Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 10 de setembro de 2016

Angela Maria Rodrigues Laguardia* (Clarice Lispector: a mulher e a escritora; o mérito e o mito)

Clarice Lispector
Resumo: Em A Descoberta do Mundo, antologia de crônicas de Clarice Lispector,escritas para o Jornal do Brasil, entre os anos de 1967 e 1973, confrontamo-nos com a mulher, a ficcionista e a cronista que emerge de reflexões metalinguísticas para resultar no mito Clarice. Ao mover-se entre as fronteiras da literatura e do jornalismo, Clarice constrói um espaço que vai além do modelo convencional do gênero cronístico: descobre-se para “descobrir o mundo” e possibilita um processo de genuína identificação do leitor com os temas que propõe. Percorrendo estas crônicas e elegendo algumas, aqui, para tentar compreender como ocorre esta relação ficcional/factual de seus textos com o leitor, deparamo-nos com o enigma clariciano, como no excerto intitulado Sim ou não: “Eu sou sim. Eu sou não. Aguardo com paciência a harmonia dos contrários. Serei um eu, o que significa também vós” (LISPECTOR, 1984:279).
A sedução e o desafio desta cumplicidade constituem-se em um jogo escritural, dimensionando a travessia da personagem Clarice dentro de sua própria obra, num olhar que se move de dentro para fora e vice-versa, constituído pela poesia e filosofia de seus múltiplos papéis, hábeis disfarces do mistério que alimenta sua obra

Introdução
Este trabalho pretende refletir sobre as crônicas de Clarice Lispector, reunidas na obra A Descoberta do Mundo. Por um lado, visa ajudar a compreender o nascimento da cronista dentro do percurso da escritora. Por outro, procura configurar a mulher e a personagem que emerge dessa escrita, instituindo, através dela, o seu grande mérito e erguendo-a aos píncaros do mito.

1- A mulher e a escritora nas crônicas de A Descoberta do Mundo

A Descoberta do Mundo reúne 468 títulos de crônicas publicadas no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Esta obra, postumamente editada, em 1984, por seu filho Paulo Gurgel Valente, apresenta “uma continuidade” que permite ao leitor da antologia compreender como os textos que, “aparentemente”, não se enquadrariam no gênero (comentários, recados, trechos de romances, contos, novelas e outros), vão conquistando seu espaço enquanto gênero e também ganham uma proximidade e cumplicidade entre Clarice Lispector e os leitores de suas crônicas.

Este espaço viria também a contribuir para a divulgação das obras da escritora. Segundo Teresa Montero, inicialmente, foram os contos que tornaram Clarice Lispector mais próxima de seus leitores, principalmente quando a revista Senhor publicou contos como A menor mulher do mundo, Feliz Aniversário e A imitação da rosa, na década de 50, obtendo uma resposta positiva do público, assim como o interesse das editoras. Esta proximidade aumenta em 1964, com a publicação do romance A paixão segundo G. H. e do livro de contos A legião estrangeira, alguns dos quais são publicados na Senhor, “mas a sua recepção se expandiu quando o grande público pôde ler alguns deles na coluna de Clarice no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973” (MONTERO, 2009:13).

Em Felicidade Clandestina (1970), a escritora resgata contos de A legião estrangeira e crônicas do Jornal do Brasil. Aqui, com Teresa Montero, pergunta-se: “O que é crônica e o que é conto neste livro? Os gêneros se misturam. Clarice afirmava: ‘Gênero não me pega mais’” (MONTERO, 2009:13).

As experiências anteriores de Clarice Lispector o jornalismo, como colunista, podem ter contribuído para este exercício “transgressor” do espaço da crônica. Em 1952, ela assina a coluna “Entre Mulheres”, no semanário Comício, sob o pseudônimo de Teresa Quadros, a convite do escritor e jornalista Rubem Braga. Em um contexto do pós– guerra, ela tratava de assuntos do lar e de moda, dava conselhos para as leitoras sobre a silhueta, receitas e até da maneira de prevenir problemas no casamento, entre outros assuntos. Porém, ela foi além dos considerados assuntos fúteis, porque a ficcionista, ou a “personagem Teresa Quadros” acrescentou àquele espaço do Comício, seu gosto pela literatura, reproduzindo trechos de textos e referências de autoras como Virgínia Wolf, Katherine Mansfield - e de Clarice Lispector.

Sua segunda colunista fictícia aparece em 1959, como Helen Palmer, no “Correio feminino – feira de utilidades”, no jornal Correio da Manhã. Um trabalho menos sofisticado do que o anterior que, sob o patrocínio da indústria de cosméticos Pond’s, tinha a missão de passar à leitora conselhos de beleza que fossem associados aos seus produtos. Um público em que a “rainha do lar” e zelosas donas de casa eram o enfoque da coluna.

Durante este período, Clarice aceita o convite de Alberto Dines para assinar uma outra coluna feminina no Diário da Noite, desta vez como ghost-writer de Ilka Soares, modelo e atriz do cinema brasileiro. Com o nome de “Só para mulheres”, “Ilka Soares” conversava com as leitoras desta seção, aproximando-se das leitoras para dar dicas sobre o mundo da moda ou sobre questões relacionadas ao cotidiano da mulher comum. Sua contribuição terminaria em março de 1961.

Assim, em agosto de 1967, quando Clarice novamente recebe o convite de Alberto Dines para participar de uma coluna no Jornal do Brasil, sente–se temerosa ao saber que iria escrever crônicas, algo que ainda não fizera e ainda assinadas por ela mesma, sem a “proteção” dos pseudônimos anteriores. Ao mesmo tempo, era um momento delicado da vida de Clarice, sua única atividade extra eram as traduções e ainda se recuperava de um acidente doméstico, um incêndio provocado por um cigarro com graves queimaduras, especialmente nas mãos, abatendo-a profundamente.

No capítulo “O acidente (corpo, a ferida, a escrita)”, de Figuras da Escrita, Carlos Mendes de Souza refere-se a este acidente e como sua colaboração nas páginas do Jornal do Brasil também contaminará a escrita do livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, fator que se define como um marco na escrita clariciana: “Com efeito, a partir daqui desencadeia-se, pelo menos aparentemente, um certo deslaçamento de tensões temáticas expressivas, uma atitude nova perante a escrita (...) ao qual não se pode deixar de associar ao acidente” (SOUZA, 2011:496).

O nascimento da cronista vai revelando as faces da escritora, da mulher e do mito Clarice. Em uma de suas crônicas iniciais, Amor Imorredouro, um aparente despojamento inaugura o tom confessional que ela imprime a muitas de suas crônicas:
Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que se pode chamar propriamente de crônica. E além de ser neófita no assunto, também o sou em matéria de ganhar dinheiro. Já trabalhei na imprensa como profissional, sem assinar. Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma. É verdade. Mesmo que não por dinheiro, a gente se expõe muito (LISPECTOR, 1999, p.29).

A cronista vai-se revezando entre as crônicas em que exprime esta sua preocupação em não revelar-se, entre aquelas que possuem um caráter metalinguístico, entre aquelas em que afirma, ou discute sobre ser misteriosa ou não, aquelas em que também questiona seu papel de escritora e tantas outras que não mencionaremos aqui, devido à brevidade deste trabalho.

Neste percurso, o mecanismo de identificação com o leitor é o eixo que conduz ou amarra as crônicas, ora de forma perceptível, ora de forma implícita, em um jogo sedutor e prazeroso com as palavras.

Em Outra Carta, ela responde à carta de um leitor que “parece revelar” que conheceu Clarice só a partir da crônicas e que pede à escritora que não largue sua coluna sob o pretexto de defender sua intimidade, porque para ele, o “escritor, se legítimo, sempre se delata”. Ela responde que, embora seus romances não fossem autobiográficos, quem os lê acaba por informá-la de que ela se delata, por isto o cuidado de não expor-se nas crônicas. Porém, ela diz que, paradoxalmente, “lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo intenso de me confessar em público e não a um padre” (LISPECTOR, 1999:78).

O leitor é seu interlocutor, tem sua função questionada neste diálogo, ao mesmo tempo em que ocorre o processo de identificação entre escritor/leitor: “O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias , é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor,é o escritor” ( LISPECTOR,1999: 79).

No desvão desta escrita, Clarice provoca o leitor de suas crônicas, insinuando-se pelo caminho da possibilidade, do que não se define, como na crônica Sim ou não: “Eu sou sim. Eu sou não. Aguardo com paciência a harmonia dos contrários. Serei um eu, o que significa também vós” (LISPECTOR,1999: 279).

Para José Castello, não interessava a Clarice “escrever ‘para o leitor’, mas ‘ser’ este leitor. Escrevia como uma leitora, que se delicia com as palavras alheias” (CASTELLO, O Globo, 2011).

Nesta inquieta incompletude, ela procura palavras que lhe possibilitariam o encontro com o outro e este caminho, sob o pretexto das crônicas, é aludido através da crônica Em Busca do Outro: Não é à toa que entendo os que buscam o caminho. Como busquei arduamente o meu!E como hoje busco (...) o melhor de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei; eis o meu ponto de chegada (LISPECTOR, 1999: 119).

Escrever é um caminho, um modo de aproximar-se do outro, e Clarice, ao longo das crônicas,reporta-se muitas vezes a estes deslocamentos, ora com a angústia de quem tateia o caminho, ora com o entusiasmo da aventura, ora questionando o próprio caminho, ou mesmo “filosofando” sobre ele.

Com o título de Anonimato, temos uma crônica, que expõe esta tensão entre o ato da escrita e a “pessoa Clarice”, diante desta proximidade com o público, imposta pelo espaço da crônica, uma entrega em que resiste e, resistindo, ancora-se na palavra “silêncio” para preservar-se e preservar as palavras:

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer [:] já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. (...) Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E este silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio. (LISPECTOR, 1999: 75-76).

Em Ser Cronista, Clarice indaga-se para indagar o gênero, um “esboço” que ganha forma na sua singularidade:

Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto. Na verdade, eu deveria conversar a respeito com Rubem Braga, que foi o inventor da crônica. Mas quero ver se consigo tatear sozinha no assunto e ver se chego a entender. Crônica é um relato? É uma conversa? é o resumo de um estado de espírito? (LISPECTOR, 1999:112).

Outras crônicas de natureza metalinguística refletiram sobre o ato da escrita e assinalam esta preocupação constante de Clarice, para quem escrever é transcender o próprio ato. Na crônica Escrever, ela expressa este seu sentimento diante da escrita:

Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. (...) Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. (...) É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada (LISPECTOR, 1999:134 - grifos nossos).

Clarice compartilha com o leitor de suas crônicas esta “intimidade” com a escrita, daí a genuína cumplicidade, o passaporte lícito para “colocar-se” com leveza e autenticidade, sem abdicar de seu valor como cronista.

Para ela, escrever é também uma aventura, e duas crônicas nomeadas com este tema ilustram a razão desta afirmação: A Perigosa Aventura de Escrever e Aventura. Na primeira, ela diz : “Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras” (LISPECTOR,1999:183), mas depois discorda do que havia dito: “Mas está errado, pois que, ao escrever, grudada e colada, está a intuição. É perigoso porque nunca se sabe o que virá _se se for sincero” (ibidem). E remata a crônica, dizendo: “Não se brinca com a intuição,não se brinca com o escrever: a caça pode ferir mortalmente o caçador” (ibidem).

A segunda crônica, Aventura, repete a frase sobre o valor da intuição, falando de sua necessidade de escrever para entender e como se relaciona com a aventura:

Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. É neste sentido, pois, que escrever me é uma necessidade. De um lado, porque escrever é um modo de não mentir o pensamento (...); de outro lado, escrevo pela incapacidade de entender, sem ser através do processo de escrever.
(...) Sempre tive um profundo senso de aventura (...). Este senso de aventura é o que me dá o que tenho de aproximação mais isenta e real em relação a viver e, de cambulhada, a escrever
(LISPECTOR, 1999:236).

Porém, Clarice foi além da “aventura” da escrita. Ela mergulha dentro de si, busca as palavras, questiona suas origens, como em Escrever ao Sabor da Pena, sabor que consiste na procura: “Estou falando de procurar em si próprio a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona - até vir como num parto a primeira palavra que a exprima” (LISPECTOR, 1999:278).

Escrever é lembrar-se do que nunca existiu” (LISPECTOR, 1999:385) - filosofa Clarice. E esta insistência na “memória” é fundamental para a existência, segundo ela: “Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva”( ibidem).

Ao abordar o tema da escrita em suas crônicas, Clarice estava constantemente lembrando aos seus leitores, sua preocupação com as palavras, não prescindia de seu compromisso com elas, e ainda chamava a atenção para elas: “Mas já que se há de escrever, que ao menos não esmaguem as palavras nas entrelinhas” (LISPECTOR, 1999:385).

2. O mérito e o mito na voz da cronista

Foram as crônicas que mais “falaram” de Clarice. Embora ela almejasse o anonimato, suas palavras acabavam por suscitar, paradoxalmente, o inverso: “No dia-a-dia, ela caminhava sobre o tênue limite entre mostrar e esconder. Não se queria misteriosa, mas tampouco tinha vontade de se expor” (Cadernos de Literatura, 2004:57).

Esta aparente contradição, no decorrer da leitura da Descoberta Do Mundo, ajuda-nos compreender como o mito Clarice se vai delineando através das crônicas e, paralelamente, através de depoimentos ou entrevistas, onde, ora se confirmava, ora se desmentia este mistério que lhe era atribuído.

Numa crônica escrita em agosto de 1967, logo no início de sua participação no Jornal do Brasil, denominada A Surpresa, temos o olhar de Clarice sobre si mesma: “Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência” (LISPECTOR, 1999:23). Ao surpreender-se, ela surpreende quem lê, um espelho de duas faces que alterna a cronista e a personagem Clarice.

Quase um ano depois, na crônica O Meu Próprio Mistério, ela resume-se assim: “sou tão misteriosa que não me entendo” (LISPECTOR, 1999:116).

Perscrutar o mistério? Em Fernando Pessoa Me Ajudando, ela alude ao poeta e aponta o jogo ambíguo do revelar-se: Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. Perco minha intimidade secreta? Mas que fazer? É que escrevo ao correr da máquina e, quando vejo, revelei certa parte de mim. (...) O que me consola é a frase de Fernando Pessoa, que li citada: “Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos (LISPECTOR, 1999, p.136-137).

Em entrevista para o Correio do Povo, em janeiro de 1971, Antonio Hohlfeldt lhe indagaria se suas crônicas seriam uma confissão. Ela, sem negar nem confessar, justifica-se, dizendo: “Eu preciso do dinheiro. A posição de um mito não é muito confortável. Por isso eu gosto de crônica. Porque ela diminui a distância que existe entre mim e o leitor” (ROCHA1, 2011: 58).

Em 1977, em entrevista concedida ao programa Panorama da TV Cultura, responde a Júlio Lerner que não se considerava uma escritora popular. E, quando ele pergunta qual seria razão, ela dispara:
Ué, me chamam até de hermética. Como é que eu posso ser popular sendo hermética?” (ROCHA2,2011: 178)

Outra preocupação de Clarice, revelada através de uma de suas crônicas, denominada Como É Que Se Escreve?, prendia-se com seu “ofício de escritora”. Diante do leitor, ela se questiona sobre o conceito do ato de escrever e, também, sobre a razão pela qual ainda não se considerava uma escritora:

"Por que, realmente, como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? como é que se começa? (...) Sei a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. (...) Será que escrever não é um ofício?

Não há aprendizagem, então?O que é? Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve”
(LISPECTOR,1999,p.156-157).

Para Clarice, escrever era uma forma de existir:

“Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever” (LISPECTOR, 1999:101). Por isto, dispensava os rótulos que lhe eram atribuídos, questionava-os como uma forma de não se deixar impregnar por eles, dispensando-os se sentia “livre” para se exercer, para ser Clarice.

Intelectual? Não - responde Clarice em outra crônica, explicando as razões pelas quais não se considerava como tal. “Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’” (LISPECTOR, 1999:149). “O que sou então?”, pergunta Clarice, para depois falar de “si mesma”: Sou uma pessoa que tem coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal. (LISPECTOR, 1994:149).

Somos, assim, surpreendidos pela mulher, pela cronista e pela escritora Clarice, que emergem destas palavras. Seu grande mérito, assim compreendemos, surge deste modo de ser,da autenticidade que seduz o leitor, e da capacidade de colocar em palavras o que o leitor gostaria de dizer e ouvir.

Conclusão


Ao percorrer as crônicas de Clarice Lispector em A Descoberta do Mundo, com destaque para aquelas que elegemos para o presente trabalho, podemos perceber como ela constrói um espaço que vai além do modelo convencional do gênero cronístico: descobre-se para “descobrir o mundo”,movendo-se entre as fronteiras da literatura e do jornalismo.

Nesta “travessia”, conseguimos entrever como ocorre a relação ficcional/factual de seus textos com o leitor de suas crônicas, cujo processo de genuína identificação, por si só, já justificaria o mito e o mérito clariciano.
Porém, lendo suas crônicas, vamos mais além, como Guimarães Rosa, que confessou ler Clarice “não para a Literatura, mas para a vida”.

Referências Bibliográficas

AAVV, Cadernos de Literatura Brasileira. Edição Especial, números 17 e 18. Dezembro de 2004. Instituto Moreira Salles.
CASTELLO, José. Clarice Lispector- Clarice na Cabeceira: romances. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2011.
CASTELLO, José. O Globo. Caderno Prosa e Verso. 8 de janeiro de 2011.
LISPECTOR, Clarice. A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999.
MONTERO, Teresa. Clarice Lispector- Clarice na Cabeceira. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2009.
ROCHA, Evelyn. Clarice Lispector- Encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2011.

__________________________
1 Entrevista feita por Antonio Hohlfeldt e originalmente publicada no Correio
do Povo em 3 de janeiro de 1971, com o título de Uma tarde com Clarice
Lispector.
2 Entrevista feita por Júlio Lerner, para o programa Panorama da TV Cultura em 1977, com o título A última entrevista.
Fonte:
Teresa Mendes e Luís Cardoso (organizadores). A Mulher na literatura e outras artes – Comunicações apresentadas no I Congresso Internacional de Cultura Lusófona Contemporânea. Instituto Politécnico de Portalegre - Escola Superior de Educação. Portalegre/Portugal:  Junho de 2013._______________________________________________________________________
* Angela Maria Rodrigues Laguardia
Doutora em Letras - Estudos Portugueses, especialidade em Estudos Comparatistas pela Universidade Nova de Lisboa (2014).
Mestre em Letras: Estudos Literários, área de concentração Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008).
Especialista em Literatura Brasileira pelo PREPES, Universidade Católica de Minas Gerais (2001),
Licenciatura em Letras (Português e Literaturas de Língua Portuguesa/ Inglês e suas Literaturas) pela Universidade Presidente Antônio Carlos de Barbacena, Minas Gerais (1984).
Foi professora de Língua Portuguesa e Literatura no Centro Educacional Brasileiro e no Colégio de Aplicação da UNIPAC, em Barbacena. Professora de Língua Portuguesa e Teoria da Literatura nos cursos de Letras; Comunicação Social; Ciência da Computação; Tecnologia em Meio Ambiente e Administração na Universidade Presidente Antônio Carlos.
Dentre suas publicações, destacam-se Fazes-me Falta,de Inês Pedrosa: uma alegoria contemporânea da "saudade" e Maria Lacerda de Moura e Miguel Bombarda: perspectivas da Ciência no limiar do século XX,para a Revista da AMONET. Atua como pesquisadora junto ao CLEPUL ,Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
É pesquisadora integrante do Grupo de Pesquisa Letras de Minas, cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. .
Fonte:
http://www.escavador.com/sobre/5496835/angela-maria-rodrigues-laguardia

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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