quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Wilame Prado (Como é o nome do senhor?)

O velho e o moço na fila do caixa da farmácia. Sempre cheias, em Maringá. O velho se permite causar congestionamento no comércio puxando papo, e o jovem enrubesce, não quer que as pessoas de trás na fila se aborreçam. Ele, o próprio jovem, também não quer perder “preciosos” segundos daquela manhã de temperaturas amenas ouvindo o velho homem.

“Na minha época, vendia remédio em farmácias. Hoje, vendem até coca-cola!”, disparou o velho. “Só falta vender cerveja”, brincou o jovem, que estava em busca de um estomazil para amainar uma ressaca causada por sonhos intranquilos. “As cervejas do começo, a gente se deu bem”, lembrou, o jovem, do cancioneiro de Tim Bernardes, ele, um antenado na cena indie musical do século 21. Ele nunca leu Kafka.

“O que é aquilo?”, inquiriu o velho. “Energéticos, Redbull. Hoje em dia, as farmácias são mercearias”, concluiu o jovem entendedor de marcas e costumes contemporâneos da sociedade.

E pensou por milésimos de segundos: “Conheço a garota-propaganda dessa farmácia, antes ninguém dava nada por ela e hoje está aqui, acolá, no outdoor, nos comerciais da tv”, invejou o jovem, bem relacionado, conhecedor de modelos e modinhas.

A funcionária no caixa, mais jovem ainda que o próprio jovem da nossa história, optou por não doar sorrisos ao velho. Mas era tão linda, um pecado sem sorrir. E o sol começava a esquentar a vida de todos numa Maringá pós-Expoingá, todos, todos, aliviados com o término dos festejos tão apreciados pelos andejos.

“Meu primeiro emprego foi numa farmácia, eu tinha 10 anos de idade”, revelou sem ninguém perguntar o velho, orgulhoso por ser trabalhador desde a primeira infância.

Olhos úmidos, um boné da Cocamar na cabeça. As famosas coroas nos dentes. Duas canelas lisas de pelos. O tênis da caminhada. E o jovem, curioso, ávido, ligeiro, só teve tempo de ver um dos 3 itens comprados pelo velho: um tubo dental Sensodyne.

Sorrisos amarelos e a fila da farmácia-mercearia aumentando. O velho optou por não revelar os 11 dígitos do seu Cadastro de Pessoa Física para a Nota Paraná. “Se minha esposa estivesse aqui, ela pediria CPF na nota! Ela é assim (fez um gesto fechando a mão), não perde um centavo”, sorriu, fanfarrão, o velho. “Hoje em dia não volta mais nada nessa Nota Paraná”, concluiu o jovem, um antenado das coisas paranaenses, praticamente um Bicho do Paraná.

“Meu pai tinha terra, e então logo saí da farmácia para trabalhar com a terra”, confidenciou o velho. E o jovem tentando se desvencilhar, tal qual Evander Holyfield desviando da derrota fatal, dos punhos mortais de Mike Tyson.

Ele, o jovem, só queria encontrar 200ml de água mineral para fazer diluir o bicarbonato de sódio (1.854mg), carbonato de sódio (400mg), ácido acetilsalicílico (325mg) e ácido cítrico (1.413mg) contidos na esfera efervescente do medicamento adquirido com apenas duas notas de dois reais e que lhe rendeu moedas de troco.

“Tivemos que voltar para a cidade. Eu passei num concurso. Trabalhei 33 anos na mesma instituição. Não fiquei rico, mas tive uma vida boa. Hoje a minha principal tarefa é: fazer nada. Mas de vez em quando a gente faz levantamento de copo e de espeto, ao lado da churrasqueira. Vai com Deus, meu filho”, finalizou o velho, percebendo a coceira social, a fobia de ter de ouvir alguém mais velho numa fila da farmácia enquanto todos vestem as máscaras da pressa e da raiva nos rostos.

O jovem pensou só depois. Já havia passado a sua azia e ele nunca mais encontraria aquele velho bom de papo. Mas ele, órfão de pai, carente de avós, refletiu que talvez pudesse ter sido bom esticar a conversa com o estranho da farmácia. Qual empresa ele trabalhou como servidor de carreira? Como foi já ter encarado o batente aos 10 anos num balcão de farmácia numa Maringá cheia de terra e mata? Qual o segredo da vida? Ou, pelo menos: “como é o nome do senhor?”
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Wilame Prado nasceu em São Paulo/SP. É jornalista e cronista em Maringá (PR). Estreou na literatura em 2011, com o livro de contos “Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida?”.
Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 81 *


Trova de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

A esmola às vezes se "enfeita" 
com tinturas de vaidade, 
mas a caridade é feita 
de amor e fraternidade.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Pequeno voo de ave aprisionada
sonho diminuto na frustração das asas
asas aspirando ornamentar os braços
quando os pés estagnados no chão
são promessas alimentadas em ilusão.

Perece o sonho no voo adiado
no desabitar da casa da criança
deambulando pela rua sem direção
agrilhoado a um relógio sem horas
tendo apenas o caos urbano como vício.

Eis que se quebram as grades!
O canto do pássaro soa livre
como uma cristalina melodia alada.
Liberta-se o peso do corpo
projetando-se na imensidão
voo infinito nas asas da imaginação.
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Trova Humorística de
ZAÉ JÚNIOR
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Se tu buscas na partida
além do horizonte, a paz,
não fujas da própria vida,
que a vida sabe o que faz!
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Soneto de
ANÍBAL BEÇA
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Para que serve a poesia?

De servir-se utensílio dia a dia
utilidade prática aplicada,
o nada sobre o nada anula o nada
por desvendar mistério na magia.

O sonho em fantasia iluminada
aqui se oferta em módica quantia
por camelôs de palavras aladas
marreteiros de mansa mercancia.

De pagamento, apenas um sorriso
de nuvens, uma fatia de grama
de orvalho e o fugaz fulgor de astro arisco.

Serena sentença em sina servida,
seu valor se aquilata e se esparrama
na livre chama acesa de quem ama.
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Trova de
ADELINO MOREIRA MARQUES
São Paulo/SP

Do livro da minha vida
arranquei, com mão irada,
tua página, fingida...
...e a guardo toda amassada!
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Poema de
CÉLIA EVARISTO
Lisboa/ Portugal

“Meu”

Não estás,
mas tenho-te em mim.

Não te vejo,
mas fecho os olhos e estás aqui.

Não te toco,
mas ainda sinto o toque da tua pele.

No meu inconsciente
e na minha consciência também,
nunca te deixei ir.

Chamo-te de ”meu”,
em surdina,
nos meus sonhos mais íntimos
em que mais ninguém
me consegue ouvir.

És meu,
naquele instante,
sem pressas ou outras desculpas
que me impeçam de te ter
perto ou distante.

E mesmo que não queiras aqui estar,
não te deixo ir,
este é o teu lar.

Porque no meu coração és meu,
mesmo que não seja dona de nada,
nem de ninguém.
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Trova de
RITA MOURÃO 
Ribeirão Preto/SP

Nesta espera em que me farto
só dispenso a nostalgia,
é quando a porta do quarto
tua chegada anuncia!
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Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Nos tristes olhos mal sustenho o pranto
(João Xavier de Matos, in "Cem Sonetos Portugueses", p. 50)

Nos tristes olhos mal sustenho o pranto
Por ver como é tão pobre e diminuta
A alma que no peito trago enxuta
De trovas que lhe tragam novo canto.

Não tem razão de ser um tal espanto
Que ser pequeno é fado que me enluta
E, aos poucos, vai matando, qual cicuta
Que tomo pela mão do desencanto.

Ser pouco talvez tenha uma virtude
Se a alma o reconhece e não se ilude
Com sonhos de grandeza bem fadada.

No concerto do mundo todos cabem:
Mais vale o que de nós outros não sabem
Do que nós deles não sabermos nada.
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Trova de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ

Procura longa e constante,
num sempre querer achar…
Um sonho louco e distante,
impossível de alcançar…
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS

A Rua dos Cata-ventos (X)

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

"Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!"
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
"Que tédio!" o coro dos Amigos clama.

"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?"
Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:
"Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!"
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Trova de
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
Juiz de Fora/MG

Com carinhos redobrados,
numa gratidão sem fim,
vive sob os meus cuidados
quem sempre cuidou de mim.
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/ SP

Contraste

Tu és feliz, a vida é um paraíso,
onde há paz, ventura em profusão,
e a graça singular do teu sorriso,
– símbolo da Beleza e Perfeição!

Mas eu sou infeliz, pois já diviso
na luz do teu olhar, ingratidão,
e sem querer eu sinto que preciso
esquecer-te e viver na solidão.

Julgara que tu fosses, ó querida,
meu segredo, meu sonho, minha vida,
minha eviterna e santa inspiração…

Mas tu és assassina do meu sonho,
vives feliz e eu vivo tão tristonho,
sentindo que esta vida é uma ilusão!
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Poetrix de
JANAÍNA NEVES DIAS CESCATO
São Paulo/SP

Ciúme

Se nem sou mais seu lume
pra que prender num vidro
meu voo vagalume?
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

Eu pensava que viver era correr
Correr para um objetivo
Mesmo não sabendo bem qual.
Depois vi que quando corremos,
Não vemos nada à nossa volta,
Nem ao nosso lado
Fica tudo veloz, desfocado…
Agora penso que viver é caminhar
E bem devagar…
Olhar os pequenos pormenores da caminhada
Sentir o cheiro das plantas
Ouvir os pássaros
Saborear os momentos…
Ver como correm ainda algumas pessoas…
Como eu já corri sem saber bem para onde…
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TROVA POPULAR

Os teus olhos, pretos, pretos,
são como a noite cerrada...      
Mesmo pretos, como são,  
sem eles, não vejo nada.
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Hino de 
UMUARAMA/ PR

I
Quando em festa o futuro chegou
Com seu canto de luz sobre a mata
Toda agreste em beleza acordou
Qual semente que em flor se desata.

Um fremir de esperança ideal
Perpassou entre as nuvens e a rama
E se ergueu para a história, afinal,
Poderosa, a sorrir, Umuarama.

Estribilho
Umuarama, para frente, com trabalho e alegria.
Há nas mãos de tua gente fé, vontade e energias.
Essa força admirável que arrancou-te do sertão
Te impulsiona, insuperável, para a glória da Nação.

II
Umuarama, teu nome altaneiro,
É amizade num clima gentil
E transforma teu solo em celeiro,
Distribuindo fartura ao Brasil.

O esplendor de que o sol te reveste,
Um clarim sobre o mundo serás.
És bandeira triunfal que no Oeste
Abre a porta do teu Paraná.
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Trova do
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Bela estátua, a do poeta!
Drummond não vê - que ironia -
que cada onda inquieta
tem dom de musa e poesia.
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

Carícia

Carícia recebida com amor,
é redenção do espiritual ser,
buscando esta essência superior,
para nessa plenitude viver.

Os anseios sonhados não vividos,
recuperando a esperança, o ardil,
de muitos anos de um amor contido,
no verdor desse peito juvenil.

Pelos cuidados de uma mãe zelosa
que carícias quase não recebia
e pra os filhos seus traumas transmitia.

Aquela experiência dolorosa,
daquele amor que não lhe garantia,
toda carícia que ela merecia.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

A mulher, que é toda encanto, 
lembra a abelha, meiga e boa: 
dá mel gostoso; no entanto, 
se for preciso, ferroa!
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Lengalenga de Portugal
LAGARTO PINTADO

 Lagarto pintado, 
quem te pintou?
Foi uma menina 
que por aqui passou
 
Lagarto verde, 
que te esverdeou?
Foi uma galinha 
que aqui passou
 
Lagarto azul, 
que te azulou?
Foi a onda do mar 
que me molhou
 
Lagarto amarelo, 
que te amarelou?
Foi o sol poente 
que em mim pisou
 
Lagarto encarnado, 
que te encarniçou?
Foi uma papoila 
que para mim olhou
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

A verdadeira alforria
é aquela que estende as mãos,
unindo em plena harmonia
branco e negro, como irmãos.
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Alessandra Victória Bertoni (O Chamado do Poeta)

 (2. Lugar no Prêmio Literário "Euclides Bandeira")

Alessandra Victória Bertoni  
                                                  (Campo Mourão/PR)
O mundo gira em um caos incessante. Guerras dilaceram nações, discórdias dividem famílias, e o ódio se espalha como chamas em uma floresta seca. Em meio a gritos de revolta e palavras que ferem, parece que o silêncio da esperança foi sufocado. Mas é exatamente agora nesse cenário sombrio que o poeta deve se erguer.  

O poeta não é apenas alguém que escreve versos; ele é a voz da alma humana, o eco do que ainda há de bom em nós. Quando tudo parece ruir, é o poeta quem deve apontar para o horizonte e lembrar que há um caminho. Ele deve ser o arauto da paz, o tecelão de esperança, aquele que transforma a dor em propósito e a escuridão em luz.  

Nos momentos mais difíceis da história, foram as palavras de coragem e amor que reacenderam a chama da vida. Não é diferente agora. O poeta tem a missão sagrada de acalentar os que sofrem, de curar as feridas invisíveis do espírito, de mostrar que é possível um amanhã diferente. Ele deve lembrar ao mundo que, apesar de tudo, somos donos do nosso destino, e a luz que buscamos está nas escolhas que fazemos hoje.

Que cada verso seja um sopro de vida. Que cada palavra seja uma ponte para unir o que foi separado. Porque enquanto o poeta persistir, a paz sempre terá uma chance. E mesmo que o mundo pareça perdido, o poeta será a bússola, apontando o caminho para a esperança que jamais morre.

José Feldman (A Voz do Poeta na Tempestade)

 Texto Vencedor do Prêmio Literário "Euclides Bandeira"


Em meio ao caos que envolve o mundo, onde o som das bombas ecoa mais alto que o das canções, onde as palavras de ódio se espalham como veneno e as mãos que poderiam se unir se levantam em discórdia, o papel do poeta nunca foi tão urgente, tão essencial.

O poeta deve erguer-se acima desse tumulto, não por vaidade ou para ignorar a dor que nos cerca, mas para ser uma luz que atravessa a escuridão, uma voz que não aceita o silêncio imposto pelo medo. É ele quem deve desfraldar a bandeira da paz e da esperança em todos os cantos, mesmo nos lugares onde a violência parece eterna e a esperança, uma lembrança distante.

Porque, em cada verso, em cada palavra carregada de sentimento, o poeta tem o poder de acalentar os corações feridos. Ele pode lembrar ao mundo que, por pior que seja a tempestade, há sempre um amanhecer à espera. Que, mesmo quando o ódio parece ter vencido, o amor é uma semente teimosa, capaz de brotar até no solo mais árido.

O destino da humanidade está em nossas mãos. Não cabe aos líderes ou ao acaso decidir o futuro; somos nós, com nossas escolhas, nossos gestos e nossas palavras, que podemos redesenhar o caminho. Cabe ao poeta mostrar isso — cantar a força do perdão, exaltar a beleza da união, inspirar a coragem de recomeçar.

Que cada poema seja um abrigo, que cada palavra seja uma ponte entre corações. Porque, enquanto existir um poeta disposto a sonhar com um mundo melhor, haverá uma chance de encontrarmos a luz. E é essa luz que, um dia, poderá iluminar até os cantos mais sombrios da nossa existência.

José Luíz Boromelo (Janela indiscreta)

“Próximo...” A voz inquisitória faz andar a fila e aguça os olhares curiosos. A todo o momento a solicitação é repetida mecanicamente: “Data de nascimento”. Nesse momento a atenção se volta ao cliente da vez, obrigado a revelar dados pessoais em público. Tudo provocado pela onda de explosões a agências bancárias, obrigando as pessoas a suportarem filas intermináveis nos correspondentes bancários por todo o País. Entediado numa fila estática, observo a inquietação da mulher ao lado. Ela se mostra impaciente com a demora, procura algo na bolsa enquanto aguarda atendimento segurando um pacote de papéis. Finalmente chega sua vez. Atrapalha-se na apresentação das contas pendentes, retoma a sequência do pagamento e finalmente estabelece um denominador comum com a soma apontada pela funcionária. Ruboriza-se ao tentar ocultar a idade, falando baixo com as mãos em formato de concha. Teria quarenta e poucos anos, mas preocupava-se em aparentar bem menos, a julgar pela indumentária jovial. Morena de olhos verdes, pele lisa e bronzeada, comissão de frente surpreendentemente generosa apontando para o horizonte, óculos solar descansando sobre a cabeça, aparelho celular de última geração, roupas de grifes famosas, salto alto, acessórios multicoloridos, batom vermelho delineando os lábios, fala pausada e comedida, sem vícios de linguagem. Com o ambiente perturbadoramente silencioso, a plateia momentânea tomou pleno conhecimento das primaveras vividas pela distinta dama da sociedade, destoando da maioria dos demais mortais comuns, que invariavelmente trazem no semblante as marcas indeléveis da passagem do tempo.

Tento conviver com essa nova situação da melhor forma possível, incluindo no rol dos aborrecimentos diários a greve dos bancários e as casas lotéricas apinhadas de gente. Então, o jeito é aproveitar o momento para fazer uma autocrítica consciente, mesmo porque as comparações são inevitáveis naquele ambiente. Como é impossível não tomar conhecimento da idade das pessoas, só resta observar bem os estragos gravados no semblante (e no resto do corpo também). É o caso daquele senhor baixinho, cabelos ralos e brancos como neve, gestos apressados e óculos de fundo de garrafa ter somente 53 anos. Logo penso que estou bem na parada, com meus passados 54 e meio. Fiquei com uma pontinha de inveja do falastrão com capacete no braço, todo empertigado, que apesar da idade se gabava da artilharia isolada no campeonato amador (foi logo desmascarado pelo colega irreverente, pois a façanha teria acontecido em um churrasco de fim de semana). Ou da tia sempre solícita, exageradamente amável, que sem cerimônia alguma cedia sua vez na fila para alguma situação de emergência. Tinha também aquele casal 20 (certamente ambos com mais de 40), manipulando continuamente o aparelho celular, conversando entre si sem sequer desviar o olhar do teclado. E o exemplo do ancião que do alto de seus 81 anos, apesar dos apelos dos atendentes, fez questão de aguardar o atendimento na fila, pelo simples fato de que tinha todo o tempo do mundo e saúde suficiente para permanecer tranquilamente em pé por alguns minutos.

Depois dessas e de outras constatações, passei a reavaliar melhor meus reclames ao ocupar um lugar nas filas imensas. Agora tento juntar paciência até ser atendido, sem, no entanto, deixar de observar o que acontece ao redor. Porque, por mais que se tenha consciência das limitações naturais que a idade lentamente impõe aos cinquentões, sessentões ou setentões de plantão, sempre existe a possibilidade de novas analogias. Então, quando instado, deixo o constrangimento de lado e procuro ser o mais audível possível: “Vinte e cinco de março de mil novecentos e sessenta e dois...”
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José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Baú de Trovas * 4 *


29
Benditos são os mecenas!
Não deixam a arte morrer!
São os pilares das cenas
na cultura e no saber!
Abílio Kac
Rio de Janeiro/RJ

30
Quem não aprende em menino,
tem que aprender na velhice,
que ter pai pobre é destino
mas sogro pobre é burrice!…
Aloisio Alves da Costa
Umari/CE, 1935 – 2010, Fortaleza/CE

31
Para que tanta igualdade
nesta partilha de amor?
- Fique com tudo: a saudade,
esta tristeza e esta dor!
Antonio Carlos Rodrigues
Rio de Janeiro/RJ

32
Diz o velhote à mocinha,
mal disfarçando o cansaço:
"Eu já te guardo, todinha,
no fundo do marca-passo!"
Antonio Carlos Teixeira Pinto
Brasília/DF

33
As paredes que sustentam
meus sonhos, meus ideais,
são tão sólidas que aguentam
os mais fortes vendavais!
Antonio Siécola Moreira
S. Rita do Sapucaí/MG

34
Esse mesmo pai que um dia
Deus me ofertou ao nascer,
é o pai que eu escolheria,
caso pudesse escolher!
Carolina Ramos
Santos/SP

35
Na esperança verde e bela
há o otimismo de luz.
Se a porta fecha, a janela
se abre em paz e o sol reluz!
Dinair Leite
Paranavaí/PR

36
Minhas mágoas disciplino
com a força da oração:
tenho um médico divino
que jamais deixa o plantão!
Elbea Priscila S. Silva
Caçapava/SP

37
Qual um pastor diligente
cuidando do seu rebanho,
pastoreio no presente
minhas saudades de antanho!
Gutemberg L. Andrade
Fortaleza/CE

38
Galgo nuvens montanhosas,
sou na vida um alpinista;
mesmo em trilhas perigosas,
busco os sonhos da conquista.
Jessé F. Nascimento
Angra dos Reis/RJ

39
Sentimento? Que universo
de verdade e imaginário!
Mundo de verso e reverso;
formidável relicário!
João Bosco dos Santos
Salvador/BA

40
Sob a marquise silente
sem futuro, ao rés do chão,
dorme o menino carente,
sem lar, sem porvir, sem pão!
José Valdez C. Moura
Pindamonhangaba/SP

41
Queres definir o amar?
Dentro de minha visão
amar é não precisar
jamais pedir perdão!
Loris Turrini
Tremembé/SP

42
Cidade dos passarinhos,
Arapongas, Paraná.
Aqui se constroem ninhos
que a todos acolhem cá!
Maria Granzoto
Arapongas/PR

43
Quando novos, nós dizemos
que o tempo é detalhe à toa.
Só mais tarde percebemos
que ele passa...e não perdoa!
Maria Helena O. Costa
Ponta Grossa/PR

44
O presente mais bonito
fui eu mesma que me dei:
num momento de conflito,
dei-me a paz… e perdoei.
Maria Ignez Pereira
Mogi-Guaçu/SP

45
Volte agora com vontade,
ser o amor que me encantou.
traga consigo a saudade.
que ao partir, você deixou!
Maria Luíza Walendowsky
Brusque/SC

46
Paciência é necessário
quando meus versos escando:
os dedos viram rosário
e pensam que estou rezando!
Maurício Leonardo
Ibiporã/PR

47
Num relógio, vendo a hora,
no outono de minha lida,
vejo que não há demora
no ocaso de minha vida!
Mauricio N. Friedrich
Porto União/SC, 1945 – 2020, Curitiba/PR

48
Quem tem coração de paz
vive de culpa liberto,
porque faz do bem que faz
um céu de sol mais aberto!
Nilton Manoel de Andrade Teixeira
Ribeirão Preto/SP, 1945 – 2024

49
Revendo entulhos e tacos,
na tapera dos meus sonhos,
chorei por ver tantos cacos
dos meus dias mais risonhos!
Professor Garcia
Caicó/RN

50
No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!
Selma Patti Spinelli
São Paulo/SP

51
No poente desta vida,
já sentindo os membros lassos,
eu desisto da corrida
e me abrigo nos teus braços.
Zeni de Barros Lana
Belo Horizonte/MG

Sammis Reachers (Saudade da infância primordial ou (d)a alegria do dia primeiro)


Há algo, instância ou substância, ou um amálgama das duas, de que a infância é cheia. Nascemos com (n)esse estado-substância, meio mítico, meio divino, que rescende a Criação, a Éden, a inauguração das alegrias de Deus. E daí o que fazemos é perder tal situação-potência, vê-la diluir-se nos dias, na transumância da vida social, seus tratos e contratos. Ou a entropia não violaria as almas?

E o resto da vida, dos homens ao menos, pois percebo uma imunidade natural em muitas mulheres, é correr atrás desse vento que se foi, e que, não tendo forma e pior, nome, nos escapa pelo bueiro do inominável.

Há formas de contrabandear fagulhas, muito fagulhas e algo falsificadas, do referido sentimento. Este coleciona brinquedos; aquele, repassa velhos filmes, de ano em ano; eu escrevo poemas.

Não é a orfandade do Éden, que fulmina homens, mulheres e até a animália do campo; é algo mais específico, que adentra o Éden até um ponto inicial, um monturo de barro; é orfandade do PRIMEIRO DIA.
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Sammis Reachers Cristence Silva nasceu em 1978, em Niterói/RJ, mas desde sempre morador de São Gonçalo/RJ, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Licenciado em Geografia atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É autor de dez livros de poesia, três de contos/crônicas e um romance, e organizador de mais de cinquenta antologias.  Aos 16 anos inicia seus escritos e logo edita fanzines, participando do assim chamado circuito alternativo da poesia brasileira, com presença em jornais e informativos culturais. Possui contos e poemas premiados em concursos do Brasil, bem como textos publicados em antologias e renomadas revistas de literatura.
Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing