quinta-feira, 4 de junho de 2026

Sílvio Romero (História de João)

(Folclore do Pernambuco)
HOUVE UM HOMEM QUE TEVE UM FILHO chamado João: morrendo o pai o filho herdou um gato, um cachorro, três braças de terra e três pés de bananeiras. João deu o cachorro ao vizinho, vendeu as bananeiras e as terras, e comprou uma viola. Foi tocar no pastorador das ovelhas do rei; quando o pastor chegava, ele se escondia, e nunca o pastor podia ver quem tocava a viola. 

As ovelhas, já muito acostumadas com o som da viola, não queriam mais se recolher ao curral, e quando o vaquejador as perseguia elas se metiam pelo mato, e cada dia desaparecia uma cabeça. João as ia ajuntando e exercitando ao som da viola todas as manhãs e tardes, e acostumando-as com o gato seu companheiro. 

O rei vendo as suas ovelhas sumidas, e pensando ser desmazelo do pastor, o despediu. Vindo João à feira fazer compras para levar para o mato, viu um criado do rei procurando um homem ou menino que quisesse ser pastejador de suas ovelhas. Logo que o criado viu a João se agradou dele, e disse: “Amarelo*, queres tu servir ao rei como seu pastor?” 

Respondeu João: “Que qualidade de rei é este que não caça e pasta no mato e precisa de ser pastorado? Esse rei é de pena, pelo ou cabelo?” 

O criado insultou-se, e disse-lhe: “Como te chamas?” 

João respondeu: “O Menino Ditoso.” 

O criado tomou-lhe o nome e largou-se para o palácio, e contou ao rei o que se tinha passado. Logo o rei mandou buscar o Ditoso debaixo de prisão. Chegou João com a sua viola e o gato metido num saco, e disse:

“Deus vos salve, rei senhor,
nesta sua monarquia!
Salve a mim primeiramente
e depois a companhia.”

Disse o rei: “Saibas que estás com sentença de morte, se não deres conta de todas as ovelhas que fugiram do rebanho.”

Respondeu o Ditoso: “Eu sei lá quantas ovelhas faltaram no rebanho!”. 

Disse o rei: “Fugiram mil e quero todas aqui.”

Retirou-se o João bem fresco; foi para o mato e deitou-se a dormir, e o gato foi caçar rolas para o jantar. Chegando a tarde, acordou o Ditoso e viu que nada ainda tinha feito, e pôs-se a tocar viola. Logo se reuniram todas as ovelhas, que eram duas mil e trezentas. Ele foi tocando a viola e seguindo para o palácio do rei, e as ovelhas foram acompanhando. 

O rei ficou espantado de ver tantas ovelhas, e disse-lhe: “Como pudeste ajuntar tantas ovelhas?” 

Respondeu: “Achei-as à toa.” 

— “Serão minhas todas?”, perguntou o rei. 

— “Quem sabe não sou eu; veja se as conhece, eu trouxe as que encontrei.” 

— “Tu agora tomarás conta do rebanho, que agora és meu pastor.” 

No outro dia antes do sol sair, o Ditoso pediu que batessem na porta do rei e dissessem que era tempo de seguirem para o mato. O rei acorda e chega à janela e diz: “Vai, Ditoso, pastorar.” 

O Ditoso respondeu: “Não posso sair sem rei, senhor, seguir no meio do rebanho, visto ser eu seu pastor, como disse.” 

— “És o pastor das ovelhas do rei”, disse este. “Agora sim, respondeu João, já me convenço de que o rei, meu senhor, não é de lã, nem de pena ou pelo; é rei de cabelo”.

Nisto seguiu com o gato e as ovelhas para o mato.
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* Amarelo =  é o sujeito reles, ordinário, chinfrim, em posição inferior. Pálido; débil. Diz-se do indivíduo que sofre de paludismo (malária). [N. do E.]
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fonte:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Asas da Poesia * 188 *


Trova humorística de
JOUBERT DE ARAÚJO E SILVA 
Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1915 - 1993, Rio de Janeiro/RJ

Cegonha é coisa de rico
e não passa de pilhéria...
- Quem trouxe o filho do Chico
foi o urubu da miséria!
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Caminhos

Caminhos… Caminhos!
Cada um com a sua história,
cada um com um destino!…
Caminhos que levam e trazem;
caminhos cruzados, esquecidos, abandonados;
caminhos que se encontram;
caminhos que se perdem!…
Caminhos do medo, da incerteza e da revolta;
caminhos dos enganos e dos desenganos,
onde durante anos aguardei a sua volta!…
Caminho da insensatez, da vaidade;
pelo qual você foi
deixando de vez
um peito angustiado,
sofrendo de saudade.
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Aldravia de
J. B. DONADON-LEAL
Mariana/MG

brigadeiro
cajuzinho
quindim
barrigas
nos
olhos
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Soneto de
JOSÉ RIOMAR DE MELO
Caucaia/CE

Meu verso

 Se meu verso te agrada, te conforta,
 Faz lembrar-te emoções que já viveste,
 Com algum deles talvez te comoveste,
 Ativando a esperança quase morta!

 É sinal que choveu na minha horta,
 Na emoção que a mim tu concedeste,
 Ao sentir que no verso que tu leste
 De euforia e de paz teu peito aborta;

 Entretanto se um deles não ressoa,
 Na fiel sintonia e te magoa,
 Na palavra ou na frase te feriu...

 Eu te peço perdão em tom profundo,
 Porque mesmo agradar a todo mundo,
 Jesus Cristo também não conseguiu...
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Na velhice, idade mestra
já sem forças para o embate,
vem a morte e nos sequestra
sem sequer pedir resgate.
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Pareça e Desapareça

Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parecia mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
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Quadra Popular de
MARIA DE LOURDES GRAÇA CABRITA
Portugal

Já tenho sinal aberto
pra no céu poder entrar,
não sei qual o dia certo,
vou quando Deus me chamar.
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Um narigudo

Homem sério, porém politiqueiro,
De inteligência mais ou menos clara,
É um edil, camarista ou camareiro,
De raro estofo e de feição bem rara.

Mais seco do que arenque de fumeiro,
Todo feito em lasquinhas de taquara,
Sacode em contorções o corpo inteiro
E tem puxos de filme pela cara.

Tem um nariz de cinco ou seis andares.
Se ele o entulhasse, num mister diverso,
De bicha, traques, fogos populares,

Faria uma fortuna, — é incontroverso, —
Pois, naquele nariz, turvem-se os ares!
Cabem todos os traques do universo!
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Trova de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ

Nascemos com o passaporte
com visto para a partida,
mas só de pensar na morte,
sinto saudade da vida!
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Poema de
LAWRENCE FERLINGHETTI
Bronxville/New York/EUA, 1919 – 2021,  São Francisco/Califórnia/EUA

15

Correndo risco constante
de absurdo e morte
toda vez que atua em cima
das cabeças da audiência
o poeta sobe pela rima
como um acrobata
para a corda elevada que ele inventa
e equilibrado nos olhares acesos
sobre um mar de rostos
abre em seus passos uma via
para o outro lado do dia
fazendo além de entrechats
truques variados com os pés
e gestos teatrais da pesada
tudo sem jamais tomar uma
coisa qualquer
pelo que ela possa não ser
Pois ele é o super-realista
que tem de forçosamente notar
a verdade tensa
antes de ensaiar um passo ou postura
no seu avanço pressuposto
para o poleiro ainda mais alto
onde com gravidade a Beleza
espera para dar
seu salto mortal

E ele um pequeno
homem chapliniano
que poderá ou não pegar
aquela forma eterna e bela
projetada no ar
vazio da existência
(tradução: Leonardo Fróes)
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Haicai de
ÂNGELA TOGEIRO 
Belo Horizonte/MG

Traças nos armários,
destroem qualquer passado,
roendo o inútil.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Iguaçu

Ó rio que nasceu onde nasci, ó rio
Calmo da minha infância, ora doce, ora má,
Belo estuário azul, espelhado e sombrio,
Quanto susto me deu, quanto prazer me dá!

Quantas vezes eu só, nestas manhãs de estio,
Ao vê-lo deslizar, pomposamente, lá,
Pálido não fiquei, tão majestoso vi-o,
Orgulho do Brasil, glória do Paraná!

Companheiro ideal! Durante toda a viagem,
Foi o espelho fiel a refletir a imagem,
Dos mantos e dos céus, discorrendo através

Da floresta, ora assim como um cão veadeiro,
A fugir, a fugir alegre e alvissareiro,
Ora deitado aqui quase a lamber-me os pés!
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES 
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

Os noivos fazem questão
de ter as mãos sempre unidas.
- É fácil unir as mãos...
difícil é unir as vidas!
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Glosa de
LUPÉRCIO MUNDIM
Ipameri/GO

Sonhos e ilusões

MOTE:
Quantos sonhos e ilusões
tecemos na mocidade!
Mas, nas cinzas das paixões,
nos resta apenas saudade.
Angela Stefanelli de Moraes 
(Niterói/RJ)

GLOSA:
Quantos sonhos e ilusões
juntamos pela existência,
sendo que as desilusões
do sonho é a desistência.

Milhares de sonhos lindos
tecemos na mocidade!
Muitos deles não são findos,
nos trazendo ansiedade.

Machucamos corações,
tirando-lhes a esperança.
Mas nas cinzas das paixões
encontramos temperança.

Seguimos mesmo feridos,
mantendo a afetividade,
porque dos sonhos perdidos
nos resta apenas saudade.
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Aldravia de
FLÁVIA GUIOMAR ROHDT
Anastácio/MS

seus
olhos
faróis
necessários
nessa
escuridão
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Soneto de
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
Mariana/MG, 1729 – 1789, Ouro Preto/MG

Onde estou?

Onde estou? Este sítio desconheço:
quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
e em contemplá-lo, tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
de estar a ela um dia reclinado;
ali em vale um monte está mudado:
quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
que faziam perpétua a primavera:
nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;
mas que venho a estranhar, se estão presentes
meus males, com que tudo degenera!
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Trova de
ELISABETE AGUIAR
(Elisabete do Amaral Albuquerque Freire Aguiar)
Mangualde/Portugal

Não quero correr Contigo,
mas a Teu lado correr,
pra correr com o perigo
que corre pra me vencer.
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Poema de
ÂNGELO DE LIMA
Porto/Portugal, 1872 – 1921, Lisboa/Portugal

Olhos de lobas

 Teus olhos lembram círios
Acesos num cemitério...
Dr. Rogério de Barros

 Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris... Incendiados!...
 
Como os clarões finais... - Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados...
— Nas criptas dum jazigo tumular!...

 — Como a luz que na noite misteriosa
— Fantástica - Fulgisse nas ogivas
das janelas de estranho mausoléu!...

 — Mausoléu, das saudades do ideal!...

 — Oh saudades... Oh luz transcendental!
— Oh memórias saudosas do ido ao céu!...

 — Oh perpétuas febris!... - Oh sempre vivas!...
— Oh luz do olhar das lobas amorosas!...
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Haicai de
JEFFERSON HENRIQUE MODESTO
São Paulo/SP

Vovô na varanda
Só tem um pensamento –
Mais uma geada!
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Setilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Quanto sonho o verso opera...
Da Argentina a Portugal,
de Porto Alegre ao Caribe,
da Venezuela a Natal.
Sonho que une as nossas mãos
numa corrente de irmãos
tecendo um lindo ideal.
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Trova de
ELEN DE NOVAES FELIX
Niterói/RJ

As espadas da descrença
não ferem meu coração,
nem há presságio que vença
o poder de uma oração.
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Hino de 
SANTOS/ SP

Santos poema, jardins pela praia
Cidade e porto de mar
Tens a magia de barcos estranhos
Na barra esperando adentrar
Morros, varandas alegres
Suspensas no arvoredo
Santos das ruas antigas
À beira do cais
Que escondem segredos

Tuas paineiras floridas
Salgueiros que choram
Nos velhos canais
Santos, cuidado menina
As tuas belezas
Não percas jamais

Os flamboiãs florescentes
Palmeiras imperiais
Ilha Urubuqueçaba
O verde reduto
Nas ondas do mar

Oh! Santos
És linda demais!
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A Beleza e a Magia de Santos: Um Hino à Cidade
O 'Hino de Santos - SP' é uma celebração poética da cidade de Santos, localizada no litoral do estado de São Paulo. A letra da música destaca a beleza natural e a importância histórica da cidade, que é conhecida por seus jardins à beira-mar, suas ruas antigas e seu porto movimentado. A canção começa exaltando a magia dos barcos que chegam ao porto, trazendo consigo um ar de mistério e aventura. Essa imagem evoca a importância de Santos como um ponto de conexão entre o Brasil e o mundo, um lugar onde culturas se encontram e se misturam.

A música também faz referência aos elementos naturais que compõem a paisagem de Santos, como os morros, as varandas alegres e as paineiras floridas. Esses elementos são apresentados de forma quase nostálgica, como se fossem guardiões dos segredos da cidade. A menção aos salgueiros que choram nos velhos canais adiciona um toque de melancolia, sugerindo que a cidade tem uma história rica e complexa, cheia de momentos de alegria e tristeza.

Além disso, o hino faz um apelo para que a cidade preserve suas belezas naturais e arquitetônicas. A referência à Ilha Urubuqueçaba e às palmeiras imperiais reforça a ideia de que Santos é um lugar único, com uma biodiversidade e uma arquitetura que merecem ser protegidas. A exaltação final, 'Oh! Santos, és linda demais!', resume o sentimento de admiração e amor pela cidade, convidando os ouvintes a valorizar e cuidar desse patrimônio. 
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Poetrix de
CARLOS ALBERTO FIORE
Limeira/SP

dia-a-dia 

Rostos pesados.
Corações ásperos.
As ruas se apressam.
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
Santa Maria/RS, 1923 – 2009, Joaçaba/SC

Outono em meio

O vento desistiu de seus andares,
cansou-se e resolveu dormir mais cedo.
As folhas, nem balançam no arvoredo.
Borboletas...algumas pelos ares.

Nuvenzinhas solteiras e sem medo
buscam no céu seus noivos ou seus pares.
Cá por dentro borbulham os cismares
numa ausência de rumos e de enredo.

(- Ó tardes, de domingo, ensolaradas!...)
O silêncio murmura uma cantiga
para ouvirmos a sós...mas de mãos dadas.

Deixemos, por enquanto o lábio mudo!
E o relógio, deixemos que prossiga...
Conversar?...Para que, se sabes tudo?!.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A andorinha e os passarinhos

Certa andorinha que por esse mundo
Mil viagens fizera,
De muito e muito ver muito aprendera.
Chegara a tal primor, que ainda a tormenta
Nem sequer negrejava,
E já ela às marítimas companhias
A queda anunciava.
Sucedeu que no tempo em que é costume
Começar-se do linho as sementeiras,
Viu que um maltês andava nessa faina
Pelas compridas leiras.
«Mau vai isto — disse ela aos passarinhos —
Causais-me dó; por mim, tenho caminhos
De sobra onde vogar.
Vedes-me aquela mão que diligente
Gira e torna a girar?
Pois não vem longe o dia em a semente
Que hoje essas linhas traça,
Vos cause, pobre gente,
Eu sei, quanta desgraça!
Tereis a cada canto uma armadilha,
Perpétuo susto em horas de canseira;
Que na estiva sazão quando o sol brilha,
Anda perto a gaiola da caldeira.
Devorai-me esse pão já semeado,
E lestes, podeis crer».
Fez-lhe chacota o bandozinho alado:
Tinha mais que comer.
Ao surdir o linhal volta a andorinha:
«Fora com esta planta que é daninha,
Ou perdidos ficais!
Profeta de desastres, tagarela,
Bom feito nos lembrais;
Fora mister para um desbaste desses
Mil pessoas, ou mais!»
Crescera o linho, e a astuta conselheira
Insiste em martelar:
«Vejo que não há forma nem maneira
De vos poder guiar;
Pois, olhai: dentro em pouco o seareiro.
Apenas vir que a messe lhe loureja,
Põe logo mão na rede, e muito arteiro
Convosco entra em peleja
Sem vos deixar a cola;
Não sair do cadoz, e muito tento,
Ou dar asas ao vento
Como sucede ao pato e à galinhola.
Mas vós não podeis tal, não vos é dado
Transpor o monte, o cerro, a extensa onda:
Pois cada qual, prudente e a bom recado,
Na mais profunda toca se me esconda».
Refartos de presságios, os incautos
Rompem a vozear num desatino,
Quais Troianos no tempo em que Cassandra
Lia o porvir nas folhas do destino.
Andaram por igual: da passarada.
Muita se viu prender.

Nós damos peito à nova, se ela agrada,
E só cremos no mal depois de o ver.
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 160

Acordar cedo? Muito bom. Mas nos últimos tempos não tenho a necessidade e levanto um pouco mais tarde. A vida é feita de molas, umas puxam, outras encolhem. E como!

Recentemente fiquei fora de casa por um tempo maior, deixando, digamos, ao abandono os passarinhos sem quirerinha no bosco, os beija-flores sem a aguinha diária, os sabiás sem a ração no prato de vaso de flor.  

Voltei e vi. Vi o bosco triste, sem sons, sem cantorias, sem o casal de sabiazinhos cedinho a comer. Mas... Aquele MAS bom! Passados três dias, eis que acordo cedo e vejo ali os dois queridos cantadores da florestinha, com quem falo e os vejo querendo falar, o gogozinho em movimento, olhar firme, bem presente.

A companhia dos animaizinhos nos torna dependentes mutuamente. Necessitados. Desejados. Carentes na ausência. Uma saudadezinha até. Assim mesmo! Somos todos moradores da mesma casa comum - o planeta mãe-terra - e essa intimidade, aconchego, vivência, nos faz bem, nos faz alegres, é parte da felicidade que procuramos tanto, e está pertinho embaixo das árvores, junto às flores e às melodias canarinhas.
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia): “Quem não te conhece, que te compre”

Imagem criada com Microsoft Bing

Quem lida com pessoa falsa, do tipo conhecido como “morde e assopra”, que publicamente simula afeição por outrem que particularmente detesta, nada melhor para defini-la do que essa expressão que remonta aos nossos avoengos e resume o perfil de quem assim se comporta: “Quem não te conhece, que te compre!...

Provérbio de largo emprego na terra de Camões – há quem diga que se originou na Espanha - onde também existe gente escusa, é a opção preferencial daqueles, destes e também dos brasileiros, para indicar depreciativamente quem cultiva a enganação, a mentira, a fofoca, o logro, a desonestidade, a sordidez e a intriga.

Desde cedo testemunhamos quando e como nossos pais a diziam, para evidenciar que alguém supostamente bonzinho, ocultava personalidade sórdida, mesquinha e reprovável, disfarçando sorridente sua letalidade de ofídio, a quem por sinal se amolda outro ditado: “É um lobo em pele de cordeiro”... 

Tal expressão não significa admitir, a contrario sensu, a licitude de suposto comércio de pessoas de boa índole, que não carregam o labéu de “não confiáveis” e sim, deixa claro que só confia na bisonha figura, quem com ela não convive, para saber de sua capacidade de dissimulação. A aparência, a simpatia, a conversa fluida, o sorriso postiço na cara, seduz apenas o desavisado "comprador" desses conhecidos campeões do engodo. 

Quem convive com esse time de aleivosos, por sinal fartos nos ambientes sociais e acadêmicos, empresas, repartições, associações e até nos templos religiosos, já deve ter sofrido na pele as falsidades desses artistas do disfarce, e devidamente escaldado, não mais se deixa levar pela encenação do impostor, nem se seduz quando ele usa sua pele de cordeiro. Porém, aonde, quando e como teria ela surgido? 

Existe a versão, que se afigura surreal, que conta que do interiorano simplório, nativo de Carmona, na espanhola Andaluzia, sabidamente generoso e afável, que além da modesta casa, possuía de seu apenas um burro de estimação, que evitava a todo custo usar no labor da roça, para não fatigar o animal. E para demonstrar seu apreço pelo animal, acostumou-se a andar nas ruas e estradas da região puxando-o pelas rédeas, em vez de simplesmente montá-lo. 

Certa vez, alguns estudantes arruaceiros, como de resto existem em qualquer lugar, o viram passar conduzindo desse jeito o jumento e decidiram roubá-lo. Enquanto uns levavam o animal sem que dono se apercebesse, o mais ousado do grupo ficou no lugar do burro, com a mão atada ao cabresto. Foi quando o ancião o viu e ficou pasmado, achando que o burro tinha se transformado em gente, pelo tanto que já se entendiam em razão do longo e carinhoso convívio.

Flagrado, o estudante foi inventivo: mentiu que no passado tinha sido brigão, arruaceiro, amante do copo e do baralho, vadio e vidrado num rabo de saia. Por isso seu pai o amaldiçoara com uma terrível praga: “Tu és um asno e em asno vais te transformar”. Foi tiro e queda. A maldição se concretizou, ele virou um vistoso burro e por alguns anos vinha vivendo daquela forma. Porém agora, arrependido dos pecados cometidos na fase errática da vida, tinha finalmente voltado ao normal, humanizara-se, pois a praga paterna havia perdido a força.

Maravilhado com a história, o crédulo ancião teve dó daquele estudante e nem se importou com o dinheiro que estava perdendo sem o burro que tanto o ajudava em suas tarefas. Generosamente, aconselhou o jovem a ir procurar o pai para com ele se reconciliar, virar a página e dar o assunto por encerrado. O pilantra, com lágrimas de crocodilo nos olhos, simulando gratidão, aproveitou a leniência do outro e simplesmente vazou, sumiu do mapa.

Tempos depois, passeando numa feira, o ingênuo dono do animal surrupiado ficou perplexo, ao ver que estava à venda um burro em tudo idêntico àquele que um dia fora seu. Óbvio que era o mesmo animal, entretanto, o crédulo sujeito concluiu que aquele estudante com quem conversara havia voltado à sua vida de bacanais e estripulias, por isso o pai o amaldiçoara novamente e por tal razão ele estava ali para ser vendido. Foi então que decidiu ir à forra. Aproximou-se do quadrúpede, crente que estava falando com o jovem, segredando-lhe ao ouvido: “QUEM NÃO TE CONHECE, QUE TE COMPRE!...” 

Na musica popular brasileira, a dupla Flávio Aquino e Gabriel compôs uma música que tem como titulo a dita expressão popular, cujo texto poético tem  pouco a ver com o seu tradicional significado: 

Todo mundo fala 
Todo mundo vê
Que meu corpo ferve 
Que eu amo você
Mas você disfarça 
E diz que não percebe
Diz que está sozinha pra ser mais feliz
Diz que não achou alguém à sua altura
 Esse orgulho besta, te leva a loucura
 Igual tensão de pré-vestibular

Quem não te conhece, que te compre...
Me leva de brinde, paciência
Pra esperar sentando, que isso ainda vai longe
Porque você se esconde?!...

Faltou um pouco mais de criatividade para melhor aproveitar um jargão cujo uso não se limitou à Península Ibérica. Atravessou o Atlântico e estacionou em Pindorama, varou gerações e até hoje se amolda de forma perfeita para qualificar os desqualificados, quais sejam, aqueles sobejamente conhecidos por suas falsidades, encenações, falcatruas ou grotescas enganações.
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados, dentre eles um E-book e recebeu três prêmios literários. 

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Revista Crestomatia de Trovas n. 3 – junho de 2026 (Download gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

* O Sentir em Quatro Versos: Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Velhice — esse estágio de nossa vida, lapidado pela sensibilidade de vozes inesquecíveis.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz um verdadeiro "catatau" de trovas do mestre juizforense Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho. Uma imersão profunda na obra de um dos maiores expoentes da nossa arte.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo indispensável do livro "O Bom Trovar", da saudosa Maria Thereza Cavalheiro, falando sobre a rima.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem à delicadeza e ao talento do curitibano Maurício Norberto Friedrich, resgatando a memória da trova paranaense.

* Encerro com um artigo sobre o Trovadorismo.

Baixe em pdf no link abaixo

Boa leitura.
abraços trovadorescos

José Feldman