sábado, 26 de setembro de 2026

Conceição Tomé (Poemas Além Fronteiras)

 

ALTAS MONTANHAS
   
Pelas montanhas andam meus olhos,
Seguindo o vento que nuvens varria
E a neve esparsa que ainda persistia,
Cobrindo cumes, livres de abrolhos.
 
Das altitudes vi o Mundo a meus pés,
Tão belo e frágil aos olhos meus,
Como será visto aos olhos de Deus?...
Talvez reduzido a mar e suas marés.
 
Ou uma linda bola dum azul terso,
Para enfeitar o altar do Universo,
Que queremos destruir, como cristal.
 
Talvez o Seu jardim verde e florido,
Agora pela poluição destruído,
Oh Deus! Porque fazemos tanto mal?
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A MINHA CASINHA

Era uma casinha
Que toda sorria
Logo pela manhã
Quando o sol se erguia.

Tinha três janelas
Viradas ao monte
Onde murmurava
Uma fresca fonte.

Tinha uma varanda
Virada pra rua
Onde eu sonhava
Ao mirar a lua.

Tinha uma escada
Em pedra talhada
Já muito antiga
E bem desgastada.

E fora de portas
Havia um pilar
Feito de uma pedra
Para eu cavalgar.

Para eu cavalgar
Por mundos além
Junto com os sonhos
Que a criança tem.

Mas esta casinha
Já não é mais minha
Restam as lembranças
Da graça que tinha.
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DONOS DO MUNDO

Dentro de mim coabitam em dualidade
O silêncio explodindo num trovão
Que catapultam a voz da minha razão
Aos vastos campos da irracionalidade!

Que caminho percorre a humanidade
Por este planeta frágil, assaz moribundo
Porque não se chega à consensualidade
De que ninguém é o dono do mundo!?
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OS MEUS VERSOS

Guarda esses versos que te fiz amor,
Para que um dia os possas recordar,
Mas se a saudade der lugar à dor,
Lança-os ao fogo deixa-os queimar.

Se esses versos que arranquei da alma,
Eles não chegarem ao teu coração,
Abre-lhe caminho de flores e palma,
Quem sabe um dia voltará nossa paixão.

Quisera eu fazer deles uma canção,
Pra que juntos a possamos escutar,
Sem ter por perto a sombra da solidão.

Se esses versos te causarem aversão,
Podes soltá-los nas brumas do mar,
Que o vento oculto, lhe dará a mão.
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TERRAS DE ALÉM-MAR

Tão longe de mim, tão longe,
Que não as posso alcançar,
Mas estou presa à saudade
Das terras de além-mar…
Onde o tempo não corria,
A noite era igual ao dia
E o sol sempre a madrugar.
Se o mar na areia batia,
Era só para se espraiar.
E pelos longos caminhos,
Com o capim a verdejar,
Havia rosas sem espinhos,
Para as poder abraçar.
E à noite quando surgia
A lua no céu a brilhar,
Ouvia-se o som do batuque
Se expandindo pelo ar.
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UM DIA VOLTAREI
 
Um dia, voltarei ao meu sertão,
Quando o Sol iluminar mais uma vez
O manto verde que envolve sua tez
E avivar os matizes do rubro chão.
 
Para sorver o orvalho de cada flor
Doce néctar saciando a minha sede
Sentir o frescor do cajueiro verde
Quando intensificar mais o calor.
 
Então espalharei o meu cansaço,
Pela solidão do tempo e espaço,
E no meio a essa magia envolvida
 
No revoar duma ave de rapina
Que por mim adeja em surdina.
Sentirei que de novo voltei à vida.
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Conceição Tomé
MARIA DA CONCEIÇÃO PINTO TOMÉ, cujo nome literário é: Conceição Tomé e São Tomé o seu pseudônimo, nasceu em S. Mamede Ribatua, Concelho de Alijó (Trás-os-Montes), à beira dos rios Douro e Tua. Depois de ter vivido por longos anos em Angola e Brasil, reside atualmente em Amora – Seixal. Casada com o poeta e escritor Pinhal Dias. Escreve versos desde 1958, colaborando em vários Jornais e Antologias Poéticas, com adesão ao Recanto das Letras; Associação Portuguesa de Poetas; Poetas Del Mundo e AVSPE – Brasil; Horizontes da Poesia. Participou nas VI; VII e VIII Antologias Poéticas do Mensageiro da Poesia, 2ª Antologia de Contos Cardeais da Editora Mosaico de Palavras. Tem vários trabalhos publicados em Jornais e Revistas. Foi Diretora do Mensageiro da Poesia. Vice-Presidente e Fundadora de “Os Confrades da Poesia”; também Diretora-adjunta do Boletim. Tem 2 CD's Gravados/Declamados.
Livros digitais: A Verdura do Meu Olhar; A Verdura do Meu Sentir; Uma prosa de vida; Entre o Verde e o Mar...
Livro Artesanal: "Meus Escritos”

Fontes:
- Os Confrades da Poesia Boletim Nr 57 | Julho/Agosto 2013, p. 20.

Luís Fernando Veríssimo (Pá, Pá, Pá)

 A americana estava há pouco tempo no Brasil. Queria aprender o português depressa, por isto prestava muita atenção em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que prestam muita atenção.

Achava curioso, por exemplo, o “pois é”. Volta e meia, quando falava com brasileiros, ouvia o “pois é”. Era uma maneira tipicamente brasileira de não ficar quieto e ao mesmo tempo não dizer nada. Quando não sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguiça, o brasileiro dizia o “pois é”.

Também tinha dificuldade com o “pois sim”” e o “pois não”. Uma vez quis saber se podia me perguntar uma coisa.

- Pois não – disse eu, polidamente.

- É exatamente isso! O que quer dizer “pois não”?

- Bom. Você me perguntou se podia me fazer uma pergunta. Eu disse “pois não”. Quer dizer “pode, esteja à vontade, estou ouvindo, estou às ordens…”

- Em outras palavras, quer dizer “sim”.

- É.

- Então por que não se diz “pois sim”?

- Porque “pois sim” quer dizer “não”.

- O quê?!

- Se você disser alguma coisa que não é verdade, com a qual eu não concordo, ou acho difícil de acreditar, eu digo “pois sim”.

- Que significa “pois não”?

- Sim. Isto é, não. Porque “pois não” significa “sim”.

- Por quê?

- Porque o “pois”, no caso, dá o sentido contrário, entende? Quando se diz “pois não”, está-se dizendo que seria impossível, no caso, dizer “não”. Seria inconcebível dizer “não”. Eu dizer não? Aqui, ó.

- Onde?

- Nada. Esquece. Já “pois sim” quer dizer “ora, sim!”. “Ora se eu vou aceitar isso”. “Ora, não me faça rir. Rá, rá, rá.”

- “Pois” quer dizer “ora”?

- Ahn…Mais ou menos.

- Que língua!

Eu quase disse: “E vocês, que escrevem ‘tough’ e dizem ‘táf’?”, mas me contive. Afinal, as intenções dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu:

- Seria mais fácil não dizer o “pois”.

Eu já estava com preguiça.

- Pois é.

- Não me diz “pois é”!

Mas o que ela não entendia mesmo era o “pá, pá, pá”.

- Qual o significado exato de “pá, pá, pá”?

- Como é?

- “Pá, pá, pá”.

- “Pá”é pá. “Shovel”. Aquele negócio que a gente pega assim e…

- “Pá” eu sei o que é. Mas “pá” três vezes?

- Onde foi que você ouviu isso?

- É a coisa que eu mais ouço. Quando brasileiro começa a contar história, sempre entra o “pá, pá, pá”.

Como que para ilustrar nossa conversa, chegou-se a nós, providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com história:

- Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafezinho, quando chega o Túlio. Conversa vai, conversa vem e tal e p’, pá, pá…

Eu e a americana nos entreolhamos.

- Funciona como reticências – sugeri eu. – Significa, na verdade, três pontinhos. “Ponto, ponto, ponto”.

- Mas por que “pá” e não “pó”? Ou “pi” ou “pu”? Ou “etcétera”?

Me controlei para não dizer – “E o problema dos negros nos Estados Unidos?”.

Ela continuou.

- E por que tem que ser três vezes?

- Por causa do ritmo. “Pá, pá, pá”. Só “pá, pá” não dá.

- E por que “pá”?

- Porque sei lá – disse, didaticamente.

O outro continuava sua história. História de brasileiro não se interrompe facilmente.

- E aí o Túlio com uma lengalenga que vou te contar. Porque pá, pá, pá…

- É uma expressão utilitária – intervim. – Substitui várias palavras (no caso toda a estranha história do Túlio, que levaria muito tempo para contar) por apenas três. É um símbolo de garrulice vazia, que não merece ser reproduzida. São palavras que…

- Mas não são palavras. São só barulhos. “Pá, pá, pá”.

- Pois é – disse eu.

Ela foi embora, com a cabeça alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o outro lado. Deixamos o amigo do Túlio papeando sozinho.
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Luís Fernando Veríssimo (1936 - 2025)
LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fonte:
Luis Fernando Veríssimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Estante de Livros (“A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector)

O romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, foi publicado pela Francisco Alves Editora,, da qual foram extraídas as citações utilizadas na análise. Rodrigo S.M., narrador onisciente, conta a história de Macabéa, personagem protagonista, vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde vivia com mais quatro colegas de quarto, além de trabalhar como datilógrafa (péssima, por sinal). Macabéa é uma mulher comum, para quem ninguém olharia, ou melhor, a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino, doente, feia, maus hábitos de higiene. Além disso, era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar, seu desejo maior era ser igual a Marilyn Monroe, símbolo sexual da época).

Nossa personagem não sabe quem é, o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um. Começa a namorar Olímpico de Jesus, nordestino ambicioso, que não vê nela chances de ascensão social de qualquer tipo. Assim sendo, abandona-a para ficar com Glória, colega de trabalho de Macabéa; afinal, o pai dela era açougueiro, o que lhe sugeria a possibilidade de melhora financeira. Triste, nossa personagem busca consolo na cartomante, que prevê que ela seria, finalmente, feliz… a felicidade viria do “estrangeiro”. De certa forma, é o que acontece: ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada por Hans, que dirigia um luxuoso Mercedes-Benz. Esta é a sua “hora da estrela”, momento de libertação para alguém que, afinal, “vivia numa cidade toda feita contra ela“.

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever. (…) Pensar é um ato. Sentir é um fato.”

Existe a necessidade constante de descobrir-se o princípio, mas o homem, limitado que é, não conhece a resposta a todas as perguntas. A personagem narradora não é diferente dos outros homens, porém, mesmo sem saber tais respostas, de uma coisa ela tem certeza e, por isso, ela afirma: “Tudo no mundo começou com um sim.” É preciso dizer sim para que algo comece, por isso, ela diz “sim” a Macabéa. Alguém que forçou seu nascimento, sua saída de dentro do narrador, tornando-se a nordestina, personagem protagonista de seu romance.

É o grito do narrador que aparece no corpo de Macabéa:

“Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também não faço a menor falta, e até o que eu escrevo um outro escreveria. Um outro escritor sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”

Assim, ela é uma entre tantas, pois quem olharia para alguém com “corpo cariado”, franzino, trajes sujos, ovários incapazes de reproduzir? Com ela o narrador identifica-se, pois ele também nada fez de especial (qualquer um escreveria o que ele escreve); teria de ser escritor, mas nunca escritora; por outro lado, não se pode esquecer de que quem escreve é Clarice Lispector, conforme se afirma na dedicatória. Dessa forma, desencadeia-se, na primeira parte do livro, todo um processo de metalinguagem, que entrecortará a narrativa até o seu desfecho. O narrador homem – Rodrigo S. M. – tecerá reflexões sobre a posição que o escritor ocupa na sociedade, seu papel diante dela e, principalmente, sobre o processo de elaboração da escritura de sua obra:

“Escrevo neste instante com prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e coagular em cubos de geleia trêmula.

Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa do que ouro – existe a quem falte o delicado essencial. Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora seja obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e chuva caindo.”

Ironizando, repetidas vezes, o desejo que os leitores têm da narrativa tradicional, Clarice Lispector (aqui transfigurada no narrador Rodrigo S. M.), em contrapartida, não abre mão de suas características mais marcantes, ou seja, a reflexão, o elemento acima do enredo, o “silêncio e a chuva caindo“, que marcarão a personagem protagonista.

Como contar a vida sem menti-la? Para isso, pondera o narrador, a narrativa há de ser simples, sem arte. O narrador está enjoado de literatura. Não usará “termos suculentos”, “adjetivos esplendorosos”, “carnudos substantivos“, verbos “esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação”. A linguagem deve ser despojada para ser precisa e para poder alcançar o corpo inteiro e vivo da realidade. Como escreve o narrador?

“Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de ouvido. Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. (…) Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.”

Chegamos, aqui, ao ponto mais importante desse trabalho de metalinguagem: a consciência do escritor como um marginalizado.

É aqui que o narrador se funde com sua personagem: ambos são marginalizados, num espaço que não os aceita. Tal fusão se dá em todos os níveis – não apenas no desejo de simplicidade da linguagem despojada; para poder falar de Macabéa, o escritor torna-se um trabalhador braçal, faz-se pobre, dorme pouco, adquire olheiras fundas e escuras, deixa a barba por fazer, lidando com uma personagem que insiste, com seus dezenove anos, mesmo tendo “corpo cariado“, comparada a uma “cadela vadia”, “numa cidade toda feita contra ela“, em viver. Assim, personagem e narrador dão seu grito de resistência em busca da vida. A resistência de Macabéa pode ser representada, por exemplo, nos momentos em que sorri na rua para pessoas que sequer a veem; a resistência do narrador, na busca da palavra, cheia de sentidos secretos… a “coisa”, que, quando não existe, deve ser inventada (o narrador escritor como senhor da criação). Tanto Macabéa como a palavra são pedras brutas a serem trabalhadas. A palavra será a mediadora entre o narrador e o leitor, e entre o leitor e Macabéa, pois é por meio dela que conheceremos a história da personagem, os fatos e, principalmente, o nascimento deles.

O narrador, ao contar Macabéa, conta a si mesmo, não só pelas sucessivas identificações com a personagem, mas porque ela sai de dentro de si, imanente que é a ele (“pois a datilógrafa não quer sair de meus ombros.”) . Dessa união, nasce uma nordestina vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro. Datilógrafa, “o que lhe dava alguma dignidade“, fazendo-a acreditar que tal profissão indicava que “era alguém na vida” (aqui, não lhe passa pela cabeça que é uma péssima profissional, semi-analfabeta… ela não tem consciência de nada disso). Alguém com aparência bruta, capaz de enojar suas quatro companheiras de quarto (na pensão onde morava), trabalhadoras das Lojas Americanas:

“… dormia de combinação de brim, com manchas bastante suspeitas de sangue pálido (…) Dormia de boca aberta por causa do nariz entupido. Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou as manchas do rosto. Em Alagoas chamavam-se ‘panos’, diziam que vinham do fígado.

Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era murrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. Assoava o nariz na barra da combinação. Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto. Só eu a vejo encantadora. Só eu, seu autor, a amo. Sofro por ela.”

Sua falta de percepção física acompanha a psicológica. Começa com o fato de ela ser alvo fácil da sociedade consumista e da indústria cultural: gosta de colecionar anúncios; seus parcos conhecimentos são extraídos da Rádio Relógio (informações ouvidas, mas nunca entendidas); gosta de cachorro-quente e coca-cola. Aceita tudo isso sem questionar, pois teme as conclusões a que pode chegar (arrepende-se em Cristo por tudo, mesmo não entendendo o que isso significa; não se vingava porque lhe disseram que isso é “coisa infernal“; apaixona-se pelo desconhecido, como no caso da palavra “efemérides”, mas nunca procurava, efetivamente, conhecer o incognoscível, pois era mais fácil aceitar aceitar-lhe a existência e admirá-lo a distância).

Consequentemente, torna-se personagem “torta”, de tanto encaixar-se num meio que tanto a repele. O próprio emprego de datilógrafa é revelador: ela o era por acreditar que este lhe dava alguma dignidade. Buscava a dignidade, como se não tivesse direito a ela. Outro dado revelador é seu relacionamento com Olímpico, desculpando-se com ele todo o tempo, chegando a dizer-lhe que não é muito gente, que só sabe ser impossível. Ela não se defende por seus próprios valores, mas tenta adaptar-se aos valores do namorado, nunca discutindo a validade deles. Olímpico representa o contraponto em relação a Macabéa. Seus valores em nada se relacionam aos dela: metalúrgico, quer ser deputado, afastar-se de Macabéa e ficar com Glória, a loira oxigenada, colega de trabalho de Macabéa; afinal, o pai dela era açougueiro, o que lhe dava maiores perspectivas de vida. E tudo isso é, literalmente, engolido, tão deglutido, que ela não admite a ideia de vomitar; afinal, isso seria um desperdício.

Ao mesmo tempo, é sensual em seus pensamentos, ou nos momentos de solidão, como quando viu o homem bonito no botequim, ou ainda quando ficou em casa – ao invés de ir trabalhar – vivendo a sensação de liberdade. O prazer em Macabéa é algo que sempre se alia à dor. Ao ver o homem, por exemplo, apesar do prazer que tal visão lhe dá, há o sofrimento por não o possuir e por ter a certeza de que alguém assim é mesmo só para ser visto. Macabéa já havia experimentado essas sensações contraditórias com outra pessoa, a tia, que, ao bater na menina, sentia prazer ao vê-la sofrer: “… e ela era só ela”, imune à vida, vida que era morte, por tanta aceitação. O instinto de vida, que está ligado ao prazer, vem sustenta-la. Diz o narrador: “Penso no sexo de Macabéa (…) seu sexo era a única marca veemente de sua existência.” E ainda, mais adiante, ligando o prazer à morte: “Ela nada podia mas seu sexo exigia, como um nascido girassol num túmulo.” De que “relação sexual” se pode falar no caso de Macabéa? Da relação com a própria vida, que ela insiste em manter, no seu conceito tão particular de beleza: usava batom vermelho, queria ser atriz de cinema com Marylin Monroe, apreciava os ruídos, pois eram vida.

Essas sensações se intensificam quando vai à cartomante Carlota (por recomendação de Glória), no momento em que esta lhe revela: a felicidade viria de fora, do estrangeiro. A cartomante mostra-lhe a tragédia que é sua vida (coisa de que, até o momento, não havia tomado consciência), mas, ao mesmo tempo, dá-lhe a esperança de acreditar que as coisas poderiam ser diferentes… a possível felicidade. Quando sai da casa da cartomante, é atropelada por Hans, que dirigia um automóvel Mercedes-Benz, momento em que a vida se torna “um soco no estômago”:

“Por enquanto Macabéa não passava de um vago sentimento nos paralelepípedos sujos. (…) Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. Grotesca como sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada.

Era uma maldita e não sabia. (…)”

A morte dela é o momento em que Eros (Amor) se une a Tanatos (Morte), vida e morte, num momento doce, e sensual:

“Então – ali deitada – teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. (…) E havia certa sensualidade no modo como se encolhera. Ou é como a pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um esgar de desejo. (…) Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Não, não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não significava sequer um desastre. Seu esforço de viver parecia uma coisa que se nunca experimentara, virgem que era , ao menos intuíra, pois só agora entendia que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. O destino de uma mulher é ser mulher. Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor. Sim, doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma. (…) Nesta hora exata, Macabéa sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.

O que é que eu estou vendo agora é e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco de sangue, vasto espasmo, enfim o âmago tocando no âmago: vitória!” Sua boca, agora, vermelha como a de Marylin Monroe, no apogeu orgásmico da morte, grita, pela primeira vez, depois de vomitar, à vida:

“E então – então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a águia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estraçalhando um rato sujo e qualquer, a vida come a vida.”

Chegamos, afinal, ao momento da epifania do narrador fundido à Macabéa: é a vida que grita por si mesma, independente da opressão e da marginalização social.

O momento, entremeado com silêncio, da consciência a que se chega pelo ato de escrever:

“(…) O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e depois toca de novo. Etc. , etc., etc. No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada. Eu vos pergunto: – Qual é o peso da luz? E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim.”

Enfim, descobrimos, agora, que tudo começa e acaba com um sim. Também é preciso coragem para morrer, silêncio para ouvir o grito da vida.

Fonte:
Resumos de Livros. 18.01.2010

Manuel Bandeira (Caderno de Poemas)

 

MINHA GRANDE TERNURA

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.
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NATAL SEM SINOS

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ali meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, o sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.
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NATAL

Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal...
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh’alma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana - pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
= = = = = = = = = = = = = =  

NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.
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NOITE MORTA

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras
Sobras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
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NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido
Poeta sórdido:
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim
muito bem engomada,
e na primeira esquina passa um caminhão,
salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poeta deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas,
as estrelas alfas,
as virgens cem por cento
e as amadas que envelheceram sem maldade.
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O ANEL DE VIDRO

Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, -
Aquele pequenino anel que tu me deste,
- Ai de mim - era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste.
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Manuel Bandeira (1886 - 1968)
MANUEL CARNEIRO DE SOUSA BANDEIRA FILHO é um dos maiores nomes da literatura em Língua Portuguesa. Nascido em Recife/PE, em 1886, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1968, aos 82 anos de idade, em decorrência de uma hemorragia gástrica. Passou a infância na "casa de seu avô" (eternizada em seus poemas). Mudou-se com a família aos 10 anos para o Rio de Janeiro onde residiu a maior parte de sua vida. Em São Paulo/SP mudou-se temporariamente para estudar. Devido ao diagnóstico precoce de tuberculose em 1904, morou em busca de tratamento em cidades como Campanha (MG), Petrópolis (RJ), Teresópolis (RJ) e passou um ano internado no sanatório de Clavadel, na Suíça. Manuel Bandeira ingressou no curso de Engenharia-Arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, mas abandonou os estudos devido à saúde frágil. Dedicou-se inteiramente às letras. Trabalhou como crítico literário, crítico de arte, cronista e tradutor para diversos jornais e periódicos. Foi nomeado professor de Literatura no tradicional Colégio Pedro II, onde lecionou de 1938 a 1943. Atuou como professor catedrático de Literaturas Hispano-Americanas na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ), aposentando-se em 1956. 
Iniciou sua trajetória literária ainda sob a influência do Parnasianismo e Simbolismo, mas tornou-se um dos precursores e expoentes da Primeira Fase do Modernismo brasileiro. Embora não tenha comparecido presencialmente à Semana de Arte Moderna de 1922, seu poema emblemático "Os Sapos" foi lido no evento, servindo como uma demolição satírica da poesia parnasiana. Foi eleito em 1940 para a Academia Brasileira de Letras. Recebeu o prestigioso Prêmio Ibiriá da Sociedade Felipe d'Oliveira pelo conjunto de sua obra poética, além do Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro.
Principais Livros Publicados: A Cinza das Horas (1917) – Obra de estreia, marcada pelo tom melancólico e intimista; Carnaval (1919) – Onde começa a experimentar a liberdade de composição rítmica; Libertinagem (1930) – Sua obra-prima modernista, contendo os célebres poemas "Vou-me Embora pra Pasárgada" e "Poética"; Estrela da Manhã (1936); Lira dos Cinquent'anos (1940); Itinerário de Pasárgada (1954) – Obra em prosa de cunho autobiográfico e memorialista; Estrela da Vida Inteira (1966) – Coletânea que reúne sua poesia completa.
A importância de Manuel Bandeira reside em sua capacidade única de aproximar a alta poesia da linguagem cotidiana e coloquial. Sob a constante sombra da morte (pela tuberculose), ele transformou o lirismo brasileiro ao introduzir o verso livre, o humor fino, a autoironia e o lirismo focado nas pequenas coisas do dia a dia, nos desvalidos e na infância perdida. Bandeira libertou a poesia das amarras formais rígidas do passado, consolidando a identidade estética do Modernismo e provando que qualquer elemento da vida — por mais simples ou trágico que seja — é matéria-prima para a arte.

Fontes:
Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Publicado originalmente em 1966.
Biografia = Wikipedia, E-Biografia, Academia Brasileira de Letras, Brasil Escola, 
E-Biografia, Toda Matéria, etc.

Antônio Ozaí da Silva (A Experiência da Dor)

Segunda-feira. Deveria ser mais um dia como outro qualquer, mas uma dor aguda, quase imperceptível, indicava que algo não estava bem. Mesmo assim, saí e fui fazer coisas que não gosto, mas que a rotina obriga, como ir ao banco. O corpo não me enganara, os pressentimentos revelaram-se reais. A dor, insidiosamente, aumentava de intensidade até tornar-se insuportável. Precisei antecipar o retorno. Depois, o médico diagnosticaria o que parecia o óbvio: mais uma crise da coluna, ou, como digo em tom de brincadeira, era o “nervo asiático”. Injeções, comprimidos de vários tipos e repouso – eufemismo que indica a condição em que nos vemos forçados a permanecer deitados a maior parte do tempo, dormindo sob o efeito dos medicamentos ou em estado de sonolência. E assim passaram-se os dias da semana…

O que fazer quando não é possível permanecer em pé ou mesmo sentado? O que fazer quando a vida limita-se ao espaço de alguns metros quadrados, do tamanho da cama, e a dor torna-se a companheira indesejável, porém inseparável? Só resta dormir, tomar remédios, dormir novamente e torcer para que a química comece a surtir os efeitos desejados e apazigue a dor que teima em permanecer. Até que, finalmente, ela cede, diminui de intensidade e já é possível se movimentar um pouco, fazer as refeições à mesa e, até mesmo, escrever um texto – embora sentado na cama e com precauções, pois ela, a dor, ainda está perto e o corpo denuncia a sua presença.

A imobilidade forçada é angustiante. A dor não altera a consciência do que é preciso ser realizado, das tarefas pendentes que são adiadas. Fossem outros tempos, sem computadores e, portanto, sem emails a responder, revistas eletrônicas a encaminhar, Orkut e redes de relações sociais a manter, atividades acadêmicas virtuais a fazer, etc., a angústia seria atenuada. Nos novos tempos, porém, a tecnologia torna-se extensão do corpo e até mesmo as relações sociais passam a ser influenciadas e determinadas pela capacidade de permanecer conectado. O enfermo em sua cama sente-se impotente por não conseguir dar conta das tarefas já incorporadas ao cotidiano virtual e solitário em sua dor.

Há, porém, aspectos compensadores. Inativo, forçado a permanecer deitado, ele tem tempo mais do que suficiente para pensar. Mesmo na sonolência, a mente se torna um turbilhão de ideias, reflexões e lembranças. E, inevitavelmente, passa a refletir sobre a própria dor. Ele recorda do período em que leu a obra de Milan Kundera e da brincadeira que ele faz em um dos seus livros com o dito cartesiano “Penso, logo existo”. A medida da existência, na verdade, é dada pela dor. Portanto, talvez seja mais correto afirmar: “Sinto, logo existo”. A dor parece resumir tudo, torna-se a síntese do viver.

Mas o que é a minha dor diante do sofrimento do torturado? E como explicar o absurdo de um ser humano infligir dor a outro e, ainda mais, sentir prazer? O que significa diante do que sente alguém com o corpo perfurado por uma bala ou sofreu um acidente e está entre a vida e a morte na UTI? O que é a minha dor diante da tragédia que vitima milhares de seres humanos no Haiti? Como somos egoístas diante da dor!

“A verdade da dor reside naquele que a sofre”, leio em História do Corpo.* Aliás, uma leitura que vem a calhar, mas que, ironicamente, não foi planejada para este momento. Enquanto a dor cede e permite concentrar-se, o tempo do ócio, ainda que em condições não muito propícias, pode ser dedicado ao aprendizado e reflexão sobre o corpo, um corpo histórico mas tão real e humano quanto o meu. A leitura me faz compreender melhor o corpo, a dor e o sofrimento humano, mas não cessa a dor que sinto. Conheço-me um pouco mais, mas preferia não passar por esta experiência.
––––––––––––––––––––-
* CORBIN, Alain. Dores, sofrimentos e misérias do corpo. In: História do corpo: da Revolução à Grande Guerra, sob a direção de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello, Petrópolis,RJ: Vozes, 2009.
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Antônio Ozaí da Silva (1962)
ANTÔNIO OZAÍ DA SILVA, renomado cientista social, professor universitário e ensaísta político brasileiro. nasceu em 1962. Construiu sua trajetória de formação no estado de São Paulo estudando em Santo André e na capital paulista. Posteriormente, mudou-se para Maringá (PR), onde fixou residência e atua há décadas. Possui uma sólida e respeitada carreira na docência e na pesquisa Graduou-se em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (1994). Concluiu o Mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1997. Tornou-se Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) em 2004. Realizou pós-graduação em História das Religiões pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Desde 1998, atua como Professor Associado no Departamento de Ciências Sociais da UEM, lecionando na área de Ciência Política com foco em Teoria Política Contemporânea.
Sua produção escrita é voltada para a análise sociológica, política e educacional. Ele é amplamente reconhecido por seu trabalho como editor de periódicos de destaque, sendo o fundador e editor da renomada Revista Espaço Acadêmico, além de colaborar com as publicações Acta Scientiarum e Urutágua, e manter um blog ativo com reflexões sobre a prática docente.
Embora não escreva ficção, Antônio Ozaí da Silva possui grande relevância na literatura científica e política brasileira. Suas pesquisas e livros são fundamentais para compreender a história dos movimentos de esquerda, do marxismo, do anarquismo e da pedagogia libertária no país. Além disso, ao capitanear periódicos como a Revista Espaço Acadêmico, ele cumpre um papel crucial na democratização do conhecimento e no debate público, servindo como uma importante vitrine para ensaístas, sociólogos e pensadores contemporâneos divulgarem suas ideias no Brasil. 

Fontes:
Colaboração do autor . janeiro. 2010.
Biografia = Escavador, Wikipedia, Blog do Ozaí (https://antoniozai.wordpress.com/)

Guerra Junqueiro: Contos para a Infância (Não Quero)

 Um dia, indo eu pela estrada, ouvi dois rapazinhos falando muito alto:

– Não, dizia um com voz enérgica, não quem.

Parei e perguntei-lhe:

– Que é que tu não queres, meu rapaz?

– Não quero dizer à minha mãe que venho da escola, porque é mentira. Vai-me ralhar, bem sei; mas dantes me ralhe do que mentir.

– E fazes bem, volvi eu. És um rapaz como se quer.

Apertei-lhe a mão, enquanto o outro pequeno, o que lhe insinuara a mentira, se ia embora todo envergonhado.

Daí a tempos, passando pela mesma aldeia e necessitando de falar ao professor, entrei na escola, onde reconheci logo os dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me, interroguei o mestre sobre os dois alunos:

– Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnífico estudante, um pouco teimoso mas honrado, sincero, sempre disposto a confessar as suas faltas e, o que é ainda melhor, a repará-las. O outro, ao contrário, é mentiroso, covarde, incorrigível.

– Pois já vejo que me não tinha enganado.

E contei-lhe o que se passara.
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Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO foi o poeta mais popular e politicamente influente de sua época em Portugal. Conhecido como o "Victor Hugo português", suas sátiras afiadas e seu profundo lirismo social atuaram como verdadeiros combustíveis ideológicos para a queda da monarquia e a subsequente implantação da República Portuguesa. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, na região de Trás-os-Montes, em Portugal, em 1850  e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1923 (aos 72 anos), vitimado por problemas de saúde decorrentes da idade. Passou a infância em Trás-os-Montes e mudou-se para Bragança e depois Coimbra para realizar seus estudos. Ao longo de sua vida adulta e carreira política, alternou residências entre Lisboa e Porto. Também morou temporariamente em Berna (Suíça) devido às suas funções diplomáticas. Filho de um lavrador abastado, Junqueiro inicialmente foi direcionado à vida eclesiástica por sua família conservadora. No entanto, abandonou o seminário para cursar Direito na Universidade de Coimbra, formando-se em 1873. Sua carreira foi altamente multifacetada. Atuou como jornalista e cronista em periódicos influentes de sua época. Trabalhou como alto funcionário administrativo do Estado, atuando como Secretário-Geral Civil em Angra do Heroísmo (Açores) e em Viana do Castelo. Teve uma ativa carreira parlamentar, sendo eleito Deputado nas cortes portuguesas pelo partido progressista e, mais tarde, um dos principais defensores das causas republicanas. Com a consolidação da República, foi nomeado Ministro Plenipotenciário (Embaixador) de Portugal na Suíça entre os anos de 1911 e 1914.
Guerra Junqueiro despontou para o mundo das letras na efervescente Coimbra do fim do século XIX, integrando o movimento acadêmico e revolucionário conhecido como a Geração de Coimbra. Inicialmente influenciado pelo romantismo tardio, ele rapidamente migrou para o Realismo e o Naturalismo, integrando o grupo de intelectuais do Cenáculo. Diferente de outros autores de sua era, a atuação de Junqueiro concentrou-se mais em associações políticas, grêmios intelectuais e revistas de vanguarda (como a Lanterna Mágica e A Folha) do que em academias de letras formais. Ele recusava formalismos institucionais tradicionais por sua postura altamente rebelde, anticlerical e antimonárquica. No século XIX e início do século XX, o sistema de premiações literárias oficiais em Portugal quase não existia nos moldes atuais. O maior "prêmio" de Guerra Junqueiro foi o imenso clamor público e popularidade inédita, tornando-se o poeta mais lido e declamado do país. (Nota: Atualmente, seu legado batiza o prestigioso [Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, instituído para condecorar grandes nomes da literatura em língua portuguesa).
Principais Livros: A Morte de D. João (1874) – Obra que o consagrou no realismo satírico; A Velhice do Padre Eterno (1885) – Forte e polêmica sátira anticlerical; Finis Patriae (1890) e Pátria (1896) – Poemas panfletários de protesto contra o declínio da monarquia e o Ultimato Britânico; Os Simples (1892) – Transição para uma poesia mais mística, panteísta e voltada à exaltação da vida rural e dos camponeses.
A importância de Guerra Junqueiro reside no fato de ele ter transformado a poesia em uma arma cívica e de intervenção social de massa. Ao unir a ironia corrosiva e a caricatura social a um domínio estético grandioso, ele conseguiu fazer com que a poesia saísse das elites e ecoasse diretamente no sentimento popular de indignação pública. Suas sátiras desmistificaram as instituições da Coroa e da Igreja, abrindo caminho cultural e psicológico para as transformações democráticas modernas em Portugal e marcando definitivamente a transição estética para o século XX. 

Fonte:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância. Publicado originalmente em 1877.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Luiz Poeta (Trovas, com amor)

 

Aquele velho gabola
quis marcar um gol de placa,
tropeçou na própria bola,
coitado! Saiu de maca.
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Aqui, galo não se tem.
Relógio? ...deixa pra lá,
De manhã, me sinto bem,
quem me acorda é um sabiá.
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Caramba! Que desperdício!
Tanto alambique bacana
e o meu carrinho sem vício
movido a goles de cana!
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Coitada... pobre da gringa...
Quis sambar na passarela,
tropeçou na própria ginga
e a ginga tropeçou nela.
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Com a grana que ele roubou,
o doleiro se ufana.
por comer do que sobrou,
o pobre é quem vai em cana.
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Comilão come o que quer,
basta apenas sentir fome,
nem precisa de colher,
mete o dedo e tudo some.
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Fiel ao que a mestra ensina
com tanto amor e ternura,
orgulhosa, a pequenina
sorri ao fim da leitura.
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Filho e mãe, finda a leitura, '
adormecem… que obra prima!
É num toque de ternura
que a leitura se sublima.
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Há certo tipo de lama
que serve de adubação
e a semente nem reclama
da lama da podridão.
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Há lirismo e sentimento
em cada ramo que oscile,
polinizando, com o vento,
grinaldas de Bougainville.
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Há no caminho da trova
um preconceito exigente
de quem nunca se renova
nem sente o que a trova sente.
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Há poder na onda do mar;
há poder no Sol ardente,
mas há mais poder no olhar
de quem ama ardentemente.
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Hoje eu faço aniversário!
...estou vivo, quem diria
que esse meu itinerário
nem num caixão caberia!
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Nossa vida é um desafio:
o recém-nato que o diga;
sem um útero macio,
que ventre que nos abriga?
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Num rabisco num caderno,
a família reunida.
Quando um sentimento é terno,
um desenho ganha vida.
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Numa página molhada
pelo pranto, a poesia
ficou tão desfigurada,
que borrou a fantasia.
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Numa pequena gravura,
a família reunida.
Só Deus desenha a ternura
que representa uma vida,
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Numa trova sensual,
fiz o teu corpo de trilha,
mas meu verso irracional
tropeçou na redondilha.
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Num verso, se me confesso, 
nunca impeço a emoção
de escrever o que nem peço,
impeço, sim, a razão.
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Nunca fui muito bonito...
mas sempre fui sedutor:
seduzi o infinito
bonito do teu amor.
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O amor pede que eu siga
os rumos de um sonhador,
mas a mudez que me instiga,
se abriga na minha dor.
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O bonde do Corcovado
leva o povo embevecido
a cada vez que é trilhado
seu caminho colorido.
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Poeta nasce poeta,
mas o tempo o aprimora;
quando a vida é incompleta,
que poeta que não chora?
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Poeta que diz que mente,
certamente se desdiz,
pois só diz o que não sente,
quando mente que é feliz.
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Quando a alma está vazia
e o amor torna-se vago,
só se tem por companhia
a lembrança de um afago.
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Quem nunca tomou porrada,
não sabe nada da vida;
faz da avenida, a calçada
e da calçada, avenida.
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Quem parte, deixa uma parte,
encarte fora da obra,
mas quando a dor nos reparte,
a parte triste é que sobra,
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Quem prejulga e não se julga,
ou é tolo ou desvairado,
cachorro escondendo a pulga
nos pelos do condenado.
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Quem reclama o tempo inteiro
do tempo que Deus lhe deu,
será sempre prisioneiro
do tempo que já perdeu
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Quem se dedica ao ofício
sublime da poesia,
transforma esse dom em vício
e esse vício em fantasia.
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Quem se vai e a dor não deixa,
não se vai completamente,
pois se a solidão se queixa,
a saudade diz: "presente"!
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Quem te pôs, Drummond de Andrade,
dando as costas para o mar,
na certa quis que a cidade
pudesse te admirar.
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Quis pintar em aquarela
a história do nosso amor,
não pintei nada na tela,
como é que se pinta a dor?
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Redondilhas d'além-mar,
poesia lusitana,
Portugal no meu olhar
na quadra camoniana
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Roubei tuas fantasias,
mas tu ficaste com as minhas;
guardaste mais que podias
e eu quis bem mais do que tinhas.
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Tantas dádivas divinas
e o homem, contestador,
fechando suas retinas
para as dádivas do amor.
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Tantas vezes a sorrir,
minha mãe me abençoava;
quando teve que partir,
foi seu filho quem chorava.
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Tanto achismo e tanto achado,
tanto eu acho e... "desachei",
que olhando o lado errado,
eu percebo que acertei.
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Tantos olhares perdi,
procurando me encontrar,
mas dos olhos que escolhi,
só me vi no teu olhar,
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Te traí comigo mesmo.
Não perguntes como fíz.
Amar quem me ama a esmo
sempre me fez infeliz.
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Tenho pena dessas pombas
que já nem têm mais pombais;
elas são pombas das bombas,
não são mais pombas da paz.
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Tem sempre alguém que nos planta;
e com carinho, nos colhe,
alguém que nos agiganta
e sempre alguém... que nos tolhe.
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Tem tanta gente que indaga
sobre seu destino vão,
porque além da ideia vaga,
Deus lhe deu um coração.
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- Tens tanto predicativo
no teu olhar sedutor...
e eu só uso um vocativo...
sabe qual é? Meu amor!
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Luiz Poeta (1950)
LUIZ GILBERTO DE BARROS, amplamente conhecido pelo seu pseudônimo patenteado LUIZ POETA, é um renomado professor, escritor, poeta, cantor e compositor brasileiro. Nasceu em 1950, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Desenvolveu toda a sua vida pessoal e artística estabelecido na própria cidade natal. Formou-se e atuou fortemente na área da educação como Professor de Língua Portuguesa, Redação e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Lecionou em instituições tradicionais como os Colégios Santa Mônica, Itu e em escolas da rede pública do Município do Rio de Janeiro. É reconhecido também como gramático, revisor literário, prefaciador e tradutor. 
Sua veia poética começou a se consolidar fortemente a partir de 1967. Ele transita com extrema facilidade por diferentes vertentes da escrita, atuando como cronista, contista, ensaísta, trovador e adepto do movimento aldravianista. Pelo grande envolvimento e liderança em prol da cultura, Luiz Poeta acumula diversas condecorações institucionais de relevância: Presidente, Embaixador, Cônsul, Comendador e Chanceler em corporações de fomento às artes. Membro atuante e reconhecido no cenário das Federações e Academias de Letras e Artes do Brasil. Foi Presidente da Academia Pan-Americana de Letras e Artes; do Centro Cultural Leopoldina de Souza Marques, da Faculdade Souza Marques, e Diretor Presidente do Jornal “ O Coruja “, de circulação universitária; membro da Academia Luso-Brasileira de Letras; Associação dos Acadêmicos da Academia Brasileira de Letras; Academia Paulista de Letras; Academia Aldrava, Letras e Artes; Cerc Universal des Ambasssadeurs de la Paix; Divine Academie Française de Letters y Arts;  Cônsul dos Poetas del Mundo; Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais; Inbrasci (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, etc..
Teve, inclusive, o seu nome imortalizado na Sala de Leitura Luiz Poeta, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (5ª CRE), uma homenagem direta ao seu legado acadêmico. Ao longo de sua jornada, Luiz Poeta recebeu expressivos prêmios lítero-musicais (muitas vezes competindo sob pseudônimos para preservar a avaliação cega de suas obras): Prêmio UNESCO: Foi premiado duas vezes pela UNESCO em reconhecimento ao valor humanitário e cultural de seus escritos. Melhor Poeta do Estado do RJ (2008), condecorado pelo Congresso da Sociedade de Cultura Latina (Seção Brasil) na categoria de Poesia Clássica. Prêmio de Ensaio Poético: Teve sua obra "Gullarearte" (um cordel em homenagem a Ferreira Gullar) premiada em um concurso literário em Porto Alegre. Na Pele da Poesia (2007): Uma de suas obras poéticas de maior circulação, onde reúne poesias que exploram o cotidiano, o lirismo e a sensibilidade humana. Canção de Ninar Estátuas (2019) – contos; Trov…Ansi…Arte(2022) – trovas.
Sua extensa produção literária e artística espalha-se por livros autorais, coletâneas, CDs e DVDs, possuindo traduções em cinco línguas (português, espanhol, italiano, inglês e francês). Entre suas principais contribuições estão: Participação em Antologias de Peso: Como a antologia "Poemas à flor da pele", além de inúmeros sonetos clássicos publicados no Brasil e no exterior (como no Portal CEN, de Portugal). Obra Lítero-Musical: Registro expressivo de composições poéticas transformadas em faixas de áudio e vídeo distribuídas no mercado fonográfico e literário.
A relevância de Luiz Poeta reside no seu papel como elo integrador entre a erudição técnica e a sensibilidade popular. Como professor e gramático, ele defende a pureza e a beleza da língua, mas despe a poesia de "rebuscamentos intelectualóides". Ele democratizou o acesso à leitura poética e influenciou gerações de alunos no Rio de Janeiro. Herdando o talento do pai (que tocava flauta de bambu), Luiz tornou-se violonista, cantor, produtor musical e compositor de mão cheia. Ele atuou como Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, e sua relevância técnica é tão vasta que ele foi integrado como membro do casting oficial de suporte artístico da Orquestra Sinfônica. No campo das artes visuais, ele se destaca de forma inovadora pela criação de telas plásticas utilizando técnicas singulares com esmaltes de unha.

Fontes:
Luiz Poeta. Trov... Ansi... Arte. RJ: ZMF Ed., 2022. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Dicionário MPB, Recanto das Letras, O Secular Soneto, Portal CEN, Confraria Brasileira de Letras, etc.