domingo, 14 de junho de 2026

Antonio Brás Constante (Do copo ao corpo e ao fundo do poço)


O mundo é um lugar fantástico; coisas simples, como o mel, são verdadeiras maravilhas da natureza. A semente que cai na terra germinando em bela planta, como um limoeiro, por exemplo, que se enche de flores e delas surge o fruto. Até a areia pode ter seus grãos transformados em vidro. Pensem na cana-de-açúcar, que uma vez processada vira alimento, combustível e até o álcool de farmácia.

Eis que então surgiu o homem, cuja inteligência tornou-o senhor absoluto de tudo que existe no mundo. Seu gênio criativo foi desenvolvendo as maravilhas modernas que conhecemos, entre elas carros, casas, aviões, etc. Mas alguns indivíduos resolveram fazer diferente. Então o homem pegou o vidro e inventou o copo, dentro dele pôs o mel e o limão. Da cana-de-açúcar fez a cachaça, juntando-a aos demais ingredientes dentro do copo. Bebeu todo o seu conteúdo e viu que aquilo era bom, recomeçando o processo várias vezes, até que quebrou o copo, derramou o mel, cortou o dedo ao fatiar o limão, cambaleou até um canto qualquer e decidiu tomar só a cachaça diretamente do gargalo mesmo.

A partir daí surgiu o “bebum”.

O bebum enche a cara por vários motivos, mas não lembra de nenhum deles, pois justamente bebe para esquecê-los. Isso o torna uma criatura sem passado e muito provavelmente sem futuro. E lá se vai o arremedo de homem, encharcado de bebida, de volta para casa por ter sido expulso do bar. Após toda uma caminhada em “zigue-zague”, com eventuais paradas para recordar o motivo de estar caminhando pela noite ao invés de ter continuado no boteco, o bebum finalmente chega em sua morada, onde acredita que irá encontrar a sua amada esposa (ao menos espera que desta vez aquela seja a sua casa, já que nas outras inúmeras vezes ele bateu em casas erradas).

Para quem não sabe, nessas situações a “amada esposa” é aquela criatura que fica dentro de casa, sentada no sofá de frente para a porta. Geralmente vestida de roupão de dormir, calçando pantufas felpudas cor-de-rosa e que mesmo podendo facilmente abrir a porta para a entrada do bebum, deixa que ele mesmo faça isso. Algo que pode demorar um bom tempo, pois se já foi difícil achar a rua e a casa, agora começa a tarefa mais difícil que é inserir a chave na diminuta fechadura que fica aparecendo de forma dupla e se movendo freneticamente na sua frente. Quando pressente que o seu alcoolizado marido conseguirá finalmente adentrar pela porta, a esposa então se levanta. Permanece com o rosto fechado e os braços cruzados. Sua mão esquerda tamborilando os dedos no cotovelo direito e a mão direita segurando o rolo de macarrão.

A primeira coisa que as mulheres dizem nessas ocasiões é algo do tipo: “sabe que horas são?”. Como se essa informação pudesse ser de qualquer valia para o organismo empapado de bebida que paira na sua frente de pé (tentando manter o equilíbrio), também conhecido como marido. Essas mulheres ainda podem se considerar felizardas. Duro mesmo é quando o bêbado resolve bancar o machão. Quebrando tudo, batendo na mulher e nos filhos. Transformando seu lar em um tormento para todos aqueles que convivem com ele.

Enfim, o mundo é um lugar maravilhoso, cheio de coisas maravilhosas. Infelizmente o alcoolismo não é uma delas, pois, na estrada da vida, a bebida é o combustível que leva qualquer indivíduo velozmente para longe de todas as pessoas que ele ama. Conduz seu destino para um profundo e solitário abismo, localizado no fundo de uma garrafa.
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ANTONIO BRÁS CONSTANTE é natural de Porto Alegre. Residente em Canoas RS. Bacharel em computação, bancário e cronista de coração, escreve com naturalidade, descontraída e espontaneamente, sobre suas ideias, seus pontos de vista, sobre o panorama que se descortina diferente a cada instante, a nossa frente: a vida. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores).

Fonte:
CONSTANTE, Antonio Brás. Hoje é o seu aniversário – PREPARE-SE: e outras histórias. Porto Alegre, RS: Age, 2009. Enviado pelo autor..

sábado, 13 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 8 *


Seu péssimo humor é tal,
e é tal seu jeito ranzinza,
que curte, do carnaval,
somente a quarta de cinza…
A. A. DE ASSIS 

A beleza é uma caveira,
com luxo e gala vestida,
que se desfaz em poeira,
num leve embate da vida.
ADALZIRA BITTENCOURT

Ai daquele que se ilude!
Homem — és tão pequenino,
qual uma bola de gude
na imensa mão do destino!
ALICE ALVES NUNES

Lá se vão os retirantes!
Deixam seus campos... seus bois. 
— O coração morre antes!
— O corpo morre depois...
APARÍCIO FERNANDES

Ilusão — buquê de flores
cheias de encanto e poesia,
que enfeitam de lindas cores.
a vida de cada dia.
ADELAIDE PEREIRA

Quando encontrei desbotado
meu retrato de arlequim
no carnaval do passado,
senti saudades de mim !
ALFREDO DE CASTRO

Pulo mais do que ioiô,
no carnaval sou assim:
por dentro sou pierrô,
por fora sou arlequim...
ANALICE FEITOZA DE LIMA

No carnaval desta vida,
ou por graça ou por maldade,
a Mentira anda vestida
com a nudez da Verdade!
ARCHIMINO LAPAGESSE

Se a vingança é seu intento,
pense antes de iniciar.
Ela só traz sofrimento
e o mal não vai reparar. 
ARTHUR THOMAZ

No carnaval do desgosto,
muitas vezes de improviso,
ponho a máscara no rosto
para mostrar meu sorriso...
BATISTA SOARES

É provérbio muito antigo
que todos devem saber:
quem não evita o perigo,
há de nele perecer.
BENEDITO LOPES DE OLIVEIRA

Com esse olhar que fascina
não me queimes por quem és:
- serás minha Colombina,
- serei Pierrô a teus pés.
CARVALHO GUIMARÂES

Falso rubi em seu dedo,
bolsa vermelha na mão,
nos olhos... angústia e medo,
"... iniciava a profissão..."
CECÍLIA AMARAL CARDOSO

Nossas máscaras do dia
nem sempre nos fazem mal
a esconder dor ou alegria
de um eterno carnaval…
CLEVANE PESSOA

O meu riso é mascarado,
eu não sou alegre assim...
Há um palhaço amargurado
Que chora dentro de mim.
CLÓVIS MAIA

Veste o manto, ajeita a pluma,
põe a faixa de Rainha,
passa batom, se perfuma
e faz Carnaval… sozinha…
DARLY O. BARROS

O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!
FERNANDO CÂNCIO DE ARAÚJO

Ela se foi por maldade,
levando o amor de nós dois
e, agora, sinto saudade
do que nunca foi depois!
GABRIEL BICALHO

É carnaval… e em meu peito
qual um sagaz folião,
brinca o meu sonho desfeito
nas alas da solidão…
GISELDA DE MEDEIROS

Carnaval – Festa do povo,
dos prazeres, da folia…
Foliões buscam de novo
reviver sua alforria!…
JOAMIR MEDEIROS

Essa miséria que passa,
mascarando os desenganos,
é o carnaval da desgraça,
o dos farrapos humanos!
JOSÉ CORRÊA VILLELA

A ajuda mais importante
que se pode dar a alguém,
é torná-la confiante
nos valores que ela tem!
JOSÉ HENRIQUE DA COSTA

Riso, disfarce, aparato,
sobre um rosto diferente:
o carnaval é o retrato
da vida de muita gente.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Meu carnaval se repete
com a mesma Colombina:
faço dos versos confete
e da trova - serpentina.
JOSÉ VALERIANO RODRIGUES

Carnaval!... Tantas folias...
Pagodes doidos de insano!
Cai a máscara três dias
da face que a usou um ano!...
LAVÍNIO GOMES DE ALMEIDA

Olhando, alheio á folia,
no carnaval me comovo,
ao ver tamanha alegria
sob a miséria do povo.
LUIZ ANTONIO PIMENTEL

O sonho que eu tive um dia
e que a minha alma alegrou,
hoje é só a fantasia
de um carnaval que passou...
LUIZ RABELO

Igualzinho ao vendaval
o nosso amor começou,
terminado o carnaval
este amor se evaporou.
MADALENA CASTRO

Viro a chave... E a nostalgia
da solidão que me corta
é impressa na melodia
do lento ranger da porta...
MANOEL CAVALCANTE

Carnaval, quanta magia…
Foliões pelo salão…
Fantasias…Euforia…
Muito riso… Até paixão…!
MARIA EULÁLIA BRAZ DE OLIVEIRA

Às pescarias incertas,
num mar revolto e voraz,
prefiro as ilhas desertas,
onde eu planto e colho em paz!!!
MARIA MADALENA FERREIRA

No carnaval o sujeito,
no samba, pisou na lata,
caiu e bateu de jeito
no traseiro da mulata!...
MARISA RODRIGUES FONTALVA

Sem tentar - não há fracassos.
Sem ter fé - não há profetas.
Sem sorrir - não há palhaços.
Sem sofrer não há poetas!
MIGUEL RUSSOWSKI

Nosso povo é genial
pois remédio, em sua crença,
é sambar no carnaval,
pra curar qualquer doença.
NEUCI DA CUNHA GONÇALVES

Pensando bem nesta vida,
a gente quase enlouquece:
— Quanta glória imerecida
às custas de quem merece!
NICOLINO LIMONGI

Na rua, toda nuazinha,
escondendo a cara santa,
no carnaval da Lurdinha,
até morto se  levanta.
NILTON MANOEL TEIXEIRA

Triste vida a do Pierrô:
sofrer pela Colombina,
que, nos braços de Arlequim,
ri de sua triste sina!
PALUMA FILHO
 
Carnaval. Reina a folia.
Quantos, nessa confusão,
se escondem na fantasia
para mostrar o que são!
PAULO EMÍLIO PINTO

Carnaval: dança e alegrias,
que têm o dom surpreendente
de sepultar, por três dias,
todas as mágoas da gente!
P. DE PETRUS

Carnaval - coisa engraçada
de malandro e gente bamba...
A dor do povo chorada
na letra rude do samba.
PRATA TAVARES

Para que um carnaval
com três dias de folia,
pois se a vida é afinal,
grande baile à fantasia?
RENATO VIEIRA DA SILVA

Diz o velho, em maus trejeitos:
- Como o carnaval é ingrato:
com produtos tão perfeitos,
a distância nega o prato!
RITA MARCIANO MOURÃO

Quando no armário espirrou,
deu mesmo um azar danado:
com o barulho acordou
o pobre esposo enganado.
SANDRO PEREIRA REBEL

 Quanto traje colorido
de aparência rica e nobre
traz nas dobras, escondido,
um palhaço triste e pobre!...
SARA MARIANY KANTER
 
Em toda a existência nossa,
esta lei se estabelece:
— a virtude nos remoça
e o vicio nos envelhece.
SEVERINO SILVEIRA DE SOUSA

A máscara de alegria
em meu rosto, com frequência,
é apenas a fantasia
no carnaval da existência.
SYLVIO RICCIARDI

Flagrando a esposa e o banqueiro,
pensa bem e esquece o orgulho:
- Vou precisar de dinheiro...
e sai...sem fazer barulho!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
ZAÉ JÚNIOR

José Feldman (O Clássico dos Rabugentos)


A tarde estava ensolarada, mas o vento ainda trazia um resto de frio da noite anterior. Euzébio apareceu na porta de Brigite com um cachecol amarrado no pescoço e uma expressão de quem já estava cansado antes mesmo de sair.
 
— Vamos, depressa! Se chegarmos atrasados, perco o melhor lugar para gritar com o juiz — ele rosnou.
 
— Eu não queria nem vir, você que insistiu — ela resmungou, enfiando um chapéu enorme que cobria metade da cara. — E por que eu tenho que ir com você? Se brigarmos no caminho, ninguém me salva.
 
— Se não fosse eu, você passaria o dia todo olhando para o muro e reclamando que ele não anda! — ele retrucou, andando rápido. — E lembre-se: hoje é dia do time da cidade, o Clube Atlético de Paraíso. Qualquer um que não torça por eles é inimigo meu!
 
— Pois fique sabendo que eu vou torcer pelo outro, o Esporte Clube do Vale. — ela disse, de repente — A cor deles é azul, e azul é bonito. O seu é vermelho, parece sangue de porco!
 
— Vermelho é cor de vitória, sua desentendida! — Euzébio berrou, parando no meio da calçada. — Você não sabe nada, não é mesmo?
 
— Sei que gosto de azul, e isso basta! — ela rebateu, passando por cima dele. — Futebol é só gente correndo atrás de uma bola, não vejo graça nenhuma. Mas já que vim, vou escolher o lado que me agrada.
 
Chegaram ao estádio, barulhento e cheio. Sentaram lado a lado, mas com um espaço imaginário maior que o campo entre eles. O jogo começou, e logo a primeira bola subiu.
 
— Isso, chuta logo! — Euzébio gritou, batendo no banco. — Que perna mole, parece que ele tem medo da bola!
 
— Acho que ele devia correr mais devagar — Brigite opinou, com ar sério. — Senão cansa e não chega a lugar nenhum.
 
— Correr devagar? É futebol, não passeio de burro! — virou-se para ela, vermelho. — Você não entende nada!
 
— Entendo sim! — ela defendeu-se. — Se correm muito, a bola fica sozinha e se sente abandonada. Coitada.
 
O homem ao lado, torcedor do Paraíso, não aguentou:

— A senhora brinca, né? O negócio é velocidade!
 
Brigite virou-se para ele, indignada:

— E quem perguntou a você, moço? O senhor tem cara de quem também não sabe nada. Deve torcer por time pequeno!
 
— Pequeno nada! — gritou outro, do lado oposto. — O Paraíso é gigante! 
 
— Gigante é o tamanho da ignorância daqui — ela devolveu, firme. — O Vale é mais elegante, só isso.
 
— Elegante é o cabelo do goleiro, que parece um ninho! — Euzébio meteu-se. — O seu time não tem força, só tem nome bonito!
 
— Nome bonito vale mais que força de boi — ela retrucou. — E aquele homem ali, do seu lado, ele está com a camisa suja. Que vergonha!
 
— A camisa é de batalha! — gritou o próprio dono da camisa. — Você devia era ficar em casa costurando meias!
 
— E você devia era tomar banho! — ela respondeu, tão alta que ouviu até a torcida do outro lado.
 
O jogo seguiu, mas ninguém mais olhava direito para a bola. A discussão alastrou-se: de um lado, quem apoiava Euzébio e dizia que futebol é raça; do outro, quem achava Brigite certa e falava que estilo é tudo.
 
— Ela tem razão! O juiz está cego, mas pelo menos a cor do Vale é mais limpa! — alguém berrou.
 
— Cego é quem concorda com ela! — interferiu outro. — Futebol não é moda!
 
— Euzébio, chama seus amigos, que eu já arrumei os meus! — Brigite avisou, cruzando os braços.
 
— Amigos meus não gostam de azul! Mas vou chamar mesmo para ver quem ganha! — ele respondeu, já levantando a voz.
 
Na marcação de escanteio, até os jogadores pararam. O capitão do Paraíso olhou para a arquibancada:

— O que está acontecendo aí? É jogo ou assembleia?
 
— É que a senhora diz que azul é melhor! — Euzébio gritou, apontando para ela.
 
— E ele diz que vermelho é cor de gente! — ela gritou de volta. — O senhor, que é jogador, decide: qual é a certa?
 
O capitão do Vale sorriu, brincalhão:

— Eu sou do Vale, então… azul é rei!
 
— Vê? Disse ele! — ela comemorou, como se tivesse ganhado a Copa.
 
O outro capitão bateu o pé:

— Você fala isso porque joga lá! Qualquer um sabe que vermelho pega fogo no adversário!
 
— Fogo é o que vai pegar na sua língua! — Brigite rebateu.
 
— Olha lá, eles estão se metendo também! — Euzébio notou, já animado com a confusão. — Acho que agora vai ter que jogar com a boca também!
 
— Melhor do que jogar com os pés que têm. — ela resmungou. — Nenhum sabe chutar direito.
 
O juiz apitou forte, mas ninguém ouviu. A conversa virou uma troca de comentários engraçados, mas cada vez mais calorosa:
 
— Se a senhora entende tanto, por que não entra no lugar do técnico? — desafiou um torcedor.
 
— Porque ele não deixa ninguém falar! — Brigite respondeu. — Igual a esse velho aqui, que acha que sabe tudo.
 
— E você acha que sabe o quê? Fala mais que rádio ligado! — Euzébio cortou.
 
— Pelo menos minha voz é mais afinada que o seu grito!
 
— Mais afinada que um galo rouco é fácil!
 
O jogo virou uma balbúrdia generalizada. Até os jogadores entraram na discussão, em vez de se posicionarem, começaram a dar palpites:

— Que a senhora acha de  usarmos as chuteiras azuis?

— Nada disso! Se for vermelho, dá mais charme!
 
Até o goleiro do Paraíso gritou da área:

— Eu aceito qualquer cor, desde que não me peçam para explicar as regras! Eu também não entendo muito!
 
— Viu? Até ele concorda comigo! — Brigite disse, triunfante. — Futebol é só cor e barulho, o resto é invenção!
 
— É porque você não quis aprender! — Euzébio quase pulou o banco. — Regra é sagrada!
 
— Regra sagrada é a de não deixar o vento entrar na janela. — ela rebateu — Essa sim eu sei de cor.
 
O juiz, já sem paciência, apitou tão forte que doeu nos ouvidos:

— A partida está parada há dez minutos por causa de uma discussão de cores! Quem quiser falar de moda, vá para uma loja!
 
— É o que eu digo! — Brigite gritou. — Ele também não entende!
 
— Entende, mas não sabe argumentar! — Euzébio completou.
 
A torcida toda riu, mas ninguém parou. O jogo só recomeçou quando um jogador chutou a bola sem querer na direção da arquibancada — e parou bem entre os dois velhos.
 
Brigite olhou, depois Euzébio olhou.
 
— Agora é com você — ela disse, empurrando- com o ombro. — Se errar, a culpa é sua.
 
— Se eu acertar, você passa a torcer pelo meu time por um mês! — ele desafiou.
 
— E se eu pegar, você passa a usar azul na camisa!
 
— Feito!
 
Euzébio tentou pegar, escorregou no banco e quase caiu. Brigite, ao tentar segurá-lo, acabou empurrando a bola de volta ao campo com a cabeça.
 
A torcida berrou: GOL!
 
— Isso foi meu! — ela gritou.

— Não, foi eu que a coloquei no lugar! — ele gritou.
 
Os jogadores aplaudiram, rindo:

— Então fica assim: o gol é dos dois!
 
— De jeito nenhum! — falaram ao mesmo tempo. — Se é para dividir, não quero!
 
No final da tarde, saíram do estádio, roxos de tanto falar.
 
— Você só ganhou porque ninguém quis brigar mais. — Euzébio disse.
 
— E você só não perdeu porque eu deixei. — Brigite respondeu. — Mas saiba: se houver outro jogo, eu volto a torcer contra.
 
— E eu volto a provar que você está errada. Aliás… a sua cabeça bateu forte na bola. Deve ter ficado mais dura ainda.
 
— Melhor dura que mole como a sua, que nem lembra o nome do time direito!
 
E assim, entre um insulto e outro, foram andando, deixando para trás um estádio que, pela primeira vez, tinha mais história na torcida do que no placar.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Hans Christian Andersen (Um profundo desgosto)


Compõe-se esta história de duas partes. A primeira poderia, sem nenhum inconveniente, ficar em silêncio. Entretanto vou contá-la; servirá para o leitor conhecer um pouco os personagens.

   Estávamos no campo, em um castelo. Os donos se haviam ausentado por alguns dias. Nessa ocasião, apresentou-se lá uma senhora, viúva de um curtidor, que morava na cidadezinha próxima, e se fazia acompanhar de um cãozinho. Vinha pedir um empréstimo sob hipoteca, trazendo já a papelada, formas públicas, etc. Aconselhamos a dama a meter tudo aquilo em um envelope com o endereço do proprietário do castelo: Sr. Comissário-Geral das guerras, cavalheiro X...

   Ela ouviu com toda atenção, tomou a pena, deteve-se um momento e pediu-nos que repetíssemos o endereço, mas lentamente. E assim fizemos, ela escreveu: Sr. Comis...

   Nesse ponto parou de novo, porque não sabia se era com um ou com dois ss. Suspirou:

   - Aí de mim! Não passo de um pobre mulher!...Como poderei escrever todas essas palavras?

   Quanto ao doguezinho, tinha-se deitado no assoalho; rosnava, e não parecia muito satisfeito. De fato, não tinha feito aquela viagem senão para seu deleite, e em benefício da própria saúde, e ninguém lhe oferecia sequer um tapetezinho para descansar!

   Com aquele focinho chato e aquela bossa de gordura, não era nada bonito; e continuava a rosnar surdamente. Mas a dama disse:

   - Não façam caso; ele não morde - primeiro, porque já não tem dentes; e depois porque é um bom animal. Nós o temos há tanto tempo, que já faz parte da família. Meus netos é que lhe estragam o caráter. Representam, com suas bonecas, uma peça em que há um casamento, e querem que este pobre animalzinho figure de juiz. O coitado do velho fica cansado e de mau humor.

  Enfim ela acabou por escrever o endereço e foi embora, levando o cachorrinho debaixo do braço.

  E aqui está a primeira parte da história, a que poderia bem ficar de lado.

   O cãozinho morreu. E aqui começa a segunda parte da história.

  Tínhamos ido à cidade e hospedamo-nos em um hotel, em frente à casa daquela senhora. Nossas janelas davam para o pátio dessa casa. Era dividido em duas partes por uma cerca de tábuas. De um lado estavam peles e outros materiais próprios de um curtume. Do outro lado havia um jardinzinho, onde brincava um bando de crianças - os netos da senhora.

  Tinham acabado naquele momento de enterrar o pobre cãozinho; ergueram-lhe um soberbo mausoléu, digno da sua bela raça: formaram ao redor um cercado de cacos de louça; no centro uma garrafa rachada erguia o gargalo para o céu.

  Depois de celebrar uma cerimônia fúnebre, com toda a gravidade, dançaram ao redor do túmulo. Um deles, um meninozinho de sete anos, espírito prático, propôs que se fizesse uma exposição daquele magnífico monumento, mostrando-os às outras crianças da vizinhança. O preço de entrada seria um botão de calça. Cada menino havia de ter um, com certeza, e muitos dariam de boa vontade, mais outro por uma das meninas; e assim poderiam fazer copiosa colheita de botões.

  Aprovado o projeto, unanimemente, correram todos a anunciá-los à criançada dos arredores.

  E da rua inteira, e das travessas vizinhas, acorreram os visitantes. Cada um deu o botão requerido. Naquela tarde houve certamente muitos guris que entraram em casa com as calças seguras apenas por um único suspensório; mas também, tinham podido admirar o túmulo do cãozinho!

   À entrada do pátio, encostada ao portal, estava uma menininha coberta de andrajos. Era bem graciosa; tinha o cabelo crespo e lindo, e os olhos azuis, de um azul muito suave. Não dizia uma só palavra, e também não chorava. Mas cada vez que a porta se abria, deitava lá para dentro do pátio um olhar muito comprido. Ela não possuía o botão para a entrada e bem sabia que ninguém lhe daria um. E permaneceu no mesmo lugar, de expressão triste, até ver que todos já tinham apreciado o túmulo e se retiravam dali.

   Então, sentou-se no chão, pôs as mãozinhas diante dos olhos e desatou em pranto. Só ela não tinha podido ver o túmulo do cachorrinho! E aquilo lhe causava tão grande mágoa como qualquer desgosto que alguém possa sofrer em outra idade.

  Nós tínhamos visto tudo, lá das nossa janelas; e na verdade, quando olhamos assim de cima os grandes pesares dos outros - e até os nossos mesmos - não podemos deixar de sorrir.
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fontes:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1853. 
Disponível em Domínio Público

Manuel Ambrósio (Audiência do capeta)

mantida a grafia original
Vou-lhe contá um causo sucedido.

O causo é o seguinte e o seguinte é este:

Vivia noutros tempos no sertão um casal, cujo casal vivia tão bem, que nem Deus c’os anjo. Causava inveja a todo mundo de arruparado que andava. Vai, sinão condo, pareceo em casa uma rataria, que era rato pru castigo, rato prus riba do tempo, que não houveras mãos a medi.

Roupas, comestive... tudo destroçado, inté os donos da casa j’andava c’os pé roído e sem podê achá um remédio pra simiantes praga em tembos de ficá, marido e muié, tudo paiêta, ambos los dois. Um dia pariceu na dita cuja casa um gatim preto, muito gordo, muito esperto, e começou logo a fazê muitas proeza, matano e fugentano os ratos. Ora, marido e muié ficaro num contentamento có gatim que não tirava ele da mão, alisando: meu gatim práqui, meu gatim prácolá. Era mêmo cumo um fio, tanto o amô cá da estimação. A casa, que andava numa tribusana, numa trevoada de malassombrada, estava sossegada.

Um dia o marido fêis uma viage e a premêra recomendação prá muié é o gatim. Assim qu’ele saiu, o gatim desapareceu. A muié coge ficou doida. Percurou o gatim por toda parte, remexeu pru todo los canto, inté plos vizim, e gatim de minh’alma. Dias ô dispois, chega o marido e a premêra coisa que progunta é o gatim. Coutou-lhe a muié o causo sucedido. Ela inda falava, e foi conde sinão conde, saiu o bichim de dentro do quarto de drumi, e miano piadoso, veio ocrreno topá c’o senhô, que, logo sentido, ficou muito aborrecido, veno o pobrezim esquileto de magro, de fome que stava c’ó colete apertado.

- Oras sta seos cóidado; muié! disse o marido. Tudo isso é pruqe saí de casa e você não fêis causo dele.

- Eu aprovo c’a vizinhança toda, marido, em cumas ele não se achou em parte alguma. Andei de codío atrais dele.

- Apois bem! Stá veno on’andava nosso gatim? Não me caia noutra con’d’eu viajá. Quem tem um bichim assim, né pra se tratá tão male. E desta vêis se passou-se.

Gatim continuou nas proeza e foi cresceno a cada dia engordano mais. O dono da casa que era muito resmelengue, mais muito trabucadô da vida e muito piritmo nas trabulança, teve que girá noutra viage daí a tempos, e novas recomendação à muié. Cumo da premêra vêis assim conteceu da segunda, logo que o homem chegô: mas porém, desta foi um bababá dos meos pecado, que coge c’a muié apanha no séro.

Acode, acode, aquéta, tei mão!... sempre os vizim apalacáro o baruio. Jaí as coisa anda azeda: um rem-rem-rem hoje, um zum-zum-zum amenhã, um dirê-eu, que virou um cataçá duma intriga dos diabo.

Nova nicicidade d’outra viage e nova recomendação e logo có principosto de, se não achasse o gatim cum’ele deixava ela le pagaria muito caro.

Ora, se bem disse, mió saiu. Gatim caiu no mato, virou tirira, logo que o home saiu. A muié, coitadinha, virou, remexeo, fêiz premessa a conto santo houve, escogitou por conto boraco das redondeza e vizim, responsou Sant’Antonho, percurou, indagou, revirou... e nada. Chega o marido e lá de longe foi logo, antes de sodá a muié, progutano por aqui.

- Cadêl-o, meu gatim, muié?

- Nosso gatim, meu marido...

Não acabou de falá, que o gatim, saino de den de casa, coge de rasto, foi miano piadoso s’enroscá entre as perna do seu sinhô, que acabava de s’apiá. Stava coge espirano de magro e de miséra. Antonce, o home não contou fiado não! Meteu-lhe o chicote que trazia na muié, deo-lhe pancadas de cego, fêiz artes de cabeça, quebrou-lhe um braço, abriu brechas na cabeça e espancou a coitadinha promode a bestage do gatim. Passou-se. Dias ô dispois do baruio, o home arrependeu-se de tê prucedido assim, e envergonhado, s’apaxonou... ele que vivêra tão bem có sua muié! Inventou por isso mêmo, outra viage; mas, desta feita, com tenção de nunca mais botá pé em casa.

Arrumou o saco e meteu cara na mundaça adoidamentes. Ora bens!

Nesse dia, viajou ele sem pará, de banzativo que andou, chegando muito tarde da noite debáxo de um pé de páo ramaiudo, que não teve tempo de vê quis páo era uma bonita gameleira. Encostou o saco nas raiz, e cansado, ali se ficou inté muito tarde; e sem sono se mardisse consigo da sua inigligente sorte.

Que conde sinão conde, repetino chegou aquela coisa, cumo um pato: vão! vão! vão!... xuá! em ribas na copa da gameleira, e quetou. Daí mais a pouco outra, daí mais outra e outros mais.

E começaro a conversá muito baixinho, de sorte que o home não entendia bem o que era, nem vê o que se passava, pruvia da escuridão. Aqui o camim fazia uma encruziada, e viu ele antonce que aquilo era a odiença do capeta. Que cum poucas chegou mais um c’um baruião. Era o maiorá. Stavam esperano por ele. E ferraro logo na conversação que se uvia:

- Que fizeste hoje?

- Eu atentei hoje um fio c’a mãe.

- Ora, ist’é nada. São pecado que o home perdoa; nada fizeste; e você?

- Eu arranjei uma briga, onde houve muito tiro e muita faca-fóra, cabeça rachada e muito sangue.

- Sempre serviu, mas porém, não são coisa de muita importança. Sempre o home perdoa. E você?

- Eu stou arrumano uma quenga entre dois irimão, mas, ainda não acabei.

- Muito bem! continue. E você?

- Eu arrumei sempre uma calunha entre dois compadre có duas comadre e um fio que ficou muito espraguejado, pruquê bateu no pai.

- Esta foi bem boa; mas são coisa... e o homem inda perdoa. E você?

- Eu estou atentando um resadô c’uma resadêra, in bens cumo um moço c’uma moça que já stá pra caí... fugino.

- Bem! bem! continua. E você?

- Eu stou trabaiano c’uma usurave que já robou metade d’uma fortuna.

- Ah! sim, bem feito! bem feito! Sempre o home custa a perdoá. E você?

- Eu stou cadijuvano um jogo c’umas bebedeira qu’é de nos trazê muito lucro.

- Muito bens! Trabaia, inséste mais inte o fim. E você?

- Eu sempre arranjei um que solicidou pru suas mão.

- Oh! Um caçadão! E você?

- Um hoje me vendeu-me a arma dele e me passou-me o arrecibo, escrivido có sangue dele, pramode ganhá uma demanda e pulá numa boa fortuna.

- Muito bem! Merece um plemo. E você?

Eu fis dois s’esfaquiá e se matá numa briga pramode uma herança, e o que ficou cum herdeiro era outro.

- Bens! Você é de tê um plemo. E você?

- Eu stou agarrado cum freguêis que stá comeno orfo em vida c’uma viúva.

- Muito estimo. Ist’é uma maravia. E você?

- Eu virei um home casado e stou reduzino outro que está coge virado, de encansinado que stá.

- Forgo muinto da nutiça. E você?

- Eu arrumei uma rua de muié que são nossa e que nos stão dano muita gente boa.

- São gente resmelengue: conde qu’é, qu’é mêmo. Muito bens; e você?

- Eu tão somente arrumei um que se casou duas vêiz. As muié são viva.

- Ah! essa são nojento. Já seio. Vôr mandá apariá a cama deles. Em todo causo, muito que bens! E você?

- Eu fiz um juiz dá hoje uma sentença injusta. Ilai muita castionação. O baruio é grosso, morre gente!

- Berabo! São dos que o home tem ódio. Bens! E você?

- Eu, coge nada. Hai muitos ano qu’eu ando de premenentes na rabada de um casá, que seguno se fala na língua deles por lá, vivia cumo os anjo no paraiz...

- Deixemo lá disso. Issaqui não se fala. Negoços de paraiz é pra lá cum eles; mas, bano...

- O negoço stava difirço e eu já stava dexano eles de partes, condo aconteceu a casa se enchê de rataiada. Eu, pan! pruveitei e virei um gatim e acabei cós rato e me tornei-me um gatim d’estimação.

O home qué muito giradô, conde saía de casa, logo mil recomendação fazia à muié. Eu, antonce, se me sumia e só parecia condo ele chegava de viage. Daí começou um desaprecate entre ambos los dois, o marido sempre jurano a muié. A principe eu era gordo, mais todas las vêis que ele chegava me achava tocano nas espinha. Na derradeira viage eu fiquei e pareci tão magro,qu’assim qu’ele foi me vendo-me, rompeu logo c’oela, deu-lhe muitos tabefe e chicotada e cum páo socou-lhe muitas porretada, quebrou-le um braço, rachou-le a cabeça, arrumou a trôxa e ganhou os páo na mudança, largou-le pr’uma vêis.

- Que debedabo! Berabo! muito bens! muito bens! brabo! brabo! Ora viva! Ist’é qu’é diligença e sabê fazê as coisa. Terá um grande plemo conde acabá có serviço.

Aqui o galo cantou: cacariocô!

- Escuta! disse o maiorá. Quis galo é esse qui cantou?

- É o galo pedrez!

- Cacariocô!

- Quis galo é aquele?

- É o galo china.

- Cacariocô!

- Este?

- É o galo musgo.

- Cacariocô!

- Esse outro?

- É o galo preto das canela amarela e a crista da serra.

- Está cabada a odiença. Alavanta a cumilidade! Houve antonce um tendepá de conversa e cada um foi saino: vão! vão! vão! vão!... cumo tinha chegado. Nisso o home que stava debáxo da gameleira tinha óvido tudo.

- Acão! seu méco! Ah! é assim, eim? Stá bom!...

E arrumou outra vêis a troxa e cortou pra casa, onde chegou de menhãs hora d’almoço brabo.

A muié, logo que o vio ficou muito indimirada e foi logo arrecebê ele c’oa mão na tipóia; mais porém, adiente dela correu o gatim miano muito, mas piadoso do que das outra vêis.

o homem apanhou ele, alisou ele e botou, ô dispois, no chão; mais porém, o gatim inrestou c’o ele, miano... miano... enroscano po las perna dele.

- Muié, ocê já deu de comê a nosso gatim? progontou ele c’a cara muito enfarruscada e percurano já um páo.

- Não! home. Já le tenho dito muitas vêis que ele se some, logo que você sae.

- Se some! eim? Apois, eu te torno amostrá e é já.

A muié veno o perigo, correu chorano; e ele apanhano um bom porrete, desandou com ança, mas porém, na cabeça do gatim, que deu aquele estouro que fedeu enxofre pru treis dias.

O dispois, foi ele, antonce, contá a muié o causo sucedido da gameleira da encrusiada.

Daquela data em diante foi ele vivê bem com sua muié, como dantes era.
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Manuel Ambrósio Alves de Oliveira (Januária/MG, 1865 - 1946) foi um professor, folclorista, jornalista, historiador e escritor brasileiro. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Foi um dos fundadores da Comissão Mineira de Folclore, representando ali o setor histórico.

Publicou em 1912 a obra Brasil Interior: palestras populares - folclore das margens do São Francisco, reeditado em 1934, que registra as tradições orais dos povos ribeirinhos e o seu modo de falar em que, segundo registrou um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais, "os temas recorrentes encontrados na obra do autor estão vinculados à paisagem, às relações sociais locais e ao cotidiano dos habitantes. Dentre os personagens abordados destacam-se os vaqueiros que se transformam em figuras lendárias e os monstros habitantes do rio e da mata, como a serpente do rio São Francisco, o bicho-homem, o caapora, o dourado, entre outros". Esta é sua obra mais conhecida, reeditada em 2015, restando ainda inédito "Brasil do Vale", escrito em 1909.
Publicou, ainda: Hercília (romance, 1923); Ermida do Planalto (1945); Os Laras (1938).

Em 2021 o campus de Januária do Instituto Federal do Norte de Minas realizou o "I Seminário de Estudos Ambrosianos", dedicado ao seu trabalho.

Fonte:
Manuel Ambrósio Alves de Oliveira. Brasil interior. Publicado originalmente em 1934. Disponível em Domínio Público.