que quase dava com a cabeça nas nuvens; tinha mulher também gigante, e uma filha gigante de nome Guimara.

Quando o dono da casa viu D. João, gritou logo: “Oh, homem pequeno, o que anda fazendo?” 

O príncipe contou-lhe a sua história, e então o gigante disse: “Pois bem; fique aqui como um criado.” 

O príncipe lá ficou, e, passados uns tempos, Guimara se apaixonou por ele. 

O gigante, que desconfiou da coisa, chamou um dia o príncipe, e lhe disse: “Oh, homem pequeno! Tu disseste que te atrevias a derrubar numa só noite o muro das minhas terras e a levantar um palácio?” 

“Não, senhor meu amo; mas, como vossemecê manda, eu obedeço.” 

O moço saiu por ali vexado de sua vida, e foi ter ocultamente com Guimara, que lhe disse: “Não é nada; eu vou e faço tudo.” 

Assim foi: Guimara, que era encantada, deitou abaixo o muro, e levantou um palácio que dar-se podia. 

No outro dia o gigante foi ver bem cedo a obra e ficou admirado. “Oh, homem pequeno?” 

— “Inhô!” 

— “Foste tu que fizeste esta obra ou foi Guimara?” 

— “Senhor, fui eu, não foi Guimara; se meus olhos viram Guimara, e Guimara viu a mim, mau fim tenha eu a Guimara, e Guimara mau fim tenha a mim.” 

Passou-se. Depois de alguns dias, o gigante, que andava com vontade de matar o homem pequeno, lhe levantou outro aleive: “Oh, homem pequeno! Tu disseste que te atrevias a fazer da ilha dos bichos bravos um jardim cheio de flores de todas as qualidades, e com um cano a deitar, a despejar água, tudo numa noite?” 

— “Senhor, eu não disse isto, mas como vossemecê ordena eu irei fazer.” 

Saiu dali mais morto do que vivo, e foi ter com Guimara, que lhe disse: “Não tem nada; eu hoje hei de fazer tudo de noite.” 

Assim foi. De noite ela fugiu de seu quarto, e, com o homem pequeno, trabalhou toda a noite, de maneira que no outro dia lá estava o jardim cheio de flores, e com um cano a jorrar água; era uma obra que dar-se podia. 

O gigante, dono da casa, foi ver a obra e ficou muito espantado, e então, formou o plano de ir à noite ao quarto de Guimara e ao do homem pequeno para os matar. 

A moça, que era adivinha, comunicou isto a D. João, e convidou-o para fugir, deixando nas camas em seu lugar duas bananeiras cobertas com os lençóis para enganar ao pai.

Alta noite fugiram montados no melhor cavalo da estrebaria, o qual caminhava cem léguas de cada passada. 

O pai quando os foi matar os não encontrou, e disse o caso à mulher, que lhe aconselhou que partisse atrás montado no outro cavalo que caminhava cem léguas de cada passada, e seguisse a toda a brida. 

O gigante partiu, e, quando ia chegando perto dos fugitivos, Guimara virou um riacho e D. João um negro velho, o cavalo num pé de árvore, a sela numa leira de cebolas, e a espingarda, que levavam, num beija-flor. 

O gigante, quando chegou ao riacho, se dirigiu ao negro velho, que estava tomando banho: “Oh, meu negro velho! Você viu passar aqui um moço com uma moça?” 

O negro não prestava atenção, mergulhava n’água, e quando levantava a cabeça, dizia: “Plantei estas cebolas, não sei se me darão boas!. . . ” 

Assim muitas vezes, até que o gigante se maçou e se dirigiu ao beija-flor, que voou-lhe em cima, querendo furar-lhe os olhos. 

O gigante desesperou e voltou para casa. Chegando lá contou a história à velha sua mulher, que lhe disse: “Como você é tolo, marido! O riacho é Guimara, o negro velho o homem pequeno, a leira de cebola a sela, o pé de árvore o cavalo, e o beija-flor a espingarda. Corra para trás e vá pegá-los.”

O gigante tornou a partir como um danado até chegar perto deles, que se haviam desencantado e seguido a toda a pressa. 

Quando eles avistaram o gigante, a moça se transformou numa igreja, D. João num padre, a sela num altar, a espingarda no missal, e o cavalo num sino. 

O gigante entrou pela igreja adentro, dizendo: “Oh seu padre, o senhor viu passar por aqui um moço com uma moça?” 

O padre, que fingia estar dizendo missa, respondeu:

“Sou um padre ermitão, Devoto da Conceição, Não ouço o que me diz, não. Dominus vobiscum.”

Assim muitas vezes, até que o gigante se aborrece e volta para trás desesperado. Chegando em casa contou a história à mulher, que lhe disse: “Oh, marido! Você é muito tolo! Corra já, volte, que a igreja é Guimara, o padre é o homem pequeno, o missal a espingarda, o altar a sela, o sino o cavalo.” 

Eles lá se desencantaram e seguiram a toda a pressa, mas o gigante de cá partiu feroz; ia botando serras abaixo, e, quando estava de novo quase a pegá-los, Guimara largou no ar um punhado de cinza e gerou-se no mundo uma neblina tal que o gigante não pôde seguir e voltou. 

Depois disto os fugitivos chegaram ao reino de D. João. Guimara, então, lhe pediu que, quando entrasse em casa, para não se esquecer dela por uma vez, não beijasse a mão de sua tia. 

O príncipe prometeu, mas quando entrou em palácio a primeira pessoa que lhe apareceu foi sua tia, a quem ele beijou a mão, e se esqueceu, por uma vez, de Guimara, que o tinha salvado da morte. 

A moça lá perdeu na terra estranha o encanto, e ficou pequena como as outras, mas sempre triste.
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883.
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