sábado, 9 de maio de 2026

Asas da Poesia * 185 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Assim são meus dias em formatos cada vez mais curtos. 

“Eu disse que faria um poema à tua volta. Não voltaste. Escrevi essas linhas à tua espera”.
J. G. de Araújo Jorge (1914-1987)

Todas as manhãs ao acordar,
                             o sol opulento,
                             viril, ciumento...
                             Após escalar
                             e penetrar
em minha janela 
                             com o seu fulgor
                             e todo ardor,
                             vem despertar-me
                             e despregar-me
                             do calor do corpo dela...
                         
Para em meu lugar,
                             quieto ficar,
                             e poder desfrutar           
                             adormecendo e abraçado 
                                                 a ela!…
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Trova Humorística de
JAIME PINA DA SILVEIRA
São Paulo/SP

– Quando saiu … a maninha
foi com “mãinha” ou foi só?
– Sei não! Mas voltou “mãinha”,
quando chegou do forró!
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Poema de
LUIZ GAMA
(Luiz Gonzaga Pinto da Gama)
Salvador/BA (1830 – 1882) São Paulo/SP

Serei Conde, Marquês e Deputado

Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.

 A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara*.

 Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

 Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”

 Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”

 Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
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* Malacara = é o termo utilizado para descrever cavalos que possuem uma mancha branca na face, estendendo-se da testa até o focinho ou peito
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Aldravia de
LUIZ CARLOS ABRITTA
Cataguases/MG, 1935 – 2021, Belo Horizonte/MG

sou
hedonista:
mínimo
esforço
máximo
prazer
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Soneto de
AFFONSO LOPES DE ALMEIDA
Rio de Janeiro/RJ, 1889 – 1953

Ascensão

Não será sempre esta melancolia,
este morno cansaço, esta torpeza...
A modorra enevoada da tristeza
há de esvair-se aos raios da alegria!

Hei de agitar a imóvel natureza,
ao vendaval da minha fantasia;
nas minhas mãos a estátua da beleza
deixará de ser muda e de ser fria!

Hei de subir ao píncaro do monte,
vencedor de procelas e escarcéus!
E lá, sozinho, ao centro do horizonte,

em manhã clara, e límpida, e sem véus,
o sol da glória há de dourar-me a fronte,
e eu hei de resplender subindo aos céus!
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Trova de
ZAÉ JÚNIOR 
(Zaé Mariano Carvalho de Nascimento Júnior)
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Conquista é jogo de azar
e, no amor, jogo pesado;
querendo te conquistar,
eu é que fui conquistado!
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Poema de
CESARE PAVESE
Stefano Belbo/Itália (1908 – 1950) Turim/Itália

Figura de mulher

Tens rosto de pedra esculpida,
sangue de terra dura,
emergiste do mar.
Tudo acolhes e sondas,
e repeles de ti
como o oceano. Tens na alma
silêncio, tens palavras
tragadas. És turva.
A alva em ti é silêncio.

E pareces com as vozes
da terra - a pancada
do balde no poço,
o cântico do fogo,
um tombo de maçã,
as palavras resignadas
e escuras nas soleiras,
o grito do menino - as coisas
que não passam jamais.

Não mudas. És turva,
és a taberna fechada
com o chão de terra batida,
onde entrou certa vez
o garoto descalço
em que pensamos sempre.

Tu és a sala sombria
em que pensamos sempre
como no velho pátio
onde a aurora se abria.
(tradução: Martins Napoleão)
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TROVA POPULAR

Muito vence quem se vence
muito diz quem não diz tudo, 
porque ao discreto pertence
a tempo fazer-se mudo.
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Soneto de
AFONSO DE CARVALHO
(Affonso José de Carvalho)
São Bento do Sapucaí/SP, 1868 – 1952, São Paulo/SP

Lágrima de caveira

Eu vi uma caveira. Branca e fria,
em úmida caverna a sós ficara.
Não sei por qual motivo a sorte ignara
fizera-a triste, quando outrora ria.

Quanto mais a fitava, mais a via,
banhada em pranto com a terrível cara,
cheia de verme e areia, olhando para
o risonho espetáculo do dia.

Por que chorava? Como então pudera
arrancar desse crânio funerário
essa lágrima, trêmula, sincera?

Foi então que notei... Uma goteira,
vindo do teto em líquido rosário,
abria em pranto os olhos da caveira... 
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Trova de
ILZA TOSTES
Mar de Espanha/MG

Nesta casa de sapê,
cobertinha de luar,
que pena não ter você
para comigo sonhar!
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Poema de
MÁRIO CESARINY
(Mário Cesariny de Vasconcelos)
Lisboa/Portugal, 1923 – 2006

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Graças te rendo...

Graças te rendo aqui, preciosa Senhora,
Que, num simples olhar de ternura, tiveste
O dom de me elevar, assim como o fizeste,
Entre os brasões do amor e as púrpuras d'aurora...

O dom de me fazer acreditar que veste
O humano coração, como acredito agora,
Não o lodo, porém, o linho; que se adora,
O linho que fulgura em pleno azul-celeste...

Sei que os votos que são trabalhados com arte
Hão de os deuses cumprir, ó luz maravilhosa:
— Sê, pois, bendita, sê bendita em toda parte!

Que onde fores pisar, que por onde tu fores:
A lama se transforme em pétalas de rosa,
As víboras em fruto, os espinhos em flores!
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Trova de
ILDEFONSO DE PAULA
Socorro/SP

Sendo tão linda, a dentista
fez uma escolha bem certa,
pois todo mundo que a avista
já fica de boca aberta...
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
Pobre titia, ao comprar 
uma vassoura, é indagada: 
- Será preciso embrulhar? 
ou já vai nela montada?
Amália Max 
Ponta Grossa/PR, 1929 – 2014

Glosa:
Pobre titia, ao comprar 
um presente pra sobrinha 
viu, na hora de pagar, 
não ter grana na caixinha! 

Vendo, a bruxa, no Bom Preço 
uma vassoura, é indagada: 
Vai "montar"? Está no preço! 
- Não, só estou dando uma olhada! 

Cuidado quando comprar 
uma vassoura... e ouvir: 
- Será preciso embrulhar? 
É gozação, não vá rir! 

No balcão, a mulher brega 
com a vassoura comprada 
ouviu um: é para entrega, 
ou já vai nela montada?
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Trova de
HILDEMAR CARDOSO MOREIRA
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

Ao professor muito devo,
devo ao médico também.
Mas o livro é meu enlevo,
tudo que sei dele vem.
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Soneto de
ALCY RIBEIRO SOUTO MAIOR
Rio de Janeiro/RJ, 1920 - 2006

Núpcias

Num jarro esguio e rubro, a rosa pura,
esquecida de sua timidez,
sente do jarro o abraço de ternura
que envolve a sua angelical nudez.

Enquanto a noite espalha a formosura
que para os noivos, caprichosa, fez,
a rosa e o jarro entregam-se à ventura
do amor que vem pela primeira vez.

Quando surge, por fim, a madrugada,
a rosa, sobre a mesa, desfolhada,
recorda, ainda, o beijo nupcial.

E o jarro, desolado, rubro e esguio,
é, ante o espelho indiferente e frio,
uma lágrima rubra de cristal!
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Trova de
ANTONIO JURACI SIQUEIRA 
Belém/PR

Quanto mais a idade avança,
mais trovas de amor componho
para acender a esperança
no entardecer do meu sonho!...
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Tempo rei

Meus pés não encontram rastros no caminho
Minha rua não é mais cadinho de meus passos
Calçada nua que trocou paralelepípedo por asfalto
Na casa em que morei não há mais samambaias
Dando saias verdes ao alpendre que me recebia
Onde logo eu via o rosto redondo de minha mãe
A vida vai compondo gosto novo para as gerações
Porções de desgosto agora moram em mim
O tempo realmente é invencível rei
Tudo o que eu pensei um dia dominar ou saber
O tempo cuidou de me provar que nada sei! 
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Triverso de
ELIAKIN RUFINO
Boa Vista/RR

com um traço
o desenhista faz
o voo do pássaro.
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Poema de
ALICE RUIZ
Curitiba/PR

Saudação da Saudade

minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
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Trova de
INOCÊNCIO CANDELÁRIA
Salesópolis/SP

Desejo, às vezes, fazer
certas coisas que não devo.
Mas penso no meu dever
e a fazê-las não me atrevo...
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Hino de 
FORTALEZA/ CE

Junto à sombra dos muros do forte
A pequena semente nasceu
Em redor, para a glória do Norte
A cidade sorrindo cresceu

No esplendor da manhã cristalina
Tens as bênçãos dos céus que são teus
E das ondas que o Sol ilumina
As jangadas te dizem adeus

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

O emplumado e virente coqueiro
Da alva luz do luar colhe a flor
A Iracema lembrando o guerreiro
De sua alma de virgem senhor

Canta o mar nas areias ardentes
Dos teus bravos eternas canções
Jangadeiros, caboclos valentes
Dos escravos partindo os grilhões

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

Ao calor do teu Sol ofuscante
Os meninos se tornam viris
A velhice se mostra pujante
As mulheres formosas, gentis

Nesta terra de luz e de vida
De estiagem por vezes hostil
Pela Mãe de Jesus protegida
Fortaleza, és a flor do Brasil

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

Onde quer que teus filhos estejam
Na pobreza ou riqueza sem par
Com amor e saudade desejam
Ao teu seio o mais breve voltar

Porque o verde do mar que retrata
O teu clima de eterno verão
E o luar nas areias de prata
Não se apagam no seu coração

Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar
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Ode à Cidade do Sol
O Hino de Fortaleza é uma verdadeira ode à capital cearense, exaltando suas belezas naturais, sua história e o calor humano de seu povo. A letra inicia fazendo referência à origem da cidade, que nasceu ao redor do Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses e posteriormente tomado pelos portugueses, que o rebatizaram como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. A menção à 'pequena semente' que cresceu e se tornou uma cidade próspera é uma metáfora para o desenvolvimento e a força da capital do Ceará.
A canção prossegue destacando a relação harmoniosa entre a cidade e seus elementos naturais, como o mar e o sol, que são fontes de vida e inspiração para os fortalezenses. A imagem das jangadas se despedindo ao sol é uma homenagem aos pescadores, parte essencial da identidade cultural da cidade. A referência a Iracema, personagem do romance de José de Alencar, e ao 'emplumado e virente coqueiro' evoca a literatura e a paisagem local, reforçando a riqueza cultural de Fortaleza.
Por fim, o hino celebra o espírito resiliente e acolhedor dos habitantes, que, apesar das adversidades climáticas como a estiagem, mantêm a cidade vibrante e acolhedora. A proteção atribuída à 'Mãe de Jesus' reflete a fé e a religiosidade do povo. A canção conclui com um sentimento universal de saudade e amor pela cidade, que permanece no coração de seus filhos, independentemente de onde estejam. Fortaleza é apresentada como um lar que sempre será amado, uma 'flor do Brasil' que brilha sob o sol e o luar. 
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Poetrix de
ANA OLIVEIRA
Espinho/Portugal

tempero

enquanto cozinhava
ia chorando
– acabara o sal
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Soneto de
ALFREDO DE ASSIS
Riachão/MA, 1881 – 1977, Rio de Janeiro/R

Pranto e riso

No pranto da criança não diviso
mágoa nenhuma: é todo luz e encanto.
Tem, nuns restos de céu, de paraíso,
toda a doçura matinal de um canto.

Mas de um velho, num rápido sorriso,
mágoas profundas eu percebo, entanto.
No pranto da criança, há quase um riso;
no sorriso do velho, há quase um pranto.

Um velho ri: — é um por de sol que chora;
chora a criança: — é como se uma aurora
um chuveiro de pétalas abrisse.

E tem muito mais luz, mais esperança,
a lágrima nos olhos da criança
que o sorriso nos lábios da velhice.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Envergonhado e sem jeito,
meu coração sonhador
conserta o ninho desfeito
enquanto espera outro amor!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O macaco e o golfinho

Costumam os Malteses nos navios
Divertir-se com cães e com bugios:
Afundou-se um navio desta gente
Junto a Súnio, que é cabo pertencente
À terra ática: andava tudo a nado,
E um bugio também quase afogado.

Um golfinho que o viu em tanto dano,
Parecendo-lhe ser vivente humano,
As costas lhe oferece; vem por cima
Das ondas, com o fim de que o redima.

Defronte do Pireu, que é estaleiro
De Atenas, perguntou ao companheiro
Se era desta cidade. — Respondia
Que sim, e da mais alta fidalguia.

«Conheces o Pireu?» lhe perguntava.
O macaco, cuidando que falava
De algum homem, dizia: «É um amigo
Que estreita confiança tem comigo.»

O golfinho ficou tão iracundo
Da mentira, que o pôs logo no fundo.

O golfinho foi muito rigoroso
Em dar ao mentiroso tão mau trato;
Porém todo o sujeito que é sensato,
Deve apartar de si o mentiroso.

O tratá-lo sempre é muito danoso;
Por isso haja cautela, haja recato;
Porque quando me faz muito barato,
Ou me deixa enganado, ou enganoso.

Se me deixa enganado, fico tido
Por néscio; e de tal modo enganaria,
Que eu fique, além de pobre, escarnecido
Se, pegando-me a sua epidemia,
Me deixou enganoso, estou perdido;
Que de um que mente bem ninguém se fia.
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Mensagem na Garrafa 181 = O Espelho de Vidro Fosco


O vilarejo de Santa Edwiges era um lugar onde o silêncio raramente era apenas silêncio; era uma pausa para o próximo sussurro. Na praça central, entre o cheiro de café passado e o barulho das vassouras nas calçadas, a especialidade local não era o artesanato, mas a vida alheia.

Dona Zulmira, com seus olhos de lince por trás dos óculos de grau, era a capitã desse exército de juízes. Não havia um sapato desbotado ou uma janela fechada fora de hora que escapasse ao seu veredito. "Vejam só a filha do leiteiro", dizia ela, apontando com o queixo, "chegando a essa hora. No meu tempo, decência era regra, não exceção". 

Ao seu redor, as vizinhas assentiam, sentindo-se santas por tabela ao apontarem o pecado do outro.

Um dia, instalou-se na última casa da rua um velho carpinteiro chamado Sr. Elias. Ele era um homem de poucas falas, mas carregava consigo um objeto estranho que colocou bem no centro de sua varanda: um espelho imenso, emoldurado em madeira bruta, porém com um detalhe curioso — o vidro era fosco, quase opaco.

Zulmira, é claro, não tardou em classificar o vizinho. "Um louco", sentenciou. "Quem coloca um espelho que não reflete nada? Deve ter algo a esconder. É preguiçoso, nem para limpar o vidro serve". 

E assim, por semanas, a rotina da cidade foi chicotear a imagem do carpinteiro, que apenas sorria e dizia que o espelho "só funcionava para quem soubesse olhar".

Certa manhã, cansada de apenas supor, Zulmira marchou até a casa de Elias. 

"Sr. Elias, a vizinhança está incomodada. Que utilidade tem esse trambolho sujo no meio do caminho? É uma afronta ao asseio da nossa rua!"

O velho, sem se exaltar, entregou-lhe um pequeno frasco de essência e um pano de seda. 

"Dona Zulmira, o espelho não está sujo por fora. Ele reflete a clareza de quem o encara. Se a senhora o acha fosco, é porque ainda não limpou os próprios olhos. Tente limpá-lo, mas só se estiver disposta a ver o que ele mostrar."

Irritada e querendo provar que era a pessoa mais limpa daquelas bandas, ela começou a esfregar o vidro com fúria. À medida que o pano passava, o fosco sumia, mas a imagem que surgia não era a da praça ou das casas vizinhas. Zulmira viu a si mesma, mas de uma forma diferente.

No reflexo, cada palavra ácida que ela disparara contra a filha do leiteiro aparecia como uma mancha escura em sua própria pele. Viu o momento em que, anos atrás, ela mesma cometera um erro que jurou esconder, mas que agora latejava no vidro. Viu a solidão que disfarçava com orgulho e a inveja que sentia da liberdade alheia. O espelho não mostrava sua aparência, mostrava seu inventário interno: as gavetas bagunçadas da alma, as poeiras do rancor e as rachaduras do próprio caráter que ela passava o dia tentando ignorar enquanto olhava para o jardim do vizinho.

Ela soltou o pano. Suas mãos tremiam. Olhou para o Sr. Elias, que permanecia em silêncio. Pela primeira vez em décadas, Zulmira não tinha um comentário maldoso, uma crítica ou um julgamento. Ela sentiu o peso de suas próprias falhas, um peso muito mais real do que qualquer deslize que ela pudesse apontar nos outros.

Voltou para casa em silêncio. No dia seguinte, quando as vizinhas se aproximaram para comentar sobre o novo vestido da professora, Zulmira apenas disse: "O sol está forte hoje, não acham? Acho melhor cuidarmos das nossas plantas antes que elas sequem".

As pessoas estranharam, mas aos poucos, o veneno da cidade foi perdendo a força. O espelho continuou lá, fosco para os distraídos, mas transformador para os corajosos.

Moral:
É infinitamente mais fácil carregar a lanterna para iluminar os tropeços dos outros do que usá-la para explorar os próprios porões. No entanto, o julgamento é uma cortina de fumaça que criamos para não encarar nossa própria necessidade de reforma. Antes de apontar o dedo para a mancha na veste do próximo, certifique-se de que seus olhos não estão nublados pela poeira das suas próprias imperfeições; pois quem realmente conhece o peso dos seus erros, não tem pressa em condenar os alheios.

Fonte: José Feldman. Receitas de vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Irmãos Grimm (Avezinho)


Era uma vez um guarda-florestal que saiu à caça e, encontrando-se no bosque ouviu, de repente, uns soluços como os de uma criancinha. Dirigindo-se ao ponto de onde vinha o choro, chegou a uma árvore alta, em cuja copa se achava uma criança bem pequenina. A mãe dela havia adormecido sentada no chão com o pequeno nos braços, quando uma ave de rapina, vendo o bebe no seu colo, baixara voando e, depois de apanhar a criança com o bico, a depositara na copa daquela árvore.

O guarda-florestal trepou na árvore e, agarrando a criança, viu que era um menino e pensou: "Eu o levarei para minha casa e o criarei junto com a minha Heleninha. "

Assim fez ele e as crianças cresceram juntas. Ao menino que fora encontrado na árvore puseram o nome de Avezinho. Ele e Heleninha se queriam, tanto, tanto, que, quando um não via o outro, ficava triste.

O guarda-florestal tinha uma cozinheira velha que certa tarde, apanhou dois balões e foi ao poço buscar água. Tantas vezes encheu os baldes que Heleninha, intrigada, perguntou-lhe:

- Para que vai buscar tanta água, velhinha?

- Se não contares a ninguém, eu te digo. - respondeu a cozinheira.

Heleninha assegurou-lhe que nada diria e a velha, então, lhe revelou o que ia fazer:

- Amanhã bem cedo, depois que o patrão tiver saído à caça, ferverei esta água e, quando a caldeira estiver chiando, jogarei Avezinho dentro para cozinhá-lo.

No dia seguinte, de madrugada, o guarda-florestal levantou-se para ir caçar, enquanto os meninos continuavam na cama. 

Heleninha, então disse a Avezinho:

- Se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

Respondeu-lhe o menino:

- Nem agora, nem nunca.

Continuou Heleninha:

- Bem, vou te contar uma coisa: ontem de noite vi que a velha criada trazia muitos  baldes de água do poço e lhe perguntei por que fazia aquilo. Respondeu que me diria se eu não contasse a ninguém. Prometi-lhe e ela, então, contou que esta manhã, quando meu pai estivesse caçando, ferveria a água na caldeira e te jogaria nela para  te cozinhar. Vamos saltar da cama para nos vestirmos e fugir daqui.

Os dois se levantaram, aprontaram-se rapidamente e depois fugiram mais que depressa. 

Quando a água ferveu na caldeira, a velha foi ao quarto em busca de Avezinho, com intenção de pô-lo à cozinhar, mas ao aproximar-se da cama, viu que os dois pequenos haviam desaparecido. Diante disso, assustou-se e pensou: "Que direi quando o guarda-florestal voltar e as crianças não estiverem mais aqui? Devo trazê-las de volta."

Ordenou a três criados que saíssem atrás dos dois meninos e os trouxessem para casa.

Enquanto isso, os pequenos se haviam sentado na margem da floresta e, ao verem de longe os três criados que se dirigiam a eles, disse Heleninha a Avezinho:

- Se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

- Nem agora, nem nunca - respondeu Avezinho.

E Heleninha tornou a  falar:

- Transforma-te em roseira e eu serei a rosa.

Quando os três criados chegaram ao bosque, não viram mais que uma roseira com uma só rosa. Dos dois meninos, nem rasto.

- Aqui não há ninguém! - disseram eles.

Deram volta e foram dizer à cozinheira que só tinham visto uma roseira com uma única rosa. Aí a velha gritou indignada:

- Idiotas! Deviam ter cortado a roseira, apanhando a rosa e trazido para casa. Saiam correndo e façam o que lhes disse.

E os três tiveram de voltar ao bosque. As crianças porém, os avistaram de longe e Heleninha falou:

- Avezinho, se não me abandonares, também  eu não te abandonarei.

E o menino respondeu:

- Nem agora, nem nunca.

- Então transforma-te numa igreja. Eu serei uma  coroa, dentro dela.

Quando chegaram os criados só viram a igreja e a coroa em seu interior. Puseram-se, então, a comentar:

- Mas que é que havemos de fazer aqui? O melhor é voltar para casa.

Lá a velha perguntou-lhe se haviam encontrado os meninos. Eles responderam que não e que apenas tinham visto uma igreja com uma coroa dentro.

- Idiotas! - gritou a velha. Por que não derrubaram a igreja e não me trouxeram a coroa?

Pôs-se, então, ela mesma, a caminho, acompanhada dos três criados, em busca dos pequenos. Mas estes viram aproximar-se os três homens e a velha, que vinha rengueando atrás. E Heleninha disse:

- Avezinho, se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

E o menino respondeu:

- Nem agora, nem nunca.

- Pois transforma-te num lago e eu num pato nadando em tuas águas.

Chegou a cozinheira e, ao ver o lago, abaixou-se para sorvê-lo. Mas o pato veio nadando,  a toda pressa e, apanhando-a com o bico, pelos cabelos, puxou-a para dentro da água e a velha bruxa afogou-se. Os meninos regressaram à casa, alegres e contentes, e caso não tenham morrido, com certeza ainda estarão vivos.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
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