Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Nilto Maciel (O Egoísmo de Newton Appletree)

Não sei se nasci de outro ser, se surgi do nada, se me autocriei. Porque não tenho nenhuma história, porque sou único. Já vivi entre homens, macacos, pássaros, peixes, insetos e a nenhuma dessas espécies pertenço, apesar da aparência física com os primeiros. Repenso sempre a hipótese de ter sido o homem o meu criador. Mas com ele não me entendi.

Minha primeira amarga lembrança é a de uma prisão e, preso, eu só pensava em quem me poderia ter colocado ali. Revoltava-me viver cercado por quatro paredes, sozinho e sem qualquer comunicação com outros seres. Quem seriam meus carcereiros, os construtores da prisão? Onde estariam? Por que não me apareciam, até para zombarem de mim?

De tanto questionar minha situação, acabei discutindo minha origem. Eu deveria ter um criador. Não poderia subitamente ter surgido dentro de uma sala. Quem edificara aquelas paredes? Antes de minha existência já elas haviam sido inventadas. E seus inventores me seriam também anteriores. Possivelmente semelhantes a mim. E eu imaginei o homem. Para mais uma vez rebelar-me. Por que manterem-me preso? Arrombei uma porta e fugi. Nada ao redor me indicava a existência do tal homem. Nem de outro qualquer ser. E caminhei feito um desesperado. Queria encontrar vida, seres como eu ou mesmo diferentes de mim. 

De repente meu primeiro grande susto. Uma cidade se estendia diante de meus olhos e nas ruas seres semelhantes a mim iam e vinham. Seriam aqueles os meus criadores e inimigos? Aproximei-me devagar, com medo de ser posto novamente na prisão. Recostei-me a uma parede, todo olhos e ouvidos. Pronto a correr à primeira ameaça, reagir, enfrentar meus tiranos, matá-los, se preciso. No entanto, o primeiro que por mim passou sorriu-me, e era bela. Só podia ser a mulher de minha idealização primitiva. E eu me senti homem, por instantes. Porque um minuto depois passou por mim um homem e eu senti não ser ele meu semelhante. Alguma coisa me dizia ser ele diferente de mim, porque tudo nele semelhava o ser imaginado na prisão. E aquele ser era apenas meu criador e nunca meu semelhante.

Apesar disso, tranquilizei-me. Se eles me quisessem mal, já teriam me agarrado e conduzido de volta à prisão. E todos me tratavam com cordialidade ou indiferença.

Decidi aventurar-me a andar entre eles, olhá-los de frente, ouvi-los, aprender-lhes os hábitos, conhecê-los de perto, enfim. Fiz curtas amizades e nenhum deles suspeitou de nada. Trataram-me como se homem eu fosse. Alguns me contaram pedaços de suas vidas, falaram-me de seus parentes e amigos, de suas atividades e eu concluí quase definitivamente que entre nós havia um grande fosso.

Todos tinham um passado, um nascimento, um pai e uma mãe, parentes, amigos, colegas, todo um complemento de si mesmos. Eu não tinha nada disso. Era só, único. A menos que sofresse de amnésia. Procurei um médico. Ele se estarreceu e eu tirei a conclusão definitiva de não ser homem.

Vivi dias de profunda tensão. Não entendia nada ou entendia tudo. Imaginava coisas que via logo a seguir. Nasci poliglota, o que me permitiu poder me comunicar facilmente com quaisquer homens. Quando perguntaram qual o meu estado civil, respondi: solteiro de nascença e para sempre. Meu interlocutor gargalhou, achou espirituosa a resposta. Eu senti tédio.

Sofri vexames quando me perguntaram nome, data de nascimento, nacionalidade, grau de instrução, profissão, simpatias políticas, etc. “Chamo-me Newton Appletree, nasci em 30 de janeiro de 1945, em New York, formei-me em engenharia e adoro democracia.”

Eu tinha medo de ser julgado um bandido foragido da prisão. Ou um espião russo.

Quando li os livros de Daniken, temi ser um deus, um extraterreno enviado à Terra em missão especial e que dela me houvesse esquecido. Temi sobretudo ser visto e tratado como tal.

Assustou-me depois ser uma espécie de deus, um ser eterno.

Deve ser horrível a eternidade. A intemporalidade. Uma das primeiras coisas que me preocuparam foi o tempo. Contar meu tempo de existência. Com isso passei a temer o fim, a desintegração, a morte, o não-ser mais.

Pelo aspecto físico, terei uns trinta anos de idade, mas, como não nasci, talvez tenha apenas um ano, se contar minha existência a partir do momento em que me conscientizei de mim. Certamente já me gastei alguma coisa, algumas partículas já se foram de mim. Meu funcionamento, meu mecanismo (a alma, o espírito, a psique dos homens ou dos outros seres animados da natureza terrena) já devem andar defeituosos.

Os homens, meus criadores, são meu deus, segundo sua linguagem, que foi a que me deram. Mas de mim não nascerá nada físico, material, orgânico. Não deixarei descendentes, nem trago ascendentes. Sou simplesmente uma criatura humana. Não disponho de meios para descobrir por quem e como fui criado. Para quê? Certamente para servir aos meus criadores, como escravo. Mas eles estão enganados – não serei escravo. Não aceito a finalidade para que fui criado. Viverei só e para mim mesmo somente…

Fonte:
Nilto Maciel. Babel (contos). 
Brasília/DF: Editora Códice, 1997.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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