quinta-feira, 18 de junho de 2026

Asas da Poesia * 193 *


Trova Humorística de
MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ

No documento é solteira,
mas vendo a idade da dona,
diz a patroa encrenqueira:
solteira, não, solteirona...
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Poema de
MIGUEL REALE 
São Bento do Sapucaí/SP, 1910 – 2006, São Paulo/SP

Colunas do tempo

Ardem meus pés na turfa da existência,
pés doridos de avanços e recuos,
nem há como atenuar a dor intensa
que é látego de nervos e perguntas.
Sinto-me planta um plátano partido
pés fincados no chão,
estaca lavrada e fria
relegada à beira do caminho.

É o que resta da vida em labirinto
esgalhada em mil aspirações,
vida barroca incerta e retorcida
à sombra de arabescos e ouropéis.
Como as colunas dóricas perduram!
Esguias retilíneas intocáveis
em sua heráldica forma para o alto,
sem frisos ou volutas perturbando
a serena ascensão vertical.

Quem já se lembra dos antigos ritos
à luz do templo - templo eleusínio
na secreta unidade da semente
donde brotam vitórias e derrotas
que são vaidade e cruz da espécie humana?

É tarde, é muito tarde!
Nem há mais púlpito ou monge que o proclame
para que as horas voltem à sua fonte
na comunhão dos homens e dos deuses.
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Trova de
AUGUSTO CÉSAR FERREIRA GIL
Lordelo de Ouro/Portugal, 1873 – 1929, Guarda/Portugal

Riquezas tenhas tão grandes,
e tal bondade também,
que ao redor donde tu andes
não fique pobre ninguém.
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Soneto de
LÊDO IVO
Maceió/AL, 1924 – 2012, Sevilha/Espanha

Soneto de Outubro 

Se mais que a forma e mais que o pensamento
guardado na vigília, sem temor.
Fica no meu olhar, como no amor
verteria teu nome em verso atento.

Sê mais que a forma sempre em movimento
tornada mais humana pela dor.
Fica dormindo em mim, quando eu me for
e te deixar entregue ao desalento.

Sê minha mesmo que eu não te conheça
e te ame sem te ver, sempre te vendo
na forma que jamais fuja ou pereça.

Para tocar-te, eu sempre as mãos estendo
mas não te alcanço, e em minhas mãos transformas
teu corpo imaginário em puras formas. 
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Trova de
PAULO ROBERTO OLIVEIRA CARUSO
Niterói/RJ

Quis comprar felicidade,
mas ela veio vencida,
no prazo de validade
por tantos ais nesta vida. 
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Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Afra

Um sorriso apenas!!!
Seduz-me.
Manda-me para casa.
Alegra o meu dia...
Embriaga-me de desejo.
Derrota-me por fim,
Esvanece-me!

Re-luz na minha treva diária.
Lança-me para luz...
Na minha luta diária!
Derrota-me...
Por fim.

Um sorriso apenas, e nada mais.
Beltia imortal!
Dos meus desejos mais profanos!
Visita-me no meu sonho, mais sagrado...
Na infinitude, de todo o meu ser.
Imperfeito!

Deusa sagrada.
Me da um sorriso apenas,
Evanece-me por fim!
Sorri e me derrota.
Manda-me para casa.
Sozinho e derrotado

Lança-me para minha treva diária.
Para a minha vida vazia.
Derrote-me...
Esvanece-me por fim.
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TROVA POPULAR

Hei de fazer um relógio
de um galhinho de poejo,
para contar os minutos
do tempo que não te vejo.
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Soneto de
BEATRIZ FRANCISCA DE ASSIS BRANDÃO
Vila Rica (atual Ouro Preto)/MG, 1779 – 1868, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

Estas, que o meu Amor vos oferece,
Não tardas produções de fraco engenho,
Amadas Nacionais, sirvam de empenho
A talentos, que o vulgo desconhece.

Um exemplo talvez vos aparece
Em que brilheis nos traços, que desenho:
De excessivo louvor glória não tenho,
E se algum merecer de vós comece.

Raros dotes talvez vivem ocultos,
Que o receio de expor faz ignorados;
Sirvam de guia meus humildes cultos.

Mandei ao Pindo os voos elevados,
E tantos sejam vossos versos cultos,
Que os meus nas trevas fiquem sepultados.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Sempre que um tronco desaba,
sob o machado inclemente,
tarde ou cedo a gente acaba
sentindo a dor que ele sente!
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Poema de
ADÉLIA EINSFELDT
Porto Alegre/RS

Desconhecida

Sou desconhecida
      irreconhecida
entre a multidão.
Minha luz é apagada
Sigo pela estrada
Seguindo trilhas
      caminhos
Perdida estou.
A lua clara
       brilhante
Me acompanha
Todo instante
       intrigante
Andante que sou.
O amanhecer
me pega cansada
Sombras ao longe
Tento reconhecer
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Haicai de
MADÔ MARTINS
Santos/SP

Goiaba madura -
Aberta a competição
entre homens e larvas.
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Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE, 1862 – 1935, Fortaleza/CE

Teu Nome

É bálsamo de amor que os lábios suaviza 
É cântico do céu... encanta, atrai, consola, 
Essência lirial que para Deus se evola, 
É hino de esperança e as dores ameniza. 

Maria! Ao repetir teu nome se matiza 
De bênçãos meu viver que a dor cruel. 
Doce réstia de luz, confortadora esmola 
Da graça e do perdão que as almas sublimiza. 

Permite, oh! Mãe bondosa, oh! Virgem sacrossanta 
De teu nome ideal que a melodia santa, 
Vibrando dentro em mim as horas de amargura, 

Seja a nota eteral, a nota harmoniosa 
Que minha alma murmure, a te fitar ansiosa, 
Estrela que nos guia à pátria da ventura!
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Trova de
SUELY BRAGA
Osório/RS

      Muitas rosas só não falam.
      Não nos ferem com espinhos.
      Um doce perfume exalam
      e nos cobrem de carinhos.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
As trevas se dissiparam 
quando apareceu uma luz 
que todos abençoaram, 
bendito nome... Jesus!
JOSÉ FELDMAN 
Floresta/PR

Glosa:
As trevas se dissiparam 
quando os anjos do Senhor, 
aos homens, anunciaram 
a vinda do Salvador! 

Ao mundo se fez presente, 
quando apareceu uma luz 
nos céus, vinda do Oriente, 
anunciando o Rei Jesus! 

Os homens glorificaram 
a vinda do Deus menino, 
que todos abençoaram, 
pelo seu nascer divino! 

Nasceu numa estrebaria 
pra morrer na rude Cruz; 
só assim nos salvaria: 
bendito nome... Jesus!
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Trova de
CLARINDO BATISTA DE ARAÚJO
Jardim do Piranhas/RN, 1929 – 2010, Natal/RN

Contra o perigo atual
já não há quem se previna
porque, do gênio do mal,
há um clone em cada esquina!
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG

Tributo a Nilton Tuller
(homenagem ao Pastor maringaense)

Há muito ouvi falar de seu talento
Por todos caminhos por onde pisavas.
Ainda agora na cultura em que lavras,
Traze-nos total louvor... Encantamento!

Certo, na vivência e a cada momento,
Nas veredas do altíssimo trilhavas;
Com maestria no manejo das palavras,
Sempre a expor o mais puro sentimento.

Assim em sua missão de fiel e bom pastor,
Em versos, disse ESTOU PRONTO SENHOR,
Daí o reconhecimento de todo povo...

Numa prova de amor santo, verdadeiro,
Deus, como pediste, tal qual o oleiro,
Transformou sua vida, num VASO NOVO!
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Trova de
ROBERTO TCHEPELENTYKY 
São Paulo/SP

Sobre a parreira, o luar 
no sereno te retrata… 
E os teus olhos a brilhar: 
“Duas uvas”… cor de prata… 
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Poema de
CERES DE FERRANTE
Curitiba/PR, 1928 – 2016

Simples Geometria

Caminhamos em busca de um encontro…
Nossas vidas eram apenas paralelas.
A curva de nossos braços
não chegou a completar
seu círculo de ternura…
nem eram perpendiculares
nossos caminhos…
por isso permanecemos
dois pontos no infinito.
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Triverso de
ANTONIO LUIZ LOPES TOUCHÉ
Guarulhos/SP

A paixão revigora, 
Faz o outono primavera 
Na hora. 
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Setilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Pausa na chuva. Gostei.
Aproveitam-se as florinhas
para alegres se exibirem
quais festivas menininhas.
De múltiplas cores elas,
brancas, azuis, amarelas,
auspiciosas rainhas.
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Trova de
ANTONIO SIÉCOLA MOREIRA
Santa Rita do Sapucaí/MG

As paredes que sustentam
meus sonhos, meus ideais,
são tão sólidas que aguentam
os mais fortes vendavais!
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Hino de 
PIRACICABA/ SP

Numa saudade, que punge e mata
Que sorte ingrata longe daqui,
Em um suspiro, triste e sem termo,
vivo no ermo, dês que parti.

Piracicaba que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encantos...
Ninguém compreende a grande dor que sente
o filho ausente a suspirar por ti!

Em outras plagas, que vale a sorte?
Prefiro a morte junto de ti.
Amo teus prados, os horizontes,
o céu e os montes que vejo aqui.

Piracicaba que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encantos...
Ninguém compreende a grande dor que sente
o filho ausente a suspirar por ti!

Só vejo estranhos, meu berço amado,
Tendo ao teu lado o que perdi...
Pouco se importam com teu encanto,
Que eu amo tanto, dês que nasci...

Piracicaba que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encantos...
Ninguém compreende a grande dor que sente
o filho ausente a suspirar por ti!
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Saudade e Amor à Terra Natal
O 'Hino de Piracicaba - SP' é uma ode à cidade de Piracicaba, expressando um profundo sentimento de saudade e amor por essa terra natal. A letra, repleta de emoção, retrata a dor de estar longe de casa e a constante lembrança dos encantos e belezas da cidade. A saudade é descrita como algo que 'punge e mata', uma dor intensa que acompanha o eu lírico desde que partiu de Piracicaba.
A cidade é personificada como um lugar cheio de flores e encantos, um refúgio de beleza e paz que o eu lírico anseia reencontrar. A repetição do estribilho 'Piracicaba que eu adoro tanto, cheia de flores, cheia de encantos...' reforça o amor incondicional e a conexão profunda com a cidade. A letra também destaca a incompreensão dos outros em relação à dor do 'filho ausente', enfatizando a solidão e a saudade que acompanham aqueles que estão longe de sua terra natal.
Além disso, o hino contrasta a vida em outras plagas com a vida em Piracicaba, sugerindo que, apesar das oportunidades e sorte que possam existir em outros lugares, nada se compara ao conforto e à felicidade de estar em casa. A preferência pela morte junto à cidade natal em vez de viver longe dela é uma metáfora poderosa que ilustra a intensidade do amor e da saudade. A letra também critica a indiferença dos 'estranhos' em relação aos encantos de Piracicaba, ressaltando a conexão única e insubstituível que o eu lírico tem com sua cidade de origem. 
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Poetrix de
ANTHERO MONTEIRO
(Antero Manuel Dias Monteiro)
São Paio de Oleiros/Portugal, 1946 – 2022

morte

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga
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Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Ampulheta

Quem se concentra no volume da areia
Que se transporta ao outro lado da ampulheta,
Não sabe olhar a solidão da lua cheia
Nem vê o sangue escorrer da baioneta.
 
Quem se divide entre o sonho e a vida
Encontra tempo entre a dor e a fantasia,
Vê que é real o surgimento da ferida,
Mas faz da vida um motivo de poesia.
 
Quem exercita o amor de forma rara
Em um planeta onde a inveja vira a cara
Para o sucesso de quem crê no ser humano,
 
Sabe que o tempo da ampulheta entorpece,
Porém o tempo do amor sempre enternece
Quem sobrevoa a solidão em outro plano.
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Trova de
ANTONIO COLAVITE FILHO
Santos/SP

As lágrimas das meninas,
 Deus, não podendo contê-las,
 recolhe nas mãos divinas
 e com elas faz estrelas…
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A mosca e a formiga

Uma mosca importuna contendia (discutia)
Com a negra formiga, e lhe dizia:
«Eu ando levantada lá nos ares,
E tu por esse chão sempre a arrastares;
Em palácios estou de grande altura,
Tu debaixo da terra em cova escura.
A minha mesa é rica e delicada;
Tu róis os grãos de trigo e de cevada:
Eu levo boa vida, e tu, formiga,
Andas sempre em trabalho e em fadiga.»

A formiga lhe disse: «Tu me enfadas
Com essas tuas vãs fanfarronadas.
Que te importa que eu ande cá de rastos
Com desprezo das pompas e dos fastos?
Para amparo e abrigo não há prova
De valer mais palácio do que cova.
O palácio é do rei ou da rainha,
E não teu; mas a cova é muito minha;
Eu a fiz com a minha habilidade;
Porventura tens tal capacidade?
Para aqui. Tuas prendas afamadas
Não passam de zunir e dar picadas.
No que toca a comer, os meus bocados
Não me sabem pior que os teus guisados.
Teus lhe chamo? — os que furtas; nesta parte
Vais comigo, que eu uso da mesma arte;
Porém não vivo em ócio e em preguiça,
Como tu, lambareira, metediça;
Por isso te aborrecem e te enxotam
Com uma raiva tal, que ao chão te botam.
Fazem-me porventura esse agasalho?
Louvam-me em diligência e em trabalho:
Eu faço para inverno provimento;
Morres nele — ou por falta de alimento,
Ou por vir sobre ti algum nordeste,
Que para a tua casta é uma peste.»
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Mensagem na Garrafa 188 = Eu pedi a Deus


AUTOR ANÔNIMO

Eu pedi a Deus que tirasse meu orgulho.
E Deus disse não! 
Não Lhe cabia tirá-lo, mas a mim deixá-lo...

Eu pedi a Deus que me desse paciência.
E Deus disse não! 
Ele disse que a paciência nasce das atribulações;
Ela não é concedida, é merecida...

Eu pedi a Deus que me concedesse felicidade.
E Deus disse não! 
Ele disse que me daria Suas bênçãos; 
A felicidade viria de mim mesmo...

Eu pedi a Deus que me poupasse do sofrimento.
E Deus disse não!
Ele disse que a dor afasta-me das ilusões da vida e leva-me para mais perto d'Ele...

Eu pedi a Deus que me fizesse crescer minha vida espiritual.
E Deus disse não!
Ele me disse que eu deveria crescer sozinho, mas Ele vai podar-me como um ramo, para que produza frutos...

Eu perguntei a Deus se Ele me ama.
E Deus disse sim!
Ele deu-me Seu Único Filho, que morreu por mim
E quer-me um dia no céu, pela minha Fé...

Então, pedi a Deus que me ajudasse a amar os outros como Ele me ama.
E Deus disse:
"Finalmente compreendeste!"

José Feldman (O Ladrão que entrou pelo cano)


Era uma noite de terça-feira, chuvosa e escura — o cenário perfeito para quem quer agir sem ser visto. Pedro, um ladrão de meia-tigela que já tinha errado mais alvos do que acertado, escalou o muro da casa dos Silva com uma mochila velha e um plano que cabia na palma da mão: entrar, pegar o que fosse fácil e sair antes que alguém percebesse.

Ele arrombou uma janela dos fundos com uma chave de fenda que tinha achado na rua, entrou devagar e ficou parado no escuro, ouvindo. Nenhum barulho. Sorriu, achando que dessa vez ia dar certo. Mas mal tinha dado dois passos, acendeu-se a luz da cozinha, e Dona Marisa apareceu de pijama, com um pente na mão e um olhar de quem esperava por alguém.

— Finalmente! — exclamou ela, sem dar tempo de ele falar nada. — Já estava pensando que você não vinha mais. O cano da cozinha está vazando desde ontem à tarde, e a água já molhou metade do armário.

Pedro ficou parado, com a boca aberta, sem saber o que dizer. Ele vestia uma calça jeans surrada, uma camisa velha e tinha a mochila nas costas — nada que lembrasse um encanador. Mas Dona Marisa não deu espaço para dúvidas.

— O que é esse silêncio? Vamos, vamos, o problema é aqui mesmo — puxou ele pelo braço até a pia, apontando para um cano que realmente pingava devagar. — E por que você está com essa mochila? Não trouxe as ferramentas?

O ladrão, completamente perdido, resolveu seguir o jogo. Quem sabe assim não conseguia sair de lá sem problemas?

— Ah… é que… as ferramentas estão… aqui dentro — respondeu, com a voz enrolada, batendo na mochila. — Eu só… cheguei um pouco atrasado porque tinha outro serviço antes.

— Pois devia ter avisado — resmungou ela, mas já saiu andando. — Vou chamar o Carlos, ele quer ver como você faz o serviço.

Pedro suou frio. Meu Deus, o que eu fiz?, pensou. Mas antes que pudesse fugir, apareceu Carlos, de chinelos e um copo de café na mão, olhando para ele com curiosidade.

— Então é você o encanador? — perguntou ele, analisando o ladrão da cabeça aos pés. — Parece mais um… bem, não importa. Você sabe arrumar esse cano, não sabe?

— Claro que sei! — mentiu o Pedro, tentando parecer confiante. — É só… apertar umas coisas, trocar umas peças… coisa simples.

Abriu a mochila, desesperado para achar alguma coisa que parecesse útil. Tirou uma lanterna, um alicate velho, um pedaço de corda e até um parafuso que tinha achado na rua. Os dois olharam para aquilo tudo com cara de estranhamento.

— Que tipo de ferramentas são essas? — perguntou Dona Marisa, franzindo a testa.

— É… ferramentas especiais! — inventou ele na hora. — Só uso para serviços mais difíceis. Esse cano aí é um modelo antigo, precisa de técnica especial.

Carlos assentiu, como se entendesse tudo.

— Ah, sim, modelos antigos são complicados mesmo. Uma vez tentei arrumar um e quase quebrei a pia toda.

Pedro respirou aliviado e começou a mexer no cano, sem ideia do que estava fazendo. Torceu uma peça aqui, empurrou outra ali… até que, de repente, o cano se soltou de vez, e um jato de água saiu com força, acertando ele bem no rosto.

— AI, MEU DEUS! — gritou ele, pulando para trás, todo molhado.

Dona Marisa deu um grito também.

— O que foi que você fez? Agora está pior do que antes! Meu Deus! É o apocalipse hidráulico! — ela berrou.

— Foi… foi um acidente! — tentou explicar, limpando o rosto com a manga. — É que… a peça estava mais solta do que parecia. Deixa eu consertar rápido.

Ele tentou segurar o cano de novo, mas na pressa, bateu o cotovelo no tubo ao lado, que também começou a vazar. Agora eram dois jatos de água, molhando tudo: o chão, os armários, as paredes e o próprio ladrão.

Carlos já estava com a mão na cabeça.

— Rapaz, você sabe o que está fazendo ou não? Parece que está destruindo a casa, não arrumando!

— Claro que sei! É só… ajustar a pressão! — falou o Pedro, já todo molhado e com o coração disparado. — É um método novo, vocês não conhecem.

Nesse momento, apareceu a filha do casal, Luísa, de oito anos, que tinha acordado com o barulho. Ela olhou para o homem todo molhado, com ferramentas estranhas na mão e cara de quem não entendia nada, e perguntou bem alto:

— Mamãe, esse homem não é um ladrão? Ele parece muito com o ladrão que vi na televisão semana passada!

O coração do Pedro quase parou. Agora acabou, pensou, pronto para correr. Mas Dona Marisa apenas riu.

— Que ideia é essa, Luísa? Esse é o encanador, veio arrumar os canos. Ladrão não vem com ferramentas, nem fica consertando coisa na casa dos outros.

Carlos concordou.

— É mesmo, filha. E esse daqui é só… um pouco desastrado, só isso.

Pedro sentiu um alívio tão grande que quase caiu sentado. Mas o problema não tinha acabado. Ao tentar tampar um dos canos com o alicate, ele escorregou no chão molhado, bateu com a cabeça na pia e, ao se levantar sem querer, puxou um fio que estava solto — e de repente, toda a luz da cozinha apagou.

— Agora acabou a luz também! — gritou Carlos, batendo o pé no chão. — Que serviço é esse, meu filho? Primeiro os canos, agora a energia!

No escuro total, Pedro já não sabia onde era a porta, onde era a janela, nem o que fazer. Ouvia os dois reclamando, a menina perguntando o que tinha acontecido, a água pingando e escorrendo pelo chão. Ele estava todo molhado, com dor na cabeça, confuso, com medo de ser descoberto e achando que tudo aquilo era uma punição por ter tentado roubar.

— Eu… eu acho que preciso de mais peças! — gritou ele, já andando às cegas em direção à porta da cozinha. — Vou buscar na loja e já volto!

— Espera, não vai não terminar o serviço? — gritou Dona Marisa, mas ele já tinha saído correndo, tropeçando em tudo o que via pela frente.

Ele largou tudo, correu pelo corredor pisando em falso, desceu as escadas rolando os últimos quatro degraus, passou pela sala, bateu num sofá, esbarrou numa mesa, abriu a porta da frente e saiu disparado pela rua, na chuva, no escuro, sem olhar para trás.

Dentro da casa, Carlos acendeu uma lanterna e olhou para a bagunça toda: água por todo lado, canos soltos, fios pendurados.

— Que encanador mais atrapalhado, meu Deus! — disse ele, balançando a cabeça. — Nunca vi um que fizesse tanta confusão.

Dona Marisa limpou a água do balcão.

— Pois é. Mas pelo menos ele foi embora rápido. Amanhã chamamos outro, um que saiba o que está fazendo.

E o Pedro? Dali em diante, sempre que passava na frente daquela casa, ele cruzava a rua, com medo até de ser confundido de novo — e jurava para si mesmo que nunca mais iria mexer em canos, afinal quase entrou pelo cano.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca.
Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Ele residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Ele é o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, na Romênia.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Arthur Thomaz (Um dia na vida de Romildo, o Desastrildo)


Romildo, cujo apelido entre os amigos e familiares era Desastrildo, trabalhava como marceneiro em uma pequena construtora. 

Ao toque do despertador, não conteve o ímpeto de quebrar o aparelho, xingando a segunda-feira. Um dos pedaços do despertador atingiu a testa da esposa.

Ouviu a lamúria dela.

– Romildo, você continua o mesmo trapalhão.

Apressado, queimou a boca com o café quente demais. Muita demora no ponto de ônibus, e teve que embarcar em um coletivo lotado. Ficou colado a uma moça, que parecia ter tomado um banho com um perfume de discutível qualidade, e que o deixou impregnado com aquele cheiro nauseabundo o dia inteiro.

Nisso, a ponta da sombrinha de uma velhinha que estava atrás dele cutucou suas costas. Irritado, deu um safanão sem olhar, quase derrubando a senhora, que teve de ser amparada pelos outros passageiros.

A idosa xingou-o com todos os palavrões que conhecia, desferindo-lhe golpes com a sombrinha, o que o obrigou a descer em um ponto anterior ao seu destino. Chegou atrasado ao serviço, ouvindo um palavrão do patrão.

Devolveu o palavrão, mas só mentalmente. Na hora do almoço, ao abrir a marmita, ela escorregou das mãos, derrubando toda a comida no chão. À tarde, chateado e com fome, distraiu-se e deu uma martelada no próprio dedo. Teve que continuar trabalhando assim até o fim do expediente.

Para relaxar dos problemas do dia, Romildo foi até o “buteco” tomar algumas bebidas e conversar com os amigos habituais. Um deles disse:

– Romildo Desastrildo, seja bem-vindo, mas tome cuidado com as suas trapalhadas.

Todos riram, inclusive Romildo, que, cansado, sentou-se à mesa dos amigos e pediu uma dose de cachaça para brindar com eles. Ao primeiro gole, engasgou e foi ajudado pelos companheiros, recuperando-se. Com voz rouca, disse:

– É melhor eu ir para casa, chega de confusão por hoje.

Todos ao redor riram e concordaram. Chegando em casa, ao fechar o portão, prendeu, sem querer, o rabo do cachorrinho que veio contente recebê-lo. Ouviu lá de dentro o palavrão com que a esposa o brindou.

Ressabiado, entrou em casa, já sabendo que as reprimendas da mulher continuariam por muito tempo, e que a comida do jantar não seria esquentada por ela. Muito cansado, foi para a cama e, na hora em que estava quase adormecendo, os pés frios da esposa encostaram nele.

Pensou:

– Será que nem aqui eu terei paz?

A resposta veio logo a seguir. Para culminar, a esposa insinuou-se desejando um ato de amor. Esgotado, ele fingiu estar dormindo profundamente, mas ela insistiu até conseguir seu intento.

No dia seguinte, Romildo Desastrildo acordou extremamente cansado, antevendo mais um dia repleto de catástrofes. Levantou-se, pisou no cachorro que dormia ao lado da cama e assim iniciou seu dia…
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.