sábado, 20 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 10 *


 A vida é um túnel estreito
que à eternidade conduz.
- Só o amor nos dá o direito
ao desembarque na Luz.
A. A. DE ASSIS
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Bilhete é sempre um recado
para ser dado escondido
a um alguém apaixonado
por outro alguém proibido!
ADEMAR MACEDO
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As rosas do amor, colhi-as,
rosas de vários matizes...
Tenho hoje nas mãos vazias
saudades e cicatrizes.
ANDERSON BRAGA HORTA
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Mata a revolta em teu peito,
não a deixes florescer:
rio com pedras no leito
não pode alegre correr!...
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA
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Do passado, ouço a cantiga
que recorda, ternamente,
que há sempre uma rua antiga
nos velhos sonhos da gente...
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
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Tropeiro da mocidade
galopando a solidão,
foste conquista, e és saudade
que deixa rastro em meu chão...
APARECIDO ELIAS PESCADOR
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Ternura - ponte afetiva
construída de calor,
que serve, quando se avisa,
de passagem para o amor.
APRYGIO NOGUEIRA
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Em tudo existe um encanto:
é regra da natureza.
Alguns tentam, e no entanto,
não enxergam a beleza.
ARTHUR THOMAZ
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Num simples verso se prova
este mistério profundo:
- Na pequenez de uma trova
cabe a grandeza do mundo
BATISTA SOARES
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Singra os mares desta vida
nosso amor, forte veleiro,
bate a procela atrevida
e chega ao porto altaneiro!
BELARMINO FRANCO
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Bem feliz seria o mundo
se pudesse a humanidade
ter um lugar bem fecundo
onde plantasse a bondade.
BENEDITO MOREIRA DE CARVALHO
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A lua beija a favela...
A estrela no céu reluz...
- Meu bem, apaga essa vela,
o amor não quer tanta luz!…
CAROLINA RAMOS
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Encontrei na minha trova
a vontade de escrever.
A paixão por coisa nova
faz a gente renascer.
CECIM CALIXTO
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A noite na minha rua
tem encantos sensuais...
sussurros chegam à lua...
na rua ficam os ais...
CECY FERNANDES DE ASSIS
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Foi depois de tantas fugas
que acabei por entender
que sem pranto, dor e rugas,
ninguém aprende a viver...
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO
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O orvalho que cai agora
nos sobejos da queimada,
traduz o pranto que chora
a Natureza arrasada!...
CLARINDO BATISTA
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Todo livro ,quando aberto,
é pólen, é flor, é fruto...
fechado: é sombra, é deserto,
é silêncio, é campa, é luto.
CYRO ARMANDO CATTA PRETA
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Por um futuro de Paz
flores nós vamos plantando,
neste momento fugaz,
por onde vamos passando!
CYROBA BRAGA RITZMANN
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Com cautela... Sem conflito,
aprendo a lição do mar:
- foi contemplando o infinito
que eu aprendi a sonhar.
DJALDA WINTER SANTOS
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O poeta externa pouco
de sua imaginação,
o resto é um soluço louco
no fundo do coração.
DIOMEDES SANTOS
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Do que agitou nossas almas
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados.
DOROTHY JANSSON MORETTI
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Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
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Cada vez que tento, em fuga,
mascarar o meu desgosto,
descubro mais uma ruga
a desmascarar meu rosto...
EDGARD BARCELLOS CERQUEIRA
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Anoitece e cintilando
qual lantejoulas num véu,
essas estrelas brilhando
são rastros de Deus no céu!
EDNA GALLO
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O poeta é só um sonho
da poesia mais seleta,
e a poesia, assim suponho,
é o ensaio do poeta.
EDNA VALENTE FERRACINI
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A página amarelada
de um álbum, quase esquecido,
tem a lembrança velada...
De tanto tempo perdido.
ELISA ALDERANI
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Velha ponte do caminho
nossa história é parecida:
- Suportamos de mansinho
tantas pisadas na vida!!!
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
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Ama a vida, simplesmente,
sem disfarce em seu caminho...
Quem ama a vida não sente
a dor de viver sozinho!
EVA GARCIA
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Um fantasma se assanhou
em bater papos, tadinho...
nas mil vezes que tentou,
ficou falando sozinho!
FERNANDO VASCONCELOS
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A distância é que nos mata
pois logo vem a saudade;
saudade – presença ingrata
da antiga felicidade.
FILEMON F. MARTINS
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Se do barro somos feitos,
e ao barro retornaremos,
porque tantos preconceitos,
se iguais todos nós morremos?…
JOSÉ FELDMAN
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– Musas divinas!... Ao vê-las,
no sonho que me seduz,
subo ao ninho das estrelas,
seguindo os rastros da luz!
JOSÉ LUCAS DE BARROS
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Eu sou pequeno, seu moço,
mas, quando tiro o chapéu,
minha alma estica o pescoço,
enxerga Deus lá no céu!
JOSÉ MESSIAS
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Sertão seco... Longo estio...
Em meio a paisagem triste
uma ponte... Mas o rio
infelizmente inexiste!
JOSÉ TAVARES DE LIMA
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Cai a tarde e a passarada
em gorjeios musicais
é orquestra desafinada
na algazarra dos pardais.
LICÍNIO ANTÔNIO DE ANDRADE
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Tenho por certo, em verdade,
bem vivo, embora pungente
que a mais pungente saudade...
é aquela de alguém presente!
MAURÍCIO FRIEDRICH
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Se um pai se entrega à bebida,
ao filho desencaminha.
O mau exemplo é na vida
pior do que erva daninha.
MILTON SOUZA
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Sorrateira, foi chegando 
a danada da saudade;
meu coração machucando,
sem dó e sem piedade!
NEMÉSIO PRATA
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Indo por outros caminhos,
neste mundo, às vezes, rude,
vou fugindo dos espinhos,
pois das mulheres não pude!
NILTON MANOEL TEIXEIRA
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Subo o caule das ideias,
rumo à copa de Deus Pai;
operário, sem colmeias,
sou a abelha que se esvai.
OLIVALDO JUNIOR
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Nos extremos desta vida,
um contraste se percebe:
– A terra chora a partida
daquele que o céu recebe!
OSVALDO REIS
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Meu coração suburbano
tu conheces muito bem!
Tem muito do amor humano
que preenche o teu também!
PAULO ROBERTO O. CARUSO
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Ainda guardo lembranças
de coisas não permitidas:
pedacinhos de esperanças,
restinhos de nossas vidas.
PROFESSOR GARCIA
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No caminho sem atalhos
que leva ao teu coração,
feri meus pés nos cascalhos
que espalhaste pelo chão.
RENATO ALVES
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Nas serestas da lembrança
onde o orvalho enfeita a tela,
a minha ilusão te alcança,
mas a razão diz: - Cautela!!!
RITA MOURÃO
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É a rua da minha infância!
Revejo a casa... ouço o trem...
E cismo, em sonho e à distância,
que ela envelheceu... também!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Na vida, eu prefiro o jogo,
não de azar, de sedução...
e, em vez de cartas, o fogo
que incendeia uma paixão.
VANDA ALVES DA SILVA
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Aquele que sempre joga
o lixo em qualquer lugar
é o desleixado que roga:
“ –Venha, dengue,  me atacar!”.
WAGNER MARQUES LOPES
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Que bom seria um enlace
entre a mente e o coração:
o que a gente desejasse
também quisesse a razão!
WANDA DE PAULA  MOURTHÉ
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A. A. de Assis (A era do ócio)


Está em pauta nas conversas a redução da jornada de trabalho. Como ocorre em toda inovação, tem gente contra e gente a favor, porém na verdade se trata apenas de um começo de adaptação natural às realidades do mundo novo.

Mecanização > automatização > informática > robótica > inteligência artificial... Somos uma geração atropelada por sucessivas revoluções tecnológicas, todas elas impulsionadas pela lei do menor esforço (“vis minima”).      

São conquistas que, de fato, concorrem para tornar mais fácil a vida; todavia, em razão delas, a mão de obra humana vai sendo aos poucos dispensada. Numerosas profissões já foram extintas e outras tantas perderão logo a razão de existir, disso resultando que a oferta de vagas no mercado de trabalho vai também rapidamente diminuindo.

Num futuro próximo, a maior parte dos empregos será para profissionais maximamente especializados, capacitados para pilotar robôs e outros engenhos sofisticados. Esses superespecialistas produzirão barato e em abundância tudo o que for preciso e os demais cidadãos e cidadãs terão acesso garantido por lei a tudo o que for necessário para o seu sustento e bem-estar.

Estará assim iniciada a Era do Ócio, profetizada há mais de dois mil anos pelos sábios da Antiguidade – entendendo-se ócio não como preguiça, mas como tempo livre para atividades prazerosas e serviços assistenciais voluntários.

E as escolas... ensinarão o quê? Decerto o mesmo que hoje, porém apenas para ajudar as pessoas a tirarem melhor proveito das novas maravilhas. Ensinarão principalmente esportes e artes. Alunos e alunas serão treinados para a prática de exercícios físicos, a fim de manter o corpo sadio, e para o cultivo de atividades artísticas e culturais que façam bem à cabeça.

Programadores e operadores de robôs viverão felizes, porque o de que eles mais gostam é mesmo de mexer com as suas ferramentas inteligentes. Os demais bilhões de seres humanos viverão também felizes, porque desfrutarão de um alto padrão de vida. Quem viver verá. 
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 21-5-2026)
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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Texto obtido no facebook do autor

Murilo Rubião (O Convidado)


O convite que acabara de receber muito contrariava o seu gosto pelos detalhes. Além de não mencionar a data e o local da festa, omitia o nome das pessoas que a promoviam. Silenciava quanto ao traje das senhoras, apesar de exigir para os cavalheiros fardão e bicorne ou casaca irlandesa sem condecorações. A falta de outros esclarecimentos, julgou tratar-se de alguma festividade religiosa ou de insípida comemoração acadêmica.

José Alferes tornou a examinar o envelope, preocupado com a possibilidade de um equívoco ou de simples brincadeira de desocupados. — Mas a quem interessaria divertir-se à custa de um estranho em uma metrópole de cinco milhões de habitantes? — A ideia era evidentemente absurda, tendo-se em conta que o seu círculo de relações não excedia o corpo de funcionários do hotel, onde se encontrava hospedado havia quatro meses.

Pensou em jogar fora a carta, só não o fazendo ao lembrar-se de Débora, a estenógrafa, pensionista de um dos apartamentos no mesmo andar do seu. Poderia ser ela, sem dúvida, poderia. O talhe feminino da caligrafia autorizava essa suposição. Despreocupou-se das omissões do convite — coisa de mulher — para concentrar-se apenas nas formas sensuais da sua vizinha: ancas sólidas, seios duros, as pernas perfeitas.

Fizera diversas tentativas de abordá-la e fora repelido. Com um meio sorriso, uma frase reticente, olhava-o furtivamente e, sem virar-se para trás, sabia que Alferes ficara parado, o sangue fervendo, a acompanhar-lhe os passos por toda a extensão do corredor.

A janela do seu quarto dava para uma casa que alugava roupas destinadas a qualquer tipo de solenidade, bailes ou recepções. Mesmo com estoque variado, a sua freguesia era reduzida. Naquela manhã, entretanto, apresentava um movimento considerável de pessoas entrando e saindo, na maioria carregando embrulhos. Durante algum tempo, José Alferes observou sem grande interesse o que se passava no outro lado da rua. De súbito bateu a mão na testa, apressando-se em trocar o pijama pelo primeiro terno que encontrou no guarda-roupa. E, no embalo de repentina euforia, ensaiou um passo de dança abraçado a uma dama invisível que mais tarde poderia adquirir a solidez do corpo de Débora, porque já se convencera: a festa estava bem próxima. Se não, como explicar o procedimento de tanta gente alugando indumentárias especiais nessa época do ano, quando o calendário não indicava nenhuma festividade tradicional?

Ao entrar na loja, encontrou-a vazia. O único empregado da firma, um senhor idoso, atendeu-o. A agitação de Alferes não lhe permitiu ir direto ao assunto. Perguntou ao velho se tinha notícia de recepção ou algo parecido para aquela noite.

A resposta pouco o esclareceu: acreditava que sim, porém nada de positivo soubera pela boca dos fregueses atendidos na parte da manhã. Aconselhava-o a procurar Faetonte, o motorista de táxi do posto da esquina que era, no setor hoteleiro, o condutor habitual dos que procuravam divertimentos noturnos na cidade.

José Alferes percebeu que o seu interlocutor ocultava alguma coisa. Contudo preferiu não insistir. Tirou do bolso o convite e indagou se poderia conseguir um dos trajes nele sugeridos.

O homem relanceou os olhos pelos armários, reexaminou o papel, enrolou-o entre os dedos, limpou os óculos e, sem pressa, dirigiu-se aos fundos da loja, para reaparecer sobraçando umas vestes negras e um chapéu de plumas:

— Não é exatamente o exigido, mas servem.

Havia tal segurança na voz e nos modos do caixeiro que Alferes, mesmo vendo não ser bicórneo o chapéu, evitou contradizê-lo. A um sinal do outro, acompanhou-o a um cubículo revestido de espelhos.

Um pouco constrangido e desajeitado, ia experimentando as peças do vestuário, quase todas em seda preta: um gibão, calções, meias longas, sapatilhas e, para adornar o pescoço, rufos brancos engomados. Por último o espadim.

A carteira de dinheiro aberta, deteve-se um instante na contagem das notas que cobririam o pagamento do aluguel, procurando localizar algo perdido na memória.

— Não está satisfeito? — perguntou o velho, incomodado com o silêncio do cliente.

— Estou. Apenas tentava recompor a imagem de um rei antigo, com esta mesma roupa, numa gravura também antiga. Talvez um rei espanhol ou o retrato de um desconhecido.

De volta ao hotel, meteu-se novamente no pijama. Pediu o almoço no quarto e, fora de seus hábitos, recomendou um vinho estrangeiro, prelibando o encontro da noite. A custo refreou a vontade de telefonar para a estenógrafa. — Se a carta não vinha assinada — raciocinava — é que era desejo dela permanecer incógnita. Dada a natureza vacilante de Débora, um gesto precipitado seu poderia levá-la a negar qualquer participação na remessa do convite.

Conteve a impaciência, apesar do lento fluir do tempo. Aproveitou-o mais tarde para aprontar-se com amoroso cuidado, desde o banho, a água morna perfumada por essências, o ajeitar dos rufos, o esticar das meias compridas, eliminando as menores rugas. Os calções justos traziam-lhe certo desconforto e a figura refletida no espelho desagradava-lhe pelo aspecto sombrio. Sorriu ao pôr o chapéu: as plumas suavizavam um pouco a austeridade do vestuário. Entre um e outro pensamento, tentava relembrar onde vira alguém vestido do mesmo modo. Um rei espanhol ou um desconhecido?

Pairava no elevador um perfume vagamente familiar. Gostaria que pertencesse à sua vizinha e perguntou ao cabineiro se ela acabara de descer.

— A senhorita Débora viajou de férias ontem à tarde.

— Viajou? — A surpresa quase o desmontou da naturalidade que imprimira à pergunta. Sentia ruir os planos de um dia inteiramente construído para uma noite singular. O primeiro impulso foi de retornar ao apartamento e livrar-se daquele traje incômodo. Os gastos feitos, a dificuldade de substituir por outro o programa idealizado e principalmente o medo de cair no ridículo, se descobrissem ter sido convidado a participar de uma festa por uma mulher que viajara na véspera, fizeram-no prosseguir.

— Ah, sabia sim, tinha-me esquecido — desculpou-se. E deu ao ascensorista uma gorjeta maior que a de costume, como se ela o redimisse da decepção sofrida.

Não saberia explicar por que entre vários táxis no estacionamento escolhera exatamente o de Faetonte. Seria pelo uniforme incomum que envergava — uma túnica azul com alamares dourados e a calça vermelha? — Isso pouco importava. Já se acomodara no banco traseiro do carro.

— Calculo que o nosso destino é o bairro de Stericon, na parte nobre da cidade.

— Não estou certo — respondeu Alferes —, apenas sei que devo ir a uma recepção, para a qual exigem uma roupa igual a esta.

— Então é lá mesmo — retrucou o chofer, pondo o veículo em movimento.

Rodaram durante meia hora, passando por residências ricas, de arquitetura requintada ou de mau gosto. Detiveram-se ao deparar um sobrado mal iluminado e meio escondido por muros altos.

— Tem certeza que é neste lugar, Faetonte? — A ausência de outros automóveis em frente à casa e sua minguada iluminação justificavam seu ceticismo.

— Absoluta. Olha ali, é o porteiro se dirigindo ao nosso encontro.

De fato, na direção deles vinha um homem de terno azul e boina verde. Fez uma reverência exagerada, girando em seguida a maçaneta do carro:

— Tenha a bondade de descer, cavalheiro.

Alferes apreciou a deferência:

— Esta roupa atende às determinações do protocolo?

— Desculpe-me, minha função não vai a tanto. Fui encarregado somente de receber o convidado.

— Ótimo, assim as coisas tornam-se mais simples. Sou a pessoa que o senhor aguarda. — E mostrou-lhe o convite.

O porteiro pediu-lhe que esperasse: iria comunicar sua chegada ao comitê de recepção. Minutos depois retornava acompanhado de três senhores discretamente trajados. Moveram de leve as cabeças num cumprimento inexpressivo. Examinaram Alferes, do rosto ao vestuário, demonstrando visível insegurança pela dificuldade em reconhecer nele a pessoa esperada. Silenciosos, retrocederam alguns passos, para mais adiante fecharem-se em círculo, as mãos apoiadas nos ombros uns dos outros. Confabulavam.

Voltaram descontraídos e coube ao mais velho interpretar o pensamento dos três:

— Concordamos que o seu traje obedece às normas preestabelecidas e a autenticidade do convite é incontestável. Aliás, foi o único expedido através dos correios. Os demais convivas foram avisados pelo telefone. Apesar da evidência, o instinto nos diz que o nosso homenageado ainda está por chegar. Não podemos, todavia, impedir a entrada do senhor, mesmo sabendo de antemão os transtornos que a sua presença acarretará, pois muitos o confundirão com o verdadeiro convidado. À medida que isso aconteça, nos apressaremos em esclarecer o equívoco.

Entraram juntos por um corredor estreito e escuro. De repente, ao abrir-se uma porta larga, deram com um salão fartamente iluminado e repleto de pessoas conversando, rindo, enquanto os garçons serviam bebidas. Alferes foi empurrado de um lado para outro. Todas as vezes que alguém se encontrava frente a frente com ele, pedia-lhe desculpas, cumprimentava-o efusivamente. Os membros da Comissão intervinham, desfazendo o engano. Prosseguiram assim por outras salas, também cheias, repetindo-se os equívocos e os desmentidos.

A notícia da presença de um falso convidado na festa circulara rápido, o que permitiu a Alferes atravessar sem ser importunado os últimos salões e chegar aos fundos da casa. Uma leve brisa refrescou seu rosto alagado pelo suor. Vinha do parque, onde numerosas pessoas em trajes de passeio se reuniam em bandos dispersos entre árvores e bancos dos jardins. Estes se projetavam pela propriedade adentro, separados uns dos outros, a espaços regulares, por sebes de fícus cortadas em estreitas passagens.

Embora soubessem da delicada situação de José Alferes, ninguém o tratava a distância ou com hostilidade. Pelo contrário, procuravam cercá-lo de atenções, insistindo que se juntasse às alegres rodas, formadas de senhoras e cavalheiros excessivamente corteses. Mas logo ele se retraía e se afastava ante a impossibilidade de acompanhar os diálogos, que giravam em torno de um único e cansativo tema: a criação e corridas de cavalos.

Não ficava muito tempo sozinho. Dele se aproximavam outros participantes da reunião, dispostos a tudo fazer para interessá-lo em potrancas, baias, selins, charretes, puros-sangues. Ouvia-os enfadado, desde que nunca fora a hipódromos, fazendas e jamais montara sequer um burro. Tentava desviar a conversa, falando do homem esperado, aquele que daria sentido à recepção. Respondiam com evasivas: não o conheciam, ignoravam o seu aspecto físico, os motivos da homenagem. Sabiam, entretanto, que sem ele a festa não seria iniciada.

Sentado num banco de pedra, José Alferes sente aumentar sua irritação pelas lisonjas, as apresentações cerimoniosas, os gestos delicados. Rejeitava firme, às vezes duro, novas solicitações para aderir aos grupos de criaturas cativantes e vazias.

Acabara de repelir a investida de uns poucos inconformados com o seu isolamento, quando viu caminhar na sua direção uma bela mulher. Alta, vestida de veludo escuro, o rosto muito claro, o cabelo entre o negro e o castanho, parecia nascer da noite.

Vinha sorrindo, o copo de uísque na mão. Os seus olhos brilhavam como se umedecidos pela neblina que começava a cair.

— Vamos, tome. Nem tudo é ruim nesta festa — disse, estendendo-lhe o copo.

A voz agradável, os dentes perfeitos realçavam sua beleza, a crescer à medida que se aproximava:

— O seu nome todos sabem, o meu é Astérope.

Rendeu-se à espontaneidade dela, receando uma só pergunta, e esta veio:

— Costuma ir ao hipódromo?

Lamentou sua dificuldade em mentir ou contornar situações embaraçosas:

— Francamente, este é um assunto que me dá o maior tédio.

Encabulada, ela procurou disfarçar o desapontamento, indagando se ele gostaria de conhecer os jardins da casa. Sem esperar resposta, deu-lhe o braço:

— São lindos.

A Alferes escapavam as boas maneiras, daí a necessidade de penitenciar-se constantemente das frases bruscas, onde a intenção de ferir inexistia:

— Desculpe-me, não quis ofendê-la. Aqui se reúnem unicamente aficionados de cavalos?

— Simples coincidência, nada programamos nesse sentido.

O terreno era perigoso. Mudou rápido o curso da conversa:

— Você conhece o convidado?

Astérope olhou-o fixamente, como se pretendesse descobrir nele algo que ainda não decifrara:

— Vagamente, de referências. Vou conhecê-lo melhor hoje, na cama, pois dormiremos juntos.

— Um absurdo, você nem sabe quem é ele!

— Fui escolhida pela Comissão.

— Considero isso uma estupidez. E se for um homem doente, feio ou aleijado?

— Vale a pena correr o risco.

Além do desagrado de saber que mais tarde ela estaria deitada com outro, algo de inquietante emanava de Astérope. Da excessiva beleza ou do brilho dos olhos?

Foram varando jardins. Intranquilo, metido em dúvidas, Alferes ouvia desatento a companheira.

Por vezes, olhando em torno, achava o parque demasiado extenso. Calava a desconfiança, preocupado em descobrir se teria visto uma jovem senhora parecida com ela num quadro, folhinha ou  livro. 

Estacou. Aqueles jardins intermináveis, a sua incapacidade de falar a linguagem dos convivas, um convidado cuja ausência retardava a realização da festa. A beleza de Astérope. Agarrou-a pelos ombros, obrigando-a a encará-lo. Seria o brilho dos olhos?

Teve medo.

Retrocedeu apressadamente, fazendo o mesmo percurso de horas atrás, atropelando pessoas, empurrando-as. Todos desejavam segurá-lo, porém ele se desvencilhava dos obsequiosos cavalheiros e damas amáveis.

No final do corredor, o porteiro quis retê-lo e foi afastado com uma cotovelada.

Sentiu-se aliviado ao deixar para trás a atmosfera opressiva da recepção. Dentro de meia hora estaria no seu apartamento a contar os dias restantes das férias de Débora, mulher saudável, farta de carnes.

Quase nada enxergava porque neblinava forte. Cauteloso no pisar, dirigiu-se a um automóvel estacionado nas imediações, por sorte o de Faetonte.

Entrou rápido nele:

— Depressa, ao hotel.

— Lamento, pediram-me que aguardasse o convidado. Depois dele levarei os membros da Comissão, cabendo ao senhor a última viagem, entendido?

— Seu hipócrita! Você e essa corja de simuladores sabem que o convidado não virá nunca!

O chofer ignorou o desabafo do passageiro, retrucando delicadamente:

— Tenha paciência, estamos próximos ao acontecimento.

Alferes desceu do carro resmungando, disposto a enfrentar a cerração. Pelos seus cálculos, bastaria caminhar um quilômetro para chegar à parte mais habitada do bairro, onde encontraria condução fácil. Mal andara cem metros, as dificuldades começaram a surgir. Tropeçou no meio-fio, indo chocar-se contra um muro. Seguiu encostado a este durante curto espaço de tempo e logo as mãos feriram-se numa cerca de arame farpado. Afastando-se dela, teve a impressão de que se embrenhara num matagal. Daí por diante, perdeu-se. Ia da direita para a esquerda, avançava, retrocedia, arranhando-se nos arbustos.

Perdera o chapéu de plumas, a roupa rasgara-se em vários lugares, romperam-se as sapatilhas no calçamento irregular dos diversos sítios pelos quais passara.

Os pés sangravam. Aflito, buscando na escuridão luz de casa ou de rua que o orientasse, desequilibrou-se e rolou por um declive. Ao levantar-se, avistou bem próximo, frouxamente iluminado, o edifício que há pouco deixara.

O porteiro recebeu-o com a cordialidade cansativa dos que naquela noite tudo fizeram para integrá-lo num mundo desprovido de sentido. Alheio aos cumprimentos e mesuras, encaminhou-se direto a Faetonte, a quem procurou comover, mostrando-lhe o estado da roupa, o sangue coagulado nas feridas. Lacrimoso e subserviente, adulava o motorista, a ressaltar nele qualidades, virtudes inexistentes:

— Sei da sua bondade e o favor é pequeno, basta deixar-me no ponto do ônibus. Você volta rápido, a tempo de atender a seus compromissos.

Vendo que suas palavras não alcançavam o objetivo, partiu para o suborno. Ofereceu-lhe elevada soma em dinheiro. Faetonte recusou: permaneceria no local, aguardando as determinações da Comissão.

Corriam as horas, a neblina caindo, José Alferes renovava a espaços o oferecimento de gratificar generosamente o motorista pela corrida. A cada recusa, ele ia à porta de entrada, espiava para dentro do corredor, na ilusão de que aparecessem outras pessoas também cansadas de esperar inutilmente o início da festa e o guiassem até o centro da cidade.

Curvado, no seu desconsolo, já aceitava a ideia de retornar ao parque, quando lhe tocaram no braço. Assustou-se: era Astérope. Ela fingiu não perceber o temor estampado no rosto dele e arrastou-o consigo:

— Sei o caminho.

Saberia? — Dos olhos de Alferes emergiu avassaladora dúvida. Mas deixou-se levar.
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MURILO EUGÊNIO RUBIÃO é amplamente reconhecido pela crítica como o pioneiro do realismo fantástico na literatura brasileira. O autor inaugurou uma vertente que insere elementos mágicos e absurdos em contextos cotidianos reais, desafiando a lógica tradicional com narrativas curtas e de forte teor existencial. Nasceu em 1916, em Carmo de Minas (antiga Silvestre Ferraz)/MG e faleceu em 1991, em Belo Horizonte/MG, aos 75 anos. Rubião conciliou a dedicação à escrita com uma sólida carreira no serviço público e na comunicação. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1942. Atuou como redator e cronista no jornal Folha de Minas por uma década. Foi chefe de gabinete de Juscelino Kubitschek e diretor da rádio Inconfidência. Trabalhou na Espanha como adido cultural do Brasil na cidade de Madri. Fundou o renomado Suplemento Literário do Minas Gerais, um importante polo de revelação de novos talentos artísticos.
O autor está inserido na Terceira Geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 45). Sua trajetória literária se destaca pelo extremo rigor técnico e por uma produção intencionalmente concisa: Lançou seu primeiro livro de contos, O ex-mágico, em 1947. Embora tenha escrito cerca de 50 contos ao longo de meio século, ele reescrevia os textos exaustivamente. Em suas edições definitivas de livros, selecionou e publicou rigorosamente apenas 33 contos. Suas histórias trazem burocratas entediados, monstros integrados à rotina das cidades e maldições inexplicáveis. Ele utilizava epígrafes bíblicas para construir alegorias sobre a culpa, a opressão social e o isolamento humano.
Quando estreou na década de 1940, sua obra foi recebida com estranheza tanto pelo público quanto pelos críticos tradicionais, que priorizavam o regionalismo ou o realismo social da época. O verdadeiro estouro crítico e comercial de Rubião ocorreu nos anos 1970, impulsionado pelas reedições de seus livros (como O Pirotécnico Zacarias) pela Editora Ática. Estudos literários destacam que Rubião concebeu seus cenários fantásticos antes mesmo do grande "boom" latino-americano de autores como Gabriel García Márquez e Júlio Cortázar. O mundo literário o associa frequentemente a Franz Kafka, embora a crítica ressalte que o texto de Rubião possui um lirismo poético único, atenuando o peso do absurdo. Hoje, sua obra é leitura obrigatória em vestibulares e objeto de estudo acadêmico internacional.

Fontes:
RUBIÃO, Murilo. O convidado. Publicado originalmente em 1974.
Biografia = Brasil Escola, site Murilo Rubião, Mundo Educação, Cultura MG, FFLCH USP, FECILCAM, etc.

Fernando Sabino (Cem cruzeiros a mais)


Ao receber certa quantia num guichê do Ministério, verificou que o funcionário lhe havia dado cem cruzeiros e mais. Quis voltar para devolver, mas outras pessoas protestaram: entrasse na fila.

Esperou pacientemente a vez, para que o funcionário lhe fechasse na cara a janelinha de vidro:

– Tenham paciência, mas está na hora do meu café.

Agora era uma questão de teimosia. Voltou à tarde, para encontrar fila maior – não conseguiu sequer aproximar-se do guichê antes de encerrar-se o expediente.

No dia seguinte era o primeiro da fila:

– Olha aqui: o senhor ontem me deu cem cruzeiros a mais.

– Eu?

Só então reparou que o funcionário era outro.

– Seu colega, então. Um de bigodinho.

– O Mafra.

– Se o nome dele é Mafra, não sei dizer.

– Só pode ter sido o Mafra. Aqui só trabalhamos eu e o Mafra. Não fui eu. Logo…

Ele coçou a cabeça, aborrecido:

– Está bem, foi o Mafra. E daí?

O funcionário lhe explicou com toda urbanidade que não podia responder pela distração do Mafra:

– Isto aqui é uma pagadoria, meu chapa. Não posso receber, só posso pagar. Receber, só na recebedoria. O próximo!

O próximo da fila, já impaciente, empurrou-o com o cotovelo. Amar o próximo como a ti mesmo! Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Num súbito impulso de indignação – agora iria até o fim – dirigiu-se à recebedoria.

– O Mafra? Não trabalha aqui, meu amigo, nem nunca trabalhou.

– Eu sei. Ele é da pagadoria. Mas foi quem me deu os cem cruzeiros a mais.

Informaram-lhe que não podiam receber: tratava-se de uma devolução, não era isso mesmo? E não de pagamento. Tinha trazido a guia? Pois então? Onde já se viu pagamento sem guia? Receber mil cruzeiros a troco de quê?

– Mil não: cem. A troco de devolução.

– Troco de devolução. Entenda-se.

– Pois devolvo e acabou-se.

– Só com o chefe. O próximo!

O chefe da seção já tinha saído: só no dia seguinte. No dia seguinte, depois de fazê-lo esperar mais de meia hora, o chefe informou-se que deveria redigir um ofício historiando o fato e devolvendo o dinheiro.

– Já que o senhor faz tanta questão de devolver.

– Questão absoluta.

– Louvo o seu escrúpulo.

– Mas o nosso amigo ali do guichê disse que era só entregar ao senhor – suspirou ele.

– Quem disse isso?

– Um homem de óculos naquela seção do lado de lá. Recebedoria, parece.

– O Araújo. Ele disse isso, é? Pois olhe: volte lá e diga-lhe para deixar de ser besta. Pode dizer que fui eu que falei. O Araújo sempre se metendo a entendido!

– Mas e o ofício? Não tenho nada com essa briga, vamos fazer logo o ofício.

– Impossível: tem de dar entrada no protocolo.

Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou ao Araújo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, o honesto cidadão dirigiu-se ao guichê onde recebera o dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros uma bolinha, atirou-a lá dentro por cima do vidro e foi-se embora.
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. A companheira de viagem. Publicado originalmente em 1965.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.