quinta-feira, 19 de março de 2026

Asas da Poesia * 164 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Letras aladas

Serei um pedaço de terra.

Serei um sulco onde plantarão
sementes de poesia,
e versos emergirão
nascidos com lágrimas.

Um carrossel de letras girando silenciosamente,
versos que romperão o tempo,
aguardados por pássaros ávidos,
famintos por novos poemas
que não comeram uma única semente,
mas as nutriram,
voando em círculos concêntricos
de muitas cores.

Aromas de letras quentes,
versos dourados
recém-assados.

Pão de letras,
nutrindo o espírito,
voará muito alto.

Poesia com asas. 
(Tradução do espanhol por José Feldman)
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Soneto de
ANTONIO COSTTA
Pilar/PB

A falsidade deste mundo

Neste mundo é tamanha a falsidade
Que a verdade, de repente, ocultou-se;
A mentira transformou-se em verdade,
E a verdade, em mentira, transformou-se!

Porventura alguém sabe onde a verdade
Neste mundo hodierno extraviou-se?
Em que parte do planeta a bondade
Inda não, em maldade, adulterou-se?

Oh Senhor, nos livrai da falsidade!
Que opera neste mundo de maldade,
Da forma mais sutil e traiçoeira!...

Pois no mundo a falsidade não expira,
A verdade é transformada em mentira,
E a mentira - em verdade verdadeira!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

A sede dos rios... minha vida...

O que seriam estas serpentes
em permanente carrear de viço,
em serviço de manter a vida?

E seriam estes serpenteares,
por lugares ermos e diferentes,
gestos lentos de despedidas?

Pelo avesso desse finito mundo
presos à incúria do granito,
no fundo da boca espumamos
o gosto de mercúrio e chumbo.

O que seriam estas sementes
em permanente mudar de rebuliço,
genes doentes, eternos movediços?

E seriam estes plantares,
esgares enfermos e impotentes,
infernos bentos em seus feitiços?

Pelo terço da bendita mantra
rimos, salivamos e latimos
como o grito que espanta,
como o abortar dos destinos.
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Trova Popular

Se eu fosse um retratista
tirava um retrato teu,
para mim pôr no meu quarto
para ser consolo meu.
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Dobradinha Poética de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Lar... Doce lar…

Volto à casa, que "era minha",
risco a calçada e, feliz,
vou pular amarelinha
mas, o pranto apaga o giz!

Hoje, saudosa, eu volto ao lar antigo
e escancarando a porta semiaberta,
procuro em vão... vasculho o doce abrigo...
Nem pai... nem mãe... a casa está deserta!

E volto ao lar, que dividi contigo...
- Vaivém dos filhos, pela porta aberta...
- Visita alegre de um ou de outro amigo...
E, hoje, é a saudade que o meu peito aperta.

Mas, por deixar pegadas nos caminhos,
não fiquei só!... Cercada de carinhos,
eu sou feliz!... Se volta o sonho louco

do teu amor, acalmo o coração
pois, ao sentir que chega a solidão,
no amor dos filhos eu te encontro um pouco.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

De você, nunca desligo,
amigos têm esse dom
de construir seu abrigo
em cada amigo que é bom, 
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Poema de
LALLA ROMANO
Demonte/Itália, 1906 - 2001, Milão/Itália

Jovem é o tempo

Estreito e claro era o rio
tornou-se enorme e foge
como um animal ferido

Até o ar está morto
o céu é como uma pedra

Os pássaros não sabem mais voar
atiram-se como cegos
dos beirais dos tetos

O amado odor do corpo

O sono das manhãs
me encadeia os joelhos
me cinge a fronte
com suas vendas de seda

Então sem que eu te chame
penetras nos meus sonhos
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Soneto de
EDIR PINA DE BARROS
Brasília/DF

Canto! E canto a dor

Canto! E no meu canto eu louvo a dor
que assim nos deixa humildes, mais humanos,
que nos lapida em meio a desenganos
bem mais do se pode ver, supor.

E as lágrimas que escorrem sem pudor
na proporção das perdas e dos danos,
a desvelar fraqueza em espartanos,
com bela rutilância furta-cor.

A dor é a força oculta da alegria,
que vence toda empáfia, galhardia,
e iguala-nos em nossas diferenças.

Oh! Dor! Eu sempre, sempre hei de louvar-te
aqui, ali, além, em toda parte
até que um dia a mim, também, me venças.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Dentre tudo que é vivido
na curva da trajetória,
encontra-se o amor perdido
bem guardado.,, na memória.
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Spina de
NINA MARIZA
Berilo/MG

Sou escritor

Escrevo na linha
do seu coração; 
Escrevo o Amor.

Acalento a minha, sua dor!...
Escrevo nas páginas da vida.
Sou, de almas, um pescador.
Sinto a Poesia... a Natureza.
Sou amor, vida; Sou Escritor.
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Trova de
NILSA ALVES DE MELO
Maringá/PR

Por trás desta foto linda,
cheia de risos, de encanto,
esconde a saudade infinda
que, muitas vezes, espanto.
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Soneto de
RICARDO DE BENEDICTIS
Vitória da Conquista/BA

Desejos

Fico pensando na idade
e temo a senilidade...
Também cismo com a saúde
cada vez mais amiúde...

A ilusão de viver
sem cair e sem perder...
Na tomada de atitude
que, de repente, me mude...

Quem sabe, assim, suportasse
o desamor e chorasse,
pois que chorar nunca pude...

Quem sabe, neste momento
mitigasse o sofrimento
da esperança que me ilude...
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Soneto de
DIAMANTINO FERREIRA
Campos dos Goytacazes/RJ

Uma dádiva de amor

Passei a minha vida, entre percalços,
tão só pela desdita de haver-te amado.
Corri o mundo afora, transtornado,
buscando outros amores; porém, falsos!

Decênios já passaram;  mas, em vão,
ninguém  achei ou que lembrasse a imagem,
em que ao menos sentisse uma passagem,
da que nunca saiu do coração!

E se nós, um de nós, talvez errados,
a culpa dos molestos já passados
já não nos cabe, agora, pesquisar.

A minha dor, no entanto, apenas quero
e no seu fundo, amor!  Eu te assevero:
eu vou morrer, te amando sem cessar!...
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Pantun de
MIFORI
(Maria Inês Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Esta atual geração
mostra certa negligência.
Apinhada em atuação
desafiando a ciência.
MIFORI

Mostra certa negligência
em toda a sua postura,
desafiando a ciência,
a juventude imatura.

Em toda a sua postura,
leva um emblema no peito;
a juventude imatura
se veste de qualquer jeito.

Leva um emblema no peito,
atira-se nua ao mar,
se veste de qualquer jeito,
põe-se logo a navegar.

Atira-se nua ao mar,
com muita satisfação.
Põe-se logo a navegar,
esta atual geração.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Há vidas que se parecem
com as roseiras viçosas:
quando podadas, mais crescem
e mais se cobrem de rosas!
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Hino de 
ALTÔNIA/ PR

Quadro vivo a clareira da mata
Inefável Altônia a sorrir
Na moldura bordada de prata
Pelos rios Paraná e Piquiri.
Miniatura do pátrio torrão
Tens as cores da augusta bandeira
No verdor dos cereais, do algodão,
No azul das lagoas faceiras

Cidade onde o trabalho
É um cântico de fé.
Surgiste dentre os ares
Festivos do café.
Fronteiras da amizade
Inscrevem no teu chão,
Toda a fraternidade
De um nobre coração.
Altônia a tua história
De luta varonil
Será um clarim de glória
Vibrando no Brasil.

Há uma linda e profunda mensagem
De fartura, de paz e união.
Astro bom que anuncia a vitória
O teu nome amanhã fulgirá,
Fascinante e triunfal trajetória
Deste grande e feliz Paraná

Cidade onde o trabalho
É um cântico de fé.
Surgiste dentre os ares
Festivos do café.
Fronteiras da amizade
Inscrevem no teu chão,
Toda a fraternidade
De um nobre coração.
Altônia a tua história
De luta varonil
Será um clarim de glória
Vibrando no Brasil.
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Poema de
A. A. DE ASSIS 
(Antônio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Poêmica III

Tinha o céu e tinha a terra,
tinha o sol e tinha a lua,
tinha as estrelas,
milhares.

Tinha os lagos e as lagoas,
tinha os rios e os riachos,
e os verdes bravios
mares.

Tinha as serras e as colinas,
tinha as selvas e as campinas,
tinha os jardins e os
pomares.

Bichos nas matas correndo,
peixes nas águas brincando,
cantando as aves
nos ares,

e tudo era muito bom.

Deu-se porém que
criados
o homem mais a mulher,
criaram logo o machado,
a foice, o fogo e o veneno,

e pôs-se tudo a perder.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O galo e a raposa

Empoleirado num sobreiro antigo,
Fazia um velho galo sentinela.
Uma raposa diz-lhe: «Irmão e amigo,
Venho trazer-te uma notícia bela.

Nas nossas dissensões lançou-se um traço
E acaba de assinar-se a paz geral;
Desce, que quero dar-te estreito abraço
E juntamente o beijo fraternal!

— Amiga — diz-lhe o galo — folgo imenso;
Não podia esperar maior delícia!...
Vejo dois galgos a correr, e penso
Que são correios da feliz notícia.

Foge a raposa sem dar mais cavaco;
E o galo sentiu íntimo consolo.
Pois é grande prazer ver a um velhaco
Entrar espertalhão e sair tolo!
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Mensagem na Garrafa 160 = Amor Incondicional


AUTOR ANÔNIMO

Esta história é sobre um soldado que finalmente estava voltando para casa depois de ter lutado no Vietnã. Ele ligou para seus pais em São Francisco:

- Mãe, pai, eu estou voltando para casa, mas eu tenho um favor a pedir. Eu tenho um amigo que gostaria de trazer comigo.

- Claro! Nós adoraríamos conhecê-lo!!!

- Há algo que vocês precisam saber ­ continuou o filho. Ele foi terrivelmente ferido na luta; pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. Ele não tem nenhum lugar para ir e, por isso, eu quero que ele venha morar conosco.

- Eu sinto muito em ouvir isso filho, nós talvez possamos ajudá-lo a encontrar um lugar para ele morar.

- Não, mamãe e papai, eu quero que ele venha morar conosco.

- Filho, você não sabe o que está pedindo. - Alguém com tanta dificuldade seria um grande fardo para nós. Nós temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que uma coisa como esta interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar para casa e esquecer este rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver por si mesmo.

Neste momento o filho bateu o telefone.

Os pais não ouviram mais nenhuma palavra dele. Alguns dias depois, no entanto, eles receberam um telefonema da polícia de São Francisco. O filho deles havia morrido depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio. Os pais angustiados voaram para São Francisco e foram levados para o necrotério a fim de identificar o corpo do filho.

Eles o reconheceram, mas, para o seu horror, descobriram algo que desconheciam: O filho deles tinha apenas um braço e uma perna.
* * * * * * *

Os pais, nesta história são como muitos de nós.

Achamos fácil amar aqueles que são bonitos ou divertidos, mas, não gostamos das pessoas que nos incomodam ou nos fazem sentir desconfortáveis. De preferência, ficamos longe destas e de outras que não são saudáveis, bonitas ou espertas como nós somos. Alguém que nos ama com um amor incondicional, que nos acolhe dentro de uma só família. 

Precisamos aceitar as pessoas como elas são, e ajudar a todos a compreender aqueles que são diferentes de nós.

Dicas de Escrita (O subtexto de um conto) 1


O subtexto é a "conversa oculta" do conto. É aquilo que o personagem sente ou pensa, mas não diz explicitamente, ou o que o autor comunica ao leitor sem usar palavras diretas. É a arte de ler as entrelinhas. 

No conto, o subtexto é vital porque a brevidade não permite explicações longas. Ele se constrói através da tensão entre o que é dito e o que é feito. 

Aqui estão as três formas principais de construí-lo, com exemplos:

1. Ação vs. Fala (A Contradição)

O subtexto aparece quando as palavras do personagem tentam esconder uma realidade que o corpo ou a ação revelam.

Texto (O que é dito): "Estou ótimo, não se preocupe comigo. Vá para a sua festa e divirta-se."

Subtexto (A realidade): O personagem está profundamente magoado e solitário.

Como construir: Enquanto ele diz que "está ótimo", ele esmaga um copo plástico na mão ou evita olhar nos olhos do interlocutor. O leitor entende o abandono sem que a palavra "tristeza" seja escrita. 

2. O Objeto como Símbolo (A Metáfora)

Em vez de falar sobre um sentimento (como a falta de amor), você foca em um objeto que carrega esse peso.

Exemplo: Um casal está jantando em silêncio. Em vez de escrever "eles não se amam mais", você foca na mancha de gordura no prato que nenhum dos dois limpa, ou na distância física entre os talheres.

O Subtexto: O descuido com o objeto ou com o ambiente é o subtexto do descuido com a relação.

3. A Omissão (O Silêncio Carregado)

O subtexto é construído pelo que o personagem decide não falar. Se dois irmãos perderam o pai e passam o conto inteiro discutindo sobre quem vai ficar com o relógio velho do falecido, eles não estão falando de um relógio; eles estão falando de quem era o favorito ou de quem sente mais a perda.

Exemplo Prático: Abandono de Idoso

Imagine uma cena onde um filho visita a mãe idosa em um asilo.

Cena sem subtexto (Fraca):
"Oi mãe, vim te ver, mas estou com pressa. Sei que você se sente sozinha aqui e eu me sinto culpado."

Cena com subtexto (Forte):
Ele entrou no quarto sem tirar o paletó. Colocou uma caixa de bombons barata sobre a mesa de cabeceira, em cima de um porta-retrato empoeirado.

— Trouxe doces — disse ele, checando o relógio de pulso pela terceira vez.

A mãe sorriu para o filho, mas suas mãos alisavam freneticamente a colcha da cama.

— Estão lindos, querido. Mas você sabe que eu não posso comer açúcar.

— É verdade. Esqueci. Bom, na próxima eu trago outra coisa. Preciso correr para uma reunião.
 
Análise do Subtexto:

O paletó vestido: Indica que ele já está de saída, não se "instalou" para uma visita real.

O chocolate proibido: Mostra que ele não conhece mais a rotina ou a saúde da própria mãe (desconexão/falta de amor).

O relógio e o porta-retrato empoeirado: Sugerem a pressa dele contra o tempo parado dela.

O subtexto é o que dá inteligência ao leitor, permitindo que ele "descubra" a história em vez de apenas recebê-la pronta.
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continua…
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Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Silmar Bohrer (Croniquinha) 154


Muita gente não conhece, não sabe o que significa e talvez por isso não gosta de usar certas palavras.

"Sazonal" pode ser uma delas. Vem do latim "sationis" designando o ato de semear, plantar, e depois passou a descrever a estação em que se plantava.

Entre nós "sazonal" tem significados variados -  como oportunidade, ocasião, de vez em quando, certos períodos.

Eu a uso sazonalmente em prosa ou verso, não pela palavra em si, mas para mostrar ou lembrar de que somos todos sazonais.

Desde cedo quando nascemos, iniciamos a nossa maturação, a sazão, primeira estação da vida.  Vivemos de sazões, as sazonalidades vitais, que nos acompanham vida a fora.

Fazemos viagens sazonais, comer certo alimento de vez em quando, temos trabalhos temporários (mutirão, por exemplo), praticamos exercícios uma ou duas vezes por semana . . .

E o importante, o útil, o necessário é que de vez em quando (sazonalmente) tenhamos envolvimento na comunidade, em entidades de serviço, apoiando, auxiliando, buscando soluções comuns que revertem em benefício geral.  Certamente veremos progressos no ambiente em que vivemos.  Progresso então permanente.     
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada com IA Microsoft Bing usando a foto do autor 

quarta-feira, 18 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 2. A Força do Amor

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e em As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus perseverantes amigos. As estrelas já caminham para o repouso, mas antes que a luz do sol apague as nossas lanternas, eu, Mustafá, o peregrino, lhes darei este presente: uma história onde o amor provou ser a magia mais poderosa que existe sobre a face da terra.

"Bismillah" (Em nome de Deus), deixem que o voo desta narrativa comece.

Em um reino entre as dunas e o mar, um jovem Príncipe chamado Khalid casou-se com a bela Amira. "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), dizia o povo, pois nunca se viu par tão perfeito. 

No entanto, o que ninguém sabia era que uma bruxa invejosa, despeitada por não ter sido convidada para o banquete de noivado, lançara sobre a jovem um "sihr" (feitiço) cruel.

Na noite de núpcias, quando a lua subiu ao zênite, Amira sentiu seus ossos tornarem-se leves e seus braços cobrirem-se de penas. Antes que Khalid entrasse no quarto, ela transformou-se em um falcão real e partiu pela janela, ganhando o céu noturno.

Noite após noite, o Príncipe entrava no leito e encontrava apenas o vazio e uma única pena dourada sobre o travesseiro. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "onde se esconde a minha amada quando as sombras caem?". 

O desespero começou a consumir sua alma, e muitos diziam que o Príncipe estava perdendo o juízo, pois ele passava as noites em claro, vigiando as torres do castelo.

Certa madrugada, Khalid fingiu dormir. Sob a luz pálida de uma lamparina de azeite, ele viu o indizível: sua doce Amira, com os olhos cheios de lágrimas, contorcer-se enquanto o encanto a transformava em ave. Num bater de asas frenético, o falcão pousou no parapeito da janela, pronto para ganhar a escuridão.

Num ímpeto, Khalid correu e, em vez de tentar capturá-la ou feri-la, caiu de joelhos diante da ave. 

"Ya Habibi" (Meu amor), exclamou ele com a voz embargada, "não fuja mais de mim! Não importa se tens pele de seda ou penas de rapina, se tens voz de mulher ou o grito dos céus. O que eu amo habita no teu coração, e ele é minha morada. Se fores humana, serei teu marido; se fores falcão, serei teu ninho e teu céu. Tu moras em mim, para além de qualquer forma!"

Ao ouvir essas palavras de entrega total, o impossível aconteceu. O amor puro de Khalid agiu como um fogo que consumiu a maldição. Uma luz ofuscante preencheu o quarto e, onde antes estava o falcão, surgiu Amira, chorando de alegria, agora humana para sempre. 

"Shukran" (Obrigado), sussurrou ela, "pois só um amor que aceita o impossível poderia quebrar o que a maldade teceu".

"Maktub" (Está escrito): a verdadeira beleza não está no que os olhos veem, mas no que o coração reconhece.


“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês), meus caros. Que vossos amores sejam tão fortes quanto o voo de um falcão e tão firmes quanto as pedras de Bagdá.
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O número 1 desta série pode ser acessada no link
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, artista plástico digital e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Monsenhor Orivaldo Robles (O anjo de plantão)


Para os antigos, bêbado e criança têm especial proteção de Deus. O bêbado da roça era um pobre homem, que trabalhava a semana toda para, no sábado, tomar sua cachaça. Até o cavalo o compreendia. De volta, pela bambeza das rédeas sabia que precisava afrouxar o passo. Quanto cavaleiro chegou a casa dormindo na sela! Vez por outra caía, mas não se machucava. Dos bêbados motorizados de hoje, porém, Deus largou de mão. Não paga mais hora extra ao anjo da guarda. Nem fornece anjos auxiliares. Porque criança e bêbado, além do anjo titular, conta com equipe de apoio. Como canta Zé Geraldo, “hoje o homem criou asas”. Pensa que é dono de tudo e apronta o que lhe dá na telha. As consequências os noticiários jogam, todos os dias, na nossa sala. O mundo hoje é urbano e globalizado. Não mais aquele da nossa infância.

Ao contrário de bêbados ao volante, crianças continuam cuidadas por anjos. É raro que se firam gravemente. Se bem que, hoje em dia, ser criança tenha ficado um tanto chato. Cadê a meninice de outrora, decantada por poetas? Pais parecem tentar obter nos filhos o sucesso que não conseguiram. Impõem-lhes mil atividades. Não os deixam ser crianças. Ou então os enchem de brinquedos que já vêm brincados. Basta apertar botões.

Nossa infância apresentava um vasto leque de alegrias e de surpresas. De obscuros perigos também. Pai e mãe nem sempre estavam perto. Mas o anjo da guarda não descuidava. Se preciso, reunia o esquadrão de apoio. Sozinho nem sempre ele dava conta.

Como em Jales (SP), então um vilarejo com meia dúzia de casas. Eu tinha oito anos. Usava calças curtas. Com um colega fui buscar cacos coloridos de vidro no buracão em que a destilaria descartava garrafas quebradas. Chovera e o chão estava liso. Escorreguei e bati o joelho no chão. Levei um corte horrível. Em borbotões o sangue começou a descer pela perna encharcando a botina. Mais pelo susto que pela dor, botei a boca no mundo e rumei para casa. A mãe saiu-me ao encontro, desesperada. O único médico morava a três quadras. Naquela hora pareceu longe como o Cazaquistão. Ele explicou: “Duas veias foram rompidas. Três centímetros acima, você teria perdido o movimento da perna”. Sou grato ao anjo do plantão daquela manhã.

De volta a Polôni (SP), fomos morar no mesmo sítio. Aos onze anos, em companhia de outros meninos, eu ia à escola num cavalo que deixava no quintal da tia Rosa. Para eu voltar, ela apertava a barrigueira do arreio. Eu não tinha força bastante. Um dia, resolvi cumprir eu mesmo a tarefa. Pior: depois fui disputar corrida com um colega, que vivia elogiando sua eguinha baia. Antes dos primeiros cem metros, o mundo virou de cabeça para baixo. Por sorte, era um areão comprido. A areia me encheu boca, olhos, nariz, cabelos, tudo. Comigo preso à barriga, o cavalo deu de saracotear feito um energúmeno. Quando conseguiu se livrar de mim, desembestou. Mané Melo, cavaleiro mais experiente do grupo, saiu em disparada e o trouxe de volta. A essa altura, loros, estribos, coxinilho, baixeiros, arreio, até as rédeas estavam em estado lastimável. Os amigos ajeitaram as coisas como foi possível. Suprema humilhação: voltei na garupa da eguinha baia, puxando meu cavalo por uma corda. Mas o anjo da guarda deu prova de eficiência. Não sofri um arranhão.

Quanto aos bêbados não sei, mas criança, fica provado, goza mesmo de proteção especial.
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Contos e Lendas do Mundo (Vietnã) O Anjo que se Tornou um Búfalo


Quando o planeta Terra foi criado, a terra era vazia. Não havia, plantas, árvores, ou vegetação alguma. O homem tinha uma vida muito dura e mesmo assim, não era capaz de produzir o suficiente para a sua própria alimentação. Às vezes, comia a cada três dias, às vezes, a cada cinco ou seis dias. Estava sempre faminto, embora trabalhasse dia e noite. A verdade é que o homem era digno de piedade.

O Imperador Celeste sentia muito pela dificuldade do homem, e além de desejar prover alimento, também desejava tornar o planeta mais bonito. Então, pensou por algum tempo e fez seu plano. Ele reuniu todos os seus anjos no palácio, e disse:

-   Quem, dentre todos vocês, deseja me ajudar a levar alegria aos homens da Terra, que estão vivendo em terrível dificuldade?

Um dos anjos, chamado Kim Quang, rapidamente se fez voluntário e, com grande interesse, ofereceu concretizar o plano do Imperador Celeste.

Assim, O Imperador Celeste entregou a Kim Quang duas cestas pesadas, presas a ambos os lados de uma vara de bambu. Uma das cestas estava cheia de grãos de arroz e a outra, de grama. O Imperador instruiu Kim Quang a plantar primeiramente todos os grãos de arroz na terra, e o espaço que houvesse ficado vazio, deveria ser cultivado com a grama da outra cesta.

-    Se você fizer exatamente o que lhe disse, eu te recompensarei. Mas, se você desobedecer minha ordem, eu certamente te punirei.

Kim Quang rapidamente concordou com as condições e seguiu em direção à Terra.

Chegando lá, ele plantou toda a grama, que cresceu bela e rapidamente pela superfície da Terra. Quando o anjo distraído se deu conta da ordem que havia recebido, já era tarde demais para reparar o dano, pois havia sobrado uma pequena área de campo para plantar os grãos de arroz.

Descobrindo o que havia acontecido na Terra, o Imperador Celeste irou-se com a incompetência de seu anjo. Então, com seus poderes mágicos, transformou Kim Quang em um búfalo, para que pudesse reparar o solo para o plantio. Ele prometeu ao búfalo que quando ele tivesse removido toda a grama do solo para que este fosse cultivado com alimento, ele poderia voltar aos Céus e tornar-se um anjo novamente.

Mas, aquele dia nunca chegou…

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing