quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Emílio de Meneses (Poemas ao Anoitecer) III


SONETO MITOLÓGICO

Próximo, o lago em que se lança a fonte
Onde Canace a frauta rude escuta,
Que lhe diz que o irmão de meiga fronte
Fauno vencera na porfiada luta.

Propícia é a Noite cujo manto enluta
De Flora o reino todo, o bosque, o monte...
Fora, a campina, o intérmino horizonte...
Dentro, o Mysterio na encantada gruta.

O Segredo a espreitar. A sussurrante
Asa passa de Amor. No pétreo solo,
De musgo o leito e de hera verdejante.

E enquanto fora os ventos solta Eólo
Lá dentro o filho, trêmulo, arquejante,
Beija da irmã o incestuoso colo.

CATECÚMENO

Faltem-me embora para o noviciado
Deste amor que conforta e regenera,
Todas as inocências, todo alado
Bando de sonhos que a inocência gera.

Faltem-me e eu venha já, velho e cansado
Velha lenda que veio, de era em era,
Perdendo o brilho, e entre o templo sagrado
Do teu amor empós uma quimera.

Entre - que importa! encontrarei um teto
E o agasalho das Santas Escrituras,
- Peregrino do amor, pagão do afeto.

E o batismo terei para quem ama.
- Amplo Jordão de águas claras e puras -
Água lustrai que o teu olhar derrama.

RETORNO

Olha! volto de novo, - Olha! de novo à crença.
Eu volto. É o mesmo templo. – O teu olhar traspassa
Rasga, ilumina em fogo, a abóbada suspensa
De onde pende do incenso a mesma nuvem baça.

Sinos rebadalando o glorioso repique...
Toda a massa dos fiéis pelos degraus do altar...
Deixa que suba a prece e que a esperança fique
À flor dos corações como algas sobre o mar.

É o mesmo ainda o canto invisível e crente,
O turíbulo de ouro o mesmo fumo evola,
E do órgão gemebundo o queixume plangente
É o mesmo que noss'alma embriaga e consola.

Aquece-me de novo o mesmo fogo interno,
Chora-me dentro d'alma o mesmo cantochão
Que no ouvido me entrou pelo lábio materno
Como um vinho de Cós num cérebro pagão.

Mas uma timidez de neófito me invade,
A alma se me conturba, a vista emarelece...
Sinto-me tropeçar a cada claridade
E a cada treva sinto um corpo em que tropece...

Por que em ti hão achar o desejado guia
Que o vacilante passo, estradas através,
Conduza onde não haja além da luz do dia
Outra luz que não seja a que vejo a teus pés?

Vem! que por tua voz de madrigais suaves,
Fanático, a pisar, enfebrecido e louco,
Eu descubra o caminho através estas naves
E me tires a venda aos olhos, pouco a pouco.

Aceita no agasalho ardente do teu beijo,
A alma cheia de medo e cheia de terror,
E nesta indecisão do primeiro desejo
Mata o dragão do ciúme e dá vida ao amor.

Faze do teu olhar o meu único teto,
A única inspiração me venha do teu riso,
Que eu não sei se haverá noutrem maior afeto,
Se igual dedicação neste mundo diviso.

Queira a fúria de mar que em teus olhos se mira,
Queira a calma de luar que o teu olhar contém,
Naufragar o temor que esta paixão me inspira
E a esperança banhar da alegria que vem!

O RIO GUERREIRO

Rota a vertente, a rocha rebentando,
Impetuoso em esguicho o campo irrora;
Regato agora, agora largo e brando,
De branca espuma a superfície enflora.

Logo torrente o crespo dorso impando,
- Quer seja noite, quer o veja a aurora –
Légua a légua o terreno conquistando,
Vai caudaloso pelo vale em fora.

Ei-lo afinal - o forte curso findo,
Num esforço estupendo, soberano.
Fero, revolto, arroja-se rugindo

Aos loucos roncos vagalhões do Oceano.
A Pororoca o estrondo repetindo
Eternamente do combate insano!...

SALTO DO GUAÍRA

Largo, oceânico, azul, ora margeando
Campina extensa, ora frondosa mata,
Léguas e léguas marulhoso e brando
O rio enorme todo o céu retrata.

Súbito, as águas, brusco, represando
Em torvelins de espuma se desata;
Vertiginoso, indômito, raivando
Ruge, fracassa e tomba em catarata.

Tomba, e de novo em arco se levanta.
Nada a brancura esplêndida lhe turva,
Em tanto resplendor e glória tanta.

TRAPO

Esta que outrora o linho da cambraia
Na pompa da ostentosa lençaria,
- Folhes e rendas que à secreta alfaia
Ornavam com capricho e bizarria –

Era camisa – e que hoje a nostalgia
Sofre do tempo em que entre a pele e a saia
O perfumado corpo lhe cingia, -
Era ao possuí-la, a última atalaia.

Trampo que encerras o embriagante aroma
Do seu colo moreno, poma e poma,
Ora em tiras te vejo desprezado.

E mais te quero, e mais te achego ao peito
Trapo divino! Símbolo perfeito
De um coração por Ela espedaçado.

Fonte:
Emílio de Meneses. Obra Reunida. 
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1980.

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