domingo, 13 de outubro de 2024

José Feldman (Pafúncio e o Prêmio Nobel de Literatura)

 
Era uma noite de gala em Estocolmo, onde as luzes brilhavam intensamente e a expectativa estava no ar. O Prêmio Nobel de Literatura seria entregue, e Pafúncio Epaminondas, o jornalista da revista “Fuxicos & Fofocas”, foi enviado para cobrir o evento. Ele não tinha a menor ideia do que estava prestes a enfrentar, mas estava determinado a fazer sua cobertura ser a mais memorável de todas.

Vestido com um terno que mais parecia uma colcha de retalhos e uma gravata com estampas de frutas, Pafúncio entrou no elegante salão onde a cerimônia aconteceria. Ele olhou ao redor, admirando o luxo, mas também se sentindo um pouco deslocado. Afinal, ele estava ali para entrevistar os vencedores do Prêmio Nobel, e ele, que mal conseguia escrever uma frase sem errar, estava prestes a se encontrar com os maiores escritores do mundo.

Assim que chegou, Pafúncio se dirigiu a uma mesa onde estavam distribuindo os crachás aos convidados, premiados e jornalistas, recebendo um crachá. Então se deparou com um grupo de jornalistas renomados, todos vestidos impecavelmente. Ele respirou fundo e decidiu que precisava se misturar. 

Ao invés de ser discreto, acabou esbarrando na mesa de um buffet, derrubando uma bandeja cheia de canapés. Os petiscos voaram pelo ar como se fossem confetes, e ele, em um gesto de desespero, tentou agarrar um deles, mas acabou pegando uma taça de champanhe que, por sua vez, foi parar na cabeça de uma senhora idosa que estava perto.

“Desculpe! Aqui está seu novo penteado!” – Pafúncio exclamou, tentando ser engraçado. 

A senhora, com a taça ainda na cabeça, apenas olhou para ele com um olhar de reprovação.

Após esse início desastroso, Pafúncio se lembrou de seu verdadeiro objetivo: entrevistar os vencedores. Ele se dirigiu à área onde os laureados estavam sendo recebidos. O primeiro que encontrou foi um renomado escritor de romances, Odic Poesia, conhecido por suas obras profundas e filosóficas. 

Com um sorriso nervoso, Pafúncio perguntou: “Odic, se você pudesse descrever sua obra em uma fruta, qual seria?”

Odic, um tanto confuso, respondeu: “Uma laranja, porque é cheia de camadas.”

“E também azeda se você não a escolher bem!” – Pafúncio completou, sem saber se deveria rir ou se encolher. 

O escritor olhou para ele, um tanto perplexo, mas acabou sorrindo, aliviado por não ter sido ofendido.

Seguindo em frente, Pafúncio encontrou a ganhadora do Nobel de Literatura, uma mulher chamada Toda Prosa. 

Ele estava tão empolgado que, sem pensar duas vezes, soltou: “Toda, se você tivesse que escolher um animal para descrever seu estilo de escrita, qual seria?”

Toda, tentando manter a compostura, respondeu: “Talvez um pássaro, porque minhas palavras voam livremente.”

Pafúncio, em sua mente, transformou isso em uma manchete: “Toda Prosa diz que sua escrita é como um pássaro! Cuidado com as janelas abertas!” 

A escritora olhou para ele, sem saber se ria ou se se preocupava com a sua sanidade.

A cada nova entrevista, Pafúncio se sentia mais confiante, mesmo que suas perguntas continuassem absurdas. 

Ele encontrou um outro laureado, um autor de contos chamado Miguel Fábula. 

“Miguel, se você pudesse trocar sua pena por qualquer objeto da sua casa, qual seria?” Pafúncio perguntou.

“Uma colher,” Miguel respondeu, intrigado. “Porque eu adoro mexer nas coisas.”

“Então, você é um escritor que adora misturar ideias!” Pafúncio exclamou, anotando tudo. 

Miguel sorriu, mas não conseguiu esconder a confusão.

Após algumas entrevistas, um incidente inesperado ocorreu. Pafúncio, distraído enquanto escrevia suas anotações, tropeçou em uma cadeira e caiu, derrubando uma mesa cheia de flores que caíram como uma avalanche sobre ele. “Parece que estou sendo atacado por um buquê assassino!” ele gritou, enquanto tentava se levantar, coberto de pétalas.

Os jornalistas ao redor não conseguiam conter a risada, e Pafúncio, mais uma vez, se viu no centro das atenções. Ele decidiu aproveitar a situação e começou a improvisar uma performance, falando sobre “as flores da literatura” e como algumas eram mais traiçoeiras que outras.

Quando finalmente chegou a hora de se despedir dos laureados, Pafúncio percebeu que precisava fazer uma pergunta final que realmente deixasse uma marca. Ele se aproximou de Odic e perguntou: “Se a literatura fosse uma dança, qual seria e por quê?”

Odic, agora mais relaxado, respondeu: “Um valsa, porque é uma dança que exige tanto coordenação quanto imaginação.”

“Então, se eu me atrapalhar, posso chamar isso de ‘dança literária’!” Pafúncio completou, rindo de si mesmo.

Com sua cobertura cheia de perguntas malucas, incidentes hilários e uma quantidade inusitada de flores, Pafúncio voltou para a redação. Ele escreveu uma matéria que misturava a seriedade do Prêmio Nobel com seu estilo trapalhão, transformando cada entrevista em um momento de pura comédia.

Ao final, Pafúncio provou que, mesmo sem entender completamente o mundo da literatura, era capaz de trazer um sorriso ao rosto das pessoas. Afinal, a vida é uma grande história, e, como um jornalista de uma revista de fofocas, ele sabia que o mais importante era saber rir das próprias trapalhadas.

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024

Silmar Bohrer (Croniquinha) 122


À medida que os anos passam muitas pessoas se aposentam e falam em se recolher com várias, sempre digo, desculpas. E o renunciar significa abandono voluntário, deixar em poder de outros, como no francês " laisser à bandon ". 

Não vamos esquecer que somos todos dependentes e encontramos pessoas que perdem a tramontana* quando ficam sem alguma atividade. Não sabem ou não entendem que a vida é um permanente renovar de afãs. Hora de restaurar ações, resgatar ideias, praticar outros conhecimentos. 

Nos seus pensares a atriz Andrey Hepburn escreveu que " as pessoas, mais do que objetos, precisam ser reparadas, revividas, animadas, chamadas e salvas - jamais jogue alguém fora ". 

Manter a calma - contar os dias como flores, não como sombras.
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* perdem a tramontana = perdem o rumo

Fonte: Texto enviado pelo autor 

Recordando Velhas Canções (O ‘x’ do problema)

 (samba, 1936) 
Compositor: Noel Rosa

Nasci no Estácio, fui educada na roda de bamba
E fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê

Nasci no Estácio, o samba é a corda
Eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer eu gostar de você  

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
      E felicidade maior neste mundo não há   
             Já fui convidada para ser estrela
Do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair   do Estácio é que é     
O 'x'    do problema 

Já fui convidada para ser estrela
Do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair   do Estácio é que é     
O 'x'    do problema

Você    tem vontade que eu abandone 
O Largo do Estácio
Pra ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana

Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode crer que palmeira do Mangue
Não vive na areia  de Copacabana

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
      E felicidade maior neste mundo não há   
             Já fui convidada para ser estrela
Do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é     
O 'x' do problema 

Já fui convidada para ser estrela
Do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é     
  O 'x' do problema

A Essência do Estácio: Identidade e Pertencimento em 'O X do Problema'
A música 'O X do Problema', de Noel Rosa, é uma celebração da identidade e do pertencimento ao bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Noel Rosa, um dos maiores compositores da música popular brasileira, utiliza a letra para expressar o orgulho de suas raízes e a importância da cultura do samba em sua vida. A personagem da canção, que se identifica como uma mulher nascida e criada no Estácio, destaca sua formação na roda de bamba e na escola de samba, elementos centrais da cultura local.

A letra também aborda a questão da autenticidade e da resistência às mudanças impostas por pressões externas. A personagem recusa a ideia de abandonar o Estácio para viver em um grande palácio, mesmo que isso signifique uma vida de luxo e glamour. Ela enfatiza que sua essência está profundamente enraizada no Estácio, e que mudar de ambiente seria como tentar fazer uma palmeira do mangue viver na areia de Copacabana. Essa metáfora reforça a ideia de que certas identidades são intransferíveis e que o verdadeiro valor está em ser fiel a si mesmo e às suas origens.

Além disso, a música reflete sobre a felicidade e o sucesso sob uma perspectiva diferente da convencional. Para a personagem, ser diretora da escola de samba do Estácio de Sá é a maior felicidade que ela poderia alcançar, mais do que ser uma estrela de cinema. Isso sublinha a importância da comunidade e da cultura local como fontes de realização pessoal e coletiva. Noel Rosa, com sua habilidade lírica, consegue capturar a essência do Estácio e transmitir uma mensagem poderosa sobre identidade, pertencimento e autenticidade.
Fonte: https://www.letras.mus.br/noel-rosa-musicas/862749/significado.html

sábado, 12 de outubro de 2024

Aparecido Raimundo de Souza (Impulso canino)

ARABRUTO ACORDOU eufórico. Estava decidido. Aquele dia iria liberar seu lado cachorro. Desde que Anabela viera trabalhar em seu apartamento, na Belizário Pena, na Ilha do Governador, como secretária do lar, prestando os serviços mais variados, nas quintas e sextas-feiras, Arabruto desembestou, assim do nada, seu lado canino. Pôs na cabeça que dessa sexta-feira não passaria. Assim que a graciosa chegou, como sempre, bem vestida, arrebatada num meio-vestidinho que lhe deixava as pernas bem torneadas à mostra, o desregulado de sua cabeça degringolou de vez. O fato é que todo o conjunto da bela, em sintonia com o pecado carnal, deixava fora de órbita qualquer ser humano que não tivesse um pingo de juízo no cérebro. A musa suscitava uma visão danada para nenhum marmanjo colocar defeito. Arabruto, um desses manés que, desde que a moça aportara em sua casa, vivia engendrando uma maneira de pular em cima dela com a ferocidade devastadora que lhe consumia as entranhas. Seus instintos estavam, realmente, à flor da pele. O presente texto contará tudo como de fato aconteceu, sem tirar nem por.

— É hoje, é hoje que me esbaldo... – teria dito Arabruto pouco antes de partir para o tudo ou nada.  

Como sempre, no horário habitual, a deusa encantada chegou. Antes de se dar em serviço, interfonou da portaria. Arabruto atendeu. Sabia, antecipadamente quem se fazia do outro lado da linha. Se arreganhou em mesuras:

— Minha fofa, nem precisava avisar. Você é parte das boas coisas do meu dia a dia. Tem a chave. Bastava pegar o elevador e se pôr a caminho...

Anabela educadamente deu a resposta:

— Bom dia, seu Arabruto. Sua esposa me ligou e pediu para eu passar aqui na padaria. Falou que a última caixa de leite havia sido aberta. Aproveito e levo uns pães frescos...

— Ótimo, Anabela. Tem dinheiro?

— Quando eu for embora, no final do expediente, o senhor ou dona Isaltina me reembolsam... pode ser?

— Ok. Fechado.

Assim aconteceu. Quando a moça entrou pela única porta existente, ou seja, a da sala, Arabruto a esperava escondido deitado no chão, atrás da geladeira, camuflado de um jeito que ela não o veria, quando ingressasse na peça. Aquela se fazia a primeira vez que o seu chefe agia daquele jeito. Não deu outra. Anabela tomou, pois, em consequência, um susto grandioso. Sua reação, não poderia ser pior. Como nunca antes o desmiolado se escondera, ou brincara de se passar por um cachorro, e pior, latindo, e pegando nas pernas dela, à altura dos joelhos com as mãos à guisa de abocanhada de um totó encarniçado, o desespero da prestadora nota mil se fez pavoroso e inevitável. Anabela, em ato de se precaver, passou a mão no primeiro objeto que encontrou. Uma panela cheia de feijão em cima do fogão. Sem pensar duas vezes, meteu a sua arma de resguardo improvisada em ação e o fez com toda força de suas agilidades, atingindo diretamente os cornos de Arabruto. Em face do intempestivo, a moça deixou cair por terra o saco de pão e a sacola com a caixa de leite que trouxera consigo. 

Por conta dessa brincadeira desastrosa e não programada, e, claro, de estropiado gosto sinistro, Arabruto arranjou uns bons cortes e galos na cabeça, bem ainda nas costa e pernas. Caso passado, susto refeito, o resultado do vexame, atonou:

—  Seu Arabruto, me desculpa. Que baita susto! O que fazia metido aí nos fundilhos da geladeira?

— Esperando você...

— E para quê?

— Você sabe, não é de hoje prometi a mim mesmo lhe daria umas mordidas de brincadeirinha. Olha como você me deixou...

A moça obviamente espiou, mas nada disse a respeito do que presenciava. Aproveitando o ensejo, se defendeu:

— Eu não esperava essa atitude de sua parte. O senhor ficou maluco? Olha como lhe deixei. Meu Deus, vamos para o pronto socorro aqui da Ilha, logo ali na Estrada do Dendê. Está jorrando muito sangue. Rápido, preciso dar conta do serviço ou a sua esposa vai subir nos cascos e me botar de volta para Bonsucesso com passagem só de ida...

Entretanto, não deu tempo. Dona Isaltina, a mulher de Arabruto, por algum motivo incalculado pintou de volta, dez minutos depois, não comparecendo aquela manhã ao seu local de trabalho. Em face disso, deu com a empregada toda melosa, o vestido curto mostrando o que não devia, socorrendo seu marido, os dois acomodados no chão. 
 
Para engrossar o caldo, na justa hora do assomo na cozinha, Anabela tentava estancar o sangue do cocuruto e também dos olhos e queixo do abestalhado, com ele acomodado tipo uma criancinha desprotegida em seu colo de fundo rosa. E o desgraçado sem vergonha se aproveitando da situação, mantinha os braços envoltos em torno do pescoço da prestimosa. Esse flagra deu um baita “BO,” ou melhor, um tumultuado “BU” (Boletim Unificado), na 37ª DP da Ilha do Governador, na estrada do Galeão, uma vez que a empregada, coitada, precisou explicar, toda confusa, à sua patroa, pormenorizadamente os motivos do marido dela, ensanguentado estar literalmente atarracado em seus braços e nuca. Final da tragédia, prevaleceu a mordida de um cachorro vira-lata e seus latidos invisíveis que sequer existiram. Caso passado, início de noite desse mesmo dia, depois dos curativos no hospital, compra de remédios e mentiras sem pé nem cabeça, o casamento de Arabruto e Isaltina culminou em separação. Sumariamente despejado, o desditoso jogou no ralo um relacionamento de quase trinta anos. Sem saída, as tralhas jogadas no elevador de serviço, o doidivana se aquartelou, às pressas, na casa de uma filha casada (rebento advindo da união dele com a sua adorada Isaltina). Quanto a ela, tão logo recuperada do baque, trocou de empregada e continuou tranquilamente em seu cargo. Isaltina exercia a função de assistente de uma empresa de advogados famosos na Avenida Presidente Vargas, quase às barbas da Igreja da Candelária e realizava as suas habilidades, desde quando ainda nem pensava em se unir ao Arabruto.  

Fonte: Texto enviado pelo autor 

Estante de Livros ("Crônicas Indígenas para Rir e Refletir na Escola", de Daniel Munduruku)

"Crônicas Indígenas para Rir e Refletir na Escola" é uma coletânea de contos do autor e educador Daniel Munduruku, que busca apresentar de maneira acessível e envolvente a cultura, as tradições e as vivências dos povos indígenas do Brasil. O livro é dividido em crônicas que misturam humor, crítica social e reflexões profundas sobre a identidade indígena e suas interações com a sociedade contemporânea.

As crônicas abordam diversas situações do cotidiano indígena, destacando a riqueza das tradições orais, a relação com a natureza e as questões enfrentadas pelos povos indígenas, como preconceito, desinformação e a luta pela preservação de suas culturas. Munduruku utiliza uma linguagem simples e direta, apropriada para o público jovem, enquanto insere elementos de crítica e reflexão sobre a realidade dos indígenas no Brasil.

Cada crônica é uma oportunidade para rir e refletir, instigando os leitores a questionar estereótipos e preconceitos. O autor também enfatiza a importância da educação e do respeito à diversidade cultural, propondo que a escola seja um espaço de aprendizado sobre as culturas indígenas, promovendo um diálogo entre diferentes saberes.

Munduruku explora a identidade indígena de maneira multifacetada, abordando as diferentes etnias e suas particularidades. Ele destaca a riqueza das tradições, costumes e línguas, reafirmando a diversidade cultural dos povos indígenas. A identidade é apresentada como algo dinâmico e em constante construção, desafiando a visão homogênea que muitas vezes é imposta à cultura indígena.

O autor enfatiza a conexão profunda que os indígenas têm com a natureza, apresentando-a como um elemento central de sua cultura e espiritualidade. As crônicas ressaltam a importância da preservação ambiental e a sabedoria indígena em relação ao uso sustentável dos recursos naturais. Munduruku sugere que essa relação deve ser respeitada e aprendida por todos, promovendo uma reflexão sobre a crise ambiental contemporânea.

Uma das principais críticas do livro é à maneira como os indígenas são frequentemente representados na sociedade. Munduruku utiliza o humor para desmantelar estereótipos e preconceitos, mostrando que os indígenas são seres humanos complexos, com suas próprias histórias e desafios. O autor convida os leitores a refletirem sobre suas próprias percepções e a importância de uma abordagem mais respeitosa e informada sobre as culturas indígenas.

O livro propõe que a escola seja um espaço de aprendizado sobre as culturas indígenas, promovendo a diversidade cultural como um valor essencial. Munduruku defende que o conhecimento sobre as tradições e modos de vida indígenas deve ser integrado ao currículo escolar, contribuindo para uma educação mais inclusiva e consciente. O autor acredita que a educação é uma ferramenta fundamental para a transformação social e para o combate ao preconceito.

O uso do humor nas crônicas é uma estratégia eficaz para atrair o interesse dos jovens leitores. Através do riso, o autor cria um ambiente propício para a reflexão, permitindo que temas sérios sejam abordados de maneira leve e acessível. O riso é apresentado como uma forma de resistência e resiliência dos povos indígenas, que enfrentam desafios cotidianos com uma perspectiva otimista.

"Crônicas Indígenas para Rir e Refletir na Escola" é uma obra que vai além da simples narrativa; é um convite à reflexão crítica sobre a cultura indígena e seu lugar na sociedade contemporânea. Daniel Munduruku, através de sua escrita envolvente e humorística, desafia os leitores a se desapegarem de preconceitos e a abraçarem a diversidade cultural. O livro é um recurso valioso para educadores e alunos, promovendo um diálogo necessário sobre a identidade indígena, a relação com a natureza, e a importância da educação na construção de uma sociedade mais justa e respeitosa. 

A obra de Munduruku é um chamado à ação, incentivando a valorização das vozes indígenas e a necessidade de um espaço de aprendizagem que respeite e celebre a diversidade cultural do Brasil.

Fonte: José Feldman. Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Recordando Velhas Canções (Rasguei minha fantasia)


(marcha/carnaval, 1935) 

Compositor: Lamartine Babo

Rasguei a minha fantasia
O meu palhaço
Cheio de laço e balão
Rasguei a minha fantasia
Guardei os guizos no meu coração

Fiz palhaçada
O ano inteiro sem parar
Dei gargalhada
Com tristeza no olhar
A vida é assim...
A vida é assim...
O pranto é livre
Eu vou desabafar

Tentei chorar
Ninguém no choro acreditou
Tentei amar
E o amor não chegou
A vida é assim...
A vida é assim...
Comprei uma fantasia de pierrô

A Melancolia por Trás da Fantasia
A música 'Rasguei a Minha Fantasia', de Lamartine Babo, é uma obra que explora a dualidade entre a alegria aparente e a tristeza interior. A letra começa com o eu lírico declarando que rasgou sua fantasia de palhaço, um símbolo de alegria e diversão. No entanto, ao rasgar essa fantasia, ele revela que guardou os 'guiços' (sinos) no coração, sugerindo que a tristeza e a melancolia ainda estão presentes, mesmo que escondidas.

O segundo verso aprofunda essa dualidade ao descrever como o eu lírico fez palhaçadas o ano inteiro, mas com tristeza no olhar. Essa imagem é poderosa, pois mostra como muitas vezes as pessoas escondem suas verdadeiras emoções atrás de uma máscara de felicidade. A frase 'A vida é assim!' é repetida, enfatizando a resignação do eu lírico diante das dificuldades e desilusões da vida. Ele tenta chorar, mas ninguém acredita em seu choro, e tenta amar, mas o amor não chega. Essas tentativas frustradas reforçam a sensação de isolamento e incompreensão.

Por fim, a música termina com o eu lírico comprando uma nova fantasia de pierrô, outra figura tradicionalmente associada à tristeza e à melancolia. Isso sugere que, apesar de tentar se livrar da fantasia de palhaço, ele ainda está preso em um ciclo de tristeza e desilusão. A escolha do pierrô como nova fantasia é significativa, pois essa figura é conhecida por sua expressão de tristeza e solidão, contrastando com a imagem alegre do palhaço. Assim, 'Rasguei a Minha Fantasia' é uma reflexão profunda sobre a complexidade das emoções humanas e a dificuldade de encontrar verdadeira felicidade e compreensão.
Fonte: https://www.letras.mus.br/lamartine-babo/1877876/significado.html

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

José Feldman (Grinalda de Versos) * 3 *

 

A. A. de Assis (Banheiroteratura)

Neste mundo de gente apressada não sobra tempo livre para nada, muito menos para ler. Mal e mal se dá um jeito de olhar por alto alguns jornais e revistas, e só porque estar informado é ainda investimento. Livro quase ninguém mais abre.

Há, porém, dois derradeiros tipos de leitores inveterados: os que não conseguem dormir sem antes folhear um livro e os que fazem do banheiro seu gabinete cultural. Os adeptos da “sonoteratura” passam às vezes um ano com o mesmo volume, lendo duas ou três páginas por noite; os praticantes da “banheiroteratura”, idem.

Reza a medicina das vovós que ler no troninho pode prejudicar a saúde – sei lá se é verdade. Poucos, porém, parecem atentos a tais preocupações. Conheço gente que não entra no banheiro sem algo escrito. No mínimo como garantia para eventual carência de papel.

Um professor me disse que leu e releu a “Ilíada” e a “Odisseia” assim. Durante quase dois anos, dez minutos por dia. Outro aproveitou a ideia e está usando o mesmo processo para ler “Os sertões”, do Euclides. Depois pretende entrar no “Grande sertão – veredas”, do Rosa. Quem sabe algum dia chegue a Virgílio, Camões, Cervantes… 

Antigamente todo mundo curtia leitura. Sem televisão, sem rádio, sem cinema, sem celular, sem barzinho, a noite era vazia. O jeito era ler.

Gordos volumes de romances, contos, poemas. Minha mãe, embora tivesse feito na escola somente as primeiras séries, jamais ficava sem uma pilha de livros ao lado da cama. Leu toda a obra de Machado de Assis, de José de Alencar, e sabia de cor os versos da maioria dos poetas românticos e parnasianos.

Veio depois o que se costuma chamar de progresso, e com ele a necessidade de as pessoas trabalharem mais horas por dia. Veio também a maior variedade de programas.

E a leitura foi ficando de lado.

O jovem moderno lê apostilas e livros didáticos, sem os quais não consegue passar de ano na escola. O adulto lê o que interessa para o exercício de sua profissão. Literatura (arte literária) não tem mais vez. A não ser naqueles dez minutos diários a ela dedicados pelos que cultivam a “sono-“ ou a “banheiroteratura”.

O professor que leu a “Ilíada” e a “Odisseia” na “casinha” explica suas razões: dá aulas de manhã, de tarde e de noite, fica muitas vezes até de madrugada corrigindo trabalhos e provas ou preparando a matéria que ensinará no dia seguinte. Os únicos momentinhos sobrantes são mesmo aqueles em que se tranca para as urgências orgânicas. O bom e sábio Homero, lá do seu nobre assento etéreo, há de generosamente compreender e perdoar a irreverência. Afinal, neste agitado tempo de gente sem tempo, ler no banheiro já é uma grande homenagem prestada a quem escreve…

(Crônica publicada no Jornal do Povo em 10.10.2024)

Fonte: Texto enviado pelo autor 

Vereda da Poesia = Antonio Juraci Siqueira (Belém/PA)



Estante de livros (Madame Bovary; A Educação Sentimental; Bouvard e Pécuchet, de Flaubert)


As obras de Gustave Flaubert são marcos do realismo literário, cada uma abordando questões universais de modo profundo e provocativo. Através de sua prosa refinada e personagens complexos, o autor continua a ressoar com leitores contemporâneos, oferecendo reflexões sobre a condição humana e as contradições da sociedade.

1. Madame Bovary
Este livro narra a vida de Emma Bovary, uma mulher que se sente entediada e insatisfeita com sua vida provincial e seu casamento com Charles Bovary, um médico simples e bondoso. Emma anseia por paixão e emoção, inspirada por romances idealizados que leu em sua juventude. Ela busca escapar da monotonia através de relacionamentos extraconjugais com Rodolphe e Léon, além de gastar dinheiro em luxos que não pode pagar.

A busca incessante de Emma por uma vida ideal leva a consequências trágicas. Sua infidelidade e consumismo resultam em dívidas crescentes, e, ao perceber que seus sonhos permanecem inatingíveis, ela se desespera. No final, Emma toma a drástica decisão de se suicidar, deixando Charles devastado e os credores atrás de sua família.

"Madame Bovary" é uma crítica incisiva à sociedade burguesa do século XIX, explorando temas como o descontentamento, a busca por identidade e a ilusão do romance. Flaubert utiliza um estilo de realismo meticuloso, usando detalhes vívidos para retratar a vida cotidiana e as emoções de Emma. A estrutura do romance é notável, com uma narrativa que interliga os pensamentos íntimos de Emma e a percepção externa da sociedade.

O personagem de Emma é complexo; ela simboliza a luta entre a aspiração e a realidade. Sua insatisfação reflete não apenas uma crise pessoal, mas também uma crítica social à falta de opções para as mulheres da época. Flaubert desafia as convenções do romance romântico, subvertendo as expectativas do leitor e apresentando a tragédia de uma mulher que busca algo além do que a vida lhe oferece.

2. A Educação Sentimental
Esta obra acompanha a vida de Frédéric Moreau, um jovem de 18 anos que se muda para Paris em busca de amor e aventura. Frédéric se apaixona por Madame Arnoux, uma mulher casada que representa o ideal romântico que ele busca. Ao longo da narrativa, ele testemunha e participa de eventos políticos e sociais que moldam a França do século XIX, incluindo as revoluções de 1848.

A história explora as desilusões amorosas de Frédéric, suas amizades e seus encontros com uma variedade de personagens que representam diferentes aspectos da sociedade. Apesar de suas aspirações e sonhos, Frédéric acaba se sentindo perdido e incapaz de realizar suas ambições, levando a um sentimento de frustração e desilusão.

"A Educação Sentimental" é uma rica análise da juventude, do amor e das transformações sociais. Flaubert utiliza uma narrativa fragmentada e um estilo de prosa altamente detalhado para capturar a complexidade da vida parisiense e a confusão emocional de Frédéric. O romance é também uma crítica à superficialidade da sociedade burguesa e das convenções sociais que limitam a liberdade individual.

Os personagens de Flaubert são multifacetados, refletindo a diversidade da experiência humana. Frédéric, em particular, é um anti-herói que encarna a incerteza da geração que viveu durante períodos de grande mudança. Sua incapacidade de agir e sua busca por significado ressaltam a alienação e o desencanto que permeiam a obra.

3. Bouvard e Pécuchet
Segue a história de dois copistas, Bouvard e Pécuchet, que, após herdarem uma pequena fortuna, decidem buscar conhecimento e se aventurar em várias disciplinas, incluindo a medicina, a agricultura e a filosofia. No entanto, suas tentativas de aprender e aplicar novos conhecimentos são tratadas com um tom de ironia e sátira, pois eles rapidamente se tornam obcecados e desiludidos.

A história é marcada por uma série de fracassos e mal-entendidos, levando Bouvard e Pécuchet a perceber que o desejo de conhecimento muitas vezes é fútil. Ao final, eles retornam a suas vidas simples de copistas, sem realmente compreenderem as lições que tentaram aprender.

"Bouvard e Pécuchet" é uma crítica mordaz à superficialidade do conhecimento e ao entusiasmo irracional pela ciência e pela educação. Flaubert explora a ideia de que o saber não é suficiente para garantir a sabedoria ou a felicidade. A obra aborda as limitações do conhecimento humano e as armadilhas do empirismo.

O estilo de Flaubert é caracterizado por uma ironia sutil, e ele utiliza o humor para expor a tolice de seus personagens. Bouvard e Pécuchet representam a busca incessante da humanidade por compreensão e controle, enquanto suas falhas ilustram a fragilidade da condição humana. Flaubert, com seu olhar crítico, questiona a validade da aquisição de conhecimento sem entendimento profundo e reflexão.

Fonte: José Feldman. Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Recordando Velhas Canções (Os olhos dela)

(xote, 1906) 

Compositores: Catulo da Paixão Cearense e Irineu de Almeida

Eu sou capaz de confessar 
Aos pés de Deus 
Que eu nunca vi em mundo algum 
Uns olhos como os teus! 
Eu não sei mesmo 
Como os hei de comparar, não sei 
Eu já tentei cantar 
O teu divino olhar

Depois de tanto versejar 
Debalde em vão 
Depois de tanto apoquentar 
A minha inspiração 
Cheguei à triste conclusão 
De que eu só sei sofrer 
E o que teus olhos são 
Não sei dizer

Deixa-te estar que quando eu morrer 
Irei verter os prantos meus nos céus 
Hei de contar em segredo a Deus 
As travessuras desses olhos teus 
Hei de mostrar ao Senhor Jesus 
Ao Pai nos céus, apiedado 
Meu coração crucificado 
Nos braços teus de luz

Os olhos teus são lágrimas do amor 
Os olhos teus são dois suspiros de uma flor 
São dois soluços d’alma 
São dois cupidos de poesia 
Que sinfonia tem o teu olhar 
Que até às vezes já nos faz chorar! 
Ai, quem me dera me apagar assim 
À luz do teu olhar!

Os olhos teus 
Quando nos querem castigar 
Parecem dois astros de gelo 
Que nos vêm gelar 
Mas quando querem nos ferir 
Direito o coração 
Eu não te digo não 
O que os teus olhos são

Pois quando o mundo quiser 
De vez findar 
Basta acendê-lo com um raio 
Desse teu olhar 
Que os olhos todos das mulheres 
Que mais lindas são 
Dos olhos teus 
Não têm a irradiação

A Fascinação e o Mistério dos Olhos Dela
A música "Os Olhos Dela" é uma ode à beleza e ao mistério dos olhos de uma mulher amada. Desde o início, o eu lírico confessa que nunca viu olhos tão impressionantes em toda a sua vida, comparando-os a algo divino e inigualável. A dificuldade em descrever a profundidade e o impacto desses olhos é evidente, pois ele admite que, apesar de seus esforços poéticos, não consegue encontrar palavras adequadas para expressar o que sente.

A letra explora a dualidade dos olhos da amada, que podem tanto castigar quanto ferir o coração do eu lírico. Essa ambiguidade é uma metáfora para a complexidade das emoções humanas e a capacidade do olhar de transmitir sentimentos contraditórios. Os olhos são descritos como astros de gelo que podem gelar, mas também como algo que pode ferir profundamente, mostrando a intensidade do amor e da dor que eles podem causar.

No final, o eu lírico eleva os olhos da amada a um nível quase sagrado, comparando-os aos de Maria, a mãe de Jesus. Essa comparação não só exalta a pureza e a santidade dos olhos, mas também sugere um amor que transcende o mundano e se aproxima do divino. A música, portanto, é uma celebração da beleza, do mistério e da complexidade das emoções humanas, encapsuladas no olhar de uma mulher.
Fonte: https://www.letras.mus.br/vicente-celestino-musicas/os-olhos-dela/significado.html

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Daniel Maurício (Poética) 78

 

José Feldman (Pafúncio no campo de futebol)

Era uma tarde ensolarada em uma cidade onde o futebol era quase uma religião. O clima estava eletrizante, pois o grande jogo da final do campeonato nacional se aproximava. A revista “Fuxicos & Fofocas”, sempre em busca de uma boa história, decidiu que era hora de fazer uma cobertura especial do evento, e, claro, o jornalista Pafúncio Epaminondas foi escolhido para entrevistar os jogadores.

O problema? Pafúncio não entendia nada de futebol. Ele sabia que a bola era redonda e que o objetivo era fazer gols, mas isso era tudo. No entanto, seu editor acreditava que sua habilidade de fazer perguntas poderia resultar em algumas respostas memoráveis. E assim, ele se preparou para a missão.

Chegando ao estádio, Pafúncio vestia uma camisa de um time que ele nem sabia qual era — ele simplesmente pegou a primeira que viu no armário. O ambiente estava repleto de torcedores animados, bandeiras tremulando e gritos de incentivo. Ele se sentiu um pouco deslocado, mas decidiu seguir em frente.

Com seu bloco de notas e caneta em mãos, o jornalista se dirigiu à área de entrevistas, onde os jogadores estavam se preparando para falar com a imprensa. Ele avistou o famoso atacante da equipe, um homem musculoso chamado “Marco Gol”, e foi em sua direção.

“Oi, Marco! Se você fosse um animal, qual seria e por quê?” Pafúncio perguntou, com um sorriso que revelava sua total falta de noção. O jogador, surpreso, olhou para ele e respondeu: “Um leão, porque sou o rei do campo!”

Pafúncio, sem perder tempo, anotou: “Marco Gol se vê como um leão! O rei do campo!” Em sua mente, isso era ouro puro para a revista.

Mas ele não parou por aí. Em seguida, decidiu entrevistar a goleira da equipe, uma mulher chamada “Tana Defesa”. Ele chegou perto e, sem pensar, disparou: “Tana, se você tivesse que escolher entre salvar um gol ou comer um bolo de chocolate, o que escolheria?”

Tana, com uma expressão de espanto e riso, respondeu: “Bom, eu sempre escolheria salvar o gol, mas um bolo de chocolate depois do jogo é tentador!”

“Então, o segredo de uma grande goleira é um bom bolo!” Pafúncio anotou, divertindo-se com sua própria lógica.

Depois de algumas entrevistas absurdas, Pafúncio se sentia cada vez mais confiante, mesmo que não entendesse nada do que estava acontecendo. Ele viu uma oportunidade de ouro ao avistar o técnico da equipe, um homem sério chamado “Armando Tática”. Pafúncio se aproximou, tentando parecer profissional, e perguntou: “Armando, se o futebol fosse uma dança, qual seria e por quê?”

Armando, que não esperava essa pergunta, hesitou e respondeu: “Talvez um tango, porque é preciso muito trabalho em equipe.”

Pafúncio, anotando tudo, pensou em como poderia transformar isso em uma matéria divertida. “Armando Tática diz que o futebol é um tango! Preparem-se para a dança do campeonato!”

Enquanto isso, a atmosfera do estádio estava se aquecendo, e Pafúncio decidiu que precisava fazer mais perguntas. Ele encontrou um jogador que estava se alongando e perguntou: “Se você fosse um super-herói, qual seria seu poder durante uma partida?” O jogador, já acostumado com perguntas estranhas, respondeu: “Super velocidade, claro!”

Pafúncio, animado, exclamou: “Então, você corre mais rápido do que a fofoca na redação!” O jogador riu, mas Pafúncio não percebeu que estava começando a perder a noção da situação.

Ao longo do dia, ele continuou a fazer perguntas absurdas, como: “Se você pudesse trocar de lugar com a bola durante um jogo, o que diria a ela?” e “Qual música você cantaria se estivesse em campo, e por que seria uma balada romântica?” Os jogadores, embora confusos, se divertiram.

Finalmente, chegou a hora do grande jogo. Pafúncio, agora um pouco mais confortável, decidiu que precisava fazer uma última pergunta para o capitão da equipe, um homem carismático chamado “Lino Capitão”. Ele se aproximou e, em um momento de pura inspiração, soltou: “Lino, se a vitória fosse um sabor de sorvete, qual seria e por quê?”

Lino, sem saber se ria ou se ficava sério, respondeu: “Chocolate, porque é sempre a escolha certa!” Pafúncio, radiante, gritou: “Vitória é chocolate! Preparem-se para a taça mais doce da história!”

O jogo começou, e Pafúncio, agora como um verdadeiro comentarista, decidiu que tinha que fazer uma análise ao vivo. Ele começou a gritar coisas como: “Olhem! O leão está correndo para o gol!” e “Tana vai guardar o gol como uma mãe guarda seu filho!” As pessoas ao seu redor riam da sua empolgação, e até alguns torcedores começaram a aplaudir suas observações absurdas.

Ao final do jogo, que terminou em uma vitória emocionante para a equipe de Pafúncio, ele se sentiu como o verdadeiro herói da história. Embora não tivesse entendido nada do que aconteceu em campo, ele conseguiu capturar a essência do evento com suas perguntas inusitadas e seu jeito descontraído.

De volta à redação, Pafúncio escreveu uma matéria que misturava futebol com humor, destacando a visão única que ele trouxe ao evento. E assim, com risadas e trapalhadas, ele provou que, mesmo sem entender o jogo, ainda era capaz de fazer uma cobertura inesquecível e divertida. Afinal, no mundo do futebol, o mais importante é saber aproveitar a alegria do momento — e, se possível, comer um bom bolo de chocolate depois!

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Vereda da Poesia = Nilton Manoel (Ribeirão Preto/SP, 1945 - 2024)



Gilmário Braga (E assim conheci o amor)

Eu e Helinho éramos muito amigos. Estávamos sempre juntos. Digo, éramos, porque com o passar dos anos fomos nos distanciando, assim como acontece com a maioria das pessoas. A turma na época dizia que pegava mal, e fazia gozação conosco dizendo que tínhamos um caso. Estávamos com 17 anos.

Certo dia, Helinho resolveu desabafar comigo um particular envolvendo ele e a namorada. Na ocasião ele me contou que a mãe dela implicava muito com ele, interferindo no namoro deles. Meu amigo disse-me não saber mais o que fazer para resolver aquela situação, e por isso resolveu pedir minha ajuda. Como ajudar se eu não a conhecia. Mesmo assim ele insistiu dizendo que daria um jeito de nos apresentar. Será que iria dar certo?

- De onde você tirou essa ideia, Helinho? Que a mãe da sua namorada vai me ouvir? Eu nem sequer a conheço.

- Você foi a única pessoa que me veio a mente, Paulinho. Você é um sujeito bom de lábia, é bem articulado, bom com as palavras (pausa) – Ah! Quebra essa pra mim, meu amigo!

- Claro que eu gostaria de te ajudar. Só não sei se essa ideia vai dar certo.

- Não custa nada tentar. Eu gosto demais da Íris, mas infelizmente ela vai muito pela cabeça da mãe. Eu tenho medo que ela estrague o nosso namoro.

- Eu entendo, amigo. E o marido dela? E se ele estiver lá? Eu não quero confusão para o meu lado. – e concluiu, sorrindo. – Eu estou muito novo para morrer.

- Quanto a isso você pode ficar tranquilo. Dona Vilma é viúva. E então? Você topa fazer pelo menos uma tentativa para me ajudar?

- Só vou fazer isso porque gosto muito de você, meu amigo. Só não posso garantir que terei êxito.

A data escolhida por Helinho não poderia ter sido melhor. 24 de dezembro. Estávamos no final do ano de 1977. Como todos sabem, véspera de natal. Ele me passou o endereço e ficamos de nos encontrar por lá mais ou menos as 21 hs, e logo depois iríamos para a casa da tia dele que morava em outro bairro. Segundo ele, o natal na casa da tia era muito bom. Antes disso eu tive que cumprir com a minha jornada de trabalho naquele dia e em virtude de um imprevisto ¨felizmente¨ acabei me atrasando. Depois, você vai entender o porque eu disse felizmente acabei me atrasando. Cheguei na casa de Íris um pouco exausto na tentativa de ainda encontrá-los por lá. Toquei a campainha e fui recebido supostamente pela mãe dela.

- Boa noite, senhora. Aqui é a casa da Íris? Eu sou Paulo, amigo do Helinho, namorado dela.

- Sim. Boa noite. Eu sou Vilma, mãe da Íris. Eles acabaram de sair. Você quer entrar um pouco?

Eu seria muito bobo se não aceitasse o convite para entrar. Pensei. Eu entrei e fui logo dizendo:

- Eu imaginei que eles não fossem me esperar tanto. Eu me atrasei demais. Tive um imprevisto no trabalho, peguei trânsito também. O pior é que eu não sei onde a tia do Helinho mora.

- A Íris ficou de me ligar. Eu aproveito e digo que você está aqui (pausa) – Sente-se rapaz! Descanse um pouco! Quer tomar uma água? Um suco?

- Eu aceito uma água. 

- Eu vou buscar.

Dona Vilma retirou-se lentamente em direção a cozinha e só aí que eu me dei conta da mulher que era a mãe da namorada do eu amigo. Eu estava admirado, encantado com tamanha beleza. Dona Vilma era simplesmente linda. Ela voltou com a água, sentou-se de frente para mim e cruzou as pernas. Que formosura de mulher. Eu mal conseguia disfarçar o meu encanto, meu entusiasmo de estar ali diante dela. Eu nem sei mais se gostaria de ir ao encontro dos meus amigos. Seria melhor que a Iris nem ligasse e se ligasse não perguntasse por mim. Notando minha inquietude, meus olhares, ela surpreendeu-me com uma pergunta:

- O que tanto você me olha, menino?

Aquela palavra, menino, veio para mim como se ela estivesse colocando uma enorme distância entre nós, e meio sem jeito respondi:

- Longe de mim querer ser ousado, dona Vilma. A senhora é muito bonita!

Notei que ela ficou meio sem jeito, desconcertada, e logo em seguida disse:

- Muito obrigada! Mas falando desse jeito você me deixa constrangida, Paulo.

Dona Vilma era uma mulher encantadora. Morena, pele lisa, um corpo perfeito e um par de olhos castanhos lindos  que me deixavam perdido entre eles, além de uma fala muito suave. O que fazer diante de uma viúva tão formosa na altura dos seus 35 ou 36 anos que era mais ou menos o que ela deveria ter. Conversa vai, conversa vem e eu não conseguia entrar no assunto sobre o qual teria que falar com ela.

- Você aceita uma taça de vinho? – perguntou-me solícita. – Daqui à pouco a Íris me liga, como te falei ainda pouco.

- Sim. Eu aceito. Só não sei se ainda quero me encontrar com eles.

Servimo-nos do vinho e logo em seguida o telefone tocou. Era a Iris. Ela conversou alguns minutos com a filha, fez algumas recomendações e em seguida despediram-se. Um detalhe chamou a minha atenção: Ela não mencionou a minha presença, e isso já era um ótimo sinal.

- A hora passou tão rápido que eu nem me dei conta. Já são quase 23hs. – disse ela enquanto tomava mais um pouco de vinho.

- É porque a conversa está agradável.

Parei e fiquei olhando-a por alguns instantes tentando tomar coragem e entrar no assunto envolvendo Helinho.

- O que foi, Paulo? Você ficou quieto de repente. Você quer me dizer alguma coisa?

- Quero sim. Mas estou sem coragem. Não sei se devo (pausa) – É sobre o Helinho.

Ela fez uma expressão séria e perguntou-me:

- O que você quer falar sobre aquele rapaz? Eu não aprovo o namoro deles. Acho que ele não vai fazer minha filha feliz. Mas ela insiste neste namoro. Fazer o quê?

Pela expressão e o jeito como ela falou, achei que estivesse colocado tudo a perder. Silenciei pensando em um jeito de reverter aquela situação. Naquele momento tudo o que eu mais queria era ficar com ela. Tê-la em meus braços nem que fosse somente por aquela noite. Ela continuou:

- Se você veio aqui para falar sobre ele, perdeu seu tempo. Eu não simpatizo nem um pouco com aquele rapaz. Tenho medo que ele faça a minha filha sofrer.

Mesmo correndo risco de estragar aquela noite, tentei argumentar:

- Eu acho que a senhora está enganada a respeito do Helinho. Ele é um bom sujeito. Somos amigos há anos. Posso garantir à senhora que ele é uma pessoa direita. A senhora pensa assim talvez por não conhecê-lo melhor.

- Olha aqui, Paulo. Eu sei que vocês são amigos, se gostam muito, você também é amigo de minha filha, mas eu não quero falar sobre isso com você.

Depois de ouvir essas palavras pensei: – Estava tudo perdido. Só cabia a mim naquele momento me justificar e tentar salvar aquela noite que estava mal começando:

- Desculpe-me, dona Vilma! Eu não quis ser inconveniente (pausa) – A senhora quer que eu vá embora?

- Não precisa se desculpar. Você não foi inconveniente e nem precisa ir embora. Eu só não quero falar sobre este assunto contigo. Vamos esquecer este assunto. Eu vou preparar uns petiscos para comermos e mais um pouquinho de vinho enquanto aguardamos a chegada do natal.

- Só não podemos ficar embriagados. – complementei sorrindo. 

- Com certeza! - concordou ela, servindo-me mais um pouco de vinho.

- Eu posso colocar uma música, dona Vilma?

- Fique à vontade. Só não sei se você vai gostar dos discos que temos aqui.

Apanhei alguns discos, e entre eles escolhi uma melodia que eu gostava muito. Hotel Califórnia que fazia muito sucesso na época. Em seguida a surpreendi com um convite.

- Vamos dançar!

Ela pensou por alguns segundos e respondeu logo em seguida.

- Sim. Vamos. Há tempos eu não sei o que é dançar.

Aquela foi a primeira oportunidade de abraçá-la, sentir aquele corpo, aquele cheiro. Que momento lindo! Que entrada de natal maravilhoso! Que presente! Sem dúvida um momento para nunca mais ser esquecido. Impulsionado pela melodia tentei beijá-la:

- Por favor, Paulo! Não! Ainda é muito cedo pra isso.

- Por que não? Só estamos nós dois aqui. Eu quero e sei que você também quer. Deixa acontecer! Não temos nada a perder.

Embalados pela música nos entregamos aos nossos sentimentos e desejos, e ali nasceu o nosso primeiro beijo.

- Isso não deveria ter acontecido, Paulo.

- Por que? Você não gostou? Eu amei.

Sem nenhuma resistência ela se entregou novamente em meus braços, e apanhando-a no colo fomos para o lugar mais confortável daquela casa. O quarto dela. Aquele foi o melhor natal de minha vida e tenho certeza que o dela também. Nos amamos, e passamos a noite quase toda namorando. E Assim conheci o Amor. No amanhecer do dia nos despedimos com muitos beijos e juras de amor. Eu queria passar o dia 25 com ela, mas não seria bom a Íris me encontrar por lá.

Alguns dias depois, Helinho me procurou feliz da vida para me falar sobre as mudanças repentinas da futura sogra em relação a ele. Estava tratando-o superbem e não intrometia-se mais no namoros deles. Eu fiquei feliz por eles e mais ainda por naquela noite ter conhecido o grande amor de minha vida.

No início não foi fácil assumirmos o nosso amor. Por um lado, os meus pais por causa da minha idade, e por outro, a filha dela apesar de sermos amigos. O que eu senti por Vilma quando eu a vi pela primeira vez não foi somente desejo, mas sim amor. Lutamos contra as barreiras e o preconceito, mas felizmente nosso amor venceu.

Palavras do Autor: Só com Amor venceremos todas as barreiras.

Fonte: Texto enviado por Aparecido Raimundo de Souza