Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Hélio Pólvora (A Chuva, Sol e Grilo Falante)



Veio a chuva e disse:

— Amigo, você anda triste, mas aqui estou para lhe dar firmeza. Deite, durma e esqueça tudo. Esqueça que árabes e israelenses se matam, não pense no Iraque devastado, esqueça as crianças mutiladas no Pará, as balas perdidas, o desemprego, as drogas, os assaltos, o roubo quase institucionalizado.

E a chuva companheira se pôs a cair no telhado e a pingar no cimento com o leve rumor doce de fonte escorrendo no prado.

— Ora essa, Chuva, você promete firmeza e, mal o sol surge em Salvador, você desaba outra vez. É chuva de mais para as minhas lavouras. Mas, sendo pessoa de ordinário cordata, eu lhe digo: obrigado, Chuva, você chove dentro de mim, lava minhas nódoas, que são poucas, e renova minhas purezas, que são muitas e sem valia.

— Não tem de que, amigo. Chovo porque você merece chuvas novas e antigas, grossas e finas, especialmente sem trovões, para serem bem melodiosas — chuvas mozartianas, que tal? Chuvas são para adiar, imaginar e criar, sonhar, recriar, conhecer falsas condessas e ciganas esquivas. Vamos, feche esses olhos e vá dormir, amanhã é outro dia e talvez você acorde num Brasil rico, direito e decente.

Acordei horas depois com o sol ardendo nos olhos e me queimando a cara inteira. E o Sol me disse, zangado:

— Levante, endireite a vida, você já pensou demais, quando é que resolve botar a cartucheira e empunhar o fuzil? Seus amigos já estão todos no campo de batalha.

— Bom dia, Sol. Sou da guerrilha e não sei atirar. Hay que pelear, pero sin perder la ternura. Você fala igual ao meu pai, que me mandava arar muito cedo para garantir no futuro minha cabeça de vento. Muito tenho laborado, quarenta, cinqüenta anos, sei lá, em repartições e jornais, dando aulas, redigindo, emendando prosa alheia, fazendo discursos para ministros. Pois é, acho que aprendi a escrever, o que já é alguma coisa, também a beber e traduzir,.e respirei na cidade grande o gás venenoso dos ônibus. Agora eu lhe pergunto, amigo Sol: adiantou?

— Adiantou, sim. Então você não vê que o trabalho de que tanto fala é falso, aparente e vão, servindo somente de base para o outro trabalho, o verdadeiro, do seu íntimo, do seu interior?

Fiquei comovido, mas não convencido. O sol tirou um reflexo da vidraça.

— É isso aí, filho. Você tem crescido com nossa ajuda de muitos sóis, luas e chuvas. Parabéns por sua riqueza.

— Eu, rico? Não tenho um décimo da aposentadoria de um desembargador.

— Rico, sim senhor. Veja as minas que você explora dentro de si. Você é uma África do Sul em diamantes, e sem apartheid. E agora, contista, com licença, tenho de ir ao Iguatemi conversar com os escritores que acordam sempre cedo e arregimentam forças para a Academia.

E o Sol sumiu. Pela janela avistei apenas os mares da baía, que pareciam anoitecidos em plena manhã. O Grilo Falante saudou-me então com sua voz estridente:

— Não acredite nessas falas de sonhos embalados pela chuva, nem em promessas de diamantes de metáfora. São miragens, meu velho, miragens de sol no deserto. Para encher os seus dias de riqueza deveras substancial, maior que a dos cantores de trio elétrico e dos auditores corruptos, basta ler Turgueniev em francês.

A essa altura, irritei-me com tanto conselho desatinado, pois afinal o sol arde demais no Nordeste calcinado, a chuva chove em demasia nas terras úmidas do sul, e Grilo Falante eu só conheço de contos da carochinha. O Grilo saltou. Gritou-me que ia dar um piparote na cabeça da ministra Benedita da Silva. Subi a Ladeira da Barra por entre levas de pivetes, pedintes e bandidos armados, e lá em cima Franz Kafka de roupa preta me piscou um olho, enquanto Joyce me acusava aos berros de nunca ter lido o Ulisses inteiro.

Fonte
http://www.jornaldecontos.com/cronica_achuvasolegrilofalante.htm

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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