quinta-feira, 5 de março de 2026

Asas da Poesia * 157 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

As não palavras

Máquinas e pássaros
compartilham as alturas.

Asas metálicas
contra penas multicoloridas.

Os pássaros, quase,
não têm céu.

Seus olhos, gotas de mel,
observam objetos polimórficos.

A palavra em voo,
o vento a impulsiona.

E os versos vibram
com o calor do verbo.

Um poema que quebra o vento
é celebrado pelo bater rítmico das asas.

Na biblioteca dos pássaros,
só existe poesia.

E a brisa carrega
as palavras incompletas.
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Poema de 
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

E o mar veste-se com a doçura do rio
Desaguam as lágrimas
expandem-se na margem os lamentos
E as vozes são ondas em sobressalto
Na areia desmaiam as palavras
uma a uma sem pressa
com toda a sua verdade
na sinceridade que transportam
entranham-se nos grãos de areia
que esperam pacientemente por uma resposta
São segredos que o mar transborda
Estrelas do mar que se transformam
Sonhos coloridos
Vibrantes nas brumas do vento norte
Cada sonho tem a sua sorte,
desmaia ou realiza-se nos olhos de quem o sonhou
Sorrisos que ecoam
Lágrimas que secam
E voam 
Será que voltam para sonhar?

Na onda a esperança de um sorriso 
que de longe alcança os olhos 
que se querem fechar na noite inquieta 
e que se questionam se vale a pena tentar! 
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Meu Pai...
(O soneto que ele não teve tempo de ler)
      
Quando te vejo, assim, domando a vida,
com a fibra invulgar do cavaleiro
que não teme as corcovas da subida,
nos reveses e quedas, altaneiro...
 
cabeça branca, face já curtida 
pelo tempo e inclemência do roteiro,
velho e valente, fronte sempre erguida,
que a rude estrada forja o caminheiro...
 
mesmo que eu queira te dizer o tudo
que na alma eu sinto, meu falar é mudo,
minha voz na garganta se retrai!

Assim... faço dos versos o ofertório...
do coração, um cálido oratório...
e neles rogo a Deus por ti, meu Pai! 
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Poema de
PEDRO DU BOIS
(Pedro Quadros Du Bois)
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC 

Futuro

Não havia o traço esbranquiçado
rasgando o firmamento, nem a britadeira
e o caminhão misturando cimento e areia:

manualmente transportados
manualmente contados
manualmente colocados
blocos de pedras
superpostos
sobrepostos
erguiam paredes
em pequenos arcos
de telhados

sobre o topo o homem
sonhava traços de fumaça
cortando o firmamento.
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Trova Popular

Menina você me espera,
deixa correr esta sorte,
não temas, que serei firme
até na hora da morte.
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Soneto de 
LINDA LACERDA
Montanha/ES

Soneto da flor da infância

 Eu me lembro, eu me lembro, doce perfume da flor!
 Brancas gotas perfumadas e tinham cheiro de amor...
 Inebriavam as noites, da minha infância perdida,
 Uma cascata verde e branca no verde da minha vida...

 Lua serena no céu, a embranquecer minha ruazinha,
 Sem saber que o jasmineiro por me ver assim sozinha,
 Eu menina inocente, a me embalar em seus galhos,
 Flores lançava aos meus pés, qual fina colcha de retalhos... 

 Foram-se meus verdes anos, cirandas e brincadeiras,
 A doce lembrança da infância, da juventude que passou...
 Joia que o tempo levou em leves asas ligeiras...

 De menina me fiz mulher, mas na memória ainda há dor
 Da doce lembrança dos dias, das minhas tardes trigueiras
 Quantas saudades eu sinto, meu jasmineiro em flor!
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Décimas de
SIMPLÍCIO PEREIRA DA SILVA
Ceará

Galope por Dentro do Mato

Companheiro, eu do mar não conheço nada, 
Nunca fui à praia e menos ao banho, 
Pois o mar é um lago pra mim tão estranho, 
Que parece até um mistério de fada... 
Eu gosto bastante é de uma caçada, 
Lá no meu sertão, muito embora que ingrato! 
Pra você não pensar que estou com boato: 
Uma meia hora vamos pelejar...
Pegue lá seu peixe por dentro do mar, 
Que vou caçar peba por dentro do mato.

No sertão, à caçada, eu fui certo dia, 
Num mato fechado, bem desconhecido, 
Mas eu, na caçada, fui meio atrevido; 
Chegando no mato, o sol já pendia ... 
Tinha onça por praga, e eu não sabia; 
Saí pisando devagar no sapato; 
Senti um mau cheiro, pensei que era gato. 
Quando vi a onça e a onça me viu: 
O corpo tremeu e meu rifle caiu... 
Foi carreira feia por dentro do mato!
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Soneto de
JORGE DE LIMA
União dos Palmares/AL (1893 — 1953) Rio de Janeiro/RJ

Velho tema, a saudade

Quem não a canta? Quem? Quem não a canta e sente?
— Chama que já passou mas que assim mesmo é chama...
A Saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e me fascina e chama...

Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe... uns sorrisos de dama...
..Um segredo de amor que se desfaz e mente...
Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama?

Olhos postos ao léu, altívagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?

Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
— Faze que uma saudade a ti seja o presente!
— Faze que tua morte uma saudade seja!
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Spina de
ARTUR JOSÉ CARREIRA
São Paulo/SP

Mudos

Encerra por aqui 
Todo aquele vão 
Entre eles, nós.

Pedaço sem farpas, apenas riscos
por toda superfície ainda áspera...
Nada importa, pessoas todas sós,
talvez, em busca por companhias 
antes que, afônicas, percam voz!
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Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS
(Afonso Henrique da Costa Guimarães)
Ouro Preto, 1870 – 1921, Mariana

Soneto da defunta formosa

Temos saudade, pálida formosa,
De tudo quanto o pôr-do-sol fenece:
Ou seja o som final de extrema prece,
Ou seja o último anseio de uma rosa...

E mais ligeiramente a gente esquece
Uma hora que a alma de carinhos goza,
Que de ter visto, em roxa luz saudosa,
Uma imperial tulipa que adoece...

Um lírio doente no caulim de um vaso
Faz-nos lembrar um luar em pleno ocaso
Morrendo ao som das últimas trindades...

E nem eu sei, amor, por que perguntas,
Tu que és a mais formosa das defuntas,
Se eu de ti hei de ter loucas saudades.
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Poema de
CÉSAR VALLEJO 
Santiago de Chuco/Perú, 1892 – 1938, Paris/França

Os Anéis Fatigados

Há ânsias de voltar, de amar, de não ausentar-se,
e há ânsias de morrer, combatido por duas
águas unidas que jamais hão de istmar-se.

Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida,
que acaba na África de uma agonia ardente,
suicida!

Há ânsias de... não ter ânsias, Senhor,
a ti aponto-te com o dedo deicida:
há ânsias de não ter tido coração.

A primavera volta, volta e partirá. E Deus,
curvado em tempo, repete-se, e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo.

Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,
quando me dói o sonho gravado num punhal,
há ânsias de ficar plantado neste verso!
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun do fraterno abraço

TEMA:
O abraço meigo e fraterno,
refletindo nitidez,
no retrato fez eterno
tudo o que o tempo desfez.
Hélio Alexandre 
Natal/RN

PANTUN:
Refletindo nitidez,
guardo ainda por lembrança,
tudo o que o tempo desfez
nesta foto de criança,

Guardo ainda por lembrança,
a paz dos nossos perfis,
nesta foto de criança
que tanto nos fez feliz.

A paz dos nossos perfis,
está na fotografia
que tanto nos fez feliz
nas marcas de cada dia.

Está na fotografia,
A expressão do amor eterno,
nas marcas de cada dia,
o abraço meigo e fraterno.
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Hino de 
MANAUS/AM

Dentre a pompa e real maravilha
Desses belos e grandes painéis
Toda em luz, como um sol surge e brilha
A cidade dos nobres Barés

Grande e livre, radiante e formosa
Tem o voo das águias reais
E eu subir, a subir majestosa
Já nem vê suas outras rivais

Quem não luta não vence, que a luta
Pelo bem é que faz triunfar!
Reparai: O clarim já se escuta!
É a fama que vem nos saudar!

Aos pequenos e aos bons, entre flores
Agasalha e se esquece dos maus
Ninguém sofre tormentos e dores
Nesta terra dos nobres Manaós

Todo o povo é feliz, diz a História
Quando se vê entre gozos sem fim
O progresso passara junto à glória
Em seu belo e dourado coxim!
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Quadrão à Beira Mar* de
DALINHA CATUNDA
(Maria de Lourdes Aragão Catunda)
Ipueiras/CE

O sol empalidecendo
Ondas subindo e descendo
Nossa paixão acendendo
E o barco a sacolejar.
No balanço do veleiro
Um amor aventureiro
Vivi com meu timoneiro
No quadrão à beira-mar.
“Beira mar, beira mar,
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar”
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* De todos os gêneros de poesia popular e cantoria, o Quadrão, que tem a terminação das suas estâncias sempre com o estribilho da sua denominação, tem sido aquele estilo que talvez tenha mais sofrido alterações e adaptações na sua estrutura geral ao longo do tempo. Originariamente, os Quadrões eram compostos em estrofes de oito versos setessílabos, onde rimavam o primeiro com o segundo e o terceiro versos; o quarto com o oitavo; e o quinto verso com o sexto e o sétimo.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O leão doente

Um leão vendo-se enfermo,
Passa aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo,
E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão, e honrá-los.

Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e que o procura:
Porém na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.

Eis uma esperta raposa
Para, e diz, sem que entre lá:
«Xau! Que eu observo uma coisa!
Pegadas mil aqui há;
Mas para lá todas vão,
E nenhuma para cá;

Saúde, senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão;
Porque jurei jamais ir
A qualquer casa ou lugar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair».

Foi reflexão mui sabida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer coisa
Sem ver se temos saída.
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Trovador Homenageado

Rei da Trova
ADELMAR TAVARES 
(Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti)
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

1
A imagem de nossas almas
está nas águas profundas,
quanto mais tristes, mais calmas;
quanto mais calmas, mais fundas.
2
É nossa alma uma criança,
que nunca sabe o que faz.
Quer tudo que não alcança,
quando alcança, não quer mais.
3
Eu vi o rio chorando,
quando te foste banhar,
por não poder, te banhando,
dar-te um abraço, e parar...
4
O laço de fita preta
dos teus cabelos, faceira,
parece uma borboleta
pousada numa roseira…
5
Onde anda o corpo, é verdade,
vai a sombra pelo chão...
É assim também a saudade,
a sombra do coração.
6
Os búzios guardam das águas
do mar, os fundos gemidos.
- Assim fossem minhas mágoas,
guardadas nos teus ouvidos...
7
Quando a trova nos transmite
seu feitiço singular,
a gente lê, e repete,
e depois, fica a pensar...
8
Quando eu morrer, levo à cova
dentro do meu coração,
o suspiro de uma trova,
e o gemer de um violão.
9
Que tens tu, que és tão sombrio,
e hoje a rir, alegre, assim?...
- Mal sabem que só me rio,
porque riste para mim.
10
Saudade - doce transporte
da alma adejante e ferida...
- É viver dentro da morte!
- É morrer dentro da vida!
11
Todo rio na corrente,
busca um lago, um rio, um mar...
Mas o destino da gente,
quem sabe onde vai parar?
12
Vou vivendo a minha vida,
como Deus quer e consente.
- Sou como a folha caída
levada pela corrente…
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 153


A imagem é caseira, embora não seja aqui em casa.  Acordo, levanto, vou à sacada e enxergo o portão de entrada, cadeiras, alguém sentado, o cãozinho companheiro. Vozes da cozinha. Diálogo dos vizinhos.   

Lá dentro é só vida morta - a sala, a TV, quadros, tapetes. Não animam, pouco seduzem, nada de curiosidades. As paredes não falam, o teto é um ausente, os ventares passam ligeiro, ventando em busca da  liberdade ventaneira. 

Ergo o olhar. Uma tela. A porta dos fundos. Pequeno mundo?  Bons caminhos? Não se sabe... Mas talvez... A vida tem tantos lugares que parecem ser o encontro da esperança - bom viver, densas horas, sortilégios benfazejos.

Além daquela porta regurgitam os verdes, as árvores, a horta, os frutos, o sol, cantam os pássaros. Céus, lonjuras, infinitos. Pensares livres, olhos altaneiros, a visão distante. 

Vida plena. Além daquela porta.  
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
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José Feldman (O Trono de Vidro de Arthur)

Texto sobre a expressão "Espada de Damocles"*

Arthur sempre foi um adorador da velocidade. Aos 32 anos, tornou-se CEO da NeoTech, uma startup de inteligência artificial que valia milhões. Ele vivia em uma cobertura triplex, comia nos restaurantes mais caros e viajava de jato particular.

Seu amigo de infância, Marcos, um professor universitário com uma vida pacata, costumava dizer, com certa inveja velada: "Cara, você zerou a vida. Não tem um problema na sua mesa. É só prazer e poder."

Arthur ria. 

"Poder tem seu preço, Marcos. Mas honestamente? Vale a pena."

A "NeoTech" lançou um software revolucionário, mas que lidava com dados sensíveis de forma limítrofe. Arthur sabia que se algo desse errado, o processo seria devastador. Mas o sucesso era tão alto, a bajulação de investidores tão constante, que ele se sentia intocável.

Uma noite, durante um banquete de comemoração da fusão da empresa, Arthur convidou Marcos para a sua cobertura. Enquanto bebiam champanhe caro, Arthur recebeu uma notificação no celular: uma denúncia anônima na agência de regulação e um grupo de hackers ameaçando expor os dados. Era a "espada".

Arthur empalideceu. A mesa estava farta, a música ambiente era relaxante, e ele estava no auge financeiro. Porém, ele sentiu um suor frio na nuca. O fio era invisível: um único erro jurídico, uma quebra de sigilo, e tudo — fortuna, reputação, liberdade — cairia sobre sua cabeça.

Ele olhou para Marcos e disse: "Sabe, Marcos, eu passo meus dias fingindo que sou um rei, mas vivo sob uma espada invisível. Cada curtida, cada contrato assinado, é um centímetro a mais que o fio se desgasta."

Naquela noite, sentado à mesa de jantar, Arthur não conseguiu comer. A ansiedade era um peso no peito. O poder, ele percebeu, não era o prazer de ter; era o medo constante de perder.

Moral: 
A "Espada de Damocles" moderna é a ansiedade que acompanha o poder e a riqueza extrema. Muitas vezes invejamos o sucesso alheio, sem enxergar os riscos iminentes e a falta de paz que sustentam quem está no topo. Viver sem medo é mais valioso do que ter tudo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados e 7 livros em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

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Renato Benvindo Frata (Vade retro!)


Se tristeza é uma charada
que atrasa o tempo da gente,
a vida é longa piada
que manda adiante o presente.

Sexta à tarde, estressado, pensei: "quando voltar, estarão à minha espera aqueles a quem detesto. Maldita Solidão, maldito Tédio." Nesse tempo de recolhimento forçado não é fácil me amoitar no fim de semana com a presença desses indesejáveis.

Tudo vira "um saco"!

Pois tiro e queda! Lá estavam.

Só que exageraram: trouxeram outra personagem: a Ansiedade. E, indisciplinados, esbarraram na minha sombra, me angustiando mais.

"Sexta, com o corpo pedindo banho morno e sossego, obrigar-me a fazer sala a esses doidos, é dose pra leão... Preciso de luz!", pensei.

Não existe coisa pior num fim de semana gasto com visita inconveniente. Então, para me distrair, abri uma garrafa de Merlot e, ao tirar a rolha e sentir o espraiar do aroma especial do vinho, notei que os visitantes se encolheram, olhando-me assustados, o que me levou ao raciocínio de que talvez estivesse ali a solução: "se Solidão, Tédio e Ansiedade se constrangem diante do Merlot, irei usá-lo como antídoto aos seus venenos, claro!"

E, sem muito esperar, enchi logo uma taça bojuda, alta, transparente, dessas que fazem tintim logo na primeira pegada e mandei o conteúdo pro peito em goles grandes, sedentos. O resultado - que esperava - foi a leva de palavrões que as visitas, ao se sentirem afrontadas, por certo proferiram.

Tá bem que somente eu escutei, mas, enquanto reclamavam, servi-me rapidamente da segunda taça e, aproveitando a oportunidade, mandei-a para dentro com uns salgadinhos de queijo, salame, azeitona e petiscos que se leva para casa numa sexta-feira. E aí a coisa pegou: eles se rebelaram prometendo nunca mais voltar.

Bem, é evidente que logo vieram a terceira e a quarta taças e, com elas, a segunda garrafa, que logo foi aberta, a comprovar que na sexta à tarde, na friagem desse ingrato inverno, com um sábado e domingo a enfrentar pelo isolamento que a Covid impôs, nosso autocontrole tem que ter um aliado e, com ele, a estratégia Macbeth: "aos amigos, tudo; aos inimigos, o veneno", Pois "Danem-se esses insolentes!".

Ao sorver a quinta taça (não se deve entrar numa guerra com pouca munição), descobri que o Merlot também guarda segredo: traz em si a alegria que, se puxada como laço como fazem os cowboys, põe-nos brilho nos olhos, riso na cara e gargalhada na garganta. E mais; põe-nos alegria no coração. É um fenomenal espantador de tristeza! A quinta taça de Merlot, pela jovialidade que a envolve, se transborda em um mundo de estrelas, solta-nos o riso que se prendeu na semana e flui de maneira desbragada.

Esquece o tudo de ruim, especialmente dessa pandemia dos infernos que leva sem piedade nossos amigos, vizinhos e parentes.

O vinho faz mais: transforma a borda tingida da taça em um escancarado sorriso de felicidade, mesmo que isso se dê apenas na efemeridade do torpor. Por isso mandei ligeirinho pro peito aquela taça e preparei a sexta. E, de taça em taça, ri, gargalhei da cara de desânimo do "Trio Parada Dura" na sua visita de fim de sexta.

Tenho certeza de que eles, Solidão, Tédio e Ansiedade, não esperavam por essa! Merlot neles!
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor
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quarta-feira, 4 de março de 2026

A. A. de Assis (Maringá Gota a Gota) O maior perobal do mundo


Para que Maringá pudesse existir foi preciso pedir licença à natureza para roubar dela o que Jorge Ferreira Duque Estrada chamou de “o maior perobal do mundo”.

A grande floresta original era formada por paus-marfins, paus-d’alho, jacaratiás, figueiras, cedros, palmitos e outras espécies. Porém a peroba rosa predominava. Predominou até o começo dos anos 1940, quando aqui chegou um empreiteiro chamado João Tenório Cavalcanti, comandando um exército de 800 machadeiros, com a missão de abrir espaço para a entrada do “progresso”.

O sacrifício da mata fazia parte de um gigantesco projeto de colonização promovido pela Companhia Melhoramentos. Dói fundo só de imaginar como se deu aquele horripilante arboricídio. O barulho. A fumaça. A fuga dos pássaros e dos outros animais. Até hoje fica-se a pensar se valeu a pena.

Mas aqueles 800 machadeiros, também conhecidos como “peões”, precisavam de comida, roupa, remédios etc. Foram chegando então os primeiros comerciantes e prestadores de serviços. Ângelo Planas e Napoleão Moreira da Silva logo se destacaram, visto que, além de abastecer a população pioneira com “secos e molhados”, funcionavam como uma espécie “bancos”.

Na medida em que “o maior perobal do mundo” ia sendo derrubado, iam se instalando nas clareiras os primeiros compradores de sítios. Erguiam ranchos e de pronto começavam a plantar café, feijão, milho e a criar galinhas e porcos.

Ao mesmo tempo iniciava-se a construção da cidade. Primeiro, lá no alto, o povoado do Maringá Velho; depois, na planície, o Maringá Novo.

Foram surgindo também, naturalmente, os primeiros líderes políticos. Planas e Napoleão depressa se caracterizaram como “pais de todos”. Chegavam a intervir até em brigas de casais, como pacificadores. Isso explica por que os nossos primeiros vereadores foram o próprio Napoleão e um irmão de Ângelo, o Arlindo, quando Maringá era ainda distrito de Mandaguari.

Depois foi acontecendo tudo o que vimos acontecer até hoje. No lugar do “maior perobal do mundo”, ergueu-se uma das cidades mais bonitas do planeta.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 26-2-26)

Texto enviado pelo autor. 

Dicas de Escrita (O personagem de um conto) 1


O personagem é a força motriz de um conto. Enquanto no romance temos espaço para digressões, no conto o personagem é definido pela sua relação com o conflito e pela sua unidade de efeito.

Aqui está uma explanação de como ele se define e como é construído:

1. O que é o Personagem do Conto?

Diferente da vida real, o personagem literário não é uma pessoa completa, mas uma construção funcional. No conto, ele costuma ser capturado em um momento de crise ou transformação. Ele não precisa de uma biografia inteira exposta; ele precisa de uma vontade e de uma resistência. 

2. Os Pilares da Construção

Para construir um personagem sólido em narrativa curta, trabalhamos três dimensões:

Dimensão Psicológica (O Interior): Qual é o desejo imediato do personagem? O que o move nesta cena específica? No conto, focamos em uma obsessão ou uma carência latente.

Dimensão Física e Social (O Exterior): Como ele se move? Como se veste? No conto, um único detalhe físico (uma cicatriz, o modo de roer unhas) deve sugerir todo o resto. Menos é mais.

A "Fenda": Todo bom personagem de conto tem uma contradição. É alguém que quer algo, mas teme as consequências, ou alguém que age contra seus próprios princípios sob pressão.

3. Onde se Constrói o Personagem?

A construção não acontece em uma ficha técnica guardada na gaveta, mas sim em três instâncias do texto: 

Na Ação (Dramatização): O personagem se revela pelo que faz, não pelo que o narrador diz que ele é. Se ele é generoso, ele deve realizar um ato de generosidade, em vez de o texto apenas carimbá-lo como "bom".

Na Linguagem (Voz): O vocabulário, o ritmo da fala e os pensamentos constroem a identidade. Um advogado e um adolescente não "enxergam" o mesmo cenário da mesma forma.

No Contraste com o Ambiente: O personagem se constrói na sua reação ao entorno. Como ele se sente em um quarto vazio? Como ele reage ao barulho da cidade? O cenário é o espelho do estado interno do personagem. 

4. A Teoria do Iceberg (Hemingway)

No conto, a construção é baseada na omissão deliberada. O autor constrói 90% do personagem (passado, traumas, segredos), mas apenas 10% aparece no texto. Esses 10% visíveis devem ser tão densos que o leitor sinta o peso de tudo o que não foi dito.
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continua...

Aparecido Raimundo de Souza (Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho)


“ESTAR SÓ” é diferente de “estar sozinho”. Será? E qual a diferença entre um e outro? O “estar só” pode ser povoado de lembranças, de vozes que ecoam dentro da memória, de fantasmas, os mais diversos que atormentam com seus traços remotos e obsoletos e que por sua vez nos acompanham sem pedir licença. O “estar só” pinta do nada, escorrega pelo corpo como uma dor de barriga fortemente armada trazendo presságios maléficos como se ressuscitasse fatos passados, lembranças de feições iracundas e sem mais nem menos, nos deixa no meio do mato sem os latidos cativos do cachorro. 

Nessa hora, o “estar só” é como caminhar por um espaço sem paredes, sem chão, sem teto. É como ser transportado para um lugar de mata carbonizada pelo desconhecido. Um lugar hediondo, onde o tempo não passa, apenas se arrasta. Nesse ponto sem volta, o coração aflito mendiga por uma gota de felicidade. E ela, a felicidade, não aparece, não marca presença, se distancia sem coragem de mostrar o rosto. O silêncio, nesse lugar é o pesadelo maior. Se torna obsoleto, retrógrado e sem limites. Entra numa espécie de dança esquizofrênica que além de machucar profundamente, também maltrata, fere o âmago, pega pesado e desequilibra a alma. 

Além de pegar pesado, se faz denso e odioso, se agiganta não só de uma ausência infame como se reveste de uma balbúrdia ensurdecedora e constante que nos lembra a falta de um abraço amigo ou de qualquer resquício benfazejo que nos acolha e nos dê o abrigo procurado. “Estar só” revive o vazio imensurável. O medo planta flores carregadas de maus presságios onde até os pensamentos parecem perder o peso do brilho, a candura do viço, a sensatez de uma palavra de consolo. No “estar sozinho” não há certezas, não há direção, não há porto seguro. Apenas um mar revolto se apresenta insólito.   

O “estar só” vem com sensações iracundas que se projetam em sustos assombrosos, que do nada transformam tudo ao redor, numa via de mão incerta, de suspensão, sem escapatória, como se o mundo tivesse, desse “nada” e num piscar de olhos, esquecido de dizer que apesar dos pesares, apesar dos desconfortos, tudo, no final ficará bem e em paz. Do mesmo modo, no “estar sozinho” encontramos algo raro: como assim, algo raro? Uma anormalidade brutal, com a possibilidade de nos perdermos da verdadeira paz interior. Ela vem sem distrações, se apresenta sem máscaras, e sem pressa de ir embora. 

O vazio de “estar sozinho” pode ser assustador, pedante, mas também pode ser fértil. É nele que germina a coragem de recomeçar. No “estar só” o vazio imensurável não se condensa em apenas o se sentir envolvido ou se quedar num talvez ou na ausência do sem companhia. É como se o mundo inteiro se recolhesse, deixando apenas o retumbar da própria existência. Nesse espaço sem portas abertas do “estar só” e se ver sem fronteiras, cada pensamento se amplia, cada lembrança se torna mais nítida, cada dúvida mais operosa e pesada. O vazio não tem divisória, mas aprisiona. Não tem relógio, mas prolonga o tempo. É um território onde o coração se pergunta se ainda pulsa por alguém ou apenas por si mesmo? 

No “estar sozinho” também há uma estranha beleza, verdade seja dita, nesse silêncio. E nele, percebemos que a solidão não é inimiga, mas espelho. O vazio nos devolve aquilo que tentamos esconder. Por assim dizer, medos, desejos, esperanças... eles de comum acordo nos obrigam a olhar para dentro, mesmo quando preferiríamos fugir de nós mesmos. Talvez seja nesse espaço imensurável que se revela a essência da vida: a consciência de que somos pequenos diante do infinito, mas ainda capazes de preencher o nada com significados. O vazio não é fim, é convite. Convite para escutar o que nunca ousamos dizer em voz alta. 

“Estar só” é dizer tudo, a bem da verdade, gritar a nós mesmos. Há momentos em que “estar só” não é apenas ausência de companhia, mas mergulho num espaço sem medidas. O vazio imensurável não se descreve: ele se sente. É como se o mundo se afastasse, deixando apenas o peso mórbido da própria consciência contida no Universo. Nesse silêncio, cada pensamento se torna um espelho. O que antes era distração vira revelação. O vazio não é apenas falta é presença de tudo aquilo que evitamos encarar. Ele nos devolve a nós mesmos, nos agrega, e o faz sem máscaras, sem ruídos, sem fuga.

No “estar só”, a solidão se torna paradoxal: vira um pássaro de voo incerto, ao mesmo tempo que nos assusta, do mesmo modo nos abre. Nesse abrir, nos revela por inteiro. O vazio nos lembra que somos finitos diante do infinito, mas capazes de dar sentido ao Nada. É nesse espaço suspenso que nasce a pergunta essencial: quem sou eu, quando não há ninguém para me definir? Talvez o estado de “estar só”, o vazio seja menos um abismo e mais um convite. Um convite para escutar o que sempre esteve dentro, mas que só se revela quando o mundo se cala. E, de certa forma, tenta nos emudecer também.

“Estar só” num vazio imensurável é como caminhar por dentro de nós mesmos, sem mapa, sem bússola. O silêncio se torna espesso, quase palpável, e a alma se pergunta se ainda há chão sob os pés. Mas há sempre um chão. Sempre! Para mim, ele tem cheiro de terra molhada. É nele, no “estar só”, que meus medos e receios trabalham entre o sol que castiga e a sombra que consola. Enquanto eles cuidam da vida que brota da Terra, eu me descubro refazendo a vida que jorra, que desponta, que cultiva os meus pensamentos.

O desabitado, de “estar só” num certo momento, deixa de ser apenas ausência. Ele se mistura ao canto dos pássaros, ao vento que atravessa o campo, ao ritmo lento das horas rurais. E nesse contraste, percebo que a solidão não é deserta, mas se faz dócil numa espécie de espaço fértil. O nada pode ser preenchido com raízes, memórias e pertencimentos. Talvez o oco imensurável do “estar só” seja apenas o outro nome do “estar só” Entre tapas e beijos, percebo que ambos buscam por alguma coisa.  É no silêncio do “estar só” que essa busca encontra repouso: entre o trabalho dos meus braços e o meu próprio mergulho interior. 

No “estar só”, ah, no estar só, existe uma ponte invisível que me lembra que não “estou só”. Aliás, resumindo, nunca estarei “totalmente só”. Jamais me verei, “completamente só”. Ambos os tempos mudam de nome, não importa. A toda hora, a todo momento algo novo aparece do nada e me renova o espírito. O “estar só” e o “viver só” me enaltecem, sobremaneira, me engrandecem, me aprimoram, vivificam a minha vida “sempre para melhor, como ser humano”. “Todos os dias, sobre todos os pontos de vista, como dizia Omar Cardoso, eu vou cada vez melhor”.  

Texto enviado pelo autor. 
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