JORGE FREGADOLLI
Maringá/PR
João-de-barro, engenheiro da floresta
Feliz é o joão-de-barro,
constrói em qualquer lugar.
Ninguém, pois, lhe tira o sarro,
não lhe vai incomodar!
João-de-barro é engenheiro,
doutor pela natureza.
Porém, trabalha o ano inteiro…
sua casa, que beleza!
Um passarinho de nada
faz as casas em paineira.
Não tem diploma, que nada,
neste palco ele gorjeia!
João-de-barro, inteligente,
nem estudou – quem diria!
É arquiteto, docente,
um mestre em engenharia!
Não tem medo, se o tivesse,
não faria belo ninho.
Deus, ouvindo sua prece…
joão-de-barro, passarinho!
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Aldravia de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG
estrelas
choram
lágrimas
prateadas
lamentando
ausências
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Poema de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
A grande mestra
Não temas que o Destino te atraiçoe
pondo pedras demais no teu caminho.
Usa as pedras que acaso ele te doe,
e, ao construir, não estarás sozinho!
Se Deus te deu a luz da inteligência
e o poder de ir e vir em liberdade,
tens o solo, a semente e, com paciência,
um dia hás de colher felicidade!
Não creias, por temor e covardia,
que só o Destino teu porvir decida!
– Destino tu constróis, a cada dia!
E a Grã Mestra da Obra é a própria Vida!
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS
Ruas do Céu
MOTE:
Este céu tem lindas ruas
e Deus, para enriquecê-las,
de prata pintou as luas
e bordou o chão de estrelas.
Sarah Rodrigues
Belém/PA
GLOSA:
Este céu tem lindas ruas,
cheias de encanto e harmonia,
de tristezas, estão nuas,
nelas, só existe alegria!
São as mais belas de todas
e Deus, para enriquecê-las,
deu-lhes luz de eternas bodas...
Impossível descrevê-las!
Pra não ver mais cores cruas,
com seu pincel de emoção,
de prata pintou as luas
com a mão do coração!
Quis belezas extasiantes
e, assim, para poder tê-las,
pintou as luas distantes
e bordou o chão de estrelas.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG
Segredo da despedida
Ao meio dia, alegres dois ponteiros,
cantaram juntos para a paz buscar;
o sol tornou dois corpos mais inteiros,
brilho no rio quis logo espelhar!
Testemunhou paixão febril, no olhar,
firmes mãos dadas, toques bem ligeiros
no tim-tim-tim que o copo fez cantar,
canção vibrante quis os tons primeiros.
Água que passa suja, leva tudo,
No entardecer, relógio, chama agora:
-Já são seis horas...tempo fica mudo.
Na despedida penso:-Quero tê-lo!
Tal qual criança sofre e vai embora...
Tristonha vou...não posso mais detê-lo.
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Triverso de
ANTONIO LUIZ LOPES TOUCHÉ
Guarulhos/SP
A Maria-sem-vergonha
Como a rosa e a margarida,
Cumpre a sina: floresce.
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP
Doa-se um coração
Doa-se um bom coração...
Muito afoito e destemido!
Já viveu tanta paixão,
apesar de ter sofrido...
Muito afoito e destemido,
um eterno sonhador.
Apesar de ter sofrido
da solidão tem horror.
Um eterno sonhador,
por muitos, manipulado.
Da solidão tem horror;
quer amar e ser amado.
Por muitos, manipulado
mas ainda em condição...
Quer amar e ser amado!
Doa-se um bom coração...
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Soneto de
ERÁCLIO SALLES
Santo Amaro da Purificação/ BA
Teu Presente
Pensei que a terra, por demais escura,
Manchasse o alvor de teus formosos braços.
E arrojei-me, quixótico, aos espaços,
Sorvendo aos tragos a amplidão da altura.
Penetrei mundos de celeste alvura,
Cansando o olhar, multiplicando os passos.
Venci desertos, esmaguei cansaços,
De um presente trazer-te, indo à procura.
Fiquei cego de ver tanta miragem,
Fitando estrelas, no ansiar profundo.
Nem só uma escolhi – tantos cuidados! -
Nada te posso dar dessa viagem.
Mas sei, no entanto, que te trouxe um mundo
Na memória dos olhos apagados.
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Poema de
ANTÓNIO GEDEÃO
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)
Lisboa/Portugal, 1906 – 1997
Poema da malta das naus
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote* de vagabundo,
rebotalho** de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros*** e zagaias****.
Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
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* Pelote = Peça de vestuário antiga, de abas largas e grandes
** Rebotalho = refugo
* * * Peloiros = bala de metal
* * * * Zagaias = lança curta
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP
Poeta
… reconheceram a canção que cantariam,
se soubessem cantar .
Helena Kolody
Nunca lhe falta a sensibilidade,
a sutileza, o dom de transferir
às palavras toda a expressividade
na alegria ou na mágoa do sentir.
O poeta é assim, é versatilidade…
Seja o que for que intente traduzir,
mergulha em vida, em sonho, em realidade,
faz de uma noite a aurora reflorir.
Transcende as dores de um mundo sofrido,
pisa os mistérios do desconhecido,
traz as estrelas para o nosso chão.
E quem o escuta, exclama, fascinado:
“Era assim que eu queria ter cantado,
se soubesse escrever minha canção!”
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG
Meu sublime motivo
Eu, que na vida, sempre fui tão inconstante,
Agora me detenho num tema exclusivo:
A cordas dessa lira, fortes vibrantes,
Fazem parte do mundo belo em que vivo...
É como uma mensagem de paz. Num instante,
Vem à minha alma como um doce lenitivo.
Nesse agito, o meu ser torna-se redundante:
Desejo escrever... É meu sublime motivo!
Nessa jornada, no campo imenso da poesia,
Encontro essa beleza que antes não sentia...
São simples temas - nobres joias esquecidas!...
Em cada verso, doo um pouco de mim mesmo.
Nesse jardim inerte, no abandono, a esmo,
Cultivo meu canteiro de belas margaridas!...
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Poema de
ANNA ENQUIST
Amsterdam/Holanda
Cena Campestre
A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.
À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.
Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.
(tradução: Catherine Bare)
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Soneto de
MANUEL NETO DOS SANTOS
Alcantarilha/ Silves/ Portugal
Primavera Esperada
Vem amor, quando chegar a Primavera,
Fazer com que floresça o meu sorrir,
Prender-me com os teus braços de hera
E amar-me no regaço do devir.
Vem amor, quando a terra florescer
E o ar, almiscarado de perfume,
Em brisas de ternura te disser
Que acendas no meu corpo esse teu lume.
Vem amor, quando a greda revolvida
Florir, numa aquarela aveludada;
Boninas, lírios brancos, açucenas…
Vem, amor! Quando o dia, a alvorada,
Florir as flores, mesmo as mais pequenas
E traz-me, então, de volta a própria vida.
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Poema de
JOSÉ AUGUSTO DE CARVALHO
Viana/Portugal
Poema para Maria
Os longes da memória, o tempo e o modo
renascem, inventados, água e lodo...
Rasgando a treva, a chama de um farol,
por montes, vales, plainos, surge o trilho...
O múrmuro trinar do rouxinol
poisou no choro brando do teu filho.
E de montante, o rio rumoreja,
espreguiçando a doce melodia.
P'los campos, o olivedo que esbraceja
candeia que há-de ser já anuncia...
Na calma santa e mítica de luz,
a vida sonha e quer-se imaginário...
O tudo e o nada, o todo se reduz
ao berço do infinito planetário...
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Soneto de
VINÍCIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980
Soneto de Meditação I
Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne virá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viveu unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.
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