segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Aparecido Raimundo de Souza (Infância)

“Tanto vai a nada a flor, que um dia se despetala”.
Guimarães Rosa
QUEM PODERIA imaginar uma loucura dessas? Eu desejava plantar uma semente de urubu no fundo do quintal lá de casa para ver se nascia uma ave igual às muitas que avistava da janela do carro de papai, quando ele vinha me buscar no final de semana, para eu ficar com ele em seu apartamento, na capital. Há curto tempo, ele havia se separado de mamãe e, desde então, passei a dividir as loucuras do vaivém incessante, entre a cidade barulhenta e a roça, esta despojada dos espetáculos que enchiam meus olhos de menino a uma semana no albor dos oito anos.

Tinha verdadeira adoração por meu pai. Ele era o meu herói de todas as horas. O homem forte que lutava com dragões gigantes e vencia as batalhas mais difíceis e impossíveis. Pouco acima da linha dos trinta, profissional conceituado na firma onde trabalhava, procurava manter o ritmo de antes, quando ainda vivia com a gente. Não deixava me faltar nada. Do computador moderno ao celular de última geração, do brinquedo mais sofisticado aos jogos de videogames recém-lançados no mercado, sapatos e roupas com as assinaturas das melhores grifes. À mamãe, também fazia graças elegantes, marcando presença constante. Não porque quisesse tê-la de volta, em absoluto. Simplesmente seu coração era grandioso demais e o amor que nutria por nós ultrapassava os limites do mensurável.

Quando o questionava sobre morar novamente embaixo do mesmo teto, ele, muito polidamente, ficava em silêncio. Um silêncio que chegava a ser constrangedor. Despistava, mudava de assunto e, por fim, para não me deixar totalmente sem resposta, inventava uma desculpa esfarrapada, mas que, bem sabia, não convencia meu ego interior, sedento de alguma coisa mais concreta.

Eu era uma figura esguia, porém franzino e tímido, alvo fácil dos guris mais corpulentos, que, vez por outra, inventavam de querer esperar por mim na porta da escola, para me descerem a lenha nos costados. Chamavam-me de “galinho rico,” porque a melhor mochila era a minha, como a calça do uniforme e o tênis. Enfim, implicavam até com a merenda que eu levava na lancheira. Por isso, tinha raiva deles, um ódio mortal, um sentimento que, se pudesse ser posto à prova, aniquilaria a todos só com a força do pensamento.

Quem sabe fosse essa a razão maior de eu querer plantar uma semente de urubu lá nos fundos do terreno de casa. Se pudesse comandar a ave, como num jogo, certamente não pensaria duas vezes para ordenar que arrancasse o couro daqueles molecotes desgraçados e depois deixaria que o bicho devorasse suas carnes fedorentas até atingir os ossos. Não sabia claro, que os urubus não matam apenas se alimentam de carniça. E mais: desconhecia o princípio da vida. Eles não nasciam de sementes jogadas na terra, como se fossem plantinhas caseiras que floresciam e se tornavam adultas com o passar dos dias. O processo era um pouco mais complexo, e a sua formação estava muito aquém dos meus conhecimentos limitados.

Mas o dia de hoje tinha um motivo a mais para ser comemorado. E não somente pelo fato de papai ter vindo me buscar na roça. Uma satisfação profundamente marcante regozijava meu mundo de criança mimada: o aniversário dele. Essa data não poderia passar em branco. Mamãe, dias antes, comprara um presente requintado para que lhe fosse dado. Nunca me senti tão próspero — apesar da pouca idade —, tão orgulhoso de mim, em poder retribuir à altura tudo de bom que recebia daquele homem de cabelos cortados à militar, vestido a rigor, impecável em ternos de linho, com motorista particular que abria e fechava as portas do carro e fazia reverências engraçadas.

E mamãe? O que dizer dessa mulher maravilhosa que preenchia o meu outro lado? Se papai era o corpo sólido, ela, evidentemente, se constituía no espírito materializado, na beleza angelical e pura, na santa que venerava todas as horas, de modo incansável. Mamãe era como uma bebida gostosa, um vinho raro e doce que embriagava os lábios. A fruta apetitosa que saciava a fome, a zelosa que distribuía carinhos e atenções especiais. 

Entretanto, com todos esses atributos, mamãe não passava de uma criança abandonada. Às vezes, eu sonhava que ela havia sido deixada por alguém que eu não distinguia bem a fisionomia. Seriam os pais dela, meus avós maternos? Ou será que ela não conhecera, ou mesmo, não tivera os pais? O fato é que a via dentro de um cesto, largada à sorte, abandonada ao relento, à frente de uma casa humilde e de um bando de transeuntes que passava ao largo da rua e lhe virava o rosto, indiferente à sua solidão.

Embora lutasse para parecer alegre, no fundo algo me dizia que um vazio muito grande embaraçava seus passos. E por que se separou de papai? Por que a vida deles, a dois, não deu certo? Dava vontade, às vezes, de sentar em seu colo e perguntar, indagar, conversar como adulto, como gente grande. Contudo, nas poucas oportunidades em que ensaiei partir para o assunto, ao me aproximar, sentia-a temerosa, intranquila, afogueada, tal como uma dessas muitas criaturas que vivem pelas ruas, perdidas, vegetando a contragosto, presas a esmolas e restos de comidas, como mendigos nas sinaleiras.

Agora, esperaria a hora oportuna para entregar o presente. Mamãe fizera uma manobra rápida para que o embrulho em papel vermelho com um laço discreto chegasse ao porta—malas sem que papai desse conta. Foi fácil. Não enfrentamos embaraços. Do nosso lado, dando uma força, o bondoso Eugênio, o motorista. Assim que saímos, vi pelo retrovisor que me dera uma piscadela, acompanhado de um sorriso de cumplicidade.

Finalmente chegamos à capital. Amava o burburinho dessa metrópole gigante, os ônibus, as pessoas de um lado para outro, atormentadas com seus afazeres. Semáforos demorados, a fila interminável de automóveis de todos os tipos e cores, buzinas, gritarias, a vida fluindo rápida, engolindo os minutos. Num dado momento papai se virou para o meu lado e perguntou:

— Com fome?

Balancei a cabeça afirmativamente. Algumas quadras à frente, paramos num restaurante em que já havíamos estado anteriormente uma dezena de vezes. Uma moça solícita, logo que reconheceu papai, veio ligeira, ao nosso encontro, abrindo passagem e indicando um dos imensos salões luxuosos. Assim que nos sentamos à mesa, e depois de pedido meu prato preferido (o garçom sabia de cor, nunca mudava), disse que precisava ir ao banheiro. Uma mentira convencional. Na verdade, corri para os fundos do prédio onde havia uma saída para o estacionamento.

Eugênio, em pé, ao lado do carro (como a me esperar) se apressou a abrir o porta-malas e de lá me ajudou a retirar o misterioso embrulho. Quando retornei, papai falava ao celular, de costas para mim. Fui me aproximando, devagarinho, pé ante pé, a respiração contida, um sorriso largo, o coração batendo acelerado:

— Pai!

Ele se virou, interrompeu a ligação com um “Te ligo depois,” se levantou, colocou o aparelho sobre a mesa, abriu os braços e caminhou ao meu encontro. Dois passos, apenas:

— Campeão o que é que temos por aqui?

Acocorado, me beijou longamente a testa.

Naquele instante, todos os que estavam acomodados em mesas à volta, pararam para nos observar. Ouvimos de repente uma aclamada salva de palmas. Se tivesse combinado com alguém, aquela recepção momentânea, certamente não teria dado tão certo.

— Por essa, seu pai não esperava. A cada dia você me surpreende. Obrigado, filho.

Fez uma reverência com a cabeça, em agradecimento às palmas recebidas, e, em seguida, voltamos a nos sentar. Antes do primeiro gole de refrigerante, enquanto desembrulhava a enorme caixa com a velocidade febril que atropelava a sua idade, me virei para ele e comecei a falar. Tudo o que havia em volta da gente me dava à impressão de estar em estado de suspensão, de enlevo e de graça. Eu sentia que os pratos, os copos e os talheres postos sobre a mesa vibravam com a nossa presença.

— Queria dizer uma coisa — falei com efusão —, mas não sei como começar. Só sei que amo muito o senhor e quero que o senhor nunca se esqueça de mim.

Papai se deixou envolver, encantado pela felicidade que sentia. Capturei duas lágrimas rolando pelo canto dos olhos, escorrendo ligeiras por sobre as maçãs do rosto. Parecia embalado por um doce acalento, ao tempo que lutava, com todas as forças, para fugir de lembranças e melancolias amargas que o definhavam interiormente. Nesse instante, embora não entendesse muita coisa do mundo dos adultos, vi diante de mim um homem forte, mas sozinho, senhor absoluto de si, mas desprotegido, dono da verdade, mas amargurado. 

Desorientado no espaço, como se tivesse perdido a noção do essencial e se sentisse, por isso, preso nos laços do impenetrável de seus pensamentos mais lúgubres. Recordo que não consegui conter a emoção e me abri num choro soluçante que demorou a passar. De súbito, ele deu comigo a observá-lo. Nossos olhos se encontraram. Ele se perturbou. Constrangido, vacilou, ameaçou baixar a cabeça, mas acabou sustentando o olhar e enfim se abriu num sorriso mágico.

— Você será sempre o meu campeão. Não importa quanto tempo passe, jamais deixarei de amá-lo. Você foi, é, e sempre será o presente mais bonito que recebi lá do céu. E sabe de uma coisa? Só posso agradecer à sua mãe por isto e também por este momento. Acredite meu filho, ele será eterno.

Após essas palavras, me abraçou novamente e tomou as minhas mãos entre as suas. Até hoje, tantos anos depois, guardo, ainda, dentro de mim, o encanto e a magia daquele instante, como se fosse único e verdadeiro. Aliás, foi realmente único e verdadeiro, puro, como seu gesto bucólico de pegar as minhas mãos e de aninhar minha cabeça contra seu peito, e eu me lembro, me lembro, que me senti feliz e seguro — seguro e feliz - ouvindo as batidas descompassadas do seu coração.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Texto integrante de “Travessuras de Mindinho e Fura-Bolos (Textos para se ler dentro do ônibus escolar)”, de autoria de Aparecido.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

domingo, 24 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 79 *


Trova de
DOMITILLA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

Numa página, a saudade;
no verso – não tem escolha –
quase sempre a mocidade
faz parte da mesma folha!…
= = = = = = = = =  

Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Apelo da Poesia

Meus versos são ecos que soam,
que tangem quais vozes de um sino;
vêm d'alma desejos que entoam
compassos sagrados de um hino.

É a voz que o deserto sacode,
o orvalho que rega a aridez,
a mão carinhosa que acode,
o braço que dá altivez.

Poema que canta a esperança
e clama com fé pelo amor,
suplica que reine pujança
ao fraco, infeliz sofredor.

Meus versos agora são gritos
que amainam humildes plebeus;
quer paz, quer bonança aos aflitos,
— poesia é apelo de Deus.
= = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ

A despedida foi breve
e o nosso adeus sem afrontas...
Mas a saudade se atreve
a vir cobrar velhas contas!
= = = = = = = = =  

Soneto de
ANÍBAL BEÇA
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Olhar

As grades que me prendem são teus olhos,
aquática prisão, cela telúrica,
liana que me enrosca e me desfolha
no tronco tosco dessa árvore lúbrica.

No sol de Gláucia apenas me recolho
e, sendo assim, o sido se faz público
num pelourinho aberto com seus folhos
zurzindo seu chicote em gestos lúdicos.

Perau de feras, circo de centelha
regendo as águas tépidas de escamas
no fogo da (a)ventura da parelha.

Tudo em suor e sal o amor proclama:
No mar do teu olhar a onda se espelha
na chama que me queima e que te inflama.
= = = = = = = = =  

Trova de
ARLINDO BRITO
Felgueiras/Portugal

És rainha. És soberana.
Porque só, por teu anelo,
a nossa humilde choupana
tem nobreza dum castelo.
= = = = = = = = =  

Poema de
SILVIAH CARVALHO
Manaus/AM

Noite e Dia…

Existe uma passividade que de forma alguma é indolência
A calma viva que nasce da confiança na Força
que existe em nós, que nos torna capazes de vencer
ou nos adaptarmos as circunstâncias
A vida não está sob seu controle
mas se não administrá-la, ela será seu algoz

Tensão quieta não é confiança
consciência exausta não é o exercício da fé
Em tempo de incerteza, espera.
Não se subestime você é capaz
Há corações como raras flores,
que só se abrem nas sombras da vida
Não se precipite o tempo de cantar há de vir
  Você terá paz

A fé põe sua carta no correio
a desconfiança a segura
E questiona, porque a resposta não veio?
Se ainda carregas o seu fardo
seu esforço foi em vão, e suas cartas
 não terão finalidades se não saírem de suas mãos

Seu valor é mais alto do que supunha seus adversários
Quem dera pudesse ver!
Diamantes são embrulhados em pacotes grosseiros
para que ninguém saiba do valor que está ali dentro
na verdade há tesouros escondidos em você

Não se habilite em começar sem acabar
assim será hábil em fracassar.
Bens preciosos são os adquiridos com esforço,
lágrimas e dor, ainda que com o tempo eles pereçam
deixarão em nós lembranças como cicatrizes de valor

Qualquer situação pode ser mudada
se tiverdes equilíbrio e paciência
Então, suporta os açoites
espere pelo Dia,
Mas antes, enfrente e vença sua Noite.
= = = = = = = = =  

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Quando a vida se distrai
ou dá tudo ou tudo nega;
Rico, pega o carro e sai...
pobre sai – e o carro pega!
= = = = = = = = =  

Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Sinto o sangue gelar-se-me nas veias
(José Barreto, in "Cânticos de Paixão e Outras Cores", p, 24)

Sinto o sangue gelar-se-me nas veias
Quando no peito morre uma esperança
Ou se solta um cabelo de uma trança
Onde o ouro brilhava sem ter peias;

E quando a luz que havia nas ideias
Se extingue sem deixar qualquer herança
Que no futuro seja uma lembrança
Dos povos que cantaram epopeias.

E o meu corpo minado pelo frio
Ganha a dureza gélida de um rio
A que os polos dão alma de glaciar.

Sou branca massa de água deslizando
Que sobe um mar de mágoa abominando
Onde eu não sou capaz de me afogar.
= = = = = = = = = 

Trova de
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016

Nos mistérios deste outono,
as folhas caindo ao chão,
tecem colchas de abandono
que envolvem minha ilusão!
= = = = = = = = =  

Poema de
AFONSO FREDERICO SCHMIDT
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP

Cubatão

Minha terra não passa de uma estrada,
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.

O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latão de um velho balde,

Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pálidas que vêm da escola.

Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que são jacatirões — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.

A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visões amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas…
= = = = = = 

Trova de
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ

Celular eu não tolero
desde um pré-pago que eu tinha,
que tocou “Mamãe eu quero...”
no velório da vizinha!
= = = = = = = = =  

Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/ SP

Predestinado

Passo a passo, vivendo solitário,
– predestinado para o sofrimento,
vou subindo o meu íngreme calvário
sob o peso da mágoa e do tormento.

R como um sonhador,  no mundo vário,
procuro paz, amor, contentamento,
mas no meu tortuoso itinerário
só encontro amargura e fingimento.

E a esperança da vida vai passando,
e eu descrente de tudo vou ficando,
na solidão que o mundo me ofertou;

mas a poesia, doce companheira,
está sempre comigo a vida inteira,
dando-me a paz que a sorte me negou!
= = = = = = = = =  

Haicai de
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Ora é torcicolo, 
ora é coluna, é pressão...
Ah, os novent'anos. 
= = = = = = 

Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN+

Mistério 
(à memória do pequeno Alberto)

Sei que tu' alma carinhosa e mansa
Voou, sorrindo, para o Azul celeste;
Sei que teu corpo virginal descansa
Aqui da terra n'um cantinho agreste

Tudo isto sei: mas tu não me disseste
Se lá no Céu, na pátria da Esperança,
Ou aqui no mundo, à sombra do cipreste,
Deixaste o coração, loura criança!

Desceu acaso com o corpo à terra
Ele tão puro e que só luz encerra?
Não creio nisso e ninguém crê de certo...

Enquanto, eu cismo que, num vale ameno,
Talvez o seio de um jasmim pequeno
Sirva de berço ao coração de Alberto.
= = = = = = 

Trova de
ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA E SILVA 
Piquete/SP, 1942 – 2023, Caçapava/SP

Fracasso não me intimida,
bom ator, sou pertinaz,
repiso o palco da vida
com novo sonho em cartaz…
= = = = = = = = =  

Hino de 
BELA VISTA DO PARAÍSO/ PR

Bela Vista do Paraíso,
O Paraná te viu nascer,
Terra vermelha, povo valente cheio de vida.
Predestinada a crescer e vencer.
Acolhedora é a tua tradição
Fertilidade é tua vocação

Bela namorada eterna bela é
Vista de beleza infinita
Paraíso dos nossos sonhos
Porto seguro da nossa vida

Dos desbravadores, uma profecia,
Serás princesa, serás rainha.
Serás orgulho, serás amada.
Serás eternamente alegria.
És a filha preferida da natureza,
Teu nome é fartura,
Teu sobrenome é beleza.

Bela Vista do Paraíso.
Nossa homenagem é nosso louvor
Nossa gratidão é o nosso amor!
= = = = = = = = =  

Trova de
VASCO DE CASTRO LIMA 
Rio de Janeiro/RJ, 1905-2004

Embora vivas cantando,
canário, tens vida triste:
- já vi lágrimas pingando
nessa vasilha de alpiste!
= = = = = = = = =  

Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

Dissipando o Silêncio

O silêncio do inverno se dissipa
ao brotarem as flores do jardim,
e o gorjeio do pássaro antecipa
as lembranças do cheiro de alecrim.

Deixemos as saudades nos levar
pelas trilhas de outrora, mas voltemos
a contemplar as flores a brotar,
alegrando o ambiente onde vivemos.

O repicar dos sinos na alegria
de ter uma família que nos ama...
Na falta dela pense... o que seria!

Essa melancolia que ora brota,
são apenas momentos de uma dama
cheia de sonhos lindos, ninguém nota.
= = = = = = = = =  

Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Quando a penumbra descia,
a nossa emoção vibrava,
sonhando o que não dizia,
dizendo o que nem sonhava!…
= = = = = = = = =  

Lengalenga de Portugal
Pia, Pia, Pia
 
Pia, pia, pia,
 O mocho
 Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo,
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia…
= = = = = = = = =  

Quadra Popular 

Tal desgraça não se evita,
até parece uma lenda:
meu amor faz tanta fita
e compra fita na venda.
= = = = = = = = =  

Poema de
Vanice Zimerman
Curitiba/PR

Colar de Pérolas...

Com as pérolas do colar
Desenhei um coração
E num piscar de olhos
Senti teu coração  bater
Juntinho a mim…
= = = = = =

Trova de
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Num show que bem poucos olham,
no palco das noites calmas,
chuvas de estrelas não molham,
mas lavam as nossas almas…
= = = = = = = = =  

Mensagem na Garrafa 145 = O céu, o inferno e a amizade


AUTOR DESCONHECIDO
O céu, o inferno e a amizade

Um homem, seu cavalo e seu cão, caminhavam por uma estrada. Depois de muito caminhar, esse homem se deu conta de que ele, seu cavalo e seu cão haviam morrido num acidente.   

Às vezes os mortos levam tempo para se dar conta de sua nova condição. A caminhada era muito longa, morro acima, o sol era forte e eles ficaram suados e com muita sede. Precisavam desesperadamente de água.

Numa curva do caminho, avistaram um portão todo magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada com blocos de ouro, no centro da qual havia uma fonte de onde jorrava água cristalina.

O caminhante dirigiu-se ao homem que numa guarita, guardava a entrada.

- Bom dia, ele disse.

- Bom dia, respondeu o homem.

- Que lugar é este, tão lindo?, ele perguntou.

- Isto aqui é o céu, foi a resposta.

- Que bom que nós chegamos ao céu, estamos com muita sede, disse o homem.

- O senhor pode entrar e beber água à vontade, disse o guarda, indicando-lhe a fonte.

- Meu cavalo e meu cachorro também estão com sede.

- Lamento muito, disse o guarda. Aqui não se permite a entrada de animais.

O homem ficou muito desapontado porque sua sede era grande. Mas ele não beberia, deixando seus amigos com sede. Assim, prosseguiu seu caminho.

Depois de muito caminharem morro acima, com sede e cansaço multiplicados, ele chegou a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha semi-aberta.

A porteira se abria para um caminho de terra, com árvores dos dois lados que lhe faziam sombra. À sombra de uma das árvores, um homem estava deitado, cabeça coberta com um chapéu, parecia que estava dormindo:

- Bom dia, disse o caminhante.

- Bom dia, disse o homem.

- Estamos com muita sede, eu, meu cavalo e meu cachorro.

- Há uma fonte naquelas pedras, disse o homem e indicando o lugar. Podem beber a vontade.

O homem, o cavalo e o cachorro foram até a fonte e mataram a sede.

- Muito obrigado, ele disse ao sair.

- Voltem quando quiserem, respondeu o homem.

- A propósito, disse o caminhante, qual é o nome deste lugar?

- Céu, respondeu o homem.

- Céu? Mas o homem na guarita ao lado do portão de mármore disse que lá era o céu!

- Aquilo não é o céu, aquilo é o inferno.

O caminhante ficou perplexo.

- Mas então, disse ele, essa informação falsa deve causar grandes confusões.

- De forma alguma, respondeu o homem. Na verdade, eles nos fazem um grande favor. Porque lá ficam aqueles que são capazes de abandonar até seus melhores amigos.

Fontes: 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

José Feldman (A estrada e o coração)

Texto construído tendo por base a trova de Luiz Poeta (Luiz Gilberto de Barros) (Rio de Janeiro/RJ)
Na saudade intransigente,
o coração se revolta;
a estrada diz: – Segue em frente;
o coração pede: - Volta!

Era final de tarde quando Antero estacionou o carro no acostamento. O horizonte, tingido pelos tons dourados do pôr do sol, parecia tão distante quanto a paz que ele buscava. Naquela estrada deserta, as lembranças pesavam mais que a mala no porta-malas. Ele olhava fixamente para o asfalto que se perdia no infinito, como se esperasse que a resposta para sua inquietude surgisse na próxima curva.

Antero estava fugindo. Não de algo visível, mas de um vazio que havia tomado conta dele. Havia decidido, quase por impulso, deixar tudo para trás: o emprego, os amigos, a cidade. "É melhor recomeçar em outro lugar", dissera a si mesmo enquanto arrumava a bagagem. Mas agora, sozinho no meio do nada, a dúvida o corroía. Será que estava fazendo a coisa certa? Será que era possível deixar para trás o que o coração insistia em guardar?

Lá estava ela, a saudade. Intransigente, como sempre, invadindo cada pensamento. Fechava os olhos e via Márcia. O sorriso dela, o jeito como prendia o cabelo, as risadas que ecoavam pela casa. Tudo parecia tão perto, mas era inalcançável. 

Márcia tinha partido. Não por desamor ou desavença, mas porque a vida, com sua maneira cruel de agir, havia decidido que era hora de levá-la para sempre. Um acidente, um instante, e tudo o que Antero conhecia como felicidade havia se despedaçado.

Desde então, a saudade era sua companheira constante. E a saudade, ele descobrira, não era apenas um sentimento… era uma presença. Ela tinha cheiro, som e até peso. Era teimosa, não aceitava explicações, ignorava o tempo e se recusava a partir. Ele sentia que, a cada quilômetro que dirigia, a saudade ficava mais forte, como se o coração dele estivesse preso a um elástico invisível, puxando-o de volta.

Ele desceu do carro e se sentou na beira da estrada. O vento quente tocava seu rosto, mas não trazia consolo. Olhou para o horizonte mais uma vez, como se a estrada pudesse responder àquela luta interna que o consumia. A razão lhe dizia: "Segue em frente. É o único caminho." Mas o coração, rebelde e insistente, sussurrava: "Volta. Volta para onde tudo começou, para onde está o que te resta dela."

Antero pegou do bolso uma foto amassada de Márcia. Era do dia em que haviam feito uma viagem juntos, a primeira de muitas. Na imagem, ela sorria, com o cabelo bagunçado pelo vento e os olhos brilhando. Ele lembrou-se de como ela adorava dizer que as estradas eram metáforas da vida: "Elas sempre levam a algum lugar, Antero. Mesmo que a gente não saiba para onde."

"Mas e quando a estrada não faz sentido?" ele perguntou em voz alta, como se ela pudesse ouvi-lo. O eco de sua voz foi a única resposta.

O tempo passou devagar enquanto ele permanecia ali, imóvel, entre o passado que o puxava e o futuro que o empurrava. Até que, num momento de quietude, algo mudou. Ele percebeu que a saudade não era a inimiga. Ela era, na verdade, uma prova de que Márcia ainda vivia dentro dele, nas memórias, nos gestos, nos sonhos que haviam compartilhado. A saudade não era para ser combatida, mas entendida.

De repente, a estrada à sua frente parecia menos ameaçadora. Talvez ela estivesse certa; as estradas sempre levam a algum lugar. Talvez o futuro não fosse um abandono do passado, mas uma continuação dele. Ele levantou-se, respirou fundo e olhou uma última vez para a foto. Guardou-a no bolso, entrou no carro e ligou o motor.

Dessa vez, não era nem o coração nem a razão que o guiavam. Era Márcia, em cada lembrança, em cada saudade. Ele sabia que nunca a deixaria para trás, porque ela era parte dele — parte do caminho, parte da estrada.

E assim, com um misto de dor e esperança, ele seguiu em frente.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Caleidoscópio da Vida. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Eduardo Martínez (A isca)

Creio que todos nós temos nossos medos. Pois bem, também cá tenho os meus: tortura, fascismo, milícia. Já de tubarão, confesso que não sinto medo. Tenho mesmo é pavor!!! 

No entanto, até como um possível contrassenso, adoro praia. E foi justamente por conta disso que desenvolvi na minha mente covarde a técnica da isca. E confesso que a utilizo até mesmo na praia de Copacabana, onde nunca houve um ataque de tubarão. Aliás, esse lance de nunca talvez seja um exagero, mas não sei ao certo.

Mas o que seria essa tal técnica da isca? É bem simples: toda vez que vou entrar na água, sempre observo se há outras pessoas tomando banho. Então, entro quase não aparentando medo. Obviamente que dou aquela molhada nos pés e nos pulsos, como se estivesse preparando o meu corpo para as diferenças de temperaturas entre a água e o ar, que no Rio são gritantes. 

Pura interpretação de alguém tentando disfarçar o pavor de dar um mergulho entre as ondas, já que não consigo tirar da mente que logo ali vai ter um bicho de não sei quantos metros, com a boca cheia de dentes afiados, querendo atacar justamente este que escreve essas palavras tão covardes. Sou mesmo covarde!!! Nossa, que liberdade poder escrever que tenho pavor de tubarão!

Todavia, estou aqui para contar a técnica que desenvolvi. Pois bem, nunca sou o cara mais distante na água. Aliás, chamo esse indivíduo corajoso de isca. É simples assim, pois tive que desenvolver, na minha imaginação doentia, um artifício para conseguir dar aquele mergulho na praia. 

Por isso, penso que, caso haja um tubarão por perto, ele vá preferir degustar as carnes justamente daquele outro humano que fica lá no fundo. Seja como for, agradeço todos os dias por existirem muitas iscas, algumas mais corajosas que outras. Sem elas, eu não colocaria nem a pontinha do meu pé na água e, provavelmente, teria que levar um baldinho para poder me molhar ali mesmo na areia da praia.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.
Fontes:
Blog do menino Dudu. 28.02.2022
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/02/o-isca.html 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Figueiredo Pimentel (Um raio de sol)

Uma formosa manhã de maio, limpa, alegre, fresca, perfumada, é um dos maiores encantos da natureza.

Em uma dessas lindas manhãs de primavera, bem cedo, ainda à hora em que o sol se faz anunciar pelos seus primeiros raios, Helena, ainda dormia! Como sorri em algum sonho alegre! Ainda ninguém entrou no quarto dela, e apesar disto, a Heleninha já hoje recebeu um beijo. Quem foi então, que lhe deu? Algum passarinho que entrasse pela janela? Não! A janela está fechada. Foi um raio de sol que, penetrando por uma fenda passou nos lábios de Helena, e ficou todo espantado por encontrar uma menina ainda a dormir. Mas, de repente, Helena acorda, esfrega os olhos, relanceia a vista por todos os lados para ver quem a acordou, e dá com o raio de sol.

— Raiozinho brilhante, disse-lhe ela, tiveste muito juízo em me vires visitar. Aposto que estás levantado há muito tempo. Quem sabe mesmo se já trabalhaste muito esta manhã?

— É verdade que sim, respondeu o raio, já hoje trabalhei muito. Quando meu pai me despede não dá licença para que me divirta, e tem razão, porque eu, quando estou mais contente, é quando trabalho.

— Teu pai? Mas quem é teu pai?

— É o sol. Mora lá em cima, muito alto, no céu. É tão grande, tão grande, que não poderia vir à terra, por isso manda os filhos em seu lugar. Os filhos são os raios do sol meus irmãos, que à minha semelhança, alumiam e aquecem a terra.

— Mas, tornou Helena, teus irmãos poderiam entrar contigo no quarto?

— De modo nenhum, a fenda era estreitíssima. Só eu pude passar. Os outros raios ficaram lá fora, estão alumiando a fachada da casa. Agora, se tu quiseres abrir a janela, entrarão contentíssimos em teu quarto.

— Ainda não, disse Helena, eu queria que tu, antes disso, me contasses tudo o que tens feito e o que viste no teu passeio esta manhã.

— Oh! Já vi muitas coisas. Não te posso contar todas; mas, se gostas dir-te-ei algumas. Quanto rompi da montanha, entrei numa floresta, e dei claridade a uma família de cotias que se recolhiam à toca, e pareciam alegríssimas, naturalmente tinham dançado toda a noite em algum gramado. Na mesma floresta alumiei um ninho de sabiás negros. A mãe, mal me viu, acordou o marido, depois os filhinhos, e todos a um tempo, principiaram a cantar. Interei aluminar também um besouro muito velho, mas escondeu-se logo debaixo de uma folha, por me não querer ver. Por volta das cinco horas entranhei-me numa sebe à borda da estrada e fiz desabrochar uma formosa trepadeira, cor-de-rosa e branca. Quando cheguei, ainda estava toda fechada, mas apenas a aqueci, logo se abriu, eu fiquei alegríssimo ao observá-la. Na mesma sebe alumiei uma aranha que estava a tecer a teia, espero que ninguém a destrua, porque levou muito tempo, e teve muito trabalho em a tecer. Mesmo ao pé, fiz brilhar as gotas de orvalho suspensas nas vergônteas das ervas, ajudei uma pitanga amadurecer e aqueci uma mosca. Ainda fiz muitas mais coisas, amanhã as contarei. Agora, já é tarde, é mais que tempo de te levantares.

— Oh! por quem és, conta-me ainda mais alguma coisa, disse a pequenina. Não vistes crianças esta manhã?

— Ora, se vi! E muitas! Levantaram-se bem cedo. A Luizinha, ainda não eram seis horas, já estava a dar de comer às galinhas, ao mesmo tempo que a leiteira saía para a cidade. O Joãozinho levava as cabras para o pasto, em companhia do pai, que ia ceifar erva! Ah! Já me esquecia dizer-te que muitas vezes trabalho ajudado pelos meus irmãos; sozinho não poderia muito. Agora, uns com os outros, amadurecemos os trigos e as frutas todas, de que tu gostas tanto, aquecemos as costas da avó da Luizinha, que estava sentada no pátio, e secamos uma camisa e uma touca, que estão penduradas na corda. Ai! Ai! Que tenho falado muito! É tempo e retempo de te vestires e de te pores a trabalhar mas sempre te confessarei com franqueza que, se os raios do sol se devem dar por felizes por prestarem luz aos trabalhadores, não gostam muito de aluminar os preguiçosos.

— Lindo raio, obrigada por tantas coisas boas que hoje me ensinaste. Se voltares amanhã, à mesma hora, eu te prometo que não me hás de encontrar na cama; aproveitarei a tua formosa luz para continuar a minha tarefa.

Dizendo isto, Helena levantou-se e foi abrir a janela de par em par. Os raios de sol entraram todos ao mesmo tempo no quarto, e encheram-no de luz. Helena, preparou-se, almoçou, e deu princípio ao seu dia, com a firme intenção de se tornar numa boa trabalhadorazinha.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  
ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL nasceu e morreu em Macaé/RJ, 1869 — 1914 foi além de poeta, contista, cronista, autor de literatura infantil e tradutor. Manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada Binóculo na Gazeta de Notícias. Publicou novelas, poesia, histórias infantis e contos. Um de seus grandes êxitos foi o romance O Aborto, estudo naturalista, publicado em 1893, e por mais de um século completamente esgotado. Como poeta, participou da primeira geração simbolista chegando a se corresponder com os franceses. Era amigo de Aluísio Azevedo, com quem trocou cartas, enquanto o autor de O Cortiço estava fora do país como diplomata. Poeta, romancista, escritor de literatura infantil, ganhou destaque e se perpetuou nos compêndios da literatura brasileira. A coluna Binóculo, assinada pelo autor na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, de 1907 até 1914, obteve grande sucesso entre leitores e leitoras, ditando moda, o que faz de Figueiredo Pimentel o primeiro cronista social da capital. Era ele quem tratava das novidades da moda, do bom gosto, do chique em voga em Paris e que deveria ser aqui aclimatado. Obras: Fototipias, poesia, 1893; Histórias da avozinha, conto - somente em 1952; Histórias da Carochinha; Livro mau, poesia, 1895; O aborto, 1893; O terror dos maridos, romance e novela, 1897; Suicida, romance e novela, 1895; Um canalha, romance e novela, 1895.
Fontes:
Alberto Figueiredo Pimentel. Histórias da Avozinha. Publicado originalmente em 1896. 
Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing