sexta-feira, 31 de julho de 2026

José Feldman (Café e Sol)


Texto construído tendo por base a trova de
 Elias Pescador (São Paulo/SP)
Manhãs são novos começos,
festas da vida, alvorada,
da fé que não vê tropeços,
mas a luz no fim da estrada...

Existe um otimismo invencível escondido no tilintar da xícara de café logo cedo. Enquanto o resto do mundo ainda se espreguiça sob os lençóis da dúvida, a manhã se levanta com a petulância de quem ignora os erros de ontem. A trova que celebra o amanhecer como uma "festa da vida" não fala de um evento de gala, mas dessa celebração silenciosa que acontece quando a luz rasga a cortina e nos convida para o baile da existência.

A manhã é o rascunho em branco que o destino nos entrega todos os dias. É o momento em que a alma se calça de uma fé teimosa, aquela que, como diz o verso, "não vê tropeços". Não é que os buracos no caminho tenham sumido durante a noite; é que, sob o brilho da alvorada, a nossa visão se ajusta para focar no destino, e não nos calhaus que tentam nos deter. A luz da manhã tem esse poder de higienizar o espírito, lavando o cansaço da véspera com o orvalho da esperança.

Viver cada amanhecer como um "novo começo" exige uma certa inocência. É preciso esquecer, por um instante, as estatísticas, os boletos e as notícias cinzentas, para acreditar piamente que hoje as coisas podem ser diferentes. A luz no fim da estrada, mencionada pelo poeta, não é um farol distante e inalcançável; é o sol que já está batendo no rosto, provando que a caminhada vale a pena simplesmente porque a estrada continua ali, aberta e convidativa.

Se a vida é uma sucessão de tropeços, a manhã é o mestre que nos ensina a levantar. Ela nos lembra que o tempo não é uma linha reta que se esgota, mas um ciclo de renascimentos. A cada alvorada, recebemos o alvará de soltura das nossas próprias falhas.

Que saibamos honrar essa festa diária. Que ao abrir a janela, a gente não veja apenas o trânsito ou a rotina, mas a oportunidade monumental de ser uma versão mais luminosa de nós mesmos. Afinal, para quem tem a luz no fim da estrada como guia, o caminho deixa de ser um fardo e passa a ser, ele próprio, a recompensa.

Qual é o pequeno ritual da sua manhã que mais te ajuda a sentir esse "novo começo" e renovar a sua fé para o dia?
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JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. 
Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. 
Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importante veículo de informação literária, o seu blog Singrando Horizontes já alcançou a marca inédita de 5 milhões de leitores e 20 mil publicações. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante Supremo do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título de mérito das Letras, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  
É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

(José Feldman. Caleidoscópio da Vida. vol. 2. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine., 2026)

Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) O Despertar da Noite Sombria


Antes de iniciarmos nossa história, é preciso entender o perigo que espreita nas sombras. No folclore romeno, o Strigoi é uma das criaturas mais temidas: uma alma perturbada que deixa o próprio túmulo para atormentar os vivos. Eles nascem de pessoas que morreram com ressentimentos, que foram amaldiçoadas ou que tiveram uma vida de pecados. Capazes de se transformar em animais, tornarem-se invisíveis e sugar a força vital de seus parentes, os Strigoi representam o perigo da quebra dos ritos funerários e o aviso de que o mal não resolvido em vida sempre retorna para cobrar seu preço.
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A lua cheia vertia uma luz pálida sobre o cemitério de Valea Verde. O vento frio da madrugada soprava de forma errática, fazendo as cruzes de madeira antiga rangerem. Ion, agora um jovem transformado pelos ensinamentos de Moșneagul, caminhava apressado de volta para casa. Ele carregava um amuleto de alho e um ramo de manjericão benzido — proteções que o velho sábio insistia que todos usassem naquela época do ano.

De repente, um arrepio gélido subiu pela espinha de Ion. O silêncio da floresta foi quebrado por um sussurro arrastado, que pronunciava seu nome. Atrás de uma velha tumba familiar, uma silhueta alta e esguia se ergueu. Era o Strigoi de Andrei, um homem ganancioso da aldeia que falecera no inverno passado sem pedir perdão por suas faltas. Seus olhos brilhavam com um vermelho doentio e sua pele tinha a cor da cera rala.

— Ion... — sibilou a criatura, estendendo dedos longos e secos. — Compartilhe comigo o sangue quente que corre em suas veias. Deixe-me saciar a fome do túmulo.

Ion paralisou de terror. O Strigoi avançou com uma velocidade sobrenatural, quebrando a distância entre eles. O rapaz tentou erguer o amuleto, mas o medo congelou seus músculos.

Antes que as garras da criatura tocassem o pescoço de Ion, um cajado de madeira pesada bateu firmemente contra o chão cimentado, ecoando como um trovão. Uma barreira invisível empurrou o Strigoi para trás, fazendo-o sibilar desesperado.

Era Moșneagul. O velho sábio vestia sua tradicional capa de lã grossa e segurava uma lamparina de óleo que emitia uma luz dourada e calorosa, cortando a névoa escura.

— Volte para o seu descanso forçado, sombra da noite! — ordenou Moșneagul, com uma voz firme que não vacilava diante do sobrenatural. — Você não tem poder sobre os que respeitam a terra e os vivos.

O Strigoi rugiu, mostrando dentes afiados.

— Ele é meu, velho! A noite me pertence!

— A noite pertence àqueles que descansam em paz, não aos que vagam pela ganância de viver o que já perderam — respondeu Moșneagul, dando um passo à frente e derramando água benta misturada com sementes de papoula ao redor de Ion.

O monstro tentou avançar novamente, mas as sementes sagradas no chão agiam como barreiras intransponíveis. Na tradição antiga, um Strigoi é compelido a contar cada semente antes de cruzar um caminho, e o tempo dele estava acabando. Moșneagul ergueu um crucifixo de madeira e recitou as preces dos antepassados. Conforme as palavras sagradas preenchiam o ar, a criatura começou a enfraquecer, dissolvendo-se em fumaça cinzenta e retornando para a terra fria de sua sepultura assim que o primeiro raio de sol cruzou o horizonte.

Ion caiu de joelhos, respirando com dificuldade, salvo pela intervenção e pelo conhecimento do ancião. Moșneagul ajudou o jovem a se levantar, guardando suas ferramentas de proteção.

— O medo nos cega, Ion, mas o conhecimento dos ritos antigos nos protege — disse o Moșneagul com serenidade. — Nunca subestime o que a escuridão esconde, mas lembre-se de que a luz da tradição é o escudo mais forte.
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O passado e os erros não resolvidos têm força para nos assombrar quando ignoramos os avisos e defesas espirituais. A verdadeira proteção contra os perigos ocultos da vida não vem da força física, mas do respeito aos rituais de resguardo e da sabedoria repassada por aqueles que aprenderam a domar a escuridão.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Interlúdio * 12 *


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JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Nilto Maciel (Homero e o Macaco)


A dois passos do portão, Homero parou, esfregou o lenço na testa, acendeu um cigarro. Homens e mulheres espiavam para o interior do zoológico, como a planejar visitas. Carros iam e vinham, em disparada.

— Bom dia!

O guarda apenas resmungou e nem despregou os olhos da lata de lixo.

— Eu queria falar com o diretor.

Outro homem se aproximou do portão, olhou para o guarda e seguiu em frente.

— Pode falar comigo.

Homero jogou fora o cigarro, esfregou as mãos, acompanhou com os olhos os passos do outro homem e gaguejou: o assunto, como podia dizer? O seu caso...

— Talvez o senhor nem saiba da história.

O guarda empertigou-se, deixou de lado a lata de lixo. Então contasse, mas fosse rápido. Não dispunha de muito tempo.

— É o seguinte: o Mico, meu macaco, um dia fez uma besteira.

Acendeu mais um cigarro, soprou muita fumaça, ofereceu a carteira ao vigilante e voltou à história: O bicho estranhou um menino, vizinho seu.

— O senhor sabe como são esses moleques.

Contou que Mico mordeu o menino, mordidinha besta, é verdade, porém o suficiente para criar o maior rebuliço do mundo. O pai do garoto muito revoltado, a mãe aos gritos, ambulância, correria, o diabo.

— E esse macaco vivia onde?

Homero tomou fôlego, atirou longe a ponta do cigarro, coçou a cabeça.

Coitadinho do macaco, ente inofensivo, animal doméstico, ensinado, cheio de artimanhas. Adquirira-o há muito tempo e cuidava dele em casa mesmo, assim como se cria um gato, uma criança.

— Como se fosse meu filho, o senhor entende?

O guarda mal conseguia abrir a boca. Não saía do “sim, senhor”, dos gestos com a cabeça, os lábios, as sobrancelhas.

Pelo quarto ou quinto cigarro, Homero chegou ao recolhimento de Mico ao zoológico.

— Requeri a devolução, porque estou no meu direito.

Emas passeavam ao largo, altaneiras, vagarosas, tranquilas, e já Homero concluía sua história.

— Primeira porta à direita — orientou o guarda.

Agradecido, risonho, fumacento, o dono do macaco transpôs o portão, a passos curtos. Seguiram-se passos médios, depois longos, como se suas pernas crescessem de um a outro e o último passo tivesse medido cem metros.

— Bom dia, seu diretor.

Um inumerável cigarro pregou-se aos lábios de Homero, um atropelo de palavras encheu a sala, cheios de emes e mês.

— Meu macaco Mico...

A caminho das jaulas, gaiolas e cercados, a impaciência de Homero arrastava a sonolência do diretor — geringonça de carnes, maria-fumaça descarrilada a puxar vagão de preguiça.

— Faz tanto tempo, Seu Horácio...

— Homero da Silva, Seu Leocácio.

Numa casinhola, cinco ou seis macaquinhos pulavam de cá para lá, agarravam-se aos ferros, mordiscavam-se, lambiam-se, atônitos, olhinhos arregalados.

— É, faz muito tempo mesmo.

E Homero passava em revista a macacada, ansioso, maravilhado, transido de emoção.

— Mico, papai voltou.

— Qual deles é o seu?

Tão parecidos aqueles micos, tão cheios de graça, tão traquinas.

— O senhor não sabe, Seu Leocácio?

Meia hora durou a vistoria, e nada de Homero reconhecer seu Mico. Um, porém, entre os macacos, desde o primeiro momento arreganhava os dentes no rumo de Homero e só faltava falar grego.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.

Renato Benvindo Frata (Qualidades)


Há homens que deixam pegadas. Há outros que deixam rastros.

Entre ambos está o aspecto das marcas. Umas profundas e seguras. Outras são riscos disformes, com aparência de arranhões, mas que maculam.

O interessante é que essas marcas não são feitas por esse ou aquele com uso de ferramenta. Nem as diferenciam a roupa, a profissão ou a cifra do saldo bancário. O que as define são as personalidades e os atos na sociedade: perante a família, os amigos e até junto ao Estado, enquanto cidadãos.

Exemplos? Basta ligar o rádio, ver a televisão, rolar as redes, abrir o jornal pela manhã, folhear a revista na banca.

Esses meios indicarão os nomes em evidência, os feitos e os defeitos que garantem olhares curiosos. E furiosos, conforme o caso. E de desconsolo também, quando o fato é desvio daquilo que deveria ser cuidado.

Um punhado dessas notícias aparece na primeira olhada. Se aprofundar a pesquisa, encontra uma carroceria delas. Tão grandes e fortes serão os rastros em linha vacilante.

O barro pisado acumula pequenas cristas. Suas bordas, ainda em processo de desmoronamento, denunciam a travessia recente. Porque quando se faz o que não se deve, por mais leve que se tente pisar, a marca fica.

Nomes importantes não só da política, mas do empresariado e até do judiciário — incluindo-se consortes, apaniguados, parentes e afins — transformam-se por esquemas financeiros e relações nebulosas com o poder.

Tudo isso associado a termos como compra de influência, lavagem de dinheiro, corrupção, monitoramento de pessoas, mesadinhas, jatinhos de luxo, farras gigantescas, coação e outros expedientes como os “empréstimos sem obrigação de pagamento”.

No fim, a indignação. Mesmo que se tente apagar essas pegadas, a memória as preserva. Porque não há fortuna, cargo ou influência capazes de encobrir, para sempre, a verdadeira natureza de um homem.

As qualidades não se proclamam em discursos nem se penduram como medalhas. Revelam-se na honestidade dos pequenos gestos, na palavra cumprida, no respeito, na correção de atos mesmo quando ninguém está observando.

São elas que fazem das pegadas um caminho digno. E impedem que a vida se transforme em rastro de lama, como nos tempos vistos, dos quais os sensatos, com a sensação de asco, desviam o olhar. E se repugnam.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Asas da Poesia * 207 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Mesmo que a mágoa te doa, 
esquece esta mágoa agora
que a mágoa, de quem perdoa,
se desfaz e vai embora!
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Soneto de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

O Poeta e o Tempo

Vejam os anos que o teu corpo trazem,
quantas batalhas passadas,
lindas memórias na tua alma jazem,
pelas estradas que foram trilhadas.

Mãos que esculpindo velhos versos fazem
cantar o vento pelas madrugadas.
As brancas nuvens no teu teto correm,
deixando as cores quase desbotadas.

O tempo passa mas a voz resiste,
poeta santo que a beleza prega,
neste corpo onde o rancor não existe.

A tua mão que tanto amor entrega
escreve o canto que o teu peito assiste,
enquanto à noite, solitário, navega.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Fantasias são castelos
construídos com areia;
quando eles se tornam belos,
se perdem na maré cheia.
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Poema de 
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ ES

Passageira

Você 
chegou
de repente...
vindo  
do nada
e eu, sorri
de felicidade
e encantamento...
Contudo, 
do nada, você se foi
e, ainda agora,
aqui estou preso,
preso e amarrado.
nessa saudade enorme
que você deixou
largada... 
contudo, bem sedimentada 
no meu sofrimento…
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Trova de
LUIZ DAMO
Caxias do Sul/RS

Quando um debate começo
e a ignorância estufa o peito,
peço vênia e me despeço
de quem falta com respeito.
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Primavera

Primavera.
Amanheceu poesia
tudo sorria.
Dentro de mim,
o velho menino
sozinho de sempre.
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Soneto de
EDY SOARES
Vila Velha/ES

Epígrafe

Aqui jaz um poeta – a contragosto -
último verso escrito, por Soares,
ainda em vida e… plena por suposto,
gozando de alegria com seus pares…

Mesmo que eu goste tanto dos pomares,
desses jardins florindo em todo agosto,
desse arrebol bonito que o sol posto
deixa pintando as tardes sobre os mares…

Mesmo que em tudo eu veja vida e graça,
inexoravelmente o tempo passa,
e meus escritos, sei… serão dispersos.

Por isso eu fiz meu verso derradeiro,
que alguém o entregue às mãos do irmão coveiro…
Que a lapide eternize um dos meus versos!
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Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Que, afinal, a paz se faça
e, num mundo sem rancores,
em vez de fogo e fumaça,
os canhões atirem flores!
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Soneto de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Zelo de escritor

Papel, caneta e um tema ao seu dispor…
Decide desdobrá-lo em ricas frases;
concatenar palavras eficazes 
e apresentar um texto de valor.

Na busca dos vocábulos capazes 
de elucidar o assunto, o atento autor
que escreve tendo em vista o seu leitor,
rabisca… e anula os termos não sagazes.

Perscruta o escrito, ainda pensativo…
“Equivocou-se em seu entendimento,
ou o argumento aflora, persuasivo?…”

Importa a quem escreve, discernir
que, expor ao mundo o seu fiel talento,
inclui-se na missão de bem servir!
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Trova de
EMÍLIA POSSÍDIO
Fortaleza/CE

Não sigo a trilha sozinho,
tenho irmãos para abraçar,
a cada um com carinho
quero um presente ofertar.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Magia de escrever

O verso, quando grita, não consigo 
deter o seu impulso apaixonante,
elevo o pensamento e vão comigo
as emoções que afloram nesse instante.

Do gáudio ao sofrimento, a verve instigo,
consinto que a palavra se agigante,
transcenda a realidade, seja abrigo
porque componho para ser viajante.

A chama inspiradora não definha
depois de acesa e erijo, linha a linha, 
um monumento às artes, meu prazer.

Da gênese ao desfecho me desnudo,
divago sem pudor e entrego tudo,
servido da magia de escrever.
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Trova de
HÉLIO PEDRO DE SOUZA
Caicó/RN

De Deus provar a existência
com a absoluta certeza,
basta se olhar a imponência
das obras da natureza.
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Soneto de
MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ

Enigma
 
Seu olhar  já não têm  tanta   expressão
como  existia  nele   antigamente ...
e eu busco desvendar por que razão
o tempo o fez ficar tão diferente.

Malgrado  não  se  encontre explicação,
para exprimir o seu olhar ausente,
apelo para a voz do coração,
e a resposta não vem, infelizmente...

 A  mágoa embarga a voz, turba os sentidos ...
e inventa   pensamentos proibidos
que até você se nega a confessar ...

No anseio de  entender  tanta mudança,
eu me apego  ao milagre  da esperança
de ler frases de amor em seu olhar …
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Trova de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Neste mundo de tormentos,
apesar da vida dura,
nunca faltem os momentos
para o culto da ternura!...
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/Portugal

O meu beijo queima a tua pele como o sol 
Refresca como o rio que sentes em ti
Gosto de te ver feliz,
posso ser rouxinol
canto de manhã na janela do teu quarto
Para te acordar e te fazer sorrir
Para que sintas o calor do sol
Não esqueças o meu toque
Suave e profundo
Quero conquistar o teu mundo…
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Trova de
ORLANDO BRITO
Niterói/RJ, 1927 – 2010, São Luís/MA

Sonho um mundo de homens puros,
sem fronteiras, sem entraves,
onde as casas não têm muros;
onde as portas não têm chaves.
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Poema de 
SÔNIA CARDOSO
Ponta Grossa/PR

Logro 

O Logro
Do malogro 
Insiste 
Na desistência 
No deixar-se ir 
Mas insistente 
Persistente...
Persisto 
Proseando, poetando 
Plantando 
Amando.
Dane-se o malogro.
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Trova de
A.A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Hoje os rios se parecem
com certos tipos sabujos:
quanto mais descem, mais crescem,
quanto mais crescem, mais sujos.
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Poema de 
VIVALDO TERRES 
Itajaí/SC

A velha casa

Saudades sinto eu da velha casa,
Em que outrora nos serviu de teto amado,
Quando nos tempos de casados,
Não cotávamos com o fim do nosso amor,
Mas que infelizmente tudo acabou.

Hoje meditando um pouco... 
...me deu o desejo de passar por lá!
Para relembrar os momentos... 
Que o tempo não esqueceu!
Que foram lindos, vividos por você e eu.

A casa, a velha casa quase deserta,
Parece-me desolada e triste,
Vivendo de um passado tão bonito,
Mas que infelizmente não mais existe.
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Mensagem na Garrafa * 202 * = Palavras ao vento

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Um senhor, há muito tempo, tanto falou que seu vizinho era ladrão que o rapaz acabou sendo preso! Dias depois descobriram que era inocente. O rapaz foi solto e processou o homem. No tribunal, o velho diz ao juiz:

- Comentários não causam tanto mal, senhor juiz...

E o juiz respondeu:

- Escreva os comentários que o senhor fez num papel, depois pique-o e jogue os pedaços no caminho de casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença.

O senhor obedeceu e voltou no dia seguinte. Antes da sentença, o juiz diz:

- O senhor terá de catar todos os pedaços de papel que espalhou ontem.

O velho responde:

- Não posso fazer isso. O vento deve tê-los espalhado, já não sei onde estão.

O juiz então diz:

- Assim, desta mesma maneira, um simples comentário pode destruir a honra de um homem, a ponto de não podermos mais consertar o mal. Que lhe sirva a lição.

E ministrou-lhe uma pena de prisão.

Marcelo Henrique Marques de Souza (A gangorra)


Depois de velho, visitava a velha cidade da infância. Digladiava-se em silêncio. Por um lado, tudo tão diferente, o progresso passando a perna nas lembranças; por outro, o contraste que algumas ruas de terra batida resistentes produziam com a distância estrangeira a que se submetera, ao escolher a cidade grande, há mais de três décadas.

Ao contrário do que geralmente acontece, foi ele a abandonar a cidade natal e não os filhos. Plantou as sementes e cortou as raízes. Voou, folha de outono, a trair as cercas de casa.

Abandonou o ritmo compassado do pequeno lugarejo, para aportar no mar de ilhas nômades da selva urbana. Trocou o povoado solitário pela solidão compartilhada da terra das multidões.

Queria, entretanto, visitar o neto. Recebera-o em casa, quando ainda de colo, mas desejava vê-lo andar com as próprias pernas, tropeçar nos próprios impasses, sem o abrigo excessivo de todos aqueles colos.

O neto devolveu-lhe o abraço com um sorriso tímido e um silêncio respeitoso, desses de quem passa pela ponte de um rio imenso. E então o velho sentenciou, Vais com o vô, dar uma volta na praça. O menino, de lá de baixo dos seus seis anos, olhou para a mãe, à espera do sinal verde. – Voltem para o almoço...

A praça tinha traços do passado e do presente. O coreto permanecia, mas com outra pintura. A velha estátua do poeta ainda servia de palanque ao sarau dos pequenos pássaros. Enquanto que os velhos brinquedos, gangorras, balanços e cubos labirintos, agora dividiam espaço com uma espécie de horto, separado do resto por uma grade comprida, porém espaçada.

Depois de passear um pouco, avô e neto decidiram, em silêncio, pela gangorra. Uma forma de conciliarem o afã do menino com o cansaço do velho.

Nas grades do horto, insinuava-se uma comprida trepadeira, natureza que insiste, apesar de todo o espaçoso mundo humano. O menino fitou-a com a escada dos olhos, enquanto descia no suave balé da gangorra.

Os olhos do velho buscavam o nó que ancorava o encontro. A esperança de que o neto crescesse livre dos tropeços do destino. Sentimento que nutria mais por obrigação do que por experiência. Sabia que o destino não admite delírios retilíneos. Que a vida acaricia, mas também agride.

Conduzia a gangorra com cautela, distância segura dos extremos. O neto ainda perdia os olhos nas curvas da estranha corda vertical.

Na cordilheira dos instantes, o sol abraçava o ambiente inteiro. O dia corava e corria, pincel de pequenos plágios. O baralho dos velhos, as mães e as proles, coração da vida que pulsa.

Somos todos analfabetos de futuro. E, entretanto, como somos também algo reféns do passado, deliramos o presente, a exigir redundâncias em excesso. O avô desenhando, dedos de Narciso, o asfalto do porvir do neto. Ao mesmo tempo em que sabia que no mapa do tempo não há estrada sem neblina, buracos ou encruzilhadas febris.

Vô, essa corda cresce até o céu?, o menino interrogava, sem desgrudar os olhos do topo do horto. Uma dessas perguntas que foge do script. Teatro sem roteiro. Esse voo da infância, que desconhece a gaiola da gravidade.

Eu nunca vi nenhuma chegar ao céu. Mas quem sabe?... Essa um dia vai chegar...

Nesse instante, um avião cortou os céus. Como se sonho da trepadeira a enfeitiçar a cena. Gritava a sua pressa, ignorando a mesma gravidade que um dia desceria o menino da sua liberdade sem mapas. A mesma gravidade que agora cambaleava da estrada firme do avô, que vacilava entre a planta e a aeronave.

Um pequeno tranco trouxe o velho de volta. O neto caído, subitamente. O corpo pesou para frente, tombando expatriado na gangorra. Solavanco violento no pequeno coração. Era grave. Todos os projetos pleonásticos perdiam agora o sentido. Era preciso correr. Antes que a trepadeira chegasse ao seu destino cedo demais.
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MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA é um escritor, ensaísta, poeta, pesquisador e professor brasileiro, cuja trajetória ganhou repercussão pública não apenas por sua produção intelectual, mas também por sua comovente história de superação pessoal contra a depressão severa. Nascido em 1975 reside e atua profissionalmente na cidade do Rio de Janeiro, com fortes vínculos na Zona Norte (bairro da Tijuca). Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Candido Mendes em 2006. Concluiu o mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atuou fortemente na educação básica e no ensino superior como professor de Filosofia, Literatura, Redação e Teoria em faculdades de pedagogia e colégios particulares no Rio de Janeiro. Diagnósticos de depressão profunda iniciados em 2007 culminaram na perda de seus empregos. Entre 2018 e 2019, o professor enfrentou uma crise financeira extrema e passou a viver temporariamente em situação de rua na Avenida Maracanã (Tijuca), carregando consigo apenas seus livros e referências filosóficas. A repercussão do caso gerou correntes de solidariedade para sua reinserção social e médica. 
Sua escrita transita principalmente pelo ensaio acadêmico, crônicas, contos e pela poesia reflexiva. É autor de pelo menos oito livros publicados ao longo de sua carreira, podendo-se destacar: "A viralatice brasileira: transformática para o Quarto Império": Importante dissertação e ensaio publicado via Repositório Institucional da UFJF, onde analisa criticamente o "complexo de vira-lata" sob a ótica da identidade nacional; Textos e contos avulsos como "No fundo da estante". Embora seja um autor prolífico com múltiplos livros editados e reconhecido no meio universitário da comunicação/letras, Marcelo construiu sua carreira de forma majoritariamente independente e acadêmica, não figurando nos registros tradicionais das grandes academias jurídicas ou imortais de letras, nem com premiações comerciais de grande porte.
A real relevância de Marcelo reside na intersecção entre a erudição clássica e a vulnerabilidade humana. Mesmo nos momentos mais difíceis de sua condição psicossocial, ele manteve a produção e a defesa do livro como ferramenta de dignidade. Sua pesquisa sobre a comunicação e a "viralatice" no Brasil ajuda a compreender as dores da cultura e da política nacional. Na esfera social, sua história tornou-se um símbolo contemporâneo urgente sobre a necessidade de suporte à saúde mental de professores e intelectuais no país.

Fonte:
Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (org.). Coletânea de contos & crônicas.. Vitória : EDUFES, 2015. (Coleção II Prêmio UFES de Literatura)
Biografia: Escavador, Portal R7, II Prêmio UFES,  O Globo.