domingo, 3 de novembro de 2024

José Feldman (Reflexões sobre a Solidão Coletiva)

Houve um tempo em que a solidariedade existia nas pequenas ações do cotidiano. Lembro-me de histórias contadas por meus pais sobre como as comunidades se uniam durante momentos difíceis. Os vizinhos se ajudavam, as portas estavam sempre abertas, e a empatia era uma norma não escrita. As desgraças alheias eram sentidas como se fossem próprias, e a coletividade era um valor inegociável.

Hoje, no entanto, vivemos em uma era marcada pela insensibilidade. A compaixão parece ter se esvaído, dando lugar a um egoísmo crescente. As desgraças que antes nos uniam agora são frequentemente ignoradas. Vemos imagens de catástrofes naturais, guerras, e crises humanitárias deslizando nas redes sociais, como se fossem apenas mais um item na lista interminável de conteúdos a serem consumidos. O coração, antes pulsante de solidariedade, parece ter se petrificado.

A falta de ação diante do sofrimento alheio é alarmante. O que poderia ser um chamado à empatia se transforma em um mero espetáculo. As tragédias se tornam cifras em estatísticas, e as pessoas, rostos anônimos em uma multidão. O “like” nas redes sociais substitui a verdadeira ação; compartilhar uma postagem é considerado um ato de solidariedade, quando, na verdade, é apenas um gesto vazio.

Enquanto a empatia se esvai, o que vemos na televisão e nos meios de comunicação é um festival de desavenças e baixarias. Programas que promovem a discórdia, que elevam o conflito ao status de entretenimento, se tornaram comuns. A audiência ri e se diverte com as provocações, enquanto a verdadeira conexão humana se perde em meio a gritos e insultos. O respeito ao próximo foi substituído pelo espetáculo da desgraça alheia, e a cultura da crítica feroz tomou conta.

Esses programas não apenas alimentam a insensibilidade, mas também moldam comportamentos. A banalização da hostilidade se infiltra no cotidiano das pessoas, que começam a ver a desavença como norma. As discussões se tornam debates acalorados, onde a razão dá lugar à ofensa. O diálogo, antes um espaço de construção, se transforma em um campo de batalha.

E, como se não bastasse, o som alto dos carros ecoa pelas ruas como um símbolo da falta de respeito. A música, que poderia ser uma forma de expressão e celebração, se transforma em uma arma de desrespeito. O barulho ensurdecedor invade o espaço público, desconsiderando aqueles que buscam paz e tranquilidade. Os motoristas, absortos em seu próprio prazer, ignoram os olhares de reprovação e os pedidos silenciosos por um pouco de silêncio.

Essa cultura do “eu primeiro” se reflete em todas as esferas da vida. As pessoas se tornam ilhas em meio a um mar de indiferença, cada uma preocupada apenas com seu próprio bem-estar. O respeito ao próximo, que outrora era um pilar fundamental das interações sociais, se torna uma relíquia do passado.

Vejo muitos poetas, trovadores e outros literatos que escrevem sobre fraternidade, sobre humanidade, sobre solidariedade, mas são palavras vazias por quem, ao contrário delas, só pensam em si mesmas, não movem um dedo em favor da empatia. Ficam simplesmente em cima do muro. Falam de respeito, mas não respeitam os outros. Lembro que meus pais sempre diziam, se você quer mudar o mundo deve primeiro mudar a si mesmo, seus pensamentos, suas atitudes, senão serão ações vãs. Ou como se diz: “O inferno está cheio de boas intenções”.

Entretanto, mesmo em meio a essa escuridão, há pequenas chamas de esperança. Existem aqueles que ainda lutam pela solidariedade, que se mobilizam para ajudar os necessitados, que se importam com o bem-estar do outro. Grupos comunitários, ONGs, e iniciativas locais são exemplos de que a empatia ainda vive em algumas partes do mundo. Essas ações, embora muitas vezes ofuscadas pelo barulho da indiferença, são fundamentais para reacender o espírito solidário que parece ter se perdido.

A reflexão sobre a falta de solidariedade do ser humano nos tempos atuais nos convida a repensar nossas próprias atitudes. Como podemos ser agentes de mudança em um mundo que parece se desumanizar? A resposta pode estar nas pequenas ações do dia a dia: um gesto de gentileza, um ouvido atento, um momento de silêncio respeitoso.

A solidariedade não é uma característica inata; ela deve ser cultivada. Cada um de nós tem o poder de transformar o ambiente ao nosso redor, de ser a mudança que desejamos ver. Ao olharmos para o próximo com olhos de compaixão, podemos começar a restaurar a conexão que foi perdida.

Assim, enquanto caminhamos por um mundo que muitas vezes parece indiferente, é essencial lembrar que a verdadeira força reside na solidariedade. O eco do egoísmo pode ser ensurdecedor, mas a voz da empatia, quando unida, pode criar um coro poderoso. Que possamos, juntos, redescobrir o valor da compaixão e do respeito, e que nossas ações sejam um lembrete de que a humanidade ainda tem um longo caminho a percorrer, mas que o primeiro passo começa dentro de cada um de nós.

Fonte: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

Vereda da Poesia = Francisco Gabriel Ribeiro (Natal/RN)


Paulo Mendes Guerreiro Filho (Aurora e a sua cognata)

A casa dela fica na extremidade da areia, com o lago Guaíba, à direita, um píer, onde estacionam as canoas e os caiaques e, na varanda, uma rede. A paisagem d'alva não esfria o interior do veículo. Ironia uma moça cega morar na Ilha da Pintada.

- Obrigada por me levar ao show, eu sei que não é bem o seu estilo.

- Adorei o show. Já vai amanhecer. Eu te levo ate a porta.

- Espera... Me fala como é a Aurora?

- A cantora ou o sol nascente?

- A cantora, mas, agora, também quero saber o que você está vendo.

- Ok. A tintura do sol recai no lago em tons de bordô e rosa sobre um leve fundo azul...

- Assim não! Fala de uma forma que eu consiga entender.

Neste instante, eu pensei em esganar "Viktor Chklovski" e rasgar sua teoria.

- Antes do sol despontar, é igual ao silêncio que antecede o início do show. Então, o espetáculo se inicia calmo e delicado como a voz da Aurora em “It happened quiet”, e o céu é marinho-vento-frio de outono. Os primeiros raios surgem como um sorriso delicado em um cálice de um Bordeaux Carménère e rosa de All soft inside.

- Sim, eu estou conseguindo ver! A voz, o sorriso dela, e as cores do frio e do vinho.

- Agora, o sol invade o céu com sutileza em tons de amarelo, laranja e vermelho, irradiando todas as formas ao som de “Forgotten love”. É como se aquecer ao leve rebolar da fogueira.

- Você está falando dos quadris dela!? Safado! – diz Luísa ironizando e rindo.

- Não, estou descrevendo o sol nascendo nesta ordem: o amarelo e morno, o laranja é quente e o vermelho queima. – eu respondo rindo.

- São 7:07h, e o sol, em ascensão, conquista a noite com seu brilho amarelo, como o azul do olhar da cantora conquista os fãs, e a canção seria: “Queendom”.

- Sei não. Achei que os olhos dela fossem azuis. – Luísa ironiza.

- Os olhos são o céu, e o olhar é o sol, seria como tomar banho de água fria sob o sol quente. Agora vamos, já é dia.

Luísa sorri, dizendo;

- Espera! Descreve para mim o corpo dela...
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(Este conto obteve o 1. lugar no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fonte: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.

sábado, 2 de novembro de 2024

Edy Soares (Fragata da Poesia) 63: Confusão

 

José Feldman (O Mistério do Barco Celta)


Na pequena vila de Caerwyn, localizada na costa acidentada da Escócia, uma antiga lenda circulava entre os moradores. Falava-se de um barco celta perdido, que, segundo as histórias, trazia consigo uma maldição. Aqueles que ousassem tocá-lo eram impelidos a ir para o mar, como se as ondas o chamassem. A lenda, até então, era considerada apenas uma história para assustar crianças, até que uma equipe de arqueólogos decidiu investigar a costa em busca de vestígios da cultura celta.

A equipe, liderada pelo Dr. Angus McGregor, um renomado arqueólogo, chegou à vila em um dia nublado de primavera. Com um grupo de estudantes e assistentes, ele começou a escavar uma área próxima a uma enseada isolada. Após dias de trabalho árduo, uma tempestade repentina fez com que o grupo se abrigasse em uma caverna próxima. Enquanto esperavam a chuva passar, um dos estudantes, Lucas, notou algo brilhando sob a água turva da enseada.

Intrigado, ele e Angus decidiram investigar. Com a água ainda agitada, mergulharam e, para sua surpresa, descobriram um barco celta, perfeitamente preservado, encalhado entre rochas. A madeira estava coberta de musgo, mas os entalhes e desenhos que adornavam a proa eram claramente visíveis.

Assim que o barco foi descoberto, a equipe imediatamente começou a estudar o local. Angus, ciente das lendas que cercavam a embarcação, hesitou em tocá-la. No entanto, a curiosidade foi mais forte, e, com cuidado, ele estendeu a mão e acariciou a madeira fria e úmida.

No instante em que sua pele tocou a superfície do barco, uma sensação estranha o envolveu — um chamado suave, quase hipnótico, que parecia vir do mar. “É só a adrenalina,” pensou Angus, tentando se convencer. Mas, ao olhar para Lucas, viu que ele também estava enfeitiçado, seus olhos fixos no horizonte, como se estivesse ouvindo uma música distante.

Na manhã seguinte, enquanto a equipe se preparava para continuar as escavações, Lucas não apareceu. A princípio, pensaram que ele poderia ter decidido dormir mais um pouco, mas conforme as horas passavam, a preocupação crescia. Angus, sentindo uma inquietação crescente, decidiu investigar.

Após perguntar aos outros membros da equipe, ele seguiu em direção à enseada. Para seu horror, encontrou Lucas de pé, na beira da água, olhando para o mar com uma expressão sonhadora. “Lucas! O que você está fazendo?” ele gritou.

Ele virou-se lentamente, como se estivesse despertando de um transe. “Eu… eu não sei. Senti que precisava vir aqui,” ele murmurou, seus olhos ainda perdidos nas ondas.

Angus o puxou para longe da beira, mas a inquietação permaneceu. A maldição da lenda parecia estar se manifestando.

Preocupado, Angus decidiu se reunir com os moradores locais para pedir conselhos. Ele se encontrou com Mairead, uma anciã da vila, conhecida por sua sabedoria. Ao ouvir a história da descoberta do barco, Mairead balançou a cabeça com seriedade.

“Aquela embarcação não é apenas um artefato. É um portal,” disse ela. “Os antigos celtas acreditavam que os espíritos dos marinheiros mortos habitavam suas embarcações. Aqueles que tocassem o barco poderiam sentir o chamado do mar, como se fossem levados por aqueles que já partiram.”

Mairead advertiu Angus sobre os perigos de continuar a exploração. “Os que foram atraídos para o mar não voltaram. Você deve respeitar a vontade dos que vieram antes de nós.”

Apesar do aviso, Angus e sua equipe decidiram continuar suas investigações. Naquela noite, enquanto os membros da equipe se reuniam em volta de uma fogueira, mais uma pessoa desapareceu: Sarah, a assistente de Angus. Na manhã seguinte, sua mochila foi encontrada na areia, mas Sarah não estava em lugar algum.

Com o coração acelerado, Angus e os outros começaram a procurar na enseada. Quando finalmente a encontraram, Sarah estava novamente na beira da água, hipnotizada pelo mar. “Sarah, volte!” Angus gritou, mas Sarah não parecia ouvir.

Com esforço, conseguiu puxar Sarah de volta para a segurança da areia. “O que aconteceu?” perguntou, ofegante.

“Eu… eu não sei. Senti que precisava ir,” Sarah respondeu, com os olhos ainda vidrados.

Com a situação se deteriorando, Angus decidiu que era hora de confrontar o barco. Naquela noite, ele se aproximou da embarcação sozinho, determinado a entender o que estava acontecendo. Quando tocou a madeira novamente, a sensação do chamado se intensificou, quase irresistível.

“Atraí-los para o mar não é o que você quer!” ele gritou, desafiando os espíritos que habitavam o barco. “Respeito sua dor, mas não posso permitir que mais vidas sejam perdidas!”

Nesse momento, o vento começou a soprar com força, e as ondas rugiam. Angus sentiu uma presença ao seu redor, como se as almas dos marinheiros o observassem. “Libere-os!” ele implorou. “Deixe-os encontrar paz!”

De repente, as visões começaram a aparecer diante dele: imagens de marinheiros antigos, navegando em tempestades, lutando contra as ondas. Angus pôde sentir a dor e a perda desses espíritos, mas também a sua tristeza por não poder partir. Ele percebeu que o barco era um símbolo de esperança e um lembrete dos que haviam se perdido no mar.

Com uma determinação renovada, fez um ritual de despedida, falando em voz alta para os espíritos. “Vocês não estão sozinhos. Não precisam mais chamar os vivos. Em vez disso, sigam em paz!”

A tempestade começou a acalmar, e um silêncio profundo caiu sobre a enseada. Angus sentiu uma onda de alívio e compreensão, como se os espíritos finalmente fossem libertados.

Na manhã seguinte, após a tempestade, a equipe encontrou Sarah e Lucas acordados na praia, sem lembrança do que havia acontecido. Relataram que haviam sonhado com o mar, mas não tinham ideia de como haviam chegado ali.

Angus contou a eles sobre a noite anterior, e juntos decidiram que era hora de deixar o barco em paz. Com o apoio dos moradores da vila, fizeram uma cerimônia de despedida, envolvendo o barco em flores e agradecendo aos espíritos.

Embora a lenda do barco celta continuasse a existir, a experiência de Angus e da equipe trouxe um novo entendimento. O barco não era apenas uma relíquia; era um lembrete da conexão entre os vivos e os mortos, e da necessidade de respeitar o que havia sido.

Ao deixar Caerwyn, Angus olhou para o mar, sentindo-se em paz. A maldição havia sido quebrada, e os espíritos agora poderiam finalmente descansar. E assim, enquanto o sol se punha no horizonte, a equipe partiu, levando consigo não apenas uma história, mas também um profundo respeito pela herança dos que vieram antes deles.

Fonte: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.

Vereda da Poesia = Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora/MG)



Aparecido Raimundo de Souza (Saudades)


 “A saudade é um momento único que não nos deixa voltar ao tempo em que a saudade, como um todo, não ia além de uma palavra vazia, que nada dizia à saudade que hoje nos atormenta a alma.” (Tompson de Panasco, morador de rua)

(Para a “Teusa”)

TENHO SAUDADE DAS BRIGAS, dos desencontros, das bobeiras e das suas ceninhas de ciúmes. Tenho saudade dos seus abraços, dos seus olhares de meiguice e benevolência. Saudade das palavras que não dissemos um ao outro e das coisas simples e corriqueiras que deixamos de fazer. Na verdade, eu não tinha tempo para me dedicar a você... talvez, por isso, tenha saudade do tempo em que você me ligava perguntando onde eu estava e a que horas chegaria do serviço. Saudade da mesa posta todos os dias, na hora do café, do almoço e do jantar. 

Saudade do seu esmero em fazer o melhor e dar o que havia de mais saudável em você. Apesar disso... eu não tinha tempo para me dedicar a seus mimos... e agora, repare, agora tenho saudade do amor que você nutria por mim, do “morzinho” dito às amigas, quando perguntavam por seu “namorido...” Saudades iguais das suas preocupações com as minhas roupas no roupeiro... lembro perfeitamente de cada detalhe, dos desvelos, dos resguardos, bem como da sua aplicação em cada dia fazer o melhor e me agraciar com o perfeito que emanava de dentro de seu interior.  

Mas, ainda assim, apesar disso tudo, eu não tinha tempo para me dedicar a você... tudo seguia nos trilhos, guardado com a fascinação do apuro diligente e ímpar. Tudo tão limpinho e asseado... cada coisa no seu devido lugar. Lembro-me das meias, das cuecas e dos lenços dobrados e passados com um prazer que brotava de dentro de você de forma tão cristalina e pura como água de nascente. Que saudade! E eu, cego, não tinha tempo para me dedicar a você... idêntica saudade da sua casa simples, que você batia o pé e dizia “nossa casa,” onde eu recebia uma felicidade perene, e desfrutava de uma paz acolhedora e, por conta disso, me sentia como se fosse senhor de tudo, tipo um rei diante de seu castelo. 

Mas meu tempo se fazia demasiadamente escasso e você... você sempre ficava em segundo plano... saudade das suas roupas simples, dos seus vestidinhos do tempo “do ronca,” saudade seu cabelo cortado curtinho, do par de brincos que nunca saia das suas orelhas... saudade das suas preocupações com a higiene dos cômodos da casa, tudo assim numa sincronia esmerada... saudade dos seus cuidados com o papagaio, com a comida e a água do coelho. E nem assim eu parava para dar um pouco de atenção a sua atenção... meu corpo estava ao seu lado, mas a minha mente... voava por devaneios inconstantes. Tenho saudade, igualmente, da sua simplicidade... 

Não somente dela, saudade do tempo em que dormíamos abraçados, de conchinha. Saudade do seu ronco, da sua implicância com o rádio alto e o tempo demasiado que eu passava sentado na frente do computador. Que bobo fui...  tenho saudade, grande saudade, acredite... saudade do seu perfil de mulher batalhadora, trabalhadora, que não deixava faltar o pão de cada dia. Saudade das suas ausências logo cedo nas manhãs de sábado, quando você se levantava em silêncio e ia para a feira com o carrinho de compras. 

Saudade de ir com você, de mãos dadas, cortar aquelas folhas perto da quadra do “Campo do Motivo” para levar para o restaurante onde você dava um duro desgraçado todo domingo, chovesse ou fizesse sol... saudade do seu cansaço... saudade da visão da perna que fazia você mancar em decorrência de seu ex-marido ter lhe espancado com severa brutalidade. Neófito, eu procurava por alguma coisa impossível e isso me fazia não enxergar a ternura da luz pulsante que estava bem ali ao meu lado... saudade da saudade que ficou quando você me mandou embora, alegando que um “antigo alguém com quem namorara reaparecera de repente.” 

Saudade de quando me levou até o portão e eu entrei no carro e você ficou me olhando, olhos compridos, silenciosos, como se interiormente, num repente intempestivo me pedisse perdão ou silenciosamente implorasse para que eu não partisse... saudade, imagine... saudade até de quando brigava com você e você queria se aconchegar ao meu lado e eu a empurrava e virava para o lado oposto da cama. Saudade do amor que não fizemos, dos carinhos que não permutamos, das lágrimas que não enxuguei quando lhe pegava chorando pelos cantos. 

Saudade do seu sorriso, saudade do seu rosto, da sua voz, do calor do seu corpo... saudades enfim, de não poder mais voltar e lhe dar um abraço, um beijo nos olhos e esperar pelo seu “tchau,” quando virava a esquina... quando também me dirigia para o escritório. Hoje, agora, carrego minhas dores todas juntas no mesmo lado do peito despedaçado. Essas saudades se avolumaram. Pior, me perseguem como sombras fantasmagóricas. E eu então me questiono terrivelmente, me indago até a exaustão: em que parte, em que ponto, em que momento da minha estrada incerta EU REALMENTE PERDI VOCÊ??!!

É quase madrugada,
não consegui dormir,
cabeça preocupada,
vontade de fugir.
Olhando no espelho
fica estampada
a solidão em mim

Depois de tanto tempo,
vivendo lado a lado,
não posso aceitar
que está tudo acabado,
não dá pra acreditar
que o desamor chegou,
agora é o fim...

Meu Deus! Ela reclama
de falta de atenção
e diz não ter espaço
no meu coração,
e tudo o que ela faz
pra mim não tem valor.
Só penso no Senhor...

Meu Deus! Ela não sabe
que a minha intenção
é ver a nossa vida
mudar de direção,
não sabe que é por ela
que eu peço todo dia
as bênçãos do Senhor...

Meu Deus! Vem dar um jeito
nesta amargura,
e tira do meu peito
a dor que não tem cura,
faz ela entender
que a história desse amor
não pode terminar assim...

O que o Senhor uniu,
ninguém vai separar,
é ela que eu amo
e sempre vou amar.
Escute esta oração,
estende as suas mãos
e salva ela pra mim.

Fonte: Texto enviado pelo autor 

Luciano Dídimo (Lançamento do Livro “A rosa de pérola”)


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Abçs,
Luciano Dídimo

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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Ademar Macedo (Ramalhete de Trovas) 29

 

José Feldman (O Arranha-Céu nas Nuvens)

Era uma manhã qualquer em Campinas, cidade do interior do estado de São Paulo, e o novo arranha-céu da cidade, o "Céu de Aço", finalmente estava completo. Com seus 300 andares, ele se elevava tão alto que, em um dia nublado, parecia perfurar as nuvens. O arquiteto, Leonardo, estava em êxtase. Ele não apenas havia projetado uma obra-prima, mas também se vangloriava de ter criado o prédio mais alto do mundo.

Após uma manhã cheia de reuniões e comemorações, Leonardo decidiu fazer uma última inspeção no topo do edifício. Ele subiu até o 300º andar, ansioso para ver a vista. Assim que chegou, porém, algo inesperado aconteceu. O céu se iluminou, e, de repente, ele se viu atravessando uma nuvem espessa. Quando a névoa se dissipou, ele ficou pasmo ao ver que havia chegado ao que parecia ser a entrada do céu!

— O que... onde estou? — murmurou, olhando ao redor.

Diante dele, uma porta dourada se abria com um rangido celestial. E, para sua surpresa, São Pedro estava ali, com uma prancheta na mão e uma expressão que misturava curiosidade e ceticismo.

— Olá, amigo! — disse São Pedro, com um sorriso. — O que traz você por aqui?

Leonardo, ainda atordoado, tentou entender a situação.

— Eu... eu sou o arquiteto do "Céu de Aço"! Acabei de completar o edifício mais alto do mundo!

São Pedro ergueu uma sobrancelha.

— Ah, sim, o arranha-céu que fura as nuvens. Muito interessante! Mas, veja bem, você precisa de permissão para estar aqui.

— Permissão? — Leonardo exclamou, ofendido. — Eu sou o arquiteto! Fiz tudo legalmente! Tenho documentos de propriedade!

São Pedro olhou para a prancheta.

— Documentos de propriedade? Aqui no céu? Não sei se isso vai funcionar.

Leonardo se aproximou, gesticulando com as mãos.

— Olha, São Pedro, eu não sei como você faz as coisas aqui, mas na Terra, eu tenho todos os papéis necessários. Licença de construção, planta do edifício, até o alvará da prefeitura!

— E quem te deu a licença para furar nuvens? — São Pedro perguntou, tentando segurar o riso.

— É... isso não estava nos regulamentos! — Leonardo admitiu, um pouco envergonhado.

— Então você me diz que invadiu o espaço aéreo celestial sem autorização? — São Pedro disse, cruzando os braços. — Isso é um problema!

Leonardo, percebendo que estava perdendo a discussão, decidiu apelar para a lógica.

— Mas, veja, se eu estou aqui, isso significa que o arranha-céu é tão impressionante que até as nuvens não conseguiram resistir! Eu trouxe beleza e inovação para a cidade. Você não gostaria de ver isso?

São Pedro coçou a barba, pensativo.

— Bem, é verdade que o céu tem uma nova perspectiva agora. Mas o que temos aqui é uma questão de propriedade. Você realmente tem documentos?

— Eu tenho! — Leonardo gritou, puxando um rolo de papéis do bolso. Ele começou a desenrolar os documentos, mas a brisa celestial os fez voar.

— Não! — Leonardo gritou, enquanto os papéis dançavam no ar.

São Pedro começou a rir.

— Olha, talvez você devesse considerar a possibilidade de que a burocracia no céu é um pouco diferente da sua. Aqui, não temos essa coisa de papéis!

— Como assim? — Leonardo estava perplexo.

— Aqui no céu, nós confiamos uns nos outros. Não precisamos de licenças para apreciar a beleza! — São Pedro respondeu, com um brilho nos olhos.

— Mas e se eu quisesse construir um shopping no céu? Precisaria de permissão para isso! — Leonardo argumentou.

— Ah, um shopping? Isso seria complicado. Você teria que passar pela comissão de anjos do comércio! — São Pedro brincou.

— Olha, eu só quero saber quem é o responsável por essa parte do céu! — Leonardo insistiu, ainda segurando os pedaços de papel que sobreviveram à ventania.

— Eu sou! — São Pedro respondeu, rindo. — Mas pense bem. Em vez de se preocupar com documentos, que tal usar seu talento para criar algo incrível aqui?

Leonardo refletiu por um momento. Ele tinha sempre sonhado em projetar algo grandioso. E se ele pudesse fazer isso no céu?

— Você está dizendo que eu poderia criar uma nova estrutura aqui? — perguntou Leonardo, seus olhos brilhando.

— Exatamente! Um café nas nuvens, uma galeria de arte celestial, quem sabe até um parque onde os anjos possam passear! — São Pedro respondeu, empolgado.

— Isso seria incrível! — Leonardo exclamou. — Mas... e os documentos?

— Ah, isso é só um detalhe. Vamos fazer assim: você me promete que não vai furar mais nuvens sem avisar, e eu deixo você criar o que quiser! — São Pedro disse, piscando um olho.

— Fechado! — Leonardo respondeu, estendendo a mão para um aperto.

E assim, com um acordo feito, Leonardo começou a planejar seu novo projeto celestial, enquanto São Pedro anotava tudo em sua prancheta, agora cheia de ideias criativas.

— E se você fizesse uma escada que levasse ao céu? — sugeriu São Pedro, pensando alto.

— Uma escada? Isso seria revolucionário! — Leonardo respondeu, agora empolgado.

— E que tal um mirante? Para as pessoas apreciarem a vista das nuvens? — continuou São Pedro.

— Adorei a ideia! — estava cada vez mais animado. — E uma área para piqueniques!

— Piqueniques nas nuvens? Agora você está falando! — São Pedro riu, imaginando a cena.

No final das contas, o arquiteto e o guardião do céu se tornaram amigos improváveis, e o "Céu de Aço" ganhou uma nova dimensão. Leonardo voltou para a Terra, não apenas com um projeto incrível em mente, mas também com uma história extraordinária para contar.

E assim, o arranha-céu que furava nuvens se transformou em um verdadeiro símbolo de criatividade e amizade, onde a burocracia se encontrava com a imaginação, e onde as nuvens não eram mais barreiras, mas sim oportunidades.

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Vereda da Poesia = Márcia Jaber (Juiz de Fora/MG)



Arthur Thomaz (Medeia, a Bruxa no Brasil)

Um choro chama a atenção dos transeuntes, mas todos passam indiferentes, cada qual com seus problemas.

Sentada à beira da calçada em prantos, vejo uma pessoa que reconheço dos livros de mitologia grega .

Sento-me ao lado dela e quando a chamo pelo nome, Medeia, a bruxa, acalma-se ao se ver reconhecida.

Esboçou um sorriso molhado de lágrimas, mas que a mim pareceu extremamente encantador.

Indaguei o motivo de tão sentido choro e ela, então, sentindo confiança desabafou. Ela tinha um emprego árduo, sem direito a férias, sem insalubridade e sem plano de saúde. Trabalhava oito horas por dia e o descanso aos domingos não era remunerado.

Sujeitava-se a essas condições porque tinha duas irmãs menores que dependiam dela. Juntou algum dinheiro, deixou as duas bruxinhas com uma tia, pediu demissão e veio tentar a sorte no Brasil porque ouvira dizer que, aqui, o povo fazia mágica para se sustentar.

Nesse momento, tentei mostrar a ela que não era o mesmo tipo de magia que ela praticava.

Continuou afirmando que fizera um voo em sua vassoura, quase sem escalas, tremendamente cansativo. Saíra de lá com temperatura muito baixa e aqui encontrara o verão carioca. Após aterrissar, deparou-se com um gari que tomou sua vassoura e saiu sambando. 

A vassoura não se inibiu e ensaiou alguns passos. Tive que correr para pegá-la de volta, pois já estavam indo para o sambódromo.

Depois desse incidente estava passeando a pé, quando uma moça, com uniforme de faxineira, tomou a vassoura dizendo que ela iria ajudar no serviço.

Perguntei se ela não estava reparando que eu era uma bruxa. Ela, com um sorriso malicioso disse que eu era uma gracinha e me convidou para subir ao apartamento porque a patroa só chegaria à noite e poderíamos usar a cama do casal. Consegui retomar minha vassoura e saí voando antes que ela me beijasse. 

Entendi os motivos do choro e tentei explicar a ela que nem tudo por aqui era assim.

Saímos passeando pela orla, quando dois pivetes, em uma moto, anunciaram o assalto.

Não deu certo para eles porque a vassoura irritada deu-lhes uma tremenda surra.

Então eu disse que segundo Eurípides o seu "biógrafo" ela possuía poderes maléficos suficientes para resolver os contratempos que tivera desde sua chegada.

Com sonora gargalhada respondeu que todos os escritores são exagerados e completou dizendo que, se tivesse agido dessa forma e alguém filmasse as cenas, ela jamais conseguiria emprego aqui no Brasil.

Fui obrigado a concordar e passamos a falar desse assunto, pensando em quais seriam as possibilidades de arrumar um serviço aqui .

Ela disse que tinha aptidão para culinária, mas ao me lembrar do que fez nos caldeirões, logo afastei esta opção. Como babá também não seria conveniente devido aos antecedentes.

Nisso passou pelas areias um ambulante vendendo biscoito Globo e mate gelado. 

Nos entreolhamos e, imediatamente, surgiu a solução.

Hoje, Medeia percorre as praias da zona sul, em trajes de bruxa, vendendo pequenas vassouras, bradando que eram para manter nossas praias limpas. Rapidamente, tornou-se um sucesso de vendas.

Trouxe as duas irmãs para ajudá-la e abriu uma empresa, "Medeia Ltda", recolhe impostos regularmente, adquiriu a cidadania brasileira e terá sua aposentadoria pelo INSS garantida.

Fonte: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: mirabolantes. Santos/SP: Bueno ed., 2021. E-book enviado pelo autor

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Carolina Ramos (Trovando) “28”

 

José Feldman (Pafúncio na Exposição de Quadros)

Era uma noite elegante e sofisticada no renomado Museu de Arte Moderna, onde uma exposição de quadros de artistas contemporâneos estava prestes a ser inaugurada. Pafúncio, o jornalista da revista “Fuxicos & Fofocas”, foi enviado para cobrir o evento e, claro, trazer algumas fofocas quentinhas sobre a alta sociedade local.

Vestido com um terno que parecia ter sido emprestado de um filme dos anos 80 e uma gravata estampada com desenhos de patos, Pafúncio entrou no museu com um sorriso radiante, mal sabendo que a noite se tornaria um verdadeiro desfile de trapalhadas.

Assim que chegou, Pafúncio observou as pessoas da alta sociedade conversando em pequenos grupos, todas vestidas com roupas de grife e segurando taças de champanhe. Ele, por outro lado, parecia um pato fora d’água. 

“Aqui estou eu, pronto para fazer história!” ele pensou, enquanto caminhava em direção ao coquetel.

Ao se aproximar da mesa do coquetel, Pafúncio viu uma bandeja cheia de canapés e, sem pensar duas vezes, pegou um punhado deles. 

“Deliciosos! Vou dar uma entrevista sobre eles!” ele exclamou, enquanto começava a mastigar e a falar com um grupo de convidados.

“Desculpe, você é…?” uma mulher bem-vestida perguntou, olhando para ele com uma expressão de confusão.

“Sou Pafúncio, da revista “Fuxico & Fofocas”! Estou aqui para cobrir a noite e descobrir os segredos da alta sociedade!” ele respondeu, com um pedaço de canapé preso entre os dentes.

Pafúncio decidiu que era hora de tirar algumas fotos. Ao tentar ajustar a câmera, ele acidentalmente esbarrou na mesa, fazendo com que uma taça de champanhe voasse pelo ar e aterrissasse bem em cima do vestido da mulher que acabara de entrevistá-lo. 

“Ai!” ela gritou, enquanto todos ao redor se viravam para olhar.

“Desculpe! Era para ser uma homenagem ao seu vestido!” Pafúncio disse, tentando se desculpar, mas as pessoas apenas o encararam, perplexas.

Determinado a se recuperar, Pafúncio começou a se mover em direção aos quadros. Ele parou em frente a uma obra de arte abstrata e começou a explicar para uma pequena multidão o que achava que era a mensagem do quadro. 

“Eu vejo aqui um grito pela liberdade, uma luta contra a opressão dos… das azeitonas!” ele comentou, fazendo referência a um prato que ainda estava na sua mente.

As pessoas começaram a cochichar entre si, claramente divididas entre o riso e a perplexidade. 

“Quem é esse?” alguém murmurou.

Enquanto tentava tirar uma selfie com a pintura ao fundo, Pafúncio, em sua animação, deu um passo para trás e, sem querer, esbarrou na mesa de bebidas. A bandeja, cheia de copos, fez um movimento pendular e se despedaçou no chão, com um barulho estrondoso que fez todos os convidados se virarem, boquiabertos.

“Meu Deus!” gritou um dos organizadores, enquanto Pafúncio tentava ajudar a limpar a bagunça, mas acabou escorregando no líquido derramado e caindo de joelhos. 

“Estou apenas testando a resistência do chão!” ele gritou, enquanto se levantava, agora com as calças molhadas.

Finalmente, chegou a hora do discurso do curador da exposição. Pafúncio, pensando que poderia ajudar a animar o ambiente, decidiu se posicionar perto do microfone. 

“Eu tenho algo a dizer!” ele interrompeu, mas o curador já estava no palco.

“Por favor, não…” o curador murmurou, já prevendo o desastre.

Pafúncio puxou o microfone com tanto ímpeto que ele se soltou e fez um ruído ensurdecedor, causando um alvoroço. 

“Desculpe, só queria dizer que a arte é como um… um sapato apertado! Às vezes, você só precisa tirar para se sentir livre!” ele gritou, enquanto as pessoas cobriam os ouvidos.

A essa altura, a situação era tão cômica quanto caótica. Os convidados começaram a olhar para Pafúncio com uma mistura de medo e diversão. O que ele faria a seguir? Uma mulher de um grupo próximo murmurou: “Espero que ele não derrube mais nada!”

E foi então que, ao tentar fazer uma pose engraçada para uma foto, Pafúncio decidiu subir em uma cadeira para ser mais visível. No entanto, a cadeira não aguentou o peso e se quebrou, fazendo com que ele caísse novamente, agora em uma pilha de casacos que estavam pendurados em um cabideiro.

No final da noite, enquanto todos estavam atordoados, Pafúncio, ainda tentando se recompor, levantou-se e olhou para a multidão. 

Os convidados começaram a se dispersar, alguns ainda rindo, outros balançando a cabeça em incredulidade. “Quem era aquele?” alguém perguntou, enquanto Pafúncio se despedia, feliz e satisfeito por ter, de alguma forma, conseguido alguma coisa naquela noite.

Enquanto saía, ele pensou: “Talvez eu devesse fazer mais reportagens em eventos da alta sociedade.” 

E assim, com sua personalidade peculiar, Pafúncio deixou sua marca — e um pouco de caos — na noite que deveria ser de arte e sofisticação.

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Vereda da Poesia = Elisabete Aguiar (Mangualde/ Portugal)


Eduardo Affonso (Mentiras que os donos de cachorro contam)

A mentira 1 que os donos de cachorro contam é que são donos de cachorros.

Ninguém é dono de ninguém, muito menos de um cachorro.

Cachorros são seres insólitos. Têm um ranço nato dos gatos, criaturas que os ignoram e cujos olhos felinos lhes dedicam, no máximo, uma mirada de indulgência. Têm inexplicável interesse por porcos espinhos, animais cujo leiaute é um cartão de visitas claríssimo: não mexa comigo. Têm fetiche por pneus, entidades que perseguem com afinco, como se cravar os dentes numa roda de borracha lhes fosse descortinar o sentido da vida.

E se afeiçoam justamente a seres humanos.

Qualquer organismo inteligente se afeiçoaria aos gatos, não aos seres humanos. Qualquer indivíduo sensato manteria dos humanos e dos porcos espinhos uma prudente distância. Qualquer entidade racional saberia que humanos e pneus não levam (metaforicamente, pelo menos) a lugar nenhum.

Pois os cachorros resolveram se afeiçoar aos seres humanos. Ignorar os alertas de perigo que os humanos emitem em cada gesto. E vivem correndo atrás de nós, seja abanando o rabo, seja cravando os dentes, como se para isso tivessem nascido.

Os “donos de cachorro” se encantam com esses paradoxos. Veem no cachorro um avatar peludo e arfante, uma versão melhorada de si mesmos. E deles se apropriam, oferecendo-lhes vacina, coleira, ração, tosa e dois passeios diários em troca do amor maior que há no mundo (mãe perde) – da mesma forma como os exploradores trocavam miçangas espelhos e quinquilharias por ouro prata terras sem fim.

Donos de cachorro mentem (mentira 2) quando dizem que vão levar os cachorros para passear.

Cachorros não passeiam. Cachorros urinam e cheiram. O passeio é um meio, o instrumento do qual o cachorro tem que lançar mão (no caso, lançar pata) para poder urinar em vários lugares e cheirar tudo que estiver no raio de alcance da guia presa à sua coleira.

O passeio é uma mentira social que o suposto “dono de cachorro” inventa para não ter que assumir que apenas se presta a viabilizar as urinadas necessárias à comunicação olfativa do cachorro.

A mentira número 3 é a de que o cachorro é educado e só faz evacua na rua. Isso não é educação: é chantagem. Uma forma que o cachorro encontra de constranger seu humano a levá-lo para urinar e cheirar em locais onde essas atividades sejam mais estimulantes que na área de serviço ou na varanda.

E cachorro não evacua na rua: faz na calçada. De preferência, nas saídas de garagem ou diante de aglomerações, de modo que o ritual de enluvar a mão no saco plástico, se agachar e catar o dito cujo sejam devidamente apreciados por quem estiver saindo de casa ou esperando o ônibus.  É que o cachorro gosta de exibir o adestramento do seu “dono”, fazê-lo demonstrar suas habilidades (“Estão vendo o meu “dono”? Olhem os truques que ensinei a ele: Luvinha! Agachado! Catando caca! Carinha de nojo! Nozinho no plástico! Isso! Bom garoto!”).

Mentira 4:  tratamos cachorros como filhos. Jamais. Filhos são filhos, cachorros são cachorros. Filhos saem sozinhos; cachorros, não – do cachorro a gente cuida direito e não permite que corram riscos desnecessários. Filhos um dia se casam e vão cuidar da própria vida –  cachorros ficam para sempre.

Cachorros envelhecem conosco. Morrem nos nossos braços. Quando se vão, nos deixam de herança um pote vazio e uma coleira adormecida que são a própria Dor em forma de vasilha, o Desalento em fivela e fita.

A mentira 5 é a maior de todas:  a do “nunca mais”. Todos dizemos “Nunca mais quero passar por isso”. “Outro cachorro, nem pensar”. E daí a pouco lá estamos nós desviando o olhar na Feira de Adoção (desviando o olhar, não o coração). E um minuto depois fazendo contato visual com um filhote, um adulto sem rabo, um ancião de focinho grisalho.

Aí lá vamos nós de novo. De novo “donos” – do Tião, da Duda, da Luna, que não são mais que novas manifestações da Bené, do Negão, do Bento, do Luke e de todas essas versões melhoradas de nós mesmos – só que com pulga e soltando pelo, que ninguém é perfeito.

[Levei Cacau para ser sacrificada. Despedimo-nos longamente. Fiz uma foto dela –a última – na maca.

Saí da clínica repetindo o mantra da mentira 5, a do “nunca mais”. Mas não custava fazer mais uma tentativa, e Cacau reagiu à medicação. Dois dias depois, fui buscá-la, e me recebeu andando com dificuldade, mas andando – ela que chegara no meu colo. O mesmo olhar, a mesma respiração ofegante, o mesmo jeito de abanar o rabo como se não houvesse amanhã. Houve amanhã.

Substituí a mentira 5 pela 1, e voltei a mentir para mim mesmo que sou “o dono da Cacau”, como um dia fui dos seus pais, Negão e Benedita.

Cachorros são seres estranhos. Ao contrário dos seus “donos”, que os levam “para passear”, “fazer cocô na rua” e os tratam “como filhos”, eles não precisam mentir. Jamais.]

Recordando Velhas Canções (Quero morrer cantando)


(samba, 1934)

Compositor: Valfrido Silva

Quero morrer cantando um samba
No meio de uma roda bamba
Quero zombar da própria morte
Cercado das pequenas
Que me deram inspiração e forte

No outro mundo
Vão me rir e caçoar
E decida se matando em trabalhar
Pensando somente na riqueza
Sendo a vida mergulhada
Mergulhada na tristeza

Quero morrer cantando um samba
No meio de uma roda bamba
Quero zombar da própria morte
Cercado das pequenas
Que me deram inspiração e forte

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Varal de Trovas n. 615

 

Caderno de Premiados dos Concursos do Blog (Download)


Os Concursos do Blog homenageando A. A. de Assis (trovas líricas/ filosóficas, tema: Poeta/s) e Therezinha Dieguez Brisolla (trovas humorísticas, tema: Pinguço/s) encerrou-se com êxito. Os diplomas foram enviados aos premiados, e o caderno de premiados enviados para os premiados e não premiados. 

Caso tenha interesse em obter o caderno, pode baixar no link abaixo, em pdf, são 37 páginas.