Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Eduardo Campos (Drama de Rua Ao Entardecer)


Era como se dava todas as tardes, logo atenuado o calor. Tudo que acontecia por então, na rua, parecia entretecer os vagares de cada um com as coisas transcorrentes. Assim a senhora do sobrado aparecia na varanda, recendendo a extrato e a leve odor de talco de jasmim, enquanto os seus olhos de muito olhar e pouo ver ignoravam o vendedor de pão da tarde, ou o ir-e-vir de tantos, por motivos os mais diversos (às vezes até inconfessáveis), ganhando a rua... E ela, por cima de todos, lá do alto, sentia-se realizada, dona de seus próprios pensamentos e refrescada de cheiros que lhe alvoroçavam indistintas lembranças. A espaços, a senhora do sobrado exigia a presença de pessoa da casa, que, demorando em atender, aborrecia. Então dizia com certa asperidade:

- Você vem ou não vem?

E a “Você vem ou não vem” - empregada de vida e feições consumidas - também assomava à varanda, toda metida em receios, quase sempre a confirmar tudo que a patroa propunha...

- Aquele tipo não é o mesmo sujeitinho que vem rondar a casa da viúva? Hoje, só mudou a camisa! Meu Deus, como é espalhafatoso!

A outra, em voz sumida e costumeiramente medrosa, arriscava: – Acho não... É nadar!

.-E aquilo? que é?

- ... melhor a senhora botar os óculos.

– Preciso não! São os meninos brincando...

E em tom de afetado azedume:

- Vá chegando logo pra sua cozinha. Fico melhor sem sua parceria...

A porta da casa defronte abriu-se, deixando sair um rapazinho. Logo atrás, vagaroso, apareceu o velho. Foi quando alguém, do interior, com bastante má vontade, advertiu: .

– Cuidado, moleque! Juízo!.

O homem de idade, acompanhando o empregado e guia, convivia com teimosa névoa a lhe tomar os olhos. Em verdade não mais podia reconhecer as pessoas com quem falava, ainda que demorassem perto. Agora, pisando a rua, de repente achou-se envolvido pelo perfume da senhora do sobrado. Não sem razão quis saber:

- É ela? já está lá?

- Faz é tempo... Desde a passagem do vendedor de picolé.

- E o namorado da viúva?

- Indagorinha desceu do ônibus.

- Ah,... . considerou o homem, depois de breve tempo, como se algo estivesse errado. O Estou saindo tarde, hoje. Já vi que vou demorar pouco, tomando ar na praça...

Ao alcançarem o primeiro banco do jardim, as vozes das crianças retomaram o refrão de cantiga de roda, algo. muito doce e sentimental, que ele imaginou estar ouvindo em seu passado. Foi o suficiente para sentir-se mais dolorido em sua condição de pessoa desamparada.
E se sentou, tocado. pela incômoda sensação de desamparo e abandono. Depois de breve instante, chamou:

- Francisco... Você está aí: e mais inseguro, tornou a falar.

- Onde você se meteu, menino?

Um carro buzinou; outro, rente à calçada, passou carregando pessoas ruidosas. O ônibus estacionou na esquina, para desapear um passageiro abusado, a reclamar o valor do troco da passagem. Palavrões. Xingamentos. A senhora da varanda do sobrado chamou a

– Você vem ou não vem..

Reparasse, referia, o doido do Francisco . um grande irresponsável! abandonara o pobre velho e agora, muito curioso, do outro lado do passeio, vigiava o furgão da padaria.

– Grite alto, chame de volta aquele imbecil! Onde já se viu uma coisa dessa?!!

– Era bom eu descer, ver lá embaixo... A gente falando mais de perto é melhor.

- Aí você vai se grudar, preguenta que é, e não retorna tão cedo! Lhe conheço as manhas... Quero que grite.

- “Você vem ou não vem” resistia:

– Melhor mesmo eu descer... De perto ajudo mais. Afinal a senhora do sobrado, decidida, debruçou-se no peitoril da varanda, a voz empostada, nervosa:

- Moleque, retome ao banco! O cego não pode ficar sem companhia! Estará doido?!

O barulho prosperara, bastante intenso. Mais carros, mais coletivos barulhentos, e como se não bastasse tudo isso, um automóvel, de alto-falante montado na capota, anunciava os preços inacreditáveis do dia D da economia. Ao velho acudiu então vontade de levantar-se, não. obstante desvanecido, e, ainda que trôpego, ir-se dali, a recolher.

Era perigoso, sabia, deixar a praça, desafiar o tráfego. Podia acabar morto.

Refluiu da idéia insensata e, instintivamente, mais a jeito e resignado, acomodou-se outra vez, a olhar para o que não podia ver. Estava assustado. Não apreciava ficar sem alguém por perto, sem companhia, a se considerar um ser qualquer, diluído no tempo...

Não, não estava só, se disse a si mesmo. As crianças continuavam cantando. E só por isso não podia escutar, distintas, as palavras gritadas do sobrado.

Mas de repente - e tudo ocorreu de modo bastante inesperado - ele percebeu que pessoa atrevida lhe arrebatara o relógio do pulso, e, ligeiro, com mão pesada e agressiva, já alcançava os seus pés, enquanto ia comandando exigente:

- Os sapatos! Os sapatos!

Quando cessou a ação desse intruso, pôde compreender que perdera o relógio de fingir... e restara descalço. A “Você vem ou não vem”, perto dele, ofegava pela carreira a que se impusera até ali.

. Pelos céus, lhe tiraram tudo, até os sapatos!

Refeito do susto, trêmulo, esclarecia:

Ah!, o meu relógio, os tênis...

A voz escapara-lhe em desalento e magoada.. Tornou repetir:

. Meu relógio...os tênis...

Quis acrescentar mais, e não pôde. Em verdade não encontrou palavras para descrever a cena, o vexame vivido, a horrível ação da mão áspera e rude arrebatando-lhe as coisas.

. Meu Deus, o que aconteceu ao meu patrãozinho?!

Era Francisco, atarantado, ante o infortúnio do outro. E cobrava explicações, novos detalhes, a se valer de quem, por acaso estando por perto, houvesse testemunhado o imprevisto.

– Tinham batido no patrão? Carregaram os sapatos?.

Como se prestasse depoimento, alguém explicava: .

Os artigos roubados eram de primeira. E secundando: - um enorme prejuízo para o cidadão.
Cercado agora pela multidão, a vítima aceitava a deplorável situação, a assumir o drama. Dava-se por personagem principal, mais ficcional que real.

- Ah, meu rico relógio de herança!

- Já tinham oferecido dinheiro nele?

Atarantava-se para explicar, e a perceber que não podia decepcionar aquela gente solidária, não confessou, por exemplo, que o relógio nem corda mais pegava, e os sapatos, bem, os sapatos fediam de tão surrados, bons só de aparência. No interior de ambos a palmilha, lacerada, não mais impedia que a sola do pé tocasse ao chão . O homem é de família, tinha tudo de bom! “acudiu um desconhecido”. Ladrão de hoje só quer artigo de moda. A tanto ele aquiescia, a voz insegura, circunstância que dava aos presentes o exato sentimento de perda dolorosa.

Já de pé, deixando o banco, viu-se cercado de mais atenções, reconfortado como jamais ocorrera antes.

- Por aqui, senhor... Cuidado, senhor - recomendavam as vozes.

Por um instante pensou que também o invejavam... Foi andando, a pisar o chão, diabo de chão quente, forrado de areia e pedrinhas incômodas! Mas aguentou firme a caminhada vagarosa em direção a casa da nora, onde morava. Atrás, em alvoroço, o cortejo azafamado de pessoas, biscateiros ,e desocupados, todos álacres, empurrando-se uns aos outros.

Assim atravessaram a rua, enquanto os automóveis paravam; até o ônibus circular demorou no estacionamento, enquanto o motorista e passageiros metiam a cabeça às janelas, querendo saber que diabo era aquilo....

Do alto da varanda do sobrado a senhora perfumada, impaciente, não perdia sequer um momento do acontecimento. E quando o ancião ficou mais ao alcance de sua voz, fez questão de comentar em tom bastante altanado:

- Bravo! Que homem! Que resistência!

Fonte:
Eduardo Campos. A borboleta acorrentada. Fortaleza: Casa de José de Alencar / Programa Editorial, 1998. (Coleção Alagadiço Novo)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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