Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Fábio Viana Ribeiro (O Vazio da Vida)

Há muito para fazer de Whisky um filme bastante incomum. Para alguns, um filme sem pé nem cabeça, sobre o qual nada há para dizer ou entender. Para outros, um filme praticamente convencional, com um tema igualmente convencional e abordado de forma convencional. E para ainda outros, um filme sobre o nada.

Não foram poucos os escritores escreveram algumas de suas histórias sobre o tema. Tchekhov, por exemplo. Vidas monótonas que se arrastam pelo tempo, onde nada acontece, contínua e vagarosamente. Uma dessas histórias veio, aliás, a ser o último filme do diretor Louis Malle: Tio Vânia em Nova York. Com chances de ter sido um dos filmes mais baratos da história do cinema, considerando que praticamente todo o filme vem a ser tão somente a filmagem do ensaio da peça homônima de Tchekhov por um grupo de atores…

Mas, em Tio Vânia e outros muitos exemplos, a descrição do nada é quase sempre feita em companhia de circunstâncias que, por assim dizer, engrandecem sua existência. Por meio de sua glamourização, de sua transcendentalização, de sua politização, etc. Ou seja, vazios existenciais que terminam por servir de contraste a vidas altamente perturbadas por sua precisa consciência do mundo.

Um dos grandes méritos de Whisky foi o de captar o nada de tipo comum; desglamourizado, cotidiano, repetitivo, exausto de ser exata e inexoravelmente uma rotina, um hábito, um fastio. O mundo das pessoas comuns, no sentido mais exato da palavra. E sobre o qual, talvez até mesmo pela lógica do cinema, por sua característica espetacularizante, somos levados a acreditar que existe em proporções muito reduzidas: mesmo as vidas mais comuns já foram, afinal e pelo cinema, transformadas em boas histórias… Mas talvez possa não ser o caso de pensarmos assim; e simplesmente concluirmos que a vida da maioria das pessoas transcorre dessa forma, sem serem senão o arrastar monótono de hábitos, rotinas e circunstâncias. Mundos dos quais, com maiores ou menores chances de sucesso, todos nós tentamos fugir.

Em Whisky, seus personagens parecem estar presos a um mundo de coisas vazias. Contra o qual não podem contar nem mesmo com o auxílio da tristeza ou do desespero. Dois irmãos, que há muito não se viam, se reencontram por ocasião da morte da mãe. Ambos proprietários de pequenas fábricas de meias, um vivendo no Uruguai e outro no Brasil. O reencontro reacende antigas rivalidades e ressentimentos. A ponto do primeiro, que não se casara, solicitar à sua gerente na fábrica, que represente diante do irmão o papel de sua esposa. De algum modo o espectador é levado a imaginar que seria esse o centro da história, e que, em determinado momento, o irmão visitante perceberia a farsa. Mas também isso será aos poucos coberto pela monotonia, pela falta de graça e sabor do mundo em que vivem. O mundo pouco emocionante da fabricação de meias, a decadência da própria fábrica, a monotonia das máquinas, a falta de palavras, sentimentos e emoções. A insipidez dos presentes trocados, a constrangedora falta de confiança nas funcionárias que trabalham na fábrica, o carro que mal funciona, o passeio que pouco lhes diz, o hotel decadente. A vida, para eles, foi enfim isso; estão agora velhos, cansados e a fotografia que fazem no passeio mostra-lhes quem são. É preciso que o fotógrafo lhes peça, para que apareçam sorrindo na foto, que digam whisky.

WHISKY B

Curiosamente, Whisky bem poderia ser considerado o melhor filme brasileiro dos últimos tempos. Mesmo sendo um filme uruguaio, com uma história que se passa no Uruguai, a descrição que faz da realidade (e que, caso fosse excluído o idioma, poderia perfeitamente ser a de uma cidade ou pessoas do Brasil) parece mais verossível que a maioria dos filmes brasileiros que tentaram o mesmo. E que não o conseguiram por tentarem reproduzir a linguagem do cinema americano, por seus diretores terem sido incapazes de captar convincentemente a realidade de seus temas, por terem se perdido em meio às suas pretensões de realismo… No caso de Whisky tal mérito possivelmente deveria ser atribuído a seus diretores, ao conseguirem descrever um mundo que, por conta de seu vazio e de aparentemente não ocupar nenhum lugar significativo na realidade, seria ainda muito mais difícil de ser descrito que tantos outros, já mostrados pelo cinema. Sem que tenham, inclusive e para isso, lançado mão do fácil expediente, tão comum em nossos dias, de transformar seus personagens em vítimas – os que não têm voz, os despossuídos, etc. – “a vida apenas, sem mistificação”.[1]

Ficha Técnica
Título original: Whisky
Ano: 2004
Direção: Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
País: Uruguai
Duração: 99 minutos


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FÁBIO VIANA RIBEIRO é Doutor em Ciências Sociais (PUC/SP) e professor da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências Sociais.
[1] C. D. de Andrade – “Os ombros suportam o mundo”.

Fonte
Revista Espaço Academico. Maringá: UEM. http://espacoacademico.wordpress.com/2013/07/10/o-vazio-da-vida/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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