sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Vanice Zimerman (Poemas Esparsos)

 

ARTE E MISTÉRIO

Um olhar misterioso...
No palco: palmas, sapateado
Num ritmo intenso e belo!
No olhar da Dançarina Flamenca
Cintilam sonhos, espelhos,
Ao som encantado das castanholas, despede-se...
Palmas!
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CENTAURO DE CRISTAL

Veloz, ele passeia em meus sonhos
Sedutor, brinca de esconde – esconde...
Disfarça-se nas poesias
Cobre- se  de folhas...
Quase, desisto de tocá-lo,
Mas, o vento Cupido aproxima-nos…
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CUMPLICIDADE

Há uma cumplicidade linda,
Entre o claro e o escuro;
O dia e a noite,
O certo e o errado e,
Entre meus pensamentos
e a companhia do por-do-sol…
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JANELA ENTREABERTA

Noite de novembro
Janela entreaberta:
Aos poucos, a poesia abre a janela
Meus pensamentos seguem meus sonhos,
E escapam  buscando encontrar você…
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JANELAS AZUIS

Nas paredes brancas
Desabrocham flores...
Nas antigas  janelas azuis
Lembranças e poesias…
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MADRUGADA

Cessam os toques...
Descansam as teclas do computador
Teu rosto tão distante,
Silêncio…
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MÁGICO ESPELHO

Noite fria
Envolve o silêncio...
A saudade cintila
Desenha teu rosto
No espelho…
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NOITE DE PRIMAVERA

Noite de primavera
Janela aberta...
Na quietude do jardim
Desabrocham as rosas,
O  vento  suave passeia nas pétalas
Enquanto a saudade envolve-me…
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SAUDADE E RETICÊNCIAS...

A saudade transborda em lágrimas
E amor intenso deságua nas páginas em branco
Em forma de poesias e reticências…
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SONS DO ESPELHO

No espelho caem gotas d’água
Deslizam pequenos retratos,
Reflexos,  rostos e versos
Sussurram um nome…
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TULIPAS E PORTA-RETRATOS

Das tulipas vermelhas
Algumas gotas d'água deslizam
no porta-retratos
Breves lágrimas…
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VENTO...

 Fim de tarde
 A suavidade do vento
 desperta lembranças
 tece sonhos…
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Vanice Zimerman (1962)
VANICE ZIMERMAN FERREIRA (que assina artisticamente como Vanice Zimerman) é uma poetisa, haicaísta, artista plástica, fotógrafa e ilustradora brasileira. Nascida em Curitiba/PR, em 1962, ela se consolidou na capital paranaense — onde reside e trabalha — como uma das principais referências contemporâneas no diálogo entre a poesia de matriz japonesa (o haicai) e as artes visuais. A carreira de Vanice Zimerman une umbilicalmente as Letras e as Artes Visuais. Graduou-se em Letras (Habilitação em Português e Inglês) pela Faculdade Machado de Assis (FAMA), concluindo o curso em 2010. Também estudou Artes Visuais na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Atua como escritora, artista plástica e educadora. Desenvolve um trabalho dinâmico ministrando oficinas de haicais e técnicas de aquarela, integrando a sensibilidade poética à expressão visual e às texturas das tintas (frequentemente usando elementos orgânicos como café, vinho e chás em suas telas). 
Embora escreva poesia desde os 13 anos de idade, sua inserção formal no mercado editorial e em concursos teve início a partir de 2007. Sua marca registrada é a dedicação ao haicai clássico — poema conciso de três versos focado no momento presente e na natureza. Ela pertence à Academia Poética Brasileira (APB) (onde é membra acadêmica ativa) ; Centro de Letras do Paraná (CLP); Confraria Brasileira de Letras (CBL); International Writers and Artists Association (IWA), entre outras.
Dona de uma produção literária vasta, ela possui textos espalhados em mais de 115 livros entre coletâneas, antologias nacionais e internacionais, e-books e revistas culturais. Destacam-se A Lâmpada e as Estrelas (Coletânea de Haicais, 2012) ; Poemas & Imagens (2013); Samoborski Haiku Susreti / Samobor Haiku Meeting (Antologias internacionais publicadas na Croácia, nas quais participa consecutivamente); Kabocha (Antologia internacional, 2016); Atuação como prefaciadora e capista de materiais didáticos sobre o gênero, como o manual O Passo a Passo do Haicai.
Premiada em concursos internacionais de haicai na Croácia (como as seleções de Kabocha em 2016 e as premiações em Ludbreg. Medalha Monteiro Lobato (2015): Distinção por seu papel na disseminação cultural. A relevância de Vanice reside sobretudo em sua atuação como divulgadora e mestra da vertente do haicai no Brasil. Ela é uma das vozes que mantém viva e descentralizada a tradição do poema curto de origem japonesa no Sul do país, demonstrando que a concisão poética (de apenas 17 sílabas) pode capturar a imensidão do cotidiano. Além disso, sua importância se expande através do conceito de Haiga (a união clássica entre a pintura e o haicai). Ao unir suas fotografias e aquarelas aos seus escritos, ela constrói pontes raras entre a literatura e as artes plásticas, educando novas gerações de escritores por meio de suas oficinas práticas.

Fonte:
Recanto das Letras da Poetisa

Contos e Lendas do Brasil (A Discussão dos Talheres)

Garfo, faca e colher estavam numa gaveta discutindo um assunto sério: quem era o melhor e o mais útil no mundo dos homens.

A faca, vaidosa, dizia:

- Eu facilito a vida do homem. Corto coisas enormes que ele jamais poderia utilizar ou comer sem a minha ajuda.

O garfo, muito metido, disse com empáfia:

- Sem mim os homens teriam de usar os dedos para levarem os alimentos à boca, e como esquecem de lavar as mãos engoliriam tanta bactéria que teriam indigestão bacteriana.

- Você sabe por que o homem comia com os dedos?

- Não. – disse o garfo.

- Porque achavam que o alimento era sagrado e por isso devia ser comido com os dedos.

- Mas sem lavar as mãos, não é, dona faca? Eu continuo dizendo que sou a ferramenta indispensável na mesa dos humanos.

A faca, nervosa, retrucou:

- Deixa de ser burro, garfo tonto. Garfo sem faca é o mesmo que relógio sem ponteiro, um não funciona sem o outro. Eu sou o talher mais antigo da história! Fui feita de pedra e servia para a caça e defesa. Depois passei a ser feita de bronze, isso numa outra época.

- Eu sei, seu bobo enxerido, que o homem oriental usava pauzinho a guisa de garfo, feito de bambu e tinha um nome engraçado, hashi. Isso você não sabia. Sabia? Sei, também, que apesar de você ser antigo só chegou ao mundo ocidental no século XI, na Itália. Você foi criado pelos gregos e adotado no século VII pelo Império Bizantino. Na Inglaterra, até o início do século XVII você era considerado utensílio efeminado.

- Não fale assim de mim, dona faca! – choramingou o garfo - Eu não sou efeminado. Eu nasci para facilitar, não para complicar. Eu sei tudo isso que você falou. Sei que ainda hoje, entre os orientais, permanece o uso dos pauzinhos. Com os pauzinhos o homem demorava muito tempo para comer. Cada vez que ele pegava uma porção para levar à boca, caía tudo de volta para o prato. Comigo não. Ele me enche de comida e eu entulho a sua boca.

- Você, seu garfo, é malvado porque incita o homem a comer demais e muito rápido. O costume de comer muito e rápido é prejudicial à saúde. Os pauzinhos são uma forma de disciplinar a alimentação. Aos poucos e devagar. Com eles não se pode pegar um bolão de comida.

- Não adianta, dona faca, sem esse garfinho aqui o homem é nada vezes nada.

- Ora, não seja convencido! - exclamou a faca – às vezes você machuca a boca das pessoas.

- Ah, é!? E você que corta os dedos das crianças?

- Só das crianças desobedientes. Eu ouço sempre as mães dizendo: “- Crianças não brinquem com facas...”

E o garfo exultante acrescentou:

- Viu, viu como eu sou mais útil do que você? Eu nunca ouvi uma mãe dizer: “- Não peguem o garfo, crianças!” Ah, ah, ah, eu sou bom demais!!!

- Pode rir seu bobo. – disse a faca amuada – O seu deboche não me atinge, porque eu sei que você também é perigoso nas mãos das crianças.

E a discussão continuou. A colher, que estava quietinha lá no seu cantinho, numa das divisões do porta-talher, interferiu:

- Dá licença!

- Pois não, dona colher – disse o garfo.

- Vocês estão nessa discussão boba de quem é melhor, quem é mais útil sem pensar que somos um conjunto. Deus permitiu que o homem tivesse a inspiração para nos criar e fazer de nós o pai, o filho e o espírito santo das cozinhas. Somos a tríade que facilita o trabalho de preparar e ingerir os alimentos. A minha história é meio nebulosa. Foram encontrados, em escavações, objetos semelhantes a mim, provavelmente, com mais de vinte mil anos. Sei que os gregos antigos utilizavam a colher de pau para preparar e comer os alimentos. Como vocês podem ver a minha história não é tão interessante quanto as suas. O que tenho certeza é que já fomos objetos rústicos, hoje somos mais modernos. Somos feitos de metal, plástico e madeira. Somos até joias feitas em ouro e prata. Mas a nossa função é a mesma, desde que surgimos na civilização: ajudar o homem na sua alimentação.

Nós somos a união, e a união faz a força. Lembrem-se que um é complemento do outro. E se é para se gabar de utilidade, eu quero fazer uma pergunta:

- Diante de um fumegante prato de sopa, quem é o mais útil? Ah, ah, ah, ah, peguei vocês.

Fonte:
Maria Hilda de Jesus Alão, in Contar e Encantar

Figueiredo Pimentel (A Corda do Diabo)

Sinfrônio era um homem riquíssimo, dono de inúmeras propriedades e dispondo de fabulosas somas em ouro. Metendo-se, porém, em maus negócios, empobreceu de repente.

Vendo-se na mais completa miséria, resolveu sair do seu país, procurar uma terra onde não fosse conhecido, e ver se conseguia recuperar a fortuna perdida.

Um dia, atravessando uma planície, encontrou o diabo, a quem não reconheceu, todavia.

— Que tens? perguntou-lhe Satanás, conquanto soubesse perfeitamente bem a causa da tristeza de Sinfrônío.

— Para que dizer-te? — respondeu este. — Não me poderás dar remédio...

— Isso é que não sabes; e, desde já, obrigo-me a tirar-te do embaraço, se te obrigares a fazer tudo quanto eu disser.

Em seguida, vendo que Sinfrõnio estava espantado com aquela proposta, deu-se a conhecer.

O pobre homem não sabia que fazer, mas como se achava desesperado da vida, completamente pobre, resolveu aceitar a proteção de Satanás.

Prometeu ficar-lhe pertencendo, com a condição de enriquecer de novo.

— Pois bem, disse o demônio concluindo o pacto, de hoje em diante sair-te-ás bem de todos os negócios em que te envolveres. Se, entretanto, te achares alguma vez em perigo, bastará dizer “Dom Martinho, socorre-me!” e eu te aparecerei.

O capataz do inferno sumiu-se.

Sinfrônio, continuando viagem, chegou pelo meio da noite, a uma cidade.

Aí, certo de que triunfaria, resolveu roubar.

Em todas as casas que pretendia entrar, mal chegava, as portas abriam-se de par em par, encontrava os moradores profundamente adormecidos, e via à mão objetos preciosos.

Então meteu-se em altas empresas, e tornou-se um bandido célebre, terror de toda a região, saqueando viajantes.

Um dia foi preso.

Mal se viu na prisão, lembrou-se do seu protetor e exclamou:

— Dom Martinho, socorre-me!

O diabo apareceu logo e libertou-o.

Vendo-se livre, Sinfrônio recomeçou na sua antiga existência, cometendo toda a sorte de rapinagens.

Novamente foi preso, mas, como da primeira vez, invocou Satanás.

— Dom Martinho, socorre-me!

O demônio veio, mas Sinfrônio reparou que se demorara um pouco.

— Por que não vieste mais depressa?

— Estava ocupado, limitou-se o diabo a dizer laconicamente.

Mais tarde, depois de novos crimes e terríveis façanhas, o nosso herói caiu nas mãos da justiça.

Do fundo da sua prisão chamou Satanás que não veio.

Passaram-se dias, o processo já estava muito adiantado, e só faltava a sentença, quando finalmente mestre Lúcifer veio libertar o amigo.

Posto em liberdade, o bandido continuou ainda na sua horrível existência de rapinagem, com mais afã que nunca, em vez de se emendar.

Pela quarta vez foi preso, encerrado numa masmorra forte, e guardado por sentinelas.

Sem se inquietar muito, Sinfrônio gritou pelo demônio, segundo haviam combinado.

— Dom Martinho, socorre-me!

Decorreram semanas e semanas, até que, enfim, o juiz pronunciou a sentença, condenando-o à morte.

Marcou-se a data para a execução da sentença. Satanás, faltando à palavra, não acudiu à chamada.

Sinfrônio, escoltado pelo carrasco, e por soldados, caminhou para a praça e subiu à forca.

Foi só então que o capataz do inferno apareceu.

— Toma esta bolsa, disse-lhe ele. Aí, dentro estão vinte contos de réis. Dá-os ao juiz que ele te libertará.

O condenado, chamando o juiz, como que para lhe dizer as suas últimas vontades e confissões, fez-lhe a proposta.

O juiz, magistrado desonesto e avarento, escondeu a corda e disse para o povo:

Cidadãos: acaba de suceder um fato extraordinário, que pela primeira vez acontece: esquecemos de trazer a corda para enforcar o condenado. A execução fica pois, suspensa. Quem sabe se Deus não quis, por esse modo, mostrar a inocência do réu? Vai rever-se a sentença mas a justiça será feita.

Prepararam-se os executores para reenviar Sinfrônio para a cadeia.

Nesse intervalo o magistrado abriu a bolsa, mas só encontrou uma corda nova, em lugar dos vinte contos de réis.

Voltou-se indignado, exclamando:

— Cidadãos: acaba de aparecer uma. Foi Deus quem a enviou. Este homem é na verdade um bandido. Enforquem-no!

Passaram o laço no pescoço de Sinfrônio, que vendo-se estrangulado, bradou:

— Dom Martinho, socorre-me!

— Ah! disse o demônio aparecendo, eu não posso fazer nada, quando os meus amigos já estão com a corda no pescoço.

É assim que o diabo, fingindo querer salvar-nos, acaba sempre por trazer a corda para nos enforcar.
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Figueiredo Pimentel (1869 - 1914) 
ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTEL (conhecido no meio literário apenas como Figueiredo Pimentel) foi um prolífico e polivalente jornalista, romancista, poeta, cronista e folclorista brasileiro. Ficou imortalizado na história cultural por ser o grande pioneiro da literatura infantil e da compilação de contos populares e folclóricos voltados para crianças no Brasil. Nasceu em Macaé/RJ, em 1869. Faleceu precocemente na cidade do Rio de Janeiro, em 1914, aos 44 anos de idade. Embora tenha nascido no interior fluminense, viveu a maior parte da sua vida ativamente na capital federal, o Rio de Janeiro, que serviu de cenário e inspiração para grande parte de suas crônicas e reportagens. Iniciou sua carreira jornalística extremamente jovem, aos 17 anos. Foi redator de grandes veículos e ganhou imensa notoriedade a partir de 1907 ao assinar a famosa coluna "O Binóculo" no jornal Gazeta de Notícias. Por meio de suas crônicas diárias, ele ditava a moda, os costumes e os comportamentos da sociedade carioca da Belle Époque. Foi ele quem cunhou e popularizou o célebre slogan "O Rio civiliza-se", que embalou as reformas urbanas e culturais da capital. Também atuou brevemente na diplomacia.
Foi um autêntico polígrafo (escritor de alta produtividade). Transitou por estéticas variadas, flertando com o Parnasianismo, o Naturalismo e o Simbolismo. Paralelamente à literatura boêmia e aos seus "romances de sensação" (por vezes vistos como escandalosos para a época), ele promoveu uma revolução ao se voltar para as narrativas populares e o universo infantil. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras, que dava os seus primeiros passos no final de sua vida, mas foi correspondente internacional e redigiu sobre as letras brasileiras para a prestigiada revista francesa Mercure de France. Suas obras infantis foram gigantescos sucessos editoriais de venda.
O autor teve dezenas de livros impressos, divididos em fases distintas:
Fase Adulta (Poesia, Crônica e Romance Naturalista): Fototipias (1893) – Seu livro de estreia na poesia; O Aborto (1893) – Romance de estética naturalista; Livro Mau (1895) – Poesias de tom decadente e pessimista.
Fase de Folclore e Literatura Infantil (A famosa "Biblioteca Infantil" da Livraria Quaresma): Contos da Carochinha (1894/1896) – Sua obra mais famosa, que inaugurou o gênero no país; Histórias da Avozinha (1896); Histórias da Baratinha (1896); Teatrinho Infantil (1896) – Considerado o pioneiro em publicar textos dramáticos para crianças no Brasil; Histórias do Arco da Velha.
A relevância histórica de Figueiredo Pimentel é imensurável por dois motivos centrais: ele foi o pai fundador da literatura infantil brasileira e um dos primeiros a aclimatar e democratizar o folclore para as crianças. Antes dele, não existiam livros editados no Brasil pensando especificamente no público infantil; as crianças liam traduções diretas e áridas vindas de Portugal. Pimentel teve a sensibilidade de pegar os contos de fadas clássicos europeus (de Perrault, Andersen e dos Irmãos Grimm) e as fábulas populares, reescrevendo-os em uma linguagem simples, fluida, brasileira e musical. Ao registrar e popularizar narrativas da tradição oral e folclórica local na coleção da Livraria Quaresma, ele preparou o terreno e formou a base de leitores para que, décadas mais tarde, autores como Monteiro Lobato pudessem expandir o universo literário nacional.

Fonte:
Figueiredo Pimentel. Histórias da baratinha. Publicado originalmente em 1896.
Biografia = Wikipedia, UFSC (Literatura Brasileira), UERJ (publicações), Antonio Miranda, Blitz Literária, Editora Atena, etc.

Ialmar Pio Schneider (Caderno de Sonetos)

 

POETA

 Ressurge a primavera fulgurando,
 e os pássaros soluçam pelos ares.
 São novos sonhos, cálidos cantares,
 são novas ilusões, um novo bando...

 Poeta, se teus cânticos calares,
 oh! com tristeza ficarás cantando
 nos gorjeios das aves, pelo brando
 vento que passa pelos verdes mares !...

 Tua ausência será na primavera,
 quando disseste um dia: - Ah! quem me dera,
 morrer numa tardinha rubra e calma

 e entrar cantando lá no paraíso,
 meus cantos, pobres cantos sem sorriso,
 que acalentam na terra as mágoas d alma !...
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SONETO À FILHA

 Eu canto o amor à filha que é inocente
 e floresce no lar junto dos pais;
 estudiosa, querida, inteligente,
 guardo-a no coração cada vez mais...

 Quantas vezes perdida a fé, descrente,
 passei por horas duras, infernais,
 mas um carinho dela e já contente
 esquecia os tormentos tão cruciais...

 Em nossa casa simples e modesta
 representas um rútilo tesouro
 que nos alegra e que tanto brilha;

 e agradecendo a Deus só me resta
 dizer que tens um coração de ouro
 e que és o alicerce da família…
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SONETO A UMA FADA

 Fazes de conta que jamais me viste
 e eu também finjo que não te conheço;
 nossa união terminou sem ter começo
 e eu continuo, como sempre, triste.

 O que tu prometias não cumpriste;
 mas esquece-me, então, pois eu te esqueço;
 isto conosco foi mais um tropeço;
 vamos saber qual de nós dois desiste.

 Quero descrer de ti, não mais te amar;
 porém, tudo me leva à tua presença
 e por nada te posso condenar.

 Foste uma Fada que surgiu voando
 e não trouxeste, enfim, a recompensa
 ao poeta que vive te adorando…
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À SOMBRA DO COQUEIRO

 À sombra de um coqueiro eu fico a meditar,
 sentindo um doce aroma espalhado no ar,
 e as águas a cantar de uma sonora fonte,
 e o sol a se esconder ao longe no horizonte,

 e os sinos a planger em dobres doloridos,
 e as aves a soltar seus últimos gemidos,
 e a brisa a balançar os galhos do arvoredo,
 e o drama desta vida ao fim quase no enredo,

 e as horas a fugir bem como as luzes frouxas
 que já vão se apagando atrás daquelas rochas,
 produzem dentro em mim uma poesia solene

 e eu sinto em toda parte um sentimento infrene
 de amar-te para sempre enquanto persistir
 o sonho mais ardente anunciando o porvir...
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PASSEIO MATINAL

 Quando o sol faz menção de aparecer
 ao longe no horizonte cor de brasa,
 eu saio do meu rancho, minha casa
 e me ponho no pingo pra correr.

 Nem que a geada estiver a embranquecer
 toda a campina branca como a asa
 da garça solitária, nada atrasa
 meu madrugar que é pra mim um dever.

 Levanto nem que chova canivete
 e parto pelo campo no meu flete,
 fazendo meu passeio matinal;

 que o prazer do gaúcho é respirar,
 profundamente, de manhã, o ar
 deste forte minuano hibernal.
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SONETO 16049

Certa vez quis compor os versos nobres
 que me trouxessem, afinal, a glória
 numa epopeia que transforma a história,
 mas simples como sou fiz cantos pobres...

 À tardinha, escutando os tristes dobres
 dos sinos que lembrando a trajetória
 de quem lutou e sem obter vitória,
 serei apenas eu e meus desdobres.

 Vejo a paisagem, ora ensolarada,
 as árvores floridas da estação
 primaveril em pleno curso ainda...

 e permaneço como se mais nada
 ne interessasse neste instante vão,
 mas tão brilhante de uma luz infinda…
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SONETO 16032

Dediquei-me à poesia e fiz meus versos
 pra amenizar tristezas e tormentos,
 pois, hoje, ao vê-los por aí dispersos,
 me recordam amores ciumentos...

 Mas, se não foram, ao meu ver, perversos,
 representam os nobres sentimentos,
 não impossíveis nem também adversos,
 apesar de sofridos e violentos.

 Outrossim, me fizeram bem e mal,
 porquanto, no contexto da existência,
 vamos formando nosso cabedal...

 E tudo que tivermos computado,
 permanece no livro da existência,
 como um fiel registro do passado…
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SONETO 15992

Procurei um soneto que tivesse
 algo de amor ao coração que sofre,
 e deparei-me na primeira estrofe
 com a rima perfeita que merece.

 Mas não faz mal, o texto é como a prece
 que já rezei outrora a Santo Onofre,
 cujo segredo guardo no meu cofre
 e divulgá-lo agora não carece.

 A vida é feita de altos e de baixos
 e o sofrimento dos criados guaxos
 permanece gravado em suas almas.

 Mas Deus que tudo vê lá das Alturas,
 estende Sua bênção às criaturas
 pra que vivam na paz e sejam calmas.
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SONETO 15956

Sonetos, trovas, versos e canções,
 Que admiro ler de tardezinha, quando
 O sol vai no horizonte declinando
 E as horas nos envolvem de emoções...

 Se permaneço em sonhos meditando,
 Tudo vem me lembrar desilusões,
 Que ficaram das cálidas paixões
 De um passado sentido e quase brando.

 Se naveguei por mares de loucura,
 amei demais alguém que me feriu
 com a lança desleal da falsidade...

 Desejo sepultar essa amargura
 e seguir meu caminho como o rio
 que corre livremente... Ah! que saudade !
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Ialmar Pio Schneider (1942)
        IALMAR PIO SCHNEIDER nasceu no município de Sertão/RS, em 1942. Residiu por mais de 20 anos na cidade de Canoas (RS) e, posteriormente, fixou residência em Porto Alegre (RS). Desenvolveu uma carreira profissional sólida dividida em duas frentes principais: formou-se em Direito pela UniRitter (Faculdade Ritter dos Reis) e atuou como advogado. Além disso, construiu carreira no setor financeiro, sendo hoje um bancário aposentado. 
Consagrou-se principalmente como trovador, poeta e cronista. A sua escrita é muito ligada à tradição lírica popular e ao tradicionalismo gaúcho, destacando-se na composição de quadras e trovas rimadas com foco no cotidiano, na melancolia, no amor e na valorização da própria poesia. Atua de forma independente e colaborativa em jornais regionais (como o Jornalecão) e círculos de trovadores. Na vertente de premiações formais e filiações acadêmicas institucionais de grande porte, o seu reconhecimento dá-se predominantemente no circuito de agremiações e coletivos dedicados à preservação da Trova e do Regionalismo Sul-Rio-Grandense.
A divulgação da sua obra é essencialmente descentralizada. Em vez de uma bibliografia focada em grandes catálogos comerciais, as suas produções literárias — que incluem poemas célebres como "Versos de Amor", "Chasque ao Negrinho do Pastoreio" e coletâneas de quadras — foram pulverizadas em antologias de trovas, coletâneas poéticas regionais, colunas de crônicas e periódicos gaúchos.
A relevância de Ialmar reside na sua dedicação em manter viva a tradição da trova e do lirismo simples em solo gaúcho. A trova é uma das formas poéticas mais democráticas e difíceis de se lapidar, pois exige condensar sentimento e métrica perfeita em apenas quatro versos. Ao unir a advocacia e a vida urbana ao fazer poético, Schneider contribui para o enriquecimento da literatura popular do Rio Grande do Sul, servindo como uma ponte que preserva a identidade cultural da poesia de raiz e a sensibilidade do homem do campo em meio à modernidade das grandes cidades gaúchas.

Fontes:
Sonetos enviados pelo autor

Lima Barreto (Os Enterros de Inhaúma)

Certamente há de ser impressão particular minha não encontrar no cemitério municipal de Inhaúma aquele ar de recolhimento, de resignada tristeza, de imponderável poesia do Além, que encontro nos outros. Acho-o feio, sem compunção com um ar momo de repartição pública; mas se o cemitério me parece assim, e não me interessa, os enterros que lá vão ter, todos eles, aguçam sempre a minha atenção quando os vejo passar, pobres ou não, a pé ou em coche-automóvel.

A pobreza da maioria dos habitantes dos subúrbios ainda mantém neles esse costume rural de levar a pé, carregados a braços, os mortos queridos.

É um sacrifício que redunda num penhor de amizade em uma homenagem das mais sinceras e piedosas que um vivo pode prestar a um morto.

Vejo-os passar e calculo que os condutores daquele viajante para tão longínquas paragens, já andaram alguns quilômetros e vão carregar o amigo morto, ainda durante cerca de uma légua. Em geral assisto a passagem desses cortejos fúnebres na rua José Bonifácio canto da Estrada Real. Pela manhã gosto de ler os jornais num botequim que há por lá. Vejo os órgãos, quando as manhãs estão límpidas, tintos com a sua tinta especial de um profundo azul-ferrete e vejo uma velha casa de fazenda que se ergue bem próximo, no alto de uma meia laranja, passam carros de bois, tropas de mulas com sacas de carvão- nas cangalhas, carros de bananas, pequenas manadas de bois, cujo campeiro cavalga atrás sempre com o pé direito embaralhado em panos.

Em certos instantes, suspendo mais demoradamente a leitura do jornal, e espreguiço o olhar por sobre o macio tapete verde do capinzal intérmino que se estende na minha frente.

Sonhos de vida roceira me vêm; suposições do que aquilo havia sido, ponho-me a fazer. Índios, canaviais, escravos, troncos, reis, rainhas, imperadores - tudo isso me acode à vista daquelas coisas mudas que em nada falam do passado.

De repente, tilinta um elétrico, buzina um- automóvel chega um caminhão carregado de caixas de garrafas de cerveja; então, todo o bucolismo do local se desfaz, a emoção das priscas eras em que os coches de Dom João VI transitavam por ali, esvai-se e ponho-me a ouvir o retinir de ferro malhado, uma fábrica que se constrói bem perto.

Vem porém o enterro de uma criança; e volto a sonhar.

São moças que carregam o caixão minúsculo; mas assim mesmo, pesa. Percebo-o bem, no esforço que fazem.

Vestem-se de branco e calçam sapatos de salto alto. Sopesando o esquife, pisando o mau calçamento da rua, é com dificuldade que cumprem a sua piedosa missão. E eu me lembro que ainda têm de andar tanto! Contudo, elas vão ficar livres de um suplício; é o do calçamento da rua do Senador José Bonifácio. É que vão entrar na Estrada Real; e, naquele trecho, a prefeitura só tem feito amontoar pedregulhos, mas tem deixado a vetusta via pública no estado de nudez virginal em que nasceu. Isto há anos que se verifica.

Logo que as portadoras do defunto pisam o barro unido do velho trilho, adivinho que elas sentem um grande alívio dos pés à cabeça. As fisionomias denunciam. Atrás, seguem outras moças que as auxiliarão bem depressa, na sua tocante missão de levar um mortal à sua última morada neste mundo; e, logo após, graves cavalheiros de preto, com o chapéu na mão, carregando palmas de flores naturais, algumas com aspecto silvestre, e baratas e humildes coroas artificiais fecham o cortejo.

Este calçamento da rua Senador José Bonifácio, que deve datar de uns cinquenta anos é feito de pedacinhos de seixos mal ajustados e está cheio de depressões e elevações imprevistas. É mau para os defuntos; e até já fez um ressuscitar.

Conto-lhes. O enterro era feito em coche puxado por muares. Vinha das bandas do Engenho Novo, e tudo corria bem. O carro mortuário ia na frente, ao trote igual das bestas. Acompanhavam-no seis ou oito caleças, ou meias caleças, com os amigos do defunto. Na altura da estação de Todos os Santos, o cortejo deixa a rua Arquias Cordeiro e toma perpendicularmente, à direita, a de José Bonifácio. Coche e caleças põem-se logo a jogar como navios em alto-mar tempestuoso. Tudo dança dentro deles. O cocheiro do carro fúnebre mal se equilibra na boleia alta. Oscila da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, que nem um mastro de galera debaixo de tempestade braba. Subitamente, antes de chegar aos "Dois Irmãos", o coche cai num caldeirão, pende violentamente para um lado; o cocheiro é cuspido ao solo, as correias que prendem o caixão ao carro, partem-se, escorregando a jeito e vindo espatifar-se de encontro às pedras; e - oh! terrível surpresa! do interior do esquife, surge de pé - lépido, vivo, vivinho, o defunto que ia sendo levado ao cemitério a enterrar. Quando ele atinou e coordenou os fatos não pôde conter a sua indignação e soltou uma maldição: "Desgraçada municipalidade de minha terra que deixas este calçamento em tão mal estado! Eu que ia afinal descansar, devido ao teu relaxamento volto ao mundo, para ouvir as queixas da minha mulher por causa da carestia da vida, de que não tenho culpa alguma; e sofrer as impertinências do meu chefe Selrão, por causa das suas hemorroidas, pelas quais não me cabe responsabilidade qualquer! Ah! Prefeitura de uma figa, se tivesses uma só cabeça havias de ver as forças das minhas munhecas! Eu te esganava, maldita, que me trazes de novo à vida!"

A este fato, eu não assisti, nem ao menos morava naquelas paragens, quando aconteceu; mas pessoas dignas de toda a confiança me garantem a autenticidade dele. Porém, um outro muito interessante aconteceu com um enterro quando eu já morava por elas, e dele tive notícias frescas, logo após o sucedido, por pessoas que nele tomaram parte.

Tinha morrido o Felisberto Catarino, operário, lustrador e empalhador numa oficina de móveis de Cascadura. Ele morava no Engenho de Dentro, em casa própria, com razoável quintal, onde havia, além de alguns pés de laranjeiras, uma umbrosa mangueira, debaixo da qual, aos domingos, reunia colegas e amigos para bebericar e jogar a bisca.

Catarino gozava de muita estima, tanto na oficina como na vizinhança.

Como era de esperar, o seu enterro foi muito concorrido e feito a pé, com um denso acompanhamento. De onde ele morava, até ao cemitério de Inhaúma, era um bom pedaço; mas os seus amigos a nada quiseram atender: Resolveram levá-lo mesmo a pé. Lá fora, e no trajeto, por tudo que era botequim e taverna por que passavam, bebiam o seu trago. Quando o caminho se tornou mais deserto até os condutores do esquife deixavam-no na borda da estrada e iam à taverna "desalterar". Numa das últimas etapas do itinerário, os que carregavam, resolveram de mútuo acordo deixar o pesado fardo para os outros e encaminharam-se sub-repticiamente para a porta do cemitério. Tanto estes como os demais - é de toda a conveniência dizer - já estavam bem transtornados pelo álcool. Outro grupo concordou fazer o mesmo que tinham feito os carregadores dos despojos mortais de Catarino; um outro, idem; e, assim, todo o acompanhamento dividido em grupos, tomou o rumo do portão do campo-santo, deixando o caixão fúnebre com o cadáver de Catarino dentro abandonado à margem da estrada.

Na porta do cemitério, cada um esperava ver chegar o esquife pelas mãos de outros que não as deles; mas nada de chegar. Um, mais audaz, após algum tempo de espera, dirigindo-se a todos os companheiros, disse bem alto:

- Querem ver que perdemos o defunto?

- Como? perguntaram os outros, a uma voz.

- Ele não aprece e estamos todos aqui, refletiu o da iniciativa.

- É verdade, fez outro.

Alguém então aventou:

- Vamos procurá-lo. Não seria melhor?

E todos voltaram sobre os seus passos, para procurar aquela agulha em palheiro...

Tristes enterros de Inhaúma! Não fossem essas tintas pinturescas e pitorescas de que vos revestis de quando em quando de quanta reflexão acabrunhadora não havíeis de sugerir aos que vos veem passar; e como não convenceríeis também a eles que a maior dor desta vida não é morrer...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Lima Barreto (1881 - 1922) 
AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, conhecido por sua crítica social contundente e sua narrativa realista e inovadora. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881, e faleceu precocemente em sua cidade natal, em 1922, aos 41 anos, vítima de um colapso cardíaco ligado a problemas crônicos de saúde e ao alcoolismo. Viveu a maior parte de sua vida no subúrbio carioca, especialmente no bairro de Todos os Santos, local que serviu de grande inspiração para suas obras. Ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar os estudos para sustentar a família após o adoecimento mental de seu pai. Trabalhou como amanuense (copista e escriturário) na Secretaria da Diretoria Geral do Comércio do Ministério da Guerra. Atuou intensamente na imprensa, escrevendo crônicas, reportagens e sátiras políticas para diversos periódicos da época, como A Lanterna e Correio da Manhã.
Utilizava uma linguagem simples e direta, o que gerava resistência nos círculos acadêmicos da época, que preferiam o academicismo rebuscado. Sua escrita focava nos marginalizados, no preconceito racial e nas hipocrisias da República Velha. O escritor nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele se candidatou três vezes à instituição, mas foi rejeitado em todas devido ao teor agressivo de suas críticas ao sistema literário e pelo racismo institucional da época. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, tendo grande parte de seu reconhecimento consolidada apenas postumamente.
Entre romances, sátiras e memórias, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) – sua obra-prima; Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948); Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos (publicações póstumas de caráter autobiográfico).
Lima Barreto é uma figura fundamental do Pré-Modernismo brasileiro. Sua importância reside na coragem de romper com o formalismo da Belle Époque para dar voz e dignidade aos subúrbios, aos negros e aos pobres. Ele foi um dos primeiros a denunciar abertamente o preconceito racial e as desigualdades sociais do Brasil pós-abolição. Sua linguagem jornalística e coloquial antecipou as inovações que os modernistas consolidariam em 1922. Hoje, ele é celebrado como um autor indispensável para entender as raízes da formação social e cultural brasileira.

Fonte:
Revista Careta. 26 de agosto de 1922..

António Botto (Política)

 Dizem que as lebres dormem com os olhos abertos. Não sei se é verdade, nem para o caso isso tem importância de maior. O que é certo é que esta lebre de que vou falar, dormia uma tarde, à beira de um rio, quando as águas a atingiram rodeando-a lentamente... Espavorida, debateu-se entre o lodo e a água, mas, por mais esforços que fizesse, não pôde libertar– se daquela inesperada ameaça mortal. E ficou-se quase morta estendida, inerente, mal podendo respirar. Valeu-lhe o vento ter mudado e as águas tomarem novo curso...

     Nisto, uma rã muito verdinha, vai ter com ela, sorrateira, e faz este comentário:

     - Que parva!, que grande parva! Nadava, e era tão simples!

     A lebre não estava morta. Com o sol, com o ar, tomou alento e ergueu-se até que chegou à sua toca. E desde então tomou tamanho susto pela água, que quando via uma gota de orvalho a faiscar nas relvas ou no arvoredo, ficava nervosa, perturbada, e já não sabia o que havia de fazer. Às vezes, recordava o palavreado da rã ouvido como um sonho e desejava encontrá-la para lhe contar duas tesas.

     E, se bem o desejou, melhor o conseguiu. A pobre rã apareceu-lhe na curva de um caminho a coxear e a gemer.

     - O que foi isso?, perguntou a lebre.

     - Ai, menina, deixe-me cá. Um cão, um maldito cão que encontrei à pouco, atirou-se a esta minha perna que por um triz não se partiu... Mas, repare: não posso andar... Ai, a minha rica perninha; ai que dor, não posso andar! E se o dono do cão não se opõe, era uma vez uma rã...

     - Idiota, grandessíssima idiota!, responde a lebre, desdenhosa: Se o remédio era tão simples, tão simples, tão natural: Correr, deitar a correr! Sim, correr e nada mais!

     Assim disse a lebre que não sabia nadar à rã que não sabia correr. Uma e outra se julgaram como, em geral, na vida, sempre sucede: cada qual pensando em si só por si avalia o que aos outros acontece.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
António Botto (1897 - 1959) 
ANTÓNIO TOMÁS BOTTO nasceu no Casal da Concavada, concelho de Abrantes, Portugal, em 1897 e faleceu no Rio de Janeiro em 1959 (vítima de um atropelamento na região de Copacabana). Mudou-se na infância com a família para o bairro de Alfama, em Lisboa, local que influenciou profundamente o seu imaginário proletário. Residiu também por um breve período em Angola e passou os seus últimos anos de vida (a partir de 1947) exilado no Brasil, dividindo-se entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Oriundo de um meio humilde, começou a trabalhar cedo em Lisboa como ajudante de livraria. Mais tarde, ingressou na carreira pública como escriturário da Função Pública, servindo em Angola e em Portugal. Em 1942, acabou por ser expulso do funcionalismo público sob pretexto de indisciplina, mas motivado na realidade pela perseguição à sua homossexualidade assumida e pela censura à sua conduta. No Brasil, viveu de forma precária, colaborando com crônicas, poesias e textos para a imprensa e rádios locais. 
Fez parte da Segunda Geração Modernista portuguesa. Estreou em 1917 com Trovas, mas foi em 1921 que abalou o meio intelectual com Canções. Teve como grande defensor e amigo Fernando Pessoa, que editou, prefaciou e traduziu os seus poemas para o inglês. A sua poesia ficou marcada pela estética do decadentismo, esteticismo e, sobretudo, pelo pioneirismo da temática homoerótica tratada de forma direta. Devido ao forte preconceito da época e ao caráter marginal e escandaloso que a sociedade conservadora atribuiu à sua obra, António Botto não pertenceu a academias literárias formais nem recebeu os tradicionais prêmios institucionais do regime português. A sua consagração veio do reconhecimento crítico direto de gigantes da literatura, como o próprio Pessoa, João Gaspar Simões, José Régio e Jorge de Sena.
Botto foi um autor prolífico que transitou pela poesia, contos, teatro e literatura infantil, destaque para : Trovas (1917); Cantigas de Saudade (1918); Cantares (1919); Canções (1921 — a sua obra-prima e mais célebre); Curiosidades Estéticas (1924); Olimpíadas (1927); Ciúme (1934); A Vida que te Dei (1938); O Livro do Povo (1944); Os Contos de António Botto (1942), etc.
A importância de António Botto reside na sua imensa coragem e originalidade estética. Ele foi o primeiro autor português a assumir e cantar publicamente o amor homoerótico na poesia. Ao romper com os tabus e o puritanismo da sociedade da época, Botto enfrentou a apreensão de livros e autos de fé promovidos por grupos moralistas. Mais do que a polêmica, a sua escrita introduziu uma linguagem despida, musical, de tom coloquial e intimista, que antecipou caminhos da lírica moderna. Ele colocou a beleza física e o desejo no centro do debate literário, garantindo um lugar cimeiro e incontornável na história do Modernismo e na afirmação da liberdade de expressão na literatura de língua portuguesa.

Fonte:
Os Contos de António Botto. Publicado originalmente em 1942.
Biografia = Academia.edu, Wikipedia, Infopedia, Antonio Miranda, E-bografia, Revistas da USP, Portal da Literatura, etc.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Jessé F. do Nascimento (Plantando Trovas)

 

1
A formiga, na labuta,
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.
2
Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem...
3
Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.
4
“Aproveite a promoção”,
na loja, a faixa dizia;
aproveitou-a o ladrão,
num cochilo do vigia.
5
À sombra dos arvoredos,
dos meus sonhos de criança,
na rua dos meus folguedos
havia a placa: Esperança.
6
Caminhos, jardins e praças,
flores, cores - que beleza!
Deus derrama suas graças
dando graça à natureza!
7
Chora o coração sentindo
tristeza, nunca revolta;
os amigos vão partindo
numa viagem sem volta.
8
Com meus sonhos mais singelos,
embalados na esperança,
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
9
Com respeito e amor, de fato,
um mundo melhor se faz;
e simbolizando o ato:
– a pomba branca da paz.
10
Corres tanto, mocidade,
és pela vida levada:
– amanhã, serás saudade,
serás velhice, mais nada.
11
Curtindo muita amargura,
trancado na solidão,
anônimo, sou figura
no meio da multidão.
12
Da infância alegre e sadia
guardo uma eterna lembrança.
“Meu Deus, oh, quanto queria
ser novamente criança."
13
Dos meus sonhos de criança
e dos folguedos, saudade!
E na rua da lembrança,
a placa: – Felicidade!
14
Em seu pensamento insano,
vindo a tudo destruir,
como pode o ser humano
a arara azul extinguir?
15
Extraí toda a beleza
de uma vida bem vivida;
e a velhice, com certeza,
vai adiando a partida...
16
Galgo nuvens montanhosas,
sou na vida um alpinista;
mesmo em trilhas perigosas,
busco os sonhos da conquista.
17
Leu “Campanha do Agasalho”,
quando por ali passou;
o espertalhão ou paspalho
em vez de deixar, pegou.
18
Não adormeças teus sonhos,
não os esqueças, jamais;
os dias são mais risonhos
pra aqueles que sonham mais.
19
Não censuro o teu pecado,
não me censures também;
de vidro é o nosso telhado,
pecados... quem não os têm?
20
Não há glória, com certeza,
nem desafio maior,
que a conquista da riqueza
com trabalho e com suor.
21
Não viva em sonhos somente,
mas com todo o seu ardor,
viva mais intensamente
os seus momentos de amor.
22
Navegando nas poesias,
nas ondas da inspiração,
iço as velas de alegrias
deixo o rumo ao coração.
23
Navego em ondas serenas
ou mar às vezes cruel;
consciente, sou apenas
um barquinho de papel.
24
Nesta vida, de passagem
sem morada permanente,
numa tão breve viagem,
sou um turista somente.
25
Noite bela e enluarada,
vejo-me em sonho bonito,
numa tênue caminhada
rumando para o infinito.
26
No meu sonho mais profundo,
em pensamentos imerso,
eu fui além do meu mundo,
viajei pelo universo.
27
No silêncio dos meus dias,
alheio a tudo e à razão,
eu vivo as noites vazias
abraçado à solidão...
28
Num cenário colorido,
cheio de encanto e alegria,
a vida tem mais sentido:
– a primavera extasia!
29
O céu de nuvens ornado,
as ondas vêm e se vão;
na areia, um carro isolado:
– o mar...dois jovens...paixão...
30
O genro sempre é quem dança,
a minha sogra é um porre;
o nome dela é "Esperança"
que é a última que morre.
31
Pôr do sol... em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
32
Pra acreditar foi um custo;
na primeira gravidez,
levou um tremendo susto;
foram cinco de uma vez!
33
Pressuroso em meu afã
de projetar minha ação,
sempre esqueço: é o amanhã
ponto de interrogação.
34
Semelhante a um quartel
tem sido assim minha casa;
minha mulher, coronel
e eu sempre patente rasa.
35
Sempre fui um sonhador,
sonhos...por que não os ter?
Vivo meus sonhos de amor
porque sonhar é viver.
36
Ser solteiro é livre estar,
jamais me vejo casado;
para subir ao altar,
só vou mesmo acorrentado...
37
Tenho ciúme e desgosto,
quando, à noite, leve brisa
afaga o teu meigo rosto
e os teus cabelos alisa.
38
Teu olhar, quanta ternura! 
Tuas mãos, quanto carinho! 
Teu amor, oh, que ventura
pôs a vida em meu caminho.
39
Velhice, andar vacilante;
noite... a sombra descortina
o seu passado distante:
– os tempos de bailarina.
40
Viçosas, plantas e flores,
a natureza se esmera.
É o despertar dos amores,
tudo é belo. É primavera!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Jessé F. Nascimento (1944)
JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO nasceu em 1944, em Ibiraçu/ ES. Filho de José Antonio do Nascimento e Júlia Fernandes Nascimento. Mudou-se para o estado do Rio de Janeiro, onde residiu por mais de 50 anos na capital fluminense. Posteriormente, transferiu sua residência fixa para a cidade histórica de Angra dos Reis (RJ). Atuou e aposentou-se como jornalista. Descobriu o encanto pela trova ainda na adolescência, quando ganhou de presente de uma prima o livro "Meus irmãos, os Trovadores". Aos 16 anos, participou e foi premiado em seu primeiro concurso de trovas (promovido pela Rádio Mayrink Veiga). Escreve de forma prolífica e possui mais de uma centena de crônicas, contos e poesias publicados em plataformas de leitura literária digital, como o Recanto das Letras. É um trovador premiado e veterano em concursos nacionais de grande relevância na cultura da trova. Entre suas distinções, destacam-se posições laureadas em certames como o Concurso de Trovas de Maranguape/CE, o Prêmio Capistrano de Abreu, os Jogos Florais e concursos de São Gonçalo/RJ, Caicó/RN e Itaocara/RJ. Na Coleção Terra e Céu, antologia poética que reúne suas principais e mais celebradas trovas. Ele também possui participação em dezenas de coletâneas e coletivos de Jogos Florais impressos por todo o Brasil.
A importância de Jessé Fernandes do Nascimento concentra-se na preservação e difusão da Trova no Brasil. Como jornalista e delegado, Jessé atua como um verdadeiro guardião dessa herança cultural, ajudando a descentralizar a poesia e levando oficinas, concursos e visibilidade literária para a região de Angra dos Reis. Sua escrita é reconhecida entre seus pares pela extrema precisão métrica e capacidade de emocionar através da concisão lírica e filosófica.