
Na época medieval, a poesia destinava-se a ser cantada e não recitada, nomeadamente pelos trovadores e jograis que utilizavam instrumentos musicais como a viola e o alaúde a acompanhar o seu canto. Neste período, a canção era eminentemente lírica, mas também se registram composições de raiz épica, como as canções de gesta, poemas de origem francesa onde se celebravam os feitos de personagens lendárias ou históricas (como o Rei Artur). Este tipo de canções tornou-se popular e chegou por via oral até ao século XV, de que é exemplo a “Canção de Rolando”.
A canção italiana ou clássica aparece na Renascença e é cultivada em Portugal do século XVI até ao século XVIII. Esta forma poética obedecia a certas regras formais: era composta por texto e finda, ou então, introdução, texto e finda. A introdução continha um caráter de ordem geográfico no qual se descrevia ou indicava o lugar onde se encontrava o poeta. Por seu lado, a finda, que era mais curta que as restantes estrofes do texto, era o espaço onde o poeta fazia a invocação, dedicava a alguém o poema ou comentava-o. Em nível da estrutura formal, a canção consta de cinco ou mais estrofes regulares (com o mesmo número de versos) e como metro obrigatório utiliza o heróico clássico, o qual alternava com o respectivo quebrado (seis sílabas). Como expoente máximo português da canção clássica, assinalamos Camões e textos como “Manda-me Amor que cante docemente” e “Junto de um seco fero e estéril monte”. A temática da canção clássica portuguesa inclui ainda o sofrimento de amor, a fugacidade da vida, a mudança, o tempo que passa irremediavelmente e outros temas afins.
Nunca se separando verdadeiramente da sua musicalidade, entre os séculos XVI e XVII, reúnem-se grandes colações de canções, que integram composições para alaúde, madrigais, canções com vihuela, o que permitiu o desenvolvimento de um gênero que se tornava cada vez mais erudito. No campo musical, a Alemanha e a Áustria desempenharam papel de relevo neste gênero, que aí toma o nome de Lied, a partir do século XVIII, sobretudo com Mozart, Beethoven e Schubert, tendo este último contribuído para a expressão romântica da canção como forma privilegiada para a tradução de sentimentos íntimos. Em França, Fauré desenvolve a chanson como um gênero tão complexo como o Lied alemão.
Do ponto de vista estritamente literário, a canção romântica é um poema lírico simples e, regra geral, trata de um destino particular (por exemplo, a “Canção do Órfão”, de Guerra Junqueiro). Este tipo de canção era por diversas vezes atribuída a entidades como o Mar ou o Vento.. As musas que conferiam inspiração à canção eram o amor, a pátria e a religião. Com o advento do romantismo, a canção perde a sua rigidez inicial, tornando-se mais livre formalmente. Aproxima-se agora a canção das suas raízes populares, pondo de lado, gradualmente, regras fixas de metrificação e organização estrófica A partir de agora, o poema olha o mundo exterior e transporta-o para a canção, conservando-se a musicalidade e a melancolia que lhe era característica, como na “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. Mais tarde, este gênero irá perder interesse face às inovações com o verso livre e à afirmação dos poemas de estrofes assimétricas.
Hoje, a canção é indissociável da sua realização musical. O processo de composição dá hoje preferência à pauta musical, onde só posteriormente se encaixará o texto da canção. O inverso também ocorre, sobretudo quando se compõe música para textos do cânone literário. Os diversos tipos de expressão musical ajudam a uma maior diversificação das possibilidades da canção, por exemplo, na ópera, falamos de árias (canto a solo); na música popular, falamos em cançoneta, em canção de protesto ou de intervenção, em canção pop (com muitas subespécies).
Fonte:
Carlos Ceia. Canção.
In http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/
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