sábado, 16 de maio de 2026

Mensagem na Garrafa 182 = O escorpião


Autor Anônimo

Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Pela reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e estava se afogando de novo. O mestre tentou tirá-lo novamente e novamente o animal o picou.

Alguém que estava observando aproximou-se do mestre e lhe disse:

- Desculpe-me, mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo?

O mestre respondeu:

- A natureza do escorpião é picar, e isto não vai mudar a minha, que é ajudar.

Então, com a ajuda de uma folha o mestre tirou o escorpião da água e salvou sua vida.


Não mude sua natureza se alguém te faz algum mal; apenas tome precauções.

Alguns perseguem a felicidade, outros a criam. Preocupe-se mais com sua consciência do que com a sua reputação. Porque sua consciência é o que você é, e sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, não é problema nosso... é problema deles.

Renato Benvindo Frata (Um quintal, um mundo)


Quando se é criança, a dimensão das coisas como as vemos se agiganta aos nossos olhos em relação ao nosso próprio tamanho. Tudo é grande, comprido, balofo.

Minha mãe era alta, espadaúda, ligeira e silente. Pisava manso enquanto cantava baixinho hinos sacros à Santa Maria. Em casa, o rádio era ligado apenas para notícias e novelas.

Enquanto cantava, passava roupas assoprando o ferro em brasa. As músicas britavam de seu íntimo e eu a olhava, sem a distrair. Admirava-a sem sair do redor de seus pés.

Na sala, cercado de búricas e papéis, assistia aos movimentos dos seus braços e dos chiados do ferro quente sobre o pano respingado de água, sobreposto à roupa sendo passada.

Quando me ponho a lembrar, ainda o escuto e, se bem apurar também o olfato, saberia distinguir o cheiro peculiar do tecido ao ser secado pela quentura do ferro, até que a fumaça bambeasse bêbada pra aqui e ali, pelo vento da janela.

Nosso quintal de esquina era tomado por pés de chuchu, de bucha, uma horta, o galinheiro, o pé de araticum, de santa bárbara e de um enorme forno a lenha. Embaixo dele, achas de lenha, gravetos e até ninho de galinha.

Nesse quintal eu era o Zorro. Eu era o Tarzan. Eu era o Randolph Scott, o mais rápido no gatilho, e vivia meu mundo de moleque magrelo a cavalgar um cabo de vassoura com rédeas de trapo, cuja montaria tanto poderia ser o ‘Stardust’ do Randolph, ou o ‘Silver’ do Zorro. E tudo era tiros, gritos de “mãos ao alto” e relhadas sob estalos imaginados.

Os caroços de santa bárbara enchiam-me os bolsos, fazendo do meu estilingue o revólver mais certeiro com o quintal transformado em pradaria replicada do Grand Canyon, das matinês dos domingos, com o mocinho a dominar os bandidos. E eu gritava.

Lá pelas tantas, minha mãe chegava e, sem muito falar, tomava-me pela mão para o banho. A passada de bucha nos encardidos doía, o mercúrio cromo nas machucaduras amenizava, para terminar com um beijo, a roupa limpa e um tapinha no traseiro.

Cresci. Meus olhos perderam a extensão que avolumava coisas, e minha mãe envelheceu. Ficou menor, arcada, lenta e calada. Dependente. Seus braços já não aguentavam nem o ferro agora elétrico, mais leve. De sua boca já não saíam mais os cânticos religiosos, mas pedidos em sopros entrecortados pelo esforço dos lábios, enquanto tentava, com os olhos miúdos, a me reconhecer. Então pedia: "minha casa, filho, quero a minha casa..."

Talvez, nesses lances, ela se visse, ainda, com o ferro de brasa na mão a cochichar cantigas... e imaginava ver de sua suposta janela o menino arteiro a cavalgar o mundo.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor.

Vinicius de Moraes (O 6 de junho)


Le jour de gloire est arrivé
A Marselhesa

Na madrugada do dia 6 de junho, a pacífica travessa Santa Amélia, sita em Copacabana, foi despertada por gritos femininos próximos da alucinação. Assustados, acorreram os moradores para se deparar com o espetáculo de uma mulher, uma francesa, que, debruçada de sua janela, clamava para o céu noturno, como o clarim da liberdade:

— Brésiliens! Réveillez-vous, brésiliens! L’Europe a été envahie! Vive la France! Réveillez-vous, brésiliens!

Foi assim que uma jovem amiga minha soube da invasão da Europa. Por intermédio dela, provavelmente dezenas de moças tiveram conhecimento da notícia, que por sua vez telefonaram para centenas de amiguinhas as quais avisaram a milhares de outras. No espaço de um minuto esse grito criou a maior barafunda em que já se terão visto as linhas telefônicas do Rio e dos estados da República:

— Alô?
— ...
— Desculpe, é engano.
— A senhora não se enxerga de estar fazendo gracinha a essa hora?
— Não faz mal. A Europa foi invadida!
— Por que é que a senhora não vai contar isso a sua mãe?
— Mas é sério! Pode ligar o rádio!
— Jura?
— Juro!
— Santa Maria!

E são mais cem pessoas que sabem da grande notícia e se comunicam com mais mil. No espaço cristalino, serenizado por uma lua quase cheia, ondas hertzianas esbarram, trançam-se, dão-se nós poderosos, criando estáticas insolúveis.

A Europa foi invadida!

Numa casa em Santa Teresa, um velho francês refugiado, cardíaco, morre de alegria. Casais brigados trocam de bem, parturientes encruadas dão à luz como por encanto. Um poeta com um poema atravessado encontra subitamente a solução. A Europa foi invadida! No alto das favelas os negros batucam sem saber de nada. Notam apenas que, na cidade embaixo, muitas luzes se acenderam em muitas casas. Não sabem que o grande golpe foi dado para a extirpação completa do cancro racista no mundo. Milhares de arcanjos desceram em milhares de paraquedas em meio a um mar de fogo, nas praias e nos campos da França. Legiões de arcanjos impiedosos, traumatizados pela rapidez da queda e pela gana de possuir a terra, caindo sem ver onde, sobre o ventre amoroso da França.

O velho Tempo, relativo, ainda tentou, com as suas ásperas mãos nodosas, forçar o cadeado do 5 para transforma--lo num 6 universal a se fechar em algema, na hora 0 do ataque — a hora comum para todos os povos subjugados do mundo — sobre os punhos do nazismo. Em vão. Desgarrada de seu próprio segredo a notícia corre, chega ao Brasil três horas antes de acontecer na realidade. Antes das barcaças de desembarque tocarem as praias da Normandia, já o Brasil sabia que as primeiras posições tinham sido firmadas em solo francês. Telefonadas, champanha espocando, beijos, lágrimas, confraternização. Na redação entra um preto, braço em riste, com um ramo de flores na mão: imagem eterna para um Guignard. A emoção abrevia a vida de metade da população de, sem exagero, 5 anos menos. Formam-se dilatações da aorta, por outro lado acontecem milagres.

Um hipotenso, com a máxima a 6, volta ao normal.

Muitos dormiam sem saber de nada — muitos cansados do trabalho braçal do dia, do massacre das filas, da miséria dos bondes e trens superlotados; muitos exaustos de dar pulo para conseguir o amanhã da família, muitos que a vida vem gastando, que a carestia vem submetendo, que as humilhações vêm afligindo, que o nervoso, a anemia, a úlcera do estômago, a velhice precoce vêm roendo sem remissão. Esses dormiam, sem rádio ou telefone para saber a notícia. Mas é para eles, mais que para os outros, que meu coração se volta neste momento. A hora da Libertação se aproxima. É para eles que aquela mulher da sacada da travessa Santa Amélia grita o seu grito de amor e de anunciação:

— Brasileiros! Despertai, brasileiros!

(junho de 1944)
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MARCUS VINICIUS DA CRUZ DE MELLO MORAES (1913–1980), conhecido como "O Poetinha", foi um dos artistas mais completos do Brasil, atuando como poeta, dramaturgo, diplomata e compositor. Sua trajetória é marcada pela transição do rigor clássico da poesia para a leveza da música popular, sendo um dos fundadores da Bossa Nova. Nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito pela UFRJ em 1933 e estudou literatura inglesa em Oxford. Ingressou na carreira diplomática em 1943, servindo em cidades como Los Angeles, Paris e Montevidéu. Foi exonerado do cargo em 1969 pela ditadura militar. Casou-se nove vezes e viveu intensamente a noite carioca, transformando sua vida pessoal em matéria-prima para sua arte. Faleceu em 9 de julho de 1980, no Rio de Janeiro, devido a um edema pulmonar. 
A obra de Vinicius é vasta e abrange diferentes gêneros: 
Literatura/Poesia: O Caminho para a Distância (1933): Sua estreia literária.; Soneto de Fidelidade (1946): Um de seus poemas mais célebres; Antologia Poética (1954): Obra fundamental que reúne seus principais versos; A Arca de Noé (1970): Coleção de poemas infantis que se tornaram clássicos musicais.
Teatro: Orfeu da Conceição (1954): Peça que transpõe o mito grego para as favelas do Rio e deu origem ao filme vencedor do Oscar, Orfeu Negro.
Música: Garota de Ipanema: Composta com Tom Jobim, é uma das canções mais gravadas da história. Parcerias históricas com Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell e Chico Buarque. 
Suas principais contribuições incluem: 
Renovação do Soneto: Resgatou a forma clássica do soneto, mas com uma linguagem moderna, cotidiana e sensual, tornando-a acessível ao grande público;
União entre Literatura e Música: Foi o elo principal entre a elite intelectual e a música popular, elevando o nível lírico das canções brasileiras;
Fundação da Bossa Nova: Ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, criou a estética musical que projetou o Brasil internacionalmente;
Temática do Amor: É considerado o maior poeta do amor e da paixão na literatura brasileira do século XX. 

Fontes:
Vinícius de Moraes. Para uma menina com uma flor. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1966.
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Dicas de Escrita (Crônica x Conto: O Instantâneo vs. O Universo Construído) 1


1. O que é a Crônica? (O Olhar do Observador)
A crônica é um gênero híbrido que caminha entre o jornalismo e a literatura. Ela nasce do cotidiano.

- Tempo: Curto, focado no agora, no "hoje".

- Espaço: Lugares comuns (o ônibus, a fila do banco, a mesa de jantar).

- Temática: Fatos banais, eventos do dia a dia comentados de forma reflexiva, irônica ou poética.


- Linguagem: Leve, coloquial e direta.

2. O que é o Conto? (A Estrutura do Artífice)
O conto é uma narrativa literária curta, mas com uma estrutura de ficção completa.

-  Tempo: Construído narrativamente; pode abranger anos ou focar em um momento, mas com uma progressão dramática clara.

-  Espaço: Delimitado, porém carregado de simbolismo para a trama.

-  Temática: Situações de conflito que levam a um clímax e um desfecho. É uma "fatia" da vida com início, meio e fim.

-  Linguagem: Mais densa, com maior preocupação estética e construção de personagens.

Tabela Comparativa

3. Exemplos Práticos

Exemplo de Crônica: 
“O Padeiro” de Fernando Sabino. O autor apenas observa o trabalho silencioso de um homem entregando pão e reflete sobre a importância daquele gesto simples para a engrenagem do mundo. É uma observação real e reflexiva.

Exemplo de Conto: 
“A Cartomante” de Machado de Assis. Há um triângulo amoroso, um suspense crescente, personagens com motivações psicológicas e um final impactante (clímax e desfecho). É uma história inventada com estrutura clássica.

Exercício de Escrita Criativa: A Fila do Café

O Cenário Base:
Imagine uma cafeteria movimentada. Há um cliente que esqueceu a carteira na hora de pagar e uma atendente que parece estar em um dia muito difícil.

Parte 1: O Olhar do Cronista (10 a 15 linhas)

-  Instrução: Escreva como se você fosse alguém sentado em uma mesa próxima observando a cena.

-  Foco: Não se preocupe com o passado dos personagens. Foque na reflexão.

Dica: 
Use a situação para falar sobre algo maior (a pressa das pessoas, a solidariedade humana, ou como o café é o combustível que mantém a cidade girando). O tom deve ser leve e pessoal.

Parte 2: O Olhar do Contista (15 a 20 linhas)

-  Instrução: Transforme essa cena em uma narrativa de ficção.

-  Foco: Crie um conflito. Por que ele esqueceu a carteira? Ele está em um encontro importante? A atendente o conhece de algum lugar?

Dica: 
Estabeleça uma tensão. A cena precisa de um "clímax" (algo acontece que muda o estado das coisas) e um desfecho (uma resolução para aquele momento).

1. Na Crônica: O autor deu uma opinião ou fez uma observação poética sobre a vida?

2. No Conto: Existe um problema sendo resolvido e uma mudança na situação dos personagens?

Dica de Ouro
Para elevar o nível, utilize a primeira pessoa na Crônica (o "eu" observador) e a terceira pessoa no Conto (o narrador onisciente), para sentir a diferença de distanciamento.
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continua…

Fonte: JFeldman. Dissecando a magia dos textos. Floresta/PR: A.I. Dola. Biblioteca Sunshine
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segunda-feira, 11 de maio de 2026

José Feldman (A Ampulheta de Asfalto)


O asfalto de São Paulo, às seis da tarde, não é apenas chão; é um organismo vivo, febril e impaciente. No cruzamento da Avenida Paulista com a Consolação, o semáforo não é um equipamento de trânsito, mas um juiz implacável. Quando a luz muda do verde para o amarelo, o coração do motorista não pede cautela, ele exige um último esforço desesperado. E quando o vermelho finalmente se impõe, o que se vê não é o respeito à lei, mas o colapso de mil expectativas.

Dentro de um sedã prateado, com o ar-condicionado no máximo para abafar o mundo, estava Eufrazino. Para ele, aqueles noventa segundos de espera eram uma afronta pessoal do destino. Eufrazino era um homem de "objetivos". Ele não via ruas, via trajetos. Não via pessoas, via obstáculos. Suas mãos tamborilavam no volante em um ritmo de guerra, e seus olhos estavam fixos, hipnotizados, na lanterna traseira do carro à frente, esperando o milagre da luz verde.

Estava sofrendo da doença mais moderna de todas: a cegueira da chegada. Estava tão focado no "lá" que o "aqui" havia deixado de existir.

Enquanto bufava e conferia o relógio pela décima vez, a vida acontecia em alta definição ao seu redor, do lado de fora do vidro fumê.

A dois metros dele, no corredor entre as faixas, um entregador de aplicativo equilibrava a moto e a vida. O rapaz retirou o capacete por um instante para secar o suor e sorriu para uma foto de uma criança colada no painel da moto. Era um sorriso de cansaço, mas de uma doçura que faria qualquer trânsito parecer leve. Eufrazino não viu.

Na calçada, um senhor vendia paçocas. Fazia um truque de mágica simples com as moedas para entreter uma menina que esperava o ônibus com a mãe exausta. A menina gargalhava, um som que cortava o barulho dos escapamentos como um sino de cristal. Eufrazino, imerso em sua própria urgência, apenas praguejou mentalmente contra o "caos urbano".

Havia também o crepúsculo. O sol, entre os prédios de concreto, tingia o céu de um laranja impossível, transformando as vidraças em espelhos de fogo. Era um espetáculo gratuito, uma pausa poética no meio do caos. Mas para Eufrazino, o céu era apenas um pano de fundo irrelevante para o seu atraso inexistente.

A filosofia do sinal vermelho é cruel: quem tem pressa de chegar, já partiu antes mesmo de ir. Eufrazino estava fisicamente parado, mas sua mente já estava na reunião de amanhã, no jantar que ainda não fora servido, nas contas que ainda não haviam vencido. Ele perdia a única coisa que possuía de fato: o agora. Ao não olhar para o lado, não apenas ignorava o próximo; ignorava a si mesmo como parte do mundo. Ele era uma ilha de metal e nervos, isolada do fluxo da existência.

Finalmente, o vermelho cedeu. O verde brilhou como uma promessa de libertação. Ricardo acelerou com uma agressividade triunfante, deixando para trás o mágico da paçoca, o pai motociclista e o pôr do sol de fogo. Chegou em casa cinco minutos mais cedo. Mas, ao descer do carro, sentia um vazio estranho, um cansaço que não vinha do trabalho, mas da resistência constante à vida. Ele tinha corrido tanto para não perder tempo que acabou perdendo a experiência de estar vivo.

Moral:
A vida não acontece apenas nos destinos que traçamos, mas nas pausas que somos forçados a fazer. O sinal vermelho não é um atraso, é um convite: quem olha apenas para a luz que vai abrir, esquece que a beleza e a humanidade do mundo estão sempre estacionadas logo ali, ao lado da nossa janela. A pressa nos faz chegar mais rápido, mas a atenção nos faz chegar mais inteiros.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado, pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Receitas de vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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David Mourão-Ferreira (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa)


ALVORADA

E de súbito um corpo! Alvorada sombria,
alvorada nefasta envolta nuns cabelos…
Eram negros e vivos. Quem sofria,
dentro de mim, e assim tremia
só de vê-los?

Eram negros; e vivos como chamas.
Brilhavam, azulados, sob a chuva.
Brilhavam, azulados, como escamas
de sereia sombria, sob a chuva…

Veio cedo de mais a trovoada:
o vento me lembrou
de quem eu sou.
— Alvorada suspensa!, contemplada
por alguém que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.
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CANTIGA

Todo o dia senti, bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos…
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EPIGRAMA PARA UMA DESPEDIDA

Pasmo de ainda murmurar «Bom dia!»,
depois de tudo quanto aconteceu.

Ó meu amor, a minha cobardia
foi afinal muito maior do que eu.
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EPIGRAMA PARA UMA SEGUNDA DESPEDIDA

Eis o que espanta: ainda nós sabemos
os gestos rituais de despedida!

E, tarde ou cedo, à noite adormecemos,
embora sem a alma adormecida.
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EPITÁFIO

Cada sorriso teu agora só desperta
este remorso vil que a minha vida tem:
— A tua alma estava à minha espera, aberta…
Repousei no teu corpo e não fui mais além.
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INSCRIÇÃO SOBRE AS ÁRVORES

A secreta viagem foi aquela
por entre estrelas verdes esboçada…

Chamei, a cada fruto, verde estrela.
Tombei, ébrio de estrelas, sobre a estrada…
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INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.
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LÁPIDE

Sortílego castelo pardacento,
por onde as pombas ágeis se extasiam
em curvas que são delas, e do vento…

Castelo onde os teus gestos se mediam
pela graça que os deuses consentiam
às deusas que faziam seu tormento…
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MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto…)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor…
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder…)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer…
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PAISAGEM

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exato.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
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PARAÍSO

Teu corpo, agora tão perto,
é brisa que me consente
na aridez do meu deserto
a graça duma nascente…

Logo a nascente permite
o florescer dum pomar…
(Eu amei-te — mas perdi-te
por começar a pensar…

Às simples evocações
dum possível paraíso,
logo em nossos corações
se delineia um sorriso…)

E teu corpo, inda mais perto,
é brisa que me desmente…
(Sob o sol do meu deserto,
alonga-se uma serpente.)
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TEORIA DAS MARÉS

Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.

Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos, a lua
que te fez oscilar.
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Fontes:
David Mourão-Ferreira. Obra Poética [1948-1995]. Porto/Portugal: Porto Editora, 2019
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Artur de Carvalho (Com Certeza)


Você já ouviu falar do Princípio da Incerteza?

Bem, vou tentar explicar aqui, em poucas linhas, uma coisa que cientistas ganhadores do prêmio Nobel de Física passaram a vida inteira para descobrir. A tarefa não é fácil, eu sei, nem digna deste pobre cronista, mas não custa nada tentar.

É o seguinte. O Princípio da Incerteza foi a conclusão a que chegaram alguns estudiosos da física quântica quando eles estavam lá, analisando o comportamento dos elétrons (lembra? elétrons, átomos, núcleos). Eles descobriram que não conseguiriam nunca saber onde é que uma determinada partícula estava num dado momento específico porque, para sabê-lo, era necessário tocar a partícula, tirando-a assim do seu lugar de origem.

Explicando melhor. Tente, por exemplo, medir a distância entre o focinho e a ponta do rabo de um gato. Bem, se você não matar o gato, provavelmente — além de não conseguir medir porcaria nenhuma — vai também precisar de muitos curativos. Porque o gato não vai ficar ali, quietinho, esperando você medir.

E é mais ou menos o que acontece com as partículas que formam nossos corpos. Ninguém sabe exatamente onde elas estão porque ninguém consegue chegar nem perto delas e elas escapam.

E, se ninguém consegue saber com precisão onde estão nossos elétrons, então também é impossível saber "exatamente" onde nós estamos. Entendeu?

Desde que essas observações vieram à luz, daquelas três perguntas que há milênios atormentam a vida dos filósofos — de onde viemos? onde estamos? para onde vamos? — a que parecia ter a resposta mais fácil tornou-se um verdadeiro pesadelo: nós sequer sabemos onde estamos!!!

Essa confusão toda foi chamada de Princípio da Incerteza posto que, se não sabemos sequer onde estamos, como poderemos então ter certeza de mais alguma coisa?

Bem, é claro que eu simplifiquei bastante a tal teoria. Se me aparecer algum físico quântico por aí, com algumas correções, eu até agradeço, mas acho que não adiantaria muito a gente entrar em detalhes aqui, já que até mesmo sendo bastante supérfluo como fui, a coisa já me parece bastante confusa.

Ainda mais que não era exatamente sobre isso que eu queria falar. Eu queria era falar sobre essa mania que as pessoas têm de iniciar todas suas respostas com um "com certeza". Especialmente as pessoas mais ou menos famosas. Pode reparar. 

O repórter chega para o fulano e pergunta:

— E o disco? Está vendendo muito?

— Com certeza. Em todo lugar que a gente vai é recebido com carinho e...— e por aí vai.

O repórter chega para outro:

— As acusações eram verdadeiras?

— Com certeza. Embora as investigações ainda estejam em fase inicial, pressuponho que...

Mas não é só com gente famosa não. Pergunte aí, para seu vizinho.

— E aí? Muita farra no fim de semana?

— Com certeza... Fomos pro rancho e... — não sei que mais.

Mas não é possível que esse pessoal tenha tanta certeza assim, de tantas coisas, ao mesmo tempo. Eu não tenho certeza nem de onde vou dormir amanhã, e você chega pra esses caras e pergunta como é que eles pretendem passar as férias e eles vêm com um " — Com certeza numa praia, ou numa montanha..."

Oras, se vai ser numa praia OU numa montanha, então por que é que começa falando "com certeza"? Se nem os mais famosos cientistas — que passam vinte quatro horas por dia em cima de microscópios eletrônicos estudando as partículas atômicas — têm absoluta certeza de nada nesse mundo, esse povinho aí vai querer ter certeza do quê, deus do céu?

Sei lá. As certezas, assim como as unanimidades, geralmente são muito burras.
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Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fontes:
Projeto releituras Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
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Chafariz de Trovas 1


É tão tranquila a velhinha
e tem motivo de sê-lo:
Passa a vida sentadinha
entre a novela e o novelo...
A. A. DE ASSIS

Do especialista alguém disse:
— É um doutor de gabarito!
Restringe a sua burrice
a um campo bem mais restrito!
ANTÔNIO TORTATO

Pressentindo o que me aguarda,
vendo a minha solidão,
até meu anjo da guarda
solicitou demissão...
APARÍCIO FERNANDES
 
Foi conquistador de fama
e atrevido mulherengo,
mas casou-se com uma dama
que é verdadeiro monstrengo!
ARIPIO FORTES

Casa em março a Ester Macedo
e em julho é mãe... Ora, o alarde!
O filho não veio cedo,
o esposo é que veio tarde...
BELMIRO BRAGA
 
Mulher que passa por mim,
saracoteando no andar,
tem escondido algum fim
que não convém revelar...
BERNARDO PEDROSO

Um escrivão fez um roubo;
diz-lhe o juiz: "Que razão
teve para fazer isto?!"
Respondeu: — "Ser escrivão".
BOCAGE

O urubu veio manhoso,
sempre a voar, rasteiro e forte,
e, não achando outro pouso,
pousou mesmo em minha sorte!
CALIXTO DE MAGALHÃES
 
Vive o Domingos feliz,
sem o trabalho enfrentar,
que os "Domingos" — ele diz -
são feitos pra descansar...
CARLOS GUIMARÃES
 
Corrigindo um velho erro,
aos brotos tecendo loas,
nem mesmo no meu enterro
quero saber de coroas.
COLBERT RANGEL COELHO

Certa moça, à confidente,
dizia isto, baixinho:
— Se beijo gastasse a gente,
eu era, nega, um tiquinho...
DEMÓSTENES CRISTINO
 
Com 70 anos de idade,
a velha se confessou.
Pecado? Não. Só vaidade
de dizer que já pecou...
DJALMA ANDRADE

Desfaz-se toda a harmonia
que havia no galinheiro,
quando o galo encontra, um dia,
outro galo no poleiro.
DURVAL MENDONÇA

De te esperar tanto, tanto,
me sinto cansado à beça!
Minha filha, eu não sou santo,
para viver de promessa...
EDIGAR DE ALENCAR

Que é isto no rosto, Aurora?
— Foi meu marido, meu bem.
— Pensei que estivesse fora,..
— Pois eu pensava, também!
ÉLTON CARVALHO
 
Um amigo de bebida
dizia, em tom de chalaça:
"As quatro ilusões da vida
são três: Mulher e cachaça."
IVO DOS SANTOS CASTRO

Se este mundo te sufoca,
com seus grandes desalinhos,
segue o exemplo da pipoca
e vai dando os teus pulinhos!
JORGE ROCHA

Se quiser proceder bem
quem briga alheia ajuíza,
dê razão a quem não tem,
pois quem já tem, não precisa!…
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA

Parece que morre à míngua,
é frágil como ninguém.
Mas, quando fala, que língua
e que pulmão que ela tem!...
LUIZ OTÁVIO

Minha amiga, tenho medo
de dizer isto a você...
— É como contar segredo
no jornal, rádio e tevê...
MAGDALENA LÉA

O segredo da conquista,
para a mulher, se resume
em pôr quase tudo à vista
— porque o ''quase" se presume…
MARIA AMÉLIA NOVAIS

Passou, no auge da moda,
— bonita, meiga e singela —
e o rapaz, cabeça em roda:
— Será "ele" ou será "ela"?
MARIA IDALINA JACOBINA

No Carnaval se encontraram
mascarados. Divertido.
Quando a máscara tiraram:
Minha mulher! Meu marido!
MICINÉRI

Parece que ficou louca
a filha do Nicolau:
— só me dá beijos na boca
com gosto de bacalhau...
NELSON J. DOS SANTOS

Como sofre o Malaquias
e como xinga as cegonhas,
no tanque todos os dias
lavando fraldas e fronhas.
NEREU HUMBERTO FRICKMANN

Amor à primeira vista?
Nosso bolso anda tão raso,
que até mesmo uma conquista
deve ser a longo prazo!
ORLANDO BRITO

Na hora incerta do revés,
pensa o marido nas ruas:
— Bebo duas... volto às dez,
ou bebo dez... volto às duas?!
OSWALDO MASCARENHAS

Depois que me viu "quebrado'',
— tais foram as nossas loucuras —
ela, o peito amargurado,
quebrou também suas juras...
PAULO EMÍLIO PINTO

Quem ama pensa que inventa
os beijos, a briga, o amor.
Quando o sonho se arrebenta,
ninguém quer ser inventor...
PEDRO MOSSRI
 
Escravos, por nascimento,
e livres depois com a idade,
voltamos, no casamento,
a perder a liberdade...
ZALKIND PIATIGORSKY

Fontes:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristóvão/RJ: Artenova, 1972.
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Geraldo Pereira (Vizinha Maravilhosa)


O nosso cronista maior, Luiz Fernando Veríssimo, uma das penas mais lúcidas e mais saborosas do Brasil – Não se usa mais pena. Que pena! -, escreveu um artigo que leio em página da Internet: Uma Vizinha Maravilhosa. Falava de certa moradora há pouco chegada no bairro e que passou a ocupar apartamento em frente ao seu. Uma mulher, como explica, que existe e não existe. Em outras palavras, para o escritor o cotidiano passa a ser uma mescla da realidade e da ficção, quando expresso no papel ou como se costuma fazer hoje, quando materializado no écran do computador.

A partir daí assumi a condição de observador do meu entorno, sem desejar encontrar gente maravilhosa, mas interessado nessas rotinas domésticas, sobretudo aquelas dos finais de semana, nos quais há surpresas e fugas do repetitivo de todos os dias. Talvez os sábados e os domingos tenham mais utilidade do que as manhãs, as tardes e as noites dos dias considerados úteis, à exceção do que se assiste nos canais de televisão do Brasil. Não importa imaginar, como Veríssimo, que a penitente faz tudo em função do vizinho mais antigo. Como na crônica do mestre, entretanto, ela existe e não existe, tudo ao mesmo tempo.

Em prédio do tipo caixão, no segundo andar, depois de dois lances de escada, chega pelas seis da noite em geral, uma criatura de seus quarenta anos. Mora só, como já notei, mas muito raramente traz uma companhia masculina, jovem, bem mais novo que ela, cujo papel nos feriados é o de transitar em casa vestido em trajes menores. Abre as janelas todas, como se precisasse de ar e vai ao banho. Sai do chuveiro às carreiras, com uma toalha enrolando a cabeça. Mulher bonita tem isso, envolve-se dessa maneira e deixa o resto a descoberto. Veste-se com uma camisola azul e vai assistir aos programas da telinha.

Vez ou outra desce e fica em frente ao edifício esperando alguém. Não se pode divisar bem se o acompanhante de ocasião é o menino ou se não é. Parece não ser! Passeia, vai aos bares mais badalados ou assiste aos filmes em cartaz, mas cuida em voltar logo, pelas dez no máximo, pois amanhã é dia de branco, imagino. Cumpre o ritual de sempre e cai nos braços de Morpheu. O estado civil não se consegue revelar nesses contatos quase virtuais, mas por certo é separada, sem filhos de um casamento efêmero, fortuito ou de um marido que não lhe soube apreciar os dotes físicos e intelectuais.

É do tipo pícnico*, segundo Lombroso, que teria uma paixão fulminante, se vivo fosse e por cá viesse. Baixinha e um tanto gorducha, cheinha melhor diria, com destaque para um busto bem sucedido e as cadeiras alargadas, como cumpre ser mesmo. Há pouco acrescentou umas gramas a mais e com certeza faz regime para reaver o tempo. Cuidadosa com a pele, passa cremes e mais cremes no corpo, na face e nos braços, mas dedica-se à manutenção de sua performance glandular, fazendo movimentos circulares no tórax, sempre. É fácil notar que usa condicionador do bom, importado, quiçá.

Nos feriados, nunca dispensa a música mais antiga, as de Nelson Gonçalves, especialmente. E Dolores Sierra ganha os ares da rua e todos já sabem, até as crianças, que nascida em Salamanca cumpriu a rudeza da vida na beira do cais, em Barcelona, como tantas que vi. Há até quem brinque e indague: “Onde nasceu Dolores Sierra?”. Toda gente conhece a resposta! Ao que parece, sente falta do pai, porque não deixa de ouvir uma letra a propósito dessas ausências sofridas, com certeza, na orfandade: “Naquela mesa/Está faltando ele/E a saudade dele/Está doendo em mim/...”. Dói mesmo! E como dói!

Toma uma cerveja em lata, cuja marca não se identifica à distância, depois dorme como uma justa diante do Criador e só acorda pelas cinco ou seis horas. Perde o sono da noite, porque com o passar dos anos o travesseiro fica ingrato, cansado, talvez, de acolher e acalentar. Por isso, arruma o guarda-roupa e nunca vi tanta peça de vestuário sendo posta e reposta ou exposta nos cabides e nas gavetas. Há lugar pra tudo, como penso, para aquelas de maior luxo e as de seu cotidiano. Quando termina a noite vai alta e não existe opção diferente do simplesmente deitar e dormir ou madornar, como dizia minha tia velha.

E assim vai. Existe e não existe!
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O termo pícnico refere-se a um tipo constitucional humano caracterizado por baixa estatura, formas arredondadas, abdômen proeminente e membros curtos.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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