quinta-feira, 18 de abril de 2019

J. G. de Araújo Jorge (Inspirações de Amor) VI


CHEGUEI TARDE

Cheguei tarde, bem sei...E após minha chegada
foi que eu vi, afinal, que tu tinhas partido...
Mas teu vulto, distante, em sombras já perdido,
divisar ainda pude, ao longe, pela estrada...

Seguia-te outro vulto, - o alguém desconhecido
que primeiro encontraste em tua caminhada...
Partiste! ...E eras feliz, porque partiste amada,
e eu fiquei, entretanto, infeliz e esquecido...

Já não te vejo mais... Vai distante talvez...
E ainda hoje tenho o olhar na estrada, sem ninguém,
por onde tu partiste, um dia, certa vez...

Fiquei...Curtindo a dor de um destino atrasado...
- Sorrindo, por te ver feliz...Junto de alguém,
- chorando, por não ter mais cedo te encontrado!...

CHUVA

Há tanto tempo que não chove assim!
O dia veste um céu triste e cinzento,
e ouço a chuva a cair como um lamento
no seu rumor monótono... sem fim...

Que estranha sensação de isolamento!
-Nem uma voz ouço ao redor de mim,
escuto apenas lá por fora, o vento
a desfolhar as flores no jardim...

Ninguém ao meu redor... ninguém me fala...
-e me deixo a ficar num tédio imenso,
na tóxica penumbra desta sala...

Que inquietude vazia há dentro de mim!
-Não sei se existo... não sei bem se penso...
Há tanto tempo não chove assim!

CIGARRA MORTA

Vês... É uma cigarra morta, asas douradas
completamente roídas e estragadas,
levada pelas formigas...

Olhaste-me e eu te pude compreender...

Não diga nada, meu irmão, não digas,
- os poetas... as cigarras
não deviam morrer…

CIÚME
 
Encontro em ti tudo o que imaginara
na mulher, para ser o meu ideal;
- não é só teu olhar, tua voz clara,
e essa expressão que tens, sentimental !...

Nem essa graça ingênua, hoje tão rara,
de quem não sabe onde se encontra o mal,
ou teu riso feliz, que se compara
ao tinir de uma taça de cristal...

É tudo em ti, traço por traço, tudo !
As tuas mãos são rendas de ternura;
teus carinhos, macios, de veludo.

Por isso mesmo é que é maior a dor,
quando amargo a mais íntima tortura
por não ter sido o teu primeiro amor…

COLEGIAL

Gosto de vê-la, assim... Quando à tarde ela vem
fisionomia suave, ingenuamente franca...
Toda a rua se alegra, e eu me alegro também
com o seu vulto feliz: saia azul, blusa branca...

Quantos nadas de sonho o seu olhar contém !
A luz viva do olhar ninguém talvez lhe arranca.
- Gosto de vê-la, sim... E ficam-lhe tão bem
aquela saia azul, e aquela blusa branca...

Azul: - azul é a cor da vida que ela sonha !
E branca: - branca é a cor da sua alma de criança
onde ela própria se olha irrequieta e risonha

Feliz... Não tem presente e ainda nem tem passado...
Só o futuro, - e o futuro é uma imensa esperança
um mundo que ainda fica oculto do outro lado !

CONFIDÊNCIA AMARGA

Ela veio, sentou-se ao meu lado e me disse
em palavras febris, sua história de amor...
Uma história comum, um sonho, uma tolice,
que fizera tão grande e amara com meiguice
a ponto de entregar seu coração em flor...

Falou-me sem sentir, em toda a sua vida
e no amor de alguém que a fez sofrer tão cedo...
Julgava-se infeliz... sozinha... incompreendida,
não sabia a razão por que fora esquecida,
e revelo-me assim seu íntimo segredo...

E cruzou seu olhar tão cheio de amargura  
com o meu olhar surpreso, e num tom muito brando:  

". . . sei que você é um poeta e aqui estou à procura
de alguém para curar a minha desventura,
meu pobre coração abatido e sangrando . . .

...busquei-o sem cessar... aqui estou quase morta,
arrastando a minha alma após meu desengano,  
venho da minha dor, bater à sua porta,      
porque sei que você tem a voz que conforta
e pode compreender o sofrimento humano...
      
. . . conto-lhe o meu romance, a minha vida, e assim       
faço-o meu confidente, e o chamo meu amigo...      
- não me pergunte nunca as razões por que vim,       
apenas sei dizer que escutei dentro em mim
alguém que me mandou aqui, pedir-lhe abrigo...

. . . confesso-me a você, é apenas confissão.
Não quero ser perdoada, e adoro os meus pecado,
espero uma palavra... um pouco de ilusão . . .
- o poeta é um sacerdote, e a sua religião
manda-o para falar de amor aos desgraçados..."

E silenciou chorando. O seu rosto pendeu.
Mortas nas minhas mãos as suas mãos ficaram.
Num segundo, o silêncio a nós dois envolveu,
depois... sentindo a luz do seu olhar no meu,
- contei-lhe a minha história... e outras que me contaram...

Disse de cor também, versos que ainda nem fiz,
e cheguei a inventar contos que nem sei mais,
- com o tempo... o seu sofrer, lentamente desfiz,
e um dia... - ela de novo, erguendo-se feliz
agradeceu, partiu e não voltou jamais...

Ela que me chegou triste como uma palma
curvada - vi seguir sorrindo outro caminho,
tão outra... tão feliz... tão mudada... tão calma
que nem reconheceu que eu lhe dera a minha alma,
o pouco que era meu...e que fiquei sozinho...

...O destino é afinal, irônico e insensível,
tornou-me o confidente da mulher que amei...
E eu para a ver feliz... fiz-me feliz - é incrível...
Sufoquei meu amor... amarguei o impossível...

Mas quando a vi partir, não pude mais, chorei...

Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou. vol. 1. SP: Ed. Theor, 1965.

Mia Couto (A Chuva Pasmada) Borboletas, Pirilampos - Um Homem à espera de ser Terra


     
BORBOLETAS, PIRILAMPOS

      No coberto do nosso pátio se passou a juntar a rapaziada da aldeia. Ali podíamos brincar protegidos pelo telhado de colmo. Nessa tarde, minha mãe saiu cedo e os meus assobios logo convocaram a miudagem. E vieram crianças aos magotes. Mas não foram apenas os miúdos que compareceram. Sem darmos conta, no alpendre se haviam juntado todas as borboletas da região. Era um infindar de asas e cores. Ao de leve toquei as asas de uma delas. Nos meus dedos ficou presa uma poeira dourada. Pareciam pequeninas escamas. Afinal, escamas como as de um peixe sem peso.

      Prisioneiros naquele exíguo espaço, que mais podíamos fazer senão brincar ao jogo das adivinhas?

      - Sabem qual é diferença entre borboleta e gente?

      - A pessoa tem alma, borboleta é alma.

      - O pirilampo morre?

      - Não. Que ele é como o Sol: apenas se põe.

      No flagrante da brincadeira vimos passar o menino branco, filho do dono da fábrica. Parecia mais pálido do que era, cabelos finos encharcados num desalinho. Os nossos cabelos, crespos, não se desmanchavam assim tanto.

      Todos os meninos se riram do miúdo, menos eu. Magoaram-me seus olhos gulosos invejando os nossos risos. Ainda me veio à boca o convite: ele que se juntasse. Mas qualquer coisa me suspendeu. Melhor seria não o forçar a que recusasse.

      De repente, meu pai, olhar esgazeado, rompeu-se entre nós. Os miúdos se encostaram nas paredes a dar espaço à fúria dele. O dedo, em riste, me alvejou:

      - Onde é que foi sua mãe?

      - Ela foi ao Tsilequene.

      - Você, se é mentira, bem que se pode arrepender. Vá já dizendo adeus aos seus amiguinhos.

      Com violência, ele me puxou pelas roupas. A mostrar que eu era coisa, não gente. A mostrar que ele era homem, não pai. A vergonha doía-me mais que as pancadas que se avizinhavam.

      - Senhor, desculpe...

      Era a voz descolorida do miúdo branco. Meu velho parou, surpreso, mantendo-me pelos colarinhos.

      - Desculpe, senhor: trago uma mensagem da sua esposa.

      - Mensagem? Da minha esposa?

      - Sim, senhor. Encontrei-a no mercado.

      - No Tsilequene?

      - Sim, no... nesse. Disse-me que entregasse isto ao seu filho.

      Relutante, meu pai me libertou. Aproximei-me do moço que estendia as mãos fechadas. Abriu as mãos nas minhas, de costas para todos os outros. Como eu previa, não havia nada no oco de suas mãos.

UM HOMEM À ESPERA DE SER TERRA

      Vou, não vou!

      Era o avô que gritava, angustiado. Saí correndo para a varanda. Não pude acreditar nos meus olhos: meu avô, trémulo, atacava com a bengala a cadeira sagrada de sua companheira. Enquanto esgrimia a bengala, não parava de berrar:

      - Espere, Ntoweni, não faça isso. Não faça isso comigo.

      Corri mais a ampará-lo do que a pará-lo. Porque a bengala já tombara da sua mão tremente. Ajudei-o a sentar-se, sacudi o ar para lhe restituir o peito. Ficou assim um tempo, seu respirar sendo um fio mais sumido que o rio. Contudo, seus pés raivosos procuravam ainda atingir a cadeira da falecida. E eu me perguntei: será que o nosso avô alguma vez tinha morado todo ele, inteiro, na crença daquele sagrado?

      Até que ele desabou, rosto enterrado entre as mãos. Meu avô chorava. Em vez de lágrimas, porém, lhe caíam pedrinhas pelo rosto.

      - Está chorar porquê, avô?

      - Estou com tanta saudade...

      - Saudade de quê?

      - Não sei, já esqueci.

      Minha mãe, entretanto, regressara a casa. Exibi as pedras choradas por seu pai.

      - Não diga disparates, filho. Já basta de coisa estranha!

      Atirou ao chão as pedrinhas, se chegou ao avô e sacudiu a cabeça. com vigor desmanchou o nó que o atava à cadeira:

      - Nunca mais ninguém amarrará ninguém nesta casa! Que era coisa que nem aos bichos se permite. Gritava alto e bom som para que toda a família escutasse. Meu pai repostou:

      - Mas, sem corda, ele vai-se, mulher. A mínima brisa, ele levanta. Você, depois, vai buscá-lo em cima da árvore?

      A mãe não desarmou. E, num outro tom, como se soubesse de segredos, proferiu:

      - Vai ver que, desatando-o a ele, estaremos a desamarrar a chuva. Vai ver!

      Meu pai se resignou. Mas ainda, antes de sair, depositou um búzio sobre o colo do avô. Era uma concha enorme, desses caracóis marinhos que crescem até ser do tamanho de uma rocha. Servia de peso e ele, na espera, podia até se entreter. Quem tem um búzio, tem o mar. O mais velho encostou o ouvido na concha e adormeceu enquanto a si mesmo se embalava. E já não era pessoa. Era um barco volteando por esse mar que ele nunca visitara e de que sempre falava:

      - Ah. esse mar, eu nunca lá estive mas já lá muito me perdi!

      O avô sempre quisera navegar para o estuário. Todos sempre se opuseram. Um dia, ele foi, fingiu que foi. Não passou da segunda curva do rio. Num remanso, ocultou o barco na margem e se abrigou num esconderijo. Ficou assim uns dias, deixou que a demora apertasse em nosso coração, fez pesar a sua ausência. Só depois regressou, empurrado pela fome e pela sede. Meus olhos ansiosos o cravejaram. Ele rebaixou os cantos dos lábios, displicente:

      - O mar como é? Ora, meu neto, o mar não se pode contar...

      E divagava, frases destoadas: tudo não é senão um ressoar de concha, águas de arribação. E o tontear do nada no vazio de um búzio.

      - Você entra na canoa, pega no remo mas não rema que é para não ofender o rio, entende?

      Não entendia. Como agora, continuava sem entendimento. Olhei em redor: todos se tinham retirado. Ficara eu reparando os estragos na cadeira de Ntoweni. Como que para castigo levantei uma das madeiras quebradas. O avô abanou a cabeça:

      - Veja o que fiz, quebrei o sustento dessa cadeira.

      - Isto repara-se, avô.

      - Mas a culpa é dela. A culpa é de Ntoweni. Diga uma coisa, meu neto: tenho culpa de não ter morrido? Tenho culpa, porventura?

      Pela primeira vez, o avô falava da morte. Parecia ter aberto uma porta interdita. Porque seguiu falando sem se deter. Que a sua tristeza não era o morrer. Era o não saber terminar. Se ele aprendera tanta coisa, até a posar para a fotografia. Não sabia, contudo, posar para a morte. Que palavra, que rosto preparamos para esse momento final?

      - Quando eu era menino, cheio de vida, eu sabia morrer. Agora, que já vou para a despedida, já esqueci como se morre.

      - Avô, morrer é coisa que ninguém sabe.

      - Sabe o peixe. Já viu como o peixe desfalece? Sem cansaço, sem tristeza, sem protesto.

      - Ora, avô, não falemos de coisas tristes. Sabe uma coisa? Um dia iremos os dois a ver o mar...

      - Eu já não tenho tempo. Devia era ter aprendido com o peixe,

      - Não diga isso, avô.

      Olhei para o mais velho e, num instante, o vi todo desaguado, ressequido como um deserto. Afinal, o pai tinha razão. O avô estava secando. Nele eu assistia à vida e seu destino: nascemos água, morremos terra.

      Minha mãe que, entretanto, chegara interrompeu-nos a conversa. Ao pesar aquela nossa tristeza, ela se interrogou: que falas seriam aquelas que tanto ensombravam o meu rosto?

      - Meu pai, por que fala de morte com um miúdo desta idade?

      - São verdades que esse miúdo necessita ir amanhando respondeu o avô.

      - Conversa - respondeu a mãe. E virando-se para mim, tranquilizou. - Não leve no peito, meu filho, isso é tudo fingimento.

      Cão que ladra é porque tem medo de ser mordido. Do mesmo modo, o avô se apoiava na palavra para ganhar força, vencer os medos que o atacavam por dentro.

      - Tudo isso é fingimento - repetiu a mãe.

      O avô fingia tudo, fingia pescar, fingia até viver. Não nos lembrávamos nós de como ele inventara a viagem rio acima?

      - Inventei mas não menti. Você vai aprender, meu neto: toda a viagem é um faz de conta.
     
continua...

Fonte:
Mia Couto. A chuva pasmada. 2004.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Gislaine Canales (Glosas Diversas) 11


REFAZ-SE O RIO...

MOTE:
Vestem-se as águas de prata...
Saltam no espaço vazio...
Findo o show da catarata,
sereno refaz-se o rio.
A. A. de Assis 
Maringá/PR

GLOSA:

Vestem-se as águas de prata...
e num bailado bonito,
qual uma doce sonata
ecoam pelo infinito!

Eu fico a olhar essas águas...
Saltam no espaço vazio...
Misturam-se às minhas mágoas
num doloso desafio!

O espetáculo arrebata,
mas tudo volta ao normal.
Findo o show da catarata,
segue o rio o seu ritual!

Olhando essa calmaria,
me emociono e até sorrio,
pois com imensa harmonia,
sereno refaz-se o rio.
__________________________

HISTÓRIA DA GENTE

MOTE:
Esta saudade infinita
do amor que a gente viveu,
é a mensagem mais bonita,
que o meu passado escreveu!...
Aloísio Alves da Costa  
Umari/CE, 1935 – 2010, Fortaleza/CE

GLOSA:
Esta saudade infinita
fez ninho em meu coração
e, nele, até hoje habita
com a minha aprovação!

É doce e linda a lembrança
do amor que a gente viveu,
daquela eterna aliança
que um dia, entre nós, nasceu!

Minha alma, emotiva, grita
ao recordar nosso amor.
É a mensagem mais bonita,
a que tem maior valor!

Eu sou feliz novamente
lembrando o que aconteceu
na bela história envolvente,
que o meu passado escreveu!...
_____________________________

O MAIOR SONHADOR

MOTE:
Redimindo os pecadores,
conduzindo-os para a luz,
o maior dos sonhadores,
morreu pregado na cruz!
Aparício Fernandes  
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

GLOSA:
Redimindo os pecadores,
por puro amor e altruísmo,
tentou aplacar as dores
numa espécie de exorcismo!

Mostrando um novo caminho,
conduzindo-os para a luz,
plantou afeto e carinho
na bondade que reluz!

Somente amizade e amores
queria ver fecundar,
o maior dos sonhadores,
no seu doce e eterno amar!

A falta de humanidade,
sempre, à tristeza conduz,
e o sonhador, na verdade,
morreu pregado na cruz!
_______________________________


NOITES... LUAS...

MOTE:
Noite, noite que me enlevas,
luas cheias, luas novas,
se novas, tudo são trevas
se cheias, tudo são trovas!
Carolina Ramos  
Santos/SP

GLOSA:
Noite, noite que me enlevas,
em estrelas navegando
ao paraíso me levas,
vou feliz me aconchegando!...

Tantas luas, tão bonitas,
luas cheias, luas novas,
tuas luzes infinitas,
de um Ser Maior, nos dão provas!

À negritude tu elevas
a razão de tudo enfim...
Se novas, tudo são trevas
que gritam dentro de mim!

Num luar só de alegria
essa minha alma, renovas,
e brota, então, a poesia...
Se cheias, tudo são trovas!

Fonte:
Gislaine Canales. Glosas. Glosas Virtuais de Trovas XVII. 
In Carlos Leite Ribeiro (produtor) Biblioteca Virtual Cá Estamos Nós. 
http://www.portalcen.org. Junho de 2004.

Arthur de Azevedo (As Asneiras do Guedes)



Não é precisamente um conto o que hoje vou escrever.

Voltou do seu passeio a São Paulo o Guedes – o Guedes sabem? – o maior asneirão que o sol cobre, aquele mesmo que respondeu aqui há tempos quando numa roda lhe perguntaram se tinha filhos:

– Tenho uma filha já adúltera.

– Adúltera?!

– Sim, senhor, adúltera; vai fazer 17 anos.

– Adulta quer o senhor dizer…

– Ou isso. E uma boa menina; só tem um defeito: é muito luxuriosa.

– Luxuriosa?!

– Sim, senhor, luxuriosa: gosta muito de luxar.

– Ah!

– Mas lá está minha mulher para lhe dar bons conselhos… sim, porque minha mulher é muito sensual.

– Sensual?!

– Sim, senhor, sensual: tem muito bom senso.

Pois é como lhes digo: tive o prazer de encontrar ontem esse precioso Guedes, cujas asneiras, colecionadas, dariam um volume de trezentas páginas, ou mais.

Eu estava num armarinho da rua do Ouvidor, onde entrava para cumprimentar a minha espirituosa amiga D. Henriqueta, que andava, como sempre, fazendo compras, enchendo-se de caixinhas e pequeninos embrulhos, adquiridos aqui e ali:

O Guedes, mal que me viu, correu a dar-me um abraço, dizendo:

– Li no "O País" a notícia do seu aniversario…

E recuando dois passos, tomou uma atitude solene, deixou cair as pálpebras, e acrescentou:

– Faço votos para que você tenha um futuro tão brilhante como o que passou.

Agradeci comovido essa manifestação de apreço envolvida num disparate, e apresentei o Guedes à minha espirituosa amiga D. Henriqueta, que mordia os lábios para não rir.

– Apresento-lhe, minha senhora, o mais extraordinário reformador da língua portuguesa: o Guedes, o grande Guedes, que acaba de chegar de São Paulo, onde esteve a passeio.

– Era tempo de fazer uma viagem! – explicou ele. – Foi a primeira vez que saí do Rio de Janeiro.

– Eu também não saí ainda desta cidade senão para ir uma vez a Petrópolis e duas a Niterói – disse D. Henriqueta.

– Vejo então que a senhora é cortesã… – acudiu o Guedes curvando os lábios no mais amável dos seus sorrisos.

– Cortesã?!

– Cortesã, sim… filha da Corte…

– Oh! Guedes! – observei baixinho. – Pois você não vê que está dizendo uma inconveniência?

– Tem razão… Atualmente não se deve falar em Corte…

E emendou:

– Vejo então que a senhora é capitalista federalista.

D. Henriqueta desta vez riu-se a perder. É provável que ao leitor não aconteça o mesmo. Paciência.

– Ó Guedes! Vamos lá! Diga-me! Que impressões trouxe de São Paulo?

– Muito boas! Aquilo é uma grande terra!

– Dizem que há lá muita sociabilidade.

– Como?

– Muita convivência…

– Isso há… As famílias visitam-se… Ou moços coabitam tom as moças.

– Ora essa!

– Que entende você por "coabitar"?

– E… é…

– É uma indecência… uma inconveniência… uma coisa que não se diz!…

O Guedes inflamou-se:

– Está você muito enganado… "Coabitar" é…

E voltando-se para um dos caixeiros do armarinho:

– O senhor tem aí um dicionário que me empreste?

– Pois não?

E daí a dois minutos o Guedes tinha nas mãos os dois volumes do Aulete.

– Muito bem! – disse eu. – Procure "coabitar".

Depois de folhear em vão o dicionário durante um rol de tempo, o teimoso exclamou:

– Não dá! Não dá! Vejam…

– Perdão: você está procurando com u: deve ser com o!

– Tem razão, tem razão… Onde estava eu com a cabeça?

E o Guedes pôs-se de novo a folhear o Aulete.

– Não dá! Também não dá com o! Veja: de coa para coação! Não dá com u nem com o!

Valha-o Deus, Guedes, valha-o Deus! Você está procurando sem h? Dê cá o dicionário!

E com um sorriso de triunfo mostrei ao Guedes a significação da palavra.

– Olhe, leia: "Coabitar, habitar, viver conjuntamente".

– Mas isso…

– Agora veja o que o Aulete acrescenta entre parênteses:
"Diz-se particularmente de duas pessoas de diferente sexo".

– Perdão! – bradou o Guedes furioso. – Perdão! Eu não disse particularmente, mas alto e bom som, e só não me ouviu quem não me quis ouvir!

E batendo com a mão espalmada sobre o balcão:

– Eu não sou homem que diga as coisas particularmente!

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos.

Mia Couto (A Chuva Pasmada) O Peixar do Tempo - A Lenda de Ntoweni

     
O PEIXAR DO TEMPO

      Sentado sobre a balaustrada da varanda eu abanava as pernas. Afugentava ócio e mosca. O avô me repreendeu, severo:

      - Pare de balançar as pernas!

      - Porquê?

      - Não sabe que é assim que se embala o filho do diabo?

      Estanquei as pernas, sacudi a cabeça. Tudo aquilo me surgia sem a devida realidade. O avô, por exemplo, segurava uma cana de pesca. O fio pequeno e o anzol ficavam suspensos a uns palmos do chão. Pescava no ar. Haveria, dizia ele, sempre um peixe que não saberia separar as águas. O avô, mais os seus ditos. Enquanto fingia pescar, os olhos fixavam um inexistente horizonte. Pensava no nascimento da bezerra?

      Recordei os tempos em que, todos os domingos, ele me levava à pesca. Sem conversa, nos quedávamos na margem enquanto olhávamos o rio e suas eternidades. Pescar é um modo de ser peixe nas águas do tempo.

      - Pescar é muito bom. E sabe porquê? Porque é uma atividade sem nenhuma ação. Está entender, meu neto?

      - Sim, avô.

      - Você também gosta desta pescaria, não é?

      Lá no alto, a águia pesqueira volteava. O avô dizia de um modo que soava assim:

      - Olha a água pesqueira!

      A água pesqueira, sim. Me aprazia pensar que era o rio, ele mesmo, quem pescava. O avô muito elogiava as sábias preguiças. Certa vez me tentou convencer de que o mundo andava tão ocupado em nada fazer que até o rio por vezes parava.

      - O rio parado? Mas, avô. isso é coisa que nunca ninguém viu.

      - Isso é porque o rio desata a mover-se assim que vê gente chegando.!

      Nesse jogo de enganos eu me embalava enquanto o mais-velho cantarolava como se espreguiçasse. E era sempre a mesma cantilena:

      O rio, sem cio, um fio. Macio, sem pio, um pavio.

      Eu aguardava um só instante: o de desanzolar o peixe, o escorregadio corpo do bicho prateando em minhas mãos.

      - Cuidado, não se pique!

      Meu avô era o único que me dedicava cuidados. Nem meu pai nem minha mãe nunca me tinham lustrado em mimos. Por isso, mais que a chuva, me doía agora aquele definhamento dele. Não é que, antes, ele não fosse já magro. Mas, agora, se extinguia a olhos vistos. Seu estado se precipitara desde que soube que o rio tinha secado. Nunca mais comeu, nunca mais bebeu. Aquela rejeição me causava estranheza. Afinal, o avô sempre dissera:

      - A velhice não é uma idade, é uma decisão.

      - Uma decisão?

      A velhice é uma desistência.

      Desistido, meu avô cedera ao tempo. E agora, uma vez mais, eu interrompia a sua imaginária pescaria para lhe levar um copo de água. Mas o avô recusou, sorrindo:

      - Não se aflija, eu bebo como os pássaros, debico nas gotas.

      Ajeitei a manta sobre as suas pernas que despontavam como galhos pontiagudos. Ele entendeu os meus cuidados e se explicou:

      - Já vi o rio minguar, tantas vezes. Mas secar assim tão completamente é coisa que nunca eu podia imaginar. Diga, meu neto: você sabe quem é esse rio?

      - Quem é o rio? - estranhei.

      - Vou-lhe contar uma história, meu filho.

      - Uma história com final feliz?

      Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim. Era assim que ele dizia. Desta vez, porém, o tom era outro, nem eu lhe reconhecia o pigarrear grave.

      - Não é uma história. É um segredo que corre na família. Escute com atenção.

      - Eu escuto sempre com toda a atenção.

      - Não é isso. É que vai ouvir a minha voz, no princípio. Depois, já no fim, escutará apenas a voz da água, a palavra do rio.

      Enquanto o avô ia revelando a lenda, eu me embalava como se, de novo, me entretivesse em pescarias.

A LENDA DE NTOWENI

      No princípio, quando chegaram aqui os nossos primeiros, este lugar não tinha água. Nem lagos, nem rios, nem sequer charcos. Só no Reino dos Anyiimha é que, chovia, só lá é que adormeciam os grandes lagos de Chilua. Os primeiros habitantes do nosso lugar sofriam e morriam olhando as nuvens que passavam.

      Mandaram então Ntoweni, a avó de sua avó, para que fosse ao Reino dos Anyumba e trouxesse provisões de água para a aldeia. Ntoweni era como a neta: uma mulher de extraordinária beleza. Pois ela levou uma cabaça grande e prometeu que voltaria com ela cheia. Beijou os filhos, abraçou o marido e despediu-se de todos.

      Ntoweni chegou à cidade e, logo, o imperador soube da sua chegada. Mandou que ela comparecesse na sua residência. O grande senhor apaixonou-se pela beleza daquela mulher. e disse-lhe:

      - Só lhe darei água se nunca mais sair daqui. Hoje mesmo você vai ser minha esposa.

      Ntoweni pensou e decidiu fazer-se de conta. Entregou-se ao rei naquela noite, deixou que ele dela abusasse. Antes de adormecer, o monarca ainda ameaçou:

      - Se fugir eu lhe mandarei matar.

      Na manhã seguinte, Ntoweni escapou por entre a poeira dos caminhos. Assim que deu pela sua ausência, o rei mandou que a seguissem. Quando ela se aproximava de sua casa, uma azagaia cruzou o espaço e se afundou nas suas costas. A cabaça subiu, desamparada, pelo ar e a água se derramou, desperdiçada. Mas quando a vasilha se quebrou no chão. os céus todos estrondearam e um rasgão se abriu na terra.

      Das profundezas emergiu um rugido e uma imensa serpente azul se desenrolou dos restos da cabaça.

      Foi assim que nasceu o rio.

      Quando meu avô se calou eu deveria escutar a voz do rio. Mas nada soava. Apenas um silêncio nos magoava como uma ferida interior. Talvez fosse saudade da águia pescadora, saudade da água pesqueira. Sentiremos sempre a saudade como um mar em que, em outra vida, nos tenhamos banhado.

continua...

Fonte:
Mia Couto. A chuva pasmada. 2004.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Monteiro Lobato (O Casamento da Emília)


Durou uma semana o noivado de Emília. Todas as tardes, trazido à força por Pedrinho, aparecia o Marquês de Rabicó para visitar a noiva, e tinha de ficar meia hora na sala, contando casos e dizendo palavras de amor.

Mas apesar de noivo o Rabicó não perdia os seus instintos. Logo que entrava punha-se a farejar a sala, na sua eterna preocupação de descobrir o que comer. Além disso, não prestava a menor atenção à conversa. Não havia nascido para aquelas cerimônias.

Uma tarde, Pedrinho zangou-se e resolveu substituí-lo por um representante.

– Rabicó não vale a pena – disse ele aborrecido. – Não sabe brincar, não se comporta. O melhor é isto, querem ver? – e saiu.

Foi ao quintal e trouxe um vidro vazio de óleo de rícino que andava jogado por lá.

– Esta aqui. De agora em diante o noivo será representado por este vidro azul, e o tal Marquês de Rabicó vai passear – concluiu pregando um pontapé no noivo.

Rabicó raspou-se gemendo três coins , e desde esse dia, enquanto fossava a terra no pomar atrás da tal minhoca de anel na barriga, quem noivava por ele, de cartola na cabeça, era o senhor Vidro Azul.

Emília comportava-se muito bem embora de vez em quando viesse com impertinências.

– Eu já disse a Narizinho: caso, mas com uma condição.

– Eu sei qual é! – adivinhou o senhor Vidro Azul. – Não quer morar na casa do Marquês, com certeza porque não se dá bem com o futuro sogro, os Visconde de Sabugosa.

– Isso não! Até gosto muito do senhor Visconde. O que não quero é sair daqui. Estou muito acostumada.

– O senhor Vidro Azul coçou o gargalo.

– Sim, mas…

– Não tem mas, nem meio mas! Quem manda neste casamento sou eu. O Marquês fica por lá e eu fico por cá – declarou Emília, toda espevitadinha e de nariz torcido.

O representante do noivo suspirou.

– Que pena! O Senhor Marquês já mandou construir um castelo tão bonito, de ouro e marfim, com um grande lago na frente…

Emília deu uma risada.

– Eu conheço os lagos do Marquês! São como aquele célebre “lago azul” que certa vez prometeu à Libelinha lá do Reino das Abelhas.

O senhor Vidro Azul atrapalhou-se. Viu que

Emília não era nada tola e não se deixava enganar facilmente. Procurou remendar.

– Sim, um lago. Não digo um grande lago, mas um pequeno lago, um tanque…

– Uma lata d’água, diga logo! – completou Emília mordendo os beiços.

Narizinho interveio, repreensiva.

– Você está aqui para noivar, Emília, para dizer coisas bonitas e amáveis, e não para brigar com o representante do Marquês. Veja lá, hein?

E dirigindo ao representante:

– O Senhor Marquês não escreveu ainda uns versos para a sua amada noivinha?

– Escreveu, sim – respondeu o Vidro Azul, metendo a mão no gargalo e sacando um papelzinho. – Aqui estão eles.

E recitou:

Pirulito que bate bate,
Pirulito que já bateu,
Quem adora o Marquês é ela.
Quem adora Emília sou eu.

– Bravos! – exclamou Narizinho batendo palmas. – São lindos esses versos! O Marquês é um grande poeta!…

Emília, porém, torceu o nariz e até ficou meio danadinha.

– O verso está todo errado! Vou casar-me com Rabicó mas não “adoro” coisa nenhuma. Tinha graça eu “adorar” um leitão!

Narizinho bateu o pé e franziu a testa.

– Emília, tenha modos! Não é assim que se trata um poeta. Você vai ser marquesa, vai viver em salões e precisa saber fingir, ouviu?

Depois, voltando-se para o representante:

– Peço-lhe mil desculpas, senhor Vidro Azul! Emília tem a mania de ser franca. Nunca viveu em sociedade e ainda não sabe mentir. Não é aqui como o nosso Visconde de Sabugosa, que fala, fala e ninguém sabe nunca o que ele realmente esta pensando, não é verdade?

O Visconde fez um gesto que tanto podia ser sim como não.

Desse modo conversavam todas as noites, longo tempo, até que vinha o chá. Chá de mentira com torradas de mentira. Depois do chá, se despediam.

Passada uma semana, a menina queixou-se a Dona Benta:

– Este noivado esta me acabando com a vida, vovó. Todas as noites, tenho de fazer sala para os noivos. Como isto cansa!…

– Mas que é que está faltando para o casamento, menina?

– Os doces, vovó…

– Já sei. Já sei. Pois tome lá estes níqueis e mande vir os doces.

Como era justamente aquilo que Narizinho queria, lá se foi aos pinotes, com os níqueis cantando na mão.

Chegou afinal o grande dia e vieram os grandes doces: seis cocadas, seis pé-de-moleque e uma rapadura, doce mais que suficiente para uma festa em quase todos os convidados ia comer de mentira.

Pedrinho armou a mesa da festa debaixo de uma laranjeira do pomar e botou em redor todos os convivas.

Lá estavam Dona Benta, Tia Nastácia e vários conhecidos e parentes, todos representados por pedras, tijolos e pedaços de pau. O inspetor de quarteirão, um velho amigo de Dona Benta que às vezes aparecia pelo Sítio do Picapau Amarelo, era figurado por um toco de pau com uma dentadura de casca de laranja na boca.

Chegou a hora. Vieram vindo os noivos. Emília, de vestido branco e véu; Rabicó, de cartola e faixa de seda em torno do pescoço. Vinha muito sério, mas assim que se aproximou da mesa e sentiu o cheiro das cocadas, ficou de água na boca, assanhadíssimo. Não viu mais nada.

Logo depois veio o padre e casou-os. Narizinho abraçou Emília e chorou lágrima de verdade, dando-lhe muitos conselhos. Depois, como a boneca não tivesse dedos, enfiou-lhe no braço um anelzinho seu. Pedrinho fez o mesmo com o Marquês; enfiou-lhe no braço uma aliança de laranja, que Rabicó por duas vezes tentou comer.

Os outros animais do Sítio, as cabras, as galinhas e os porcos, também assistiram à festa, mas de longe. Olhavam, olhavam, sem compreenderem coisa nenhuma.

Terminada a festa. Narizinho disse:

– E agora, Pedrinho?

– Agora – respondeu ele – só falta a viagem de núpcias.

Mas a menina estava cansada e não concordou. Propôs outra coisa. Puseram-se a discutir e esqueceram de tomar conta da mesa de doces. Rabicó aproveitou a ocasião. Foi se chegando para perto das cocadas e de repente – nhoc! Deu um bote na mais bonita.

– Acuda os doces, Pedrinho! – berrou a menina.

Pedrinho virou-se e, vendo a feia ação do pirata, correu para cima dele, furioso. Agarrou o inspetor de quarteirão e arrumou uma valente inspetorada no lombo do porquinho…

– Cachorro! Ladrão! Marquês duma figa!…

Rabicó deu um berro espremido e disparou pelo campo, mas sem largar a cocada.

Como era de prever, não podia dar bom resultado aquele casamento. O gênios não se combinavam e, além disso, a boneca não podia consolar-se do logro que levara.

Narizinho ainda tentou convencê-la de que Rabicó era realmente príncipe e Pedrinho só dissera aquilo porque estava danado. Não houve meio. Quando Emília desconfiava, era toda a vida. E desse modo ficou casada com Rabicó, mas dele separada para sempre.

– Esta aí o que você fez! – costumava dizer em voz queixosa. – Casou-me com um príncipe de mentira e agora, esta aí, esta aí…

Narizinho dava-lhe esperanças.

– Tudo se arruma. Um dia, ele morre e eu caso você com o Visconde ou outro qualquer.