sábado, 16 de agosto de 2025

X Prêmio Literário Gonzaga de Carvalho (Premiados)


Concurso realizado pela Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG, para os Acadêmicos Correspondentes.

CATEGORIA: CRÔNICA

1º lugar: 
Adevaldo Rodrigues de Souza (Belo Horizonte/MG)
“O Som do Silêncio”

2º lugar: 
José Feldman (Floresta/PR)
“A Nostalgia dos Velhos Tempos”

3º lugar: 
Celso Gonzaga Porto (Cachoeirinha/RS) 
“Apenas uma viagem”

4º lugar: 
Coracy Bessa (Salvador/BA)
“Cuida-me, como te cuidei” 

MENÇÕES HONROSAS:

Marina Barreiros Mota (Nova Viçosa/BA)
“Quireras”

Cristhiane Ferreguett (Teixeira de Freitas/BA)
“O Sertão, o mar e a favela”

João Mwanza (Luanda/Angola)
“Luta Armada” 

Irene Rocha (Cruzeiro/SP)
“Gonzaga!”

Paulo Roberto Oliveira Caruso (Niterói/RJ)
“Sem crédito”

Maria Marlete de Souza (Belo Horizonte/MG)
“Sonhos”

Erivan Santana (Teixeira de Freitas/BA)
“Pôr do Sol na Barra” 

Cosme Custódio da Silva (Salvador/BA)
“Destino” 

Jilberto Rodrigues de Oliveira (Malhador/SE)
“Mordida não vale!” 

Wilton Soares dos Santos (Palmópolis/MG)
“Tropeirismo em tempos de “modernidade Líquida” 

Helena Selma Colen (Ladainha/MG)
“Convidado constrangido”
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CATEGORIA: CONTO

1º lugar: 
Celso Gonzaga Porto (Cachoeirinha/RS)
“Uma exposição para reflexão”

2º lugar: 
Marina Barreiros Mota (Nova Viçosa/BA)
“O dia do juízo”

3º lugar: 
Julizar Dantas (Nova Módica/MG)
“Chifres Clássicos”

4º lugar: 
Lu Dias Carvalho (Belo Horizonte/MG)
“A corrida dos sapos”

MENÇÕES HONROSAS:

Cosme Custódio da Silva (Salvador/BA)
“O boato”

Adevaldo Rodrigues de Souza (Belo Horizonte/MG)
“Macondo ou Rajado”

Décio de Moura Mallmith (Porto Alegre/RS)
“A Aranha Verde”

Juracy Nonato Ferreira (Santa Helena de Minas/MG)
“Repórter”

Sérgio Soares (Simão Pereira/MG)
“Erato”

Rogério Ferreira de Araújo (São Gonçalo/RJ)
“As Flores da Solidariedade”

Lucivalter Almeida dos Santos (Nazaré/BA)
“O afilhado, a comadre e o padrinho”
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CATEGORIA: POESIA

1º lugar: 
Almir Zarfeg (Teixeira de Freitas/BA)
“Saudações a Camões, 

2º lugar: 
Jerônimo Luiz Gonçalves (Goiânia/GO)
“Rio Paraná”

3º lugar: 
Henrique Lucas (Careiro/AM)
“Global”

4º lugar: 
Cosme Custódio da Silva (Salvador/BA)
“Falares, saberes” 

MENÇÕES HONROSAS:

Paulo Roberto de Oliveira Caruso (Niterói/RJ) 
“No trigo dourado a promessa do pão”

Maria Eugênia Porto Ribeiro da Silva (Belo Horizonte/MG)
“Calabouço” 

Oldair Ferreira Motta (Belo Horizonte/MG)
“Nossa Querida Filadélfia” 

Cláudio Almeida (São Paulo/SP) 
“Vida expressa” 

Pietro Lemos Costa (Brasília/DF)
“O Fio tênue da Razão” 

Patrícia Cerqueira (Teixeira de Freiras/ BA)
“Urgências”

Jéssica Milato da Costa (Araras/SP)
“Soneto dos Amores”

Lu Dias Carvalho (Belo Horizonte/MG) 
“Não mais metades” 

Marina Barreiros Mota (Nova Viçosa/BA)
“A poesia é animal?” 

Arolda Maria Figuerêdo (Teixeira de Freitas/BA) 
“Haicai das Flores”

Celso Henrique Fermino (São José do Rio Preto/SP)
“Fissura”

Dilercy Adler (São Luis/MA)
“Leite Derramado” 

Cristiane Oliveira de Souza (Belo Horizonte/MG)
“Esperançar” 

Araken dos Santos (Magé/RJ)
“Arma Feminina...”

Lucivalter Almeida dos Santos (Nazaré/BA)
“Nem tudo são flores”, 

Francisco Martins Silva (Uruçuai/PI)
“O canarinho”

Marli Firmina de Freitas (Dom Cavati/MG)
“Do perpétuo cais”

Maria Aparecida Pereira de Souza (Presidente Prudente/SP) 
“Vida” 

Julizar Dantas (Nova Módica/MG)
“Resgate”

Celso Gonzaga Porto (Cachoeirinha/RS)
“Ser Gaúcho”

Rosangela Calza (Florianópolis/SC)
“Insano viver”

Fonte:
Enviado pela ALTO (Academia de Letras de Teófilo Otoni). 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 72 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ah, como é útil a avó, 
com seus cuidados e afetos! 
Já o avô, serve tão-só 
pra ensinar besteira aos netos... 
= = = = = =

Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

O corpo cansado

As forças fogem aos poucos e o corpo cansado,
De tantas grandes lutas há muito vencidas,
E o entardecer da vida o dia caminhado
Com a alma ainda forte em busca de guaridas.

A indagação a Deus e o pedido de tempo
Para encaminhar tudo aquilo que sonhou,
O corpo dolorido  pedindo o alimento
Prometendo os cuidados aos quais já deixou.

O embate ao qual o físico já superou
Pedindo ainda tempo ao querer ver crescer
Os filhos que a seus filhos o amor consagrou.

Já quase amanhecendo o remédio atuou
O corpo já sem força ao fim do entardecer
devolve a esperanças a quem acreditou.
= = = = = = 

Trova de 
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Belo Horizonte/MG

Meu diário! Em tuas folhas
morrem desejos sem fim...
Pago o preço das escolhas
que outros fizeram por mim.
= = = = = = 

Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Não chores meu amor

Não chores, meu amor, pois tudo passa;
abalos fazem parte do viver...
A vida sem os sustos perde a graça
e o júbilo do riso renascer!

Transtorno, tal e qual a carapaça,
é criação visando proteger
a todos nós, se, quando, uma desgraça
quer liquidar com nosso bel-prazer.

Mas o desgosto ainda tem um jeito
de não deixar o nosso pobre peito
sofrer demais, até à eternidade.

Passado o sobressalto, que alegria!
Pois ela volta e, muitas vezes, cria
na gente até maior felicidade!
= = = = = = 

Trova de
ZAÉ JÚNIOR
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Do que te fiz, fiz um laço,
que a minha consciência veste;
só não sei mais o que faço
com tudo o que me fizeste!
= = = = = = 

Hino de
APARECIDA DO TABOADO/ MS

Ao encontrar de dois grandes rios
Surgiu além uma linda flor
Aparecida cidade encantada
Berço querido de paz e amor
Em teus campos existe perfume
Em teus lares paz e amor
O pensamento de teus queridos filhos
O lema é trabalho e união

Ai! Ai! Ai! Aparecida do Taboado
Ai! Ai! Ai! Aparecida do Taboado

Foi um humilde carpinteiro
Que te legou à Senhora Aparecida
Cantada em rincão abençoado
És hoje a princesinha mais querida
Ordem, trabalho e progresso
Simbolizam a fé de quem te ama
De uma alvorada levantada
Ao alto pedestal de tua fama

Ai! Ai! Ai! Aparecida do Taboado
Ai! Ai! Ai! Aparecida do Taboado
= = = = = = 

Trova de
RITA MOURÃO 
Ribeirão Preto/SP

Fui juiz de alheios fatos,
Hoje, a vida com razão
me faz réu dos mesmos atos,
que aos outros neguei perdão.
= = = = = = 

Recordando Velhas Canções
LEVA EU SODADE 
(toada, 1962) 
Tito Guimarães e Alberto Cavalcanti 

Ô leva eu, 
Minha sodade, 
Eu também quero ir, 
Minha sodade, 
Quando chego na ladeira, 
Tenho medo de cair, 
Leva eu, (leva eu) 
Minha sodade.  
 
Menina tu não te lembra, 
(Minha sodade), 
Daquela tarde fagueira, 
(Minha sodade) 
Tu te esqueces, 
E eu me lembro, 
Ai, que sodade matadeira, 
Leva eu, (leva eu) 
Minha sodade. 
  
Na noite de São João, 
(Minha sodade), 
No terreiro uma bacia, 
(Minha sodade), 
Que é pra ver se para o ano, 
Meu amor ainda me via, 
Leva eu, (leva eu) 
Minha sodade.
= = = = = = = = =

Trova de
ÁTILA SILVEIRA BRASIL
Cornélio Procópio/PR

Velha foto esmaecida
deixou lágrima de herança!
Hoje a vejo colorida
pelo cristal da lembrança!
= = = = = =

Soneto de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS

A Rua dos Cata-ventos (III)

Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos dourados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se...

Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.

Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio...
As famílias, que haviam de dizer?

Nenhum milagre é permitido agora...
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!...
= = = = = = = = =

Trova de
LICÍNIO ANTONIO DE ANDRADE
Juiz de Fora/MG

Cai a tarde e a passarada
em gorjeios musicais
é orquestra desafinada
na algazarra dos pardais.
= = = = = = 

Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Se

Se eu morresse hoje (agora)
Levaria comigo
A tristeza do seu adeus.

Depois de tudo que restou de mim
Sou a parte de você
Que se desprendeu de mim...
= = = = = = 

Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

Das culminâncias da serra
ao mais profundo grotão,
trago viva a minha terra,
dentro do meu coração!
= = = = = =

Folclore Português em Versos de
JOSÉ FELDMAN
Campo Mourão/PR

Adamastor

Nos mares bravios, um gigante a clamar,
Adamastor, sombra de um passado a surgir,
com voz de tempestade e olhar de luar,
aos navegantes seu destino a cingir.

Guardião das ondas, das rotas a zelar,
em cada naufrágio, um lamento soando,
seu corpo é a tempestade, seu ser é o azar,
e em cada história, um aviso deixando.

Mas sob a fúria há a dor que se oculta,
um amor perdido, uma vida em tumulto,
e na imensidão, sua tristeza a fluir.

Adamastor, lenda que nunca se exulta,
um eco profundo que procura indulto
nas brumas do mar eternamente a existir.
= = = = = = 

Trova de
MYRTHES MASIERO
São José dos Campos/SP

Eu vivo na corda bamba
tentando me equilibrar,
mas sem ter você, caramba:
nem consigo me encontrar.
= = = = = = 

Soneto de
JOÃO BATISTA XAVIER OLIVEIRA
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP

Silêncio

Quando eu pensei que tudo estava certo...
eis que você, na calma de serpente,
virou meu mundo assim tão de repente
numa miragem plena de um deserto.

Meu pensamento sóbrio, tão presente,
não alertou-me como estava perto
um coração fechado... e bem aberto
à pequenez de um sopro tão latente!

Me refazendo aos poucos, fui olhando
nas passarelas de um mundo nefando
desfiles frágeis, quem olha e não vê.

Hoje agradeço sua insensatez
silenciando o vazio de vez
feliz por mim e triste por você!
= = = = = =

Trova de
WAGNER MARQUES LOPES
Pedro Leopoldo/MG

Ao reler os teus escritos
grafados com teu carinho,
superei dias aflitos,
jamais estive sozinho.
= = = = = =

Poema de 
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

O Super -homem
"És toda bela, minha amiga, 
em ti não há mancha alguma." (Ct. 4.7)

Quisera ter feroz força do leão
E o rugir impetuoso do trovão,
Que apavoram, de vez, a natureza;
Na verdade, eu seria um super-homem,
Que haveria de ter grandioso nome,
Só para proteger-te, com certeza.

Quisera ter a cauda da baleia
E ser o teu escudo, ó sereia,
Que me atrai com o timbre da tua voz;
Dispensaria arpejos de instrumentos,
Teria meus ouvidos bem atentos
Somente pra te ouvir - te ouvir a sós.

Quisera ter do vento a rapidez
E te levar comigo, de uma vez,
Para o mistério espacial estrelado;
Bem longe deste mundo, sem preceito,
Terias vida longa, em novo leito,
E o imenso amor de eterno namorado.

Na galáxia, só feita de quimera,
Contigo, meu amor, eu bem quisera
Criar indescritível paraíso;
Meus olhos, co'a visão do teu fulgor,
Veriam a grandeza deste amor,
Estampada na luz do teu sorriso.
= = = = = = = = =  

Poema de
CASTRO ALVES
Freguesia de Muritiba (hoje, Castro Alves)/BA (1847 – 1871) Salvador/BA

A meu irmão Guilherme de Castro Alves

Na Cordilheira altíssima dos Andes
Os Chimborazos solitários, grandes
Ardem naquelas hibernais regiões.
Ruge embalde e fumega a solfatera...
É dos lábios sangrentos da cratera
Que a avalanche vacila aos furacões.
A escória rubra com os geleiros brancos
Misturados resvalam pelo francos
Dos ombros friorentos do vulcão...

Assim, Poeta, é tua vida imensa,
Cerca-te o gelo, a morte, a indiferença...
E são larvas lá dentro o coração.
= = = = = = 

Quadra Popular

Menina de olhos de fada,
me dê água pra beber;
não é sede, não é nada,
é vontade de te ver.
= = = = = = 

Soneto de
MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Verdes mares

    Clama uma voz amiga: — "Aí tem o Ceará."
    E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,
    Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.
    A bordo a faina avulta e toda a gente já

    Desce. Uma moça ri, quebrando o panamá.
    "— Perdi a mala!" um diz de cara acabrunhada
    Sobre as águas, arfando, uma breve jangada
    Passa. Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá.

    Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque.
    E enquanto a grita aumenta em berros e assobios
    Rudes, na confusão brutal do desembarque:

    Fitando a vastidão magnífica do mar,
    Que ressalta e reluz: — "Verdes mares bravios..."
    Cita um sujeito que jamais leu Alencar.
= = = = = = 

Trova de
CESÍDIO AMBROGGI
Natividade da Serra/SP (1893 — 1974) Taubaté/SP

Há nos velhos corações
uma fonte -  a da saudade,
que reaviva as emoções
vividas na mocidade.
= = = = = = 

Poema de
HANS MAGNUS ENZENSBERGER 
Alemanha (1929 – 2022)

Para um Livro de Leituras Escolares

Não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exatos. Desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
O dia vem vindo em que hão de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. Aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
Treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga cotidiana, úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito
e são meticulosos por ti.

(Tradução: Jorge de Sena)
= = = = = = = = = 
Trova de
LÚCIA LOBO FADIGAS
Rio de Janeiro/RJ

Ouço harmonias nas águas;
ouço acordes no tufão;
mas na avalanche das mágoas
nem ouço o meu coração!...
= = = = = = 

Soneto de 
ALFREDO SANTOS MENDES
Lisboa/Portugal

Canção navegante

Compus uma canção, lancei ao mar!
Pedi-lhe humildemente que a levasse!
E em caso de procela a amparasse,
Para nenhuma estrofe se afundar!

Às estrelas pedi para a guiar,
Ao luar que o seu rumo iluminasse.
A Netuno roguei, que não deixasse,
De a um porto seguro a acompanhar!

Eu sei que alguém espera esta canção.
Terá seu peito arfando de emoção,
Pra ouvir a melodia, e seu cantar!

Meus versos, um a um recolherá!
Seu peito generoso se abrirá,
Para nele a canção se aboletar!
= = = = = =

Trova de
ELISABETE AGUIAR
Mangualde/ Portugal

Por sobre as águas do mar,
ou sobre as terras da Terra,
um avião vem lançar
bombas de Amor contra a guerra.
= = = = = = 

Poema de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Primavera 

Invernos chuvosos saem
levando apenas saudade, 
deixando ilusões serenas.

São brisas amenas que valsam
no jardim intenso da primavera,
um beijo nas pétalas pequenas.
Os vestígios carmins das rosas
serão versos das futuras cenas.
= = = = = = 

Trova de 
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

O rostinho amarelado
encostado ao mostruário
cobiçava o tão sonhado
presente. Triste cenário!
= = = = = =

Soneto de 
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Irreversão

Da terra brota a flor cada estação,
haurindo a seiva fértil do existir,
Nutrindo-se de vida, o coração
da planta vibra, em cores a expandir.

Um dia... o ar sombrio, a acridão
da quadra estéril, triste, que há de vir,
desnuda o solo, onde, em contradição,
terá lugar a ausência do florir.

A estação das flores retornando,
cor de esperança a terra se enfeitando,
a haste ostentará de novo a flor.

Murcha no peito a rosa da ilusão,
a seiva não renova, e o coração
passa, infecundo, à estação da dor.
= = = = = =

Trova de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

De volta ao lar que eu não via,
desde a minha mocidade...
Enquanto a emoção crescia,
crescia a dor da saudade!
= = = = = = 

A. A. de Assis (Seu Ciço versus seu Efe)

Primeiro que tudo será de bom proveito deixar explicado que Seu Ciço era de batismo Cícero, tal que nem Seu Efe era, de batismo, Filisberto. Porém carece um adendo: é que na porteira da fazenda de Seu Filisberto havia um “F” enorme, daí que o povo achou por graça chamá-lo assim – Seu Efe. 

Eram os dois fazendeiros mais importantes do município, além de chefes políticos. Mais ainda: rivais em tudo, desde garotos, quando disputavam a preferência da mesma menininha, a qual contudo no final preferiu um terceiro. Pra botar mais pimenta na polenta, um dos filhos de Seu Ciço se apaixonou por uma das filhas de Seu Efe, pra desgosto e espanto da parentada toda.

Seu Ciço era fidelíssiimo seguidor do então presidente Getúlio Vargas, do qual Seu Efe era ferrenho opositor. Metade da população acompanhava Seu Ciço, a outra metade seguia Seu Efe.

Só que no meio de um entrevero mais acalorado o clima chegou a tal ponto que os dois chefões se desmiolaram de vez e acabaram por se desafiar para um duelo (mais exatamente uma briga) na praça central da cidadezinha. Representados por emissários, combinaram detalhes e regras. Seria num sábado, às 10 horas da manhã, mediante chicotes.

Chegado o dia, o local da refrega encheu de gente. Na horinha porém do acerto de contas, se deu uma grande surpresa: apareceu alvoroçante na esquina uma banda de música, vindo logo atrás dois carros de bois, um trazendo a noiva, outro o noivo – a filha e o filho dos velhos rivais.

Foi tudo um engenhoso arranjo do padre Nel, que, caprichosamente paramentado, subiu num caixote e falou ao povo: “Caríssimos e caríssimas, vocês vieram ver um espetáculo de brutalidade; no entanto, ao contrário, vão testemunhar uma belíssima cena de amor. Serão aqui sacramentadas as núpcias de duas pessoas muito queridas: o jovem Cicerinho e a senhorita Morgada”.

Dirigiu-se em seguida diretamente aos pais irosos: “E vocês, seus velhos cabeçudos, parem com essa birra idiota, joguem fora esses relhos ridículos e venham os dois aqui abraçar e abençoar os noivos”.

Deu certo. Os dois homões se debulharam em lágrimas... e em ata se pôs a fábula.

Bem talqualzinho o meu avô me contou uns muitos anos depois.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 14-8-2025)
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.
Fontes: 
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Adobe Firefly

José Feldman (Os Rabugentos e os Carros do Futuro)

Na velha praça, Arlindo e Eulália estavam novamente em seu banco, prontos para mais uma discussão acalorada. O assunto do dia era a nova moda dos carros elétricos.

— Olha só, Eulália! — começou Arlindo, com um brilho cínico nos olhos. — Agora todo mundo fala de carros elétricos como se fossem a oitava maravilha do mundo! Você já viu um desses? Parecem mais brinquedo de criança!

— Brinquedo? — Eulália riu, balançando a cabeça. — Você está tão preso no passado que não consegue enxergar o futuro! Os carros elétricos são silenciosos, eficientes e ainda ajudam o meio ambiente!

— Silenciosos? — Arlindo exclamou, com uma expressão de desdém. — Prefiro ouvir o barulho de um motor potente! Isso sim é música para os meus ouvidos! Um carro sem ronco não é carro, é um... robô!

— Robô? Você está exagerando! — Eulália respondeu, cruzando os braços. — E quem precisa de barulho? No meu tempo, a gente sonhava com carros que não poluíssem! Agora, você só quer saber de roncos!

— Olha, eu não sou contra a ideia de carros que não poluam. — Arlindo disse, levantando as mãos. — Mas e a emoção de dirigir? Você já dirigiu um carro elétrico? É como andar em um sofá sobre rodas!

— Um sofá? Você realmente sabe como ofender! — Eulália respondeu, rindo. — E você se esqueceu que os carros a gasolina e álcool estão acabando? A gasolina vai virar coisa do passado!

— Coisa do passado? — Arlindo refutou. — E o que você vai fazer quando ficar sem combustível? Pedir carona de um vizinho com um carro elétrico? Eu prefiro meu carro barulhento, que me leva a qualquer lugar!

— E eu prefiro saber que meus netos vão herdar um planeta saudável! — Eulália disse, com firmeza. — Você só pensa no presente, Arlindo! E o futuro? Vai ficar preso na nostalgia dos motores barulhentos!

— Nostalgia é uma coisa boa! — Arlindo insistiu. — E quem disse que os carros elétricos são a solução? E se a bateria acabar no meio do nada? Você vai ter que esperar uma eternidade por um carregador!

— E você, se ficar sem gasolina, vai ter que empurrar seu carro até o posto! — Eulália retrucou, com um sorriso travesso. — E não venha me dizer que isso é emocionante!

— Olha, eu não empurro carro nenhum! — Arlindo defendeu-se, rindo. — Se eu ficar sem gasolina, vou dar um jeito de arranjar um galão e encher o tanque. Não sou desses que ficam esperando um milagre!

— E quem precisa de milagre quando se tem tecnologia? — Eulália disse, fazendo uma pausa dramática. — Os carros elétricos estão mudando o mundo, Arlindo! Você deveria se atualizar!

— Atualizar? Eu não sou um computador! — Arlindo respondeu, balançando a cabeça. — E já viu o preço de um carro elétrico? Com o que custa um, eu compro três carros a gasolina e ainda sobra para uma viagem!

— Ah, claro! E depois você vai reclamar que os carros antigos estão se desintegrando! — Eulália riu. — Você só quer economizar e não se preocupa com o planeta!

Arlindo arqueou as sobrancelhas. — Economizar é uma virtude! E quem vai querer um carro que não faz barulho? Vou sair na rua e parecer um fantasma!

— Fantasma? Você já se olhou no espelho? — Eulália provocou, rindo. — Você já é um fantasma do passado, Arlindo! Aceite isso!

— Aceitar? Estou aqui, vivo e a cores! — Arlindo exclamou, gesticulando. — E se eu quiser um carro que marque presença, eu vou ter! Não quero sair dirigindo um “silencioso”, como se estivesse fugindo de algo!

— Você só está com medo do novo! — Eulália disse, com um sorriso. — Um dia, você vai ver que os carros elétricos são o futuro! E quem sabe você não acaba comprando um?

— Eu? Comprar um carro elétrico? — Arlindo riu, balançando a cabeça. — Só se você me prometer que vai me ensinar a usar um carregador!

— Oh, não se preocupe! — Eulália respondeu, piscando. — Eu vou te ensinar a usar, e você vai ver que é mais fácil do que empurrar um carro!

— Empurrar? Nunca mais! — Arlindo disse, levantando-se do banco. — Vamos tomar um café e deixar essas discussões de lado! Afinal, o que importa não são os carros!

— Concordo! — Eulália sorriu, levantando-se também. — E quem sabe, enquanto tomamos café, você não se convence de que um carro elétrico não é tão ruim assim?

Os dois velhos rabugentos se afastaram, rindo e discutindo, prontos para mais uma tarde de amizade e boas risadas, longe das preocupações sobre carros e tecnologia.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Adobe Firefly