segunda-feira, 16 de março de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (O que efetivamente determina o nosso destino?)


HÁ QUEM ACREDITE piamente que o primeiro passo dado define toda a caminhada. Mas a vida, com a sua ironia silenciosa, insiste em provar o contrário. Frei Beto ensina que “O ponto de partida é apenas um instante congelado no tempo, tipo uma fotografia inicial que não contém o filme inteiro”. O destino, por sua vez, agora visto pela ótica da professora Carolina Vigna, “é uma obra em constante reescritação feita de desvios, encontros inesperados e escolhas que por sua vez se multiplicam como bifurcações invisíveis”.

Uma jovem que começa num bairro esquecido pode se tornar inventora de futuros. Uma mulher que inicia a sua jornada em meio ao silêncio pode descobrir, num piscar de olhos a sua voz no palco do mundo. “O início não é sentença, é apenas uma peça do cenário”. Tudo isso e muito mais pode ser lido no livro de Maria Isabel Szpacenkopf em seu “O olhar do poder”. O que realmente molda o caminho, nas palavras, agora na visão de Raul Parelo em “A vida suspeita do subversivo”, é “a coragem de continuar, mesmo quando o horizonte parece distante demais”.

Parinoush Saniee em seu romance “O livro do destino” deixa claro e cristalino que o ponto de chegada “não é uma linha reta, mas um mosaico de acasos e decisões”. O ponto de partida, pode ser humilde, doloroso ou até mesmo bastante caótico — mas não é uma prisão. Cada curva, cada queda, cada levantada, cada recomeço acrescenta uma nova camada à narrativa. E, no fim, nos leva a acreditar que o que importa “não é de onde se veio, mas o que se construiu ao longo da travessia”.

Assim, a crônica da nossa vida ensina: nenhum ponto de partida indica o destino. O que o determina alimentando é a persistência em caminhar, a ousadia constante em mudar de rota e a fé persistente em que o amanhã pode ser diferente do ontem. E o ontem, do hoje. O ponto de onde se inicia a viagem, é apenas uma circunstância inicial, um instante que nos situa no tempo e no espaço, mas não nos aprisiona de nenhuma forma. 

A filosofia ensina que o ser humano é um esboço em aberto, não nasce pronto, se constrói aos poucos. Martin Heidegger em “Ser o tempo” fala do “ser-aí” lançado no mundo, mas com a liberdade de se projetar além das condições dadas. Sartre, por sua vez, lembra em “Com a morte na alma” que “a existência precede a essência” — ou seja, não somos definidos pelo lugar de onde viemos, mas pelas escolhas que fazemos.

O destino, esclarece Sartre (citando ainda o mesmo livro) algumas páginas mais adiante, aliás, ele deixa claro e conciso que “não é uma simples linha reta traçada desde o nascimento; é uma tessitura de decisões, acasos e persistências. O ponto de partida pode ser marcado por limitações, injustiças ou privilégios, mas não é sentença definitiva”. Pois bem! O que realmente importa é a capacidade de transcender, de reconfigurar o caminho, de se reinventar a cada minuto, a cada novo dia, diante das contingências. 

A vida, no dizer elegante de Simone de Beauvoir em “A velhice” fica claramente delineado que “tudo faz parte de uma dialética: cada escolha abre possibilidades e fecha outras, cada desvio redefine o horizonte. O destino não é dado, é construído”. Com isso aprendemos que se há algo que nos distingue como seres humanos, é justamente a liberdade de não sermos reféns do tal do início. O ponto de partida pode ser apenas um detalhe na narrativa maior, o que dá sentido lógico à travessia da ponte grandiosa. 

Em toda a sua extensão, é a consciência de que o futuro se escreve dia a dia, minuto a minuto, ou a cada passo. Assim, pensar que “nenhum ponto de partida determina o destino” é afirmar categoricamente que a dignidade da liberdade humana é reconhecer que o começo não é prisão, mas apenas o cenário. O destino é obra em aberto, e cabe a cada um de nós a responsabilidade e o privilégio de escrevê-lo.

A ideia de que nenhum ponto de partida determina o destino encontra eco retumbante em inúmeras vidas que desafiaram as circunstâncias iniciais. A história humana está repleta de exemplos de pessoas que nasceram em condições adversas, mas que, pela força da vontade, pela persistência e pela capacidade de se recriar de se reinventar, transformaram brilhantemente ou melhor dito, reconstruíram o seu caminho. 

Como exemplo, perguntaria a todos os meus leitores e amigos do “Singrando Horizontes”: Quem por aqui já ouviu falar em Lizzie Velásquez? Vamos resumir em poucas palavras. Nascida com uma rara doença genética que impediu o ganho de gordura corporal, desde nova, Lizzie foi alvo de bullying cruel e chegou a ser chamada de “a mulher mais feia do mundo”. Em vez de se deixar definir por esse ponto de partida doloroso, Lizzie se tornou palestrante motivacional e escritora, inspirando milhões com sua mensagem de resiliência e amor-próprio. Seu livro “A bela Lizzie” é uma joia rara que deveria ser lida por todos os que se acham perdidos ou fracassados no meio da multidão.  

Oprah Winfrey. Essa jovem cresceu em extrema pobreza no sul dos Estados Unidos e enfrentou abusos na infância. Seu início parecia uma sentença de marginalização, mas ela transformou a sua trajetória em uma das mais influentes carreiras da mídia mundial, se tornando símbolo de superação e liderança feminina. Um filme que relembra magnanimamente bem a sua trajetória, sem dúvida alguma o longa “A Cor Púrpura” O filme não é sobre ela, mas retrata com detalhes a vida de uma menina que praticamente seguiu e vivenciou uma trajetória parecidíssima com a de Oprah.    

Nelson Mandela. Filho nativo de uma pequena aldeia na África do Sul, enfrentou o peso do apartheid e passou 27 anos preso. O ponto de partida se fundamentava na opressão sufocante, porém, o destino foi a sua chegada triunfal à presidência e, ao mesmo tempo, a construção de uma nação mais justa, se tornando um ícone universal da luta ferrenha pela liberdade.

Tivemos aqui na nossa Terra, a figura ímpar de Carolina Maria de Jesus. Escritora famosa, viveu na favela do Canindé, em São Paulo, catando papel para sobreviver. Seu diário, publicado em livro com o título “Quarto de Despejo”, revelou ao mundo a realidade da pobreza urbana e transformou a sua voz desconhecida em símbolo da literatura social brasileira. Outros livros de sua autoria fazem parte até hoje de uma literatura esquecida: “Pedaços da fome”, “Casa de Alvenaria”, “O escravo”, “Diário da Bitita”, “Onde estaes felicidade” e tantos mais. Carolina Maria de Jesus se fez esquecida, todavia, a sua obra grandiosa, jamais morrerá. 

A jovem Bárbara Harmer, nasceu em 1953, em Loughton, Essex, e cresceu em Bognor Regis, no sul da Inglaterra. Saiu da escola aos 15 anos para trabalhar como cabeleireira. Uma trajetória que, à primeira vista, parecia distante do mundo desejado. No entanto, alguns anos depois, decidiu mudar de rumo: foi trabalhar no Aeroporto de Londres Gatwick e isso a obrigou a alterar completamente a sua vidinha pacata. Em sua nova trajetória assumiu o emprego como controladora de tráfego aéreo do Aeroporto. Observando diariamente os aviões decolando e pousando todos os dias despertou nela o desejo de voar. 

Disposta a mudar de vida, usou toda as suas economias para pagar as aulas de pilotagem. Conquistou a licença de Piloto Privado e se tornou instrutora de voo. Com essa base, ingressou logo em seguida na formação de piloto e, após anos de dedicação ferrenha, alcançou um feito histórico. Em 1993, Barbara se tornou a primeira mulher piloto qualificada do Concorde, o avião supersônico de passageiros mais icônico do século XX. 

Sua visão de futuro, seu desvario, sua garra e obstinação continuam mostrando a todos nós, até hoje, embora já passados tantos anos, que não importa quão improvável venha ser o início. Com disciplina e coragem, e uma boa pitada de determinação e coragem, é possível transformar o destino. Bárbara Harmer faleceu em 20 de fevereiro de 2011, aos 57 anos, no St. Wilfrid1s Hospice, em Chichester, na Inglaterra, após lutar contra um câncer de ovário. Quatro semanas antes desse evento, se casou com seu companheiro de longa data, Andrew Hewett. 

Essas vidas que fiz questão de destacar acima, certamente servirão de ponto de partida para se entender que tudo no nosso cotidiano não passa apenas de circunstância. A filosofia existencialista reforça essa ideia: somos seres em projeto, todavia capazes de transcender as condições iniciais. O que nos define, repetindo o já dito acima, não é o lugar de onde viemos, mas a forma como respondemos às contingências. A liberdade humana (mais uma vez) consiste em não aceitar o início como sentença. O destino é obra aberta, e cada escolha é um ato de autoria própria. 

O ponto de partida pode ser duro, as vezes cruel, ou negro demais, mas tudo isso é apenas o prólogo. Veríssimo fala que “O enredo se escreve na coragem de continuar”. Assim, a reflexão final de todo o texto, se reduz num só ponto: não importa o começo de onde pretendemos dar partida. Ele jamais determinará o futuro. O que nos leva ao ponto nevrálgico, ou ao ápice, é a coragem de caminhar, bem ainda a liberdade de escolher e a persistência em se reinventar. O destino é obra em construção, e cada passo no cotidiano, no dizer de Fernando Sabino “é uma oportunidade de escrever literalmente uma nova página”.
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Aparecido Raimundo de Souza (72), escritor e jornalista, de Vila Velha/ES

Texto enviado pelo autor
Imagem criada com IA Microsoft Bing com desenho do autor por JFeldman, e o Beija-Flor, símbolo do estado do Espírito Santo.

Folclore da Bulgária


A Bulgária é um país onde o passado pulsa nas aldeias, nas montanhas e nos rios — lugares onde as histórias atravessam gerações e se transformam em lendas que explicam o mundo. Os contos populares búlgaros nascem desse encontro entre a vida cotidiana e o inexplicável: são narrativas que misturam o sagrado e o profano, o humor e o temor, e que frequentemente trazem lições sobre moral, coragem e astúcia.

No coração dessas tradições aparecem seres fantásticos e figuras ambíguas. Os “samodivi” (ou “samodivi”) são ninfas da floresta, descritas como mulheres belas e perigosas, capazes de encantar viajantes, curar feridos ou punir os desrespeitosos. Elas personificam a força da natureza: ao mesmo tempo sedutoras e imprevisíveis, lembram que os bosques guardam tanto provisões quanto armadilhas para quem não os respeita. Lendas sobre montanhas — especialmente os Ródope — evocam cenários de amor trágico, rituais antigos e residências de espíritos ancestrais.

Outra presença importante é a do “kukeri” e das festividades associadas: personagens mascarados que, em rituais tradicionais, dançam e fazem barulho para afugentar maus espíritos e atrair fertilidade e abundância. Esses rituais mostram como o folclore búlgaro integra dança, música e símbolo para responder a ansiedades coletivas — sobre colheitas, saúde e renovação anual. As máscaras, os trajes e os movimentos têm significados profundos, ligados tanto a crenças pagãs quanto a adaptações posteriores.

O imaginário também contém criaturas noturnas e figuras liminares — vampiros em versões regionais, bruxas e espíritos de mortos que retornam. Essas histórias, muito antes de se tornarem imagens populares no Ocidente, eram formas de nomear o desconhecido: doenças, perdas súbitas e comportamentos fora do padrão eram explicados por presenças sobrenaturais, e em resposta surgiam práticas de proteção, rezas e remédios populares.

Os contos búlgaros trazem ainda heróis e espertezas do povo: camponeses astutos, jovens que vencem provações usando inteligência, e mulheres cuja sabedoria salva comunidades. Muitas narrativas são curtas e mordazes, feitas para entreter mas também para preservar normas sociais — ensinando sobre hospitalidade, humildade e respeito aos mais velhos. Há espaço também para o absurdo e o humor: exageros que ridicularizam pretensões e celebram a vida simples.

Culturalmente, essas lendas mantêm traços tanto do passado pré-cristão quanto de influências eslavas, bizantinas e otomanas, resultando em um folclore plural. Canções, danças, bordados e contos orais são veículos dessa memória coletiva, e cada região da Bulgária acrescenta seus próprios sabores e variações às mesmas histórias.

Ler ou ouvir os contos e lendas búlgaros é entrar numa paisagem onde o cotidiano coexiste com o sagrado, onde a natureza tem voz e os ritos marcam a passagem do tempo. Essas histórias não são apenas entretenimento: são mapas emocionais e simbólicos que ajudam comunidades a entender perdas, celebrar ciclos e proteger o que consideram mais valioso. Em suma, o folclore da Bulgária é uma renda viva de mitos, sabedoria popular e vivacidade — um convite a escutar o mundo com olhos mais atentos e coração aberto.

Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Renato Benvindo Frata (Sobre o Encanto e o Espanto)


Ambos, nascidos da alma humana, representam a essência das reações físicas e emocionais. Levam-nos ora ao encantamento da sublimidade da beleza, ora ao espanto provocado pelo inesperado, muitas vezes causador de susto, medo ou insegurança. 

O encanto se liga à admiração despertada pelos sentidos - tato, olfato, gosto, visão – e provoca, de imediato: fascínio, charme irresistível, ou mesmo uma espécie de feitiço delicado da beleza.

Já o espanto, esse nasce da surpresa e, também, se manifesta por reações sensoriais e corporais: assombro, sobressalto, abalo, choque, susto, comoção, perturbação, emoção, estranheza, espavento — ufa! O dicionário não economiza sinônimos...

Aqui estão alguns pontos sobre essa perspectiva:

O encanto está associado ao prazer sutil da admiração e à conexão íntima com algo ou alguém: é o êxtase espontâneo diante da algo inesperado que nos toca profundamente (romântico, não é?).

O espanto, por sua vez, surge da surpresa diante do novo, do estranho ou até da maldade. Em certos momentos sua força é tão grande que paralisa: por um instante nos põe suspensos (como se estivéssemos pendurados pelos suspensórios) entre a percepção e a reação.

O interessante desses sentimentos é a essencialidade de sua atuação indistinta em cada um de nós. Ambos atuam pela surpresa: a boa e a nem tanto. 

Um nos põe de joelhos frente ao que nos parece belo, afável, confortável, envolvente. Penetra em nós e fica a embevecer. O outro, da mesma forma, nos põe de pernas bambas diante do que nos tira o prumo. 

Enquanto o Encanto germina prazer, o Espanto produz o choque!

São emoções complexas e distintas, produzem reações físicas semelhantes às que o inesperado produz. 

Para concluir esse pequeníssimo estudo realizado com a ajuda importantíssima da Wikipédia, a quem rendo agradecimentos, eu diria que:

Entre o encanto, que é uma forma de maravilhamento, e o espanto, que é uma forma de choque sensorial, bom ou mau, se traduzem em emoções distintas que compartilham reações físicas semelhantes: arrepios, alterações respiratórias e cardíacas, paralisia temporária, mudança de expressão facial e vocal, mas que nos põem acordados.

Em outras palavras, tanto o encanto como o espanto podem, num único instante, – e instante não se mede, - lançar-nos à estratosfera interior que somente o coração conhece.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing usando a foto do autor, e a Gralha Azul, símbolo do Paraná

domingo, 15 de março de 2026

Asas da Poesia * 162 *


Poema de 
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

O fim

A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.

Devo esperar
esperar…

Com muita paciência

Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.

Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.

As palavras se perdem
entre as sombras.

O ato criativo
desvanece lentamente.

É o fim da poesia. 
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

Diz-me algo que eu não saiba.
Faz-me perceber
Que o mundo
não gira à minha volta,
que sou frágil,
tenho medos…

Faz-me perceber
que todos os dias
são para ser bem vividos,
que o sol não nasce só por querer.

Faz-me perceber
que o “nós” é mais importante que o “eu”!

Diz-me o que realmente pensas,
o que sonhas, o que queres.

Poderia dizer-te
que sei a importância e a força 
de sermos nós,
que sei que o mundo gira
independente de mim,
que o amor é o meu alimento
e amar-te é renascer todos os dias...

Tudo isto…. tu sabes?
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Trova de
TIAGO
António José Barradas Barroso
Paredes/Portugal

Não há nada, nesta vida,
 que acabe com o penar
 da tristeza da partida
 com lenço branco a acenar.
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto/Portugal, 1919 – 2004, Lisboa/Portugal

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
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Soneto de
CAIO DE MELO FRANCO
Montevidéu/Uruguai, 1896 – 1955, Paris/França

Evangelho da velhice

— "Quando a Velhice te bater à porta,
queres ouvir nosso Evangelho? — escuta:
Abre de manso e trêmula perscruta
aquela face que a tristeza corta.

Olha-a de frente... e uma alegria morta
verás em cada sulco que a labuta
deixou, fundo, ficar da insana luta,
que não nos confortou, nem nos conforta!...

Enxugarás o olhar inconsolado...
E ficarás pungentemente olhando,
de mãos postas, a orar para o Passado...

E assim, velhinha e triste, e eu triste e velho,
viveremos tremendo... mas rezando
a saudade sem fim desse Evangelho..."
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Inquestionável

A mentira
é o grande espelho
onde todos
se defrontarão,
um dia,
com a verdade
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Trova Popular

Todo o verso que eu sabia
veio o vento e carregou;
só o amor e o querer-bem
na memória me ficou.
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Soneto de
COMPADRE LEMOS
Luiz Carlos Lemos
Juiz de Fora/MG

Remédio Bom

Essa saudade mais parece moça nova
Que, de mansinho, vem chegando, devagar.
E vem querendo no meu peito se alojar,
Buscando teto, moradia, ou mesmo cova!

Mas eu conheço sua manha e sua trova.
Ela se encosta, mas eu não posso deixar.
E digo a ela: -- Vai bater noutro lugar,
Porque, na vida, para mim, já basta a prova!

Se ela insiste, eu procuro uma folia,
Um pé de valsa, uma fogueira, uma alegria,
Ou um bom gole, para não sentir a dor.

Então, eu pego na viola esquecida
E faço um verso, porque sei que, nesta vida,
Remédio bom para saudade... é novo amor!
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Poema de
NOÊMIA DE SOUZA
Catembe/Moçambique (1926– 2001) Cascais/Portugal

Infelizmente Jamais

No instintivo temor das ruas
Maria hesitava nos passeios
até não pressentir
o mais fugaz
presságio.

Contorno de sombra
à berma de uma além –asfalto
fatal presságio da rua
infelizmente já não
a intimida.

Cumprido o funesto prenúncio
já atravessava uma avenida
infortunadamente já nenhum risco
intimida o espírito
de Maria.

Doentiamente eu amaria ver
Maria ainda amedrontada
e nunca como depois
em que já nada a intimida.
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Soneto de
ALFREDO DOS SANTOS MENDES
Lagos Algarve/Portugal

Há de haver tempo

Há de haver tempo em mim para gritar:
A revolta que sinto no meu peito.
Não quero ficar preso, estar sujeito,
A quem quer minha voz amordaçar!

A minha boca, alguns querem calar,
E modelar meu ser a seu preceito.
Mordaça posta em mim eu não aceito,
Meu tempo de falar, há de chegar.

Há de haver tempo então para exprimir,
E em luta de palavras esgrimir…
A razão da revolta no meu peito!

Eu juro, há de haver tempo pra provar,
Que meio mundo nos anda a enganar,
Com milhares de cifrões em seu proveito!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Primavera 

Invernos chuvosos saem
levando apenas saudade, 
deixando ilusões serenas.

São brisas amenas que valsam
no jardim intenso da primavera,
um beijo nas pétalas pequenas.
Os vestígios carmins das rosas
serão versos das futuras cenas.
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Trova Humorística de
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
Niterói/RJ (1929 – 2012) Rio de Janeiro/RJ

Pobre mulher do Carvalho
que até hoje ainda reclama,
pois, de tanto “quebrar galho”,
foi multada... pelo “Ibama”!…
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Soneto de
ORLANDO RODRIGUES FERREIRA
Campinas/SP

Estações

Vicejam, no verão, descomunais paixões
Para desfolharem quando outonais,
Empalidecem, muitas vezes sem razões,
No taciturno frio dos tempos invernais.

Mas recrudesce a vida em ocasiões,
Qual no céu esplendendo luzes aurorais,
Presenteando-nos com tantas provisões
De selvas verdejantes e campos florais.

Jamais se perca ou venha se apartar
O primaveril viçoso das ambições,
Porque o nosso amor não vai soçobrar,

Pois firmado está em veraz emoções
Que constantemente hão de se renovar
como o próprio ciclo das quatro estações.
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Poema de
RAIÇA BONFIM DE CARVALHO
Salvador/BA

No telhado

Querendo ver novela
eu saio no sereno
e subo no telhado
pra ajeitar a antena
O velho do outro lado
olhando aquela cena
fala pra vizinhança
que sou gato
E eu ganho sete vidas e um baita resfriado...
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Antonio Augusto de Assis
Maringá/PR

A palavra acalma e instiga; 
a palavra adoça e inflama. 
– Com ela é que a gente briga; 
com ela é que a gente ama! 
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Hino de 
FLORIANÓPOLIS/ SC

Um pedacinho de terra,
perdido no mar!...
Num pedacinho de terra,
beleza sem par...
Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!

Num pedacinho de terra
belezas sem par!
Ilha da moça faceira,
da velha rendeira tradicional
Ilha da velha figueira
onde em tarde fagueira
vou ler meu jornal.

Tua lagoa formosa
ternura de rosa
poema ao luar,
cristal onde a lua vaidosa
sestrosa, dengosa
vem se espelhar...
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Trova de
MARIA ALIETE CAVACO PENHA
Faro/Portugal

Esta vida é um jardim
onde ninguém é capaz,
depois de chegar ao fim
poder voltar para trás…
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Soneto de
CARMO VASCONCELLOS
Lisboa/Portugal

Maria das Flores

Doloridas violetas traz nos olhos,
pelos dedos escorrem-lhe martírios, 
e, tal em novena, ardem-lhe quais círios, 
no peito amante, pálidos abrolhos. 

Por que, teimosa, inda cultiva flores;
paisagens coloridas de desejos
que sonha salpicadas de ígneos beijos?...
Se na hora da colheita, colhe dores!

Alimenta-as de amor e rubro sangue,
porém os caules, meros lambareiros,
saciados, deixam-na... sozinha e exangue.

Florista acorrentada à fantasia,
só tem a flor-saudade nos canteiros…
Mas o sonho ainda habita na Maria!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Amores

NO TOPO:
"Saudade, de quando em quando,
Provoca mágoas e dores,
Pois vai de amores matando
Quem vive lembrando amores".
Mário Barreto França
(Recife/PE, 1909 – 1983, Rio de Janeiro/RJ)

SUBINDO:
"Quem vive lembrando amores"
vai perdendo a emoção,
porque viver velhas dores
não faz bem ao coração.

"Pois vai de amores matando"
momentos bons, sem iguais,
que a vida vai cultivando
ao longo dos ideais.

"Provoca mágoas e dores"
quem parte e fica também,
pois todos os dissabores
são as saudades de alguém.

"Saudade, de quando em quando"
sem ser plantada, floresce,
no peito já vai brotando
como se fosse uma prece.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O filósofo cita

Na Cítia, certa vez, por motivo severo,
Crendo encontrar o bem nas privações do exílio,
Saíra a viajar um pensador austero.

Vivia então na Grécia, em farto domicílio,
Junto às flores que amava e na paz respeitado,
Um sábio igual àquele ancião de Virgílio.

O cita o foi achar no jardim ocupado:
Separava da erva as árvores de fruto
E do galho atrofiado.

Ali cortava um ramo, aqui outro corrupto;
E à cega natureza
Ia pagando a arte o liberal tributo.

O filósofo a olhar, tomado de surpresa,
Lhe disse: «O que fazeis? pois um sábio mutila
Os pobres vegetais com tão grande dureza?

Dai-me o vosso instrumento, o qual tudo aniquila;
O tempo obra melhor.» Sem se alterar em nada,
O outro respondeu na sua voz tranquila:

«Eu só tiro o que sobra; à planta decotada
Melhor seiva aproveita.»
E o cita então volveu à sua triste morada.

Lá chegado uma vez, previne-se e endireita
Contra raro vergel, e do útil ofício
Ensina à vizinhança uma falsa receita.

Nada deixa de pé: os rebentos sem vício,
O caule mais florido, o tronco mais correto,
E sem escolher lua e nem dia propício.

Afinal morreu tudo. Imita este indiscreto
Aquele que da alma, e posto indiferente,
Repele o mau e o bom e o mais sagrado afeto.

Eu me acautelo bem e temo uma tal gente...
O estoico, incapaz do mais leve conforto,
Fazendo sempre o mal, vai levando o vivente
A já nem existir muito antes de estar morto
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Mensagem na Garrafa 158 = O frio que vem de dentro


AUTOR ANÔNIMO

Seis homens ficaram bloqueados numa caverna por uma avalanche de neve e teriam que esperar até o amanhecer para receberem socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual se aqueciam. Se o fogo apagasse, todos morreriam de frio.

Chegou a hora de cada um colocar mais lenha na fogueira.

O primeiro homem, um racista, olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele negra. Então raciocinou: “– Aquele negro!! Jamais darei minha lenha para aquecer um negro!!!” 

E guardou-as para protegê-las dos demais olhares.

O segundo homem era um avarento. Ele estava ali porque esperava receber o juros de uma dívida. Olhou ao redor, em torno do fogo bruxuleante e viu um homem da montanha, que mostrava sua pobreza no aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele fez as contas do valor de sua lenha e enquanto mentalmente sonhava com o seu lucro, pensou: “– Eu, dar minha lenha para aquecer um preguiçoso?”

O terceiro homem era o negro. Seus olhos faiscavam de ira e ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão e seu pensamento era muito prático: “– É bem provável que eu precise dessa lenha para me defender. Além disso, eu jamais daria minha lenha para salvar aqueles que me oprimem.”

 E guardou sua lenha com cuidado.

O quarto homem era o pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros, os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Ele pensou: “– Essa nevasca pode durar vários dias, vou guardar minha lenha.”

O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente para as brasas, nem lhe passou pela cabeça oferecer da lenha que carregava. Ele estava preocupado demais com suas próprias visões para pensar em ser útil.

O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas da mão, os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido: “– Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei à ninguém nem mesmo o menor de meus gravetos.” 

Com esses pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis.

A última brasa da fogueira se cobriu de cinzas e finalmente apagou. 

Ao alvorecer, quando os homens do socorro chegaram na caverna, encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha.

Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de socorro disse: 

– “O frio que os matou, não foi o frio de fora, mas sim o frio de dentro!!”

Humberto de Campos (Os "Reddis")


A alma humana é uma caverna tão ponteada de esconderijos e retorcida de zig-zags que ainda não houve na terra um homem, por mais atilado e meticuloso, que chegasse a conhecer a metade, sequer, do seu próprio coração. Quando a gente supõe haver encontrado uma vida simples, singela, sem complicações nem subterfúgios, eis que se abre diante de nós um abismo, um vulcão, uma boca subterrânea, capaz de engolir o peregrino que lhe busca desvendar o mistério. Mesmo no que diz respeito à educação, isto é, às qualidades adquiridas pelo indivíduo, essas surpresas não são raras nem, geralmente, pequenas. E era disso mesmo que eu me convencia, mais uma vez, há poucos dias, ao voltar da última recepção do coronel Anfrísio Guimarães, pai do Dr. Claudemiro Guimarães cujo nome é, pode-se dizer, um dos orgulhos da nova geração de advogados brasileiros.

Homem de sólidos capitais, o coronel, assim que o filho casou, teve, não se sabe por que, uma desinteligência com a esposa, a velha e virtuosa D. Cherubina, passando a residir no palacete do novo casal, cujas despesas, de nove contos por mês, são enfrentadas galhardamente pela sua fortuna. Mme. Claudemiro, a nora, tem pelos cinquenta anos do sogro uma adoração filial. O filho, o Dr. Claudemiro, respeita-o duplamente como pai, e principalmente, porque o velho lhe desculpa sempre, como os bons pais, perante a esposa, as suas longas vigílias jurídicas fora do lar. E como a vida lhes corria, a uns e a outros, como um ribeiro japonês entre margens de crisântemos eu me dou, de vez em quando, ao prazer de visitá-los, concorrendo para a enchente das suas salas nas costumeiras recepções dos domingos.

Um desses dias, fui. E conversávamos em uma roda sobre costumes orientais, quando, de repente, a propósito de casamentos, eu me lembrei dos "reddis", povo da Índia meridiona1, cuja história havia lido na véspera, e contei, com certo desvanecimento:

- Os "reddis", nesse particular, são originalíssimos. Entre eles, a mulher de quinze ou vinte anos pode desposar um menino de seis, o qual será criado por ela. Enquanto, porém, a criança não cresce, ela fica, por seu turno, entregue a um parente do marido, geralmente ao pai deste, seu sogro, o qual poderá substituir o filho em todas as eventualidades. E este esposo interino preenche de tal forma as suas funções de tutor, que o marido, quando cresce encontra, já a casa repleta de crianças, que sendo seus filhos, são também seus irmãos.

Como se fizesse em torno de mim um silencio geral, eu o aproveitei, continuando:

- Esses maridos não ficam, porém, prejudicados; sendo as suas mulheres mais velhas do que eles, e os "seus" filhos quase da sua idade, eles terão, mais tarde, a compensação, fazendo com os filhos o que o pai fizera com eles. E assim vivem muito bem.

Enquanto eu contava essa história, notei que alguém se afastava do grupo. E quando acabei, fiquei estarrecido com uma surpresa: junto de mim, com a minha bengala e a minha cartola na mão, estava o coronel Guimarães, que me perguntava, pálido, com ligeiros tremores no cavanhaque:

- O conselheiro pediu o seu chapéu?
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sábado, 14 de março de 2026

José Feldman (O Fantasma no Servidor)

Texto sobre a expressão “Navalha de Ockham”*

Fidelsino era analista de sistemas sênior e adorava teorias complexas. Quando o servidor principal da startup de tecnologia onde trabalhava começou a travar misteriosamente todas as terças-feiras às 14h, não pensou em falhas comuns.

Ele convocou a equipe. 

"Não é um bug simples!", explicou ele, ajustando os óculos. "O padrão das quedas é errático demais. Minha teoria é que sofremos uma invasão de hackers usando inteligência artificial quântica, que está garimpando dados criptografados apenas na área de segurança do servidor, criando um pico de energia que simula um erro de hardware."

A equipe ficou impressionada. Era uma teoria digna de um filme. Passaram dois dias vasculhando logs, comprando firewalls mais caros e isolando a rede principal. A ansiedade era alta. A "invasão de IA" parecia real, especialmente porque o servidor falhou na terça seguinte.

A gerente da empresa, Marina, mais pragmática, chamou Fidelsino no canto.

— Fidelsino, a sua teoria é genial, mas e se a causa for mais simples?

— Mas Marina, os dados mostram...

— Vamos olhar o óbvio — disse ela, caminhando até a sala dos servidores. — Quem tem acesso a esta sala na terça à tarde?

Ele conferiu o registro. 

— Só a equipe de manutenção de limpeza, às 13h50... Por que?

Marina observou o rack de servidores. A luz vermelha piscava no servidor principal. Ela notou algo na base que o cabo de energia principal estava folgado. Ao lado, havia uma tomada de parede com uma caixa de som grande, colocada ali pela equipe de limpeza, que tocava música, e cujo fio estava conectado à mesma tomada que vibrava o servidor.

— Fidelsino!— disse ela, empurrando o plugue do servidor para o fundo da tomada. — A "IA quântica" é a equipe de limpeza conectando a caixa de som, o que afrouxa o cabo do servidor principal, que já estava com o plugue desgastado. A vibração derruba a máquina.

Ele sentiu o rosto esquentar. O cabo frouxo era a resposta correta. A teoria da IA exigia hacks, criptografia e conspiradores. A realidade exigia apenas uma tomada nova.

A empresa parou de ter problemas na terça-feira.

Moral
"Entre duas explicações que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples tende a ser a correta." A Navalha de Ockham nos ensina que, diante de um problema, devemos eliminar as complicações desnecessárias antes de buscar soluções mirabolantes. Geralmente, a verdade não é uma conspiração complexa, mas algo que está bem diante dos nossos olhos.
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*A Navalha de Ockham, ou princípio da parcimônia, é uma ferramenta heurística da filosofia e ciência que sugere que entre hipóteses que explicam igualmente um fenômeno, a mais simples (com menos suposições desnecessárias) costuma ser a correta. Criado por Guilherme de Ockham (séc. XIV), o método elimina complexidades desnecessárias para facilitar a verificação e compreensão de teorias. Ou seja, a explicação mais simples é preferível. Teorias simples são mais fáceis de testar e verificar. Não é uma regra absoluta de verdade, mas um guia de probabilidade; a explicação mais simples nem sempre é a verdadeira. O princípio busca a "economia intelectual", cortando suposições supérfluas (como uma navalha) para chegar à teoria mais elegante e plausível. (wikipedia)
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Imagem: https://oftavision.com.mx/merida/