Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 18 de agosto de 2013

Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 25

CAPÍTULO XVII

O Aguiar morava lá para Mata-cavalos, em casa própria, e tão caprichoso era com esta quanto com a sua própria pessoa. Aquelas pequenas salas forradas de fresco, mobiliadas com certo esmero, enfeitadas de quadros e cortinas, diziam admiravelmente com o tipo do dono. Orçava ele então pelos vinte e oito anos e parecia mais bem disposto que nunca. Bonito, mas antipático, tinha uma dessas caras gordas, bem barbeadas, sem rugas nem espinhas, bigode curto e retorcido à força, queixo redondo, olhos pequenos e vivos, nariz grosso, testa muito estreita e magníficos cabelos. Não era muito gordo, nem tão pouco muito magro; não era alto, mas, igualmente, ninguém podia dizer que era baixo, e vestia-se com inalterável apuro, chegando a fazer disso uma preocupação. Era um luxo a roupa branca que ele usava durante o trabalho; gostava das calças de brim engomado e trazia sempre boas pedras de valor no peito da camisa e nos dedos.

Aguiar pertencia ao comércio tanto por gosto como pelas circunstâncias em que nascera; destinado para isso desde o berço por seu pai, um rico negociante português, dera os primeiros passos entre o Razão e o Caixa e criara os primeiros cabelos da barba em Londres, para onde o enviara aquele a praticar em velhas casas comerciais.

Não chegara a conhecer a mãe, porque esta morrera pouco depois de o dar à luz; só tornou ao Brasil com a notícia do falecimento de seu pai, cujo lugar no comércio preencheu logo. Foi então que Teobaldo se relacionou com ele, por acaso, em um baile de máscaras no Pedro II. O filho do barão, que nesse tempo era ainda um bom gastador, fascinou-o de pronto com as suas maneiras fidalgas e muito mais distintas que as dele; dentro em pouco haviam-se feito companheiros inseparáveis de pândega; quase sempre ceavam juntos, gastavam com a mesma largueza, conheciam as mesmas mulheres e, muita vez, jogavam ao lado um do outro nas tavolagens da época.

As desastrosas circunstâncias a que ao depois se viu Teobaldo reduzido, separaram-nos por algum tempo, mas não de todo; e, agora, aquele convite para a casa do comendador Rodrigues e as confidencias que o precederam, como que o ligavam de novo e mais estreitamente. O comendador era tio do Aguiar por parte de pai; velhote de seis palmos de altura, forte e nervoso, coração bom, mas de gênio irascível e fulminante.

O sobrinho dizia a rir que ele, se lhe chegassem um charuto aceso à ponta do nariz, estourava. Viera muito pequeno de Portugal em companhia do irmão; fora tropeiro durante uns vinte anos em S. Paulo e Minas; depois estabeleceu-se na Mata, negociou forte e veio afinal, já velho, a levantar a sua tenda no Rio de Janeiro. Da sua paixão pela política apenas lhe restavam as recordações de quarenta e dois, ano em que se batera pela revolução de Minas, saindo ferido de uma pequena escaramuça na ponte de Santa Luzia; contava este fato a toda a gente e sempre com o mesmo entusiasmo.

Era viúvo; tivera três filhas, das quais apenas uma lhe restava, Branca; um mimo de quinze anos, a formosa tirana para quem o Aguiar pedia versos ao amigo e em honra da qual se afestoava agora o velho casarão do comendador.

Teobaldo chegou às cinco horas a Mata-cavalos, ainda muito impressionado pelas contrariedades desse dia.

— Ah! Mas desta vez creio ter conseguido endireitar a vida ... disse ele logo que entrou em conversa com o dono da casa.

E pôs-se a contar o ocorrido a respeito de Leonília e Ernestina.

— Tomara eu as tuas desgraças... Respondeu aquele disposto a falar dos próprios amores.

Teobaldo não lhe deu licença para isso e continuou a tratar de si, até à ocasião de irem ambos para a mesa.

Aguiar, que não era dos mais pecos em questões culinárias, caprichou no jantar que ofereceu ao amigo, e, à prova do terceiro vinho, já os dois lamentavam intimamente não dispor de mais segredos para os confiar um ao outro. Teobaldo pediu novas informações a respeito de Branca.

— Ah! Fez o negociante, meneando a cabeça com os olhos fechados; vais ver o que é uma criatura perfeitamente adorável. Bela. inteligente, distinta, espirituosa, tudo o que há de bom, que há de puro e que há de mais sedutor no mundo! Uma obra-prima! Ah! Que se ela sentisse por mim a metade do que eu sinto por ela!...

— É não desanimar, filho! Deixa correr o tempo; não acredito que uma menina de quinze anos resista a todo esse amor!

— Não sei, ela é de uma tal frieza para comigo...

— Talvez aparente... Não conheces as mulheres... foi para elas que se inventou o provérbio "Quem desdenha quer comprar".

— Em todo o caso não desanimarei sem ter esgotado até o último recurso.

— Está claro! E teu tio? Que tal é?

— Um tipo, mas belo homem... Vais gostar dele. Fala-lhe na revolução mineira...

— Aquela casa pertence-lhe, ou é alugada?

— A casa em que ele mora? Pertence-lhe, e, como essa, mais duas lá mesmo em Botafogo.

— E ele vive só com a filha?

— Não; tem mais uma pessoa em casa: Mme. de Nangis.

— Mme. de Nangis? Quem vem a ser?...

— É uma professora francesa, a quem meu tio encarregou da educação de Branca.

— Ah!... E é velha?

— Meia idade...

— Bonita?

— Não é feia.

— Mora lá há muito tempo?

— Há mais de oito anos.

— E não dizem nada a respeito dela com teu tio?

— Não, porque já disseram tudo o que podiam dizer.

— Com razão?

— Sei cá; é de supor que sim.

— Nunca percebeste nada entre eles?

— Nem pretendo.

— Por conveniência...

— Não.

— Então por quê?

— Ora! Que diabo me interessa isso?...

— É boa! Pois não tencionas casar com tua prima?...

— Sim, mas minha prima nada tem que ver com Mme. de Nangis...

Teobaldo sacudiu os ombros em sinal de desaprovação.

— E ela que tal é? Simpática? Perguntou depois.

— Quem? A professora? É: toca piano admiravelmente e dizem que tem espírito.

— Dizem?

— Sim; eu ainda não dei por isso.

— É instruída?

— Tanto como qualquer pretensiosa.

— Amável?

— Tanto quanto é instruída.

— Parece que não morres de amor por ela...

— Enganas-te; Mme. de Nangis protege o meu casamento.

— Ah! E só por isso é que a estimas?.

— Por isso e pela grande influencia que ela tem sobre meu tio.

— Então é exato o que disseram a respeito deles...

— Homem, a coisa vem desde os últimos tempos de minha tia...

— E por que o velho não se casa agora com a professora?

— Por uma razão muito simples: Mme. de Nangis é casada...

— Casada? E o marido?

— Está em Paris.

— Ah!...

E a graça é que lhe dá uma pensão.

— À custa do comendador?

— À custa do comendador é um modo de dizer, porque o que é dele é dela...

— Ah! A coisa chegou a esse ponto?

— Ora!

Às dez da noite apearam-se os dois rapazes à porta do comendador Rodrigues de Aguiar.

Casa antiga, de aparência muito feia, mas com um belo interior. Teobaldo, ao primeiro passo que deu de portas adentro, notou logo em tudo uma certa felicidade de escolha, uma bem educada sobriedade nos objetos de luxo; percebeu que não entrava em uma dessas casas burguesas em que a gente se fatiga só com olhar os móveis e donde se sai com a alma atordoada e cheia de tédio.

Ele, que havia muito não entrava em uma sala dessa ordem, sentiu despertar dentro de si todo o seu passado adormecido, e, como a planta desterrada que ia amortecendo ao ar livre e logo se endireita quando a recolhem à tepidez da estufa, assim ele se fez o que era dantes ao lado da família.

Ali, Teobaldo achou-se perfeitamente bem; estava no seu elemento. Flor amimada e crescida entre carinhos, era, quando se achava nas ruas, nos cafés ou nas casas de trabalho, uma criatura deslocada e nostálgica. Para o seu completo bem-estar e para o seu bom humor tornava-se indispensável aquele perfume de riqueza, aquele meio aveludado e fino.

O amigo apresentou-o ao tio, e os três conversaram por longo tempo ao fundo de uma saleta, onde se jogava. É inútil dizer que o filho do Barão do Palmar, insinuante como era, cativou logo as simpatias do velho, principalmente depois que lhe falou de Minas e do papel que seu pai representara na revolução. Aprovou muito o projetado casamento do amigo com Branca e terminou desfazendo-se em elogios ao bom gosto e à distinção
que presidiam àquelas salas.

— Não, quanto a isso, respondeu o velho, não aceito os seus cumprimentos, porque não devem ser dirigidos a mim; pertencem de direito a uma senhora que acompanha minha filha há oito anos, Mme. de Nangis... Daqui a pouco lhe serão ambas apresentadas. Se não fosse Mme. de Nangis...

E, como Branca passasse nesse ato pela sala próxima de braço com uma amiga, o comendador interrompeu o que dizia e correu ao encontro dela.

Teobaldo apressou-se a segui-lo.

— É esta, disse o velho.

E, voltando-se para a menina:

— O Sr. Teobaldo Henrique de Albuquerque, filho de antigos conhecidos meus e amigo de teu primo Afonso, que teve a boa idéia de o trazer a esta casa.

Teobaldo vergou-se respeitosamente e declarou que estava encantado em ter feito conhecimento com pessoas tão distintas.

Em seguida o comendador deu-lhe o braço e levou-o até onde estava Mme. de Nangis.
Nova apresentação.

— Agora, disse o velho, está cumprido o meu dever e o senhor que trate de si; faça-se apresentar às amigas de minha filha. Com licença.

— Vai principiar o concerto, observou a professora aceitando o braço que lhe ofereceu Teobaldo — o senhor gosta de música?

— Apaixonadamente, minha senhora.

— Toca algum instrumento?

— Um pouco de piano.

— Quando tiver ocasião dar-nos-á muito prazer em se deixar ouvir.

— V. Exa. confunde-me...

E chegaram à sala próxima, onde duas rabecas, uma violeta e um violoncelo dispunham-se a executar uma serenata de Schubert.

Depois da serenata, Mme. de Nangis anunciou a Teobaldo que ia dançar uma quadrilha e perguntou se ele queria um par.

O rapaz respondeu que ficaria muito lisonjeado se ela própria o aceitasse para seu cavalheiro.

— Com muito gosto, mas fique sabendo que o senhor perde com a troca, replicou a professora.

Dentro de uma hora, Teobaldo era o objeto da curiosidade de todas as damas.

Seu tipo destacava-se naturalmente, sem o menor exagero de galanteria, sem frases pretensiosas, e sempre correto, elegantemente frio e de um distintíssimo comedimento nas palavras e nos gestos.

Branca foi o seu par nos Lanceiros; depois cedeu-lhe também uma valsa, terminada a qual puseram-se ambos a conversar.

— O senhor é que é o autor de uns versos, que saíram há poucos dias no jornal?

— Sim, minha senhora, mas como chegou V. Exa. a lembrar-se de semelhante coisa?

— É que meu primo me havia dito que eram de um amigo dele, creio até que chegou a citar o seu nome e, agora, vendo-os juntos...

— V. Exa. gosta de versos?

— Qual é a moça de minha idade que não gosta de poesia?... Ainda ontem meu pai trouxe-me um livro de Casimiro de Abreu. Conhece?

— Já li. Tem coisas admiráveis.

— Oh! É tão terno, tão apaixonado, que faz chorar. E, mudando de tom:

— Sabe? Meu primo também é poeta...

— Ah! Fez Teobaldo.

— Ofereceu-me hoje uma poesia. Quer ver?

Teobaldo bem podia dispensar a leitura, mas não quis prejudicar o outro e disse quando a terminou:

— Magnífico! Não sabia que o Aguiar tem tanto talento!

— Eu também não...

— Até aqui o apreciava somente pelas suas qualidades morais.

Branca não respondeu, porque neste momento uma senhora principiava a cantar ao piano.

Daí a pouco, a um canto da janela, perguntava Afonso ao amigo:

— Então, que tal achaste minha prima?

— Encantadora.

— Não é?!

— Adorável! Uma flor!

— Falou-te nos versos que lhe dei?

— É verdade, e eu tive de elogiá-los, para fazer não desconfiar que eram meus. Imagina em que estado não ficaria minha modéstia; qualifiquei-os de admiráveis!

— E, com efeito, são muito bons.

— Qual! Escrevi-os de afogadilho! Ah! Mas se eu já a conhecesse, juro-te que sairiam inspirados!

— Pois reserva a inspiração para outra vez.

Não continuaram a conversa, porque Mme. de Nangis veio ter com Afonso e arrebatou-o, dizendo ao outro:

— Tenha paciência, roubo seu amigo por um instante!

Teobaldo ia também deixar a janela, quando a cortina desta se agitou e apareceu Branca.

— Ah! Fez ele, V. Exa. estava aí?

— Sim, o que foi muito bom, porque posso lhe agradecer os versos que o senhor me fez.

— Pois ouviu?

— Ouvi, mas foi sem querer... Que mal ha nisso...

— Seu primo é que não ficará satisfeito.

— Se souber, mas que necessidade tem ele de saber?...

— Quer que eu não lhe diga nada?

— Decerto, e nem só isso, corno desejo que meu primo não fique na primeira poesia e me ofereça muitas outras. Vou daqui direitinha dizer isso mesmo a ele próprio.

E, como para agradecer antecipadamente os versos de Teobaldo, estendeu-lhe a mão, que o moço apertou entre as suas, um tanto comovido. Horas depois, os dois rapazes, já instalados nos seus sobretudos, metiam-se no carro e abandonavam a festa do comendador.

Pela viagem Teobaldo, a despeito do bom humor do companheiro, quase que não deu palavra; e, ao se pararem-se, Afonso notou que o achava triste.

— Não é nada, respondeu o outro. — Adeus. Até mais ver!

E deixou-se cair para o fundo do cupê, respirando com alívio e murmurando entredentes:

— Adorável criança!
––––––––––––
continua…

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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