quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Geraldo Pereira (A alma plena)

Este espaço de jornal em que exercito os meus pendores, às vezes literários, e no qual deixo aflorar os meus sentimentos, é muito mais que mágico. Espaço de meus encontros e de meus reencontros e espaço até de minhas reparações d’alma! Conheci, a partir daqui mesmo, diversas pessoas, leitoras todas das crônicas ensaiadas em momentos assim, do emergir das emoções, dos ganhos ou das perdas que a vida traz. E se encontrei a tantos, reencontrei a outros, velhos companheiros dos bancos de escola, dos tempos dos jesuítas e dos anos de faculdade, que me acompanham nesse mister delicioso de escrever e de ser lido. Com frequência, ouço alusões a um tema qualquer, fruto de minhas divagações do espírito ou resultante da prática nostálgica das minhas saudades. Chego a pensar que o cotidiano agrada a quem faz uma pausa na leitura das notícias do dia-a-dia e se identifica com o articulista, aprendiz sempre! Tanto faz o pretérito distante, como o presente rapidamente transformado em passado!

Certa vez, andando pela praia, nas brancas e finas areias de Pau Amarelo, tive a grata surpresa de ouvir de uma leitora o quanto lhe fizera bem um de meus artigos. A moça, sentada ao sol de verão, levantou-se e me disse de sua satisfação ao comungar das minhas ideias e talvez dos meus ideais. Precisava, como verbalizou, daquelas palavras solidárias, de uma certa reparação das falhas humanas, tão comuns, mas nem sempre compreendidas, do entendimento da fragilidade da criatura. Uma outra senhora, também, nas mesmas areias cálidas, me fez parar a caminhada e indagou: “Você escreve pra mim?”. É que as lembranças da infância e as recordações da juventude dos meus tempos coincidiam com as suas formas de reviver os anos. Sendo de meu grupo de idade, com certeza vivera episódios assemelhados ou andara por lugares parecidos, senão os mesmos de meus dias! Assim, parecia entrar no texto e participar da flexão das palavras e das frases, ajudando a formar períodos inteiros de vivências guardadas agora nos reservados recantos da memória!

Um dia desses, nas proximidades da av. Boa Viagem, ouço do carro ao lado ruidosa saudação de velho amigo – Rodolfo Coutinho –, colega do ginásio. A um só tempo falou dos assuntos de minhas últimas crônicas, dos filmes a que assistíamos juntos, burlando a vigilância descuidada nos cinemas da cidade. De Brigitte Bardot, musa encantada da juventude toda, uma antecipação da Vera Fisher de agora, forasteira e estrangeira, mas estímulo forte às fantasias daqueles tempos. Lembrou as brigas com outro colega de colégio, Marcionilo de prenome, de cujas contendas tomamos por castigo a expulsão materializada da antiga Congregação Mariana, que frequentávamos com olho grande na sinuca e nos outros jogos da sala, nada mais. E o sinal abriu, o encarnado sofreu a metamorfose do verde, impedindo o mais sublime dos atos, o de fiar conversa assim, rebuscando lembranças. Faltou muita coisa - É claro! -, das traquinagens todas, das inquietudes vocacionais primitivas, eclesiásticas por vezes, dos pecados repetidos aos ouvidos dos padres e muito mais! Um dia, recordaremos tudo isso!

Uma determinada crônica, dedicada a uma certa mãe dos meus distantes convívios, gerou uma atenciosa carta de outra senhora igualmente sofredora e da mesma forma desesperada. Dizia, em bom português, que sendo habitual leitora deste espaço, jamais imaginou tamanha sensibilidade. Não me conhecia, dizia e por isso, ideia não podia fazer! Assim, contou a sua desdita, os seus traumas e as suas frustrações. Li, com toda a atenção d’alma, reli muitas vezes e me fiz partícipe de suas dores. E se há noites em que rezo aos céus, na minha incredulidade do hoje, não dispenso essa inclusão em meus pedidos: a reflexão do espírito voltada para o leitor. Muito grato, então, aos leitores todos, aos que ligam e se expressam, aos que encontro no efêmero das ruas, aos que não me cumprimentam porque não podem e até aos que não gostam e dizem ou não dizem! Muito grato a Rodolfo Coutinho, a quem dedico a inspiração e a crônica!
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.
Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Carina Bratt (Lágrimas orvalhadas num rosto em busca do amor)


Beijei teu sorriso, mas ficou o gosto de adeus...doçura amarga.
(Aparecido Raimundo de Souza, de "Viagem imersiva")

Porta fechada
O vento bate e volta… Segredo guardado.

Esquecimento
Flores ofertadas murcham sem um olhar… Silêncio ingrato.

Corte súbito
Braço estendido, mão que empurra e se vai… Vento na face.

Cicatriz
Ajudei com fé, mas a memória falhou… só ficou a dor.

Lembranças
Sopro salgado vem, traz memórias da infância e ondas no olhar.

Peso invisível
O silêncio espesso enche o ar como fumaça… ninguém respira.

Entrelinhas
Palavras ausentes, o olhar diz mais que tudo… Silêncio obtuso. 

Vácuo
Eco sem resposta, paredes que não devolvem som que se perdeu.

Interrompido
A flor que não abriu, o vento levou antes do sol o tempo não cumprido.

Voz calada
Riso engasgado na infância que se apagou do nada… Mudez eterna.

Súbito vazio
Passo que faltou na dança da despedida… Eco sem resposta.

Quarto fantasma 
Som do próprio passo ecoando no agora… Ninguém responde.

Noite longa
A luz do abajur cai na xícara esquecida… Só eu e o tempo.

Dentro de mim
A multidão lá fora, mas aqui tudo é tristeza... sou só euzinha comigo.

Ao acaso
Esbarro no riso, num olhar que me entende… A amizade nasce.

Esquisito
Sentamos calados, mas o tempo se abriu em laço impossível.

Entre estranhos
A chuva nos juntou, guarda-chuva compartilhado… Dois corações se uniram num só bater. 

Promessa vazia
Disse que vinha, fiquei na porta esperando, chupando o dedo.

Desejo negado
O sorvete passou, a criança atrás do vidro – dedo na boca.

Ilusão sem nexo
No sonho embalado acordei sem presente, só o gosto amargo restou.

Olhar contido
Cruzei teu olhar, mas o mundo nos separou... ficou o vazio.

Barreira
Entre nós, a muralha feita de tempo e destino… o amor não passou. 

Ainda agora não acredito
Se fosse possível, o céu caberia em nós, mas ficou só o chão.

Pulso firme
O coração chora, mesmo após tantas quedas... estou viva, sim...

Voz própria
O silêncio rompe minha voz e enfim se ergue... Sou a vida que fala.

Tempo sábio
A cicatriz se fecha, não por pressa, mas por fé… Curo o desconhecido.

Exposta
Sangra sem parar, o tempo passa ao redor… Ferida aberta.

Invisível
Não se vê no corpo, mas arde em cada gesto, a dor que não cicatrizou.

Ainda dói
Toquei sem querer e o passado respondeu… Ferida incurável.

Travessia plena
Sobre a ponte vou, entre o que fui e o que serei... O vento me empurra.
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CARINA BRATT nasceu em Curitiba/PR. Secretária particular e assessora de imprensa em Vila Velha/ES. Escreve crônicas em uma coluna denominada "Danações de Carina" para um site de Portugal.
Fontes:
Texto enviado pela autora,
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 99 *


Quintilha de 
CAILIN DRAGOMIR
Timișoara, Romênia

Ter Fé

No peito, a chama acesa,  
um caminho a seguir,  
mesmo nas noites escuras,  
ter fé é acreditar sempre  
que a luz vai ressurgir.
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Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/ RJ

E eu nem pude visitá-lo
(Para Artur da Távola)

Meu amigo morreu e eu nem pude visitá-lo...
Estava ocupado em viver para o trabalho;
A morte é cruel e nem procura algum atalho...
Constato que estou vivo e ele se foi... eu... só... me calo.

Meu amigo morreu e eu nem pude...... confortá-lo...
Estava absorto em fantasias de poeta;
Agora a minha vida se tornou mais incompleta...
Meu amigo se foi e nem sequer pude abraçá-lo...

A vida entretanto é resistente,  a experiência
Mais uma vez mostrou, irretocável,  que a ciência
Jamais há de matar ou destruir um sentimento...

Maior que essa dor cruel da própria consciência
É essa letargia arbitrária, cuja essência
Repousa na mudez da solidão de um pensamento.
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Lacrimosa
"No meu leito, durante a noite, busquei
aquele que meu coração ama."
(Ct. 3,1)

A tu'alma é triste
Qual funéreo sino,
Que traça o destino,
Soluçando a sorte;
Ao cair da tarde,
Terríveis anseios
Oprimem teus seios
Com odor de morte.

A tu'alma é triste
Como a mãe ferida,
Que já vê perdida
Sua filha amada;
Ao cair da tarde,
Transpassada em dores,
Carente de amores,
Padece calada.

A tu'alma é triste
Tal como o violino,
Que gagueja um hino
Com falhada voz;
Ao cair da tarde,
Só restam escolhos,
Que teus tristes olhos
Avistam a sós.

A tu'alma é triste
Tal como o condor,
Que o vil caçador
Expulsou do ninho;
Ao cair da tarde,
A tu'alma cora,
Consternada chora
Por um só carinho.

A tu'alma é triste
Como o bandolim,
Que chorou por mim
Triste despedida;
Ao cair da tarde,
São os teus cabelos
Do triste salgueiro
Ramagem caída.

A tu'alma é triste
Como o som da gaita,
E com balalaica
Acentuou seu choro;
Ao cair da tarde,
Faça uma oração,
Que os anjos irão
Abençoar-te em coro.
= = = = = = = = =  

Poema de
MARIA LUÍZA WALENDOWSKY
Brusque/SC

Vendaval 

Olho para o céu, 
percebo as nuvens negras. 
O medo começa a tomar conta de mim. 
Já sinto o vento... 

Não é como uma brisa, 
mas estou cercada 
de outras árvores-irmãs. 
Agora 
o vento forte nos balança, 
nossas folhas são levadas para longe. 
No desespero grito. 
- Não me abandonem!! 
Vamos ficar juntas!! 

Não me ouvem, 
e cada uma segue seu caminho. 
Sinto o balançar intenso 
passando por entre os galhos, 
quebrando-os, 
partindo em pedaços... 

Assim está meu coração. 
Ah! Vou resistir! 
Tenho tronco e raízes profundas... 

Ao longe 
estão as outras árvores-irmãs, 
algumas no chão, 
outras ainda em pé, mas longe de mim. 

O vento impiedoso 
começa a arrancar minhas raízes, 
soltando da terra, 
já não quero mais resistir! 
Deixo-me levar para longe, 
sem destino…
= = = = = = = = =  

Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Meu amor
eternamente
envelopado
acho
que o carteiro
esqueceu
de entregar.
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Fábula em Versos
adaptada dos Contos e Lendas da África
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

A Menina e o Elefante

Uma menina travessa, no campo a brincar,
encontrou um elefante, que estava a chorar.
“Por que estás tão triste, amigo elefante?”
“O homem me caça, e o futuro é horripilante.”
A menina, firme, decidiu ajudar,
com coragem no coração, não ia hesitar.

Juntos partiram, para lá longe, na cidade,
a menina gritou: “Vamos parar essa insanidade!”
Com astúcia e bravura, alertaram a nação,
e os caçadores mudaram, por sua ação.
O elefante agradeceu, com um toque gentil,
e a menina sorriu, seu coração era sutil.

A coragem em defesa dos fracos não é em vão,
uma voz pode mudar o mundo, trazendo compaixão.
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Quadra Popular

Rouxinol canta de noite,
de manhã a cotovia;
todos cantam, só eu choro
toda a noite e todo o dia!
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Bálsamo

Pelas insípidas tardes vagueio
Acinzentado, o jardim m'entristece
Dos rouxinóis não mais ouço o gorjeio
Nada mais brilha... Minh' alma fenece

De fel e dor, asseguro, estou cheio
Um brado ecoa, plangente, qual prece
O sentimento sufoca, alardeio:
"Ah, se teus beijos de novo tivesse..."

Envolto em manto espinhoso reclamo
Aqueles sons, vesperal sinfonia
Aquelas cores prazentes, vivazes

Oh, meu amor, quanta falta me fazes!
Só tu dissipas ess' acre agonia
Contigo é certo que o peito balsamo
= = = = = = 


Poema de
GONÇALVES DIAS
Caxias/MA, 1823 – 1864, Guimarães/MA

Doce amor

Doce Amor — a sorrir-se brandamente
Em sonhos me falou com tal brandura,
Que eu só de o escutar vida mais pura
Senti coar-me n'alma fundamente.

Depois tornou-se o tredo fogo ardente
Que o instante, o ano, a vida me tortura.
Bem longe de gozar tanta ventura,
Cresta-me o rosto agora o pranto quente.

Homem, se homem és no sentimento,
Não zombes, não, de mim tão desditosa,
Nem seja o teu alívio o meu tormento.

Deixa-me a teus pés cair chorosa,
Soltar no extremo pranto o extremo alento,
Que eu morrendo a teus pés serei ditosa.
= = = = = =

Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Estro perdido

Quem encontrar algum estro perdido,
me conte por favor, que irei buscá-lo;
pois deve ser o meu, que anda sumido,
feito coisa que foge pelo ralo.

Ele é fácil de ser reconhecido;
só basta vê-lo e ouvi-lo e num estalo,
os trejeitos e a voz desse bandido
vão logo denunciar de quem eu falo:

A sua timidez é inconfundível,
o seu cantar é bem desafinado
e seus poemas têm cadência horrível...

Mas assim mesmo prende o meu amor,
como um milagre a ser inda explicado...
E sem meu estro, eu morro em meio à dor!
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Trova Funerária Cigana

Dorme, dorme, meu bom pai,
descansa onde a estrela brilha,
que ao trono de Deus irão
as preces de tua filha.
= = = = = = 

Spina de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Reencontro

Suspiros ao vento
traduzem a calma
do achado perfeito.

Gaivotas assistem um lindo deleito,
o sol deslizando devagarinho pelos
braços do horizonte, sensível afeito.
No abraço matutino engrandece, as
andorinhas tímidas, saúdam o feito.
= = = = = =

Poema de 
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Angústia
 
Não sei de onde vem tanta tristeza
Que sem motivo aperta o coração.
Será lembrança de lágrimas escondidas
Desta inútil talvez fútil razão.
 
Será o tempo que passou perdido
Esperando um amor que não voltou.
Quem sabe, a procura envelhecida,
Não deu vazão para encontrar alguém.
 
De onde virá então tanta ansiedade,
Se o coração a tempo está em repouso?
Querendo doar somente ao semelhante
Amor fraterno, refletindo paz.
Inquieto agora insurge e quer gritar?
 
Encontrar a resposta certa
Para a alma tão dilacerada.
Será culpada a nuvem que desaba
Suas gotas pesadas de repente...
Até voltar um raio de sol que beija
A solidão que gorjeia
Como pássaro fechado na gaiola.
= = = = = = 

Hino de 
Crato/CE

Flor da terra do sol
Ó berço esplêndido
Dos guerreiros da "Tribo Cariri"
Sou teu filho e ao teu calor
Cresci, amei, sonhei, vivi

Ao sopé da serra, entre canaviais
Quem já te viu, ó não te esquece mais!

Para te exaltar, ó flor do Brasil
Hei de te cantar, meu Crato gentil
Ó coração do Ceará
Comigo a nação te cantará!

No teu céu lindo brilha estrela fúlgida
Que há cem anos norteia o teu porvir
Crato amado, idolatrado
Teu destino hás de seguir

Grande e forte como nosso verde mar
Bendita sejas, ó terra de Alencar!
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Renato Benvindo Frata (Quantos Pedaços?)


Quantos pedaços do meu coração devo juntar para compor ao menos um pouco do seu amor?

Despedaçado, só me resta colher fragmentos aqui e ali, juntá-los na palma, amoldá-los com cuidado a lhes imitar a forma, deixá-los concisos, mas sei que jamais reconstituirei seu todo. 

Há farelos dele aos quais não terei acesso. Muitos, em área de tráfego que por certo, os pisares da tristeza inutilizou...

Quantos pedaços precisarei?

É a pergunta plantada em meus olhares em que tudo parece nada. 

Estão voltados ao além das coisas em que a saudade enxerga sem compreender o porquê da sentida ausência. Ela não tem cor, cheiro ou expressão... é vazia como o vazio do silêncio. 

Sofro por isso.

Ponho-me a auscultar passos que não vêm, sinais que não chegam, avisos que não me alcançam. Sensações falecem distorcidas a cada pôr de sol a despencarem abismos. 

A escuridão não permite que veja. Mas me dá sentido. 

Sentidos... O tempo passa e, com ele, a vida, o que me leva à angústia pela pressa.

Vão-se os sóis coloridos dos outonos, as flores frescas perfumadas das primaveras, os frutos doces, intumescidos dos verões para me deixar nesse extenso e interminável inverno.

Inverno interno, inverno eterno, inverno inferno.

Com a pele enrijecida, cabelos raleados, passos imprecisos, músculos flácidos, olhos pedindo lentes, espero. Numa espera fera, cratera pronta a me enterrar.

Permaneço na mesma posição de quando me debrucei à janela e pedi que não fosse, que voltasse. 

Pedi que viesse para nossos perdões recíprocos e, com eles, a completude do amor. Pedi para compormos a canção da paz. 

Mas não. 

A solidão pede que pergunte: - quantos pedaços?
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Irmãos Grimm (A cotovia)

Era uma vez um homem que ia fazer uma viagem muito grande. Ao despedir-se de suas três filhas, perguntou o que desejavam que lhes trouxesse. A mais velha pediu pérolas; a segunda diamantes; a terceira disse:

- Pai querido, desejo que me tragas uma cotovia que saiba cantar e saltar.

- Se eu a encontrar, será tua! - E, beijando as três filhas, partiu.

Quando  chegou a época de regressar, tinha já comprado os diamantes e as pérolas para as duas filhas mais velhas, mas quanto à cotovia que lhe pedira a mais moça, não havia podido encontrá-la em lugar algum e isso lhe fazia pesar a consciência, pois aquela filha era a sua preferida.

Aconteceu que seu caminho passava por uma floresta, no meio da qual havia um palácio maravilhoso. Perto dele se erguia uma árvore. E eis que no alto dessa árvore o homem descobriu uma cotovia que lá estava cantando e saltitando.

- Vens muito  a propósito! - exclamou alegremente. 

Chamou o criado e mandou que subisse à copa da árvore para apanhar o passarinho. No entanto, ao acercar-se, um leão que estava deitado à sua sombra, saltou, feroz, sacudindo a juba e rugindo de tal maneira que a folhagem das árvores em redor chegou a tremer.

- Devorarei quem tentar roubar minha cotovia.

O homem, então, desculpou-se, dizendo:

- Ignorava que o pássaro fosse teu; repararei minha falta e te pagarei bom preço em dinheiro. Peço, apenas, que me poupes a vida.

Respondeu-lhe o leão:

- Nada poderá salvar-te, exceto a promessa de me entregares o que primeiro venha a teu encontro quando chegares à tua casa. Se te serve esta condição, eu te pouparei a vida e ainda darei o pássaro para tua filha.

Mas o homem negou-se, argumentado:

- Poderia ser minha filha mais moça, que é a que mais estimo. Ela sai sempre ao meu encontro quando volto para casa.

O criado, louco de medo, interferiu:

- Não há de ser, precisamente, sua filha que irá ao seu encontro; talvez seja um gato ou um cachorro.

O   homem acabou se convencendo e, apanhando a cotovia, prometeu dar ao leão quem primeiro lhe viesse ao encontro quando chegasse em casa.

De regresso ao seu país e chegando à sua moradia, quem primeiro saiu a recebê-lo? Precisamente a sua filha querida! Correu, logo, a beijá-lo e, vendo a cotovia, não cabia em si de contente. O pai, no entanto, em vez de alegrar-se, começou a chorar, dizendo:

- Filhinha querida, pagarei bem caro por esta pequena ave, pois devo entregar-te a um leão feroz que irá te estraçalhar e comer. 

Depois contou o que sucedera, pedindo-lhe que não fosse, acontecesse o que acontecesse. A jovem, porém, consolou-o.

- Paizinho querido, deves cumprir tua palavra. Irei e estou certa de que vou conseguir amansar o leão e regressar sã e salva.

Na manhã seguinte, pediu que lhe indicassem o caminho e, depois de despedir-se de todos, entrou, confiante, na floresta. Acontecia, porém, que o leão era  um príncipe encantado, o qual durante o dia  tinha a forma daquele animal, bem como os seus criados, mas à noite todos eles recobravam suas figuras humanas. Quando a moça chegou, foi acolhida amavelmente e conduzida ao palácio, e ao anoitecer, viu à sua frente um belíssimo jovem, com quem se casou em meio de grande pompa. Viviam, assim, muito felizes, acordados durante a noite e dormindo de dia. 

Certa ocasião, quando voltava ao palácio, lhe disse o príncipe:

- Amanhã tua irmã mais velha casa-se e haverá festa no teu lar; se quiseres tomar parte , meus leões te acompanharão.

Ela respondeu que sim, que muito lhe agradaria tornar a ver seu pai, e logo seguiu caminho, escoltada pelos leões. Em sua casa todos a receberam com imensa alegria, pois acreditavam que o leão a houvesse  estraçalhado e, portanto, que ela estava morta há muito tempo. Mas a moça lhes contou que belo marido tinha e como viviam felizes. Ficou com os  seus até o fim da festa e depois retornou ao bosque. 

Quando a segunda filha ia também casar-se, naturalmente a princesa foi convidada e disse ao leão:

- Não quero ir só. Desta vez deves acompanhar-me.

Mas o marido lhe explicou que seria extremamente perigoso. pois logo que o tocasse um raio de luz procedente de um fogo qualquer, ele se transformaria em pomba sendo, então, obrigado a voar durante sete anos como aves.

- Nada temas! - exclamou a moça.- Vem comigo que eu te resguardarei de qualquer raio de luz.

Partiram os dois, levando seu filhinho. A princesa, ao chegar em casa, ordenou logo que construíssem um muro ao redor de uma das salas, tão forte e espesso que nenhum raio de luz fosse capaz de atravessá-lo. seu esposo permaneceria ali enquanto estivessem acesas as luzes da festa. 

Mas aconteceu que a porta, que era de madeira verde, rachou, abrindo-se uma  pequeníssima fresta da qual ninguém se deu conta. A cerimônia foi realizada com grande esplendor e quando a comitiva, de regresso, passava diante da sala com suas tochas e velas acesas, um raio luminoso, fino como um cabelo, atingiu o príncipe. No mesmo instante o jovem transformou-se e sua esposa, ao entrar na sala, não viu senão uma pomba branca, que lhe falou:

- Durante sete anos terei de voar, errante pelo mundo . Entretanto, de quando em quando, deixarei cair uma gota vermelha de sangue e uma pena branca que te mostrarão o caminho. Se seguires essa pista, poderás libertar-me.

A pomba saiu voando pela porta e a princesa a seguiu. A cada sete passos que ela dava, caíam uma gotinha de sangue vermelho e uma peninha branca, indicando-lhe o caminho. A moça continuou a andar pelo vasto mundo, sem olhar para trás nem cansar-se nunca. Assim o tempo foi passando e quando já quase haviam passado os sete anos, a princesa pensou, alegremente, que em breve estariam libertados do encanto. A pobrezinha nem supunha como ainda estava longe de alcançar o seu propósito. 

Certa vez, já pronta para prosseguir sua caminhada, notou, de repente, que as gotinhas de sangue não caíam mais, nem as peninhas brancas. E, quando ergueu os olhos, não viu nem sinal da pomba. A princesa, chegando à conclusão de que os humanos não poderiam ajudar, subiu ao encontro do Sol e lhe disse:

- Tu, que iluminas todas as  frinchas e todos os recantos, não terás visto uma pomba branca?

- Não - respondeu-lhe o Sol - não vi nenhuma, mas faço-te presente de um cofre que deverás abrir quando te achares em grande dificuldades.

A princesa agradeceu ao Sol e seguiu caminhando até cair da noite. Quando saiu a Lua, dirigiu-se a ela, perguntando:

- Tu, que brilhas toda noite e iluminas campos e florestas, não terás visto uma pomba branca?

- Não - retrucou a lua - não vi; mas faço-te presente de um ovo. Quebra-o quando te encontrares em grandes dificuldade.

A jovem agradeceu à lua e continuou sua jornada até que a brisa noturna começou a soprar. Dirigiu-se, também, a ela, indagando:

-  Tu, que sopras sobre todas as árvores e sobre todas as folhas, não viste uma pomba branca?

- Não - respondeu-lhe a brisa- não vi nenhuma, mas perguntarei aos outros três ventos; talvez eles a tenham visto.

Veio o vento leste e o vento oeste, mas nenhum deles tinha visto nada; depois surgiu o vento sul, que disse:

- Vi a pomba branca; voou até o Mar Vermelho e lá voltou a transformar-se em leão, pois os sete anos já passaram . Ali ele está em combate feroz com um dragão, porém é uma princesa encantada.

A brisa noturna, então, falou:

- Vou dar-te o meu conselho. Vai até o Mar Vermelho. Em sua margem direita há umas varas muito grandes. Conta-as e corta a décima-primeira; com ela golpeia o dragão. Em seguida o leão o vencerá e ambos retomarão a forma humana. Logo depois, olha ao redor e verás a ave chamada grifo, que habita as paragens do Mar Vermelho. Tu e teu amado deverão montar nela e o animal os levará de volta para casa, voando por cima do mar. Aqui dou-te uma noz. Quando te encontrares sobre o mar, solta-a e brotará logo e da água surgirá uma nogueira grande, onde a ave poderá descansar. Se não puder fazê-lo, não terá força suficiente para transportá-los até a margem oposta. Caso te esqueças de soltar a noz, o grifo os lançará no mar.

Partiu a jovem princesa e tudo se sucedeu tal como dissera a brisa noturna. contou as varas da beira do mar, cortou a décima-primeira e com ela golpeou o dragão. Em seguida o leão venceu o combate e, no mesmo instante, ambos recuperaram suas respectivas figuras humana. Mas, logo que a outra princesa - a que estivera encantada em forma de dragão - ficou livre do feitiço, tomou o jovem pelo braço, montou com ele no grifo e levantou voo, abandonando a desventurada esposa, que ficou a chorar, amargamente. 

Por fim, criando coragem, pensou:- "Enquanto o vento soprar e o galo cantar, continuarei andando, até encontrá-los."

Percorreu longos, longos caminhos, e chegou finalmente, ao palácio onde os dois moravam . Ali ficou sabendo que iria ser celebrada a festa de seu casamento. 

Disse ela:" Deus me ajudará" e, abrindo o cofre que lhe dera o Sol, viu que havia dentro um vestido brilhante como o próprio astro-rei. Vestiu-o e entrou no palácio, onde todos os presentes, inclusive a própria noiva, ficaram olhando para ela, assombrados. O vestido agradou tanto à noiva que pensou em comprá-lo para seu casamento. Assim, perguntou  à forasteira se não o queria vender.    

- Por dinheiro não, - respondeu ela - mas troco-o por carne e sangue.

A  noiva perguntou o que queria dizer com aquelas palavras e ela lhe respondeu:

- Deixa-me dormir uma noite no mesmo quarto em que dorme o noivo.

De início a princesa negou-se. No entanto, como desejava muito o vestido, acabou concordando. Mas mandou a camareira dar secretamente ao príncipe alguma coisa que o fizesse adormecer. Chegada a noite, quando ele já dormia profundamente, introduziram a jovem no aposento. esta sentou à beira do leito e falou:

- Eu te segui durante sete anos; fui ao Sol, à Lua e aos quatro ventos perguntar por ti e ainda te ajudei contra o dragão. E, agora, vais esquecer-me?

Mas o príncipe, em sono profundo, só percebeu um ligeiro rumor como o do vento passando entre os pinheiros.

Pela manhã, a  jovem foi despedida e entregou o vestido. Ao ver que tudo aquilo de nada servira, dirigiu-se para o campo, onde triste e amargurada, sentou-se a chorar. Nisto se lembrou do ovo que a Lua lhe havia dado. Quebrou-o e apareceram uma galinha e doze pintinhos, todos de ouro, que corriam, ligeiros, piando e voltavam a refugiar-se embaixo das asas da mãe. Era um espetáculo sem igual no mundo. Levantou-se e deixou-os correr pelo campo, até que a noiva os viu de sua janela e, agradando-se dos pintinhos, desceu para  perguntar se ela queria vendê-los.

- Por dinheiro não - respondeu a jovem - Só os darei em troca de carne e sangue. Permite que eu passe outra noite no quarto do noivo?

A princesa consentiu, pensando em enganá-lo como da vez passada. Mas o príncipe, ao ir deitar-se, perguntou a seu camareiro que rumores eram aqueles  que haviam agitado seu sono na outra noite. O criado, então, contou tudo o que aconteceu: que lhe haviam mandado dar-lhe uma bebida para dormir porque uma moça queria passar a noite em seu quarto e que agora estava incumbido de administrar-lhe nova dose. 

Disse-lhe o príncipe:

- Derrama o narcótico ao lado da cama.

E, novamente, sua esposa foi introduzida no aposento. Quando começou a contar sua triste sorte, ele  a reconheceu pela voz e, erguendo-se de um salto, exclamou:

- Agora estou livre de todo o feitiço. Tudo isso foi um como um sonho para mim, pois a princesa estranha me encantou e  obrigou a esquecer-te. Deus, porém, veio libertar-me, em tempo, da perda de minha memória.

E os dois esposos partiram, em segredo, do palácio, auxiliados pela escuridão da noite, pois temiam o pai da princesa, que era bruxo. Montaram no grifo, que os levou através do Mar Vermelho e , quando chegaram na metade, a princesa soltou a noz. Em seguida surgiu das águas uma nogueira muito grande onde a  ave pôde descansar, levando-os depois à sua casa. Lá encontraram seu filhinho, já crescido e lindo, e viveram felizes até o fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.
Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
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