quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Beatrix Potter (O conto do rato Johnny Town)

Johnny Town nasceu em um armário. Timmy Willie nasceu em um jardim. Timmy Willie era um ratinho do campo que foi para a cidade por engano em um cesto. O jardineiro enviava legumes para a cidade uma vez por semana por transportadora; ele os embalou em um grande cesto.

O jardineiro deixou o cesto no portão do jardim, para que o carregador pudesse pegá-lo quando ele passasse. Timmy Willie esgueirou-se por um buraco no vime e, depois de comer algumas ervilhas, Timmy Willie adormeceu profundamente.

Ele acordou assustado, enquanto o cesto era colocado no carrinho da transportadora. Então houve um solavanco e um barulho de patas de cavalo; outros pacotes foram lançados; por milhas e milhas – solavanco – solavanco – solavanco! e Timmy Willie tremeu entre os vegetais misturados.

Por fim, a carroça parou em uma casa, onde o cesto foi retirado, carregado e colocado no chão. O cozinheiro deu seis pence ao carregador e a porta dos fundos bateu e o carrinho saiu ruidosamente. Mas não havia silêncio, parecia haver centenas de carroças passando. Cães latiam, meninos assobiavam na rua, a cozinheira ria, a copeira subia e descia as escadas correndo e um canário cantava como uma locomotiva a vapor.

Timmy Willie, que viveu toda a sua vida em um jardim, estava quase morrendo de medo. Logo a cozinheira abriu o cesto e começou a desempacotar os legumes. De lá surgiu o aterrorizado Timmy Willie.

A cozinheira pulou em uma cadeira, exclamando “Um rato! um rato! Chame o gato! Traga-me o atiçador, Sarah!” Timmy Willie não esperou por Sarah com o atiçador, ele correu ao longo do rodapé até chegar a um pequeno buraco e entrou.

Ele caiu no meio de um jantar de ratos, quebrando três copos. — “Quem é esse?” perguntou o rato Johnny Town. Mas após a primeira exclamação de surpresa, ele instantaneamente recuperou suas maneiras.

Com a maior polidez, ele apresentou Timmy Willie a nove outros ratos, todos com caudas longas e gravatas brancas. A própria cauda de Timmy Willie era insignificante. Johnny Town e seus amigos perceberam, mas eles eram muito educados para fazer comentários pessoais, apenas um deles perguntou a Timmy Willie se ele já havia caído em uma armadilha.

O jantar foi de oito pratos, não era muito de nada, mas verdadeiramente elegante. Todos os pratos eram desconhecidos de Timmy Willie, que teria ficado com um pouco de medo de prová-los, só que ele estava com muita fome e muito ansioso para se comportar de acordo com as boas maneiras. O barulho contínuo no andar de cima o deixou tão nervoso que ele deixou cair um prato. “Não importa, eles não nos pertencem”, disse Johnny.

“Por que aqueles jovens não voltam com a sobremesa?” Deve ser explicado que dois camundongos jovens, que estavam esperando pelos outros, subiram escaramuçando para a cozinha entre os pratos. Várias vezes eles entraram cambaleando, guinchando e rindo; Timmy Willie soube com horror que eles estavam sendo perseguidos pelo gato. Seu apetite falhou, ele se sentiu fraco. 

“Quer um pouco de geleia?” disse Johnny Town.

“Não? Você prefere ir para a cama? Vou lhe mostrar uma almofada de sofá muito confortável.”

A almofada do sofá tinha um buraco. Johnny Town recomendou-a honestamente como a melhor cama, reservada exclusivamente para visitantes. Mas o sofá cheirava a gato. Timmy Willie preferia passar uma noite miserável sob o guarda-fogo.

Foi exatamente o mesmo no dia seguinte. Um excelente café da manhã foi servido – para ratos acostumados a comer bacon, mas Timmy Willie foi criado com raízes e salada. Johnny Town e seus amigos faziam barulho sob o assoalho e saíam corajosamente por toda a casa à noite. Um estrondo particularmente alto foi causado por Sarah caindo escada abaixo com a bandeja de chá, havia migalhas, açúcar e manchas de geleia a serem recolhidas, apesar do gato.

Timmy Willie ansiava por estar em casa em seu ninho tranquilo em uma margem ensolarada. A comida não lhe agradava, o barulho o impedia de dormir. Em poucos dias, ele ficou tão magro que Johnny Town notou e o questionou. Ele ouviu a história de Timmy Willie e perguntou sobre o jardim. “Parece um lugar bastante monótono. O que você faz quando chove?”

“Quando chove, eu me sento em minha pequena toca de areia e com casca de milho e sementes da minha loja de outono. Eu espio os sabiás e melros no gramado, e meu amigo Cock Robin. E quando o sol aparecer novamente, você deve ver meu jardim e as flores – rosas e rosas e amores-perfeitos – nenhum barulho exceto os pássaros e abelhas, e os cordeiros nos prados.”

“Lá vai aquele gato de novo!” exclamou Johnny Town. 

Quando se refugiaram no depósito de carvão, ele retomou a conversa; “Confesso que estou um pouco decepcionado; nos esforçamos para entretê-lo, Timothy William.”

“Oh, sim, sim, você foi muito gentil, mas eu me sinto tão mal”, disse Timmy Willie.

“Pode ser que seus dentes e digestão não estejam acostumados com nossa comida, talvez seja mais sensato você voltar no cesto.”

“Ah? Ai!” gritou Timmy Willie.

“Por que é claro que poderíamos ter mandado você de volta na semana passada”, disse Johnny um tanto ressentido – “você não sabia que a cesta volta vazia aos sábados?”

Então Timmy Willie se despediu de seus novos amigos e se escondeu no cesto com uma migalha de bolo e uma folha de repolho murcha, e depois de muitos solavancos, ele foi colocado em segurança em seu próprio jardim.

Às vezes, aos sábados, ele ia olhar a cesta que estava perto do portão, mas sabia que não devia entrar de novo. E ninguém saiu, embora Johnny Town tivesse meio que prometido uma visita.

O inverno passou; o sol voltou a aparecer, Timmy Willie estava sentado em sua toca, aquecendo seu pequeno casaco de pele e sentindo o cheiro de violetas e grama da primavera. Ele quase havia esquecido sua visita à cidade. Quando subiu o caminho arenoso, todo novinho em folha, com uma bolsa de couro marrom, veio Johnny Town!

Timmy Willie o recebeu de braços abertos. “Você veio no melhor do ano, vamos comer pudim de ervas e sentar ao sol.”

“Hm’m! Está um pouco úmido”, disse Johnny Town, que estava carregando o rabo debaixo do braço, fora da lama.

“O que é esse barulho assustador?” ele começou violentamente.

“Que?” disse Timmy Willie, “isso é apenas uma vaca, pedirei um pouco de leite, elas são bastante inofensivas, a menos que aconteça de deitarem sobre você. Como estão todos os nossos amigos?”

O relato de Johnny era bastante mediano. Ele explicou por que estava fazendo sua visita tão cedo na temporada, a família tinha ido passar a Páscoa à beira-mar, a cozinheira estava fazendo a limpeza de primavera, a bordo, com instruções específicas para eliminar os ratos. Eram quatro gatinhos, e a gata matou o canário.

“Eles dizem que fizemos isso, mas eu sei que foi o gato”, disse Johnny Town. “O que é esse barulho terrível?”

“Isso é apenas o cortador de grama, vou buscar algumas aparas de grama para fazer sua cama. Tenho certeza de que é melhor você se instalar no campo, Johnny.”

“Humm… veremos na semana de terça-feira, o cesto está parado enquanto eles estão à beira-mar.”

“Tenho certeza de que você nunca mais vai querer morar na cidade”, disse Timmy Willie.

Mas ele quis. Ele voltou no próximo cesto de vegetais, ele disse que estava muito quieto!

Um lugar serve para uma pessoa, outro lugar serve para outra pessoa. De minha parte, prefiro viver no campo, como Timmy Willie.
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HELEN BEATRIX POTTER (Londres, 1866 — Lakeland/Inglaterra, 1943) foi uma escritora, ilustradora, micologista e conservacionista inglesa, célebre por seus livros infantis de grande originalidade e valor intemporal. Sua obra mais famosa é A História do Pedro Coelho. Ela estudou em casa e recebeu das governantas uma educação vitoriana.  O Coelho Benjamim foi uma das primeiras personagens que Beatrix Potter vendeu a uma editora. Beatrix começou por ilustrar contos tradicionais como "Cinderela", "A Bela Adormecida", "Ali Babá e os Quarenta Ladrões", "O Gato das Botas" etc, mas muitas das suas ilustrações incluíam os seus animais de estimação. Beatrix Potter teve bastantes dificuldades em encontrar uma editora que publicasse as suas histórias. Depois de receber várias cartas de rejeição, ela decidiu tratar do assunto sozinha e criou um livro pequeno a preto e branco com a histórias dos quatro coelhinhos e publicou 250 cópias do mesmo que pagou com o seu próprio dinheiro. Frederick Warne & Co, que já tinha rejeitado as histórias de Beatrix, decidiu publicar o que apelidou de "livro dos coelhinhos". A mudança de posição deveu-se ao fato de a editora querer entrar no mercado dos livros infantis de formato pequeno. A História do Pedro Coelho foi publicado em 1902 e foi um enorme sucesso, vendendo 20 000 cópias até ao Natal desse ano. No ano seguinte, foram publicados A História do Esquilo Trinca-Nozes e O Alfaiate de Gloucester. Nos anos seguintes, Beatrix trabalhou com o editor Norman Warne e publicou entre dois e três livros de formato pequeno todos anos, atingindo um total de 23 obras publicadas na sua carreira. Em 1905, Beatrix e Norman Warne, o seu editor, ficaram noivos. O noivado foi mantido em segredo pois a família de Beatrix desaprovava um noivo que vivia de sua profissão de editor, por considerá-lo de classe inferior. Tragicamente, em 25 de agosto de 1905, um mês depois do pedido, Norman morreu de leucemia, quando tinha 37 anos. Isso deixou Beatrix devastada, mas ela fez o máximo para superar esse momento difícil, trabalhando ainda mais do que o costume. Em 1913, aos quarenta e sete anos, Beatrix casou-se com William Heelis, um procurador local, e foi morar em Sawrey. Ela passou a desenhar e a escrever menos, dedicando-se às atividades da fazenda, à criação de carneiros e a comprar muitas terras em Lakeland, para preservá-las. Quando Beatrix Potter morreu, em 1943, deixou mais de 4 000 acres e 15 fazendas para o National Trust, uma organização destinada a preservar lugares de interesse histórico ou de grande beleza cênica, na Inglaterra. Beatrix e William tiveram um casamento feliz que durou trinta anos. Apesar de não terem filhos, Beatrix era um elemento importante da família de William e teve uma relação muito próxima com as suas sobrinhas, que ajudou a educar. Beatrix faleceu em 1943, devido a uma pneumonia e complicações cardíacas em sua residência, chamada Castle Cottage, localizada em Lake District. Os seus restos mortais foram cremados. O seu marido continuou cuidando das propriedades e do trabalho literário e artístico da esposa até à sua morte, em agosto de 1945. Em 2006, a vida de Beatrix Potter foi transformada em um filme, Miss Potter, com Renée Zellweger e Ewan McGregor como protagonistas. 

Fontes:
Beatrix Potter. The Tale of Johnny Town-Mouse. Publicado originalmente em 1918. 
Disponível em Domínio Público.  
Biografia =https://pt.wikipedia.org/wiki/Beatrix_Potter
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 74 *


Poema de
PAULO ROBERTO OLIVEIRA CARUSO
Niterói/RJ

No trigo dourado a promessa do pão

No trigo dourado a promessa do pão
que sai da fornalha cascudo no afã
de ser o alimento da irmã e do irmão
à mesa da gente no sol da manhã.

E ao pão bem quentinho se leva a manteiga,
que logo derrete-se toda mansinha
feito o bezerrinho que à teta se achega,
buscando a mamada na sua mãezinha!

Também há o café tão pretinho adorado
de aroma marcante, encorpado e gostoso
que tira a preguiça, deixando-a de lado,
por mais outro dia no campo frondoso.

Fumaças se esvaem do pão douradinho 
com quente miolo em manteiga banhado
junto ao cafezinho, um intenso caminho
no meio do mato tão verde e orvalhado. 

Em curtas goladas eu vejo a passar 
Maria Fumaça nos trilhos brilhosos,
e alegre a manhã vai passando ao cantar 
das aves canoras em voos ditosos!

O gado a pastar a tardança de Cronos
e o nada mirando no doce horizonte;
e segue o vaqueiro no sono dos sonos
deitado na rede, e o chapéu é o seu monte.  

O outono fresquinho traz tal sensação
de sol tão morninho e de um meigo divã
para se esticar no sofá sem razão, 
tirar um cochilo e acordar amanhã…

(Menção Honrosa no Prêmio Literário Gonzaga de Carvalho, 2025, para acadêmicos correspondentes da Academia de Letras de Teófilo Otoni)
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Trova de
ARTHUR THOMAZ 
Campinas/SP

Não existe neste mundo,
tecnologia capaz
de imitar por um segundo
o bem que você me faz.
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Poema de
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Há um tempo

Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares …
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...
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Trova de 
CATERINA BALSANO GAIOSKI 
Irati/PR

A noite dobra o lençol,
despede-se e o leva embora,
vêm as luzes do arrebol,
anunciando a bela aurora.
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Poema de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Dois Tempos

Eu ficava à janela olhando o trem.
Qual seria o seu destino?…
Era um fascínio imaginar, em fantasia,
quanta gente que partia,
enquanto eu ficava à janela 
olhando o trem.

Hoje voltei. Quis rever meu mundo antigo.
Talvez o anseio de buscar abrigo,
ou a esperança de encontrar comigo,
ou simplesmente ver o trem passar.
Daquela antiga estação,
do meu velho casarão…
nada encontrei, porém.
Onde está a vida que eu achava linda?
Afinal, o que será que resta ainda
de quem ficava à janela olhando o trem?… 
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Trova de
LUCRÉCIA WELTER RIBEIRO 
Toledo/PR

Por conta da pandemia,
vejo as auroras tão belas.
Até ontem, mal sabia
que paredes têm janelas.
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Poema de
EMILY DICKINSON
Amherst/EUA, 1830 – 1886

Dizem que o tempo...

Dizem que o tempo ameniza
Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade

É um teste no sofrimento
Mas não o debelaria
Se o tempo fosse remédio
Nenhum mal existiria
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Trova de
LEONILDA YVONNETI SPINA 
Londrina/PR

Não desistas de lutar,
ante os fracassos de agora;
amanhã irá reinar
nova e fulgurante aurora!
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS

Recordo Ainda

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
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Trova de
ARTEMIZA MARIA CORREIA DA SILVA
Ocara/CE

O destino caprichou
para as minhas alegrias,
és aurora que chegou,
no amanhecer dos meus dias.
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Soneto de
FRANCISCO MIGUEL DE MOURA
Teresina/PI

Se

Se o tempo é sentinela lá nos cimos,
e permite a acumulação de dores,
sem fazer festas nem sequer rumores,
quando em adeuses todos nós partimos...

Se o tempo é o rei dos sentenciadores
e assim nos vê (mas creio que não vimos),
por que é que dele, embora assim, não rimos
como quem ri dos campos e das flores?

Se o tempo não pensa... Nem conforma,
do nascimento à morte a um bom destino,
a vida - onde o sofrer é sempre norma...

Só enxergo um caminho que conforte:
- Voltar ao nosso tempo de menino,
que foi quando tivemos melhor sorte.
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Trova de
ROSANA MONTERO CAPPI 
Campinas/SP

Vamos manter a esperança
lembremos que toda aurora
é sorriso da criança
levando a tristeza embora.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Santo Antonio do Monte/MG

Tempo Rei

Meus pés não encontram rastros no caminho
Minha rua não é mais cadinho de meus passos
Calçada nua que trocou
paralelepípedo por asfalto
Na casa em que morei não há mais samambaias
Dando saias verdes ao alpendre que me recebia
Onde logo eu via o rosto redondo de minha mãe
A vida vai compondo gosto novo para as gerações
Porções de desgosto agora moram em mim
O tempo realmente é invencível rei
Tudo o que eu pensei um dia dominar ou saber
O tempo cuidou de me provar que nada sei!
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Trova de
JOSAFÁ SOBREIRA DA SILVA 
Rio de Janeiro/RJ

Há sempre um desejo em nós
que, à noitinha, se evapora,
mas eleva sempre a voz
no esplendor de nova aurora!
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
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Trova de 
DOMITILLA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

No alvo lençol da manhã,
num prefácio de alegria,
a aurora, qual artesã,
borda a beleza do dia...
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Soneto de
ANÍBAL BEÇA
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Bolero das águas

O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.

A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.

Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as ouças,

é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
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Trova de
MARA MELINNI 
Caicó/RN

Pela escuridão das horas,
no relógio da incerteza,
meu tempo nasce de auroras,
mantendo a esperança acesa!
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Poema de
SILVIAH CARVALHO
Manaus/AM

A força do seu abraço

Sinto saudade dos seus braços
Onde dividia meu cansaço
Quando em você me escondia
Desta minha vida tão vazia

Na força do teu abraço
Encontrei descanso e me entreguei
Encontrei paz e fui feliz. Nos seus braços
Descobri o quanto te amei

Sem medo de sofrer, abri meu coração
Sem medo de perder, segurei em suas mãos
Você é meu refúgio, meu abrigo
Meu amor, muito mais que um amigo

No cantinho dos seus braços
Eu me desfaço e me refaço
Encontro amor e carinho
Onde moro e, faço deles meu ninho.
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Trova de
CEZAR AUGUSTO DEFILIPPO 
Astolfo Dutra/MG

A insônia mantém frequência
da noite ao romper da aurora,
se cochilo, a tua ausência,
me acorda e diz: - já é hora
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Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Vejo-te sempre em horas de saudade
(Fernandes Valente Sobrinho in "Poemas Escolhidos", p. 145)

Vejo-te sempre em horas de saudade
Quando em meu peito dói a tua ausência
Presente como eterna penitência
Que eu pague por te amar sem castidade.

Envolto sempre em rara claridade
Segreda o teu olhar a confidência
Em que naufraga, nua, esta inocência
No abraço que me traz à realidade.

Talhada em minha mente sempre vens
Livre e solta no tempo e te deténs
Trazendo à minha vida a doce paz.

Com enlevos eu te amo e te venero
E em meus dias o que eu anseio e quero
Sempre és tu quem o diz e quem o faz.
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Trova de
DÉBORA NOVAES DE CASTRO 
São Paulo/SP

A noite põe-se em agrado,
recolhe o manto e se rende,
que a aurora, em ouro e brocado,
por trás do monte, já esplende!
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Soneto de
AFONSO FREDERICO SCHMIDT
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP

Os vagabundos

Perdidos pela estepe enegrecida e rasa,
Nessa planície igual que a distância arredonda,
Que o inverno enregela e que o verão abrasa,
Dos vagabundos passa a maltrapilha ronda.

As miragens do céu são como pétrea onda...
E o vento forasteiro essa visão arrasa,
Quebrando torreões de arquitetura hedionda,
Catedrais de marfim e florestas de brasa!

Eles passam cantando uma canção dolente,
E vão deixando atrás, por sobre a terra ardente,
Dos seus inchados pés os passageiros rastros...

E quando a noite desce aos desertos medonhos,
Deitam-se sobre a terra e sonham lindos sonhos
Na solidão da estepe e na mudez dos astros!
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Trova de
ANTONIO JOSÉ BARRADAS BARROSO 
Parede/Portugal

E aquela tão linda aurora
que trouxe o nascer do dia,
será verdade de agora
ou sonho quando eu dormia?
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Cantiga Infantil de Roda
LAGARTA PINTADA 

É uma roda de crianças, cada qual pegada na orelha da outra, cantando e dançando:

Lagarta pintada 
Quem foi que te pintou
Foi uma velha 
Que passou por aqui
A saia da velha 
Fazia poeira
Puxa lagarta 
No pé da orelha

Quando as meninas dizem - Puxa lagarta no pé da orelha - puxam realmente com força na orelha das outras

Outra versão:

Lagarta pintada quem foi que te pintou?
foi uma menina que aqui passou
por dentro das areias levanta poeira
pega esta menina pela ponta da orelha.

Lagarta pintada quem foi que te pintou?
Foi a velha cachimbeira por aqui passou.
No tempo da areia fazia poeira, Puxa
Lagarta nessa orelha... Orelha, orelha!
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Quadra Popular de
AUTOR ANÔNIMO

Que os homens são uns diabos
não há mulher que o negue;
mesmo assim elas procuram
um diabo que as carregue.
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Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

São Fidélis

De São Fidélis guardo a ressonância
 De pássaros cantando nas capoeiras;
 No olhar conservo as flores das primeiras
 Primaveras perdidas na distância…

 Toucou-me um dia a incontrolável ânsia
 De procurar caminho e abrir porteiras,
 Deixando para trás velhas mangueiras
 Que encheram de doçura a minha infância.

 Comércio, indústria, o campo verde, o açude…
 Cidade Poema, te esquecer não pude,
 Porque, mesmo partindo da cidade,

 Como carro-de-boi que geme e chora,
 Eu vou levando pela vida afora
 A colheita indelével da saudade!
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Trova de
OLÍVIA ALVAREZ MIGUEZ BARROSO
Parede/Portugal

Vi uma aurora boreal
transformar a noite em dia
sem ter em conta, afinal,
se era verdade ou magia.
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Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Rotina de uma árvore

Terra, água
E luz gestam vidas
Num contínuo renascer,
O ciclo da vida impresso
Nas folhas encanta,
E surpreende,
Desabrochando em versos
Em uma manhã azul
De Primavera.
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Trova de
RITA MOURÃO
Ribeirão Preto/SP

Da imensidão do universo
recolho sem constrange-las.
pedaços de cada verso
que Deus deixa nas estrelas
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Laé de Souza (Com o Feio, não)

Embora se ouçam vários chavões, como “A beleza não é fundamental”, “O que vale é a beleza interior”, ela abre caminho e muitas pessoas já tiveram sua oportunidade em função da beleza. Como candidata a uma vaga, mesmo que o cargo não seja de modelo, a mais bonita, com certeza, já sai com vantagem. Não se pode negar que, alguma vez, já demos um “empurrãozinho” ou até intercedemos em favor de alguma beldade só para receber um sorriso.

O motivo do convite para um jantar feito àquela linda vendedora, não obstante eu acreditar que tinha como meta principal o negócio e secundário a sua beleza, não poderia ser contestado com firmeza, se essa ordem fosse invertida.

Mas, a beleza também tem as suas desvantagens. Uma mulher bonita é mais observada, mais vigiada, conquista fácil inimizade de outras mulheres e fica muito exposta a comentários maldosos, em sua maioria, sem fundamentos. Se entrar em um lugar acompanhado de uma, não só ela, mas você também é objeto de avaliação. Mulheres torcem o nariz e vigiam os olhares de seus pares. Algumas chegam a chutar por debaixo da mesa, outras, mais declaradas, brigam mesmo. Já vi muitos casais se retirarem de restaurantes, apressadamente, quando uma mulher muito bonita instala-se em uma mesa próxima a deles.

Homens o olham e você sente a pergunta em seus olhos: por que está acompanhado de uma mulher daquelas? Aproveite, porque não é sempre que se é invejado. As mulheres bonitas carregam uma tendência muito maior de ser vigiadas (inclusive o seu olhar) pelo parceiro que, de forma egoísta, quer monopolizar a beleza.

Uma linda amiga já sofreu muito com cenas de ciúme doentio do seu marido. No trânsito, foi ameaçada de morte diversas vezes, só por olhar para o carro ao lado. Eu mesmo já presenciei e, sinceramente, pedi a Deus que não atendesse aos seus pedidos de se tornar feia e ser feliz. Várias vezes, ouvi as lamúrias do meu amigo, dizendo sentir que era traído. Em suas bebedeiras, chorava e afirmava que não merecia mulher tão bela, com o que eu sempre concordava.

Homem bonito (existem muitos) é problema também. Principalmente para a mulher que está em sua companhia. É muito mais observada pelas mulheres do que quando ocorre o contrário. Se ele é daquele tipo convicto de sua beleza e que gosta de esnobar, então, coitada dela! O Máximo era assim. Lindo até no nome. A coitada da mulher rastejava e se humilhava suplicando por um simples olhar, o que ele fazia com ar de superioridade. Nas brigas, quase sempre por ciúmes, ela perguntava: “Casou comigo, por quê?” Sinceramente, nem ele sabia responder.

Um dia, ao chegar em casa, encontrou o bilhete sobre a mesa. Aliás, parecia mais um telegrama: “Hoje, tenho quem me faz feliz. Esqueça-me.” Procurou, bisbilhotou, até que descobriu que a mulher fugira com o Feio. Foi alvo de conversas e gozações. Recordou-se de que o tal estava sempre por perto e sorria, quando ele, o Máximo, gozava de sua feiura. Não acreditava que ele, no esplendor de sua beleza, fosse traído logo pelo Feio. Ficou por uns dias a pensar na fuga da mulher, até que endoidou. Pirou de vez o cara. Juro! Você ainda vai cruzar com o tal lindo por aí dizendo: “Com o Feio, não, com o Feio não...”
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Laé de Souza é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fontes:
Laé de Souza. Coisas de Homem & Coisas de Mulher. SP: Ecoarte, 2018.
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Contos das Mil e Uma Noites (A história de Kafur, o negro)

Irmãos, minha história começa quando eu tinha oito anos, pois já então era um mentiroso consumado. Nunca contei mais de uma mentira por ano, mas era uma mentira de tamanho brilho que meu dono, que era mercador de escravos, costumava cair no chão quando a ouvia. Finalmente, não podendo mais aguentar comigo, mandou oferecer-me à venda nestes termos: “Quem quer comprar um negro com um defeito?” 

Um comerciante perguntou qual era o defeito. Disseram-lhe que eu mentia uma vez por ano. Comprou-me, com defeito e tudo, por seiscentos dirhams. Meu novo amo vestiu-me com roupa que me caía muito bem, e vivi com ele pelo restante daquele ano. 

O ano novo chegou com promessas de colheitas abundantes nos campos e nas hortas, e os comerciantes festejaram-no e prestaram homenagens uns aos outros nos jardins fora da cidade. 

Quando chegou a vez de meu amo, este mandou preparar abundantes comidas e bebidas e ofereceu aos amigos na sua casa de campo uma festa suntuosa que duraria da manhã à noite. Mas aconteceu que ele esquecera algo em sua residência. Mandou-me, pois, montar uma mula e voltar à cidade. Devia pedir o objeto esquecido a minha ama e levá-lo de volta o mais rapidamente possível. 

Ao aproximar-me da casa, comecei a lamentar-me em alta voz e derramar abundantes lágrimas. Os vizinhos acorreram. As mulheres apareceram às janelas, acompanhadas pelas filhas. Todos me perguntavam o que tinha acontecido. 

Respondi através dos gemidos: “Meu amo estava no jardim com seus convidados quando uma muralha caiu sobre ele e o esmagou. Pulei sobre minha mula e vim avisar a família.” 

Ouvindo essa notícia, minha ama e suas filhas entraram em pranto, rasgaram os vestidos, bateram no rosto. E minha ama, querendo exibir a aflição conforme as tradições, pôs-se a destruir a casa, quebrando armários, portas e outros móveis e jogando na rua o que não conseguia quebrar. Manchou e sujou as paredes e pediu-me para ajudá-la nessa demolição generalizada.

Não me fiz de rogado. Comecei imediatamente a destruir os objetos mais pesados. Quebrei também a louça, queimei as camas, os tapetes, as cortinas, as almofadas. Depois, passei ao teto e às paredes até que toda a casa virou uma só ruína. Durante esse tempo, não parava de chorar e gemer: “Meu amo! Oh, meu Amo!”

Minha ama e suas filhas saíram à rua com os rostos descobertos e o cabelo desarrumado. Pediram-me para guiá-las ao lugar onde meu amo estava enterrado sob a muralha. Andei na frente delas, lamentando: “Meu amo! Oh, meu amo!” 

Breve, uma multidão juntou-se a nós. E alguém aconselhou à minha ama a comunicar a todos e ao uáli. Deixei-os dirigirem-se à residência do uáli e corri até o jardim onde estava meu amo; cobri meu cabelo com poeira, bati no rosto e aproximei-me do jardim gritando: ”Minha ama! Oh, minha ama! Minhas pequenas amas! Meus pobres pequenos amos!” 

Pulei no meio dos convivas numa manifestação extravagante de aflição, gemendo: “Oh, quem me ajudará? Que mulher será jamais tão boa quanto minha pobre ama! 

Naturalmente, meu amo mudou de cor e perguntou-me o que acontecera. “Meu amo, respondi, quando cheguei em casa, vi que ela havia caído sobre tua mulher e teus filhos.”

- Mas a minha mulher se salvou, não?

- Que pena, não, respondi. Ninguém escapou. Tua filha mais velha foi a primeira a morrer.

- E minha filha menor?

- Morta, morta!

- E meus dois filhos varões?

- Morreram. Morreram todos.

- E meu camelo?

- Morreu também. Oh, meu amo, ninguém escapou. As paredes da casa e as paredes do estábulo caíram juntas e esmagaram a todos, até os cabritos, os cachorros, as galinhas e os pássaros. Ninguém escapou. Oh, meu amo, o senhor não tem mais nem casa nem família.

A luz virou escuridão nos olhos de meu amo. Rasgou a roupa, arrancou a barba, bateu nas faces até que sangraram, gritando: “Meus filhos! Minha mulher!”

Os convivas cercaram-no, procurando fortalecê-lo. E todos se reuniram e se dirigiram para o local da tragédia quando viram ao longe uma multidão aproximar-se. Quando os dois grupos se encontraram, a primeira pessoa com quem meu amo cruzou foi a própria mulher. 

Ao constatar que estava cercada por todos os seus filhos, pôs-se a rir como um louco. Seus familiares jogaram-se por sua vez nos seus braços, gritando: “Meu marido, meu pai, graças a Deus estás salvo. Como conseguiste escapar da muralha que desabou sobre ti?” 

Gritava ele por sua vez: “Estais todos salvos, meus queridos. Como conseguistes vos salvar quando a casa desabou sobre vós?” 

Não demoraram uns e outros a dar-se conta de que tinham sido trágica e cinicamente enganados pelas minhas mentiras. 

Meu amo lançou-se sobre mim, berrando: “Escravo miserável, imundo, negro azarento, filho de uma prostituta e de um milhar de cachorros, amaldiçoado filho de uma raça maldita. Por que nos mergulhaste a todos nessa terrível aflição? Por Alá, vou separar tua pele de tua carne e tua carne de teus ossos.” 

Respondi sem medo: “Desafio-te a fazer-me o menor mal. Compraste-me com meu defeito na presença de testemunhas. Foste especificamente avisado de que meu defeito era dizer uma mentira por ano.” 

Quando chegamos a casa e ele a viu em ruínas, tendo a mulher lhe contado com algum exagero que tudo fora obra minha, ficou mais furioso ainda. 

“Bastardo, filho de uma cachorra,” gritou e levou-me ao uáli. Lá deram-me inumeráveis chicotadas até que perdi os sentidos. Enquanto estava inconsciente, chamaram um barbeiro que me castrou completamente. Acordei um eunuco de verdade, e ouvi meu amo dizer: 

“Destruíste coisas que me eram muito caras, e eu destruí coisas que te eram muito caras.” 

Depois, levou-me ao mercado e vendeu-me por um preço superior ao que tinha pago por mim porque eu já era um eunuco. Continuei a causar danos com minhas mentiras anuais. Mas sinto-me bastante enfraquecido desde então.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
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