Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 20 de maio de 2018

Faustino da Fonseca Júnior (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa vol.4) II


Á MEMORIA DE ALFREDO LOPES

Viver! O que é viver! Arrastar a existência
No vasto labirinto onde só reina a dor;
Num pouco de matéria é guia a consciência
Quase a perder-se a força, a faltar o valor.

Morrer! Passar além! Da luta repousar,
Deixar por uma vez do mundo as agonias;
Descer á terra mãe, os lírios fecundar,
Servir de refeição aos vermes nas orgias.

Mas coisa alguma nasce e coisa alguma morre.
Transforma-se a matéria em mil combinações:
Seiva, no vegetal as hastes lhe percorre;
Sangue, faz palpitar os nossos corações.

Tu então não morreste; apenas desta lida
Imensa, em que mostraste o fulgido talento,
Descansas. No teu corpo ha ainda essa vida
Que palpita da terra ao próprio firmamento.

A vida da matéria. Então belas, formosas,
Por cima dessa campa onde agora repousas,
Hão-de brotar de ti as lindas flores viçosas
Na vaga poesia harmônica das cousas.

Rosas a recordar teu risonho futuro,
A tua juventude os cravos em botão,
O martírio o finar na dor tão prematuro,
O cipreste a lembrar teu grande coração!

A REVOLUÇÃO

Campeia a tirania, esmaga, oprime,
E da vontade o déspota faz lei,
Do povo a justa voz cala, reprime,
Ou ditador, ou presidente, ou rei.

Calca aos pés os direitos mais sagrados
E trucida os que querem reagir,
Apoiam-no as baionetas dos soldados
Não teme pois da plebe o rebramir.

Mas de repente os ódios comprimidos
Estalam sanguinosos, em rugidos,
Irrompem como a lava do vulcão,

Fazem voar o trono em estilhaços,
A liberdade impõe com rudes braços,
É a tua grande obra: "Revolução".

ASPIRAÇÕES

Oh! Quem me dera beijar-te
A tua face rosada,
Esses lábios de carmim.
Oh! Quem pudesse abraçar-te
E gozar, ó gentil fada,
Caricias ternas, sem fim.

Quem pudesse contra o seio
Estreitar-te e essa boquinha
Sorve-la num beijo quente,
E sentir-te em devaneio
Palpitar, gozar, louquinha,
Caricias de amor ardente.

Desprezando os preconceitos
Selemos com esse amor
Potente da nossa idade,
Estreitando os nossos peitos,
Em plena vida d'amor,
Mil juras de felicidade!

Que dizes, linda, pois coras?
Antegozas as delicias?
Suspiras rubra de pejo?
Ou na tua mente infloras
Esses milhões de caricias
O amoroso dum beijo?

Pois bem, gozemos, meu anjo,
E sejamos sempre queridos
Um do outro, minha flor,
E das delicias o arcanjo
Venha achar nos sempre unidos
Gozando do nosso amor!

OS CREPES DE CAMÕES

Portugal jaz por terra! Esta pátria querida
Dos fortes, dos heróis, dos rudes marinheiros,
Esta nação valente, homérica, aguerrida
Que soube rechaçar outrora os estrangeiros,

Jaz por terra abatida! A bandeira de gloria
Que fulgurou avante ao sol de cem combates
E sempre ha-de brilhar, aqui, em toda a historia
Que foi desde o Brasil ás regiões do Gates.

Hoje roja-se no pó! De tudo o que tivemos
De brio, heroicidade, altivez e coragem
Nada nos resta já! Parece que viemos
Perdendo tudo, tudo, em fúnebre viagem!

A própria honra se foi! Um insulto cruel
Fez agitar um dia o lodaçal enorme,
Houve gritos de raiva, amarguras de fel
Mas já tudo passou! E o povo dorme... dorme!

O derradeiro arranco! Ao pobre moribundo
Não resta d'esperança um lampejo fugaz,
Hoje existe somente a mostrar-nos ao mundo
Um sepulcro marmóreo, um fúnebre – aqui jaz.

Sintetizou outrora um esperançoso ideal
Em honra do cantor das nossas tradições,
Hoje existe de pé por sobre o tremedal
Um símbolo de morte: O luto de Camões!

A BORDO

Vamos no alto mar, a noite lentamente
Encobre pouco a pouco a abobada celeste;
Ha pálidos clarões das bandas do ocidente
E sopra uma rajada aguda de Nordeste.

Corre a todo o vapor, com impeto potente
O navio rasgando a superfície agreste
Do gigantesco oceano. As ondas febrilmente
Tem o tom verde-negro e triste do cipreste.

Só vemos céu e mar, o horizonte enorme,
Cercados pelo gigante imenso que não dorme
No monótono circo é plena a solidão.

Nessa tremenda luta o pensamento humano
Mostra pujantemente, ao dominar o oceano,
Um cérebro o que vale! o que é um coração!

ROSA EM BOTÃO

Que lindo botão de rosa,
Oh! como é bela esta flor,
E tens inda mais valor
Por seres oferta amorosa.

Gentil, risonha e mimosa
Elvira imitas na cor;
Ela é pura como a flor
E tu como ela és formosa.

Mas, apesar da parecença,
Sempre existe uma diferença
Em que te distingues dela;

É que a rosa tem espinhos,
Elvira ternos carinhos,
Que a tornam inda mais bela.

Fonte:
Faustino da Fonseca Júnior. Lyra da mocidade Primeiros versos. 
Angra do Heroísmo/Portugal, 1892

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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