segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Zaé Júnior (Tertúlia da Saudade)

 

1
Ao cumprir o meu dever
de filho, de pai, de irmão,
aprendi que compreender
vale mais que ter razão!
2
A ternura que deixaste,
pai, qual herança tão nobre,
deixou-me na alma o contraste
de ser rico... sendo pobre!
3
Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
4
Cansado, mas com coragem
de continuar a jornada,
a vida é a minha bagagem,
que vou deixando na estrada!
5
Com pena das minhas penas,
tais penas o assum levou,
e apenas penas pequenas
das próprias penas deixou!
6
Copiando os astros distantes,
o sereno, em seus desvelos,
pousa estrelas de diamantes
na noite de teus cabelos!
7
Depois da chuva inclemente,
levando um pássaro morto,
o ninho, na água corrente,
é nau fantasma e sem porto!
8
Depois do amor sem censura,
nossos agrados sutis,
dizem coisas de ternura
que a nossa boca não diz!
9
Dividindo, sem paixão,
tudo o que nos pertenceu,
levaste o teu coração,
mas não me deixaste o meu!
10
Do teu perfil, na verdade,
só podes ver um pedaço,
pois para a tua vaidade,
o espelho tem pouco espaço!
11
Em frente à perfumaria,
enquanto o ônibus espera,
pergunta o cego ao seu guia:
- Já chegou a primavera?
12
Em silêncio vejo pura,
disfarçada em teu olhar,
a lágrima de ternura
que não querias chorar!
13
E quando o inverno chegar,
saudosos, em seus desvelos,
meus dedos irão esquiar
na neve dos teus cabelos!
14
Fiz da vida um labirinto,
do qual, se eu tento escapar,
quanto mais fujo, mais sinto
que estou no mesmo lugar!
15
Há quem renove a esperança
e com promessas se iluda...
mas o Ano Novo é mudança,
que em verdade nada muda!
16
Herói, que vence o cansaço
da vida em rude batalha,
tem no peito um marca-passo,
sua invisível medalha!
17
Lembra? Eu brincava de Rei,
você... de escrava brincava;
do meu sonho hoje acordei,
escravo de minha escrava!
18
Manhã... a geada caindo...
Mas se do inverno estou farto,
beijo os teus olhos se abrindo
e é primavera em meu quarto!
19
Meu barraco, sem queixume,
fiz com redes de cipós...
mas a vida, com ciúme,
um a um desfez os nós!
20
Meu cirquinho no quintal
era um circo de verdade;
na infância, não tinha igual
nem tem igual na saudade!
21
Meu pai, a tua bondade,
que nos deu pão na pobreza,
é agora a farta saudade
que se serve em nossa mesa!
22
Meu reino é um casebre antigo
onde um sol, sem majestade,
vem, de cócoras comigo,
aquecer minha saudade!
23
Na Academia onde moram,
em sussurrante coral,
os imortais também choram
a morte de um imortal!
24
Na existência dividida
pela incompreensão da idade,
se não te encontrei em vida,
te encontro, pai, na saudade!
25
Na infância a gente brincava,
eu de sol, você de lua...
e o universo começava
e acabava em nossa rua!
26
Não me agrada a falsa glória
que o jogo da vida tem,
pois sei que toda vitória
sempre é derrota de alguém!
27
Não queiras cobrar com sangue
o mal que te machucou,
pois o mal é um bumerangue
que volta à mão que atirou!
28
Na penumbra, sobre a toalha,
vultos que a vela produz
mostram que a sombra não falha,
por menor que seja a luz!
29
No meu palco de ilusão,
quando se fecha a cortina,
ao terminar a sessão,
a ilusão nunca termina!
30
No princípio, a solidão,
mas tu voltaste... e depois,
não coube em meu coração,
o que restou de nós dois!
31
O atalho me leva à ermida,
a ermida me leva a Deus;
e Deus me leva à outra vida,
que a levou dos olhos meus!
32
O bonde rangeu nos trilhos,
meu pai desceu, não sei onde...
Seguimos, a mãe e os filhos,
sozinhos no mesmo bonde!
33
O chão não é de ninguém
nem do seu "dono", um instante;
do chão os homens só têm
sete palmos... e é o bastante!
34
O meu sonho é um passarinho,
que de voar ficou farto
e acabou fazendo o ninho
na janela do meu quarto!
35
O poeta mais que o soldado,
se quiser ser vencedor,
terá que amar, ser amado,
e só perder por amor!
36
O tempo é como a caverna,
que não tem volta nem fundo,
onde a vida, que é eterna,
dura apenas um segundo!
37
Ouço a melodia amena,
que vem do cosmos disperso
e minha alma, tão pequena,
ganha amplidão de universo!
38
Plantando a vida se cansa...
e o caboclo, sem espaço,
colhe tão pouca esperança,
que não vale o seu cansaço!
39
Quando a saudade é saudade,
saudade que faz penar,
saudade é felicidade
que se foi e quer voltar!
40
Quando a seresta termina
sob o lampião do jardim,
a solidão, em surdina,
toca apenas para mim!
41
Quem perde o tempo não sabe
que perde a vida também,
pois jamais a vida cabe
no tempo que a gente tem!
42
Queres ferir-me gritando,
mas em soluços aflitos,
os teus murmúrios chorando
me ferem mais que teus gritos!
43
Sagrado seja esse chão
no qual rezando, o roceiro
planta o próprio coração,
para a fome do ano inteiro!
44
Se descobrir é preciso,
mais preciso é navegar;
"Terra à vista"... e um paraíso
floresceu além do mar!
45
Sem abrigo, ao vento forte,
sem jardim e sem escolha,
sou frágil trevo sem sorte
à espera da quarta folha!
46
Sem família, na orfandade,
aprendi triste lição;
quanto mais dói a saudade,
menos dói a solidão!
47
Sem fronteiras, num só laço,
os homens são mais felizes,
pois a Terra, lá do espaço,
não se divide em países!
48
Seu regresso foi surpresa,
pois já ninguém o esperava;
nem sentou... tinha outro à mesa,
na cadeira em que sentava!
49
Teu olhar azul celeste
só sabia dizer não;
tantos não azuis disseste,
que azul virou poluição!
50
Vovó, desfiando o rosário
das peraltices que fez,
foi zerando o calendário,
virou criança outra vez!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Zaé Júnior (1928 – 2020)
ZAÉ MARIANO CARVALHO DO NASCIMENTO JÚNIOR foi um intelectual múltiplo e fascinante: publicitário, radialista, jornalista, roteirista de cinema e TV, músico, desenhista e, acima de tudo, um dos mais reverenciados trovadores e poetas da língua portuguesa no século XX. Nasceu em 1928, em Botucatu/S e faleceu em 2020, em São Paulo/SP, aos 92 anos de idade, após enfrentar as complicações do Mal de Alzheimer. ‘Embora guardasse imenso orgulho de suas raízes botucatuenses e se autodeclarasse um "bom caipira", ele mudou-se para a capital paulista ainda na infância, na década de 1930, onde residiu e trabalhou pelo resto de sua vida. Começou a trabalhar aos 14 anos como desenhista técnico de letras miúdas na antiga Serviços Hollerith. Logo depois, passou a desenhar histórias em quadrinhos e caricaturas para revistas de circulação paulista. Teve uma carreira gigantesca na era de ouro das telecomunicações brasileiras. Trabalhou nas lendárias Rádio Cosmos e Rádio Gazeta. No rádio e na televisão, destacou-se como diretor de programação e roteirista. É dele, por exemplo, o roteiro da celebrada telenovela A Deusa Vencida (escrita originalmente por Ivani Ribeiro). Foi o fundador e principal mente criativa da renomada agência Promark Propaganda e Marketing.
Iniciou-se na poesia formal logo aos 10 anos de idade, exercitando a feitura de sonetos "a quatro mãos" ao lado de seu pai. Ingressou no auge do movimento de consolidação da trova no país. Ele ficou conhecido pela sua extraordinária agilidade mental e pelo rigor métrico intocável de suas composições. Além de escrever, era músico autodidata (tocava violão e piano), fundindo frequentemente o ritmo musical à cadência rítmica de seus versos. É um dos poetas mais vitoriosos em Jogos Florais pelo Brasil. Venceu e foi classificado dezenas de vezes nos principais certames nacionais, como os tradicionais Jogos Florais de Nova Friburgo, Taubaté e Pouso Alegre. Livros Publicados: Entre ensaios, poesias e compilações, destaca-se sua celebrada obra: O Homem e seu Quintal; 1001 Trovas de Zaé Júnior.
A importância de Zaé Júnior reside no fato de ele ser o "trovador dos trovadores" Quebrou o estigma de que a trova servia apenas para o gracejo ou para o romantismo ingênuo. Zaé colocou dilemas existenciais profundos, angústias urbanas e metalinguagem poética na rígida redondilha maior, criando verdadeiras obras-primas da síntese poética. Unindo sua atuação literária à sua relevância na rádio e na TV paulista, ele ajudou a moldar os padrões narrativos da comunicação nacional, sem nunca deixar morrer a tradição clássica da poesia com forma fixa. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet) 

Monsenhor Orivaldo Robles (Crônica por encargo)


“Por tradição, a crônica é um gênero jornalístico. Está ligada ao jornal, à revista, à imprensa, seja diária, semanal ou mensal. A crônica é uma atividade sistemática. O Rubem Braga – que todo mundo cita até sem ler e muitos apenas leem sem citar – disse certa vez que a crônica é uma moléstia. Uma moléstia não é gripe, enxaqueca, fratura de tíbia ou tosse comprida. Moléstia é sinusite, tuberculose, gota, bico-de-papagaio. O sujeito acorda e vai dormir com ela. A crônica é isso: a obrigatoriedade do cartão de ponto. Como nenhum jornal aceita cronista que promete mandar matéria quando achar um bom assunto, é mais ou menos compreensível que a crônica, sendo assídua, aproveite os sonhos, o faz-de-conta, a inspiração do cronista. Na televisão – muito mais rara e menos definida – e no rádio a crônica pode ser substituída por imagens e música, sem que as pessoas reclamem e mudem de emissora. Na imprensa, o cronista costuma ser aguardado pelo leitor e tem o ar de ser estimado pelo dono do jornal, sem nem mesmo conhecê-lo pessoalmente. Mas convém ter cuidados: não pode ser enfadonho, prolixo, repetitivo ou professoral. O cronista precisa fingir que faz crônicas por divertimento e que trabalha por não ter o que fazer”.

O texto é uma das pérolas de Lourenço Diaféria (1933-2008) em entrevista de 2000. Tinha da crônica opinião modesta: “No jornal, a crônica é o intervalo do grande espetáculo. Não resolve nada (…). Só serve para dar um tempo de o sujeito ir lá fora, comprar amendoim, tomar café, espreguiçar-se. Talvez até seja uma inutilidade”. Católico praticante, escreveu em vários jornais de São Paulo. Com ele me correspondi brevemente nos anos 70. Lia-o toda semana na Folha de São Paulo. Mandou-me autografado seu livro, “Um Gato na Terra do Tamborim”, que as muitas mudanças e meu pouco cuidado fizeram-me perder. Para conhecer o Diaféria cronista, basta teclar no Google “Herói. Morto. Nós”. É sua crônica mais conhecida. Que, nos anos de chumbo, lhe valeu dois anos de prisão. Foi acusado de fazer pouco do duque de Caxias, patrono do exército. Bobagem. Ele apenas exaltou o sargento Sílvio Hollenbach que, no Jardim Zoológico de Brasília, se lançou no fosso das ariranhas, para salvar um garoto por infelicidade lá caído. Passeava com a esposa e os 4 filhos pequenos. Salvou o menino. Atacado pelos bichos, morreu de infecção, dias depois.

Por mim, Diaféria ombreia com nossos cronistas da melhor estirpe. Com Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Lya Luft, Rubem Alves, Luís Fernando Veríssimo, Frei Betto, Cony… Fez-me recordar a humilde crônica que, lá em 1958, publiquei numa revista. Reacendeu-me o gosto pelo gênero que presunçosamente teimo ainda em rabiscar. Vez por outra cometo algo razoável. Tenho autocrítica. Falta-me dom para coisas de requintado valor. Mas sigo aqui, bamburrando em garimpo exaurido. Há tempo, o programa “A Praça é Nossa” apresentava o personagem Paulinho Gogó, com o bordão: “Quem não tem dinheiro conta história”. É um pouco o que faço. Na falta de maior talento, conto histórias.

A forma como as recebem varia bastante. Há os que apreciam. Outros são amáveis: percebem que escrevo tirando leite de pedra. Também existe quem imagina que a gente escreve por falta do que fazer. Fazer o que, né?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Monsenhor Orivaldo Robles (1941 – 2019)
Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.

Fontes:
Portal do Ângelo Rigon. 30/06/2012
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.

Adega de Versos 148

 

Contos e Lendas do Mundo (Finlândia) A Jovem do Mar Vermelho

Era uma vez uma abastada casa de campo em que vivia um camponês com os seus três filhos. Acontecia que, cada vez que ele acabava de proceder à sementeira da Primavera, surgia uma noite de tempestade estival que destruía tudo. E assim sucedeu ao longo de doze anos consecutivos. Finalmente, cansou-se da situação repetitiva e decidiu:
— Vou parar de semear. De qualquer modo, nunca obtenho nada em troca.

O filho mais velho pediu-lhe então que o deixasse cultivar as terras e obteve autorização.
Assim, o jovem adubou o campo e semeou-o. Mas surgiu a noite da tempestade estival e repetiu-se tudo o que costumava acontecer ao velho agricultor.
Na Primavera seguinte, o filho do meio pediu ao pai que o deixasse tentar a sorte. Obtida autorização, trabalhou as terras e procedeu à sementeira. Quando calculou que chegara a noite da tempestade, ficou de vigília. À meia-noite, desencadeou-se um temporal tão furioso que derrubou todas as arvores do bosque. Ele entrou a seguir na casa de banho e depois foi deitar-se. Quando de manhã se levantou, a destruição era tão absoluta como nas vezes anteriores.
Ao chegar de novo a Primavera, o filho mais jovem pediu ao pai que o deixasse também experimentar, mas este último hesitava em o autorizar.
— A única coisa que se consegue é acumular desgraça sobre desgraça!

No entanto, acabou por ceder. Chegada a noite da tempestade, o rapaz ficou de vigília e, quando se aproximava, dirigiu-se a uma ponte que havia no meio da propriedade e deitou-se por baixo.
Pouco depois, três pássaros pousaram nela e, de súbito, transformaram-se em donzelas, que se despiram e atiraram as roupas ao chão. Uma delas adiantou-se até às terras e começou a pisar a sementeira, imitada prontamente pelas outras duas. 
Naquele momento, o rapaz surgiu de debaixo da ponte e apoderou-se da roupa. Duas regressaram imediatamente e conseguiram arrancar-lhe as suas das mãos, mas a terceira, que não teve tanta sorte, ficou ali. Aproximou-se então do rapaz e perguntou:
— Que será de mim, se me impedires de partir?
— Não te deixo ir com essa facilidade. Primeiro, terás de pagar ao meu pai a colheita de dez anos e a cada um dos meus irmãos a de um Verão.
— Com quê, se não tenho nada?

E, como não tinha coisa alguma para oferecer, ela sugeriu que a desposasse. Quando ele concordou, entregou-lhe um anel e disse:
— Coloca-o no dedo. Indica que estou comprometida contigo.

O rapaz soltou-a e ficou combinado que ele se encarregaria dos preparativos e ela compareceria a uma hora previamente determinada. O jovem mandou publicar os banhos e, na data estabelecida, os convidados compareceram para aguardar a noiva, mas como não aparecia, o rapaz principiou a preocupar-se. Quando soaram as badaladas do meio-dia, a sua ansiedade acentuou-se. Pouco depois, ouviu um ruído estranho e ela surgiu finalmente numa carruagem puxada por muitos cavalos cinzentos.
A boda foi celebrada com um lauto banquete e o troar de canhões. O rei, que vivia no palácio próximo, enviou um serviçal incumbido de perguntar:
— Porque estão a disparar sem o meu conhecimento?

O homem reapareceu e informou:
— Celebram um casamento. O filho do nosso vizinho uniu-se a uma mulher muito linda.

O monarca decidiu ir ver a noiva e ficou de tal modo deslumbrado com a sua beleza que disse ao noivo:
— Já que conseguiste uma mulher tão maravilhosa, esta noite terás de derrubar todo um bosque de carvalhos.
O jovem ficou apavorado com a ordem e perguntou-se: "Como posso executar esse trabalho gigantesco?" E lamentou-se à esposa:
— Como conseguirei uma coisa dessas?
— Não te preocupes! — aconselhou ela, com desprendimento.

Pediu a uma serviçal que, quando badalasse a meia-noite, mandasse aparelhar o melhor cavalo e o trouxesse para junto da entrada. Em seguida, indicou ao marido:
— Monta o cavalo e dirige-te a galope ao bosque de carvalhos do rei. — Entregou-lhe um pequeno machado e acrescentou: — Quando derrubares o carvalho mais baixo, dirás: "Que caiam todos os carvalhos, juntamente com este!"

Ele assim fez e as árvores foram todas abatidas. Por fim, tornou a montar o cavalo e regressou à casa.
— Como correram as coisas? — quis saber a esposa.
— Estão todas as árvores derrubadas.

Na manhã seguinte, apareceu o rei, que declarou:
— Já que és tão forte, deves erguer todas outra vez.

Ao ouvir estas palavras, o jovem voltou a ficar apreensivo.
— Como conseguirei cumprir uma ordem destas?

Mas a esposa recomendou-lhe:
— Não te preocupes, que isso se fará num abrir e fechar de olhos.

À meia-noite, uma serviçal foi acordá-los.
— Está na hora...

O cavalo já aguardava à entrada, e a esposa recomendou ao marido:
— Quando entrares no bosque, ergue o carvalho mais pequeno e diz: "Eu levanto este, e os outros que se levantem por si!"

Ele assim fez e, com efeito, todos os carvalhos se ergueram de novo. Em seguida, regressou a casa, e a esposa perguntou-lhe:
— Como correram as coisas?
— Todas as árvores estão novamente de pé!

Depois, o rei determinou que procurasse as chaves do seu palácio, as quais se tinham extraviado na época do seu avô.
— Como és tão forte, aposto que não há tarefas impossíveis para ti.

O jovem, convencido de que estava mais uma vez em apuros, comunicou à esposa:
— Agora, quer que encontre as chaves do palácio, perdidas no tempo do seu avê.
— Não te preocupes, que hão de aparecer — assegurou-lhe ela. — Monta-te no cavalo, de manhã cedo, que te conduzirá a uma igreja, cujas portas se abrirão espontaneamente. Entras, pegas nas chaves que estão penduradas na parede ao fundo e, ao saíres, não deves olhar para trás.

Ele cavalgou até a igreja no cavalo, recolheu as chaves e preparou-se para sair. Naquele momento, o espírito protetor do templo gritou:
- Que fizeste, jovem? Pegaste em alguma coisa! Para!

Ele deu meia-volta... e o cavalo atirou-o ao chão.
O molho das chaves soltou-se-lhe da mão na direção do cavalo e prendeu-se num dos cascos. O animal recolheu-o com os dentes e levou-o à dona, a qual as apresentou ao rei, com as palavras:
— Que terá sucedido ao meu marido, com as coisas que lhe mandas fazer? É muito possível que tenha acontecido uma desgraça.
— Não te preocupes — recomendou o monarca. — Uma mulher como tu não tem dificuldade em conseguir outro marido.

Não obstante, ela esperou o seu regresso durante um ano.
Esgotado esse lapso de tempo, o rei ordenou imperiosamente que o desposasse. Ela não teve outro remédio senão acompanhá-lo à igreja, mas primeiro explicou à serviçal:
— Não acredito que o meu marido volte, mas o que te vou dizer é para o caso de reaparecer. Quando chegar à igreja virá a voar. Repara em que direção segue e diz-lhe que vivo para além do mar negro e do mar branco, num palácio submerso no mar vermelho. Em todo o caso, não poderá chegar lá, de maneira alguma.

Enquanto o jovem se arrastava penosamente ate lá, passou diante de uma igreja, em cujo adro havia três homens, que lhe gritaram:
— Não sigas em frente e vem cá!

Acercou-se e viu que tinham três coisas que queriam repartir. eram idosos e haviam levado toda a vida ocupados com aquela distribuição, mas ainda não tinham conseguido pôr-se de acordo e pediram ao jovem:
— Reparte estas três coisas entre nós.

Referiam-se a um chapéu, um par de botas e uma espada. O jovem pegou no primeiro e perguntou:
— Que se pode fazer com isto?
— Se o puseres na cabeça, ninguém te verá.

Pôs-o imediatamente e perguntou:
— Veem-me, agora?

A resposta foi unânime:
-Não!

Quando quis saber o que se podia fazer com as botas, informaram-no:
— Numa única passada, podes chegar até onde a tua vista alcança.
— E com a espada?
— Utiliza-se na guerra. Se a empunhares, tombarão todos os teus inimigos.

Num abrir e fechar de olhos, calçou as botas e chegou a voar no momento em que a esposa entrava na igreja. Quando saiu, ela perguntou à serviçal que rumo seguira.
Tinha-se escoado algum tempo desde que ele empreendera o voo para leste. Chegara a uma casa nova, fizera-se passar por tratador de cavalos e deitara-se para dormir atrás da mesa. Entretanto, o hospedeiro e a hospedeira colocaram sobre a mesa comida deliciosa, e o primeiro observou:
— Eu convidava o forasteiro a fazer-nos companhia, mas talvez não lhe apeteça comer.

O forasteiro ouviu o que diziam. O hospedeiro chegou junto dele e, sacudindo-o, disse-lhe:
— Levanta-te, hóspede, e vem comer!

Então, ele levantou-se e exclamou:
— Mas que mesa tão bem servida!

O hospedeiro e a esposa acharam muita graça.
Apos o jantar, dormiram toda a noite sem interrupção. Na manhã seguinte, o hospedeiro tratou-o ainda mais cordialmente e mostrou-lhe os seus armazéns. Começou por um cheio de cobre e disse:
— Agora, vamos ver outro.

Este encontrava-se cheio de prata.
Quanto ao terceiro, abarrotado de ouro. Todavia, quando o abandonavam, o hospedeiro olhou em volta e bradou:
— Onde se terá o homem metido?

O jovem pusera o chapéu e enchera a mochila de ouro. O outro fartou-se de o procurar, sem resultado, e terminou por se perguntar de novo:
— Onde demônio se terá metido?

Percebeu então de que faltava uma quantidade de ouro considerável e reconheceu:
— Devia tratar-se de um ladrão, apesar de se fazer passar por tratador de cavalos.

Entretanto, o fugitivo já percorrera uma grande distância através dos campos. Quando tirou o chapéu, o hospedeiro avistou-o e exclamou:
— Lá vai o bandido!

No entanto, o jovem continuou a afastar-se rapidamente, à procura da esposa. Depois de caminhar durante um dia inteiro, chegou ao mar branco. Percorreu então as duas margens e viu uma casa em que vivia uma rapariga que aquecia o quarto e lhe perguntou:
— Para onde queres ir?

Não sem notar que ela tinha um nariz que media seguramente vinte centímetros, respondeu que pretendia chegar ao outro lado do mar.
— Posso levar-te lá no meu barco, mas ficarei com uma das tuas mãos, como forma de pagamento. 
— Não preferes que te pague em ouro? — perguntou ele. — Tenho a mochila cheia.
— Não, não quero.

A jovem insistiu em que queria a mão antes de empreender a travessia, mas ele solicitou:
— Deixa-ma conservar durante o percurso, para tomar conta do leme, enquanto remas.

Os remos tinham cinquenta braças de comprimento e, depois de se internarem no mar durante algum tempo, os dois passageiros avistaram o outro lado. O jovem pôs então o chapéu e desembarcou, enquanto ela, furiosa, o procurava por todos os lados.
— Onde se terá ele metido? Afinal, não me deu nada: nem o ouro, nem a mão!

O rapaz percorreu a margem do mar negro, até que se lhe deparou outra casa em que vivia uma jovem. Aproximou-se e disse-lhe:
— A tua irmã, que me trouxe do outro lado do mar branco no seu barco, pediu-me que te transmitisse cumprimentos.

Ao ouvir isto, ela vociferou, enfurecida:
— Como é possível que o fizesse sem ficar sequer com uma das tuas mãos como pagamento?

Ele abriu a mochila e explicou:
— Paguei-lhe com ouro, mas ainda me resta muito.

Ela ficou ainda mais furiosa.
— Não o devia ter feito por ouro! 

Quando o jovem lhe pediu que o levasse ao outro lado do mar negro, assentiu. 
— Está bem, mas com a condição de ficar com as tuas mãos. 

Encaminharam-se para a beira-mar, e ela indicou: — Traga-as aqui, para que as corte.
— Deixa-me conserva-las durante a viagem, para poder tomar conta do leme. Quando chegarmos, poderás então cortá-las.
— Está bem. Assim farei.

Quando se acercaram do outro lado do mar, ele pôs o chapéu, saltou para terra e deixou a jovem a vociferar no barco. Embora tivesse um nariz que media quarenta centímetros, entendia-se muito bem o que dizia.
Ele seguiu em frente até chegar à praia do mar vermelho, onde se encontrava outra rapariga, a qual, para aquecer o quarto, revolvia a chaminé com o nariz, pois a lenha arde melhor quando se espevita.
— As tuas irmãs mandam-te cumprimentos — disse o jovem.
— Como pudeste chegar até aqui e conservar as mãos? — perguntou ela em voz anasalada. — Deviam tê-las cortado. Que manas aquelas! Eu lhes conto, quando as vir! Levar-te no barco em troca de ouro, quando deviam ter-te exigido as mãos!... 

No entanto, a fúria acabou por se dissipar ao fim de algum tempo e perguntou: 
— Afinal, aonde queres ir?
— Ao palácio submerso que existe no meio do mar vermelho e de que só se vê uma pequena ponta.

Garantiu-lhe que nunca o vira, apesar de ter percorrido o mar em todos os sentidos. Apesar disso, na manhã seguinte, dirigiu-se à praia e começou a gritar.
— Venham todas as aves do céu! Venham, que quero falar convosco!

Em poucos instantes, acudiram todas, grandes e pequenas, às quais perguntou:
— Viram, no mar vermelho, um palácio de que só assoma uma pequena ponta?

A resposta foi um "Não!" coletivo.
– Está bem. Desapareçam!

Depois de se deixarem de ver, tornou a gritar:
— Venham todos os peixes do mar! Venham, que quero falar convosco!

Não tardaram a aparecer e ela perguntou-lhes:
— Viram um palácio submerso no mar de que só assoma uma pequena ponta?
— Não vimos nenhum palácio!
— Então, desapareçam!

Quase em seguida, surgiu uma baleia e, ao vê-la, a jovem começou a ralhar-lhe.
— Porque chegas tão tarde? Não podias ter vindo com os peixes?

E a baleia referiu o seguinte:
— Quando vinha para aqui, passei por um palácio submerso e fiquei com uma barbatana presa num dos cantos. Foi por isso que me atrasei.
— Bem, podes retirar-te.

No momento em que a baleia se preparava para obedecer, o jovem pôs o chapéu e subiu para cima dela. O cetáceo tornou a passar, nadando, diante do palácio e ele apeou-se. 
De repente, os habitantes abandonaram o edifício, e a área em volta secou por completo.
Apareceu então uma serviçal que tinha saído para ir buscar água potável para a noiva que outrora fora esposa dele. O jovem ainda usava o anel que ela lhe confiara, quando a surpreendera a pisar as terras semeadas. Apressou-se a retirá-lo do dedo e a atirà-lo para dentro do cântaro de água, após o que entrou no palácio com a serviçal. Mas como tinha o chapéu posto, ninguém o podia ver. Ao pegar no cântaro, a mulher notou que alguma coisa soava e perguntou:
— Que tilinta neste cântaro? — Olhou para dentro e encontrou o anel. — Mas é o que entreguei ao meu marido, quando prometi que casaria com ele! Como terá vindo parar aqui?

O jovem, incapaz de conter a alegria, tirou prontamente o chapéu.
Na manhã seguinte, voaram nas asas dela em direção à pátria do marido, que declarou guerra ao rei. Assim que empunhou a espada, este último perdeu todas as forças e expirou. Ele converteu-se então em monarca e a esposa em rainha, e a sua dinastia continua a governar nestes dias.

Fonte:
Ulf Diederichs. Palácio dos Contos. Lisboa/Portugal: Círculo de Leitores, maio de 1999.

Estante de Livros (“A Cidade ilhada”, de Milton Hatoum)

A Cidade Ilhada (2008) é uma das obras mais marcantes do escritor amazonense Milton Hatoum. Diferente de seus romances mais famosos (como Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente), este livro é uma coletânea de 14 contos que funcionam como fragmentos de memória, misturando a exuberância e a decadência de Manaus com as andanças de seus personagens pelo mundo.

1. O SIGNIFICADO DO TÍTULO E O ESPAÇO GEOGRÁFICO

O título 
A Cidade Ilhada carrega uma metáfora central. A "cidade" é, primordialmente, Manaus.

O Isolamento Físico e Cultural: 
Manaus é apresentada como uma cidade cercada pela imensidão da Floresta Amazônica e pelos grandes rios (Negro e Solimões). Ela é isolada do restante do Brasil, o que cria uma atmosfera de clausura e provincianismo.

A Ilha Psicológica: 
Os personagens de Hatoum são, eles mesmos, "ilhados". Eles vivem em isolamento interno, presos em suas próprias memórias, frustrações, segredos de família ou na condição de exilados e estrangeiros.

O Contraste Cosmopolita: 
Embora isolada, a Manaus de Hatoum guarda os resquícios da era áurea da borracha (com sua arquitetura europeia decadente) e serve de porto para imigrantes de várias partes do mundo — especialmente árabes e judeus —, criando um microcosmo multicultural.

2. PRINCIPAIS TEMAS DA OBRA

A Memória e o Tempo: 
Quase todos os contos são narrados em primeira pessoa por um narrador que olha para o passado. A memória aqui não é perfeita; ela é fragmentada, nostálgica e, muitas vezes, dolorosa. O tempo destrói a cidade e afasta as pessoas.

Imigração e Deslocamento: 
Hatoum, que é descendente de libaneses, explora com frequência a figura do imigrante. Personagens tentam fincar raízes na Amazônia enquanto lidam com a saudade da terra natal e o choque cultural. O deslocamento também ocorre no sentido inverso: jovens manauaras que deixam a província para estudar ou viver na Europa (Paris, Barcelona) ou no Sul do Brasil, sentindo-se estrangeiros em todos os lugares.

Relações Familiares e Desejo: 
O ambiente doméstico é palco de tensões silenciosas. O desejo reprimido, os amores platônicos da juventude e os desentendimentos entre pais e filhos cruzam as narrativas.

3. ANÁLISE DE CONTOS DE DESTAQUE

"Uma Estrangeira da Nossa Rua": 
Abre o livro e define o tom da coletânea. Narra a história de uma parente francesa que vai morar em Manaus. O conto explora o choque cultural e a impossibilidade de adaptação mútua, culminando no isolamento da personagem.

"A Cidade Ilhada" (Conto homônimo): 
Explora a cheia dos rios e como a água invade o espaço urbano, isolando fisicamente os moradores. Funciona como a perfeita síntese geomorfológica e psicológica do livro.

"Bárbara no Inverno": 
Mostra o deslocamento para fora da Amazônia. Passa-se em Paris e aborda a solidão, o frio e o sentimento de não-pertencimento de estudantes brasileiros no exterior.

"A Solidão do Vagão de Carga": 
Foca no declínio econômico e social da região através da imagem de trens e ferrovias abandonadas, espelhando a decadência física do próprio espaço amazônico.

Contos do livro:

1. Varandas da Eva
2. Uma estrangeira da nossa rua
3. Uma carta de Bancroft
4. Um oriental na vastidão
5. Dois poetas da província
6. O adeus do comandante (conto que inspirou o filme "O Rio do Desejo")
7. Manaus, Bombaim, Palo Alto
8. Dois tempos
9. A casa ilhada (título exato do conto no livro, grafado com "casa")
10. Bárbara no inverno
11. A ninfa do teatro Amazonas
12. A natureza ri da cultura
13. Encontros na península
14. Dançarinos na última noite 

4. ESTILO LITERÁRIO E LINGUAGEM

Prosa Poética e Contida: 
Evita o sentimentalismo exagerado. A linguagem é sóbria, elegante e precisa, mas com uma forte carga sensorial (o cheiro do rio, o calor sufocante, a luz do entardecer).

Narradores Testemunhas: 
Muitas vezes, quem conta a história não é o protagonista absoluto, mas alguém que observou os acontecimentos na infância ou juventude e tenta reconstruí-los anos depois.

Realismo Psicológico: 
O foco está nas correntes internas dos personagens — suas angústias e silêncios — muito mais do que em reviravoltas mirabolantes na trama.

5. CONCLUSÃO

A Cidade Ilhada é uma excelente porta de entrada para a literatura de Milton Hatoum. Ao escolher a forma curta do conto, o autor consegue criar uma constelação de perdas e buscas. Manaus deixa de ser apenas um cenário exótico e passa a ser um estado de espírito: o retrato de um Brasil profundo, melancólico, marcado pelo esquecimento e pela beleza trágica de suas margens.

domingo, 1 de novembro de 2026

Luiz Carlos Abritta (Tertúlia da Saudade)

 

A natureza se vinga
de toda agressão sofrida
e essa revolta respinga
no centro de nossa vida!
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Aos jovens dou um conselho,
nesta vida tão incerta:
não se olhem tanto no espelho
pois Narciso é morte certa!
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Ao teu prazer eu me entrego
- seja lá o que quiseres –
pois te escolhi, eu não nego,
entre todas as mulheres.
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As tuas mãos - que brancura
 - que bonito de se ver,
 pois elas têm a ternura
 dos lírios do amanhecer.
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Busco de novo a verdade
na aspereza dos caminhos,
e só encontro a saudade,
a solidão dos sozinhos!
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Casaste... triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
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Depois de fazer a ronda,
o galo ficou danado:
a galinha, tão redonda,
quis botar ovo quadrado!
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Desde que tu foste embora,
 tua saudade é açoite
 que já começa na aurora
 e dói mais durante a noite!
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Dessa forma Cristo pensa:
"maior será o perdão
quanto maior for a ofensa".
- Que bela e sábia lição!!
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De todo "não" que me deste,
 o que mais triste me fez
 foi aquele que disseste
 disfarçado num "talvez".
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Do meu verso é sempre a fonte
 essa cidade lendária
 chamada Belo Horizonte,
 a Capital centenária!
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Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
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Em cada nota eu receio,
na pauta que a vida escreve,
que transformem nosso enleio
numa simples semibreve.
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É muito estranho, meu bem,
 o relógio do destino:
 vai de manso, vai e vem,
 depois bate em desatino!
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E se em tupi é “kiri”
e lá na Itália “bambino”,
no sul só falam “guri”:
diabruras de “menino’!
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Essa vitória alcançada
 nos obriga a meditar:
 sem o povo não há nada,
 que verdade singular!
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Eu bem sei que tu me esperas
 e, se te vejo, ao sol-posto,
 projeto um céu de quimeras
 na moldura do teu rosto!
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Eu confesso abertamente,
e disso não me envergonho,
que tu foste, simplesmente,
o amplo portal do meu sonho.
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Eu sei que o belo e a verdade
 caminham juntos na vida
 e atinjo a felicidade
 se a ternura é dividida.
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Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!
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Eu te amo tanto, mas tanto
que já pus num pedestal
toda a glória desse encanto,
que se tornou imortal.
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Eu te digo, com alegria,
e a realidade comprova
que o melhor da poesia
é a beleza de uma trova.
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Eu tenho perseverança
e à tristeza me anteponho:
garimpeiro da esperança,
sempre vivi do meu sonho.
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Foi no tempo da janela
e do namoro à distância
que a vida, muito mais bela,
tinha tão grande importância!
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Jamais eu temo o fracasso
 pois me deste o teu amor
 e a simples força do abraço
 me transforma em vencedor!
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Na magia desse sonho,
 nessa noite calma e pura,
 a sonata que componho
 tem as notas da ternura.
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Não foi perto, nem distante:
o nosso amor, ideal,
nasceu da luz de um instante
e se tornou imortal!
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Não me queres... pouco importa...
Só penso no alvorecer,
pois ele sempre abre a porta
à sedução de viver!
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Nas horas mortas da noite,
sem luar e bem-querer,
tua ausência é puro açoite
que duplica o meu sofrer.
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Na tessitura do sonho,
vou cortar, sem mais tardança,
esse nó górdio que imponho
a um amor sem esperança.
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Navegador solitário,
singrando as águas do mar,
jamais pensa em numerário,
mas conjuga o verbo amar!
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Nem o sofista profundo
esta verdade falseia:
quem se julga rei do mundo
é um pequeno grão de areia!
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Nenhum amor se constrói
só com flores e ternura,
pois aquele que mais dói
certamente é o que mais dura.
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Nessa vereda que é a vida,
vou de tropeço em tropeço,
pois cada nova subida
é sempre um novo começo.
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Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
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Nosso amor já teve história
e, por isso, eu te proponho
seja posto na memória
do relicário do sonho.
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Novo estatuto vigora
nas leis do amor hoje em dia:
sei que vale mais o agora
do que a mais bela utopia!
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Numa alquimia de nume,
 à tristeza me anteponho,
 transformando teu perfume
 no perfume do meu sonho!
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O açougueiro viu passando
 a mulher que é só pele e osso
 e disse, a faca afiando:
 "Isso é carne de pescoço".
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Olhando o tempo passar,
no relógio da memória,
eu senti coisa invulgar,
pois revivi nossa história!
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O que conta nessa vida
não é tempo nem idade,
mas a procura renhida
da deusa felicidade.
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O tempo passa depressa
e tão rápido ele flui
que nunca mais recomeça:
– sou a sombra do que fui.
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Quando o cãozinho e o menino
se abraçam por um segundo,
solto o canto peregrino:
- Há salvação para o mundo!
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Quis esquecer-te... não pude:
 a saudade é traiçoeira
 e ela sempre nos ilude,
 pois nos prende a vida inteira!
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Quis retratar um romance
 que fosse mesmo um primor,
 e fiz, com tinta e nuance,
 uma aquarela de amor.
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Sempre foste minha amada
e, no doce cativeiro,
sem algema e sem mais nada,
tu me prendes por inteiro.
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Se não me dás teu carinho,
se não me queres amar,
sou barco triste e sozinho,
que já não quer navegar.
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Se navegar é preciso
e viver nem tanto assim,
vou partir com teu sorriso,
em busca do mar sem fim!
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Se todos temos defeitos,
se o mistério vem de Deus,
se nem os bons são perfeitos,
o que dizer dos ateus?
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Somos poeira que a vida
 sempre leva de roldão;
 em sua sanha atrevida,
 ela não vê coração.
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Só se louva a juventude,
porém jamais alguém disse
que só se atinge a virtude
quando se alcança a velhice.
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Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
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Todos querem sufocar,
 com disfarces atrevidos,
 e sordidez invulgar,
 o grito dos excluídos .
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Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem.
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Tu partiste... e essa magia
 que deixaste no meu peito
 vai fazer que certo dia
 tu voltes de qualquer jeito.
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Vejo o mar em ondas mansas
- foto de rara beleza -
e, reforçando as lembranças,
um céu chamado Veneza!
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"Veredas, grandes sertões"...
a nossa vida é uma estrada
toda cheia de senões,
do início ao fim da jornada.
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Vou definir a saudade
e não sei se estarei certo:
saudade é aquela vontade
de que o longe fique perto.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Luiz Carlos Abritta (1935 – 2021)
LUIZ CARLOS ABRITTA, uma das figuras mais proeminentes do movimento trovístico brasileiro, além de renomado jurista e intelectual do estado de Minas Gerais nasceu em 1935, em Cataguases, na Zona da Mata Mineira. Filho do magistrado e influente poeta modernista Oswaldo Abritta (membro fundador da célebre Revista Verde na década de 1920) e de Yolanda Nery Abritta. faleceu em 2021, aos 86 anos, na cidade de Belo Horizonte/MG. Embora tenha nascido em Cataguases e atuado em várias comarcas do interior mineiro, fixou residência permanente em Belo Horizonte. Construiu uma carreira jurídica brilhante e de altíssimo escalão no estado. Bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) na turma de 1958, ingressou na carreira em 1964, atuando como Promotor de Justiça nas comarcas de Rio Piracicaba, Minas Novas, Brumadinho, Itabira e Belo Horizonte. Em 1982, foi promovido ao cargo de Procurador de Justiça. Foi presidente da Associação Mineira do Ministério Público (AMMP), Juiz do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) e atuou como Presidente do Tribunal de Ética da OAB/MG.
Abritta herdou o gosto pelas palavras de seu berço modernista, mas consagrou-se nacionalmente no universo da trova. Alcançou o topo da representação do gênero no país e produziu uma vasta obra que engloba poesias, discursos e ensaios. Com mais de uma dezena de livros publicados, destacam-se: Pó...emas; Nada vale a pena; A história do Movimento Modernista em Cataguases; Sonho e saudade; Aurora plena; Um homem plural; Críticas criticáveis Foi um líder e aglutinador da intelectualidade e dos trovadores, comandando as principais instituições do gênero, sendo Presidente Nacional da UBT, tendo presidido também a seção estadual de Minas Gerais e a seção municipal de Belo Horizonte. Foi presidente e presidente emérito da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG), fundador e primeiro presidente da Academia de Letras do Ministério Público de Minas Gerais (ALEMP) e, nos seus últimos anos de vida, presidiu o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG). 
Conquistou inúmeros prêmios em concursos de trovas e competições literárias em âmbito nacional. A importância dele Carlos Abritta repousa em sua impressionante capacidade de equilibrar o rigor técnico e o lirismo da trova. Suas principais contribuições foram: Como Presidente Nacional da UBT, ele foi um pilar fundamental para manter viva, organizada e dinâmica a tradição da trova em todo o Brasil. Ele expandiu os horizontes literários criando espaços de produção e memória onde a literatura não costumava ter cadeira cativa, como a fundação da Academia de Letras no seio do Ministério Público. Vindo de uma linhagem intimamente ligada ao Modernismo de 1922 em Minas, soube valorizar a história literária mineira enquanto defendia a beleza clássica e a rima perfeita que a trova exige. 

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet)