segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 98 *


Quintilha de 
CAILIN DRAGOMIR
Timișoara, Romênia

Amanhecer

O sol se ergue no horizonte,  
pintando o céu de ouro e rosa,  
as sombras se dissipam lentas,  
amanhecer é magia,  
renovação que se apossa.
= = = = = = 

Soneto de
LUIZ POETA
Rio de Janeiro/RJ

Caricaturarte

Perdoa, amigo, mas... enquanto eu me voltava
para os encantos que movem a poesia,
não reparei o teu olhar que captava
alguns detalhes da minha fisionomia:

Nariz adunco, riso sério... um violão,
olhos puxados, uma boina italiana,
camisa simples, velha barba... um bigodão...
Como Camões, fui muito além da Taprobana.

Fiquei, confesso, tão feliz, pus na moldura
A tua arte espontânea, amiga e pura,
Para que todos possam ver que a amizade

Pode mostrar, numa bela caricatura,
O quanto a vida que às vezes é tão dura,
Faz da ternura, a luz da fraternidade.
= = = = = = 

Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Amor único

Amor do passado,
Do presente
Que dobra as falas do tempo
Em um origami,
Inebria-me,
Semeando em mim teu néctar
Em gotas de vento
E, com tuas cores despenteia
Meu cabelos...
Um amor único
Que enquanto
Acaricia minhas mãos
Beija-me com a doçura
Do teu sorriso...
Um amor único
Imensurável
Intenso e misterioso
Permanece
Na quietude
E, na troca de carinhos -
Centelha que inunda
A fonte dos desejos
Do amor que se fez,
Intensamente,
Belo e inesquecível...
= = = = = = 

Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Escada para o céu

Escrevo um poema com toda a urgência
Escrevo com poesia
Sem regra e sem lógica

Preciso escrever o poema perfeito!!!
Re-produzir a vida sem regra
Re-escrever a vida
Sem crase...
Sem vírgula...
E sem ponto final

Escrever o poema perfeito
Com poética!
Milimetricamente errado
Em uma mimese
Que não imita nada

Re-produzir o vazio dentro de mim
Nas belas-letras
Sem grito
Sem sustos
E sem ponto final

Quero ver a minha poesia
Virar a página
Ganhar as ruas
Dobrar a esquina
E subir os céus
= = = = = = 

Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Felicidade

“Ser rico é ser feliz...” Frase enganosa!
Pois por aí se matam opulentos,
enquanto, pobres, nós vemos aos centos
querendo vida, mesmo que impiedosa!

Felicidade é coisa caprichosa,
que vem e vai bem ao sabor dos ventos...
Jamais sossega, além de alguns momentos
em que visita... E vai-se pressurosa...

Para instigá-la dizem que a pessoa,
como fazem as flores na atração,
tem que se ornar de cores bem febris...

Se um beija-flor, em louco voa-voa,
Buscando néctar, beija um coração...
Nesse instante fará alguém feliz!
= = = = = = 

Soneto de
FLORBELA ESPANCA 
Vila Viçosa, 1894 – 1930, Matosinhos

Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também… nem eu sei quando!
= = = = = = 

Trova Funerária Cigana

Num ermo triste, isolado,
eu choro minha orfandade.
Pois assim deve fazer
quem tem su'alma em saudade.
= = = = = = 

Soneto de 
JANSKE NIEMANN SCHLENCKER
Curitiba/PR

A alguém que partiu

Verso após verso eu me desfiz em pranto,
noite após noite sem poder dormir
e compreendi que te adorando tanto,
talvez não possa nunca mais sorrir ...

Destino atroz: matou aquele encanto
que eu procurava para me iludir.
Foi-se a ilusão; agora vejo o quanto
me é doloroso ver que vais partir!

É luz que morre em plena mocidade,
fazendo entrar as trevas da velhice ...
Meu louco amor, perdeste a eternidade!

Adeus! Não vás ... Eu morrerei por certo!
Nem quero a vida, já que vais embora
deixando a sombra da saudade perto ...
= = = = = = 

Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Elogio ao amor

Neste caminho eu sigo contemplando
a Natureza exuberante e bela,
passarinhos nos ramos saltitando
entoando canções em aquarela.

Aonde quer que eu vá, eu vou cantando
a pureza do amor, pintado em tela,
que Deus o produziu, por certo amando,
para mostrar ao mundo, em passarela.

O amor? Triste de quem não tem amor,
nem sentiu nesta vida alguma dor,
nem teve uma saudade a recordar?

Pois o amor é um sublime sentimento
que ferve, vibra e invade o pensamento,
e  nos leva ao delírio para amar!
= = = = = = 

Poetrix de
AILA MAGALHÃES
Belém/PR

solitário amor

toco-me
e, em transe,
te executo
= = = = = = 

Soneto de
JOSÉ XAVIER BORGES JUNIOR
São Paulo/SP

A magia do anoitecer
 
Caía a noite na floresta imensa,
Enquanto o lago desaparecia
Na escuridão da mata triste e densa
Dizendo adeus ao dia que partia...
 
Entristecido pela indiferença
Desta floresta, que durante o dia
Ele enfeitava com sua presença,
Fitava a luz que desaparecia...
 
Tornou-se negro, opaco e triste o lago
sem um luzeiro a espelhar-lhe a face
ou uma brisa a lhe fazer afago...
 
Então Jacy surgiu em esplendor,
e com Yara, no mais puro enlace,
Iluminou o lago com amor...  
= = = = = = 

Hino de 
Arapiraca/AL

Sob um céu de safira estrelado,
Num agreste deste imenso Brasil,
Fora um rincão pequenino fadado
A ser majestoso, soberbo e viril.

CORO
Arapiraca, Estrela radiosa,
Que fulgura sob o céu do Brasil,
Cidade sorriso, cidade formosa,
Cheia de esplendores e de encantos mil.
Arapiraca fora a inspiração
De um sertanejo cheio de fé,
Rendamos, pois, de coração
O nosso "Hosana" a Manoel André.

A cultura do fumo, a sua riqueza,
O "ouro negro", que os seus campos veste
Lhe adquirira um título de nobreza,
"cidade Galã, Princesa do Agreste".

Terra adorada, Gloriosa terra,
Crisol da Pátria, abençoada por Deus
Receba, pois, o afeto que se encerra
Nos meigos corações dos filhos teus.
= = = = = = 

Soneto de 
FRANCISCA JÚLIA
(Francisca Júlia da Silva Munster)
Eldorado/SP (antiga Xiririca) 1874 –  1920, São Paulo/SP

Noturno
 
Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.
 
E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.
 
Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua...
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.
 
E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele, em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.
= = = = = = 

Poema de
MARIA LUÍZA WALENDOWSKY
Brusque/ SC

Borboleta 

Na dança da vida... 
Fui um pequeno ponto branco 
pousado entre folhas de orquídeas. 
Depois, 
uma lagarta 
em um casulo 
vem em busca 
do meu eu interior mais profundo. 
Em algum momento, comecei a voar, 
expondo toda minha plenitude 
com ideias amplas, 
sábias 
com artimanhas. 

Nesta dança da vida... 
Levando a mais sutil paz, 
a confiança de voltar para dentro de mim, 
orando, 
aprendendo, 
voando mais alto. 

Nesta dança da vida... 
Transformei-me 
na mais efêmera da natureza. 
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Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul*) A Árvore e o Riacho

Em uma aldeia cercada por montanhas e florestas, havia uma grande árvore que se erguia majestosa no centro de um vale. Seus galhos se estendiam como braços acolhedores, e suas folhas verdes eram um abrigo para muitos pássaros. A árvore era antiga e sabia de muitos segredos, observando as estações passarem e as vidas das pessoas que ali viviam.

Um dia, um riacho começou a correr em direção à árvore. Ele era pequeno e tímido, mas tinha um sonho: queria ser grande e forte, como o rio que fluía na montanha. 

Ao se aproximar da árvore, o riacho parou e a saudou.

- Olá, grande árvore! - disse ele. - Você é tão forte e imponente. Eu gostaria de ser como você, mas sou apenas um pequeno riacho.

A árvore sorriu e respondeu:

- Meu querido riacho, cada um tem seu próprio caminho. A força não está apenas em ser grande, mas em saber quando fluir e quando parar. Você tem um papel importante a desempenhar. Sem você, a vida ao seu redor não poderia prosperar.

Intrigado, o riacho perguntou:

- Como assim, grande árvore?

A árvore explicou:

- Você dá vida à terra ao seu redor. Suas águas ajudam as flores a crescer, os animais a beber e as árvores a se fortalecerem. Sua importância é imensa, mesmo que você não a veja.

O riacho refletiu sobre as palavras da árvore e, a partir daquele dia, começou a ver o mundo de outra forma. Ele não apenas fluiu, mas também se deteve para criar pequenas poças onde os pássaros podiam beber e onde as crianças da aldeia podiam brincar.

Com o tempo, o riacho cresceu e se tornou um rio. E quanto mais ele crescia, mais ele lembrava das palavras da árvore. Ele nunca esqueceu que sua verdadeira força estava em servir aos outros.

Anos depois, durante uma grande tempestade, o rio ficou agitado e ameaçador. As águas subiram e uma enchente começou a levar tudo em seu caminho. Mas o riacho, agora um rio sábio, lembrou-se da árvore. Ele se deteve, dividindo suas águas em duas direções, evitando que a enchente causasse mais destruição.

Quando a tempestade passou, a aldeia estava em segurança, e todos celebraram a coragem do rio. A árvore, observando de sua posição elevada, sorriu, sabendo que o riacho, que um dia se sentiu pequeno, havia se tornado um guardião.

Moșneagul concluiu a história com um sorriso sereno:

- Meus amigos, lembrem-se: mesmo os menores de nós têm um papel a desempenhar. A verdadeira força não está em tamanho, mas em como usamos nossos dons para ajudar os outros e a natureza. Cada um de nós pode ser uma árvore ou um riacho, desde que façamos o bem.
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* Nota do autor:
Moșneagul, que significa "o velho" em romeno, é uma figura arquetípica nas tradições folclóricas da Romênia. Ele representa a sabedoria acumulada ao longo dos anos e a conexão profunda com a cultura e as tradições locais. É frequentemente retratado como um sábio que possui um vasto conhecimento sobre a vida, a natureza e as relações humanas. Ele serve como mentor para jovens e adultos, oferecendo conselhos valiosos e orientações que muitas vezes são baseadas em experiências pessoais e sabedoria popular. As histórias contadas por ele são uma parte essencial da cultura romena. Elas geralmente abordam temas universais, como amor, amizade, coragem, e a luta entre o bem e o mal. Suas narrativas muitas vezes incluem elementos do folclore, como criaturas míticas, heróis e lições morais. Ele frequentemente menciona plantas, animais e fenômenos naturais em suas histórias, usando-os como metáforas para ensinar lições sobre a vida e a convivência harmoniosa com o meio ambiente. 

Uma das principais funções de Moșneagul é transmitir a sabedoria das gerações passadas. Suas histórias são uma forma de preservar a memória cultural, passando adiante tradições, costumes e valores que poderiam se perder com o tempo. Moșneagul é muitas vezes visto como a personificação da tradição e da cultura romena. Ele representa a voz do povo, refletindo suas esperanças, medos e aspirações. Suas histórias ajudam a manter a identidade cultural viva, especialmente em tempos de mudança. Apesar da profundidade de suas lições, as histórias de Moșneagul frequentemente contêm humor e ironia. Ele utiliza o riso como uma forma de ensinar, fazendo com que as pessoas reflitam sobre suas próprias vidas de maneira leve e acessível.

As histórias de dele não apenas educam, mas também fortalecem a coesão social na aldeia. Elas criam um senso de pertencimento e identidade, unindo as pessoas em torno de valores compartilhados. Ele é mais do que um simples contador de histórias; ele é um símbolo da sabedoria coletiva, uma ponte entre o passado e o presente, e um farol de esperança e inspiração para todos que o ouvem.
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Cailin Dragomir nasceu em 1949, na vibrante cidade de Timișoara, na Romênia. Desde cedo, demonstrou uma paixão inata pela literatura e pela arte das palavras. Ele cresceu em um ambiente que refletia a rica herança cultural da sua cidade, onde a música e a poesia se entrelaçavam nas conversas cotidianas. Após concluir o ensino médio, ingressou na Universidade, onde se destacou em seus estudos de literatura. Sua dedicação e talento o levaram a continuar sua formação acadêmica, culminando em um pós-doutorado. Durante esse período, ele mergulhou na obra de grandes poetas romenos e internacionais, desenvolvendo um estilo próprio que misturava o lirismo clássico com uma abordagem contemporânea. Em 1992, tomou a decisão de se mudar para o Brasil, em busca de novas oportunidades e experiências. Ao chegar ao país, ele se estabeleceu em São Paulo, onde rapidamente se destacou como professor de literatura. Suas aulas eram conhecidas pela abordagem criativa e envolvente, inspirando os estudantes a apreciar a literatura de maneira profunda e significativa. Além de sua carreira acadêmica, cultivava uma paixão pelo xadrez. Ele se tornou um jogador forte e respeitado, participando de torneios e promovendo o jogo entre seus alunos. Dragomir acreditava que o xadrez, assim como a literatura, era uma forma de arte que desenvolvia o pensamento crítico e a estratégia, habilidades essenciais tanto na vida quanto na escrita. Ao longo de sua vida, Cailin Dragomir se estabeleceu como uma figura influente na cena literária e educacional, deixando um legado duradouro tanto na Romênia quanto no Brasil. A influência da cultura romena em sua poesia se manifesta em diversos aspectos de sua obra. A rica tradição literária da Romênia, que inclui poetas como Mihai Eminescu e George Coșbuc, moldou a sensibilidade estética dele. Ele usa uma linguagem lírica e metafórica, incorporando elementos do folclore e da mitologia romena, que são essenciais na poesia romena clássica. A natureza é um tema recorrente na poesia romena, e Dragomir não é exceção. Suas descrições vívidas de paisagens romenas, como as montanhas dos Cárpatos e os campos de flores, refletem uma profunda conexão com o ambiente natural, transmitem uma sensação de integração e nostalgia.
       A riqueza do folclore romeno permeia sua poesia, com referências a mitos, lendas e tradições populares. Utiliza esses elementos para criar uma ponte entre a modernidade e as raízes culturais, trazendo à tona a sabedoria ancestral que ainda ressoa na vida contemporânea. A poesia romena é conhecida por sua profundidade emocional e introspecção. Seguindo essa tradição, explora sentimentos complexos como amor, perda e saudade, utilizando uma abordagem que reflete tanto a sensibilidade individual quanto a experiência compartilhada do povo romeno. Ele muitas vezes incorpora ritmos e cadências que evocam a sonoridade da música popular romena, criando uma harmonia entre palavra e som que enriquece a experiência do leitor.
       Após sua mudança para o Brasil, passou a incorporar a experiência da diáspora em sua poesia. Essa nova perspectiva enriqueceu sua obra, permitindo uma fusão de influências culturais que resultou em uma poesia mais ampla, reflexiva e acessível a diferentes públicos. 
       Em suas obras faz referências a figuras mitológicas romenas, como "Zmeu", um dragão que frequentemente aparece em contos populares. Ele utiliza essa figura para simbolizar desafios e superações, inserindo a luta contra o Zmeu como uma metáfora para as dificuldades da vida. Também é comum encontrar menções a "nossas montanhas", como os "Cárpatos", que não apenas servem como cenário, mas também como símbolo de resistência e força. Cailin pode descrever a beleza dessas montanhas em relação à história do povo romeno, evocando sentimentos de pertencimento. Ele inclui personagens folclóricos como "Moșneagul" (o velho sábio) e "Zână" (a fada), representando a sabedoria ancestral e a proteção, respectivamente. Esses personagens são frequentemente utilizados para transmitir lições de vida e a importância das tradições. Além disso, faz alusão a festivais tradicionais, como "Mărțișor", que celebra a chegada da primavera. Em seus versos, ele descreve a troca de fitas brancas e vermelhas como um símbolo de renovação e esperança, refletindo a alegria da vida. Histórias de amores impossíveis, como a lenda de "Făt-Frumos" e "Ilena Cosânzeana", podem ser exploradas em sua poesia. Ele usa essas narrativas para abordar temas de amor e sacrifício, conectando a experiência pessoal com a tradição. Há a presença de criaturas míticas, como o "Chimera" ou o "Roc", descrevendo esses seres como guardiões de segredos e mistérios, simbolizando os desafios que todos enfrentamos em busca de conhecimento. Esses elementos folclóricos não apenas enriquecem a poesia de Cailin Dragomir, mas também criam uma ponte entre o passado e o presente, permitindo que ele dialogue com suas raízes culturais enquanto se adapta a novas influências. Essa fusão é uma das marcas distintivas de sua obra.
          Como poeta, Dragomir publicou três livros : 1. "Ecos da Alma" - Uma coletânea de poemas introspectivos que exploram a complexidade das emoções humanas; 2. "Sussurros da Memória" - Uma obra que reflete sobre o passado, a nostalgia e a busca pela identidade; 3. "Caminhos de Luz" - Uma série de poemas que celebram a beleza da natureza e a conexão entre o ser humano e o mundo ao seu redor.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Aparecido Raimundo de Souza (Terapia caseira para ir além do cotidiano)

HÁ UMA MÚSICA que não apenas toca meus ouvidos, mas atravessa minha pele, corta como o vento em estrada aberta. Ela não tem nome fixo, não mora em um gênero específico. Às vezes me vejo sentado na sala, diante de meu Nord Stage 5, tocando essa maravilha, outras vezes me flagro em meio a uma espécie de orquestração ancestral, como se eu fosse o maestro com a batuta nas mãos regendo notas de um paraíso bem longe da Terra. 

Ainda que eu não esteja no teclado, somente ouvindo ou dedilhando o som das suas notas, como se vindas de um ponto distante. Não importa. Nessas horas simplesmente me transporto. Quando a música começa, o mundo ao meu redor desacelera. As paredes do meu apê desaparecem, e de repente sou lançado por trilhas suaves e invisíveis. Viajo nesses momentos mágicos, por horas e horas. Me deleito por sendas que não reconheço, mas que me acolhem. 

É como se cada nota tocada ou ouvida fosse uma bússola apontando o futuro para dentro de mim e não só me direcionando, ou me revelando paisagens, todavia, conduzindo meu espírito para lugares que nunca explorei. De roldão, visitarei lembranças esquecidas, abraçarei desejos não realizados, me livrarei de medos bobos que se camuflavam de coragem. Essa música, me fará viajar sem malas e sem mapas. Me levará por desertos de silêncio e florestas de emoções imorredouras. Às vezes, me encontro em um mundo paralelo. 

Me pilho num vilarejo onde o tempo parou, e então fico ouvindo vozes que falam em línguas que não conheço, mas por algum motivo entendo. Noutras, estou flutuando sobre cidades futuristas, como se estivesse plainado ao redor de prédios altos, onde cada batida me impulsiona em direção ao além mavioso de um céu desconhecido. Ela, a música, me ensina que o incógnito adventício e duvidoso, logo em seguida me mostrará que por onde eu transitar não será um lugar de perigo, porém de novas descobertas. 

Em seguida, me fará ver também que há uma beleza rara e incomum naquilo que não compreendo de imediato. Me fará crer que viajar em suas ondas sonoras não será apenas mudar de lugar, outrossim de perspectiva. E quando a derradeira nota ecoar, prevalecerá um arroubo sempiterno ameno e deleitável, e eu não serei mais o mesmo de antes. Trarei de volta, para o meu mundinho retido dentro do meu apartamento, um porvir esplendoroso. 

Regredirei diferente, é claro. Regressarei extasiado, contemplativo, arrebatado, embebido dos pés à cabeça com algo novo formado dentro de todo meu “eu”, ou seja, me exaltarei empanturrado, inundado a alma toda com ideias corpulentas, ingurgitadas numa sensação, e no ar que respiro uma paz jamais sentida. Essa música que ouço e se espalha, não me dará somente respostas. Ela me proporcionará algo mais e me mostrará caminhos sedentos de amanhã. 

Essa música eu diria sem medo de errar, acabou com a minha quase demência, com meu início de Alzheimer. Não sei o nome dessa música. Apenas me foi dado conhecer e entender que é composta de uma melodia que completou a minha vida. Me sinto, por conta, vivo. Igualmente me abraso livre, me incendeio. É a música terapia da minha vida. A indagação que agora deixo para você, meu caro amigo, é uma só: qual é à música da sua vida? Qual a melodia que lhe transportará para lugares além do chão onde atualmente está pisando? 

Sugiro que você pare e tente capturá-la. Se atenha a uma canção suave e serena, que seja envolvente, que provoque a sua alma, que contemple o seu espírito e, sobretudo, que lhe faça sentir seguro. Como a mim, você verá se dissolver o nevoeiro que o está afligindo. Acredite, essa música existe em cada um de nós e pasme, ela não só devolve a paz, alimenta a alegria de viver...e nos guia para um campo neutro onde nos sentimos realizados. 

Essa música lhe devolverá, ao mesmo tempo, no que melhor existe dentro do oco que fere a sua vida cotidiana. Faça, pois, como eu. Crie um ritual. Apague o mundo. Se recolha em sua cama, coloque os fones no ouvido e se deixe levar pelo som do amor. Ele lhe conduzirá. No dia seguinte, você não acordará apenas desperto. Você se maravilhará vivo. Lembre sempre do que direi antes de terminar: quando a mente começar a falhar, você se deparará, do nada com uma forma de dizer: “Ainda estou aqui.” 

E estará mesmo. Inteiro, saltitante, repaginado. Não é preciso muito para viajar longe. Nem passaporte, nem estrada, nem dinheiro. Basta um par de fones de ouvido e a coragem de se entregar ao som da música certa. Não qualquer som, não o barulho do que está ao seu redor, não o batuque frenético que o empurrará para fora, mas aquela centelha sutil que o desconectará do habitual. Tente capturar a música certa, aquela que não gritará nem agredirá seus tímpanos. 

A música certa, meu caro amigo é a que sussurrará. Ela é feita de instantes suaves, de acordes que parecem respirar. Poderá vir de um órgão solitário tocando como se conversasse com o infinito. Poderá ser de um piano, de uma sanfona, de uma guitarra, ou de um violino que deslizará acordes como água sobre pedra. O importante é que ela não lhe tire o foco, apenas o distraia e se revele a você por inteira. Você não precisará entender de música. Só carecerá de a sentir. À noite, quando tudo se acalmar, repito para que não esqueça: tome um banho, desligue as notificações, apague as luzes.  

Tente se desconectar e se ater ao som limpo, puro, como se ele fosse feito para você. E então, acontecerá. Algo mavioso, inesperado. A sua mente desacelerará. O coração mudará de ritmo. Baterá mais leve. Os pensamentos antes embaralhados, começarão a se alinhar como estrelas cadentes num céu magnânimo. Você não dormirá. Você se reconectará com você mesmo. Quando o dia seguinte nascer, você não acordará apenas descansado. Seu todo pulará para a vida, saltará de alma nova.  Você, meu amigo, se verá inteiramente R E N O V A D O.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

domingo, 21 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 97 *

 

Quintilha de 
CAILIN DRAGOMIR
Timișoara, Romênia

Sonho

Na quietude da noite,  
as estrelas sussurram,  
os sonhos dançam leves,  
enquanto o coração murmura  
as esperanças que perduram.
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Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Catorze versos

Ah, se compor sonetos não tivesse
tão complicadas regras a seguir,
não sairia agora dessa messe,
deixando outras missões para o porvir!

Porém, comigo, às vezes acontece
de me insurgir demais contra o exigir...
Não vou correr atrás de uma benesse,
dar meu suor sem nada conseguir...

Já que não posso, assim, bem sonetear,
eu me distraio com catorze versos,
mas sem, sequer, seu nome mencionar.

Meu coração não mais fica tristonho,
nem aborreço ilustres controversos;
e posso acalentar, enfim, meu sonho!
= = = = = = 

Poema de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Meu verso

Meu verso vem do Nordeste,
vem do roçado, vem do Sertão,
vem das veredas lá do agreste,
vem das cacimbas e dos grotões.

Meu verso vem dos garimpos,
das catras dos garimpeiros,
da coragem dos vaqueiros
vestidos no seu gibão,
vem do sereno da noite
do perfume do Sertão.

Meu verso simples, sem medo,
vem do sítio, do rochedo,
vem do povo do Sertão,
que com a luz do arrebol
trabalha de sol a sol
para ganhar o seu pão.

Vem da Serra do Carranca
onde a beleza não manca,
e a onça faz sentinela.
Da Serra da Mangabeira
onde a Lua vem brejeira
tecer a renda mais bela.

Meu verso vem da goiaba,
do puçá e da mangaba,
da seriguela e do mamão.
Da pinha e da acerola,
da atemóia e graviola
plantadas no roçadão.

Nasceu na bela Umbaúba,
Boa Vista, Bela Sombra,
na Lagoa de Prudente,
na Chiquita e no Vanique,
onde há muito xique-xique
e o sol parece mais quente.

Brejões, Lagoa do Barro,
Santo Antonio, Traçadal,
Olho D´Água, Rio Verde,
Baixa dos Marques, Coxim,
Ibipetum, depois Pintada,
onde passa a velha estrada,
Zequinha e Lamarca morreram.

Sodrelândia, Deus me Livre,
Pé de Serra, Poço da Areia,
Riacho das Telhas também.
Poço do Cavalo, Matinha,
Mata do Evaristo e Veríssimo,
Olhodaguinha e Ipupiara.

Meu verso nasceu no mato,
não tem brilho, nem ornato,
vem do Morro do Mocó,
da Serra do Sincorá,
vem do morro do Araçá,
nasceu pobre e vive só…
= = = = = = 

Poetrix de
ELIANA MORA
Rio de Janeiro/RJ

sentimento clandestino

Tu, em viagens ao mundo,
Eu, ali, sempre escondida,
nos porões do teu navio.
= = = = = = 

Soneto de
JOSÉ XAVIER BORGES JUNIOR
São Paulo/SP

Esquecimento
 
Tu te esqueceste que esqueci de te esquecer
Mas me lembrei de relembrar tua partida
E o esquecimento na lembrança tem poder
De relembrar que possuíste minha vida.
 
E por lembrar-te não consigo compreender
Por que não posso me esquecer desta ferida
Que o esquecimento da lembrança vem trazer
Me relembrando que jazias esquecida.
 
E vou lembrando e te esquecendo enquanto sigo
Revigorando o esquecimento da lembrança
Enquanto lembro como era estar contigo.
 
Até que um dia eu me lembrei de ter-te aqui
E fui eu mesmo me esquecendo nesta dança
E me lembrando de esquecer que te esqueci…
= = = = = = 

Hino de 
Cruzeiro do Sul/AC

No regaço da Selva assombrosa
onde outrora espumava o Tapi
Uma Bela Cidade Ruidosa
Vimos hoje fagueira surgir.

Para o seio da Mata orvalhada
as aragens correndo lá vão
E no cimo da Selva ondulada
Thaumaturgo Azevedo dirão.

Pasma o índio bravio confundido
Empolgando uma flecha nos ares
Ao ouvir que é tão repetido
Vosso nome nos nossos palmares.

O lampejo do sol do progresso
D’ouro ufano este alcantil
Contemplado será no universo
Novo estado no chão do Brasil.

E do trono dos seus esplendores
Sobre nuvens bordados de azul
Deus semeia cascata de flores
E abençoa o Cruzeiro do Sul.
= = = = = = 

Soneto de 
FRANCISCA JÚLIA
(Francisca Júlia da Silva Munster)
Eldorado/SP (antiga Xiririca) 1874 –  1920, São Paulo/SP

Musa impassível

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó conserva o mesmo orgulho e diante
De um morto o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra*,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos!
= = = = = = 
* crebra = frequente
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Trova Funerária Cigana

Sou triste como a caveira
no cemitério rolando,
que vai com o correr do tempo
em negro pó se tornando.
= = = = = = = = =  

Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Fugaz

Em meu sonho 
vi você passeando
pelos caminhos
do meu coração. 

Nossos olhos,
num repente, 
se cruzaram 
em louca contemplação.

Pensei comigo: 
“Ela vai voltar”
e todo “meu eu” se engalanou... 
por um instante apenas... que triste decepção!

Havia, ao lado, um outro recipiente
Igualmente com flores enfeitando
Pequenas almas em animada festa
Numa alegria pra lá de incandescente.

O meu desespero... chorou...
Derramou lágrimas da mais pura felicidade 
Esse momento, confesso, eu amei.
Mas, para meu espanto, em seguida, acordei!
= = = = = =

Fábula em Versos
adaptada dos Contos e Lendas da África
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

A Fada do Rio

No vale encantado, onde o rio dançava,
vivia uma fada, cuja luz brilhava.
Ela cuidava das águas, com amor e carinho,
protetora dos peixes, do sapo e do passarinho.
Mas um dia, a poluição ameaçou,
e a fada, aflita, um plano traçou:

Reuniu as crianças, com corações valentes,
“Vamos limpar o rio, seremos persistentes!”
Com mãos unidas, e sorrisos brilhantes,
transformaram o rio, em águas vibrantes.
A fada sorriu, seu coração agradeceu,
o rio reviveu, e a magia renasceu.

Juntos, podemos curar a natureza ferida,
o amor e a ação trazem vida à vida.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Quadra Popular

Quem  tiver filhos pequenos
por força há de cantar:
quantas vezes as mães cantam
com vontade de chorar.
= = = = = =

Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Versos dolentes

Voragem tenebrosa que me abraça
Suplico a ti meu breve livramento
Dos tragos espinhosos dessa taça
Já farto quero o fim do sofrimento

Navalha do amargor que me traspassa
E vive a propagar abatimento
A lâmina que inflige tal desgraça
Retires deste peito... Eis meu lamento

Em frias madrugadas, vago aos prantos
Momentos a lembrar, tantos e tantos
Estampa-se em minh'alma uma ferida

Cingido pel'angústia sem remédio
Sou vítima indefesa desse assédio
Amor, como a saudade é dolorida...
= = = = = =

Spina de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Calmaria

Plantio de sonhos
saúdam em cores
seus ares gentis,

até as estrelas sorriem sutis.
Em arranha-céus paira o eco
seco, pêndulo de uma matiz.
As brandas nuvens são elos
poéticos de novas eras viris.
= = = = = =

Poema de 
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Uma maior solidão

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim
= = = = = =

Abbie Phillips Walker (A pequena boneca da China)

Na vitrine de uma loja estava uma pequena boneca de porcelana. Ela estava na loja há tanto tempo que não se lembrava de ter morado em outro lugar.

Há muito, muito tempo, haviam outras bonecas de porcelana, mas uma a uma, uma garotinha as levou embora e ela ficou sozinha. A Boneca da China tinha cabelos pintados de preto e olhos grandes e arregalados, e seus lábios e bochechas estavam muito vermelhos. Seu corpo estava cheio de serragem e suas mãos e braços eram de porcelana até o cotovelo, assim como seus pés e pernas até os joelhos.

Aos poucos, bonecas de cera chegaram à loja; elas tinham cabelos de verdade, todas cacheadas, e olhos que abriam e fechavam, e a pobre Boneca da China foi colocada de volta na vitrine, e depois de um tempo ela foi colocada em uma caixa na prateleira e retirada apenas uma vez por ano — no Natal — quando era espanada e colocada na vitrine novamente. Ela se sentia muito sozinha com tantas bonecas de cera estilosas e, como já havia perdido a esperança de ser escolhida por alguma garotinha, ficou feliz quando a velhinha que cuidava da loja a colocou de volta na caixa na prateleira.

Finalmente chegou um tempo em que as crianças não iam mais à loja, mas iam à cidade grande comprar seus brinquedos, e a Boneca da China e o pequeno velho lojista envelheceram juntos.

A Boneca da China ficava na vitrine o tempo todo, com fita adesiva, linha e outras coisas úteis, mas era a única coisa que as crianças podiam querer.

Um dia, no verão, uma vendedora parou em frente à loja e um grupo de jovens entrou. Eles compraram várias coisas e encheram a velha loja com suas risadas. 

De repente, a menina mais bonita enfiou a mão na vitrine e tirou a Boneca da China. 

"Oh, sua bonequinha querida e pitoresca!" disse ela. "Minha avó tem uma igual a esta, meninas, e eu pedi a ela muitas vezes para me dar para fazer um alfineteiro francês, mas ela não me deixa ficar com ela."

Oh, como o coração da Boneca da China batia! Seria verdade que ela finalmente ia partir? 

Sim, a moça bonita a comprou e a levou embora.

No dia seguinte, ela vestiu a Boneca da China com o mais lindo vestido de seda, como ela sonhara anos atrás, com uma sobressaia e mangas de tricô. Depois, fez para ela o mais querido gorro de pelúcia, enfeitado com pequenas rosas. Também lhe fez um par de botas de pelica.

Quando a boneca estava toda vestida, a linda menina colocou uma fita em seu braço, e em cada ponta havia uma pequena caixa de fita. Então, ela colocou a boneca em sua penteadeira e usou as caixinhas como alfinetes. 

E lá, a Boneca da China viveu uma vida muito feliz, que ensina que todas as coisas acontecem para aqueles que esperam.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
ABBIE HOXIE PHILLIPS JACOB WALKER foi uma autora americana conhecida por suas contribuições cativantes para a literatura infantil no início do século 20. Nascida em Exeter, Rhode Island, Estados Unidos, em 1867. Walker cultivou um estilo que envolvia o caprichoso e o didático, com o objetivo de entreter e instruir as mentes jovens. Grande parte da escrita de Walker está encapsulada em sua deliciosa coleção de histórias para dormir intitulada 'The Sandman's Hour: Stories for Bedtime', que foi publicado em 1916 e despertou a imaginação de inúmeras crianças ao longo das gerações. Nesta antologia, Walker exibe uma propensão para elaborar contos imbuídos de um senso de admiração e lições morais, adaptado para mandar as crianças dormir com sonhos inspirados em suas proezas narrativas. Seu estilo literário muitas vezes espelha a tradição oral de contar histórias, com uma qualidade lírica que ecoa a atemporalidade dos contos populares. A abordagem sutil de Walker ao tecer contos que falam tanto da inocência da juventude quanto da sabedoria buscada pelas mentes em crescimento tornou suas obras clássicos duradouros no domínio da literatura infantil. Embora informações biográficas detalhadas sobre Walker sejam relativamente escassas, seu corpo de trabalho continua a falar de seu legado como autora cujas histórias embalaram e inspiraram, muito parecido com o Sandman homônimo de seu livro mais conhecido. Faleceu em 1951.
Fontes> 
Abbie Phillips Walker (EUA, 1867 - 1951). The Sandman's Hour: Stories for Bedtime. Publicado em 1916. Disponível em Domínio Público.
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José Feldman (A visita da felicidade)

Texto construído tendo por base a trova de Lucília A. T. Decarli (Bandeirantes/PR)
A felicidade é rara
e bem poucos a conhecem…
Os que a viram “cara a cara”,
nunca mais dela se esquecem!
A felicidade, dizem, é uma dama rara. Não é dessas que se encontra todos os dias na praça, nem das que se deixam levar por promessas vazias ou abraços apressados. Ela tem seus próprios caprichos e, ao que tudo indica, gosta de aparecer quando menos se espera — mas nunca por acaso.

Certa vez, ouvi dizer que um homem a viu de perto. Era um sujeito simples, desses que a vida insiste em testar. Trabalhava duro, sonhava pouco, mas guardava um sorriso no canto dos lábios, como quem sabe que, mesmo em dias nublados, há um sol por trás das nuvens. Um dia, enquanto varria o quintal ao som do vento, ali, entre as folhas secas e a poeira da estrada, ela apareceu.

A felicidade chegou sem avisar, como uma brisa que refresca sem pedir licença. Não trazia roupas luxuosas, nem se anunciava com fanfarra. Era apenas uma sensação — um calor que lhe subiu pela espinha ao ouvir o riso de seu filho brincando no quintal, ao sentir o cheiro do café fresco vindo da cozinha, ao perceber que, naquele instante, nada lhe faltava. Ele parou. Olhou ao redor e percebeu: ela estava ali.

Mas a felicidade, como sabemos, não é dessas que ficam para sempre. Ela tem o hábito de visitar e partir, deixando atrás de si um rastro de saudade. O homem sabia disso; não tentou prendê-la, não fez perguntas, nem exigiu explicações. Apenas a contemplou, “cara a cara”, como quem sabe que momentos assim nos transformam. Quando ela se foi, deixou consigo algo precioso: a memória do instante.

E é isso que os que a viram carregam consigo. A felicidade, quando surge, não precisa durar uma eternidade para ser inesquecível. Basta um momento, uma fagulha, e ela finca raízes no coração de quem a viveu. Porque, no fundo, não é ela que é rara — rara é a nossa capacidade de reconhecê-la.

Então, se por acaso a felicidade lhe fizer uma visita, não a obrigue a ficar. Apenas a viva. E quando ela for embora, não a lamente. Afinal, os que a viram, mesmo que por um breve instante, nunca mais dela se esquecem.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Caleidoscópio da vida. Maringá/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing