terça-feira, 29 de setembro de 2026

Clarice Lispector (A Língua do P)

Maria Aparecida – Cidinha, como a chamavam em casa – era professora de inglês. Nem rica nem pobre: remediada. Mas vestia-se com apuro. Parecia rica. Até suas malas eram de boa qualidade.

Morava em Minas Gerais e iria de trem para o Rio, onde passaria três dias, e em seguida tomaria o avião para Nova Iorque.

Era muito procurada como professora. Gostava da perfeição e era afetuosa, embora severa. Queria aperfeiçoar-se nos Estados Unidos.

Tomou o trem das sete horas para o Rio. Frio que fazia. Ela com casaco de camurça e três maletas. O vagão estava vazio, só uma velhinha dormindo num canto sob o seu xale.

Na próxima estação subiram dois homens que se sentaram no banco em frente ao banco de Cidinha. O trem em marcha. Um homem era alto, magro, e bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca. Eles olharam para Cidinha. Esta desviou o olhar, olhou pela janela do trem.

Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade?

Então os dois homens começaram a falar um com o outro. No começo Cidinha não entendeu palavra. Parecia brincadeira. Falavam depressa demais. E a linguagem parecia-lhe vagamente familiar. Que língua era aquela?

De repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do “p”. Assim:

- Vopocê reperaparoupou napa mopoçapa boponipitapa?

- Jápá vipi tupudopo. Épé linpindapa. Espestápá nopo papapopo.

Queriam dizer: você reparou na moça bonita? Já vi tudo. É linda. Está no papo.

Cidinha fingiu não entender: entender seria perigoso demais. A linguagem era aquela que usava, quando criança, para se defender dos adultos. Os dois continuaram:

- Queperopo cupurrapar apa mopoçapa. Epe vopocêpê ?

- Tampambémpém. Vapaipi serper nopo tupunelpel.

Queriam dizer que iam currá-la no túnel…O que fazer? Cidinha não sabia e tremia de medo. Ela mal se conhecia. Aliás nunca se conhecera por dentro. Quanto a conhecer os outros, aí e que piorava. Me socorre, Virgem Maria! Me socorre! Me socorre!

- Sepe repesispis tirpir popodepemospos mapatarpar epelapa.

Se resistisse podiam matá-la. Era assim então.

- Compom umpum pupunhalpal. Epe roupoubarpar epelapa.

Matá-la com um punhal. E podiam roubá-la.

Como lhes dizer que não era rica? Que era frágil, qualquer gesto a mataria. Tirou um cigarro da bolsa para fumar e acalmar-se. Não adiantou. Quando seria o próximo túnel? Tinha que pensar depressa, depressa, depressa.

Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.

Então levantou a saia, fez trejeitos sensuai s- nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra. Os homens de súbito espantados.

- Tápá dopoipidapa.

Está doida, queriam dizer.

E ela a se requebrar que nem sambista do morro. Tirou da bolsa o batom e pintou-se exageradamente. E começou a cantarolar.

Então os homens começaram a rir dela. Achavam graça na doideira de Cidinha. Esta desesperada. E o túnel?

Apareceu o bilheteiro. Viu tudo. Não disse nada. Mas foi ao maquinista e contou. Este disse:

- Vamos dar um jeito, vou entregar ela pra polícia na primeira estação.

E a próxima estação veio.

O maquinista desceu, falou com um soldado por nome José Lindalvo. José Lindalvo não era de brincadeira. Subiu no vagão, viu Cidinha, agarrou-a com brutalidade pelo braço, segurou como pôde as três maletas, e ambos desceram.

Os dois homens às gargalhadas.

Na pequena estação pintada de azul e rosa estava uma jovem com uma maleta. Olhou para Cidinha com desprezo. Subiu no trem e este partiu.

Cidinha não sabia como se explicar ao polícia. A língua do “p” não tinha explicação. Foi levada ao xadrez e lá fichada. Chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias. Deixavam-na fumar. Fumava como uma louca, tragando, pisando o cigarro no chão de cimento. Tinha uma barata gorda se arrastando no chão.

Afinal deixaram-na partir. Tomou o próximo trem para o Rio. Tinha lavado a cara não era mais prostituta. O que a preocupava era o seguinte: quando os dois homens haviam falado em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopoupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa.

Chegou ao Rio exausta. Foi para um hotel barato. Viu logo que havia perdido o avião. No aeroporto comprou a passagem.

E andava pelas ruas de Copacabana, desgraçada ela, desgraçada Copacabana.
Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal “O Dia”. Não saberia dizer por que comprou.

Em manchete negra estava escrito: “Moça currada e assassinada no trem”.

Tremeu toda. Acontecera, então. E com a moça que a despreazara.

Pôs-se a chorar na rua. Jogou fora o maldito jornal.

Não queria saber dos detalhes. Pensou:

- Épé. Opo despestipinopo épé impimplaplacápávelpel. O destino é implacável.
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Clarice Lispector (1920 - 1977)
CLARICE LISPECTOR (Chaya Pinkhasivna Lispector) foi uma das escritoras mais importantes, originais e influentes da história da literatura em língua portuguesa. Associada à Terceira Geração do Modernismo Brasileiro (Geração de 45), ela revolucionou a ficção nacional ao trocar as narrativas focadas em fatos externos por mergulhos profundos e psicológicos na alma humana. Nasceu em 1920, na aldeia de Chechelnyk, na Ucrânia. Sua família, de origem judaica, fugia dos horrores da Guerra Civil Russa e da perseguição antissemita. Ela chegou ao Brasil ainda bebê, com poucos meses de vida. Clarice sempre se declarou profundamente brasileira e pernambucana. Faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário.
Embora tenha se formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1943, Clarice nunca exerceu a advocacia. Trabalhou como redatora e repórter em veículos como a Agência Nacional, Diário da Noite e Correio da Manhã. Sob os pseudônimos de Helen Palmer e Ilka Soares, escreveu crônicas e conselhos de beleza, moda e comportamento para o público feminino em jornais da época. Dominando vários idiomas, traduziu grandes autores internacionais para o português, incluindo Agatha Christie, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Ao se casar com o diplomata Maury Gurgel Valente, viveu quase duas décadas no exterior (Estados Unidos, Itália, Suíça e Inglaterra), dedicando-se à escrita e aos deveres sociais da função do marido.
A estreia de Clarice na literatura foi um verdadeiro terremoto cultural. Ao longo de sua carreira, construiu uma obra vasta que abrangeu romances, contos, crônicas e literatura infantil. Em 1943, publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. A obra recebeu aclamação imediata da crítica pelo estilo inovador, que rompia com o regionalismo realista que dominava a época. Seus textos ficaram marcados pelo conceito de "epifania" — momentos em que ações banais do dia a dia (como olhar para um cego mascando chiclete ou quebrar um ovo) disparam crises existenciais profundas em seus personagens. Consagrou-se com livros fundamentais como Laços de Família (1960 - contos), A Paixão segundo G.H. (1964 - romance) e Água Viva (1973). Seu último livro publicado em vida foi A Hora da Estrela (1977). A obra narra a comovente e trágica história de Macabéa, uma datilógrafa nordestina invisível na metrópole do Rio de Janeiro.
A relevância de Clarice Lispector para a literatura mundial é monumental por redefinir a própria forma de contar histórias:
Foi pioneira no Brasil ao utilizar de forma radical o fluxo de consciência e o monólogo interior. A trama física importa pouco em seus livros; o verdadeiro cenário da ação é o pensamento caótico e subjetivo dos personagens; Muito antes dos debates contemporâneos, ela expôs o sufocamento da mulher burguesa presa aos papéis tradicionais de esposa e mãe (como visto nos contos de Laços de Família), revelando a angústia oculta atrás da normalidade doméstica; Clarice não usava as palavras apenas para descrever coisas, mas para criar sensações físicas e filosóficas. Sua escrita é poética, enigmática e quebra a lógica gramatical tradicional para tentar traduzir o que é "inexpressável".

Fonte:
LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Publicado originalmente em 1974.

Cecília Meireles (Natal na Ilha do Nanja)

Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam “substantivos próprios” e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim. Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade.

Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria. Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: “Boas Festas! Boas Festas!” E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel...

É como se a Ilha toda fosse um presépio. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol! Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.

Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.

É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.
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Cecília Meireles (1901 - 1964)
CECÍLIA BENEVIDES DE CARVALHO MEIRELES foi uma das mais importantes escritoras e poetas do Brasil, amplamente reconhecida como a voz feminina mais expressiva da segunda geração do Modernismo brasileiro. Marcou a história do país não apenas pela profundidade de seus versos metafísicos, mas também por sua atuação pioneira na educação e no jornalismo cultural. Nasceu em 1901, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1964 (aos 63 anos), vítima de câncer. Órfã de pai antes de nascer e de mãe aos 3 anos, foi criada por sua avó materna açoriana, Jacinta Garcia Benevides. Passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro (inclusive residindo no bairro do Cosme Velho). Devido ao seu prestígio intelectual, passou temporadas no exterior dando palestras e cursos, como na Universidade do Texas (EUA), além de viajar por Portugal, Índia, México, Israel e outros países das Américas. Formou-se professora primária em 1917 pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Lecionou no ensino básico e, mais tarde, foi professora de Literatura Luso-Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Em 1934, fundou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do Brasil. O espaço acabou fechado anos depois pela censura do regime de Getúlio Vargas. Escreveu intensamente sobre educação e cultura para jornais como o Diário de Notícias e produziu crônicas para programas da Rádio MEC e Rádio Roquette-Pinto.
Cecília estreou na literatura aos 18 anos com o livro Espectros (1919). Embora tenha surgido na época do Modernismo, sua poesia possuía características muito singulares. Teve forte influência do Simbolismo e Neosimbolismo (através do grupo da Revista Festa). Seus temas centrais giravam em torno da efemeridade do tempo, a solidão, a melancolia, a transitoriedade das coisas, o misticismo e a busca espiritual. Destacou-se pela musicalidade rigorosa e pelo uso de sinestesia (mistura de sentidos) em seus versos. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Cecília Meireles não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva — as mulheres só foram admitidas na instituição a partir de 1977. Contudo, manteve uma relação próxima com a ABL, que reconheceu oficialmente sua genialidade por meio de prêmios máximos. Ela fez parte de comissões de folclore e agremiações culturais pelo mundo. Prêmio de Poesia Olavo Bilac (1939) – Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo livro Viagem (foi a primeira mulher a receber uma distinção desse nível pela instituição). Título de Doutora Honoris Causa (1953) – Concedido pela Universidade de Délhi (Índia) em reconhecimento à sua relevância literária e traduções da obra de Rabindranath Tagore. Prêmio Jabuti de Poesia (1943/1964) – Pelo livro Solombra. Prêmio Machado de Assis (1965) – Concedido postumamente pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Cecília publicou mais de 50 obras ao longo da vida, englobando poesia, crônicas e literatura infantil:
Poesia Lírica/Metafísica: Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto (1945).
Obra-Prima Histórica: Romanceiro da Inconfidência (1953), um longo poema épico-narrativo que recria a história da Inconfidência Mineira com lirismo impecável.
Literatura Infantil: Ou Isto ou Aquilo (1964), um clássico absoluto da poesia para crianças, que explora a sonoridade e o lúdico sem o tom moralista da época.
Cecília rompeu barreiras em um cenário literário majoritariamente masculino, consolidando-se pelo puro rigor técnico e estético, sem precisar se prender a panfletarismos. Ela rejeitava o termo "poetisa" por considerá-lo segregador, definindo-se simplesmente como "poeta". Enquanto o Modernismo de 1922 buscava romper radicalmente com o passado, Cecília uniu a liberdade moderna com a tradição clássica e a musicalidade simbolista, criando um estilo único e atemporal. Foi responsável por humanizar o livro didático e a poesia infantil no Brasil, tratando a criança como um ser poético e inteligente. Sua poesia trata de dores humanas universais — o tempo que passa, a perda, o sonho —, o que faz com que sua obra continue atual, viva e traduzida no mundo inteiro.

Fontes:
Cecília Meireles. “Quadrante 1”. RJ: Editora do Autor, 1966.
Biografia = Prefeitura Municipal de Caraguatatuba, de São Paulo, Brasil Escola, Wikipedia, Toda Materia, Grupo Ediotorial Global, Ebiografia, Museu da Educação, etc. 

Denise Emmer (Caderno de Poesias)

 

O MEU ESTRANHO AMOR

Um espectro que passa enquanto chora
Por minha ausência ele se consome

E quando chega vem como quem some
E bate as asas universo afora

É o meu estranho amor que longe mora
E dorme no altar da cabeceira

Quando me ama arde sem fogueira
Para partir na arca da memória

Foge com o sol e leva nossa estória
Tão docemente me acena uma vertigem

Sequências de montanhas impossíveis
Escarpas adversas giratórias

Quando ele chega o mundo é uma sala acesa
O seu sorriso ofusca a cena da aurora

Não tarda ele se cala e vai embora
Para morar na plácida tristeza.
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O BEIJO

Levou-me sem feitas frases
Somente passo e camisa
Roubou-me um beijo de brisa
Na quadratura da tarde

Jogou-me contra a parede
Rasgou-me a blusa de linho
Roubou-me um beijo de vinho
Diante das aves vesgas

Puxou-me para seu fundo
Rompeu a rosa pirâmide
Roubou-me um beijo de sangue
E bateu asas no mundo.
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VIAS AVESSAS

Chegas por vias avessas escuto teus passos surdos
Deuses que movimentam a incoerência do mundo
Regem relógios quietos de horas que não existem
Feliz a insanidade das multidões irascíveis

Se há mares em teus abraços mergulho em sóis afundados
Decifro a nova linguagem que inutiliza tratados
E despedaça países fundidos em calmarias
O amor desgoverna os ventos assombros em abadia

Viajo os rumos trocados as ruas que se invertem
Distâncias que se encontram pernas que se perseguem
Olhos que confabulam dentro de rios quentes
Percebo outras cidades nos vãos de uma nova lente

O que me faz alcançar as caravelas aéreas
Andaimes velozes cumes a indizível matéria
São teus incêndios a luz que espalhas pelo Universo
E por meu corpo acendendo meus lampiões submersos.
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À NOITE

A noite ela se embriaga
e vai bailar nos espaços
usando um traje de pássaros
viaja para o infinito

abro a janela do mundo
e já não vejo seu rastro
me leva lagoa lua
à grande festa das águas

em que outra madrugada
esconderás teu espelho

nas esquinas que não vejo
onde a noite vira asa?
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SINAL DE ALERTA

Faça a noite que faça
as fábricas soltam fumaça
e como avistar quem passa
através de um claro vidro?

Os operários levitam
seus espíritos vencidos
ao cume das chaminés;
que flutuam ente os telhados
marés de moços causados
qual uma cinza tristeza.

E esta pálida natureza
vai colorindo de morte
os jardins de nossos filhos
os fios de nossos pássaros.

E enquanto as mulheres abraçam
crianças de olhos fundos
vão se calando o mundo
como um velho homem com tosse.

Tão curvado e solitário
um moribundo canário
canta a manhã da cidade
que a todo dia reage.
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AS GALÁXIAS

As galáxias
se expandem
e nem ouvimos
seus gritos

os labirintos
se aprofundam
sem que saibamos
seus números
esperamos
que um cão azul
decifre
o infinito

e que nos esclareça
a álgebra
do abismo

a lógica
do insondável

a física
do ilimitado.

Por que é tão dramática
a visão de um céu estrelado?
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NOITE MAGA

Andei contigo nas dunas
Nas páginas das areias
Pensei avistar sereias
Mas eram sóbrias escunas

E ao perguntar quem eras
O mar moveu seus navios
Olharam-se as éguas no cio
Voaram fêmeas sem sela

Enquanto me assombravas
Os sais trocavam segredos
Abraçava-me com medo
Torpor, o que me falavas

Então comecei morrer
Por rua mão de veludo
Que me levava entre surdos
No tênue amanhecer

Desmanches de beijo e vício
Aroma de folha e chuva
Teu sorriso atrás da curva
Na ponta do precipício

Longe vai a noite maga
Em seu palácio estranho
Não te decifro és sonho
A povoar minhas águas.
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TARDE NO MAR

Tarde e moleza marolas e mascavo
Nada suponho nada sei nada respondo
Não sei o nome do mundo
E seu patrono

Leio jornais em branco folhas velhas
Cartas passadas notícias reviradas
Do que me valem as novas utopias
Se o que me traz o mar
É uma garrafa vazia.
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NAVIOS

Venho ao cais esperar navios
Sucedem-se as altas vagas
Aceno sinais de estio
Às vésperas adiadas

Te aguardo e quando te espreito
Arrastam-se os segundos
O vento esticou o mundo
Nos cárceres dos estaleiro

Passam veios, horas largas
Nenhum sinal de teu fardo
Busco-te a cada entrada
O que me passas – passado.
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Denise Emmer (1958)
DENISE EMMER DIAS GOMES GERHARDT nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1958. Filha de dois dos maiores dramaturgos e escritores da história do país: Janete Clair e Dias Gomes. Toda a sua base de vida, formação e atuação se concentra na cidade do Rio de Janeiro, embora tenha uma forte ligação com as regiões serranas fluminenses (como Petrópolis) e áreas de montanhismo. Construiu uma carreira sólida e diversa. Graduou-se em Física pela Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE) e possui pós-graduação em Filosofia pela UFRJ. No campo musical, formou-se em Violoncelo pelo Conservatório Brasileiro de Música. Profissionalmente, atua como violoncelista (tendo integrado a Orquestra Rio Camerata), compositora e cantora. No fim dos anos 1970, alcançou enorme projeção nacional ao interpretar a canção "Alouette", que foi tema da novela Pai Herói e lhe rendeu um Disco de Ouro.
Embora tenha iniciado pela música, sua transição para a literatura consolidou-se a partir de 1976 com o lançamento de seu primeiro livro. Na década de 1980, afastou-se temporariamente das gravações fonográficas para se dedicar integralmente à poesia. Sua obra literária é marcada por um lirismo profundo, que muitas vezes mescla o rigor e a estrutura cósmica de sua mente de física com a sensibilidade musical de violoncelista, flertando com o realismo mágico e temas existenciais. Não ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas é intimamente ligada e amplamente reconhecida pela instituição, que já lhe concedeu várias de suas honrarias mais importantes. Ela faz parte de respeitadas entidades literárias, com destaque para o PEN Clube do Brasil (onde também foi premiada). Seu trabalho é amplamente laureado no Brasil e no exterior. Entre os seus prêmios mais importantes estão: Prêmio Olavo Bilac (Academia Brasileira de Letras); Prêmio ABL de Poesia (2009); Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte); Prêmio Internacional José Martí (Unesco); Prêmio Alceu Amoroso Lima Poesia e Liberdade (2021); Prêmio Nacional de Literatura do PEN Clube do Brasil
Autora de uma vasta produção que ultrapassa 20 volumes publicados entre poesia, romances e contos, destacam-se: Geração Estrela (1976) — Estreia literária; Invenção para uma Velha Musa (1990); Memória da Montanha; Lampadário (2008); Discurso para Desertos (2018); O Amor Imaginário (2022); O Barulho do Fim do Mundo (2023) — Romance aclamado pela crítica; Só os Loucos Batem Palmas para o Céu (2025) — Livro de contos em prosa poética.
A relevância de Denise Emmer reside na sua capacidade de dissolver as fronteiras entre diferentes linguagens artísticas e científicas. Ela não é apenas uma escritora que faz versos; sua poesia carrega a métrica e a harmonia da música erudita (o ritmo do violoncelo) combinadas com as metáforas abstratas e grandiosas do cosmos herdadas da física (como o conceito de entropia explorado em sua prosa). Em um cenário contemporâneo muitas vezes factual, a escrita de Denise preserva a força do lirismo puro e resgata a tradição do realismo mágico latino-americano, dando voz ao assombro da finitude humana, à solidão e à natureza de forma singular e sofisticada.

Fontes:
Teatro dos elementos, 1993; Cantares de amor e abismo, 1995; Canções de acender a noite, 1982; O Inventor de enigmas, 1998; Lampadário, 2008.
Biografia = Wikipedia, Dicionário MPB, Por Onde Canta, O Globo, Record, Recanto do Poeta, Revista Forum, Antonio Miranda, Academia Brasileira de Letras, etc.

Arthur de Azevedo (Assunto para um Conto)

Como sou um contador de histórias, e tenho que inventar um conto por semana, sendo, aliás, menos infeliz que Scherazade, porque o público é um sultão Shariar menos exigente e menos sanguinário que o das Mil e Urna Noites, sou constantemente abordado por indivíduos que me oferecem assuntos, e aos quais não dou atenção, porque eles em geral não têm uma ideia aproveitável.

Entre esses indivíduos há um funcionário aposentado, que na sua roda é tido por espirituoso, o qual, todas as vezes que me encontra, obriga-me a parar, diz-me, invariavelmente, que estou ficando muito preguiçoso, e, com um ar de proteção, o ar de um Mecenas desejoso de prestar um serviço que aliás não lhe foi pedido, conclui, também invariavelmente:

- Deixe estar, que tenho um magnífico assunto para você escrever um conto! Qualquer dia destes, quando eu estiver de maré, lá lh'o mandarei.

Há dias, tomando o bonde para ir ao Leme espairecer as ideias, sentei-me por acaso ao lado do meu Mecenas, que na forma do costume começou por invectivar a minha preguiça, e prosseguiu assim:

- Creio que já lhe disse que tenho um assunto para o amiguinho escrever um conto...

- Já m'o disse mais de vinte vezes!

- Qualquer dia lá lh'o mandarei.

- Não! Há de ser agora! O senhor tem me prometido esse assunto um rol de vezes, e não cumpre a sua promessa. Nós vamos a Copacabana, estamos ao lado um do outro, temos multo tempo... Venha o assunto!...

- Não; agora não!

- Pois há de ser agora, ou então convenço-me de que tal assunto não existe, e o senhor mentiu todas as vezes que m'o prometeu!

- Ora essa!

- Sim, que o senhor tem feito como aquele cidadão que prometia ao Eduardo
Garrido, todas as vezes que o encontrava, um calembour para ser encaixado na primeira peça que ele escrevesse. Até hoje o Garrido espera pelo calembour!

- Eu tenho o assunto do conto, explicou o Mecenas, mas queria escrevê-lo...

- Para quê? Basta que m'o exponha verbalmente.

- Então lá vai: é a história de uma herança falsa, um sujeito residente na Espanha escreve a outro sujeito residente no Rio de Janeiro uma carta dizendo
que morreu lá um homem podre de rico, chamado, por exemplo, D. Ramon, e que esse homem não deixou herdeiros conhecidos: a herança foi toda recolhida pela nação; mas o tal sujeito residente na Espanha, que é um finório, manda dizer ao tal sujeito residente no Rio de Janeiro, que é um simplório, que existem aqui herdeiros, cujos nomes ele não revelará ao simplório sem que este mande pelo correio tantas mil pesetas. O simplório manda-lhe o dinheiro, e fica eternamente à espera dos nomes dos herdeiros. - Que tal?

- Muito bom!

- Você não acha aproveitável este assunto?

- Acho-o magnífico, interessantíssimo, espirituoso! Tanto assim que vou escrever o conto e publicá-lo no próximo número d'O Século!

- Ora, ainda bem! Quando lhe faltar assunto, venha bater-me à porta: o que não me falta é imaginação!

- Muito obrigado; não me despeço do favor.

Como vê o leitor, aproveitei o assunto do imaginoso Mecenas.
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Arthur de Azevedo (1855 – 1908)
ARTHUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO (conhecido universalmente como Arthur de Azevedo) foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas, poetas e contistas do Brasil. Irmão do célebre romancista Aluísio de Azevedo, ele se consagrou como a figura central e mais popular do teatro brasileiro na transição do século XIX para o XX, sendo o grande mestre do Teatro de Revista e da comédia de costumes. Nasceu em 1855, em São Luís/MA, e faleceu aos 53 anos, em 1908, no Rio de Janeiro. Passou a infância e a juventude no Maranhão. Em 1873, aos 18 anos, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro (então capital do Império), onde residiu e produziu intensamente até o fim da vida. Em São Luís, trabalhou no comércio e como amanuense (copista) na Secretaria de Governo. No Rio de Janeiro, ingressou como funcionário público no Ministério da Agricultura. Deixou o funcionalismo para viver exclusivamente de sua produção escrita. Foi um jornalista incansável, tendo fundado e dirigido publicações marcantes como A República e O Diário de Notícias. Colaborou também com O Paiz, Gazeta de Notícias e A Estação. Usava suas colunas diárias para analisar espetáculos, traduzir peças estrangeiras e defender apaixonadamente a profissionalização e a valorização dos artistas nacionais.
Escreveu cerca de 4.000 crônicas, centenas de contos, poesias líricas e satíricas, e mais de 100 peças teatrais (entre comédias, dramas, operetas e revistas). Teve papel crucial na fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Foi membro fundador e ocupou a Cadeira nº 29, escolhendo como patrono o também dramaturgo Martins Pena. Em sua época, os maiores prêmios eram o estrondoso sucesso de bilheteria nos teatros e o reconhecimento crítico nos jornais. Arthur de Azevedo era o autor mais encenado e aplaudido do país, considerado uma verdadeira unanimidade popular.
Devido à sua enorme produção para os palcos e jornais, muitas de suas obras foram reunidas em volumes ao longo do tempo ou publicadas como folhetos de cordel e libretos teatrais: 
A Capital Federal (1897) — Sua obra-prima, uma comédia hilária sobre as transformações urbanas do Rio de Janeiro; O Mambembe (1904) — Uma belíssima e cômica homenagem à vida das companhias de teatro itinerantes; O Badejo (1886). Contos Efêmeros (1897); Contos Cariocas (1928, publicação póstuma); Carapuças (1878) — Poesias satíricas; Sonetos (1876).
A relevância de Arthur de Azevedo para a cultura brasileira é inestimável porque ele moldou a identidade do teatro brasileiro. Ao lado de Martins Pena, tirou os palcos da dependência cega de melodramas franceses, criando uma dramaturgia autenticamente brasileira, focada no cotidiano, na fala e nos tipos humanos do Rio de Janeiro. Elevou o gênero da "revista de ano" (espetáculos musicais que satirizavam os acontecimentos do ano anterior) a um patamar de alta qualidade literária e humor refinado, influenciando toda a comédia musical brasileira do século XX. Dedicou as últimas décadas de sua vida a uma intensa campanha jornalística para que a capital federal construísse um grande teatro público. Infelizmente, faleceu poucos meses antes da inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (em 1909), que hoje abriga um busto em sua homenagem.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos possíveis. Publicado originalmente em 1908.

Estante de Livros (“Relato de um Certo Oriente”, de Milton Hatoum)

A obra de estreia do escritor amazonense Milton Hatoum, Relato de um certo Oriente, nasceu em 1989, quando o autor apresentou à então editora da Companhia das Letras, Maria Emília Bender, o manuscrito de seu livro. Aprovado por Luiz Schwarcz, proprietário da Cia das Letras, o romance foi finalmente publicado, depois de um longo percurso de escrita, iniciado em 1982, na capital francesa. Busca mostrar as dificuldades presentes na convivência diária de familiares e amigos entre si, com seus diferentes segredos e comportamentos, faz deste um grande enredo.

O romance mostra que o refúgio da memória é a interioridade do indivíduo, reduzido e isolado na sua própria história, quase que incomunicável com outro mundo que não seja o dele.

A memória, a identidade e a reconstituição de lembranças são os temas principais deste romance. A personagem protagonista consegue, por meio da rememoração de seu passado e com a ajuda das lembranças de outros, enriquecer sua vida, dar sentido e valor à sua origem.

A (re)construção do passado é interessante, pois a narradora utiliza de diferentes recursos para reanimá-lo, seja por um odor, seja por uma voz, seja por um lugar. Esses e outros recursos são utilizados como meios de recuperar a memória perdida.

O enredo do romance é uma tessitura de retalhos narrativos que se alinham em oito capítulos. São várias histórias que se entrelaçam e se completam, lembrando assim o estilo da narrativa oral. Estas várias narrações, que em muito lembram a estrutura das Mil e Uma Noites, se desenrolam em um cenário que lembra constantemente as estruturas de passagem que compõem a existência humana.

A trama se passa numa cidade marcada pelo hibridismo cultural e atravessada pelas ideias de fronteira e trânsito: Manaus, uma capital que se separa da floresta pelas águas fluviais e se situa num estado que faz divisa com três outros países. Ela também é a cidade natal do escritor. No livro também estão presentes a diversidade de costumes, línguas, e a convivência entre indivíduos de diferentes nacionalidades.

Nesta busca incansável da personagem principal por sua identidade e suas origens, em uma Manaus que é mais margem do que propriamente uma metrópole, apesar de ser a capital amazonense, o leitor vai desvelando junto com a protagonista um passado repleto de segredos e revelações inimagináveis, relembrando e descobrindo histórias do seu passado e da família que a criou.

Retornando a Manaus, após estar internada em uma clínica de repouso em São Paulo, a narradora chega na noite que precede o dia da morte de Emilie, sua mãe adotiva.

Inicia-se, então, o trabalho de recuperar Emelie através da memória, não apenas a sua, mas também a de outros personagens que entrelaçaram seu percurso de forma significativa ao daquela família: o filho mais velho, o único a aprender o árabe e que também irá se distanciar de todos, ao mudar-se para o sul; o alemão Dorner, amigo da família e fotógrafo; o marido de Emelie, recuperado, mesmo depois de morto, através da memória de Dorner, e Hindié Conceição, amiga sempre presente, a partilhar com a conterrânea a solidão da velhice. Muitas vozes a compor um mosaico, nem sempre ordenado, nem sempre claro naquilo que revela, mas sobretudo rico em pequenos detalhes de extrema significação.

No intuito de enviar uma carta ao irmão, que se encontra em Barcelona, a fim de lhe revelar a morte de Emilie, escreve um relato com depoimento de membros da família e de amigos, conforme o irmão lhe pedira na última correspondência que lhe enviara. Esses testemunhos proporcionam uma verdadeira viagem à memória, com regresso à infância e aos fatos marcantes da vida familiar.

No primeiro capítulo, a narradora descreve uma parte da casa na qual acabara de acordar, em Manaus. A descrição das duas salas contíguas é repleta de marcas identificatórias do Oriente, indicando uma representação estilizada desse local: tapete de Isfahan, elefante indiano e reproduções de ideogramas chineses são alguns dos objetos de consumo dos ocidentais, tomados como símbolos, que estão presentes nos cômodos.

No romance as histórias falam das possibilidades e das dificuldades do trabalho com a memória, das tensões e da convivência de culturas, religiões, línguas, lugares, sentimentos e sentidos diferentes das personagens em relação ao mundo. A casa de Emilie, matriarca da família na narrativa do Relato, é um microcosmo onde estas tensões aparecem e são vividas cotidianamente.

O que mantêm a tensão no romance é a narrativa centrada em incidentes – o atropelamento de Soraya Ângela, o afogamento de Emir.

A obra, em sua estrutura e estratégia de composição, parece oscilar entre a narração – em que a figura do narrador é extremamente importante e o relato é feito principalmente com base nas tradições orais, como uma tentativa de rememorar as experiências coletivas do passado – e o romance, que surgiria como um gênero literário devido as transformações da sociedade capitalista, que destrói cada vez mais a possibilidade de que a experiência comum viva e se revele no relato dos narradores.

Este mosaico narrativo é também influenciado por outro retrato memorialístico, tecido pelo francês Marcel Proust no seu clássico Em Busca do Tempo Perdido. Para Hatoum a memória é uma peça fundamental, sem a qual não se tece a verdadeira literatura. E esta obra é, sem dúvida, uma das maiores apologias ao seu poder.

Fontes:

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Semeando Trovas)

 

1
Ao dar tudo o que ela quer,
a evitar que o amor se perca,
o corno cerca a mulher
mas a mulher pula a cerca.
2
Após a noite que embaça
a janela do viver,
ressurge a luz na vidraça
com um novo amanhecer.
3
Aprenda bem a lição, 
desde bem cedo, menino,
pois na vida a Educação
é base do seu destino.
4
Canta o galo de matina
na Cantagalo florida,
saudando o sol que ilumina
duzentos anos de vida.
5
Capiau faz dentadura
sem ter o dente frontal,
pois deste modo assegura
um sorriso natural.
6
Com saudade do gramado,
da função desempenhada,
o gandula aposentado
corre atrás de uma pelada.
7
 Dia das Mães! Não se esqueça
dos presentes de ninguém:
por incrível que pareça,
sua sogra é mãe também!
8
Enquanto a gente descansa
na metade de um caminho,
um outro qualquer alcança
a outra metade sozinho.
9
Ensinando ao aprendiz,
nosso professor Raimundo,
no quadro negro e com giz
sonhava mudar o mundo.
10
Galopando sem receio
um indomável equino,
vou pela vida em rodeio
no cavalo do destino.
11
Há uma lição que sem cola
pelo estudante é sabida:
– na vida a melhor escola
é a grande escola da vida.
12
Luminar Academia,
plena de vitalidade,
a tua luz irradia,
a cultura na cidade.
13

Manassés compositor,
com suas belas canções,
canta a vida, canta o amor,
despertando as emoções.
14
Mostra a vida, mostra a história,
que a prática da coerência,
determina a trajetória
de uma correta existência.
15
Natal! Campos do Jordão,
cidade em que o amor reluz,
faz de cada coração
o berçário de Jesus.
16
O amanhecer se vislumbra
quando o sol em sua ida,
se elevando da penumbra
irradia a luz da vida.
17
O autêntico jornalista,
expressa nos seus relatos,
correto ponto de vista
da realidade dos fatos.
18
O garoto se insinua
perante a namoradinha:
– Minha sombra com a sua
será que fazem sombrinha?
19
O jogador e a torcida
têm que ser disciplinados,
pois toda copa é vencida
dentro e fora dos gramados!
20
O migrante em sua andança
parte do amado rincão.
Leva consigo a esperança
mas deixa o seu coração.
21
O vovô vai à balada
e sem muito lero-lero,
na pista dança lambada
em compasso de bolero.
22
Parece o craque Coalhada
com o galã falastrão:
- não aguenta uma pelada
mas diz que joga um bolão.
23
Peão ardiloso paca,
do seu intento dá cabo:
- usa o cheirinho da vaca
para amansar touro brabo.
24
Pela sua grande crença,
salvou-se, na Arca, Noé:
- não há dilúvio que vença
um homem cheio de fé!
25
Proteja Deus o migrante
que com seu labor fecundo
faz de uma terra distante
a melhor terra do mundo.
26
Quando a vejo na calçada,
de passagem pela rua,
minha sombra inconformada
ainda vai atrás da sua.
27
Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
28
Quando toca Manassés
as canções de tempos idos,
tem o público aos seus pés
para os aplausos devidos.
29
Se alastrando lentamente
qual um glaucoma, o rancor,
impede os olhos da gente
de enxergar a luz do amor.
30
Seja de que modo for
e sem qualquer preconceito,
na casa onde mora o amor,
mora também o respeito.
31
Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
32
Toda natureza atesta
que esta vida é uma pintura,
onde Deus se manifesta
sem a Sua assinatura.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (1942)
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO é um renomado engenheiro, gestor público e um dos mais ativos e premiados trovadores contemporâneos do estado de Minas Gerais. Com forte atuação na comunidade lírica nacional, ele se destaca pela precisão métrica e sensibilidade de suas composições. Nascido no Rio de Janeiro, em 1942 e radicado em Juiz de Fora/MG, cidade polo cultural que historicamente abriga uma forte tradição de trovadores. Graduado em Engenharia, atuou profissionalmente no serviço público do município de Juiz de Fora. Exerceu cargos de grande relevância executiva e técnica, tendo sido Superintendente da GETTRAN (Subsecretaria/Gerência de Transporte e Trânsito de Juiz de Fora), liderando o planejamento de mobilidade urbana e trânsito da cidade nos anos 2000.
Dulcídio estruturou sua trajetória literária sob o gênero da Trova É um membro proeminente da UBT - Seção Juiz de Fora. Além de produzir e competir, atua frequentemente como jurado e avaliador técnico em múltiplos certames nacionais de poesia e Jogos Florais. Reconhecido no meio poético como um "premiadíssimo vencedor de Concursos", acumula honrarias em todo o país.
Sua obra é publicada predominantemente em regime de coletâneas especializadas, antologias dos Jogos Florais e compilações de Academias de Letras que reúnem as trovas vencedoras e selecionadas ao redor do Brasil. Na tradição da trova, o registro impresso costuma ocorrer de forma compartilhada nessas antologias e portais dedicados à preservação da memória lírica. 
Dulcídio é fundamental para a manutenção da tradição da trova clássica no Brasil. Sua importância reside em: Manter acesa a chama literária da Zona da Mata mineira, conectando a nova geração à herança deixada por ícones locais como Belmiro Braga; Suas composições transitam com maestria entre o lirismo filosófico, as temáticas cotidianas da fé, as belezas das cidades brasileiras e a sensibilidade social para com os menos favorecidos; Ao atuar ativamente em entidade trovadoresca e em comissões julgadoras, ajuda a garantir o rigor técnico e a vitalidade da trova poética em língua portuguesa.

Walcyr Carrasco (Pinga-pinga de pinguço)

Um passeio nas vans que circulam de bar em bar.

Bares do Itaim, Jardins e Pinheiros andam oferecendo um serviço exclusivo para bebuns. É uma van que os leva até em casa. Trata-se, com o perdão de um trocadilho, de um pinga-pinga de pinguços. As vans circulam de bar em bar. arrebanhando os etílicos, durante a madrugada.

Desde que o novo Código de Trânsito entrou em vigor, a polícia anda rondando perto dos bares, bafômetro a postos, em busca de motoristas infratores. Com as vans, os bares garantem faturamento. Os clientes podem mergulhar nos copos, sem depois arriscar a pele no asfalto. Serviços semelhantes já existem na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Raramente tomo umas e outras. Soube, entretanto. que o clima nas vans é animadérrimo. Imaginem seis bêbados indo para casa. A van estaciona para pegar o sétimo, em novo bar. Descem os seis primeiros.

E aí, que tal a saideira?

Dá-lhe! O inocente que saiu para tomar um ou dois uísques entra na animação. Acorda embaixo do balcão de uma padaria. Também são frequentes os tipos belicosos e as discussões capazes de resolver o problema do futebol brasileiro.

Eu já disse que o Ronaldinho…

Ah, nego vem falar do Ronaldinho! Não vem! Nãããão veeeeem!

O Ronaldinho? O Ronaldínho?

Sóbrio por necessidade profissional. o motorista tenta aplacar os ânimos.

- Ô, pessoal, o Ronaldinho joga um bolão.

Os seis se unem.

– Cala a boca!

O coitado silencia. Abre a janela. É obrigado a dirigir a madrugada toda de vidro abaixado. Até o ar está impregnado. Se respirar mais fundo, fica de fogo.

Mais uma parada, entra um rapaz. Tomou só um ou dois goles.

– Eu sozinho. Lembrei da van. Que negócio é esse de ir para casa tão cedo?

Novo tropel. No veículo. fica só um, desmaiado, lá no fundo. Os outros descem, atrás de nova rodada. A van é ideal para fazer amizades. Há quem chegue até mais longe.

A senhora não está bêbada! – desconfia o motorista.

Ela afina a voz, bambeia as pernas.

– Estou bebinha, sim!

Consegue entrar. Aperta-se entre todos. Examina um por um, com o olhar esperto. Um está bêbado demais. Outro, passado da idade. O terceiro, sim, serve! Tem perfil de executivo. Ela afia as garras. Ele nem desconfia., quando descem no mesmo prédio. Sobem juntos no elevador, aterrissam no mesmo andar. Começa a ficar cabreiro quando, após várias tentativas, consegue botar a chave na porta e percebe que ela o espera. Não há tempo para perguntas. Ela entra depressa, vai até o bar e prepara dois uísques. Ele cai duro no sofá. Consegue erguer uma das pestanas meia hora depois.

Quem é você? – pergunta, trêmulo.

Você me convidou para um uísque! – ela retruca, revoltada.

O executivo vasculha o cérebro. Não consegue lembrar. Mas deve ter convidado. Senão, por que ela estaria em sua sala? Bebe mais uma dose para acordar e desmaia. Na semana seguinte, ela já está falando em casamento. Ele continua não se lembrando de nada.

Também existem alpinistas sociais. Como o sujeito que mora na periferia. Quer chegar em casa de carro. A maior parte dos bares adota limites mínimos de consumo, para dar direito a carona. Ele bebe o mínimo. Depois, exige que o levem para a casa. O motorista quase cai nas barrancas do Tietê para chegar até lá. O falso bebum desce alegremente. Os amigos, admirados.

-Tu tá por cima. hein, malandro? Chegando em casa de chofer!

Sorri, vitorioso. Sai mais barato do que táxi. O bêbado desmemoriado é uma tragédia.

O senhor não se lembra do endereço?

Eu aaaaaaaaaacho que é virando aquela rua…

Toca a vasculhar quarteirões.

Certo tipo de bebum não vai de van. É o imprevidente, que saiu de casa em seu próprio carro. O bar oferece o motorista. que dirige para o cliente. Mas bêbado detesta terminar a noite sozinho.
Soooobe aí. Veeeem tomar uma comigo.

Sinto muito. A van do bar vem me pegar em meia hora, esquiva-se o motorista.

Soooobe só meia hooora.

O chofer acaba mais bêbado do que o cliente. Quando a van chega, está cantando na sarjeta. Há quem possa se espantar com a ideia. É uma medida civilizada. Com este calor, poucos resistem a um chope, ou a dois, a três, quatro… Ficam a salvo pedestres e postes!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Walcyr Carrasco (1951)
WALCYR RODRIGUES CARRASCO nasceu em Bernardino de Campos (SP), em 1951. Nascido no interior de São Paulo, mudou-se aos 3 anos com a família para Marília (SP), onde passou a infância e a adolescência. Aos 16 anos, mudou-se para a São Paulo, onde fixou residência para estudar e consolidar sua carreira profissional. Inicialmente, ingressou no curso de História na USP, mas mudou de rumo e formou-se em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Trabalhou por anos em grandes redações da imprensa escrita, incluindo O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Diário Popular e as revistas Veja e IstoÉ. Foi também diretor da icônica Revista Recreio. Na televisão, estreou no fim dos anos 1980 e tornou-se um dos principais e mais disputados autores da TV Globo, escrevendo fenômenos de audiência nos horários das seis, sete e nove horas.
Seu amor pelos livros começou na infância sob a forte influência da obra de Monteiro Lobato. Walcyr iniciou sua trajetória literária escrevendo contos infantis para revistas. Ao longo das décadas, expandiu sua produção para o teatro, escrevendo peças aclamadas como Batom e Êxtase. Paralelamente, tornou-se um autor infantojuvenil de imenso sucesso comercial e pedagógico, além de cronista ativo em publicações semanais. É membro imortal da Academia Paulista de Letras (APL).
Sua versatilidade já lhe rendeu láureas nos mais prestigiados segmentos do país e do exterior, tais como: Prêmio Jabuti de Literatura (2017) na categoria Adaptação, pela obra Romeu e Julieta; Prêmio Shell de Teatro como Melhor Autor pela peça Êxtase; Emmy International (2016) de Melhor Telenovela por Verdades Secretas; Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte); Selo "Altamente Recomendável" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) pelo livro Em Busca de um Sonho; Prêmio Mérito Causas Imortais da Academia de Letras do Brasil.
Com mais de 60 livros publicados e milhões de exemplares vendidos, sua obra transita entre o público infantil, juvenil e adulto. Destacam-se: Vida de Droga; O Menino Narigudo; Em Busca de um Sonho; A Senhora das Velas (romance adulto); Pequenos Delitos (coletânea de crônicas); Um Anjo de Quatro Patas.
A importância de Walcyr Carrasco reside em sua extraordinária capacidade de formar novos leitores e democratizar o acesso à narrativa escrita. Ao escrever livros infantojuvenis que tratam de temas cotidianos, éticos e sociais com extrema sensibilidade, suas obras tornaram-se leituras obrigatórias em escolas de todo o Brasil, marcando gerações de estudantes. Além disso, Walcyr desempenha um papel fundamental como "ponte" entre a literatura e a cultura de massa. Suas adaptações de clássicos aproximam o público jovem de textos históricos complexos. Na televisão e no teatro, ele utiliza uma estrutura narrativa nitidamente folhetinesca e literária, provando que a arte de contar histórias consegue emocionar de forma legítima tanto as academias de letras quanto as camadas mais populares do país.

Fonte:
Revista VEJA. São Paulo. 11 de março 1998.
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Memória Globo, Folha de São Paulo, Academia Paulista de Letras, Biblioteca sem Limites, etc.