segunda-feira, 3 de agosto de 2026

António Lobo Antunes (Elogio do subúrbio)


Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo:

— Víííííííítor

Num grito que, partido da Rua Ernesto da Silva, alcançava a cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos. 

Cresci junto ao castelinho das Portas que nos separava da Venda Nova e da Estrada Militar, num país cujos postos fronteiriços eram a drogaria do senhor Jardim, a mercearia do Careca, a pastelaria do senhor Madureira e a capelista Havaneza do senhor Silvino, e demorava-me à tarde na oficina de sapateiro do senhor Florindo, a bater sola num cubículo escuro rodeado de cegos sentados em banquinhos baixos, envoltos no cheiro de cabedal e miséria que se mantém como o único odor de santidade que conheço. 

A dona Maria Salgado, pequenina, magra, sempre de luto, transportava a Sagrada Família, numa caixa de vivenda em vivenda, e os meus avós recebiam na sala durante quinze dias essas três figuras de barro numa redoma embaciada que as criadas iluminavam de pavios de azeite. 

Cresci entre o senhor Paulo que consertava com guitas e caniços as asas dos pardais, e os Ferra-a-Bico cuja tia fugiu com um cigano e lia a sina nas praias, embuçada de negro como a viúva de um marujo que nunca deu à costa. 

Os meus amigos tinham nomes próprios tremendos (Lafaiete, Jaurés) e habitavam rés do chão de janelas ao nível da calçada onde e distinguiam aparelhos de rádio gigantescos, vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. O cão da fábrica de curtumes acendia latidos fosforescentes nas noites de julho, quando o pólen me chovia nas pálpebras, eu, morto de amores pela mulher de Sandokan, descobria-me unicórnio trancado na latrina da escola, e o brigadeiro Maia, de boina basca, descia à Adega dos Ossos a gesticular contra o regime. Na época em que aos treze anos me estreei no hóquei em patins do Futebol Benfica, o guarda-redes enchumaçado como um barão medieval apontou-me ao pasmo dos colegas.

— O pai do ruço é doutor. – no que constituiu de imediato a minha primeira glória desportiva e a primeira tenebrosa responsabilidade, a partir do momento em que o treinador, a apalpar-me os músculos com os olhos, preveniu numa careta de dúvida

— Sempre estou para ver se lhes chegas, ó ruço, que o teu pai no ringue era lixado para a porrada.

O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega suntuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher de Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio Loiro na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava "Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?", e eu escrevia versos nos intervalos do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.

Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios (já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida) o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há aviões, nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o Papagaio Loiro no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que junto do seu tronco, se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe chamar:

— Antóóóóóóóónio!!!

E um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver e sumir-se-á lá em cima no quarto, a sonhar que ao menos a mulher de Sandokan não o obrigaria nunca a comer purê de batata nem sopa de nabos durante o tormento do jantar.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor e médico psiquiatra ANTÓNIO LOBO ANTUNES é amplamente consagrado como um dos maiores e mais revolucionários nomes da literatura em língua portuguesa contemporânea. Nasceu em 1942, em Lisboa/ Portugal falecendo nesta mesma cidade em 2026 (aos 83 anos). Passou a maior parte de sua vida em Lisboa especialmente no bairro de Benfica, com exceção do período de 27 meses em que foi mobilizado para a Guerra Colonial em Angola. Pressionado pelo pai, graduou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu a profissão por muitos anos no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Entre 1971 e 1973, atuou como médico militar e tenente do exército português durante a violenta Guerra Colonial em Angola. Essa vivência clínica e o contato íntimo com o trauma da guerra moldaram profundamente sua visão sobre o sofrimento e a mente humana. Em 1985, afastou-se da medicina para dedicar-se exclusivamente à literatura.
Sua estreia oficial ocorreu em 1979 com o aclamado romance Memória de Elefante, seguido de Conhecimento do Inferno (1980). Esses primeiros livros focaram nos traumas, no absurdo e nas marcas psicológicas deixadas pela Guerra Colonial e pelo regime salazarista. A partir daí, construiu uma carreira prolífica e contínua de mais de quatro décadas, publicando dezenas de romances e coletâneas de crônicas. Membro fundador da Academia Pedro Hispano (Portugal). Embora consagrado mundialmente, Lobo Antunes optou historicamente por manter um isolamento voluntário no circuito literário tradicional, sendo as suas obras amplamente integradas e estudadas pelas maiores academias universitárias do mundo. Traduzido em dezenas de idiomas, foi por muitas décadas considerado o eterno candidato português ao Prêmio Nobel de Literatura. Entre as suas distinções mais célebres destacam-se: Prêmio Camões (2007); Prêmio Juan Rulfo / Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas (2008); Prêmio Jerusalém (2005); Prêmio Europeu de Literatura (2001); Prêmio Ovidio (2003); Prêmio José Donoso (2006).
Condecorado como Comendador das Artes e das Letras pelo governo francês e, postumamente, com o Grande Colar da Ordem de Camões em Portugal. Com uma extensa bibliografia de mais de 30 romances, como: Memória de Elefante (1979); Conhecimento do Inferno (1980); Explicação dos Pássaros (1981); Fado Alexandrino (1983); As Naus (1988); O Manual dos Inquisidores (1996); Ontem Não Te Vi Em Babilônia (2006); O Tamanho do Mundo (2022) – Seu último romance publicado em vida.
A relevância de António Lobo Antunes reside na sua profunda revolução estética e estilística. Ele rompeu completamente com a estrutura linear, tradicional e neorrealista do romance português. Sua escrita é marcada pela polifonia (múltiplas vozes que se sobrepõem) e por uma narrativa fragmentada, que mimetiza o fluxo de consciência e os labirintos da memória humana. Misturando prosa, poesia e autoficção em um estilo barroco denso, ele conseguiu colocar o tempo em suspensão — onde vivos e mortos dialogam no mesmo plano. Lobo Antunes foi crucial para dissecar as entranhas da sociedade portuguesa pós-ditadura, transformando o trauma histórico da guerra e as patologias da alma em uma literatura universal, poética e arrebatadora.

Fontes:
António Lobo Antunes. Livro de Crônicas. Lisboa/Portugal: Publ. Dom Quixote, 1998.
Biografia = Wikipedia, Wook Portugal, G1 Globo, CNN Brasil, Público Portugal, Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas de Portugal, etc.

Arthur Thomaz (Oscar, o espantalho)


Na solidão do milharal, o espantalho cumpria a sua função, chacoalhando ao sabor do vento, assustando os pássaros que vinham assolar a plantação. A exceção ficava por conta do casal, Corvolinda e Corvolino, que depois de devorarem algumas espigas, vinham sentar-se nos ombros do espantalho e ficavam horas conversando com ele.

Certo dia, lá no alto de uma montanha, em seu castelo assombrado, a feiticeira Luana ensinava a sua neta Polidora a fazer feitiços utilizando uma varinha mágica.

Sem querer, a menina virou a varinha em direção ao sopé da montanha, e atingiu o espantalho, que imediatamente tornou-se humano.

Atônito, sem saber o que fazer, dirigiu-se à cidade mais próxima. Com sua roupa esfarrapada, descalço, na esperança de conseguir uma roupa em algum lugar, chegando em uma loja encontrou uma menina rica, fazendo compras com a mãe. Ela, na inocência, olhou para ele e disse:

– Mamãe, olhe que homem feio. Parece o tio Itamar.

E continuou:

– Mamãe, vamos comprar uma roupa para ele, porque ele está vestindo farrapos.

A mãe, envergonhada, pediu ao dono da loja uma peça de roupa para o rapaz feio.

E foram embora.

Mas quando a mãe e a filha saíram da loja, o dono tomou a roupa nova, e deu-lhe uma usada, uma velha sandália e expulsou-o da loja.

Oscar, assim mesmo, agradeceu, despiu-se dos farrapos, colocou a roupa que lhe fora dada e perambulou pela cidade, procurando um trabalho qualquer, que lhe desse condições de comprar comida. Era rejeitado em todas as casas pelo seu aspecto.

Quase chegando a noite, viu um grupo de pessoas embaixo de um viaduto, em torno de uma pequena fogueira. Eles acenaram para ele, pensando que era mais um deles.

Eram moradores de rua e estavam cozinhando algo em uma grande panela. Oscar aproximou-se e foi muito bem acolhido.

Nada lhe perguntaram, e ele também nada indagou sobre o fato de estarem ali. Alimentou-se e a noite dividiu com eles os papelões que serviam de colchão, e cobriu-se com jornal para enfrentar o frio da madrugada. Em pouco tempo, ambientou-se ao grupo heterogêneo.

Ouviu as histórias, cada uma mais triste que a outra, das razões que os levaram à condição de vida nas ruas. Sentiu-se como em uma família.

Em grupos, andavam pelas ruas, pedindo esmolas, ou oferecendo-se para fazer pequenos trabalhos, como capinar, carregar ou descarregar caminhões e outros, a fim de conseguirem um pouco de dinheiro para comprarem a refeição da noite.

Em determinada manhã, agentes públicos chegaram ao local onde estavam, com uma ordem judicial para removê-los. Foram empurrados e alguns levaram golpes de cassetete ao reagirem.

Queimaram todos os pertences que ali haviam. Sem opções, todos foram para as ruas em busca de outro local que os abrigasse. Rechaçados em todos os lugares onde foram, dormiram ao relento, sem terem sequer o papelão para deitarem em cima.

Oscar, perante tudo isso, percebeu que a vida aqui era muito pior do que a solidão do milharal. Despediu-se de todos, agradeceu a hospitalidade e o carinho, e foi até o morro onde ficava o castelo da feiticeira.

Gritou lá de baixo, solicitando que desfizessem o feitiço que o tornara humano. A feiticeira perguntou se era isso que realmente ele desejava. Diante da confirmação, desfez todo o feitiço que a sua neta havia feito sem querer.

Hoje, Oscar, o espantalho, vive feliz e tranquilo no meio do milharal, mantendo longas conversas com Corvolinda e Corvolino, bem afastado dos seres humanos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Conto: (Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.)

domingo, 2 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 26 *


Teus olhos são dois poemas,
escritos na mesma cor;
são dois rosários de penas,
são duas trovas de amor.
ANTÔNIO LAFAYETTE 
- - - - - -

Embora mortos estejam,
não feches os olhos meus;
pois eles talvez te vejam,
por um milagre de Deus!
ARCHIMIMO LAPAGESSE 
- - - - - -

Sê franca e bem humorada,
mostra em tua alma e dulçor.
— Flor de corola fechada
nunca atraiu beija-flor!
ARGENTINA DE ARARIPE AIGNER
- - - - - -

A saudade tem tal arte,
é em bondade tão rica,
que não despreza quem parte,
nem abandona quem fica!
ARLETE REGINA
- - - - - -

Grande alegria me deste,
pois, quando eu me despedia,
numa lágrima disseste
tudo aquilo que eu queria!
APARÍCI0 FERNANDES
- - - - - -

Quis rasgar o teu retrato,
mas que tristeza, que sina...
— Até no papel, o ingrato
do teu olhar me domina!
BENNY SILVA
- - - - - -

O que é preciso na trova?
A paz, a delicadeza
de um beijo de lua nova
nuns lábios de camponesa...
BRITO MACHADO
- - - - - -

O Tempo ao Amor não mata...
é disso prova fiel
as nossas Bodas de Prata,
em plena Lua de Mel.
CARLOS GUIMARÃES 
- - - - - -

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que ó meu:
— a dor que os homens me deram
e a canção que Deus me deu.
CECÍLIA MEIRELES 
- - - - - -

Eu da morte não me agrado,
mas morreria com gosto,
se fosse logo enterrado
na covinha de teu rosto.
CHRISTIANO TAVARES SIMÕES
- - - - - -

Tu não crês no que te digo,
o teu Sorriso me diz.
— Mas só quando estou contigo
é que me sinto feliz!
CLÓVIS RAMOS 
- - - - - -

Quanto mais por ti eu peno,
mais gosto tenho em penar.
— O mundo inteiro é pequeno
para a glória de te amar!
COLOMBINA 
- - - - - –

Fico a ver se ouço os teus passos,
quando estás para chegar,
que um só momento em teus braços
paga a pena de esperar!
DANIEL DE CARVALHO
- - - - - –

Creio que você não sabe
(se sabe, você não crê...):
— Não há no mundo o que acabe
meu grande amor por você!
DELMAR BARRÃO 
- - - - - -

Se ela de mim chega perto
e há troca de saudação,
sua mão é um lírio aberto
perfumando minha mão!
DIAS MONTEIRO
- - - - - -

Enfrentando o mundo bronco,
ponho, apesar das perfídias,
ternura do velho tronco
alimentando as orquídeas.
DORMEVILLY NÓBREGA
- - - - - -

Esse teu beijo, querida,
profundo, louco, fremente,
tem tudo que, nesta vida,
desgraça a vida da gente!
DURVAL MENDONÇA 
- - - - - -

Não chores, linda menina,
não chores, botão de flor!
— O teu sorriso ilumina
as trevas da minha dor.
EDGAR REZENDE
- - - - - -

Saudade, lembrança triste
de tudo que já não sou.
Passado que tanto insiste
em fingir que não passou...
EDGARD BARCELLOS CERQUEIRA 
- - - - - -

Queres partir? Sê feliz!
Porém te digo sincero:
ninguém te quer como eu quis,
ninguém te quis como eu quero!...
EDGAR DE ALENCAR
- - - - - -

Saudade é tudo que fica
de uma ventura fugaz,
no pranto que não se explica,
no verso que não se faz!,..
ERASMO SILVA
- - - - - -

Retornado ao pó obscuro,
coração, urna de pranto,
quem saberá no futuro
que amaste e sofreste tanto?
ESMERALDO SIQUEIRA
- - - - - -

Saudade, velha canção,
saudade, sombra de alguém,
que os tempos só levarão
se me levarem também.
FERNANDES SOARES
- - - - - -

Contemplar, risonha, a face
de uma criança contente,
é como se o céu cantasse
para a ternura da gente!
FERNANDO BURLAMAOUl
- - - - - -

Não tremas ingenuamente,
nem te cubras de rubor!...
O beijo é coisa inocente
na velha história do amor.
F. LUZIA NETTO
- - - - - -

Na pureza da inocência
e no cálice da flor
há, decerto, a florescência
sublime e santa do amor!
LUIZ G. CASTELLIANO
- - - - - - - 

É na tarde que desmaia, 
é numa canção dolente 
que a saudade se atocaia 
para apunhalar a gente. 
LOURDES STROZZI 
= = = = = = = = = 

Por nunca amar quem me ama 
e amar quem nunca me quis, 
as feridas do meu drama 
deixam dupla cicatriz... 
LUCÍLIA A. T. DECARLI
= = = = = = = = = 

Poesia estado de graça, 
chama da alma em delírio. 
É prazer que nos abraça 
mas, também nos traz martírio. 
LÚCIO DA COSTA BORGES 
= = = = = = = = = 

Saudade, quase se explica
nesta trova que te dou:
Saudade é tudo que fica
daquilo que não ficou.
LUIZ OTÁVIO 
 = = = = = = = = = 

Só, eu vivo bem comigo, 
pois sou boa companhia; 
nem preciso de um amigo 
para sentir harmonia. 
LYGIA LOPES DOS SANTOS 
= = = = = = = = = 

Longe vão minhas andanças 
e, em meu trêmulo cansaço, 
tento fazer das lembranças... 
bastão... e assim firmo o passo. 
MARIA CONCEIÇÃO FAGUNDES
= = = = = = = = = 

Ao longo desta jornada 
percorri "sobes e desces", 
mas sempre bem humorada 
envolvida em minhas preces! 
MARIA DE LOURDES AKEL
= = = = = = = = = 

Se a vida apaga as estrelas
e espalha trevas na estrada,
meu sonho pode acendê-las
criando luzes...do nada!...
MARIA LUA
= = = = = = = = = 

Em meus rascunhos guardados, 
não há mistérios… Porquê 
nos versos que são lavrados 
o tema é sempre… você! 
MARIA LÚCIA DALOCE
= = = = = = = = = 

Quisera ser um brinquedo
ou ser fios de esperanças,
para morar em segredo
no coração das crianças!
MARIA NASCIMENTO A. CARVALHO
= = = = = = = = = 

Vem, andorinha migrante,
pois aqui já é verão;
o teu voo esfuziante
alegra o meu coração.
MARINA VALENTE
= = = = = = = = = 

É fácil de fazer trovas 
quando se tem grande amor. 
Mil ideias sempre novas 
descem dos céus em louvor! 
MARITA FRANÇA
= = = = = = = = = 

Sobre a vida do vizinho, 
o porteiro argumenta... 
já faz dele um picadinho... 
se puder... joga pimenta! 
MARIZA SOARES DE AZEVEDO 
= = = = = = = = = 

O amor chega de mansinho 
como quem está brincando… 
Mostra a flor, esconde o espinho, 
e acaba nos machucando! 
MAURÍCIO LEONARDO 
= = = = = = = = = 

Minhas trovas são singelas, 
sem marcas nem pedantismo, 
pois eu faço, assim, com elas, 
arautos do romantismo. 
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH 
= = = = = = = = = 

A melhor sogra do mundo, 
que não é uma qualquer, 
encontrei-a num segundo 
e a dei pra minha mulher. 
NEI GARCEZ 
= = = = = = = = = 

Soprei. Apagou-se a chama.
disse-te adeus em seguida.
– Quem diz adeus a quem ama
diz adeus à própria vida!
OLEGÁRIO MARIANO 
= = = = = = = = = 

Se a saudade em mim subisse 
como me sobe a pressão, 
o dia em que eu não te visse 
me explodia o coração. 
ORLANDO WOCZIKOSKY 
= = = = = = = = = 

A liberdade do poeta,
está num verso... Num grito...
No equilíbrio se completa,
vencendo o próprio infinito!
PROFESSOR GARCIA
= = = = = = = = = 

No espaço, brilhando inquieta,
cadente estrela me induz
a pensar que algum poeta
faz no céu versos de luz.
RITA MOURÃO
= = = = = = = = = 

Depois da aviária e a suína, 
mais folga o aluno cobiça: 
quer que venha, repentina, 
a gripe bicho-preguiça! 
ROZA DE OLIVEIRA 
= = = = = = = = = 

Ó Senhor, com o teu poder,
deixa na praia eu sonhar,
pois as ondas irão ver
que eu também pertenço ao mar!
SARAH RODRIGUES
= = = = = = = = = 

À primeira claridade, 
da manhã fresca e bonita, 
a nossa bela cidade 
desperta alegre e se agita. 
SERAFIM FRANÇA 
= = = = = = = = = 

Amigos que não convém
São aves de arribação:
- Se faz bom tempo eles vêm...
- Se faz mau tempo eles vão...
SOARES DA CUNHA 
= = = = = = = = = 

A Trova é tão pequenina 
mas quanta Beleza encerra, 
feliz de quem tem a sina 
de espalhá-la pela Terra!... 
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO  
= = = = = = = = = 

Da vida no grande coro, 
eis nosso destino atroz: 
Seguirmos de choro em choro, 
até que chorem por nós. 
TASSO DA SILVEIRA  
= = = = = = = = = 

Ao operar seu nariz
perdeu um olho, o Batista.
Vem outro louco e, então, diz
que o pagamento era a vista!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
= = = = = = = = = 

Feliz quem, olhos sem pranto,
viu-se, alegre, envelhecer,
tanto amando e amando tanto
que se esqueceu de morrer.
TRIGUEIRO LINS 
= = = = = = = = = 

Pelo bem, lute na terra, 
com garra: seja tenaz; 
Pois é através da guerra 
que só se consegue a paz. 
VANDA ALVES DA SILVA
= = = = = = = = = 

Num dos lances mais astutos
que a vida tem-me inspirado,
eu mostro os olhos enxutos,
e escondo o lenço molhado.
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
= = = = = = = = = 

Amor, um santo remédio,
que revitaliza e cura.
Livra-nos de qualquer tédio,
também nos leva à loucura.
VÃNIA ENNES
= = = = = = = = = 

Estudar é necessário 
quanto o alimento tomar. 
Saber é chave do armário 
pra experiência acumular. 
VASCO TABORDA RIBAS 
= = = = = = = = = 

Angústia é isto: este anseio, 
pássaro aflito, doente. 
Nem se sabe de onde veio 
pra sofrer dentro da gente! 
VERA VARGAS  
= = = = = = = = = 

Quando chora um trovador 
não é o seu pesar somente, 
canta, sofre e chora a dor 
colhida de toda gente. 
VICTORINA SAGBONI 
Curitiba/PR 
= = = = = = = = = 

Seja estrela sorridente 
no seu modo de viver, 
e com força transcendente 
faça o bem acontecer! 
VIDAL IDONY STOCKLER 
= = = = = = = = = 

Quando encontram-se as amigas, 
mil fofocas vão pro ar... 
Sob a trança das intrigas, 
se divertem: tudo ao par! 
WALDEREZ DE ARAÚJO FRANÇA 
= = = = = = = = = 

No caminhar, vença o atalho 
da vida, exercite a messe, 
veja o exemplo do carvalho, 
demora a crescer, mas cresce! 
WALNEIDE FAGUNDES S. GUEDES 
= = = = = = = = = 

Passa o tempo... e a mocidade 
vai deixando, em seu lugar, 
pegadas para a saudade, 
um dia, me procurar! 
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ 
= = = = = = = = = 

Adélia Prado (Cacos para um vitral)


No caderno de Glória: um romance é feito das sobras. A poesia é núcleo. Mas é preciso paciência com os retalhos, com os cacos. Pessoas hábeis fazem com eles cestas, enfeites, vitrais, que por sua vez configuram novos núcleos. Será este pensamento vaidoso? Por certo. Quero ser um poeta extraordinário e desejo poder escrever um teatro muito engraçado pra todo mundo rir até ficar irmão. 
  
Glória decifrou o garrancho na nota de um cruzeiro: "Ontem fiz quinze anos e fui a primeira vez na Figueirinha. Dei Cr$ 50,00 pra mulher, ela ainda me deu troco. Não tava ruim, nem bom." 
  
Juca entrou esfregando as mãos: 

- Tá um frio de matar velho! 

- Se quer capote, na segunda prateleira da cozinha tem. 

Juca bebeu e saiu. Tivesse ou não, brigado com a Naná, a cada dia ele bebia mais. Estará certo, pensou Glória, facilitar desse modo a cachaça do Juca? Estarei sendo leviana? Estava. 
  
Ritinha: - Mãe, se eu morrer cê chora? 

Glória: - Ih! Choro até secar. 
  
Glória ouviu de relance os peões almoçando na obra: 

- Rico tinha que nascer tudo morfético. 

- Tem rico legal, sô! 

- Tem não. 
  
Ritinha chegando da escola: 

- Mãe, eu laía e a Fostina envinha. Ela envinha aqui? 

- Que é isso? Existe o verbo lair e envir? 

- A senhora também fala assim. 

- Falo mesmo. 

- Então... 

- Então nada. É porque eu gosto muito da minha filhinha e quando a gente gosta, chateia um pouquinho. 
  
Anselmo Vargas beijava Sônia Margot na novela das sete. O menininho de Matilde pediu: mãe, muda o programa. Meu pintinho fica ruim. 
    
- Dona Glória, eu fiquei incurvida. 

- O quê? 

- É, sobrou pra mim a obrigação de catar neste quarteirão as esmolas pro Natal dos pobres. 

- Ah! 

- O apostolado, cuja eu sou membra é que me incurviu. Entra, Fostina. 

- Não, se eu delatar, atrasa pra mim. 
  
A placa indicava na estradinha de chão: Sítio do AU PURO. Alguém tinha consertado: Sítio do AR PURO. Gabriel parou o carro e escreveu em baixo, sítio do AL PURO. No lugar voava sem pressa uma linda borboleta amarela e preta. 
  
Copiado por Gabriel, do sanitário da rodoviária: PEDE NÃO HORINAR NO VÁS. 
  
Remexendo papéis, Glória achou uma notação com sua letra: "retalho de poesia dá excelente prosa." Não se lembrava mais por que escrevera aquilo. "Retalho de poesia dá excelente prosa, como retalho de hóstia dá excelente sopa", descobriu escrito mais embaixo. Ainda: "Privada pública" é uma impropriedade. Empregada chama as amigas invariavelmente de colegas. Deus é fiel, no entanto vacilo, amo com reservas, deixo que pequenas nódoas confundam minha alegria. Quando serei evangelicamente generosa, confiante como um menino para quem o Reino está preparado?" 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
    ADÉLIA PRADO (nome artístico de Adélia Luzia de Prado Freitas), escritora amplamente reconhecida como uma das maiores vozes da literatura em língua portuguesa, completou 90 anos de idade. Nasceu em Divinópolis (MG) em 1935. Passou toda a sua vida e mora até hoje em Divinópolis. A pacata rotina do interior mineiro sempre funcionou como a principal matéria-prima para a sua literatura. Formou-se professora e lecionou durante 24 anos em escolas de Divinópolis. Ministrou disciplinas como Filosofia da Educação, Relações Humanas e Educação Religiosa. Abandonou as salas de aula em 1979 para se dedicar exclusivamente à literatura. Graduou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1973. Atuou como Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. Também dirigiu o grupo de teatro amador Cara e Coragem, encenando peças de Ariano Suassuna e Dias Gomes.
Começou a escrever versos aos 15 anos, motivada pelo luto após a morte de sua mãe. Contudo, sua estreia editorial ocorreu tardiamente, aos 40 anos. Em 1973, ela enviou seus manuscritos ao crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna. Impressionado, ele repassou os textos para Carlos Drummond de Andrade, que ficou fascinado com a originalidade de Adélia e usou sua coluna no Jornal do Brasil para anunciar o surgimento de uma grande poeta, apadrinhando o lançamento de seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Adélia Prado não faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva (imortal), tendo optado por manter sua rotina reclusa no interior de Minas Gerais. Apesar disso, mantém uma relação de enorme prestígio e reconhecimento mútuo com as instituições literárias do país. Ao longo de sua consagrada trajetória, Adélia recebeu as distinções mais importantes da língua portuguesa: Prêmio Jabuti (1978): Vencido na categoria poesia com o livro O Coração Disparado. Foi também homenageada como Personalidade Literária do Ano no Jabuti de 2020 ; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil (2007): Pela obra Quando eu era pequena ; Prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional e Prêmio APCA (2010) ; Prêmio Machado de Assis (2024): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra ; Prêmio Camões (2024): O prêmio máximo da literatura de língua portuguesa. Adélia fez história ao se tornar a primeira mulher mineira a receber esta honraria.
Sua produção literária transita com maestria entre a poesia e a prosa lírica:
Poesia: Bagagem (1976); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010); Miserere (2013).
Prosa (Contos e Romances): Solte os Cachorros (1979) ; Cacos para um Vitral (1980) ; Os Componentes da Banda (1984) ; O Homem da Mão Seca (1994) ; Filandras (2001).
A relevância de Adélia Prado reside na capacidade única de universalizar o cotidiano banal e a vida doméstica sob uma ótica profundamente lírica, metafísica e feminina. Antes dela, a literatura frequentemente separava a experiência intelectual e artística dos afazeres de mãe, esposa e dona de casa. Adélia rompeu essa barreira ao colocar a cozinha, a fé cristã, o erotismo sutil, o corpo feminino, o tanque de lavar roupas e a província no centro da grande poesia. Sua linguagem é despojada, direta e musical, fundindo uma espiritualidade quase mística (isenta de moralismos) com o humor e as dores da carne, o que a consolida como uma das maiores referências do Modernismo tardio no Brasil.

Fonte: 
Adélia Prado. "Cacos Para Um Vitral",  publicado em 1989. 

Pescaria de Palavras


Beth Ramos
Campinas/SP

Se...
eu pudesse escolher alguém pra amar, com certeza seria você.
Pessoa maravilhosa, com esse seu jeito vai me encantar.
Despertando em mim um sentimento estranho e confuso.
Estranho pois não o conheço ainda, confuso porque tô aqui perdida, sem conseguir me encontrar.
Será que isso é amor?
Se é não sei, só sei que te amaria sem medo ou pudor.
Me perderia em seus braços, te entregando todo o meu amor.

Luís Fernando Veríssimo (Atitude suspeita)


Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso "em atitude suspeita". É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida  e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.  

- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?  

- Suspeita.  

- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que  ele alega?

- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra  a prisão.

- Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria  medo de vir dar explicações.

- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!  

- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

- Mas eu só estava esperando o ônibus!  

- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a  nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o  próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

- Não senhor, delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias  para ir pra casa! Sou inocente!

- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

- Fugir, como?  

- Fugir no ônibus. Quando foi preso.  

- Mas eu não tentava fugir. Era o meu ônibus, o que eu  tomo sempre!

- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é  criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus,  em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes  da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.  

- Ah, uma confissão!  

- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O  senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude  suspeita?

- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

- Delegado...  

- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês  querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta  atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar  em atitude suspeita, é um pouco...

- Um pouco? Um pouco?  

- Suspeita.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fonte:
Luís Fernando Veríssimo. O gigolô das palavras. Publicado originalmente em 1987.