segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Aventuras de Pedro Malasartes * 1 *

 
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MALASARTES ROUBA AS JOIAS DE UMA FAMÍLIA

E foi dar no castelo de um ricaço que era casado e tinha uma filha, e ofereceu-se para empregado. E foi aceito.

Como era tempo de chuva, o chiqueiro estava que era mesmo um lameiro. E Malasartes teve logo uma ideia. De noite tocou para longe a porcada do ricaço e, voltando, espetou no lameiro as caudas dos porcos. E, quando de manhã o dono da casa veio ver a porcada, Malasartes lhe apontou o lameiro e disse-lhe que os porcos estavam atolados, apenas com os rabos de fora.

O dono da casa mandou-o logo que fosse em casa buscar duas enxadas a ver se podiam desenterrar os animais.

Pedro Malasartes foi numa corrida e, lá chegando, viu a dona e a filha passeando no jardim e lhes disse:

-O patrão mandou que as senhoras me acompanhem. Elas duvidaram, mas Malasartes gritou, perguntando ao patrão que estava lá embaixo:

-As duas, patrão?

-Sim, as duas, e sem demora! As duas, pateta!

E, então, as senhoras não puseram mais diferença e acompanharam Pedro que tomou com elas outra direção. Já longe o velhaco amarrou-as numa árvore, tirou-lhes todas as jóias que eram de grande preço, fugiu e foi tocar a porcada que tinha ocultado no dito retiro.

E, quando o ricaço, cansado de esperar, foi a casa e não encontrou a mulher e a filha, bateu a procurá-las até que as achou amarradas onde Malasartes as havia deixado.

Quando voltou é que viu que dos porcos só havia os rabinhos, que ele é que era um pateta de marca.

A muitas léguas dali, o Malasartes negociou a porcada, recebeu o cobre, comprou um bom terno de roupa e foi parar em certa cidade, onde, logo na entrada, havia uma bonita chácara que era do dr. Juiz de Direito.
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DE COMO MALASARTES FAZ MAIS UMA QUE PARECIA DUAS 

Eram já por umas dez da noite. O Malasartes bateu à porta e pediu pousada, dando o nome de doutor Fulano, que vinha visitar aquela terra. O Juiz costumava entrar tarde, pois ficava até à meia-noite fora de casa, jogando marimbo com um seu compadre. E vai então o filho do Juiz na sua simplicidade, mandou entrar o hóspede e, depois de um bom chá, deu-lhe pousada, no quarto da sala, onde o Juiz costumava se vestir. E quando o Juiz chegou, o filho lhe contou o que se tinha passado e o tolo ficou muito satisfeito daquela hospedagem.

E vai então lá pela madrugada o Malasartes começou a sentir umas coisas na barriga...Procurou o vaso e, não o encontrando, abriu a janela... mas lá fora havia uma cachorrada, que foi um barulho de latidos que nunca se viu.

O Malasartes estava suando frio: Mas nisto avistou na prateleira uma caixa. Abriu, havia dentro uma cartola de pelo. Estava salvo! Tirou a cartola, fez nela o que quis, pôs outra vez na caixa e esta no lugar onde antes estava.

De manhã, quando ouviu tropel dos criados saiu e... este mundo é meu!...

Quando vieram chamar o Malasartes para o café, não o acharam mais.

À hora do almoço, o Juiz saiu do quarto e foi para o cômodo em que se costumava vestir.

Era dia de júri. Vestiu a sobrecasaca, e, distraído, tirou a cartola que enterrou, de um golpe, na cabeça.

Para que tal fizeste! Ficou com a cara enlameada e sentiu um cheiro que quase o afogou. Começou então a gritar. A família veio toda, pensando que tinha acontecido alguma desgraça. Ao vê-lo naquele estado, correram todos a buscar socorro. O filho trouxe-lhe um banho, a filha água florida, a mulher sabonete de cheiro.

E depois houve risada que não foi brinquedo, enquanto o Juiz bufava de raiva. E os jurados já estavam cansados de esperar por ele...

Mas o Malasartes já estava longe. Até parecia que tinha parte com Beizebum.
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Pedro Malasartes 
PEDRO MALASARTES é um dos personagens mais ricos e duradouros do folclore nacional, representando a figura clássica do malandro camponês, astuto e bem-humorado, que usa a inteligência e o logro para sobreviver, dar lições em avarentos e se vingar da opressão dos poderosos. Apesar de ser uma figura central do imaginário caipira e sertanejo brasileiro, Malasartes não nasceu no Brasil. Ele tem origem medieval na Península Ibérica (Portugal e Espanha). O nome "Malasartes" deriva diretamente da expressão em espanhol malas artes (artes más), que no contexto medieval significava "travessuras", "artimanhas" ou "trapaças".
A menção literária mais antiga ao personagem data dos séculos XIII e XIV, aparecendo na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana sob a alcunha de "Payo de Maas Artes". O personagem chegou ao Brasil na bagagem cultural dos colonizadores portugueses através dos contos populares transmitidos pela tradição oral. Ao cruzar o oceano, o personagem se adaptou perfeitamente à realidade da colônia e, posteriormente, do Brasil imperial e republicano. O "burlão" ibérico transformou-se no matuto, caipira e sertanejo sem posses. No cenário agrícola brasileiro, marcado por profundas desigualdades estruturais entre grandes coronéis (donos de terras) e trabalhadores humildes, as histórias de Malasartes ganharam um forte contorno de justiça social. Ele virou o herói dos desfavorecidos que vencia a força dos ricos usando apenas a astúcia.
A transição de Pedro Malasartes da tradição oral para a cultura letrada e de massa foi impulsionada por grandes nomes da literatura e das artes no Brasil: Luís da Câmara Cascudo: O maior folclorista brasileiro catalogou e analisou o personagem em obras fundamentais como o Dicionário do Folclore Brasileiro e Contos Tradicionais do Brasil, definindo-o como o exemplo do "burlão invencível". Monteiro Lobato: Em suas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o personagem é citado e suas artimanhas (como a famosa história da "Sopa de Pedra") são recontadas para o público infantil; 
O escritor modernista Mário de Andrade escreveu o libreto da ópera cômica "Pedro Malazarte" (composta por Camargo Guarnieri e estreada em 1952), elevando o personagem à música erudita nacional; 
Pedro Bandeira: Um dos maiores autores de literatura infantojuvenil do Brasil adaptou as peripécias do personagem em formato de cordel e rimas, como no livro Malasartes: Histórias de Malasartes em Versos de Cordel; 
Mazzaropi: No cinema, o comediante imortalizou o herói no clássico filme "As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), consolidando sua imagem visual como o típico caipira brasileiro.
Em 2017, o diretor Paulo Morelli lançou o longa-metragem de fantasia comercializado como "Malasartes e o Duelo com a Morte"
A figura do trickster (o trapaceiro esperto que subverte as regras sociais) é um arquétipo universal, existindo em quase todas as culturas com roupagens locais:
América Hispânica = Pedro Urdemales: É exatamente o mesmo personagem de origem ibérica (usando a variação Urdemales, que significa "tecedor de males/artimanhas").  Famosíssimo no Chile, na Argentina, no Peru e na Guatemala.
Alemanha e Flandres = Till Eulenspiegel: Personagem do folclore medieval germânico. Um camponês que viaja pregando peças e expondo a hipocrisia, a ganância e a burrice da elite e do clero de sua época. 
Oriente Médio e Turquia = Nasreddin Hodja: Um sábio e filósofo popular de tom cômico e satírico. Ele usa histórias engraçadas, paradoxos e aparente "tolice" para dar lições morais na corte, em juízes corrompidos e nos orgulhosos. 
África Ocidental e Caribe = Anansi: A famosa aranha astuta da mitologia Ashanti. Como não tem força física diante de animais grandes (como o leopardo ou a cobra), Anansi usa puramente a lábia e a inteligência para enganá-los e conseguir o que quer. 

Fontes:
Aumanack, Wikipedia, Bloguirapuru Brainly, Museu Mazzaropi, Malasartes.com.br, etc.

Júlia Cortines Laxe (Poesias Escolhidas)

 

COLOMBINA

Mascarada mulher o rabecão trouxera.
Morrera em pleno baile a frágil Colombina
E, no egrégio salão de culto à Medicina,


O professor leciona, em voz veemente e austera:
-"Rapazes, contemplai! É rameira e menina.
Tombou ébria novicio e com certeza era
Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,
Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.”.

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,
Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,
Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,
O mestre cambaleia e chora junto dela...
Encontrara na morta a sua própria filha.
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INTERROGAÇÃO

Contemplo a noite: a cúpula estrelada
do firmamento sobre mim palpita;
meu olhar, que a interroga, embalde fita
o olhar dos astros, que não veem nada:

“Nessa amplitude lôbrega e infinita
que inteligência ou força inominada
numa elipse traçou a vossa estrada,
estrelas de ouro, que o mistério habita?

Dizei-me se, transpondo a imensidade,
alguma cousa a vós minha alma prende,
um vínculo de amor ou de verdade.

Dizei-me, o fim da nossa vida agora:
para que serve a luz que em vós resplende,
e a oculta mágoa que em meu seio mora?...”
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O LAGO

Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde o sonho astros de ouro semeia!
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ÚLTIMA PÁGINA

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forre e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno, a solidão,
Esse grito, que a dor duma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?!
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FRACOS

Fracos, odeio a inércia e detesto a fraqueza.
Prefiro a mão que esmaga ou que vibra o punhal
À doce e inconsciente e nefasta moleza,
Que é para a alma do forte um veneno mortal.

Como de encontro à costa, em ondas remansadas
Chora o mar, ou se atira em bravos vagalhões,
Assim de encontro a vós, almas adormentadas,
Fremem de ódio e de amor os nossos corações.

Almas fracas, fugindo à aspereza das lides,
Sem um esforço para às correntes opor,
Pelo rio do tempo arrebatadas ides,
Desta ou daquela vaga a boiar ao sabor.

Que vos importa a vós a agonia da luta,
A ânsia de possuir, o infinito aspirar?
Que vos importa a vós a decepção que enluta,
Se não sabeis querer, nem sabeis adorar?!
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Júlia Cortines Laxe (1868-1948)
Júlia Cortines Laxe nasceu em Rio Bonito, RJ, em 1868, e faleceu no Rio de Janeiro (então Capital Federal), em 1948. Apesar de sua longevidade (viveu quase oitenta anos), pouco se sabe de sua vida, supondo-se que haja sido professora
Não reconhecida devido ao preconceito de então, visto que o crítico literário, José Veríssimo, após a publicação de seu segundo livro, em 1905, tenha declarado que "Os poemas de Júlia Cortines distanciam-se magnificamente da poesia de água-de-cheiro e de pó-de-arroz da musa feminina brasileira, e revelam em Júlia, mais que uma mulher que sabe sentir, alguém que sente com alma e coração e de forma que disputa primazias com nossos melhores poetas contemporâneos.”
Sua poesia é carregada e vibrante, como se pode ver no poema “Fracos”.
Poeta parnasiana, como Francisca Júlia, Júlia Laxe também colaborou em revistas como A semana e A Mensageira, da paulista Presciliana Duarte de Almeida, lançada em 19 de outubro de 1897, que se tornou um dos principais espaços da mulher escritora do final de século XIX/início de XX e onde também escreveram a citada Narcisa Amália, Anália Franco, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia (link para minha postagem), Auta de Souza (confira a postagem), nomes igualmente de peso na época. (Informação in Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922)) de Ana Luiza Martins – Fapesp – Edusp – pág. 374-375)
Obras: Versos (1894) e Vibrações (1905), a respeito do qual, José Veríssimo fez os elogios.
“Júlia Cortines” – diz Péricles Eugênio da Silva Ramos (Pan.III, pág.246) – “é uma das poetisas selecionadas por Valentim Magalhães para figurarem na parte antológica de A Literatura Brasileira (1870 -1895). Sua poesia afigura-se realmente parnasiana, de um comedimento e boleio de frases semelhantes ao de Francisca Júlia.” É ela, segundo afirma o poeta e ensaísta Darcy Damasceno (in A Lit. no Brasil, III. T.1, pág.376). quem “abre o desfile dos epígonos parnasianos”.
Sentimento, emoção, cuidado da forma, beleza expressional e correção ética caracterizam-lhe os poemas, levando José Veríssimo a compará-la a celebre poetisa italiana Ada Negri (Apud E. Werneck, Ant. Brasileira pág. 507. (Rio Bonito, Estado do Rio, 12 de Dezembro de 1868 – Desencarnou em 19 de março de 1948.)

Fontes:
Frâncisco Cândido Xavier. Antologia dos Imortais.
Biografia = Literatura em Vida 2 (blog), Antonio Miranda, Global Editora.

Rubem Braga (As Teixeiras e o Futebol)

Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol.

Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.

Uma das Teixeiras era mais cordial, chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos meninos inteligentes, filhos de gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” – gritávamos com absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para frente para não ouvir novas observações.

Um dia ela nos propôs jogar mais para baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá não podemos porque tem a Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração do nosso time.

“Então por que vocês não jogam mais para cima? – propôs ela com certa astúcia, e falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem: “Ah, não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás sincero, de ordem técnica, e portanto irrespondível.

“Eu vou falar com papai! Quando ele chegar vocês vão ver” – gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas. Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou, ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí, é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” – mas o velho ouviu calado e entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato. Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem direito, e superior, e continuamos a nossa partida.

As queixas que algumas Teixeiras faziam em nossa casa eram bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão – “esses meninos estão mesmo impossíveis” -, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana ou sicrana (duas das irmãs) eram muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”.

Mamãe era a favor de nosso time; mamãe, no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) – eles sempre foram a favor do nosso time!

E nosso caso com as Teixeiras foi se agravando.
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Rubem Braga (1913 – 1990) 
RUBEM BRAGA é considerado o maior cronista da literatura brasileira, tendo elevado a crônica jornalística ao status de alta literatura. Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 1913 e faleceu aos 76 anos, no Rio de Janeiro, em 1990, decorrência de um câncer na laringe. Embora tenha nascido no Espírito Santo, Rubem Braga foi um cidadão do mundo. Morou em Belo Horizonte e São Paulo no início da carreira. Viveu em Porto Alegre nos anos 1930 e passou uma temporada na Itália (como correspondente de guerra). Fixou residência definitiva no Rio de Janeiro, onde ficou famosa a sua cobertura em Ipanema, repleta de árvores frutíferas e passarinhos, que refletiam seu amor pela natureza. Também morou temporariamente em Santiago (Chile), Paris (França) e Rabat (Marrocos) devido a funções diplomáticas. A trajetória profissional de Rubem Braga esteve indissociavelmente ligada ao jornalismo. Formou-se em Direito em 1932, mas nunca exerceu a profissão. Trabalhou nos maiores jornais e revistas do país, incluindo Diários Associados, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Manchete. Em 1944, cobriu a Segunda Guerra Mundial na Itália como correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira (FEB). Mais tarde, exerceu cargos diplomáticos, atuando como Embaixador do Brasil em Marrocos no início da década de 1960. Em 1967, fundou a prestigiada Editora Sabiá ao lado do amigo Fernando Sabino.
Nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar de seu imenso prestígio, ele era um homem de hábitos simples e avesso a formalismos ou rituais institucionais, preferindo manter-se focado no cotidiano das redações e na vida boêmia e intelectual carioca. Diferente de seus contemporâneos, que transitavam entre romances e poesias, Rubem Braga dedicou-se quase exclusivamente à crônica. Ele estreou em livro em 1936 e, ao longo de mais de 50 anos de carreira, escreveu milhares de textos jornalísticos que depois eram reunidos em volumes independentes. Recebeu diversas honrarias ao longo da vida, com destaque para o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Crônica e Novela" no ano de 1961, pelo livro Ai de ti, Copacabana. Também recebeu o prêmio de Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato) em 1968.
Principais livros publicados: O Conde e o Passarinho (1936) – Seu livro de estreia; Morro do Isolamento (1944); Ai de ti, Copacabana (1960) – Uma de suas coletâneas mais célebres e líricas; A Traição das Elegantes (1962); O Recado do Morro (1971); O Menino e o Tuim (1986).
A importância de Rubem Braga para a literatura é monumental: ele foi o responsável por consolidar a crônica como um gênero literário genuinamente brasileiro. Antes dele, o texto de jornal era visto como algo menor, efêmero e puramente informativo. Provou que era possível fazer alta literatura a partir das coisas mais simples do dia a dia. Com um estilo marcado pela extrema simplicidade, melancolia, lirismo e uma aguçada sensibilidade poética, ele transformava o voo de um passarinho, um encontro de esquina, a chuva que caía no Rio de Janeiro ou as memórias da infância em reflexões profundas sobre a condição humana. Apelidado de "O Sabiá da Crônica", Rubem Braga abriu caminhos para que gerações de escritores brasileiros fizessem do cotidiano a sua matéria-prima literária mais nobre.

Fonte:
Rubem Braga. A traição das elegantes. Publicado originalmente em 1967.

Conto Tradicional do Algarve/Portugal (As Três Nuvens)

Era uma vez um lavrador muito rico e tinha três filhos: dois, os mais velhos, eram muito estimados pelos seus pais e andavam ricamente vestidos; o mais novo era desprezado. 

 Tinha o lavrador uma rica propriedade, onde aparecia um medo. 

 Caseiro que lá se deixava dormir numa noite era encontrado morto no dia seguinte. Vendo o pai que a propriedade estava muito estragada, porque os vizinhos metiam nela os seus gados, resolveu mandar o filho mais novo guardá-la. Aceitou o mancebo a incumbência, pois era muito bom e obediente, mas pediu ao pai que mandasse no dia seguinte buscar o seu cadáver para não permanecer por muito tempo insepulto. 

 Despediu-se do pai e dos irmãos e foi para o seu desterro, levando consigo uma cítara, seu instrumento favorito. 

 O prédio onde o caseiro costumava dormir ficava no centro da propriedade. O rapaz chegou ali e tirou do prédio uma cama que colocou sobre um parque, de bonita vista, através do prédio. Logo que escureceu foi deitar-se, entretendo-se muito tempo a tocar o seu instrumento. Alta noite adormeceu. Tinha pegado no sono, sentiu-se afogado sob um grande peso; sentou-se na cama, pegou na cítara e disse em voz alta: 

 – Que peso é o que sinto? Olhem que parto a cabeça seja a quem  for. 

 E pôs-se a fazer um grande sarilho com a cítara, como se fora um alfanje. 

 Então ouviu o mancebo uma voz: 

 – Não me mates, dizia a voz, porque te faço bem. Eu sou a nuvem negra, e, quando tiveres necessidade de alguma coisa, chama por mim. 

 No dia seguinte ergueu-se ele da cama e dirigiu-se para casa, onde era esperado por quatro homens com uma tumba para o levar ao cemitério. 

 – Podem retirar-se: ainda não foi desta, disse o mancebo. 

 Na noite seguinte repetiu-se a mesma cena com a diferença da resposta: 

 – Não me mates: eu sou a nuvem parda e, quando queiras alguma coisa, chama por mim. 

 Na terceira noite, e depois da mesma cena das noites antecedentes, ouviu: 

 – Não me mates: sou a nuvem branca. Sempre que te seja preciso, chama por mim. Eu e as minhas irmãs estávamos aqui encantadas, foste tu que nos desencantaste com os maviosos sons do teu instrumento. 

 E a nuvem branca desapareceu como tinham desaparecido as outras. 

 Conservou-se o mancebo por algum tempo na propriedade, sendo raríssimas vezes visitado pelo pai e isso no mero intuito de examinar como o filho a administrava. 

 Um dia teve saudades da família e foi visitá-la. Logo que entrou na casa paterna viu muitos alfaiates ocupados em talhar e fazer riquíssimos fatos de homem; soube então que o rei mandara anunciar que casaria com a princesa o cavalheiro que se saísse vitorioso de três torneios a seguir. 

 Entretida a família nos arranjos dos dois irmãos, que aspiravam à mão da princesa, nenhum caso fizeram do irmão mais novo. Este demorou-se pouco tempo em casa dos seus e retirou-se para a propriedade. 

 Nessa noite pensou que ele poderia entrar nos torneios, e quando foram marcados os dias para as lutas já tinha formada a tenção de lá se apresentar. 

 Na manhã do dia do primeiro torneio disse o mancebo: – Valha-me a nuvem preta. 

 Apareceu logo uma nuvem e dela saiu uma jovem. – O que me queres? perguntou. 

 – Entrar no torneio e sair vencedor. 

 A jovem ergueu uma pequena vara, proferiu algumas palavras, e apareceu um cavalo negro, trazendo pequena mala, onde vinham riquíssimas vestes e armas de cavaleiro da mesma cor do cavalo. 

 O mancebo vestiu-se, empunhou as armas, montou no cavalo e entrou no torneio, saindo vencedor. Logo que saiu da cidade desapareceram o cavalo, as vestes e as armas. 

 No dia seguinte disse: 

 – Valha-me a nuvem parda. 

 Apareceu outra nuvem, de onde saiu uma Jovem que perguntou ao mancebo o que queria. 

 – Entrar no torneio e sair vencedor. 

 E sucedeu como no dia antecedente. Quando ele entrou na praça percebeu que a princesa o atendia com especial agrado. Ainda outra vez saiu vencedor, retirando-se logo para fora da cidade e desaparecendo o cavalo, as vestes e as armas. 

 No terceiro dia invocou a nuvem branca e entrou no torneio montado em cavalo branco e com armas brancas bordadas a ouro. Ficou vencedor, e então viu-se cercado das pessoas da corte que o convidaram a ir à presença do rei. O mancebo foi. 

 Na presença do rei e da princesa, tirou a viseira. E o rei e a princesa agradaram-se do jovem e logo foi ali resolvido o seu casamento. 

 Os dois irmãos do mancebo conservavam-se a certa distância e, quando viram que estava resolvido o casamento com o seu irmão, tiveram grande desespero. Um deles lançou-se da janela à rua, morrendo despedaçado, o outro atravessou-se no próprio alfanje. 

 Houve grandes festas no palácio e em todo o reino por ocasião daquele casamento. 

Fonte:
Xavier Ataíde de Oliveira. Contos tradicionais do Algarve. edição Vega. Disponível no Estudio Raposa. http://www.truca.pt/raposa_textos/historia_84_tres_nuvens.html

Poemas Temáticos: Bilhete


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ALIOSHA CIGANA
Bilhete

O amor passou por aqui
Voando feito anjo estabanado
Mal deu tempo de dizer
Tenho pressa, preciso ir
Deixo-lhe um bilhete
Sem endereço, remetente ou adereço
Possivelmente de alguém
acenando que é por ti apaixonado
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BEKI BASSAN
Bilhete

Deixo este bilhete para você,
porque percebi que você não me ama,
e como não sei se vou conseguir dizer,
o que penso sobre esta mentira que me tortura,
prefiro então nunca mais olhar no seu rosto.
Penso que você poderia ter sido honesto,
no amor não se manda e eu entenderia,
mas ao lhe ver aos beijos com outra,
você partiu meu coração.
Só te peço uma coisa não me procure mais.
ADEUS.
= = = = = = = = = = = = = =  

CIBELE CARVALHO
Bilhete

Escrevi-lhe um bilhete
- que coisa mais antiquada,
nestes tempos de internet -
devo estar ultrapassada...
Dizia do bem que me faz
sua presença em minha cama,
e nada se compara à paz
que sinto quando a gente se ama.
= = = = = = = = = = = = = =  

CLARA DA COSTA
Bilhete

Escrevi um bilhete quando a saudade doeu
no vazio daquelas noites solitárias,
na saudade que invadia me corpo
O bilhete que escrevi,
falava do meu amor,
desse inesquecível,
e insubstituível amor.

O bilhete que escrevi, resposta não teve...

Morro aos poucos,
sentindo teu cheiro
impregnado dentro de mim...
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DILMA SUERO
Bilhete

Encontrei, na cama amassado,
um curto bilhete, de papel rabiscado.
Peguei-o ansiosa... coração acelerado,
o que diria tal bilhete, seria do meu namorado?
Cheguei junto à janela com mais claridade,
um vento uivante arrancou-me das mãos
e levou-o embora para a eternidade.
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GILSON FAUSTINO MAIA
Fuga

Sumir, foi o meu desejo,
algo que concretizei.
Aproveitei um ensejo
e nem bilhete eu deixei.
Mas hoje eu vivo tristonho,
parece ser tudo um sonho,
que ainda não acordei.
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GIOVÂNIA CORREIA
Bilhete

Nessa vereda aqui estou.
Perdida, e em aflição.
Pois nada mais restou.
Dessa insana e doce ilusão.
Já nem sei se devo caminhar.
Pois perdi também meus anseios.
Finalizo sozinha a chorar.
Pois perdi todos os meios.
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HUMBERTO POETA
Bilhete

Meu coração se agitou
ao ler teu lindo bilhete,
mas inda não sei se vou
te amar em teu palacete;
só em pensar fico rendido
a um medo covarde e afoito
de ali surgir teu marido
me apontando um trinta e oito!
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ILZE SOARES
Bilhete

As palavras dançavam à minha frente,
não conseguia entender o real significado!
Era um curto bilhete do namorado...
Não deu explicações,
nem adoçou o seu ato...
Dizia apenas Adeus, vou embora.
O papel ficou encharcado
das lágrimas fartas de emoções!
= = = = = = = = = = = = = =  

LORA SALIBA
Bilhete

Nesse bilhete transmito
Todo meu sentimento!
Digo-lhe, não minto
Não há nenhum impedimento,
Podemos conversar agora,
Aguardo, pode vir, por hora
Com sinceridade lhe transmito
Todo o amor que sinto!
= = = = = = = = = = = = = =  

LUIZ GONZAGA BEZERRA
Bilhete

O bilhete expressava
Meus sentimentos e amores
Meu desejo imensurável
De tê-la nas loucas noites
Deitadinha ao meu lado
Amando-me e sendo amada.
= = = = = = = = = = = = = =  

MARCIAL SALAVERRY
Um bilhete de amor

Minha amada querida,
amor de minha vida...
Peço-te não desapareça,
veja, por ti, perdi a cabeça...
Dominastes meus pensamentos,
tortura-me ficar só com meus lamentos...
E assim, enquanto tua ausência me desespera,
ouço-te quando simplesmente, diz...espera...
= = = = = = = = = = = = = =  

MARCOS TOLEDO
Bilhete

Tentei escrever-lhe um bilhete de chegada,
mas, como sempre, virou uma carta de amor.
Escrever bilhete para você é difícil,
meu coração se intromete e desanda a falar.
Fala do amor que sinto por você.
De um simples bilhete, vira uma carta
recheada com amor/carinho/paixão.
Culpa do coração escritor que tenho.
= = = = = = = = = = = = = =  

MARIA CONCEIÇÃO DE PAULA
Bilhete

Há bem mais de meio século,
não havia, na zona rural,
caneta bonita e moderna.

Mas havia poesia no coração
de um aluno apaixonado.
Assim que aprendeu o beabá
fez essa trova para quem admirava:

A tinta tirei dos olhos,
a pena do coração,
pra escrever esta cartinha
pra quem amo de paixão!
= = = = = = = = = = = = = =  

MARIA ZÉLIA GOMES
O bilhete que escrevi

Eu já te escrevi um dia
Um bilhete de amor
Ia nele nostalgia
Pedacinhos de magia
E restos de algum fulgor
Eram palavras sentidas
Ditadas pelo coração
Relatos … frases perdidas
Novas tristes … doloridas
Misto de dor e paixão
E o bilhete que escrevi
Que não leste e que eu li
Carregado de ansiedade
Ficou amarelecido
Era um relato sentido
Só restou dele … saudade!
= = = = = = = = = = = = = =  

MIFORI
Bilhete

No bilhete dizia, estou aqui no cerrado,
vivendo numa terra que garante,
muitas e muitas contradições.
O dia amanhece radiante,
e há alegria no azul do céu!
À tarde a brisa lenta
vem amenizar o calor sufocante...
E as noites?!... Cada um, a sua inventa!
= = = = = = = = = = = = = =  

NICOLA ARAÚJO
Bilhete

Um bilhete timbrado
Recebi perfumado
Dobrado em quatro
No meio um laço

Marcado por lágrimas
Derribadas da alma
Que clama por um amor
Sem travas
= = = = = = = = = = = = = =  

SANDRA GALANTE
Bilhete

Escrevo-te aqui algumas palavras
Para que em ti fiquem bem gravadas
Desde o dia que te conheci,
Nada mais belo e fascinante vivi
Conheci o que é o verdadeiro amor...
Digo-te, que viver sem ti é conviver com a dor
Portanto, não me deixe nunca por favor
Prometo-te para sempre te dar o meu melhor...
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(Enviados por Ilze Soares, em 05.12.2011)

Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz concedido a Fernanda Trías*

artigo de  Washington Daniel Gorosito Perez**
(tradução do espanhol por José Feldman)

Fernanda Trías (Montevidéu, 1976), escritora de origem uruguaia, tradutora e professora, recebeu pela segunda vez (em 2021 ganhou pelo romance "Mugre rosa") o Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz por seu livro "El monte de las furias". Este prêmio tem como objetivo reconhecer escritoras do mundo hispânico por romances publicados em espanhol e é dotado de dez mil dólares e um diploma.

A obra vencedora foi destacada pelo júri porque "está enraizada na tradição narrativa latino-americana, reconfigurando-a por meio de um ponto de vista feminino excepcional, cheio de descobertas e nuances."

Eles também confirmaram, segundo a ata do júri, que "A Montanha das Fúrias" é construída com personagens cativantes; A história retrata a invisibilização do trabalho, o prazer da solidão e o impulso do desejo.

A Diretora-Geral da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), Marisol Schulz Manaut, destacou na cerimônia que o Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz tem sido concedido a várias escritoras desde 2001, após serem batizadas pela escritora nicaraguense Milagros Palma.

“Este Prêmio é um dos mais solicitados pela FIL, e graças à Universidade do Claustro de Sor Juana conseguimos alcançá-lo, e de quem sou sempre grata pela cumplicidade. Continuemos a recompensar a criação das mulheres e sua voz, rica e reconhecida, onde seu olhar evoca atmosferas e matizes, declarou ela.”

A obra de Fernanda é lúcida, poética e profundamente humana, por isso impacta o mundo contemporâneo, colocando a literatura uruguaia no centro da conversa, disse o Diretor-Geral da FIL de Guadalajara.

Por sua vez, o escritor mexicano Julián Herbert, membro do júri qualificado, reconheceu que o romance premiado contém esboços da natureza, do trabalho e do misticismo oculto: "Me interesso por seu humor, sua sensibilidade e conexão com o tátil, que tem um lugar muito interessante; com um erotismo feminino vindo da feiura masculina, aprofundando a experiência de um erotismo vivo", disse ela.

Embora a vencedora tenha dito estar grata pelas virtudes que o júri encontrou em "O Monte das Fúrias" e por escolher o romance entre outras obras incríveis. “Responsabilidade, exigência, expectativa são algumas das palavras que ficam comigo depois de receber esse presente. Como escritora, sempre tentei fracassar melhor e de maneiras diferentes.”

“Acho que esse estado de risco é um bom lugar para uma escritora como eu. Penso na garota que eu era e na jovem medrosa que começou a ler, porque nas páginas dos livros encontrei mais almas com ideias semelhantes.”

“Com um livro nas mãos, você nunca está sozinha e, mesmo assim, dediquei várias páginas a mulheres solteiras, que correm o risco de falar em seu próprio nome, porque nomear a si mesmas não é um capricho, mas uma forma de nomear nossa existência, comentou a premiada escritora uruguaia.”

Fernanda Trías também destacou como a re-significação das palavras e sua apropriação têm sido uma luta das mulheres na literatura, desde Sor Juana Inés de la Cruz. Padroeira do prêmio concedido a cada uma das escritoras e poetas do século XXI.

Quando nós, escritoras, apropriamos esses espaços, geramos desconforto e gerá-lo me reafirma que estou no caminho certo, com um facão, mas onde o facão é a palavra.

“O destino da carta foi um destino proibido para nós, e eu tive que reverter esse destino, e é por isso que minha literatura está cheia de mulheres que escrevem, acrescentou a romancista.”

“Literatura não é o mercado de ações, nem a gestão de uma empresa, nem tudo é intercambiável ou pronto para ser feito em formato televisivo. Palavras fazem muitas coisas se debaterem, então temos que cuidar delas”, enfatizou Trías.

O reconhecimento da obra de Fernanda Trías, pela segunda vez com o Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz, reafirma a vitalidade de sua obra e a validade das vozes femininas na literatura contemporânea e, especificamente, na literatura uruguaia.
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*Fernanda Trías (1976)
Fernanda Trías é uma escritora, tradutora e professora uruguaia, consagrada como uma das vozes mais potentes, afiadas e influentes da literatura latino-americana contemporânea. Nasceu em Montevidéu/ Uruguai, no ano de 1976. Construiu uma forte identidade como migrante. Em 2004, mudou-se para a França após ganhar uma bolsa da Unesco. Morou por cinco anos na comuna medieval de Provins. Também residiu em Londres/Reino Unido, Berlim/Alemanha), Buenos Aires/Argentina, Nova York/ EUA e Valparaíso/Chile. Há mais de uma década vive em Bogotá/Colômbia. Possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Nova York (NYU). Atua como professora de criação literária e leciona no programa de mestrado em Escrita Criativa da Universidade Nacional da Colômbia.
Ao contrário de autores clássicos atrelados a academias de letras tradicionais e rígidas, a filiação institucional de Trías dá-se por meio do circuito acadêmico universitário internacional e de prestigiadas redes de residência artística e fundações globais, como a Casa de Velázquez (Espanha), Civitella Ranieri (Itália) e Yaddo (EUA). Sua trajetória na literatura foi fortemente marcada pelo período em que foi discípula e aluna do célebre escritor uruguaio Mario Levrero, cuja influência transparece em seu rigor estilístico e na construção de atmosferas introspectivas e psicológicas. Trías estreou nos anos 2000 e expandiu suas fronteiras ao ser traduzida para mais de 20 idiomas.
Livros Publicados: La azotea (2001) – Romance claustrofóbico de estreia que aborda o confinamento e o colapso familiar; Cuaderno para un solo ojo = Novela curta do início de sua carreira; La ciudad invencible (2013) – Narrativa focada no desenraizamento urbano; No soñarás flores (2016) – Aclamada coletânea de contos; Gosma Rosa (2020) – Distopia ecológica e seu livro de maior projeção global; El monte de las furias (2025) – Romance que investiga a violência latente, a memória e a natureza imponente. Miembro fantasma (2026) – Romance recente que examina os labirintos do inconsciente. 
Fernanda Trías alcançou um feito histórico ao se tornar a única autora a vencer o prestigiado Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz por duas vezes (concedido pela FIL de Guadalajara à literatura escrita por mulheres em espanhol). Outros prêmios incluem: Prêmio Nacional de Literatura do Uruguai (2020); Prêmio Bartolomé Hidalgo (Uruguai, 2021); PEN Translates Award (Reino Unido, 2020 e 2022); Finalista (Longlisted) no National Book Award nos EUA (2024), na categoria de Literatura Traduzida.
A relevância de Fernanda Trías reside na sua capacidade única de fundir o íntimo e o universal. Sua escrita destaca-se pelo retrato cru do isolamento, dos laços afetivos sob pressão e de crises ecológicas de um ponto de vista profundamente humanizado. Com Gosma Rosa, ela adquiriu uma aura premonitória ao descrever, pouco antes da eclosão real da COVID-19, uma cidade sitiada por uma peste. Além disso, Trías renovou o fôlego da literatura distópica e do "novo gótico latino-americano", consolidando a força das mulheres escritoras da região e servindo como mentora para uma nova geração de autores por meio de suas oficinas e cátedras universitárias. 
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** Washington Daniel Gorosito Pérez (1961)

O escritor, sociólogo e jornalista WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ é uma voz de grande relevância na literatura hispano-americana contemporânea. Nascido no Uruguai e naturalizado mexicano, sua produção artística e intelectual conecta com maestria a sensibilidade poética às reflexões críticas sobre a política internacional, a educação e os problemas sociais. Nasceu em 1961, na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Viveu sua juventude no Uruguai. Desde 1991, mudou-se para o México, fixando residência na cidade de Irapuato, no estado de Guanajuato. Tornou-se oficialmente cidadão mexicano naturalizado em 1999. Iniciou sua trajetória acadêmica no Uruguai, graduando-se em Jornalismo aplicado aos Meios de Comunicação Social. No México, consolidou uma sólida carreira acadêmica nas Ciências Humanas: licenciou-se e obteve o título de Mestre em Sociologia da Educação, tornando-se também doutorando em Pedagogia. Atua há décadas como catedrático universitário, pesquisador e conferencista. É um jornalista ativo de opinião, sendo o autor da célebre coluna internacional “Encuentro con Gorosito”, publicada em diversos veículos de comunicação das Américas e da Europa. 
Sua inserção no mundo das letras é marcada por uma produção híbrida, dividida entre o rigor dos ensaios acadêmicos e o lirismo da poesia existencial e urbana. Possui forte vínculo com instituições intelectuais no território mexicano, participando ativamente de saraus, congressos e núcleos de escritores associados à Academia Nacional e Internacional de Poesía (como os núcleos de San Luis Potosí e da Cidade do México), além de ser colaborador frequente de coletivos de vanguarda e revistas culturais independentes. Ao longo de sua estrada literária, acumulou um expressivo reconhecimento em certames de prosa e poesia pela América Latina. Ele recebeu 2 prêmios provinciais, 5 prêmios nacionais e 14 prêmios internacionais de literatura. Suas produções também foram selecionadas para integrar mais de 16 antologias internacionais de poesia e contos.
Entre livros individuais, ensaios de sociologia e participações em antologias poéticas de prestígio, destacam-se: Una biblioteca sin libros (2022); Relatos de tradiciones (2022); Tras las huellas de Ana Neumann (2023); Trazos poéticos 3 (2023) – Obra comemorativa do Dia Mundial da Arte; Sombras del Aire, antología 2023 – Coletânea poética de grande repercussão em Guanajuato; Urbana – Livro comemorativo celebrando sua produção de crônicas e versos.
A relevância de Gorosito Pérez reside em sua condição de escritor de fronteiras e de fusão cultural. Como um legítimo representante da literatura da diáspora e do exílio voluntário, ele transporta a melancolia rioplatense (típica do Uruguai) para a vibrante e mística realidade do interior mexicano. Sua bagagem como sociólogo confere à sua poesia uma profundidade ímpar, na qual o lirismo nunca se desliga das dores do homem comum, da passagem do tempo e das desigualdades sociais. Além disso, seu papel como educador e colunista internacional constrói pontes fundamentais de integração cultural dentro do continente americano, mantendo a palavra escrita como uma ferramenta viva de resistência e conscientização política.

Fontes:
Revista Sumar Literomania nr. 392 (Romenia: 13.01.2026)
Biografia de Trías = Editora Moinhos, Diplomacia Business, Cuadernos Hispanoamericanos, Wikipedia, Escritores.org, Short Story Project, Bonas Historias, etc.