Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Francisco Sobreira (Isa)

Ele a viu aparecer em uma das duas entradas que davam acesso ao bar, de repente estacar, movendo os olhos na direção dos poucos fregueses ali presentes naquele começo de noite. Ele estava em uma mesa perto da entrada de onde ela surgira, na parte do bar que não era coberta, e o rosto voltado para o mesmo local, de maneira a ser facilmente reconhecido. Ainda assim, achou necessário acenar-lhe com a mão, e o gesto, ele não deixou de perceber, apesar de estar tão atento à chegada dela, chamou a atenção dos outros fregueses. Ela acenou também, talvez mais para demonstrar que o vira, e apressou o passo na direção dele, que se levantou para recebê-la. Trocaram beijinhos, ela sentou-se e ele perguntou se o acompanhava na cerveja. Ela preferiu um refrigerante diet.

“Pensei que não viesse mais.”

“Quase que eu não vinha. Relutei muito, antes de me decidir a vir.”

“É, já pelo telefone você resistiu muito à minha proposta de nos encontrarmos. Por que, Isa?”

Ela, que estava com as mãos juntas, afastou-as com um gesto largo, como a sublinhar a resposta.

“Mas eu lhe disse por quê. Achava e continuo achando inútil este encontro.”

“Tudo bem. Mas o que quero ouvir de você é uma razão plausível para não continuarmos. Por que você diz que não dá certo continuarmos?”

Ela ia começar a responder, mas reteve a fala quando notou o garçom se aproximar da mesa, trazendo o refrigerante e um copo. Puxou a argola da latinha, despejou parte do conteúdo no copo, quase o enchendo, sorveu um longo gole, depois do que pôde responder a pergunta.

“Você disse que queria que lhe desse uma razão plausível, não foi? Pois muito bem. O caso é que não sou livre.”

“Não é livre? Como assim?”

Ele alteou a voz, outra vez atraindo a atenção das pessoas sentadas nas mesas próximas. Ela encostou o indicador nos lábios e moveu os olhos para os lados.

“Desculpe, Isa (ele baixou sensivelmente a voz). É que fui surpreendido pelo que você acabou de dizer. Explique­-se melhor.”

“Eu não sou livre. Já lhe disse”

Ele bebeu um longo gole, depois tirou um cigarro da carteira sobre a mesa e o acendeu. Parecia buscar na bebida e no fumo o apoio necessário para não perder a calma.

“Mas, Isa, você não me garantiu que era sozinha? Não foi você que quis que ficássemos na sua própria casa, com aquele papo de que não se sentiria à vontade num motel? Não foi?”

Ela não respondeu, ele repetiu não foi? ela disse foi.

“E então? Que história é essa de que não é livre?”

“Eu menti pra você. Mas agora vou dizer a verdade: eu vivo com um homem há muitos anos. E eu amo esse homem.”

Ele soltou uma risada curta, sem ligar para a curiosidade dos fregueses, nem para a censura gestual que ela podia fazer, mas que não fez. Em seguida ele disse:

“Você tá querendo gozar com a minha cara.”

“Bom, se você não acredita, não posso fazer nada. Acho que não tenho mais nada a fazer aqui.”

Ela fez menção de se levantar, mas ele a reteve com um gesto de mão.

“Queria que você me respondesse com toda a sinceridade de que for capaz. Eu não signifiquei nada pra você?”

A mirada de Isa teve a duração de um piscar de olho. Logo em seguida ela baixou o rosto e não disse uma palavra.

“Não é mais preciso responder. Está muito claro pra mim. Só não está claro é você ter aberto a sua casa para alguém que não representou nada pra você, já que você ama o homem com quem habita nessa mesma casa. Seria pedir demais, Isa, que esclarecesse pra mim essa parte obscura do nosso relacionamento?”

“Você quer mesmo saber?” (Ela tinha levantado o rosto e de novo o encarou.)

“É tudo o que quero saber.”

“Será que vai suportar ouvir a verdade?”

“Vá em frente, Isa.”

Ela esfregou uma mão na outra, como se as mãos estivessem úmidas e precisassem ser aquecidas.

“Não sei como dizer isso.”

“Vá em frente, Isa,” ele repetiu, já com uma certa impaciência.

“Bom. Você foi um... uma... digamos... uma espécie de instrumento...”

“Instrumento?”

“Como os outros...”

“Outros? Houve outros homens?”

Ela estava de novo curvada, insistindo em atritar as mãos.

“É ele, sabe? Precisa que eu faça... O caso é que ele... Eu tenho... tá entendendo?... que ter contato com outros homens...”

Calou-se de repente, como se aquelas palavras lhe tivessem exigido um esforço sobre-humano, deixando-a sem fôlego para prosseguir. Também calado, ele olhava para aquela mulher com a cabeça quase derreada sobre a mesa, indeciso entre a compaixão e o desprezo. Por fim disse:

“Você já pode ir.”

Ela se ergueu, sem olhar para ele, e, sem um mínimo gesto de despedida, afastou-se em passos rápidos. Já ele não tirou os olhos de Isa, até vê-la desaparecer.

Fonte:
http://contosbrasileiros.blogspot.com.br/2007/10/francisco-sobreira.html

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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