quinta-feira, 30 de julho de 2026

Mensagem na Garrafa * 202 * = Palavras ao vento

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Um senhor, há muito tempo, tanto falou que seu vizinho era ladrão que o rapaz acabou sendo preso! Dias depois descobriram que era inocente. O rapaz foi solto e processou o homem. No tribunal, o velho diz ao juiz:

- Comentários não causam tanto mal, senhor juiz...

E o juiz respondeu:

- Escreva os comentários que o senhor fez num papel, depois pique-o e jogue os pedaços no caminho de casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença.

O senhor obedeceu e voltou no dia seguinte. Antes da sentença, o juiz diz:

- O senhor terá de catar todos os pedaços de papel que espalhou ontem.

O velho responde:

- Não posso fazer isso. O vento deve tê-los espalhado, já não sei onde estão.

O juiz então diz:

- Assim, desta mesma maneira, um simples comentário pode destruir a honra de um homem, a ponto de não podermos mais consertar o mal. Que lhe sirva a lição.

E ministrou-lhe uma pena de prisão.

Marcelo Henrique Marques de Souza (A gangorra)


Depois de velho, visitava a velha cidade da infância. Digladiava-se em silêncio. Por um lado, tudo tão diferente, o progresso passando a perna nas lembranças; por outro, o contraste que algumas ruas de terra batida resistentes produziam com a distância estrangeira a que se submetera, ao escolher a cidade grande, há mais de três décadas.

Ao contrário do que geralmente acontece, foi ele a abandonar a cidade natal e não os filhos. Plantou as sementes e cortou as raízes. Voou, folha de outono, a trair as cercas de casa.

Abandonou o ritmo compassado do pequeno lugarejo, para aportar no mar de ilhas nômades da selva urbana. Trocou o povoado solitário pela solidão compartilhada da terra das multidões.

Queria, entretanto, visitar o neto. Recebera-o em casa, quando ainda de colo, mas desejava vê-lo andar com as próprias pernas, tropeçar nos próprios impasses, sem o abrigo excessivo de todos aqueles colos.

O neto devolveu-lhe o abraço com um sorriso tímido e um silêncio respeitoso, desses de quem passa pela ponte de um rio imenso. E então o velho sentenciou, Vais com o vô, dar uma volta na praça. O menino, de lá de baixo dos seus seis anos, olhou para a mãe, à espera do sinal verde. – Voltem para o almoço...

A praça tinha traços do passado e do presente. O coreto permanecia, mas com outra pintura. A velha estátua do poeta ainda servia de palanque ao sarau dos pequenos pássaros. Enquanto que os velhos brinquedos, gangorras, balanços e cubos labirintos, agora dividiam espaço com uma espécie de horto, separado do resto por uma grade comprida, porém espaçada.

Depois de passear um pouco, avô e neto decidiram, em silêncio, pela gangorra. Uma forma de conciliarem o afã do menino com o cansaço do velho.

Nas grades do horto, insinuava-se uma comprida trepadeira, natureza que insiste, apesar de todo o espaçoso mundo humano. O menino fitou-a com a escada dos olhos, enquanto descia no suave balé da gangorra.

Os olhos do velho buscavam o nó que ancorava o encontro. A esperança de que o neto crescesse livre dos tropeços do destino. Sentimento que nutria mais por obrigação do que por experiência. Sabia que o destino não admite delírios retilíneos. Que a vida acaricia, mas também agride.

Conduzia a gangorra com cautela, distância segura dos extremos. O neto ainda perdia os olhos nas curvas da estranha corda vertical.

Na cordilheira dos instantes, o sol abraçava o ambiente inteiro. O dia corava e corria, pincel de pequenos plágios. O baralho dos velhos, as mães e as proles, coração da vida que pulsa.

Somos todos analfabetos de futuro. E, entretanto, como somos também algo reféns do passado, deliramos o presente, a exigir redundâncias em excesso. O avô desenhando, dedos de Narciso, o asfalto do porvir do neto. Ao mesmo tempo em que sabia que no mapa do tempo não há estrada sem neblina, buracos ou encruzilhadas febris.

Vô, essa corda cresce até o céu?, o menino interrogava, sem desgrudar os olhos do topo do horto. Uma dessas perguntas que foge do script. Teatro sem roteiro. Esse voo da infância, que desconhece a gaiola da gravidade.

Eu nunca vi nenhuma chegar ao céu. Mas quem sabe?... Essa um dia vai chegar...

Nesse instante, um avião cortou os céus. Como se sonho da trepadeira a enfeitiçar a cena. Gritava a sua pressa, ignorando a mesma gravidade que um dia desceria o menino da sua liberdade sem mapas. A mesma gravidade que agora cambaleava da estrada firme do avô, que vacilava entre a planta e a aeronave.

Um pequeno tranco trouxe o velho de volta. O neto caído, subitamente. O corpo pesou para frente, tombando expatriado na gangorra. Solavanco violento no pequeno coração. Era grave. Todos os projetos pleonásticos perdiam agora o sentido. Era preciso correr. Antes que a trepadeira chegasse ao seu destino cedo demais.
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MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA é um escritor, ensaísta, poeta, pesquisador e professor brasileiro, cuja trajetória ganhou repercussão pública não apenas por sua produção intelectual, mas também por sua comovente história de superação pessoal contra a depressão severa. Nascido em 1975 reside e atua profissionalmente na cidade do Rio de Janeiro, com fortes vínculos na Zona Norte (bairro da Tijuca). Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Candido Mendes em 2006. Concluiu o mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atuou fortemente na educação básica e no ensino superior como professor de Filosofia, Literatura, Redação e Teoria em faculdades de pedagogia e colégios particulares no Rio de Janeiro. Diagnósticos de depressão profunda iniciados em 2007 culminaram na perda de seus empregos. Entre 2018 e 2019, o professor enfrentou uma crise financeira extrema e passou a viver temporariamente em situação de rua na Avenida Maracanã (Tijuca), carregando consigo apenas seus livros e referências filosóficas. A repercussão do caso gerou correntes de solidariedade para sua reinserção social e médica. 
Sua escrita transita principalmente pelo ensaio acadêmico, crônicas, contos e pela poesia reflexiva. É autor de pelo menos oito livros publicados ao longo de sua carreira, podendo-se destacar: "A viralatice brasileira: transformática para o Quarto Império": Importante dissertação e ensaio publicado via Repositório Institucional da UFJF, onde analisa criticamente o "complexo de vira-lata" sob a ótica da identidade nacional; Textos e contos avulsos como "No fundo da estante". Embora seja um autor prolífico com múltiplos livros editados e reconhecido no meio universitário da comunicação/letras, Marcelo construiu sua carreira de forma majoritariamente independente e acadêmica, não figurando nos registros tradicionais das grandes academias jurídicas ou imortais de letras, nem com premiações comerciais de grande porte.
A real relevância de Marcelo reside na intersecção entre a erudição clássica e a vulnerabilidade humana. Mesmo nos momentos mais difíceis de sua condição psicossocial, ele manteve a produção e a defesa do livro como ferramenta de dignidade. Sua pesquisa sobre a comunicação e a "viralatice" no Brasil ajuda a compreender as dores da cultura e da política nacional. Na esfera social, sua história tornou-se um símbolo contemporâneo urgente sobre a necessidade de suporte à saúde mental de professores e intelectuais no país.

Fonte:
Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (org.). Coletânea de contos & crônicas.. Vitória : EDUFES, 2015. (Coleção II Prêmio UFES de Literatura)
Biografia: Escavador, Portal R7, II Prêmio UFES,  O Globo.

Minhas Trovas Premiadas * 6 *

 

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JOSÉ FELDMAN (71), trovador desde 1991, pertenceu à Seção São Paulo/SP, Delegacias de Arapongas/PR e Campo Mourão/PR, Delegado de Ubiratã/PR. Radicado em Maringá/PR desde 2011, representa a cidade de Floresta/PR

Anton Tchekhov (No outono)


Anoitecia.

Na taberna do tio Tíkhon estava um grupo de cocheiros e peregrinos. Escorraçara-os para dentro da taberna a chuvada outonal e o furioso vento molhado que fustigava as caras como um chicote. Os viajantes encharcados e extenuados sentavam-se nos bancos corridos ao longo das paredes e, ao som da ventania, dormitavam. Pintava-se em todas as caras o enfado. Um dos cocheiros, rapaz de cara bexigosa e aranhada, tinha sobre os joelhos uma concertina molhada: tocou, tocou, e parou.

Por sobre a porta, à volta da lanterna baça, ensebada, rodopiavam salpicos de chuva. O vento uivava como um lobo, gania e, pelos vistos, tentava arrancar dos gonzos a porta da taberna. Do terreiro chegava o bufar dos cavalos e o chapinhar na lama. Estava úmido e frio.

Por trás do balcão sentava-se o próprio tio Tíkhon, um mujique alto, carrancudo, com uns olhinhos sonolentos e balofos. Diante dele, do lado de cá do balcão, estava um homem dos seus quarenta anos, vestido de sujo com tudo o que há de mais barato, mas à maneira dos intelectuais. Trazia um sobretudo de Verão amarrotado e enlameado, calças de algodão estampado e galochas de borracha. Calçadas sem meias. Tremiam-lhe como de sezões a cabeça e as mãos metidas nos bolsos e os cotovelos magros, aguçados. De vez em quando uma convulsão ligeira percorria-lhe todo o corpo magro, desde o rosto terrivelmente macilento até às galochas de borracha.

— Deita-me um, por amor de Deus! — pedia a Tíkhon num tenor quebrado, rangente. — Um copinho só ... esse pequenino. A crédito, eu depois pago!

— Esquece ... O que há mais por aqui são tipos como tu, uns bandalhos!

O bandalho olhava para Tíkhon com desprezo, com ódio. Se pudesse, matava-o!

— Tenta perceber, seu estúpido ignorante! Não sou eu quem pede, são as minhas entranhas que pedem, como se diz na tua linguagem de mujique! Vê lá se fazes por perceber!

— Não temos cá nada que perceber... Desanda daqui...

— Se eu não beber agora, nota bem, se eu não satisfizer a minha paixão, posso cometer um crime! Só Deus sabe o que eu posso fazer! Tu, vilão, já viste na tua vida taberneira muita gente bêbada: será que, até hoje, ainda não percebeste que gente é essa? São doentes! Acorrenta, espanca, esfaqueia essa gente, mas dá-lhe vodka! Está bem, eu peço-te, encarecidamente! Faz-me o favor! Humilho-me ... Santo Deus, o que eu me humilho!

O bandalho moveu a cabeça e cuspiu devagar.

— Venha o dinheiro, então haverá vodka! — disse Tíkhon.

— Onde é que eu arranjo o dinheiro? Gastei tudo na bebedeira! Tudo até às últimas! Só me resta o sobretudo. Não te o posso dar, por baixo estou em tronco nu ... Queres o chapéu?

O bandalho estendeu a Tíkhon o seu chapelzinho de pano grosso donde assomava nalguns sítios o forro de algodão. Tíkhon pegou no chapéu, examinou-o e abanou negativamente a cabeça.

— Nem dado ... — disse. — Lixo ...

— Não gostas? Se não gostas, então dá-me fiado. No caminho de volta da cidade pago-te os cinco copeques. E que te engasgues depois com a moedinha! Engasga-te!

— Estás a ver o malandro que tu és? Que espécie de homem és tu? O que vieste cá cheirar?

— Quero um copo. Eu não, quem quer é a minha doença! Vê se compreendes!

— Por que me incomodas, hã? Sois muitos os bandalhos por esse caminho fora! Vai, vai pedir a esses cristãos que te deem alguma coisinha por amor de Deus, se quiserem, que eu, por amor de Deus, só dou um bocado de pão. Velhaco!

— Chupa-lhes tu o sangue, aos pobres, que eu ... nem penses! Não serei eu quem os vai depenar! Eu, não!

O bandalho interrompeu de repente o seu discurso, ficou muito vermelho e dirigiu-se aos peregrinos:

— Aliás, a ideia é boa, cristãos! Quem me pode doar cinco copeques? São as minhas entranhas que pedem! Estou doente !

— Bebe água — o rapaz da cara bexigosa soltou uma risada.

O bandalho sentiu vergonha. Tossiu e calou-se. Um minuto depois já andava à volta de Tíkhon a implorar. Por fim desatou a chorar e já propunha o sobretudo encharcado por um copinho de vodka. Na escuridão não se lhe viam as lágrimas e ninguém aceitou o sobretudo, já que estavam na taberna peregrinas que não quiseram ver a nudez do homem.

— Que faço agora? — perguntou o bandalho numa voz desesperada. — O quê? Tenho de beber um copo sem falta. Senão cometo um crime ou suicido-me ... O que faço agora?

Deu uns passos pela taberna.

Ouviam-se os guizos de um carro da posta a aproximar-se. O carteiro, todo molhado, entrou, emborcou um de vodka e saiu. O carro da posta seguiu o seu caminho.

— Dou-te uma coisa de ouro — dirigiu-se o bandalho a Tíkhon, ficando de repente pálido como um lençol. — Dou-te isto, pronto. Seja ... Bem sei que é ignóbil, que é nojento da minha parte, mas toma ... É uma ignomínia que eu faço, mas privado das minhas capacidades mentais ... Até o tribunal me absolveria ... Toma lá isto, mas com uma condição: depois devolves-mo, quando eu voltar. Entrego-to na presença de testemunhas ...

O bandalho meteu a mão molhada ao peito e tirou um pequeno medalhão de ouro. Abriu-o e relanceou os olhos pelo retrato.

— Devia tirar daqui o retrato, mas não tenho onde guardá-lo, estou todo encharcado. Pronto, rouba-me assim com o retrato, c'os diabos. Mas com uma condição ... Meu caro, meu querido ... peço-te ... Não toques neste rosto com os teus dedos ... Imploro-te, querido! Perdoa-me a grosseria, fui mal educado ... Sou um estúpido ... Não lhe toques com os dedos nem olhes para este rosto ...

Tíkhon pegou no medalhão, olhou para a marca de contraste e meteu-o ao bolso.

— Às tantas, relógio roubado — disse, enchendo o copo. — Está bem ... Bebe ...

O alcoólatra pegou no copo, fitou-o com um brilho nos olhos, na medida em que uns olhos turvos de bêbado podiam brilhar, e bebeu ... bebeu sentidamente, num compasso espasmódico. Agora, que tinha pago a bebida com o medalhão, baixou os olhos envergonhados e afastou-se para um canto. Instalou-se no banco ao lado de uma peregrina, encolheu-se, fechou os olhos.

Passou meia hora, em silêncio. Só a bulha do vento na chaminé, cantarolando a sua rapsódia outonal. As peregrinas começaram a rezar a Deus e a acomodar-se debaixo dos bancos para dormir, vagarosas. Tíkhon abriu o medalhão e não tirava os olhos da cabecita de mulher que, da sua moldurazinha dourada, sorria para a taberna, para Tíkhon, para as garrafas.

No pátio rangeu uma carroça. Ouviu-se um «xó-ó-ó!» e alguém a chapinhar na lama... Pela taberna irrompeu um mujique baixote de samarrão comprido e barba aguçada. Vinha encharcado e sujo.

— Enche aí! — gritou, batendo com a moeda no balcão. — Sai um «madeira», do legítimo! Enche!

E, rodando num pé com galhardia, virou-se e encarou toda a assembleia.

— Derretidinhos como açucre, meus lindos, meus pátegos! Acuados c'oa chuva, seus bebedolas! Que mimosinhos! E este, que melro é este?

O mujique pequenote deu um salto na direção do bandalho e espreitou-lhe para a cara.

— Esta agora! O meu amo! — disse. — Sernion Serguéitch! O patrão! Então? Por que raio passa o tempo aqui na taberna? Então isto é lugar para si? Eh, eh ... mártir desgraçado!

O amo olhou para o mujique e tapou a cara com a manga. O pequenote suspirou, abanou a cabeça, abanou as mãos com desespero e foi ao balcão beber a vodka.

— É o nosso amo — cochichou a Tíkhon, apontando com a cabeça para o bandalho. — O nosso patrão Sernion Serguéitch. Estás a vê-lo? No que as pessoas se tomam! Hã? Isso mesmo ... até que ponto a bebedeira...

O pequenote esvaziou o copo, limpou a boca à manga e continuou:

— Sou da aldeia dele. Quatrocentas verstás daqui, Akhtílovka ... Éramos servos do pai dele ... Que pena, amigo! Que pena! Era um patrão tão bom... Olha ali aquele cavalinho, no pátio! Estás a vê-lo? Oferta dele! Hã, hã! Que sina malvada!

Dez minutos depois já estavam sentados à volta do mujique os cocheiros e os peregrinos. Numa voz de tenor baixinha e nervosa, ao som do rumor do Outono, contou-lhes a história. Sernion Serguéitch continuava no seu canto, com os olhos fechados, a resmungar. Também ouvia.

— Aquilo sucedeu tudo por fraqueza de espírito — contava o mujique, remexido, gesticulante. — Por fartura... Era um patrão rico, de alto lá com ele em toda a província, pois claro ... Comes e bebes: à discrição! Assisti com os meus próprios olhos ... Tantas vezes o homem passava aí de caleche à beira desta mesma taberna. Se era rico ... Lembro-me, há de haver uns cinco anos, atravessou o rio na balsa de Mikíchkino e, quais cinco copeques, pega lá um rublo ... A ruína dele começou por uma coisa de nada. Primeiro que tudo, foi essa mulher. Lá gostou dela, coitado, de uma dessas da cidade... Diz que a amava mais do que à vida ... Há quem tome a coruja por gavião... A gaudéria chamava-se Mária Egórovna e tinha cá um apelido mais esquisito que eu nem sou capaz de o soletrar. Diz que se apaixonou por ela, pede-a em casamento, tudo nas regras como entre bons cristãos. E ela, pois claro, que aceitava, então se aquilo era um senhor de primeira categoria, um homem correto a nadar em dinheiro ... 

“Uma ocasião, assim ao fim da tarde, lembro-me que vou a passar pelo jardim dele e espreito: lá estão os dois num banquinho a beijocarem-se. Ele prega-lhe um beijo e ela, essa víbora, logo dois. Ele pega na mãozinha dela, e ela, ah!, encosta-se a ele, aperta-se toda contra ele, raios que a partissem! “Amo-te, Sénia”, diz-lhe ela... E o Sénia, como um maluquinho, anda feito parvo por tudo o que é sítio a gabar-se da felicidade ... Dá um rublo a este, dá dois àquele ... A mim deu-me dinheiro para comprar o cavalo ... Era tanta a felicidade que até nos perdoou as dívidas a todos. Chegou o dia do casamento ... Casaram-se a preceito, na igreja, como deve ser... E ela, nessa mesma hora em que os convidados se iam sentar à mesa, ela, arranca no coche... Fugiu para a cidade, para ao pé do advogado, o amásio dela! Logo a seguir ao casamento, a cabra! Hã? Naquele exato momento! Hã? O certo é que o homem a partir daí se desvairou, entrou na bebedeira ... Não estais a vê-lo? ... Anda como um pasmado, só a pensar ainda na cabra. Amor! Agora vai a pé até à cidade, acho eu, para a ver nem que seja só com um olho ... 

“Em segundo lugar, irmãos, a ruína dele foi por causa do cunhado, portanto marido da irmã dele ... Aceitou ser fiador do cunhado na sociedade bancária ... fiador de uns trinta mil, ou coisa assim... O cunhado, já se sabe, é um aldrabão de primeira, saca o dele e não quer saber de mais nada, o cabrão, e ao pobre do homem é que foram cobrar os trinta mil inteirinhos ... O homem parvo paga pela parvoíce... A mulher põe-se a fazer filhos com o advogado dela, o cunhado compra uma herdade para os lados de Poltava, e o lorpa do patrão anda por aí como se vê, pelas tabernas, metido com os mujiques e a queixar-se a eles: «Perdi a fé, meus irmãos! Já não tenho ninguém para confiar!» 

“Espírito fraco! É que a desgraça toca a todos, de vez em quando. E então? Um homem mete-se logo na bebedeira? Por exemplo, o síndico, é um supor. A mulher dele mete o mestre-escola em casa à luz do dia, derrete o dinheiro do marido em vinho, e o síndico é como se não fosse nada com ele, anda por aí com um sorriso na cara... Só mirrou um bocadinho...”

— A cada qual Deus não deu uma força igual... — suspirou Tíkhon.

— Lá isso é, a força não é igual, é verdade ...

O baixote do mujique demorara a contar a história ... Quando terminou, caiu o silêncio na taberna.

— Eh, tu ... como se chama o homem? ... Homem desgraçado! Anda cá, bebe! — disse Tíkhon dirigindo-se ao senhor.

O senhor aproximou-se do balcão e bebeu com prazer a esmola ...

— Dá cá o medalhão só por um bocadinho! — sussurrou a Tíkhon. — Só olho uma vez e ... torno a devolvê-lo ...

Tíkhon carregou o sobrolho e entregou-lhe, em silêncio, o medalhão. O rapaz da cara bexigosa suspirou, olhou para os lados e pediu vodka.

— Toca a beber, meu amo! Eh! Sem vodka é que é bom, e com vodkazinha ainda melhor! Com a vodkazinha nem a desgraça é desgraça! Anda lá, bebe para a frente!

Depois de cinco copos, o senhor foi para o canto, abriu o medalhão e, com os olhos turvos, bêbados, pôs-se à procura do rosto querido. Mas não estava lá rosto nenhum ... Fora raspado do medalhão pelas unhas do virtuoso Tíkhon.

A lanterna fulgurou e apagou-se. Num canto, uma peregrina em delírio murmurava uma ladainha veloz. O rapaz da cara bexigosa rezou a Deus em voz alta e estendeu-se no banco. Chegou mais alguém ... Chovia, chovia sem fim... O frio era cada vez mais cortante, parecia que não tinha fim este Outono mal-dito, escuro. O senhor continuava a perscrutar com os olhos o medalhão, em busca do rostozinho feminino ... A vela esmorecia e apagava-se.

Primavera, onde estás?
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ANTON PAVLOVITCH TCHEKHOV foi um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos. Médico por profissão e escritor por vocação, ele revolucionou a literatura ocidental ao focar no cotidiano, eliminando a necessidade de enredos mirabolantes para expor a complexidade da alma humana. Nasceu em 1860, em Taganrog, uma cidade portuária no sul da Rússia, e morreu em 1904 (aos 44 anos), em Badenweiler, na Alemanha. Ele faleceu devido ao agravamento da tuberculose e seus momentos finais ficaram famosos por ele ter bebido uma taça de champanhe antes de partir. Cresceu em Taganrog, mas mudou-se para Moscou para estudar medicina. Teve uma educação familiar rigorosa e foi estimulado a estudar, trabalhar e frequentar a igreja. Com o sucesso literário, comprou uma propriedade rural em Melikhovo (perto de Moscou), onde prestava atendimento médico gratuito aos camponeses. Nos últimos anos de vida, devido à saúde frágil, mudou-se para uma casa em Ialta, na Crimeia (região de clima mais ameno).
Tchekhov formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou em 1884. Ele exerceu a profissão intensamente durante toda a vida, tratando os pobres e combatendo epidemias de cólera. Ele dizia sua famosa frase: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". Em 1890, fez uma célebre jornada até a remota Ilha de Sacalina, uma colônia penal russa, para fazer um censo médico e denunciar as condições desumanas dos presos. Começou a escrever pequenos contos satíricos e humorescos sob pseudônimos (como Antosha Chekhonte) ainda na faculdade para sustentar sua família falida. Aos poucos, seu estilo amadureceu para o Realismo, ganhando profundidade psicológica. Na maturidade, uniu-se ao diretor Konstantin Stanislavski e ao Teatro de Arte de Moscou, onde suas grandes peças revolucionaram a história do teatro mundial. O autor tinha o sonho de morar no campo e, em 1892, mudou-se com parte da família em Melichovo, a 60 km de Moscou. Dentre as visitas que recebia na propriedade, estava Lidia Mizinova, com quem manteve uma relação afetiva e que inspirou suas obras. A partir de 1895, passou a comprar livros para doar à biblioteca de Taganrog, além de financiar a construção de escolas em algumas aldeias. Em 1897, o escritor recebeu o diagnóstico de tuberculose. Na tentativa de se curar, morou em Nice, Paris e, em 1898, em Ialta. Três anos depois, em 1901, casou-se com a atriz Olga Knipper (1868–1959). Devido à carreira, Olga ficava em Moscou, enquanto ele vivia em Ialta. O casal se correspondia com cartas e telegramas. Em 1904, Tchekhov foi fazer um tratamento em Badenweiler (Alemanha). Infelizmente, lá, seu estado se complicou, e o autor faleceu.
Recebeu a maior honraria literária da Rússia [Prêmio Púchkin (1888)], concedida pela Academia de Ciências da Rússia, por sua coletânea de contos No Crepúsculo. Prêmio Griboedov concedido pela Sociedade de Dramaturgos por sua aclamada peça As Três Irmãs. Em 1899, foi eleito Membro Honorário da Academia de Ciências da Rússia (Seção de Belas Letras). Contudo, em 1902, Tchekhov renunciou ao título de acadêmico em solidariedade ao seu amigo Maxim Gorky, cuja nomeação havia sido anulada pelo Czar Nicolau II por motivos políticos. Recebeu a condecoração oficial do império Ordem de São Estanislau (1899), por seus esforços em prol da educação pública e fundação de escolas rurais.
Tchekhov não escrevia romances longos; sua produção consistia em centenas de contos, novelas e peças teatrais. 
Contos e Novelas Célebres: A Estepe (1888); A Ala nº 6 (1892); O Duelo (1891); A Dama do Cachorrinho (1899); A Ilha de Sacalina (1895 - relato social/médico).
Teatro: A Gaivota (1896); Tio Vânia (1897); As Três Irmãs (1901); O Jardim das Cerejeiras (1904)
A relevância de Tchekhov reside na modernização do conto e do drama. Antes dele, as histórias dependiam de grandes clímax e finais moralistas. Tchekhov introduziu o conceito de "ação indireta" e o corte psicológico do cotidiano: suas histórias focam no que acontece nos subtextos, nos silêncios e no tédio da vida real. Ele criou o princípio dramático conhecido como "Arma de Tchekhov" (se você colocar uma arma carregada no primeiro ato, ela precisa disparar no terceiro), defendendo que nenhum elemento em uma história deve ser supérfluo. Influenciou gigantes da literatura mundial como Ernest Hemingway, Raymond Carver, Katherine Mansfield e James Joyce.

Fontes: 
Publicado originalmente na revista russa humorística Budilnik. Edição n. 37, 24 de setembro de 1883, sob o pseudônimo de Antosha Chekhonte. Disponível em Domínio Público.  

Hans Christian Andersen (A sopa de espeto) Parte 3, final


FALA A QUARTA RATINHA, ANTES DA TERCEIRA

- Dirigi-me imediatamente para uma grande capital, cujo nome não me ocorre agora: minha memória é péssima para nomes. Levaram-me da estação, entre alguns gêneros confiscados, para o tribunal. Dali escapei, e fui ter à casa do carcereiro. Falando ele dos presos, referiu-se especialmente a um, que tinha dito palavras imprudentes. Palavra puxa palavra; e atrás daquelas outras vieram, que foram ditas, escritas e relatadas.

" - Afinal - terminou ele - tudo isso não é mais que sopa de espeto; mas é uma sopa que lhe pode custar a cabeça!

" Aquilo despertou em mim um grande  interesse pelo prisioneiro, e, aproveitando a primeira oportunidade, fui ter à sua cela. Porque há sempre um buraco de rato atrás de cada porta fechada. Era um homem muito pálido; tinha a barba crescida e os olhos grandes e brilhantes. A lâmpada que ardia na cela deitava muito fumo, mas as paredes eram já tão enegrecidas, que a fuligem não podia aumentar aquele pretume. O prisioneiro matava o tempo traçando desenhos e versos em branco naquele fundo negro. Não os li, mas creio que ele se aborrecia na cela, porque me recebeu muito bem. Atraiu-me com migalhas, e assobios, e palavras amáveis. Mostrou-se muito contente com a minha companhia, e acabou por me inspirar confiança: tornamo-nos amigos. Repartia comigo seu pão e sua ração de água, tratava-me a queijo e salsicha, de sorte que eu tinha vida farta. 

“Devo dizer, contudo, que foi principalmente a sua boa companhia que me reteve. Consentia que eu lhe passeasse pelas mãos, pelos braços, entrasse dentro de suas mangas, e me escondesse na sua barba. Chamava-me sua amiguinha, e eu gostava realmente dele, pois a amizade é uma coisa que deve ser recíproca. Esqueci-me inteiramente da missão que me levara a correr o vasto mundo, e cheguei a esquecer o meu espeto, que deve estar ainda lá, cravado em uma fenda do chão. Queria ficar com o prisioneiro, porque, se me retirasse, o pobre ficaria sem um único amigo no mundo. E como isso não me parecia direito, fiquei. Fiquei, mas quem partiu foi ele. Estava muito triste a última vez que me falou. Deu-me o dobro do pão e do queijo costumado, e ao retirar-se atirou-me um beijo. Depois saiu e não mais voltou. Não sei o que foi feito dele.

 " Sopa de espeto, dissera o carcereiro, pois fui procurá-lo. Mas aquele não era homem em quem a gente se fie. Tomou-me nas mãos, com muita gentileza, sim, mas para me meter em uma gaiola giratória, máquina infernal, em que a gente corre, corre, sempre, e quanto mais corre menos avança. E, além de tudo, ainda fica sendo a risota de todo o mundo.

" A neta do carcereiro era uma menina encantadora; tinha o cabelo feito cachos de ouro, os olhos brilhantes de alegria, e uma boquinha risonha. Quando me viu naquela horrenda prisão, disso logo: " Coitadinho do ratinho" ! E torceu o trinco da gaiola. Saltei para o peitoril da janela, e dali para a goteira. Livre! Livre! Não pensava me mais nada, e até esqueci do objetivo da minha viagem.

"Já ia escurecendo. Instalei-me em uma velha torre de uma sentinela e de uma coruja. Não confiava em  nenhum deles, e menos ainda na coruja que no outro. É que as corujas  são como os gatos: tem o péssimo vício de comer ratos. Mas é verdade que a gente às vezes se engana; e foi o que me aconteceu, nesse caso; aquela coruja era uma senhora muito bondosa e muito instruída também. Sabia mais que o guarda, e tanto como eu mesma. Os filhos armavam um grande escarcéu por qualquer ninharia; então a mãe dizia: " Ora vejam lá se já vão fazer disto uma sopa de espeto!" E era tão extremosa com a ninhada, que nunca dizia palavras mais ásperas do que essas, nos seus ralhos.

" Esses modos me tranquilizaram a tal ponto, que da fresta onde me ocultara lhe dirigi um cumprimento " Cuic, cuic!" Agradou-lhe essa prova de confiança, e prometeu tomar-me sob a sua proteção: não permitiria que animal algum me fizesse mal, e me pouparia alguma coisa para o inverno, tempo em que escasseiam os mantimentos.

'Era dama entendida em tudo. Disse-me que o guarda não sabia mais nada senão tocar a buzina que lhe pendia do cinturão. Mas que estava tão cheio de si com aquela habilidade, que se julgava uma coruja de torre. É rematou, dizendo:

'"- Quer dar-se muita importância, mas não tem nenhuma, é o que é. Aquilo não passa de sopa de espeto.
                                           
" Pedi-lhe, então que me desse a receita dessa sopa, e ela me explicou:

" - Sopa de espeto é uma expressão que os humanos usam, como " água de barrela", e outras muitas. Cada um lhe dá a interpretação que bem entende. Cada um imagina também que a sua é a melhor, a exata; mas no fundo essa locução nada significa.

" - Nada? - guinchei eu. - Que pena! Nem sempre a verdade é agradável, não! Mas " a verdade acima de tudo!"

" Ora, a velha coruja também era dessa opinião. E, pensando no caso, vi claramente que se eu voltasse trazendo aquilo que " está acima de tudo", traria alguma coisa muito melhor do que sopa de espeto. Dei-me pressa pois, em voltar, para chegar aqui a tempo, trazendo a melhor de todas as coisas, alguma coisa que está acima de tudo o mais, e que é a verdade. Nós, os ratos, somos uma raça muito ilustrada, e o nosso rei é o mais ilustrado de todos nós. Ele é capaz de me fazer rainha, por amor da verdade".

Mas nesse momento a ratinha que ainda não tinha dito o que sabia, brandou:

- Tua verdade é mentira! Eu sei preparar a sopa e vou prová-lo!"
 
A PREPARAÇÃO DA SOPA
                                                    
   - Pois eu cá não andei viajando - informou a terceira ratinha. - Fiquei em casa, que era o que mais convinha. Não havia necessidade de viajar, visto que temos aqui tudo quanto é preciso. Portanto, fiquei aqui mesmo. Não fui aprender o que sei de criaturas fabulosas, nem as engoli; tão pouco não pedi lições à coruja. Descobri tudo em minhas próprias meditações. Vamos ! Ponham sobre o fogão um caldeirão bem cheio d'água... Isso! Agora, mais lenha!  Aticem o fogo, até que a água ferva...É preciso que esteja fervendo! Agora - o espeto para dentro do caldeirão! Pronto! E agora - quer o nosso rei de ter a bondade de se dignar meter a cauda na água fervendo, e agitá-la com toda a força? Quanto mais agitar o rabo, mais saborosa ficará a sopa. Não se gasta nada... não é preciso mais ingrediente algum: é só mexer, e mexer.

- E não pode essa sopa ser mexida por outra pessoa? - indagou o rei.

- Não: só o rabo do rei tem a virtude de dar o toque necessário.

Fervia a água em borbotões. O rei dos ratos foi-se chegando para o tacho, com muito medo, porque aquilo lhe parecia perigoso; estendeu o rabo, como fazem os ratos na queijeira, para desnatar uma tigela de leite, lambendo depois com delícia a nata que ficou pegada á cauda. Mas assim que sentiu o arder do bafo, deu um salto e foi parar longe. E declarou:

- É claro que serás a rainha. Quanto á sopa... pode ficar para oferecemos aos convivas nas nossas bodas de ouro. Assim meus vassalos terão um prazer duradouro, com essa expectativa.

E o casamento celebrou-se, no mesmo dia.
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HANS CHRISTIAN ANDERSEN foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. Disponível em Domínio Público

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 24 *


Os aplausos me arrebatam!
Mas perdem toda a valia
quando os meus olhos constatam
tua poltrona vazia...
Almira Guaracy Rebelo
Belo Horizonte/MG
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Se há pedras na encruzilhada
do sucesso que procuras,
faze dela uma escada
para galgar as alturas
Antonio Valentim Rufatto
Bauru/SP
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Vou, saudoso e abandonado,
tão sozinho pela rua.,,
Meu olhar, enfeitiçado,
busca teu rosto na rua.
Auxiliadora de Carvalho Lago
Belo Horizonte/MG
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Querendo o mundo alegrar,
Deus juntou perfumes, cores,
e, para o poeta sonhar,
sorrindo criou as flores...
Célia Martins
Bauru/SP
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- "Onde está a felicidade?"
E sinto ouvir do Senhor:
" -Onde existir igualdade...
- e aonde existir o amor!"
Giovana Campos de Oliveira
Bauru/SP
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Das mensagens que mandaste
o tempo apagou as linhas,
mas lembranças que deixaste
jamais se apagam, são minhas...
Graziella Lydia Monteiro +
Belo Horizonte/MG
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Eis um conselho eficaz
que proclamo com fervor:
somente se encontra a paz
pelos caminhos do amor!
Hélio de Aguiar
Bauru/SP
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Um grande amor não se esquece!
Nada no mundo o destrói!...
- Quanto mais longe, mais cresce!
- Quanto mais perto, mais dói!
Helvécio Barros +
Bauru/SP
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No brilho do sol ardente,
que expressa tanta alegria,
eu faço do amor ausente
a volta da fantasia.
Ieda Marine Souza Oliveira
Belo Horizonte/MG
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Nossa vida é dom divino,
cabe-nos cuidá-la bem
com amor e muito tino;
vivenciá-la também...
Irma Rangel Martins
Bauru/SP
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Sem alarde, sem barulho,
procuro um mundo perfeito...
Não deixo que o véu do orgulho
cubra a humildade em meu peito.
Ivone Taglialegna Prado
Belo Horizonte/MG
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Canta, canta o bem-te-vi
procurando por seu par.
Por que eu nunca me atrevi
cantar para te encontrar?
José Marques
Bauru/SP
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Na estrada, a perder de vista,
não vou caminhando a esmo,
cada passo é uma conquista
para o encontro de mim mesmo.
José Roberto Pereira de Souza
Bauru/SP
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Para o encontro da esperança,
eu procuro, num segundo,
ser apenas a criança
que acreditava no mundo.
José Valeriano Rodrigues +
Belo Horizonte/MG
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Nos momentos de incerteza,
eu renovo a confiança
de transformar a tristeza
em motivo de esperança.
Lucília Cândida Sobrinho
Belo Horizonte/MG
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"O que machuca é a saudade";
é o que todo mundo diz -
Só não a sente, em verdade,
alguém que não foi feliz...
Lucy Rangel Fraga +
Bauru/SP
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Se tens culpa, nunca apontes
com teus dedos a ninguém.
Existem dedos aos montes
a te apontarem também.
Lucy Sother de Alencar Rocha +
Belo Horizonte/MG
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Encanto maior não há
que a pureza da criança
soletrando o beabá
na cartilha da esperança.
Luzia Aparecida João
Bauru/SP
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Uma lágrima sentida,
um sorriso, um bem-querer,
são detalhes de uma vida
que vale a pena viver!
Maria Dolores Paixão Lopes +
Belo Horizonte/MG
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Saudade! Guardo-a num lenço
que um dia orvalhei de pranto...
Tem o perfume do incenso:
misto de amargo e de santo!
Martinho de Abreu Carvalho +
Bauru/SP
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Sou poeta e trovador,
componho lodos os dias,
cantando alegria e dor
no compasso da Poesia.
Nelson Coimbra +
Bauru/SP
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Da placidez dos teus olhos,
negros como a escuridão,
encontrei, vencendo escolhas,
meu porto de salvação
Nidoval Reis +
Bauru/SP
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Toma o lenço. Enxuga o pranto...
Ninguém precisa saber
que, por amor, sofres tanto
e que eu te faço sofrer...
Pedro Coltro +
Bauru/SP
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Estamos nós dois juntinhos,
olhando o tempo passar,
felizes, nós dois, velhinhos.
que ainda somos um par!...
Perez Filho +
Bauru/SP
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É do romance envolvente
entre a terra e o lavrador
que a esperança da semente
se torna seara em flor.
Relva do Egypto Rezende Silveira
Belo Horizonte/MG
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Quando eu te encontrei na vida
vinha calmo e consolado:
e agora levo, querida,
o amor e a dor a meu lado
Rodrigues de Abreu +
Bauru/SP
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O dia estava passando
num silêncio tão profundo,
que escutei Deus conversando
do outro lado do mundo!...
Ronaldo Benevenuto +
Bauru/SP
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São testemunhas caladas
do nosso amor e carinho
as duas letras bordadas
no velho lençol de linho.
Thereza Costa Val +
Belo Horizonte/MG
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A vida nos faz promessas
de amor, sucesso, dinheiro;
nunca se sabe qual dessas
é descumprida primeiro...
Vânia Maria Menezes de Figueiredo
Bauru/SP
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Fonte:
Colaboração de Carolina Ramos.
Carolina Ramos (org.). A Trova: raízes e florescimento. Santos/SP: 3D Stúdio, 2013.

Raquel Pivetta (A família do século XXI)


A sociedade mudou. As famílias que eram tradicionalmente formadas pelo modelo nuclear (casal com filhos) estão ganhando novas configurações. É casal que não quer ter filho, é filho que não quer casar, é casal sem filhos que adota um animal de estimação, é família monoparental, é família reconstituída, é casal de pessoas do mesmo sexo, e assim são formadas as famílias modernas.

Atrelada a essa variedade de arranjos, uma realidade inevitável: famílias cada vez mais enxutas. Segundo o Censo do IBGE de 2022, a família brasileira encolheu, em média, para menos de três pessoas por domicílio.

Diante desse novo cenário de diversidade e flexibilidade, não dá para continuar com a mesma mentalidade de décadas atrás. Já deu para perceber que a sociedade está em constante movimento. É dinâmica. Muda em virtude de uma interação complexa de fatores econômicos, sociais, políticos, tecnológicos. É a mulher conquistando o mercado de trabalho, é o aumento do custo de vida, é a mudança nas normas e nas legislações de família, é a facilidade de acesso a informações.

Então, é preciso estar atento e adaptável às mudanças de tempo, às marés de transformação que movimentam a sociedade. É preciso compreender e aceitar esses fenômenos, sob pena de ser arrastado pelas ondas enquanto está mergulhado na inércia; ou, o que é pior, enquanto espera na fila do orelhão, impaciente, como este sujeito aí:

— Mas que canseira… — murmura seu Constantino. — Essa fila que não anda!

O tempo não para, o tempo corre, o tempo muda, o sol ressurge, e o seu Constantino se mantém estático na fila do orelhão, esperando a sua vez.
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RAQUEL MACHADO PIVETTA é uma cronista, revisora de textos e analista de sistemas contemporânea. Diferente de nomes canônicos e históricos do Modernismo (como Cecília Meireles), ela representa uma vertente de autores independentes que conciliam com maestria carreiras na área de tecnologia e exatas com a sensibilidade da escrita literária e o amor pela língua portuguesa. Vive e atua em Brasília. Graduou-se em Análise de Sistemas pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Especializou-se em Sistemas Orientados a Objetos pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Possui ampla experiência prática na área técnica, trabalhando com ferramentas de Business Intelligence (BI), Data Studio e Power BI. Unindo a lógica da tecnologia à paixão pela linguagem, buscou formação especializada e concluiu pós-graduação em Revisão de Texto também pelo UniCEUB. É a idealizadora e fundadora do portal e perfil intelectual Viva Gramática. O espaço nasceu do desejo de criar um ambiente digital leve para discutir a norma culta, compartilhar artigos, dicas de português e crônicas autorais fora dos moldes rígidos das gramáticas tradicionais.
Dedica-se predominantemente à crônica e a contos curtos. Sua escrita é marcada pelo tom confidencial, pelo uso de ironias finas e pela observação minuciosa do cotidiano, abordando a maturidade, as relações humanas e dilemas modernos. É vinculada ao ecossistema da Plataforma de Escritores iniciativa ligada ao programa Formação de Escritores e Oficinas de Escrita Criativa). Por ser uma autora contemporânea focada em publicações digitais, jornalísticas e independentes, Raquel não pertence às academias tradicionais de letras (como a ABL) e não possui registros de prêmios literários institucionais de grande porte históricos. Sua validação ocorre diretamente por meio de leitores digitais e coletividades literárias modernas.
É autora da obra Crônicas agudas, café sem açúcar e outras ironias, coletânea que sintetiza seu estilo literário focado em extrair humor e verdades das rotinas cotidianas; Crônicas Notórias: Entre seus textos amplamente divulgados em seu portal e redes estão: "A sina de Sara" (uma releitura contemporânea do clássico conto "Um homem célebre", de Machado de Assis); "Fogacho coletivo" (uma reflexão bem-humorada sobre a chegada aos cinquenta anos e a quebra de tabus femininos); "Ele tem suas virtudes"; "Só se for...".
A relevância de Raquel Pivetta reside em mostrar que as barreiras entre a lógica da computação e a sensibilidade da escrita criativa são perfeitamente transponíveis. Ela representa a nova geração de produtores de conteúdo que utiliza plataformas digitais para democratizar o acesso à boa literatura e ao uso correto da língua. Sua contribuição literária se dá na preservação da crônica — um gênero tipicamente brasileiro — adaptado aos tempos de redes sociais, provando que reflexões profundas e humor inteligente ainda encontram espaço em meio ao imediatismo da internet.

Fontes:
Viva Gramática. 09.12.2023
https://vivagramatica.com.br/a-familia-do-seculo-xxi/
Biografia: Viva Gramática, Plataforma de Escritores, Escrita Criativa, etc.

Cecília Meireles (A quinhentos metros)


A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!), mas, a quinhentos metros, tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa – e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.

Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, – bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas, para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para o outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista.

É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos chamásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas, que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram?

Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, com a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos dizer que existe. É como, nos mapas, o desenho de um rio que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos.

A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… – É assim em quinhentos metros!
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CECÍLIA BENEVIDES DE CARVALHO MEIRELES foi uma das mais importantes escritoras e poetas do Brasil, amplamente reconhecida como a voz feminina mais expressiva da segunda geração do Modernismo brasileiro. Marcou a história do país não apenas pela profundidade de seus versos metafísicos, mas também por sua atuação pioneira na educação e no jornalismo cultural. Nasceu em 1901, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1964 (aos 63 anos), vítima de câncer. Órfã de pai antes de nascer e de mãe aos 3 anos, foi criada por sua avó materna açoriana, Jacinta Garcia Benevides. Passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro (inclusive residindo no bairro do Cosme Velho). Devido ao seu prestígio intelectual, passou temporadas no exterior dando palestras e cursos, como na Universidade do Texas (EUA), além de viajar por Portugal, Índia, México, Israel e outros países das Américas. Formou-se professora primária em 1917 pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Lecionou no ensino básico e, mais tarde, foi professora de Literatura Luso-Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Em 1934, fundou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do Brasil. O espaço acabou fechado anos depois pela censura do regime de Getúlio Vargas. Escreveu intensamente sobre educação e cultura para jornais como o Diário de Notícias e produziu crônicas para programas da Rádio MEC e Rádio Roquette-Pinto.
Cecília estreou na literatura aos 18 anos com o livro Espectros (1919). Embora tenha surgido na época do Modernismo, sua poesia possuía características muito singulares. Teve forte influência do Simbolismo e Neosimbolismo (através do grupo da Revista Festa). Seus temas centrais giravam em torno da efemeridade do tempo, a solidão, a melancolia, a transitoriedade das coisas, o misticismo e a busca espiritual. Destacou-se pela musicalidade rigorosa e pelo uso de sinestesia (mistura de sentidos) em seus versos. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Cecília Meireles não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva — as mulheres só foram admitidas na instituição a partir de 1977. Contudo, manteve uma relação próxima com a ABL, que reconheceu oficialmente sua genialidade por meio de prêmios máximos. Ela fez parte de comissões de folclore e agremiações culturais pelo mundo. Prêmio de Poesia Olavo Bilac (1939) – Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo livro Viagem (foi a primeira mulher a receber uma distinção desse nível pela instituição). Título de Doutora Honoris Causa (1953) – Concedido pela Universidade de Délhi (Índia) em reconhecimento à sua relevância literária e traduções da obra de Rabindranath Tagore. Prêmio Jabuti de Poesia (1943/1964) – Pelo livro Solombra. Prêmio Machado de Assis (1965) – Concedido postumamente pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Cecília publicou mais de 50 obras ao longo da vida, englobando poesia, crônicas e literatura infantil:
Poesia Lírica/Metafísica: Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto (1945).
Obra-Prima Histórica: Romanceiro da Inconfidência (1953), um longo poema épico-narrativo que recria a história da Inconfidência Mineira com lirismo impecável.
Literatura Infantil: Ou Isto ou Aquilo (1964), um clássico absoluto da poesia para crianças, que explora a sonoridade e o lúdico sem o tom moralista da época.
Cecília rompeu barreiras em um cenário literário majoritariamente masculino, consolidando-se pelo puro rigor técnico e estético, sem precisar se prender a panfletarismos. Ela rejeitava o termo "poetisa" por considerá-lo segregador, definindo-se simplesmente como "poeta". Enquanto o Modernismo de 1922 buscava romper radicalmente com o passado, Cecília uniu a liberdade moderna com a tradição clássica e a musicalidade simbolista, criando um estilo único e atemporal. Foi responsável por humanizar o livro didático e a poesia infantil no Brasil, tratando a criança como um ser poético e inteligente. Sua poesia trata de dores humanas universais — o tempo que passa, a perda, o sonho —, o que faz com que sua obra continue atual, viva e traduzida no mundo inteiro.

Fontes:
Cecília Meireles, Rubem Braga, Fernando Sabino e Manuel Bandeira. Quadrante 1. Editora do Autor, 1962.
Biografia = Prefeitura Municipal de Caraguatatuba, de São Paulo, Brasil Escola, Wikipedia, Toda Materia, Grupo Ediotorial Global, Ebiografia, Museu da Educação, etc.

Interlúdio * 11 *



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JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Nelson Rodrigues (Terreno Baldio)


Ah, como é falsa a entrevista verdadeira! Não sei se me entendem. Eis o que eu queria dizer: — trabalho em jornal desde os treze anos e tenho 55 anos. Façam as contas. São 42 anos. Depois de 42 anos de redação, o sujeito acumulou uma experiência em nada inferior às obras completas de William Shakespeare. Posso ir à boca de cena, alçar a fronte e anunciar para a plateia: — “Eu vi tudo e sei tudo”. Não vejam imodéstia nas minhas palavras. Qualquer repórter de polícia, em fim de carreira, terá a mesmíssima vidência shakespeariana. O mérito não é nosso, mas estritamente profissional. E, depois de 42 anos de vida jornalística, posso repetir: — nada mais cínico, nada mais apócrifo do que a entrevista verdadeira.

Não me esquecerei nunca do meu primeiro entrevistado. Se não me engano, era o diretor da Casa da Moeda (ou seria da Imprensa Nacional?). Mas não importam os títulos do homem, nem suas funções. O entrevistado é sempre o mesmo, variando apenas de terno e de feitio de nariz. No mais, há uma semelhança espantosa. Nem importa o assunto. Seja batalha de confete, ou Hiroshima, um cano furado ou os Direitos do Homem. O que vale é o cinismo gigantesco. O sujeito não diz uma palavra do que pensa, ou sente. E o pior é o gesto, é a ênfase, é a inflexão. O diretor da Casa da Moeda, que também podia ser da Imprensa Nacional, recebeu-me no seu gabinete. Falou uma hora, ou mais. Hora e meia. Mas fosse um Bismarck e daria no mesmo. Ele se perfilava para falar, como se a sua palavra fosse o próprio Hino Nacional.

Fiz outras entrevistas, centenas, dezenas de entrevistas. E todas me deixaram a mesma sensação de cinismo. No fim de alguns anos, eis a minha certeza definitiva, inapelável: — ninguém devia ser entrevistado, nem os santos. Até que, um dia, na crônica, ocorreu-me a ideia das “entrevistas imaginárias”. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. Fascinou-me a “entrevista imaginária”. Precisava, porém, arranjar-lhe uma paisagem. Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências. Restava o problema do horário. Podia ser meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Nada do que se diz, ou faz, à meia-noite, é intranscendente. Boa hora para matar, para morrer ou, simplesmente, para dizer as verdades atrozes.

Fiz “entrevistas imaginárias” com jogadores, dirigentes de futebol, literatos. Ainda anteontem, o Antonio Callado foi meu convidado no terreno baldio. Mas eu sentia, de maneira obscura, quase dolorosa, que faltava alguém no capinzal. “Mas quem?” — eis o que me perguntava. — “Quem?” E, súbito, um nome ilumina minhas trevas interiores: — “D. Hélder!”. De todos os vivos ou mortos do Brasil, era ele o mais urgente, o mais premente. E, de mais a mais, uma batina é sempre paisagística. Ontem, finalmente, houve, no terreno baldio, a “entrevista imaginária”. À meia-noite, em ponto, chegava d. Hélder. Lá estava também a cabra, comendo capim, ou, melhor dizendo, comendo a paisagem. À luz do archote, começamos a conversar.  

Primeira pergunta: — “O senhor fuma, d. Hélder?”. 

Resposta: — “A entrevista é imaginária?”. 

Acho graça: — “Ou o senhor duvida?”. 

E d. Hélder: — “Se é imaginária, fumo. Qual é o teu?”. 

Digo: — “Caporal Amarelinho”. 

Cuspiu por cima do ombro: — “Deus me livre! Mata-rato!”. 

Faço a pergunta: — “Que notícias o senhor me dá da vida eterna?”. 

Riu: — “Rapaz! Não sou leitor do Tico-Tico nem do Gibi. Está-me achando com cara de vida eterna?”. 

No meu espanto, indago: — “E o senhor acredita em Deus? Pelo menos em Deus?”. 

O arcebispo abre os braços, num escândalo profundo: — “Nem o Alceu acredita em Deus. Traz o Alceu para o terreno baldio e pergunta”. Ele continuava: — “O Alceu acha graça na vida eterna. A vida eterna nunca encheu a barriga de ninguém”.

D. Hélder falava e eu ia taquigrafando tudo. Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real. 

E disse mais: — “Vocês falam de santos, de anjos, de profetas, e outros bichos. Mas vem cá. E a fome do Nordeste? Vamos ao concreto. E a fome do Nordeste?”. 

Não me ocorreu nenhum outro comentário senão este:  — “A fome do Nordeste é a fome do Nordeste”. 

D. Hélder estende a mão: — “Dá um dos teus mata-ratos”. 

Acendi-lhe o cigarro.  

D. Hélder não pára mais: — “Diz cá uma coisa, meu bom Nelson. Você já viu um santo, uma santa? Por exemplo: — Joana D’Arc. Já viu a nossa querida Joana D’Arc baixar no Nordeste e dar uma bolacha a uma criança? As crianças lá morrem como ratas. E o que é que esse tal de São Francisco de Assis fez pelo Nordeste? Conversa, conversa!”.

Lanço outra isca: — “É verdade que o senhor vai para o Amazonas?”. 

Riu: — “Onde fica esse troço? Ó rapaz!  Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão? E o Amazonas é terra de jacaré. Tenho cara de jacaré?”. 

Concordo em que ele não tem nenhuma semelhança física com um jacaré. Indago: — “E o comunismo?”. 

D. Hélder conta: — “Quando estive nos Estados Unidos, bolei um cartaz assim: O arcebispo vermelho! Era eu o arcebispo vermelho, eu!”. 

Insinuei a dúvida: — “Mas esse negócio de comunismo é meio perigoso”. 

Nova risada: — “Perigosa é a direita. A direita é que não dá mais nada. O arcebispo vermelho fez um sucesso tremendo nos Estados Unidos”.

Pede outro cigarro. Fez novas confidências: — “Sou homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do Sobrenatural. Fui um santo. É o que lhe digo: — cada época tem seus padrões. Benjamim Costallat, no seu tempo, era o Proust. O Charleston já foi a grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem da vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costallat, nem o Charleston. Entende? É Guevara. O santo é Guevara. E acompanho a moda”. 

Desfechei-lhe a pergunta final: — “E a Presidência da República?”. 

D. Hélder respira fundo: — “Depende. A fome do Nordeste é o barril de pólvora balcânico. Fome, mortalidade infantil, muita miséria e cada vez maior. Chegarei lá”. 

Era o fim da “entrevista imaginária”. 

Despedi-me assim: — “Até logo, presidente”. 

Respondeu: — “Obrigado, irmão”. 

E antes de partir fez a última declaração: — “Olha, as donas de casa têm uma simpatia para curar dor de barriguinha em criança. Acredito mais na simpatia do que na ressurreição de Lázaro”. 

Disse isso e sumiu na treva.
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NELSON FALCÃO RODRIGUES foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas e escritores do Brasil, revolucionando o teatro nacional com seu estilo provocativo e realista. Nasceu em 1912, no Recife (PE) e faleceu em 1980, no Rio de Janeiro (RJ), aos 68 anos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916, quando tinha quatro anos. Viveu na zona norte carioca, em bairros como Aldeia Campista e Tijuca, locais que serviram de cenário e inspiração para suas futuras obras de "crônicas de costumes". Começou a trabalhar aos 13 anos como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã. Inovou o jornalismo de futebol, trazendo drama e paixão para as crônicas esportivas. Escreveu para grandes jornais como O Globo, Última Hora e Manchete Esportiva.
É considerado o pai do teatro moderno brasileiro. Sua importância reside na ruptura com o teatro clássico e na introdução do subconsciente humano nos palcos, misturando tragédia, obsessões e o cotidiano da classe média. Ele dividiu sua própria obra teatral em três categorias: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
Não pertenceu à Academias, costumava ironizar as formalidades acadêmicas. Recebeu o Prêmio de Teatro do PEN Clube do Brasil e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Sua produção literária abrangeu o teatro, romances e crônicas:
Mulher sem Pecado (1941) – Estreia no teatro; Vestido de Noiva (1943) – O grande marco do teatro moderno; Álbum de Família (1946) – Teatro; A Falecida (1953) – Teatro; Beijo no Asfalto (1960) – Teatro; Toda Nudez Será Castigada (1965) – Teatro.  
Romances e Crônicas: Meu Destino é Pecar (1944) – Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag; Asfalto Selvagem / Engraçadinha (1959); A Vida Como Ela É... (1961) (Coletânea de crônicas publicadas originalmente no jornal).

Fontes:
Nelson Rodrigues. A cabra vadia. Publicado em 1970. A crônica aparecera anteriormente no jornal carioca Correio da Manhã, em 1967.
Biografia – Wikipedia, Teatro Limeira, Ebiografia, Renato Essenfelder, Jornal da USP, Museu do Futebol, Folha de São Paulo, Itaú Cultural, et