Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Olivaldo Júnior (As estrelas)

Desde criança, as estrelas me encantam. Poderia me mudar para uma nova estrela a cada noite e lá ficar por um bom tempo. Mas, como ainda sou humano e, mesmo tendo passado um Mastercard na maquininha celeste, minhas asas não chegaram, cá estou, sonhando, escrevendo que, um dia, ainda que tardio, chegarei a estar com as Três Marias, face a face, olho no olho, num clima de "Será que já não nos vimos antes?". Ah, mas esse dia vai demorar! Queria ir logo para perto das estrelinhas que, juntas, poderiam ser as Três Espiãs Demais, "As três máscaras de Eva", ou, quem sabe, as Irmãs Cajazeiras, imortais personagens do igualmente imortal Dias Gomes, amantes, quero dizer, namoradas de Odorico Paraguaçu, em O Bem-Amado. Amado, penso eu, também seria pelas três estrelas nesse cosmos imenso, tão grande quanto qualquer gota de qualquer oceano existente. A vida é grande, ainda que minúscula. Não há nada que não seja assim: operístico, intangível, insondável. Na próxima parte, eu queria falar com Deus, mas Ele não veio. Estava ocupado, reunido com seus anjos, para ver se a coisa na Terra melhora. Não é à toa que me encanto com o brilho das estrelas e queria ir morar numa delas a cada dia a viver. Nem morto, não me apartarei desse ideal.

À beira da casa em que moro, minha mãe plantou flores, milhões delas. Flores, para mim, são as estrelas da terra. Que é mesmo uma rosa senão a imitação de uma das luzes do céu? Não sei. O que sei é que as estrelas são belas. Ora orientando os sete mares, a cada noite escura da História, ora desorientando dois seres, a cada noite em chamas da aurora, estrelas são um dos tesouros de Deus. Por falar Nele, a reunião com os anjos, já acabou? Queria tanto falar com Ele, dizer que as estrelas foram sem dúvida um de seus melhores feitos, design nota dez. Bem, quando a reunião terminar, Deus, fala um pouquinho comigo, está bem?

Lembro-me de já ter visto o que chamam de estrela cadente. Mais de uma vez, aliás. Outro dia, vi uma. Pasme: sabia que as estrelas que vemos sequer estão "vivas"? São estrelas mortas, as que vemos brilhar quando o Sol se vai para o Japão e a Lua volta para cá. Estrelas, na verdade, foram sóis imensos, e o que vemos da Terra é apenas o brilho de cada um desses sóis, que, por terem estado muito longe de nós, a luz deles demorou tanto a chegar aqui, que o que vemos é somente a luz deles mesmo. Complexo demais? Nem tanto. Eu gostei de saber disso. Não sei por que, mas isso é mais poético que as próprias estrelas, ora mortas.

Acabou a reunião de Deus com seus anjos? Não?! Ih, vou ter que esperar... Um passarinho me disse que, antes de mim, tem uma fila de iluminados, outra de santos, e ainda outra de espíritos à porta do Pai, querendo um cantinho só seu, numa estrela, num planeta, num satélite, um canto em que, iguais a mim, possam cantarolar Stardust, sucesso na voz de Nat King Cole, ou, se tiverem sido brasileiros, Chão de estrelas, do Sílvio Caldas, músicas lindas, quase esquecidas por gerações mais novas. Sucessos de também estrelas num céu que se mostra opaco, musicalmente falando.

Poderia me mudar para uma nova estrela a cada noite e lá ficar por um bom tempo. Será que minha mãe iria querer ir comigo? Se fosse, poderia fazer bolachas, meias-luas, para São Jorge, que o chá da tarde por lá pode ser bem legal. O quê?! A reunião de Deus acabou?! Graças a Deus, quer dizer, graças a Ele! Bem, é hora de ir. Uma estrela sobe. Vamos lá!

Fonte:
O Autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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