quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 90 *


Soneto de
JOÃO BATISTA XAVIER OLIVEIRA
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP

O pedestal do horizonte

Quando me vejo aqui, no pedestal
onde a lida acalenta e se faz luz,
a vitória cintila no portal
e desintegra a treva que seduz.

Conseguir algo mais, travar o mal,
vislumbrar no crepúsculo, conduz
sentimento de força sem igual
na vereda luzida por Jesus.

Volver à luz que brilha no horizonte
mostrando o caminhar em forte ponte
é a mesma luz que brilha a todos nós...

bastando simplesmente a coerência
na busca da lavoura em consistência.
Seremos então livres, jamais sós!!
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Poema de
CHARLES-PIERRE BAUDELAIRE 
Paris/França (1821 - 1867)

Uma Gravura Fantástica 

Um vulto singular, um fantasma faceto,
Ostenta na cabeça horrível de esqueleto
Um diadema de lata, - único enfeite a orná-lo
Sem espora ou ping' lim*, monta um pobre cavalo,
Um espectro também, rocinante esquelético,
Em baba a desfazer-se como um epitético,
Atravessando o espaço, os dias lá vão levados,
O Infinito a sulcar, como dragões alados.

O Cavaleiro brande um gládio chamejante
Por sobre as multidões que pisa rocinante.
E como um grã-senhor, que seus reinos visite,
Percorre o cemitério enorme, sem limite,
Onde jazem, no alvor d'uma luz branca e terna,
Os povos da História antiga e da moderna.
(Tradução de Delfim Guimarães)
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Ping'lim ou Pingalim = espécie de chicote.
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Poema de
CASTRO ALVES
Freguesia de Muritiba (hoje, Castro Alves)/BA (1847 – 1871) Salvador/BA

A Volta da Primavera

AI! Não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores.
Vegetam louros — na caveira esquálida
E a sepultura se reveste em flores.

Bem sei que um dia o vendaval da sorte
Do mar lançou-me na gelada areia.
Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio — e tu serás Haidéia!

Pousa esta mão — nos meus cabelos úmidos!...
Ensina à brisa ondulações suaves!
Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos!
Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!

Já viste às vezes, quando o sol de maio
Inunda o vale, o matagal e a veiga?
Murmura a relva: "Que suave raio!"
Responde o ramo: "Como a luz é meiga!"

E, ao doce influxo do clarão do dia,
O junco exausto, que cedera à enchente,
Levanta a fronte da lagoa fria...
Mergulha a fronte na lagoa ardente ...

Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante,
Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,
Não vês minh'alma reviver ovante?

É que teu riso me penetra n'alma —
Como a harmonia de uma orquestra santa —
É que teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!

Que eu digo ao ver tua celeste fronte,
"O céu consola toda dor que existe.
Deus fez a neve — para o negro monte!
Deus fez a virgem — para o bardo triste!”
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Quadra Popular

Você diz que vai, que vai,
e não leva eu também.
Esta é sua ingratidão,
não é de quem quer bem.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Desprezado

Teu desprezo maltrata, é pungente.
Dói demais ver minguar nossa flama,
Confessando a saudade que sente,
Coração lacerado te chama.

Feneceu meu olhar rutilante,
Por negrume é cingido o poema,
Essa angústia é demais sufocante.
Esperar, esquecer... Oh, dilema!

Tua boca tão doce, macia,
Os momentos de amor, fantasia,
São lembranças em mim tatuadas.

Sofro tanto sem norte, à deriva,
Torturante, o pensar traz a diva,
Companheira de intensas jornadas.
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Folclore Brasileiro em Versos de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

A Mula Sem Cabeça

No campo sombrio, um lamento se faz angustiante,
Mula sem cabeça, um destino a vagar,
na floresta escura, no silêncio, errante,
ecos de um amor que não pode voltar.

Noite de sofrimento, de fogo a brilhar,
na escuridão, sua forma a percorrer,
em cada relâmpago, um grito a ecoar,
lembranças de vida que não podem ceder.

Mas quem a avista, deve ter temor,
pois a sombra da noite traz consigo a dor,
em busca de paz, sua alma a clamar,

e entre os mistérios, a história a contar,
que amor e desatino podem levar à dor,
e na lenda da mula, um eterno clamor.
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Soneto de 
ALFREDO SANTOS MENDES
Lisboa/Portugal

A meia laranja

Senti meu coração alvoroçado,
Bater desordenado no meu peito.
Impávido fiquei! Fiquei sem jeito!
Que raio o pôs assim em tal estado?

Olhei em meu redor, desconfiado.
Senti-me desolado, contrafeito!
Por não compreender, a causa efeito,
Que o pusera a bater descontrolado!

Tive depois, a estranha sensação.
Que me tinham aberto o coração,
E dentro dele, alguém se aboletava!

Aos poucos o meu ser se aquietou.
Pois percebeu, que o ser, que se alojou…
Era a meia laranja que faltava!
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Soneto de 
RENATO SUTTANA
Barroso/MG


 Que gastes lá teu ouro, teu minuto,
teu grama de progresso, teu punhado
de futuro – antevisto, calculado,
todo pejado de valor e fruto;

 que lá queiras chegar, de olho impoluto,
como quem leva a urgência de um recado,
insone, mas cumprindo algum mandado,
por força do insondável, do absoluto;

 que lá passes um dia, um mês, um ano
(quem sabe a vida inteira), convencido
de que encontraste a pista, o portulano,

 e de que lá não entras por abuso
e não és, sem estirpe e sem partido,
mais que um indesejável, um intruso.
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Spina de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Aos Primeiros Raios Solares...

Páginas em branco
rumam em silêncio 
abrindo as janelas, 

descortinando o novo dia azul.
Repleta de paz sou esperança,
em linhas retas, sou paralelas. 
Sem pensar no amanhã, verso
risos ou prantos, sem mazelas.
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Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Mudança por amor

Mandei tirar sem dó toda a argamassa
Que recobria o chão do meu quintal
E em seu lugar, tal qual fosse uma praça,
Formei maravilhoso roseiral.

E para a minha casa ter mais graça
Forrei de primavera o seu beiral
E, junto aos muros, onde o mato grassa,
Eu pus planta de fruta e ornamental:

Ameixeira, pitanga e goiabeira,
Que ali mantêm as aves e os seus ninhos
Em explosões de cantos de alegria!

E quero ver se assim dessa maneira
Agrado a minha amada e os passarinhos,
E faço bem ainda à ecologia!
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Hino de 
TIJUCAS DO SUL/ PR

Foi Ambrósios teu nome primeiro.
Deslumbrante beleza: ó Saltinho!
Do Estado és grande celeiro;
Guardas lago, floresta e ninho.

ESTRIBILHO
Salve! Salve! Tijucas do Sul!
Tabatinga, florestas e flores.
Protegida pelo manto azul,
De Nossa Senhora das Dores!

É chamado depois Aruatã.
Erva-mate e madeira de lei
São riquezas e teu talismã.
Os sinais de valor nessa grei.

És Tijucas do Sul - Paraná
Tens história na Revolução!
Na memória do povo ainda está
Grande glória pra toda nação.

Tijuquense, és povo leal!
Teu esforço e trabalho é sucesso.
E a resposta do teu ideal
É um futuro de pleno progresso!
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Poema de
IVAN LAUCIK 
Liptov/Eslováquia (1944 – 2004)

Anotação de Fim de Tarde

 Nada importa, dizem-te pela manhã:
E tu (vês-te obrigado) duvidas destas palavras todo o dia.

Resiste, entretém os peixes,
canta-lhes em voz alta sobre a ponte...
Os momentos de alegria quase te envergonham:
As distâncias convenientes, relações de altura e profundidade,
os invernos curtos, vento em conta para os moínhos -
e um tempo longo coberto
de ornamentos de ferro!
(Os livros de Lógica estão gastos
pelas mãos e pelo suor!)

Alguém que ouve mal embriaga-se de palavras:
o futuro pertence apenas aos helicópteros silenciosos,
capazes de aterrar na palma da mão.
(Haverá palma da mão?) E continua em sonhos
a separar-se o comestível do que não presta.

Sim, chegam-nos plantas cheias de entusiasmo.
Mas não é por isso que a folha artificial é menos verde.

Assim os incrédulos valorizam a fé.
Os infalíveis esperam ser salvos pelos nossos erros.
Os vivos sabem
que tudo importa
desde manhã.
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Triverso de
DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR

Montanha que brilha
a louça lavada
empilhada na pia.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Carnaval

Eis que de novo chega o Carnaval
para trazer, talvez, muita alegria,
às multidões que sofrem de algum mal
e podem ingressar na fantasia...

Vivem momentos só de alegoria,
num transe enfático, sensacional,
e buscando, num passe de magia,
aliviar o desejo sensual...

Cantam e dançam, plenos de calor,
demonstrando a maior felicidade,
neste evento de cálida paixão...

Por toda a parte a Festa do Esplendor
penetra os corações, e na igualdade,
congregando os cultores da Ilusão !
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Recordando Velhas Canções
DEUSA DO ASFALTO 
(samba-canção, 1959) 

Um dia sonhei um porvir risonho
E coloquei o meu sonho
Num pedestal bem alto
Não devia e por isso me condeno
Sendo do morro e moreno
Amar a deusa do asfalto.

Um dia ela casou com alguém
Lá do asfalto também
E dizem que bem me quer
E eu triste boêmio da rua
Casei-me também com a lua
Que ainda é a minha mulher

É cantando  que carrego a minha cruz
Abraçado ao amigo violão
E a noite de luar já não tem luz
Quem me abraça é a negra solidão

É, é, é, ééé cantando que afasto do coração
Esta mágoa que ficou daquele amor
Se não fosse o amigo violão
Eu morria de saudade e de  dor.
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Newton Sampaio (Pensão familiar)

Era uma novidade aquela pensão. Damião pensa que, se algum dia desse pra escrever romances, teria material de sobra. Só a dona Amélia valia uma novela. E daquelas bem complicadas. Bem cheias de notícias freudianas. E de outras notícias igualmente vergonhosas. Damião não suporta devoção tamanha. Mulher solteirona, beirando os quarenta — que aprecia demais estar entre rapazes, e vive na igreja, rezando sem parar, e cuida de numerosas obras piedosas, eficientes ou inúteis — é mulher estragada pelos recalques e digna, por conseguinte, de piedade. É mulher que procura encher, com devoções exaltadas, o vazio de glândulas insatisfeitas.

 Quando Damião diz isso ao Gilberto, o Gilberto acha que Damião é um sujeito substancialmente imoral. São pontos de vista. Damião é substancialmente sincero apenas.

 Outro caso curioso: o Mendonça Neto. Curioso, mas triste. “Um psicótico sem lesão cerebral”, como diz Gilberto, que anda mastigando Maurice de Fleury, Achilies Delfas etc. Mendonça Neto supõe-se cidadão excepcional. Anda sempre às voltas com gente graúda. Raro o dia em que não pede ou recebe telefonemas. Ninguém sabe o que se fala do lado de lá da linha. O fato é que Mendonça Neto, a princípio, responde coisas banais. E, depois, solta afirmações terríveis: “Prometi escrever um artigo violento a respeito”. “Mas eu resistirei. Veremos quem tem mais prestígio”. “O ministro então me perguntou”. “Nós nos veremos hoje, na câmara, não é assim?”

Foi o Gilberto quem lhe descobriu a deixa. O rapaz, quando atende qualquer conhecido ao telefone, conversa sobre o assunto desejado. E logo que o interlocutor se despede e interrompe a ligação, Mendonça Neto em vez de dizer “até logo” resmunga qualquer coisa, e continua a falar sozinho contando proezas magníficas. Faz assim porque sabe que, da sala de jantar contígua, todos o escutam, obrigatoriamente.

 Damião se lembra daquela célebre viagem a Minas. Mendonça Neto anunciou:

 — Vou a Belo Horizonte numa viagem rápida de suprema gravidade para o meu jornal.

 E ausentou-se, de verdade, por três dias. Mas, em vez de tomar o noturno, foi descansar na chácara do tio, no outro extremo da cidade...

 Damião sorri quando se lembra disso. Tem pena do Mendoncinha. Como tem pena do seu Neves, que sofre de uma doença muito feia. Gilberto gosta de explicar:

 — É doença de Parkinson, também chamada paralisia agitante. Caracteriza-se por uma rigidez muscular, fácies figé (como dizem os franceses) e tremblement, mas sem supressão da faculdade vocal.

 E, quando os ouvintes são hóspedes recentes, ainda completa com ares de professor da Sorbonne:

 — Foi outrora considerada como uma nevrose. Mas não o é. Provém de lesões microscópias dos núcleos cinzentos do cérebro. Quanto ao tratamento do tremblement (ele aprecia muito este termo), pode ser feito com bromidrato de geopolamina, por exemplo, quer em injeções subcutâneas, quer por via oral.

 No entanto, o Neves continua a sofrer, bem em frente da sabedoria do acadêmico de medicina. Ainda bem que a dona Virgínia, esposa amorosíssima, não larga o doente. São casados desde muito tempo. Tiveram um filho que morreu com 22 anos (dona Virgínia fala no filho e chora).

As refeições é que são engraçadas. Damião quase não fala. Escuta, apenas, as peripécias do Mendoncinha, a ciência do Gilberto, o vozeirão do Cardoso. E observa o Neves tremendo, dona Virgínia o servindo, a piedosa Amélia comendo depressa pra alcançar a novena, a mocinha magra conversando com o irmão, o tenente curtindo ciúmes da mulher e dona Emerenciana dando ordens ao garçom. 

No cérebro do Damião se repete a ideia:

 — No dia em que eu quiser escrever um romance, tenho material de sobra.

 Na sala da frente, as moças da casa recebem visita, com cerimônia ensinada, a capricho, pela mãe. Dona Emerenciana não quer, nem de longe, que Carmita e Guguti pareçam filhas de dona de pensão.
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Publicado originalmente em O Dia. Curitiba, 20/12/1936.
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Newton Sampaio natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938,  foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras:  Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.

Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.
Biografia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Newton_Sampaio
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 89 *


Poema de
CZESLAW MILOSZ 
Seteniai/Lituânia, 1911 – 2004, Cracóvia/Polônia

Tão Pouco

Disse tão pouco
Dias curtos.

Dias Curtos,
Noites curtas.
Anos curtos.

Disse tão pouco,
Não tive tempo.

O meu coração cansou-se
Do êxtase,
Do desespero,
Do zelo,
Da esperança.
A boca do Leviatã
Engolia-me.

Deitava-me nu junto ao mar
Nas ilhas desertas.

Arrastava-me para o pélago
A baleia branca do mundo.

E agora não sei
O que foi verdade.      
(tradução: Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves)
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Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Ter razão

“Ninguém por ter razão já foi ao céu”!
Eu não duvido disso, pois de fato
Nada vale fazer louco escarcéu,
Se barulho não é prova do que é exato!

Quem teima pode ir é ao beleléu...
É um Infeliz com orgulho caricato,
Que o faz tão só ser dono de um troféu
De convencido, tolo e até insensato!

Impor nossa razão só por vaidade
E a qualquer preço, hora e até lugar
Talvez seja a maior boçalidade!

Importa é ter amor! Não, ter razão!
Vale a pena esta regra ponderar:
O amar faz muito bem ao coração!
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Poema de
ULLA HAHN
Brachthausen/Alemanha

Pré- Escrita

 Esta Saudade
de te chamar pelo nome
Este receio
de te chamar pelo nome

 Esta saudade
de manter a palavra
Este receio
de apenas manter a palavra

 Esta saudade de uma vida
que não dê em poema
Este receio de um poema
que antecipe a vida.
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Hino de 
SÃO JOÃO DE MERITI/ RJ

Desejando a lei conceber o progresso
De ver o Sol renascendo maior,
Fez ir ao berço da mãe gentil
São João transformado em cidade.
Do passado é memória na história presente
Para tecer um futuro melhor.
Continuamente, nosso dever
É guiá-lo crescendo e avante.

São João de Meriti é o nome da terra que louvamos!
O povo meritiense com áureos lauréis honramos!
Se tiver que partir eu irei onde a vida decidir!
Mas em meu coração levarei a bandeira de Meriti!

Sobre o chão dos "Tamoios" virou "Freguesias",
Nas sesmarias de "Iguaçu",
A produzir finas iguarias
Levadas nas águas do rio.
Tal labor construiu sobre tua presença
Templos à pura e exata razão
Enaltecendo a doce emoção
De quem ama, trabalha e pensa.

Que teu céu guarde o voo da sã liberdade
E que teu solo a permita correr.
Fartas virtudes possam chover
Sobre nossa querida cidade,
Pois ao imaginar não haver mais saída,
Quando a luz do final se apagar,
Quero chorar do amor que te sinto
Ao ver teu brasão acendendo.
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Recordando Velhas Canções
ACALANTO 
Elomar Figueira Melo 
(Vitória da Conquista/BA)

Certa vez ouvi contar
 Que muito longe daqui
 Bem pra lá do São Francisco, ainda pra lá...
 Em um castelo encantado,
 Morava um triste rei
 E uma linda princesinha,
 Sempre a sonhar...

Ela sempre demorava
 Na janela do castelo
 Todo dia à tardezinha, a sonhar...
 Bem pra lá do seu castelo,
 Muito além, ainda mais belo,
 Havia outro reinado,
 De um outro rei.

Certo dia a princesinha,
 Que vivia a sonhar
 Saiu andando sozinha,
 Ao luar...

E o castelo encantado
 Foi ficando inda pra lá
 Caminhando e caminhando,
 Sem encontrar.

Contam que essa princesinha
 Não parou de caminhar,
 E o rei endoideceu,
 E na janela do castelo morreu,
 Vendo coisas ao luar.
= = = = = = = = =  

Folclore Brasileiro em Versos de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

A Cuca

Na noite enluarada um sussurro a soar,
a Cuca, a bruxa de olhos de fogo,
com seu manto escuro vem te atormentar,
dos sonhos das crianças é o eterno jogo.

Sonhos se desfazem sob seu olhar frio,
e o medo se espalha como sombra a dançar,
levando os inocentes ao mais profundo vazio,
na teia da noite, ela vem se enredar.

Mas sob a maldade há um lamento a ecoar,
histórias esquecidas de um amor a vagar,
que, mesmo em pesadelos busca a liberdade,

e assim, a Cuca tem sua dualidade,
guardando em seu ser um profundo pesar,
entre sonhos perdidos ela vai se ocultar.
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Poema de
ANTÓNIO GEDEÃO 
Lisboa/Portugal, 1906 – 1997

Dez reis de esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingênuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aquarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras seletas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
= = = = = = 

Triverso de
ÁLVARO POSSELT
Curitiba/PR

Aqui tudo pode.
Até a cabra
fica de bode.
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Soneto de
ALFREDO GUISADO
Lisboa/Portugal, 1891 – 1975

Ela, em meu sonho

Ela vivia num palácio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.
 
As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pousando, trêmulas, frias,
nas cordas, a sonharem melodias…

E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegavam, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.
 
É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.
= = = = = =

Poema de 
LORENZO OLIVAN
Cantábria/ Espanha

O Guardião de si mesmo

Escondido em algum dos ângulos
do pensamento, oculto no seu matagal,
fico de vigia durante a noite.
Quero julgar com nitidez a linha
indefinida que separa sempre
a vigília do sono.
Quero saber que porta
a minha mente tem de atravessar,
que sombra aos poucos cai ou sobe
do alto de do profundo,
de que porção de mim terei que desprender-me
e que porção saberá
atravessar o leve umbral comigo.

Hoje o sono não vai poder vir de luvas brancas,
não vai roubar a minha casa impunemente,
vou aprender as suas artes,
vou vê-lo penetrar silencioso
pela porta de trás da consciência.

Assim fico de vigia
e guardo, com olhos bem fechados,
a minha interior escuridão
debaixo da noite escura.

Nada se move, só o pensamento,
cansado dos círculos que tem de
descrever durante o dia. De que parte
do negro infinito virá o sono?
Onde, onde essa linha?

O sol da manhã dá no teu rosto.
Náufrago de ti mesmo,
levanta-te Ulisses.
Que recordas da viagem?
Irónica, a luz atira sobre ti
uma sonora gargalhada.
(Tradução: Joaquim Manuel Guimarães)
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Feridas

Abri a gaveta das lembranças
Tirei tudo o que dentro estava.
Fechei todas as portas e janelas,
Não queria que elas saíssem por ai,
Para espalhar minha história.
O mundo está cheio
De palavras inúteis.
Que não servem para nada.
Não enobrecem a vida.
Preciso agora descobrir
Os segredos da alma:
Curar, ungir, suturar feridas…
Sutis, apodrecidas.
Dobras doentes
Procurando refrigério,
Procurando alento,
Na simples carícia
Do toque do vento…
Depois, com carinho, guardo-as novamente,
Na última gaveta da minha mente.
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Leonardo da Vinci (A Amoreira)

A pobre amoreira não suportava mais aquilo. Agora, que seus galhos estavam novamente carregados de amoras, os insolentes melros bicavam e estragavam todos os ramos com o bico e com as patas.

- Por favor - suplicou a amoreira, dirigindo-se ao melro mais importuno - poupe ao menos minhas folhas! Sei que vocês gostam muito dos meus frutos, que são seus preferidos. Porém não me privem da sombra de minhas folhas, que me protegem contra os raios do Sol. E não me estraguem com as patas, não arranquem minha casca macia.

A essas palavras o melro, ofendido, respondeu:

- Silêncio, sua mal-educada! Você não sabe que a natureza fez você produzir essas frutas apenas para me alimentar? Não sabe, sua estúpida, que quando chegar o inverno você vai servir apenas para alimentar o fogo?

Ao ouvir essas palavras a amoreira pôs-se a chorar baixinho.

Algum tempo depois o insolente melro caiu numa armadilha preparada por um homem. A fim de construir uma gaiola para o pássaro, o homem cortou os galhos de uma sebe, e coube à amoreira fornecer a madeira para as barras da gaiola.

- Oh! Melro, disse a amoreira - ainda estou aqui. Quando você era livre vinha me importunar, e agora são meus galhos que impedem sua liberdade. Ainda não fui consumida pelo fogo, como você disse que ia acontecer. Você não me viu queimada, mas eu estou vendo você prisioneiro.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual..

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Carina Bratt (Como pequenas farpas de uma alma em silêncio)

“De repente, das lágrimas dos meus olhos, meu mundo se fez pequeno dentro do beijo que você me deu”.
Aparecido Raimundo de Souza (de Viagem imersiva) 

Quase carnal
Na noite silenciosa a lua, em desespero, fustigou o bambu.

Morte
A chuva no asfalto refletia luzes vermelhas sem ninguém por perto.

Amanhã sem talvez
Meu grito derreteu no vazio da madrugada um porvir obscuro.

Sem eira nem beira
Suas palavras cortantes no silêncio que sangrou, me tiraram do sério.

Elevador
A porta se fechou, rostos se prenderam no abismo. Desci sem saber.

Nuvem passageira
Uma sombra ao acaso desliza sobre meu rosto distraído.

Tempo roubado
A mesa estava pronta. Os pratos alinhados. Copos desfalecidos refletiam o silêncio que ocupava uma cadeira.

Nascitura 
O quarto ainda guarda o cheiro dos brinquedos e o som do choro de uma criança que sempre se repete.

Rotina enervante
Tudo por aqui vive num instante que não volta, mas também não se vai.

Quase eterno
Na mesa o lugar continua posto. Não por hábito, mas por uma esperança teimosa de que o impossível se desfaça.

Acredite se quiser, mas... 
Aqui, mesmo, no luto que me invade, há uma memória que pulsa. Não é consolo. É presença invisível que insiste em ser amor.

A dor de não ser vista
Seu olhar me atravessa como se eu fosse feita de vidro. Virei uma espécie de ausência imorredoura.  

Ad aeternum
O seu adeus sem raiz cresceu no solo árido do meu silêncio.

Ausência sentida 
Mãos acolhedoras não vieram no dia do meu tropeço. Nem mesmo o vento...

Fatal
No escuro da solidão não ouvi a voz amiga para me dizer: ‘vai ficar tudo bem.’

Eco sem adeus
No rosto envolto da lembrança o relógio da sala parou cedo...

Pergunta vã
Cadeira vazia entre risos disfarçados – cadê você?!

Prematura
Morte inesperada. Faltou alguém no velório.

Em vão
Choro sem colo no vazio da madrugada. Ninguém me ouviu.

Ainda assim...
Estou aqui, mas não me vejo. Meus passos ficaram sem som, meus gestos não deixaram sinais. Virei presença sem impacto, me fiz ausência viva.

Aconteceu bem assim...
Tarde demais, veio o brilho enfeitar teus olhos – como primavera exausta. 

Parede calada
Na moldura vazia o tempo não quis te lembrar...

Meio que inesperado
Seus olhos se fecharam e o meu mundo desmoronou em silêncio. Minha alma virou vertigem. 

Como se fosse algo irreal
Na brisa da manhã as folhas dançaram na varanda. E o sol afugentou meus medos. 

Saudade
É como algodão. Paira leve sobre meu peito sem pedir licença.

No lençol amassado  
Teu perfume insiste em não deixar meu corpo.  

Meu amor que partiu
Deixou meu olhar preso na janela olhando o tempo.

Raios no escuro
O futuro se desenha sem revelar cores.

De uma semente no chão
O meu amanhã já respira antes de nascer.

Destino traçado
Tentei fugir de mim. Tropecei em nós dois.
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CARINA BRATT nasceu em Curitiba/PR. Trabalha como secretária particular e assessora de imprensa em Vila Velha/ES. Escreve crônicas em uma coluna denominada "Danações de Carina" para um site de Portugal.

Fonte:
Texto enviado pela autora, 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing