quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 218 *

Imagem = IA Microsoft Bing

A. A. de Assis 
Maringá/PR

TROVAS SOLTAS

Mesmo soltas e espalhadas,
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!

Curvada ao peso da idade,
a vovó, serena e bela,
distrai o tempo e a saudade
entre o novelo e a novela...

Xô inverno... vá-se o frio...
volte depressa o calor...
que as rosas já estão no cio,
à espera do beija-flor!
= = = = = = = = = = = = = =  

Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP
PARTE DE NÓS

Criar poema é qual plasmar um filho;
lhe damos todo o amor que houver na gente,
mas, depois que soltamos seu anilho,
quem toma conta dele... é o Onipotente.

Também, quando criamos sonetilho,
queremos que ele seja convincente,
correto, puro e tenha certo brilho;
... nem sempre ocorre isso, infelizmente.

Mas não importa. O que conta é só amá-lo!
Quer fique lindo, ou mesmo um pouco feio,
de porte soberano, ou de vassalo;

Pois é parte de nós, porção de amor,
que quisemos doar ao nosso meio,
por vocação do próprio Criador!
= = = = = = = = = = = = = =  

Dária Farion
Pinhais/PR
CARISMA DIVINO

Ter na alma o afeto,
Na palma da mão a vida.
Encerrar no coração a imagem
Na mente a coragem.

Ter certeza,
Gritar com firmeza:
Meu filho , és meu rei
meu herói.
= = = = = = = = = = = = = =  

Ademar Macedo 
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN
TROVAS AVULSAS

Na vida o que me conforta,
está nesta frase bela:
“Deus jamais fecha uma porta,
sem que abra uma janela”!

Entregue ao próprio abandono,
eu vi na rua um menino,
igualmente um cão sem dono
sem lar, sem pão, sem destino...

Eu beijei tantas “donzelas”
nesta minha vida, a esmo,
que quando me lembro delas
sinto nojo de mim mesmo!…
= = = = = = = = = = = = = =  

Fernando Pessoa 
Lisboa/ Portugal(1888 - 1935)
SÚBITA MÃO DE UM FANTASMA OCULTO

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão noturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.
= = = = = = = = = = = = = =  

Lígia Antunes Leivas
Pelotas/RS
ENTRELINHAS

Na insensatez dos conceitos
emergem desejos...
Quebra-se o elo:
desequilibra-se o universo.

A expectativa antessonha auroras
neste querer maior
de peles de veludo unidas
no desenho de nós mesmos.

Na hora cálida da tarde
atiçam-se todas as luzes...
Um pouco de mim, de ti, de nós
e a explosão de todos os sentidos.

Cada espaço traz a medida certa
...um oceano cresce entre nossas vidas
e nesta separação entre desenganos
descubro-me atônita!

Olhos ao longe (tão longínqua distância!...)
Sou voz perdida, sou desterro
sou muito menos agora
que as entrelinhas deste poema...
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Luiz Poeta
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

AMANTE É QUEM AMA

Somos amantes sem sê-lo,
Mesmo epidermicamente,
Somos mesmo sem sabê-lo,
Somos amantes na mente.

Se um corpo alheio, ao vê-lo,
Sentimos um calor fremente
E, num átimo, por tê-lo,
Ansiamos de repente...

Mesmo estando tão presente
A pessoa que nos ama,
Mesmo estando até na cama
Em carícias envolventes...

Traímos o que nos sente,
Sem todavia traí-lo,
Sentimos o amante ausente,
Sem entretanto senti-lo.

E não depende da gente
Lembrar alguém no momento
Do amor mais forte e envolvente,
Repleto de sentimento.

Traímos no pensamento,
Sem toques e sem contatos,
Portanto, se não há ato,
Não traímos, tão-somente.

Se em pensamentos traímos...
Traímos! ...mas quem reclama?
Porque, quando nos unimos,
Amante é aquele que ama.
= = = = = = = = = = = = = =  

Margot de Freitas Santos
Juiz de Fora/MG
SILÊNCIO

O silêncio de hoje é preciso.
Me nego a falar, nada tenho a escutar
Que seja mais forte e intenso
Do que repousa dentro de meu peito.

O silêncio de hoje é preciso.
Tenho lágrimas guardadas que não posso ocultar
De uma ausência doída, que por mais que eu chame,
Por estar em sono profundo, não consigo acordá-la.

O silêncio de hoje é preciso.
Busco o amparo forte
De abraços adormecidos
Que não mais podem me amparar.

O silêncio de hoje é preciso
Para aceitar esta ausência sentida
Por todo o meu corpo
Que sinto
Não mais existir!

O silêncio de hoje só não mais seria preciso,
Se aqui você estivesse e, então,
A vida teria sentido: o renascer do amor a cada dia
Onde o adormecer jamais existiria!
= = = = = = = = = = = = = =  

Antônio Roberto Fernandes 
São Fidélis/RJ, 1945 – 2008, Campos dos Goytacazes/RJ
LADAINHA

Olhai pra mim, mulher da minha vida!
Senhora dos meus sonhos, me escutai!
Minh' alma já não sabe aonde vai,
neste vale de lágrimas perdida.

Com a luz de vossos olhos me mostrai
um caminho, uma chance, uma saída,
Senhora finalmente aparecida,
meus negros horizontes clareai.

Não tenho vocação para o martírio,
perdão se é heresia o meu delírio
mas nestes lábios que têm fogo e mel.

Arrebatai-me agora, ao gozo eterno
para que eu - que já conheço o inferno -
possa, convosco, conhecer o céu!.…
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Guilherme de Almeida 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP 
NÓS

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
---" Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos…
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Nilto Maciel (Sobre o Inconsciente)

Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na plateia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.

À saída, uma hora depois do início destes acontecimentos, Terêncio Floro perguntou a Helvídio Lucano se vira um vulto deixar a sala. Não, não vira nada, a não ser Cornélio. Vira e ouvira. Pois fora ali para ver e ouvir Cornélio Basso. Por acaso esse vulto tinha alguma importância? Terêncio desculpou-se.

Pensou tratar-se do vulto de Torquato Gélio. Porém Torquato jamais faria aquilo. Nunca se retiraria de uma conferência. Ainda mais se o conferencista fosse Cornélio Basso. A não ser que tivesse sentido algum mal-estar.

Lélio Silvano chegou à calçada, olhou para os grupinhos formados aqui e ali, e optou por Terêncio e Helvídio. Deram-se palmadinhas nas costas. Cornélio estivera magnífico. Sim, o inconsciente só obedece ao princípio do prazer. Ele disse isso? Não lembro de ter ouvido isso. Provavelmente falou isso no exato momento em que acontecia aquilo. Lélio sorriu, ensaiou uma risada, conteve-se.

Referia-se Terêncio ao cachorro? Helvídio olhou, espantado, para Lélio e, em seguida, para o chão.

Cachorro? Que cachorro? Ora, não entendia como haviam deixado um animal entrar no anfiteatro.

Desleixo total dos diretores. Descuido gravíssimo. E se se tratasse de um cão raivoso? Terêncio tomou a palavra: Esse animal não era um homem? Lélio sorriu. Estando na primeira fila, podia esclarecer o fato. O cão dormia recostado ao estrado. Ao ouvir a voz de Cornélio, acordou. Helvídio não gostou da frase. Se o cão dormia, não podia ouvir a voz de Cornélio. Seja como for — continuou Lélio — , olhou para a plateia, teve medo e meteu o rabo entre as pernas.

Terêncio levou as mãos aos olhos: estou ficando cego.

Muito sério, Lélio imitou o cão. Saiu pé ante pé pelo corredor e mansamente desapareceu.

Lívio e Júlia retiravam-se, saídos de outro grupinho. Passaram por Terêncio, Helvídio e Lélio, deram boa-noite e pararam. Lívio se voltou para os três amigos. Vocês viram o vexame desta noite?

Lamentável, horrível, inexplicável. Como trazer uma criança para a palestra de Cornélio Basso?!

Nervosa, Júlia arrastou Lívio para o grupo. De quem será filho esse pobre menino? Helvídio parecia horrorizado, embora sorrisse. Afinal, o vulto visto por todos mudava de figura a cada momento.

Aproximou-se deles um rapaz. Disse chamar-se Torquato Basso. Lívida, Júlia recuou. O moço gargalhou. Se quisessem, chamassem-no Cornélio Gélio. Ou Terêncio Lucano. Ou Lélio Floro. Ou Helvídio Silvano. Afinal, o inconsciente só obedece ao princípio da dor. Os desejos inconscientes são modificados a cada momento e de acordo com a realidade exterior.

Pôs-se a gritar o estranho. Aterrorizados, os espectadores saíram em disparada pela rua.

Um cão pôs-se a latir diante do anfiteatro.
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Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nilto Maciel. Pescoço de girafa na poeira. Publicado originalmente em 1999.

Paulo Vinheiro (A Volta que Virá)

 Hoje, rebuscando papéis, jornais e afins, um pouco da minha história e de meus lixos, encontrei lembranças que nada me diziam e outras que até muito.

Remexendo nos meus emails e apagando algumas atenções revi amigos de hoje e de ontem, mas nada traduz sentidos como meus papéis.

Interessante essa teoria da memória tátil. Como podem ficar sabores de há tantos anos, odores de “não me engano”, cores que não desbotam?

Neste meu mundinho que afago, com a ponta de meus dedos, vejo as fotografias e as lembranças de dias que não têm fim.

Reflito: independente da razão comprometida, no que será das gentes que veem o mundo sem sabores, nem as cores, nem odores, nem os papéis que tanto pesam.

Acho que alguns que têm substituído as páginas por imagens plasmadas em telas e eletrônica, por completo, sem chance para certas sensibilidades, podem sofrer e fazer sofrer em seus mundos, tanto interno quanto externo, de um tipo de resfriamento estranho e esquizofrênico.

Tenho, com atenção, analisado o mundo que me circunda. Meu estranhamento se dá não com o que vejo e sim de certas ausências. Nós humanos (ou quase), não nos espantamos mais, isto é, fomos convencidos a esterilizar os sentimentos superiores.

Verdadeiras obras de arte no mundo, em desvão, amontoadas em um canto, fechado, úmido e sombrio. Onde estão os nossos vinis (lps), os nossos Bergman’s, em preto-e-branco, e lindas outras coisas que se desusa… uma a uma. Saudosismo? Não, mas a busca de um lugar no lugar comum.

Volto aos meus papéis que teimam em não desvanecer.

Fecho minha gaveta.

Até breve.
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O escritor e poeta brasileiro PAULO VIEIRA PINHEIRO, conhecido no meio literário sob o pseudônimo de Paulo Vinheiro, é um autor de perfil contemporâneo e independente, com atuação voltada para plataformas digitais e publicações colaborativas. Diferente dos grandes nomes tradicionais da literatura nacional, os registros biográficos detalhados sobre sua trajetória (como ano exato de nascimento, local de residência fixa ou associações acadêmicas) não constam nos acervos literários ou enciclopédias de grande circulação. Corretor de imóveis, na cidade de Monteiro Lobato (interior do estado de São Paulo), destaca-se principalmente como colunista e poeta colaborador em mídias independentes de cultura, tendo forte ligação com a Revista Digital de Cultura Entrementes. Nessa plataforma, ele publica ensaios, crônicas e reflexões literárias. É autor de textos líricos e de forte teor existencial, como os poemas "Não existe molhado igual ao pranto", "Um caso de amor e vida" e "Desacordado". Suas obras transitam pelo lirismo confessional, pela desilusão, pela busca de liberdade e pelo impacto da memória no cotidiano. Por ser um escritor com foco em canais de divulgação digital alternativa e produção independente, ele não pertence a academias tradicionais de letras e não possui registros de prêmios literários oficiais ou livros de grande tiragem comercial catalogados. 
A importância de autores como Paulo Vinheiro reside na democratização e descentralização da literatura na era digital. Atuando fora do circuito das grandes editoras comerciais, poetas independentes mantêm viva a tradição da escrita reflexiva e da crônica cultural em blogs e revistas de nicho, permitindo que a poesia alcance o público de forma imediata e sem intermediários. Textos como os seus cumprem o papel fundamental de registrar as angústias do sujeito contemporâneo e de debater temas que vão desde a ecologia até a memória afetiva de patrimônios culturais brasileiros (como em suas crônicas de viagem ao Sítio do Pica-Pau Amarelo), garantindo a oxigenação da produção literária na internet.

Fonte:

Antonio Brás Constante (Viagem que se Faz Dentro da Viagem)

As viagens tendem a começar bem, pois se iniciam em nossa mente. Você ao pensar em férias de verdade já se imagina em alguma praia espetacular, ou em alguma ilha paradisíaca, dirigindo um belo conversível vermelho, cheio de dinheiro e de belas mulheres, loucamente apaixonadas por você.

Hospedagem nos melhores hotéis, banhos de piscina, baladas, refeições que custam mais do que um salário mínimo. Que delícia de férias. Tudo vai indo muito bem, até que você escuta os resmungos de sua esposa, mandando-o parar de sonhar acordado, sair do sofá, e ir colocando todas as sacolas de roupa e comida no carro.

Ao levantar-se do sofá, você ainda consegue sentir os últimos restos de nostalgia se esvaindo de suas lembranças, percebendo em uma última fagulha de pensamento, aquela loira que estava sentada ao seu lado no conversível, dando-lhe uma piscadela de olho. Mas antes que você tenha tempo de pedir o telefone dela, a imagem some por completo.

Passa então a assumir seu papel de burro de carga da família. Junta todas as sacolas e mochilas, levando-as até o seu possante, modelo 1983 (chamado de possante, pois em todo lugar que para, deixa uma poça de óleo).

Começa a partir daí o longo caminho para se chegar ao calvário… Digo a praia, que não é espetacular, mas é a mais próxima da sua cidade. Repleta de pedágios, acidentes, pedágios, engarrafamentos, pedágios, buracos, pedágios, pardais e mais pedágios.

As viagens (com ênfase no litoral) são divididas em três etapas de gastos. Na primeira, se gasta na compra de roupas para usar na praia, bronzeadores e se gasta também com a manutenção do carro.

Na segunda etapa, os gastos são com o pedágio, gasolina, outro pedágio, compra de lembrancinhas na estrada, mais pedágios (espero não ter me esquecido de nenhum pedágio).

Até este momento, todas as despesas foram cobertas graças as suas reservas financeiras, guardadas para custear as férias, porém, insuficientes. Tudo que é pago a partir da terceira e última etapa, são frutos de cheques pré-datados, empréstimos e do limite de seu cheque especial. As férias parecem verdadeiras ilhas, cercadas de dívidas por todos os lados.

Os valores do dispêndio da terceira etapa equivalem a mais de 50% de tudo que vai ser gasto durante a viagem. Neles está incluída a compra de picolés, milho cozido, carne, aluguel, multas, etc (você não achou que iria para praia com seu possante em estado crítico e não levaria multa, achou?).

Mas não desanime, tenha por consolo que o bom nas viagens é que enquanto toda família dorme nos bancos de carona, você pode voltar a sonhar acordado enquanto dirige. Com sorte ainda consegue achar a tal loira do conversível vermelho em suas lembranças, e curtir os prazeres de férias inesquecíveis… Em seus sonhos.
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ANTÔNIO BRÁS CONSTANTE é um escritor, cronista e contista brasileiro contemporâneo, amplamente reconhecido no ambiente digital por suas produções literárias marcadas pelo humor satírico e pela ironia cotidiana. Embora não haja um registro público detalhado de sua data de nascimento ou de uma biografia institucional tradicionalizada pelas grandes academias nacionais, suas publicações fornecem informações precisas sobre sua trajetória literária. É um autor gaúcho, residindo e desenvolvendo grande parte de suas atividades e inspirações na cidade de Canoas/RS. Ele costuma se definir publicamente de forma bem-humorada como um "eterno aprendiz de escritor, amigo e amante da musa inspiração". Teve forte atuação na chamada "literatura de internet" durante as décadas de 2000 e 2010. Ganhou notoriedade ao publicar textos, crônicas e contos em plataformas e blogs como o Recanto das Letras, Overmundo e WebArtigos. Sua marca registrada é o uso do humor azedo, da sátira social e de reflexões irônicas sobre a modernidade (como o vício em redes sociais e e-mails) e as reviravoltas da vida cotidiana. Seu foco de atuação sempre esteve voltado à produção independente e à democratização da leitura via internet. Embora não possua grandes prêmios institucionais listados, o autor já integrou seleções de destaque popular. Sua obra alcançou o ranking dos 100 Livros de Crônicas Mais Lidos e dos 50 Melhor Avaliados na plataforma literária Skoob, uma das maiores comunidades de leitores do Brasil. Livros e Textos Publicados: Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE: Livro físico de crônicas e contos de humor. É autor de crônicas e contos populares na internet. 
A importância de Antônio Brás Constante reside na sua capacidade de desmistificar a literatura e aproximá-la do público geral através do humor cotidiano. Ao utilizar a internet como seu principal vetor de distribuição, ele se tornou um exemplo de escritor que rompeu as barreiras editoriais tradicionais. Seus textos conseguem atingir diferentes camadas sociais, servindo tanto para o entretenimento leve de leitores assíduos quanto como ferramenta de mediação de leitura e debates socioeducativos para jovens em salas de aula e projetos de reinserção social.

Fontes:
Colaboração do escritor.
Biografia = Rubem.wordpress; Overmundo; Recanto das Letras; Olhar Direto; Web Artigos; etc.

Roseana Murray (Poemas Avulsos)

 

O LAMBE-LAMBE

O lambe-lambe lambe o tempo
(como se o tempo fosse
uma bala, um doce)
e vai pregando seus retratos.

No canto da praça
um velho, um menino,
lado a lado
o mesmo desbotado sorriso.

Atrás do pano preto
o lambe-lambe
e seus misteriosos pensamentos:
onde foi parar a moça
que ele fotografou um dia?
A moça rasgou seu coração
como uma velha fotografia
e partiu junto com o vento.

Num canto da praça
o lambe-lambe
e sua estranha galeria.
= = = = = = = = = = = = = =  

O MÉDICO

Para o médico, o corpo
não tem segredos:
é como uma fábrica,
uma orquestra,
uma casa com os móveis
todos no lugar.

O sangue corre nas veias
como um disciplinado rio.
O pulso bate com precisão,
afiado relógio marcando a vida.

Se alguma coisa se move
erradamente,
se alguma coisa se quebra,
o médico bota o corpo de castigo,
e vai escrevendo receitas
como cartas que o corpo entendesse.
= = = = = = = = = = = = = =  

A RENDEIRA

A rendeira... seu ofício de aranha
tecendo beleza
me ajuda a tecer meus poemas.

Tem mãos de maga,
a rendeira,
tem mãos de espuma.

Não assina seu trabalho
com um nome,
mas com magia,
como um voo de pássaro
assina o céu.
= = = = = = = = = = = = = =  

O VENDEDOR DE COCADA

Lá vai o vendedor de cocada
com seu tabuleiro,
pano branco na cabeça.

Lá vai o vendedor de cocada
vendendo um mundo de coco:
cocada branca ou queimada
pra vida ficar mais gostosa.

Lá vai o vendedor,
tabuleiro na cabeça,
adoçando a calçada.
= = = = = = = = = = = = = =  

A ARQUITETA

A arquiteta gostaria
de projetar mil casas
por dia,
aéreas, subterrâneas,
casas de vidro e de paina,
redondas, de esvoaçantes
telhados.

Em frente à prancheta
a arquiteta sonha
o justo sonho
de todo mundo ter
onde morar.
= = = = = = = = = = = = = =  

OS CATADORES DE PAPEL

Pela cidade afora,
noite ou dia,
a qualquer hora,
os catadores de papel
são triste paisagem.

Vão juntando papel e pobreza,
moram assim,
nas praças, nos vãos,
em casa feita de nada.

Tenho tanta pena
dos catadores de papel,
agora moram aqui,
no meu poema.
= = = = = = = = = = = = = =  

OS MÚSICOS

Na casa dos músicos
as paredes são sonoras,
no teto moram acordes,
e nos vãos sustenidos se escondem.

Os pensamentos dos músicos
não são como os pensamentos comuns,
moram em outras altíssimas esferas.

Para nós, os outros,
eles constroem algodoados
caminhos de sons.

Para que nossa vida
fique mais leve,
fique mais bela.
= = = = = = = = = = = = = =  

A ATRIZ

No camarim a atriz
cola uma outra alma
na sua,
um outro rosto
no seu,
e vão pro palco
assim tão grudados,
que é como um rio
navegando em outro
rio.

O palco suspenso
por um fio de magia
é a casa da atriz.
= = = = = = = = = = = = = =  

A BAILARINA

A bailarina,
como frágil lamparina,
como pequeno colar,
faz do ar sua casa,
sua estrada pontilhada
de água.

Entre uma estrela e outra
a bailarina descansa.
Ali onde os humanos
não podem ir,
só os loucos, os loucos
e os que sabem
que com um desejo
se constrói um planeta.
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O PESCADOR

Os sonhos do pescador
são feitos de espuma, de sal,
de muitos milhares de peixes,
como feixes de girassol.

Na rede do pescador
pedaços de luz e de prata,
seus sonhos materializados.

Em terra firme o pescador
é habitante provisório,
anda meio de lado,
cheio de silêncios marinhos,
suas mãos de alga.
= = = = = = = = = = = = = =  

OS CARTEIROS

Abrir uma carta,
o coração batendo,
é precioso ritual.
O que terá dentro?
Um convite, um aviso,
uma palavra de amor
que atravessou oceanos
para sussurrar em meu ouvido?

São como conchas as cartas,
guardam o barulho do mar,
o ar das montanhas.
Para mim os carteiros
são quase sagrados,
unicórnios ou magos
no meio dessa vida barulhenta.
= = = = = = = = = = = = = =  

O POETA

O poeta vai tirando da vida
os seus poemas
como pássaros desobedientes
e amestrados.

A palavra é o seu castelo,
sua árvore encantada,
abracadabra construindo o universo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

Roseana Murray (1950)
ROSEANA KLIGERMAN MURRAY (Rio de Janeiro, 1950) é uma poetisa e escritora de obras infanto-juvenis brasileira. Quando criança, Roseana gostava muito de ler, "tudo o que tinha disponível", segundo a própria autora. Gostava muito do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Tesouro da Juventude, Contos de Fadas, entre outros. Roseana é formada em Língua e Literatura Francesa, pela Aliança Francesa, Universidade de Nancy. Morava em Saquarema, cidade de que é cidadã honorária, Atualmente a escritora vive em Visconde de Mauá. Casada com Juan Arias, jornalista e escritor espanhol, correspondente, no Brasil, do jornal El País, de Madrid. 
Começou a escrever poesia para crianças em 1980, com o livro Fardo de Carinho, influência direta de Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. A autora publicou mais de cinquenta livros , entre eles Classificados Poéticos (1984), Falando de Pássaros e Gatos (1987) e Receitas de Olhar (1992). Recebeu por três vezes o Prêmio de Melhor de Poesia pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Prêmio APCA, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor livro infantil e faz parte da Lista de Honra do I.B.B.Y. Trabalha em Saquarema com o Projeto Uma Onda de Leitura junto com a Secretaria de Educação. Roseana, procura em suas obras mostrar maneiras de viver melhor, ela expressa seu dia a dia.
Alguns livros: 1981- No País das Coisas Impossíveis; 1983- No Mundo da Lua; 1987- Um avô e seu Neto; 1991- Criança é Coisa Séria; 1995- De que Riem os Palhaços?; 1996- O Mar e os Sonhos; 1998- Uma História de Fadas e Elfos; 2001- Caminhos da Magia; 2004- Um Gato Marinheiro; 2006- O Xale Azul da Sereia; 2009- Arabescos no Vento; 2016- Livros e Leitores; 2024- O Braço Mágico, etc.

Fontes:
Murray, Roseana. A bailarina e outros poemas. 1. ed. - São Paulo : FTD, 2001. (Coleção literatura em minha casa ; v. 1)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Roseana_Murray 

Carina Isabel M. Cardoso (Luzia)

Por aqueles corredores com pisos soltos, paredes encardidas e descascadas, Luzia transitava todos os dias, vendo sua vida passar sem perceber o dia lá fora.

Mulher magra e muito alva, com aparência cansada e desleixada de quem tem pouco tempo para si, mas ainda mostrando-se bela, apenas descuidada, ela segue mais uma vez para o quarto da mãe doente e moribunda. Luzia cuida da mãe com todo o zelo que uma filha pode dispor à sua progenitora, apesar de seus olhos não esconderem o desprezo por aquela mulher que apesar de velha e doente ainda consegue ser tão cruel, com uma língua tão ferina.

Apesar de religiosa, D. Matilde não tinha nem de longe um coração puro, tinha um olhar que só passava frustração, mágoa e inveja a quem o fitasse. Nada de bom se aprendia com aqueles olhos negros e fundos, mesmo sendo tão experientes e sábios.

D. Matilde sempre foi uma mulher ligada à igreja, querida pelos que compartilhavam sua fé, tão caridosa, tão solicita aos necessitados que a comunidade ajudava, mas, dentro de casa sempre levou a família com mãos de ferro, nunca dando a menor mostra de carinho e afeição pela única filha e nem ao marido que sempre fez de tudo para agradá-la, bancando todos os seus caprichos, até mesmo concordando que Luzia, por ser a única filha, não deveria se casar enquanto os dois ainda estivessem vivos, que ela deveria era cuidar dos pais e da casa, pois eles não tinham mais ninguém por eles, e mesmo que ela se casasse e morasse perto não seria suficiente, teria que morar sempre com eles, até o fim.

Quando o pai faleceu, Luzia perdeu sua única alegria de estar ali, pois o pai era um homem muito gentil, e apesar de fraco, nunca retrucou uma palavra maldosa de sua esposa, mesmo assim sua relação com ele era muito boa, ela procurou aceitar que o pai agia dessa maneira para manter as coisas em harmonia.

Agora que estavam sós, apenas as duas vivendo na casa, as coisas eram levadas na base da diplomacia entre elas, e ao entrar naquele quarto escuro, fétido e triste ela se preparava para ouvir qualquer coisa de sua mãe, e quando entrava aquela troca de olhares, o ódio com que aqueles olhos negros e profundos das duas se encontravam, chegava a doer na alma. E, D. Matilde não aceitava o fato de estar tão doente, sempre colocando a culpa na filha, pois se não a tivesse parido com certeza sua saúde estaria muito melhor, não teria perdido tanto tempo cuidando de uma criança e sim de si mesma, e não precisaria de ajuda de ninguém.  Era inaceitável para ela ter que ser guiada até o banheiro, tomar banho na cama, mas Luzia mesmo com tantos motivos para odiar sua mãe, não conseguia apenas se sentia muito pequena diante daquela mulher na cama, emagrecida e doente. Queria apenas um pouco de respeito, afinal ela se abandonou completamente para estar ali, não amou, não estudou, não viveu nada além daqueles corredores com pisos soltos e paredes encardidas, ouvindo as amigas de sua mãe dizer o quanto ela era boa e generosa, o quanto ela deveria ser grata por ter nascido em um lar tão abençoado, e aquelas palavras acabavam por diminuir ainda mais sua esperança de respeito, apesar de seu tamanho, ela se imaginava quase invisível aos olhos negros, profundos e cheios de rancor com os quais sua mãe a fitava entrando no quarto trazendo sua comida, esperando até que ela desse a última garfada e para limpar a boca da mãe.

Rezava todas as noites para que aquela fosse a última de sua sina, já não aguenta mais, não o trabalho a ser feito, mas sim o desprezo, mas então outro dia recomeçava e com ele a sina que parecia não ter fim, e a cada dia que passava ficava mais difícil encarar aqueles olhos, aquele rancor. E então, aquela menina que tanto lutou para não ter aqueles olhos, os viu no espelho quando refletia a sua imagem e não a dela; viu a mesma amargura, o mesmo mal, sem saber de onde veio o dela; sabia exatamente o quando e o porquê seus olhos se tornaram brilhantes como duas pedras de ônix; mas o brilho não era bom, não era agradável, e então ela soube que era hora de acabar com sua sina, foi até o seu algoz e com toda a coragem que o mundo poderia lhe dar naquele momento, em uma última tentativa de viver bem, abraçou sua mãe, disse que a amava e que iram ter novas regras em casa a partir daquele momento; não suportaria mais aquelas palavras cruéis, os olhares de desdém, o rancor e a culpa, tomaria as rédeas da situação e que a mãe pensasse o que quisesse daquilo. Foi então que viu sua mãe chorar pela primeira vez em sua vida de quarenta e dois anos, um choro verdadeiro e sentido, vindo da alma, como se descarregasse o peso acumulado a vida inteira, mas nunca explicou o porquê daquele choro tão dolorido, mas a partir daí as coisas ficaram diferentes, Luzia conheceu o amor e casou-se, teve filhos e ninguém mais soube de D. Matilde, o que houve com ela só a filha sabe, e o motivo daquele choro também não foi revelado…

Luzia nunca mais pisou naquela casa de pisos soltos e paredes encardidas…
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Carina Isabel (1974)
CARINA ISABEL MACHADO CARDOSO nasceu em 1974, na cidade de Votorantim (SP). Nascida na região metropolitana de Sorocaba, mantém forte vínculo cultural e literário tanto com sua cidade natal quanto com o município vizinho de Sorocaba (SP). Atua em sua área de formação na região interiorana de São Paulo, conciliando suas atividades cotidianas com a escrita criativa. Dedica-se à escrita de contos, crônicas e, principalmente, poesias. Suas produções independentes ganharam espaço em coletâneas regionais e blogs focados na produção literária do interior paulista (como o espaço Oceano de Letras, onde publicou textos sob pseudônimos/títulos como "Luzia"). Ela costuma utilizar o pseudônimo literário de Lápis-lazúli em concursos e premiações, atuando de forma mais expressiva como escritora independente e colaboradora de movimentos literários regionais. Conquistou o 2º Lugar no 1º Concurso de Poesia em Homenagem ao Dia Internacional da Mulher (promovido por mídias e órgãos culturais paulistas, como o Jornal Rol), participando com a poesia intitulada "O quarto de despejo" sob o pseudônimo de Lápis-lazúli. 
A importância de Carina reside no papel fundamental da literatura regional e independente. Ao participar ativamente de concursos de poesia e registrar as vivências do interior paulista, ela ajuda a descentralizar a produção cultural dos grandes eixos metropolitanos. Escrever poesia sob a ótica feminina contemporânea — dialogando inclusive com referências históricas fortes (como sugere o título premiado de seu poema, "O quarto de despejo", que faz alusão direta à obra-prima de Carolina Maria de Jesus) — contribui para manter viva a produção literária comunitária, servindo de inspiração para novos autores locais. 

Fonte:
Clic – Palavra de Mulher 16.08.2012

Guerra Junqueiro (O Rico e o Pobre)

Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um dia, tornando de uma aldeia muito distante da sua, morto de fadiga, deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, na beira da estrada. Principiava a comer um bocado de pão que tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem, em que vinha um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu logo a perguntar aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não havia tempo, e que lhes trouxesse ali mesmo um frango assado e uma garrafa de vinho.

O Martinho ficou pasmado a olhar para eles; olhou depois a sua côdea de broa, a sua velha jaqueta, o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou baixinho:

– Quem me dera a mim no lugar daquele menino tão rico! Antes ele aqui estivesse, e eu dentro da sua carruagem!

O preceptor ouviu o Martinho e repetiu as palavras dele ao seu aluno; este, lançando a cabeça fora da berlinda, chamou pelo Martinho com a mão.

– Diz-me lá é rapaz: ficavas satisfeito, podendo trocar a minha sorte pela tua?

Desculpe, meu senhor, replicou o Martinho corando, aquilo que eu disse não foi por mal.

– Olha que me não zango, tornou o fidalguinho. Ao contrário, vamos fazer a troca.

– Isso é mangação!... tornou o Martinho; um menino tão rico punha-se mesmo agora no meu lugar! Papo muitas léguas ao dia, como broa e batatas, e o senhor fidalguinho anda de carruagem, janta frangos e bebe do melhor.

– Pois se me dás o que tens e que eu não tenho, levas em troca e de boa vontade a minha riqueza toda.

O Martinho ficou de olhos pasmados, sem saber o que havia de responder; mas o preceptor continuou:

– Aceitas a troca?

– Ora essa! concluiu o Martinho, é boa a pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada quando me virem rodar numa carruagem tão bonita.

Então o fidalguinho chamou o trintanário, que abriu a portinhola e o ajudou a descer. Mas qual foi o espanto do Martinho, vendo-lhe uma perna de pau e a outra tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas! Depois observando-o de mais perto, notou que era muito pálido, com cara triste de doente.

O fidalguinho sorriu e acrescentou com ar benévolo:

– Vê Já, sempre desejas a troca? Darias, se pudesses, as tuas pernas valentes e as tuas faces vermelhas, pelo gozo de ter uma carruagem e de andar bem vestido?

Oh! não, já não quero! replicou o Martinho.

– Pois eu, antes desejaria ser pobre e ter saúde. Mas, quis o destino que fosse aleijado e doente; sofro os achaques com paciência, dando graças a Deus pelos bens que me entregou na sua infinita misericórdia. Faz tu o mesmo, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força e saúde, coisas que valem bem uma carruagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.
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Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO foi o poeta mais popular e politicamente influente de sua época em Portugal. Conhecido como o "Victor Hugo português", suas sátiras afiadas e seu profundo lirismo social atuaram como verdadeiros combustíveis ideológicos para a queda da monarquia e a subsequente implantação da República Portuguesa. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, na região de Trás-os-Montes, em Portugal, em 1850  e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1923 (aos 72 anos), vitimado por problemas de saúde decorrentes da idade. Passou a infância em Trás-os-Montes e mudou-se para Bragança e depois Coimbra para realizar seus estudos. Ao longo de sua vida adulta e carreira política, alternou residências entre Lisboa e Porto. Também morou temporariamente em Berna (Suíça) devido às suas funções diplomáticas. Filho de um lavrador abastado, Junqueiro inicialmente foi direcionado à vida eclesiástica por sua família conservadora. No entanto, abandonou o seminário para cursar Direito na Universidade de Coimbra, formando-se em 1873. Sua carreira foi altamente multifacetada. Atuou como jornalista e cronista em periódicos influentes de sua época. Trabalhou como alto funcionário administrativo do Estado, atuando como Secretário-Geral Civil em Angra do Heroísmo (Açores) e em Viana do Castelo. Teve uma ativa carreira parlamentar, sendo eleito Deputado nas cortes portuguesas pelo partido progressista e, mais tarde, um dos principais defensores das causas republicanas. Com a consolidação da República, foi nomeado Ministro Plenipotenciário (Embaixador) de Portugal na Suíça entre os anos de 1911 e 1914.
Guerra Junqueiro despontou para o mundo das letras na efervescente Coimbra do fim do século XIX, integrando o movimento acadêmico e revolucionário conhecido como a Geração de Coimbra. Inicialmente influenciado pelo romantismo tardio, ele rapidamente migrou para o Realismo e o Naturalismo, integrando o grupo de intelectuais do Cenáculo. Diferente de outros autores de sua era, a atuação de Junqueiro concentrou-se mais em associações políticas, grêmios intelectuais e revistas de vanguarda (como a Lanterna Mágica e A Folha) do que em academias de letras formais. Ele recusava formalismos institucionais tradicionais por sua postura altamente rebelde, anticlerical e antimonárquica. No século XIX e início do século XX, o sistema de premiações literárias oficiais em Portugal quase não existia nos moldes atuais. O maior "prêmio" de Guerra Junqueiro foi o imenso clamor público e popularidade inédita, tornando-se o poeta mais lido e declamado do país. (Nota: Atualmente, seu legado batiza o prestigioso [Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, instituído para condecorar grandes nomes da literatura em língua portuguesa).
Principais Livros: A Morte de D. João (1874) – Obra que o consagrou no realismo satírico; A Velhice do Padre Eterno (1885) – Forte e polêmica sátira anticlerical; Finis Patriae (1890) e Pátria (1896) – Poemas panfletários de protesto contra o declínio da monarquia e o Ultimato Britânico; Os Simples (1892) – Transição para uma poesia mais mística, panteísta e voltada à exaltação da vida rural e dos camponeses.
A importância de Guerra Junqueiro reside no fato de ele ter transformado a poesia em uma arma cívica e de intervenção social de massa. Ao unir a ironia corrosiva e a caricatura social a um domínio estético grandioso, ele conseguiu fazer com que a poesia saísse das elites e ecoasse diretamente no sentimento popular de indignação pública. Suas sátiras desmistificaram as instituições da Coroa e da Igreja, abrindo caminho cultural e psicológico para as transformações democráticas modernas em Portugal e marcando definitivamente a transição estética para o século XX. 

Fontes:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância. Publicado originalmente em 1877..
Biografia = Wikipedia, Enciclopedia Britannica, E-Biografia, Infopedia, Instituto Camões, Brasil Escola, Jornal de Poesia, etc.

Estante de Livros ("O Calor das Coisas", de Nélida Piñon) Conto: O revólver da paixão

Foco Narrativo
Narrado em 1ª pessoa. Uso constante do modo imperativo.
 
Espaço
A alma de uma mulher, com sentimentos apaixonados e contraditórios.

Personagens
Narradora – mulher apaixonada e o homem que a deixou. Personagem relata em uma carta seu amor doentio – dominadora. Ela lhe pede que volte e reconhece que não é capaz de controlar seu ciúme.

O conto trata de uma carta em que uma mulher comunica seus sentimentos, ora ameaçadores, ora ternos, contraditórios sempre. Desculpa-se, faz exigências para de novo desculpar-se, de novo exigir. Ela se comunica através da dor que sente de ter sido preterida, de ter perdido aquele a quem ainda ama e sem o qual julga não poder viver.

Conforme o sociólogo italiano Francesco Alberoni (1986), “o enamoramento é um processo no qual a outra pessoa, aquela que encontramos e que nos correspondeu, se nos impõe como o objeto pleno do desejo”, e é esse processo que ocorre com a protagonista do conto “O revólver da paixão”, que é obcecada pelo homem que a abandona. Ainda conforme Alberoni, “a relação de enamoramento é um processo, um achar e perder. A pessoa amada é, ao mesmo tempo, constante e precária, única e diversa, ser empírico e ser ideal”.

De acordo com Roland Barthes (2003), a carta de amor é ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (carregada da vontade de significar o desejo). Esse “conto-carta”, que se encaixa nessa descrição de Barthes, começa da seguinte forma: “Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa”.

Percebe-se, que ela está ressentida e não aceita o término do relacionamento, não aceita que o homem viva longe de sua presença, de seu amor. Para pedir perdão e se queixar, ela se reporta diretamente ao sujeito amado – talvez por isso a escolha, por parte de Nélida, do gênero carta, que permite a genuína expressão em primeira pessoa, a expressão da voz do sujeito enamorado, que nesse caso é a mulher.

Ao afirmar que se perdeu nas palavras que o homem lhe disse, a narradora também atribui a ele a responsabilidade por seu estado: ela não apenas se enamorou, sozinha, mas foi conquistada; e por isso o amado é, para a mulher, covarde e culpável, por despertar seu amor e abandoná-la. Nesse conto, no qual o amor cortês também se deixa entrever, é a mulher quem assume o papel de vassalo no relacionamento: é quem se submete ao objeto amado, quem está sedenta de (mais) dependência . Assim, a narradora-personagem de “O revólver da paixão” sente medo de perder o homem a quem ama. Isso seria, para ela, a morte:

“A verdade é que a tua perda me ameaça. A tua perda é uma sentença de morte. Morte que não suporto, não permito. Teu dever é amar-me, é continuar na minha cama, na minha vida, na minha memória. Na memória que projeta teus mil retratos tirados ao longo da vida que nos atou com cordas e arame”.

Os sentimentos da protagonista em relação ao amado são, como podemos perceber, paradoxais, tendo em vista que ela o ama ao mesmo tempo em que o odeia e sente raiva dele, deseja sua morte ao mesmo tempo em que tem medo de perder seu amor, além de afirmar que não quer vê-lo, enquanto anseia por sua presença. Esses sentimentos paradoxais são próprios do desejo e do sentimento amorosos, que nos impelem a idealizar o outro e a querê-lo mais que tudo, mesmo sabendo que ele é humano e falho, como nós. Por mais que nos decepcionemos com o ser amado, o amor e o prazer de amar nos levam a ansiar por ele, a perdoar e esquecer os erros e ofensas cometidas contra nós, contanto que essa pessoa esteja disposta a continuar conosco e retribuir o que sentimos por ela. Por isso a narradora pede que o homem volte:

“Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartas te persigam, e fique a vida difícil para nós”

Logo, perto ou longe do ser amado, o sujeito amoroso nunca está completamente satisfeito ou pleno. Ainda assim, a narradora-personagem continua a pedir o retorno do homem:

“Volte, porque te espero. E se voltares, que fiques sempre comigo. Não prometo comportar-me a ponto de que vivas o amor com suavidade. [...] Amanhã te escreverei, de novo capitulo ante o meu amor.”

Ela admite, então, que cede, transige ante seu amor, pois não tem forças para lutar contra esse sentimento. Como esse amor é mais forte do que ela, não há nada que possa fazer para apagá-lo ou mitigá-lo, por isso a narradora-personagem para de escrever, para que possa apenas sentir o amor, em toda a sua intensidade. Talvez o que ela ame, de fato, não seja o homem, mas o sentimento que ele causa nela, que faz com que se sinta viva, uma vez que o amor pode ser também uma expressão da vida, um modo de sentir e estar no mundo.

Fontes:
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013 in http://www.cliqueapostilas.com.br/
– Joyce Glenda Barros Amorim. Amor, Poder e Violência em Contos de Nélida Piñon. Dissertação de Mestrado. 88 p. Belo Horizonte: UFMG, 2015. (excertos)