sexta-feira, 20 de março de 2026

Dicas de Escrita (O subtexto de um conto) 2, final


Para esta cena, vamos focar em um conflito de herança e desapego. O filho quer que a mãe venda a casa para ele quitar dívidas, mas nenhum dos dois menciona "dinheiro" ou "venda" uma única vez.

A tensão mora no subtexto do cuidado forçado e da resistência silenciosa.

A Xícara Trincada

O café esfriava entre os dois. Ricardo passou o dedo pela borda da xícara de porcelana, seguindo a linha de uma trinca antiga que cortava o desenho das flores.

— Essa casa está ficando grande demais para a senhora limpar, mãe — disse ele, sem desviar o olhar do defeito na louça.

Dona Helena ajeitou a almofada no sofá, as costas retas como se estivesse diante de um juiz. Ela olhou para a mancha de umidade no teto, aquela que parecia um mapa, e depois para as mãos do filho, que não paravam de tamborilar na mesa.

— O silêncio preenche bem os espaços, Ricardo. E o cachorro gosta do quintal.

Ricardo soltou um suspiro curto, o som de um pneu esvaziando. Ele se levantou e caminhou até a cristaleira, tocando em um bibelô de cristal que estava ali desde antes de ele nascer.

— O telhado vai precisar de reforma logo. E aquela árvore na frente... as raízes estão levantando a calçada. O pessoal da prefeitura não perdoa.

Ele virou o bibelô de costas.

— Eu vi que abriram aquele condomínio novo perto do centro. Tem elevador. Tudo plano. Segurança vinte e quatro horas.

Dona Helena pegou a xícara trincada. Bebeu o café frio em um gole só, sentindo o amargor no fundo da garganta.

— Prefiro as raízes — ela respondeu, pousando a xícara exatamente sobre o pires, fazendo o estalo da porcelana ecoar pela sala. — Elas dão trabalho, mas seguram o chão.

Ricardo apertou a chave do carro no bolso. O metal espetou sua palma.

— Entendo. Bom, passei só para ver se a senhora precisava de algo.

— Preciso que feche bem o portão ao sair, querido. Às vezes o vento empurra e ele acaba batendo.
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Análise do Subtexto:

A xícara trincada e o telhado: Ricardo usa problemas físicos da casa para sugerir que a mãe é "incapaz" ou que o lugar é um fardo, escondendo seu desejo de liquidar o imóvel.

O condomínio novo: É a sugestão de "depósito de idosos", apresentada como uma conveniência moderna.

As raízes: A resposta da mãe é clara: as raízes são sua história e sua identidade. Ela prefere o "trabalho" de ficar à "facilidade" de partir.

O portão: O pedido final dela não é sobre o vento; é um aviso de que ela quer manter o mundo dele (e suas intenções) do lado de fora.

Antônio Maria (Mulher dos outros)


Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia. Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao pé de Braga". Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho.

Nesse café, além de nós, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. Não olhavam para nós e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balcão. Ambos disseram palavrões, em voz alta. O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavrões e o cabeça do casal protestou:

— Para com isso, que tem senhora aqui!

Um dos rapazes dos palavrões:

— Não chateia!

— Não chateia o quê? Para com isso agora!

Um dos rapazes do palavrão:

— E essa mulher é tua mulher?

— Não é, mas é mulher de um amigo meu!

A briga não foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavrões, o casal. Está provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo não tem direito a reclamar coisa alguma.
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Antônio Maria Araújo de Morais, Cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fontes:
Joaquim Ferreira dos Santos (org.) “Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria”. RJ: Civilização Brasileira, 2002.
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quinta-feira, 19 de março de 2026

Asas da Poesia * 164 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Letras aladas

Serei um pedaço de terra.

Serei um sulco onde plantarão
sementes de poesia,
e versos emergirão
nascidos com lágrimas.

Um carrossel de letras girando silenciosamente,
versos que romperão o tempo,
aguardados por pássaros ávidos,
famintos por novos poemas
que não comeram uma única semente,
mas as nutriram,
voando em círculos concêntricos
de muitas cores.

Aromas de letras quentes,
versos dourados
recém-assados.

Pão de letras,
nutrindo o espírito,
voará muito alto.

Poesia com asas. 
(Tradução do espanhol por José Feldman)
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Soneto de
ANTONIO COSTTA
Pilar/PB

A falsidade deste mundo

Neste mundo é tamanha a falsidade
Que a verdade, de repente, ocultou-se;
A mentira transformou-se em verdade,
E a verdade, em mentira, transformou-se!

Porventura alguém sabe onde a verdade
Neste mundo hodierno extraviou-se?
Em que parte do planeta a bondade
Inda não, em maldade, adulterou-se?

Oh Senhor, nos livrai da falsidade!
Que opera neste mundo de maldade,
Da forma mais sutil e traiçoeira!...

Pois no mundo a falsidade não expira,
A verdade é transformada em mentira,
E a mentira - em verdade verdadeira!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

A sede dos rios... minha vida...

O que seriam estas serpentes
em permanente carrear de viço,
em serviço de manter a vida?

E seriam estes serpenteares,
por lugares ermos e diferentes,
gestos lentos de despedidas?

Pelo avesso desse finito mundo
presos à incúria do granito,
no fundo da boca espumamos
o gosto de mercúrio e chumbo.

O que seriam estas sementes
em permanente mudar de rebuliço,
genes doentes, eternos movediços?

E seriam estes plantares,
esgares enfermos e impotentes,
infernos bentos em seus feitiços?

Pelo terço da bendita mantra
rimos, salivamos e latimos
como o grito que espanta,
como o abortar dos destinos.
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Trova Popular

Se eu fosse um retratista
tirava um retrato teu,
para mim pôr no meu quarto
para ser consolo meu.
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Dobradinha Poética de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Lar... Doce lar…

Volto à casa, que "era minha",
risco a calçada e, feliz,
vou pular amarelinha
mas, o pranto apaga o giz!

Hoje, saudosa, eu volto ao lar antigo
e escancarando a porta semiaberta,
procuro em vão... vasculho o doce abrigo...
Nem pai... nem mãe... a casa está deserta!

E volto ao lar, que dividi contigo...
- Vaivém dos filhos, pela porta aberta...
- Visita alegre de um ou de outro amigo...
E, hoje, é a saudade que o meu peito aperta.

Mas, por deixar pegadas nos caminhos,
não fiquei só!... Cercada de carinhos,
eu sou feliz!... Se volta o sonho louco

do teu amor, acalmo o coração
pois, ao sentir que chega a solidão,
no amor dos filhos eu te encontro um pouco.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

De você, nunca desligo,
amigos têm esse dom
de construir seu abrigo
em cada amigo que é bom, 
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Poema de
LALLA ROMANO
Demonte/Itália, 1906 - 2001, Milão/Itália

Jovem é o tempo

Estreito e claro era o rio
tornou-se enorme e foge
como um animal ferido

Até o ar está morto
o céu é como uma pedra

Os pássaros não sabem mais voar
atiram-se como cegos
dos beirais dos tetos

O amado odor do corpo

O sono das manhãs
me encadeia os joelhos
me cinge a fronte
com suas vendas de seda

Então sem que eu te chame
penetras nos meus sonhos
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Soneto de
EDIR PINA DE BARROS
Brasília/DF

Canto! E canto a dor

Canto! E no meu canto eu louvo a dor
que assim nos deixa humildes, mais humanos,
que nos lapida em meio a desenganos
bem mais do se pode ver, supor.

E as lágrimas que escorrem sem pudor
na proporção das perdas e dos danos,
a desvelar fraqueza em espartanos,
com bela rutilância furta-cor.

A dor é a força oculta da alegria,
que vence toda empáfia, galhardia,
e iguala-nos em nossas diferenças.

Oh! Dor! Eu sempre, sempre hei de louvar-te
aqui, ali, além, em toda parte
até que um dia a mim, também, me venças.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Dentre tudo que é vivido
na curva da trajetória,
encontra-se o amor perdido
bem guardado.,, na memória.
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Trova de
NILSA ALVES DE MELO
Maringá/PR

Por trás desta foto linda,
cheia de risos, de encanto,
esconde a saudade infinda
que, muitas vezes, espanto.
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Soneto de
RICARDO DE BENEDICTIS
Vitória da Conquista/BA

Desejos

Fico pensando na idade
e temo a senilidade...
Também cismo com a saúde
cada vez mais amiúde...

A ilusão de viver
sem cair e sem perder...
Na tomada de atitude
que, de repente, me mude...

Quem sabe, assim, suportasse
o desamor e chorasse,
pois que chorar nunca pude...

Quem sabe, neste momento
mitigasse o sofrimento
da esperança que me ilude...
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Soneto de
DIAMANTINO FERREIRA
Campos dos Goytacazes/RJ

Uma dádiva de amor

Passei a minha vida, entre percalços,
tão só pela desdita de haver-te amado.
Corri o mundo afora, transtornado,
buscando outros amores; porém, falsos!

Decênios já passaram;  mas, em vão,
ninguém  achei ou que lembrasse a imagem,
em que ao menos sentisse uma passagem,
da que nunca saiu do coração!

E se nós, um de nós, talvez errados,
a culpa dos molestos já passados
já não nos cabe, agora, pesquisar.

A minha dor, no entanto, apenas quero
e no seu fundo, amor!  Eu te assevero:
eu vou morrer, te amando sem cessar!...
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Pantun de
MIFORI
(Maria Inês Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Esta atual geração
mostra certa negligência.
Apinhada em atuação
desafiando a ciência.
MIFORI

Mostra certa negligência
em toda a sua postura,
desafiando a ciência,
a juventude imatura.

Em toda a sua postura,
leva um emblema no peito;
a juventude imatura
se veste de qualquer jeito.

Leva um emblema no peito,
atira-se nua ao mar,
se veste de qualquer jeito,
põe-se logo a navegar.

Atira-se nua ao mar,
com muita satisfação.
Põe-se logo a navegar,
esta atual geração.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Há vidas que se parecem
com as roseiras viçosas:
quando podadas, mais crescem
e mais se cobrem de rosas!
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Hino de 
ALTÔNIA/ PR

Quadro vivo a clareira da mata
Inefável Altônia a sorrir
Na moldura bordada de prata
Pelos rios Paraná e Piquiri.
Miniatura do pátrio torrão
Tens as cores da augusta bandeira
No verdor dos cereais, do algodão,
No azul das lagoas faceiras

Cidade onde o trabalho
É um cântico de fé.
Surgiste dentre os ares
Festivos do café.
Fronteiras da amizade
Inscrevem no teu chão,
Toda a fraternidade
De um nobre coração.
Altônia a tua história
De luta varonil
Será um clarim de glória
Vibrando no Brasil.

Há uma linda e profunda mensagem
De fartura, de paz e união.
Astro bom que anuncia a vitória
O teu nome amanhã fulgirá,
Fascinante e triunfal trajetória
Deste grande e feliz Paraná

Cidade onde o trabalho
É um cântico de fé.
Surgiste dentre os ares
Festivos do café.
Fronteiras da amizade
Inscrevem no teu chão,
Toda a fraternidade
De um nobre coração.
Altônia a tua história
De luta varonil
Será um clarim de glória
Vibrando no Brasil.
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Poema de
A. A. DE ASSIS 
(Antônio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Poêmica III

Tinha o céu e tinha a terra,
tinha o sol e tinha a lua,
tinha as estrelas,
milhares.

Tinha os lagos e as lagoas,
tinha os rios e os riachos,
e os verdes bravios
mares.

Tinha as serras e as colinas,
tinha as selvas e as campinas,
tinha os jardins e os
pomares.

Bichos nas matas correndo,
peixes nas águas brincando,
cantando as aves
nos ares,

e tudo era muito bom.

Deu-se porém que
criados
o homem mais a mulher,
criaram logo o machado,
a foice, o fogo e o veneno,

e pôs-se tudo a perder.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O galo e a raposa

Empoleirado num sobreiro antigo,
Fazia um velho galo sentinela.
Uma raposa diz-lhe: «Irmão e amigo,
Venho trazer-te uma notícia bela.

Nas nossas dissensões lançou-se um traço
E acaba de assinar-se a paz geral;
Desce, que quero dar-te estreito abraço
E juntamente o beijo fraternal!

— Amiga — diz-lhe o galo — folgo imenso;
Não podia esperar maior delícia!...
Vejo dois galgos a correr, e penso
Que são correios da feliz notícia.

Foge a raposa sem dar mais cavaco;
E o galo sentiu íntimo consolo.
Pois é grande prazer ver a um velhaco
Entrar espertalhão e sair tolo!
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Mensagem na Garrafa 160 = Amor Incondicional


AUTOR ANÔNIMO

Esta história é sobre um soldado que finalmente estava voltando para casa depois de ter lutado no Vietnã. Ele ligou para seus pais em São Francisco:

- Mãe, pai, eu estou voltando para casa, mas eu tenho um favor a pedir. Eu tenho um amigo que gostaria de trazer comigo.

- Claro! Nós adoraríamos conhecê-lo!!!

- Há algo que vocês precisam saber ­ continuou o filho. Ele foi terrivelmente ferido na luta; pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. Ele não tem nenhum lugar para ir e, por isso, eu quero que ele venha morar conosco.

- Eu sinto muito em ouvir isso filho, nós talvez possamos ajudá-lo a encontrar um lugar para ele morar.

- Não, mamãe e papai, eu quero que ele venha morar conosco.

- Filho, você não sabe o que está pedindo. - Alguém com tanta dificuldade seria um grande fardo para nós. Nós temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que uma coisa como esta interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar para casa e esquecer este rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver por si mesmo.

Neste momento o filho bateu o telefone.

Os pais não ouviram mais nenhuma palavra dele. Alguns dias depois, no entanto, eles receberam um telefonema da polícia de São Francisco. O filho deles havia morrido depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio. Os pais angustiados voaram para São Francisco e foram levados para o necrotério a fim de identificar o corpo do filho.

Eles o reconheceram, mas, para o seu horror, descobriram algo que desconheciam: O filho deles tinha apenas um braço e uma perna.
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Os pais, nesta história são como muitos de nós.

Achamos fácil amar aqueles que são bonitos ou divertidos, mas, não gostamos das pessoas que nos incomodam ou nos fazem sentir desconfortáveis. De preferência, ficamos longe destas e de outras que não são saudáveis, bonitas ou espertas como nós somos. Alguém que nos ama com um amor incondicional, que nos acolhe dentro de uma só família. 

Precisamos aceitar as pessoas como elas são, e ajudar a todos a compreender aqueles que são diferentes de nós.

Dicas de Escrita (O subtexto de um conto) 1


O subtexto é a "conversa oculta" do conto. É aquilo que o personagem sente ou pensa, mas não diz explicitamente, ou o que o autor comunica ao leitor sem usar palavras diretas. É a arte de ler as entrelinhas. 

No conto, o subtexto é vital porque a brevidade não permite explicações longas. Ele se constrói através da tensão entre o que é dito e o que é feito. 

Aqui estão as três formas principais de construí-lo, com exemplos:

1. Ação vs. Fala (A Contradição)

O subtexto aparece quando as palavras do personagem tentam esconder uma realidade que o corpo ou a ação revelam.

Texto (O que é dito): "Estou ótimo, não se preocupe comigo. Vá para a sua festa e divirta-se."

Subtexto (A realidade): O personagem está profundamente magoado e solitário.

Como construir: Enquanto ele diz que "está ótimo", ele esmaga um copo plástico na mão ou evita olhar nos olhos do interlocutor. O leitor entende o abandono sem que a palavra "tristeza" seja escrita. 

2. O Objeto como Símbolo (A Metáfora)

Em vez de falar sobre um sentimento (como a falta de amor), você foca em um objeto que carrega esse peso.

Exemplo: Um casal está jantando em silêncio. Em vez de escrever "eles não se amam mais", você foca na mancha de gordura no prato que nenhum dos dois limpa, ou na distância física entre os talheres.

O Subtexto: O descuido com o objeto ou com o ambiente é o subtexto do descuido com a relação.

3. A Omissão (O Silêncio Carregado)

O subtexto é construído pelo que o personagem decide não falar. Se dois irmãos perderam o pai e passam o conto inteiro discutindo sobre quem vai ficar com o relógio velho do falecido, eles não estão falando de um relógio; eles estão falando de quem era o favorito ou de quem sente mais a perda.

Exemplo Prático: Abandono de Idoso

Imagine uma cena onde um filho visita a mãe idosa em um asilo.

Cena sem subtexto (Fraca):
"Oi mãe, vim te ver, mas estou com pressa. Sei que você se sente sozinha aqui e eu me sinto culpado."

Cena com subtexto (Forte):
Ele entrou no quarto sem tirar o paletó. Colocou uma caixa de bombons barata sobre a mesa de cabeceira, em cima de um porta-retrato empoeirado.

— Trouxe doces — disse ele, checando o relógio de pulso pela terceira vez.

A mãe sorriu para o filho, mas suas mãos alisavam freneticamente a colcha da cama.

— Estão lindos, querido. Mas você sabe que eu não posso comer açúcar.

— É verdade. Esqueci. Bom, na próxima eu trago outra coisa. Preciso correr para uma reunião.
 
Análise do Subtexto:

O paletó vestido: Indica que ele já está de saída, não se "instalou" para uma visita real.

O chocolate proibido: Mostra que ele não conhece mais a rotina ou a saúde da própria mãe (desconexão/falta de amor).

O relógio e o porta-retrato empoeirado: Sugerem a pressa dele contra o tempo parado dela.

O subtexto é o que dá inteligência ao leitor, permitindo que ele "descubra" a história em vez de apenas recebê-la pronta.
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continua…
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 154


Muita gente não conhece, não sabe o que significa e talvez por isso não gosta de usar certas palavras.

"Sazonal" pode ser uma delas. Vem do latim "sationis" designando o ato de semear, plantar, e depois passou a descrever a estação em que se plantava.

Entre nós "sazonal" tem significados variados -  como oportunidade, ocasião, de vez em quando, certos períodos.

Eu a uso sazonalmente em prosa ou verso, não pela palavra em si, mas para mostrar ou lembrar de que somos todos sazonais.

Desde cedo quando nascemos, iniciamos a nossa maturação, a sazão, primeira estação da vida.  Vivemos de sazões, as sazonalidades vitais, que nos acompanham vida a fora.

Fazemos viagens sazonais, comer certo alimento de vez em quando, temos trabalhos temporários (mutirão, por exemplo), praticamos exercícios uma ou duas vezes por semana . . .

E o importante, o útil, o necessário é que de vez em quando (sazonalmente) tenhamos envolvimento na comunidade, em entidades de serviço, apoiando, auxiliando, buscando soluções comuns que revertem em benefício geral.  Certamente veremos progressos no ambiente em que vivemos.  Progresso então permanente.     
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
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quarta-feira, 18 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 2. A Força do Amor

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e em As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus perseverantes amigos. As estrelas já caminham para o repouso, mas antes que a luz do sol apague as nossas lanternas, eu, Mustafá, o peregrino, lhes darei este presente: uma história onde o amor provou ser a magia mais poderosa que existe sobre a face da terra.

"Bismillah" (Em nome de Deus), deixem que o voo desta narrativa comece.

Em um reino entre as dunas e o mar, um jovem Príncipe chamado Khalid casou-se com a bela Amira. "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), dizia o povo, pois nunca se viu par tão perfeito. 

No entanto, o que ninguém sabia era que uma bruxa invejosa, despeitada por não ter sido convidada para o banquete de noivado, lançara sobre a jovem um "sihr" (feitiço) cruel.

Na noite de núpcias, quando a lua subiu ao zênite, Amira sentiu seus ossos tornarem-se leves e seus braços cobrirem-se de penas. Antes que Khalid entrasse no quarto, ela transformou-se em um falcão real e partiu pela janela, ganhando o céu noturno.

Noite após noite, o Príncipe entrava no leito e encontrava apenas o vazio e uma única pena dourada sobre o travesseiro. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "onde se esconde a minha amada quando as sombras caem?". 

O desespero começou a consumir sua alma, e muitos diziam que o Príncipe estava perdendo o juízo, pois ele passava as noites em claro, vigiando as torres do castelo.

Certa madrugada, Khalid fingiu dormir. Sob a luz pálida de uma lamparina de azeite, ele viu o indizível: sua doce Amira, com os olhos cheios de lágrimas, contorcer-se enquanto o encanto a transformava em ave. Num bater de asas frenético, o falcão pousou no parapeito da janela, pronto para ganhar a escuridão.

Num ímpeto, Khalid correu e, em vez de tentar capturá-la ou feri-la, caiu de joelhos diante da ave. 

"Ya Habibi" (Meu amor), exclamou ele com a voz embargada, "não fuja mais de mim! Não importa se tens pele de seda ou penas de rapina, se tens voz de mulher ou o grito dos céus. O que eu amo habita no teu coração, e ele é minha morada. Se fores humana, serei teu marido; se fores falcão, serei teu ninho e teu céu. Tu moras em mim, para além de qualquer forma!"

Ao ouvir essas palavras de entrega total, o impossível aconteceu. O amor puro de Khalid agiu como um fogo que consumiu a maldição. Uma luz ofuscante preencheu o quarto e, onde antes estava o falcão, surgiu Amira, chorando de alegria, agora humana para sempre. 

"Shukran" (Obrigado), sussurrou ela, "pois só um amor que aceita o impossível poderia quebrar o que a maldade teceu".

"Maktub" (Está escrito): a verdadeira beleza não está no que os olhos veem, mas no que o coração reconhece.


“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus caros. Que vossos amores sejam tão fortes quanto o voo de um falcão e tão firmes quanto as pedras de Bagdá.
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O número 1 desta série pode ser acessada no link
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, artista plástico digital e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing