domingo, 10 de novembro de 2024

José Feldman (Zé Capim se aventura na cidade)


Todo mundo conhece Seu Zé Capim, o fazendeiro caipira que, com seu chapéu de palha e sorriso largo, é a alma da roça. Mas um belo dia, Seu Zé decidiu que era hora de um passeio diferente. Ele olhou para o horizonte, respirou fundo e declarou: "Hoje eu vou à cidade!" A ideia, que parecia inusitada, foi recebida com entusiasmo por seus amigos da fazenda.

Na manhã seguinte, Seu Zé acordou cedo, caprichou no banho e vestiu sua melhor roupa — uma camisa de flanela e calças que pareciam ter visto melhores dias, mas que ele achava que eram um verdadeiro charme. "Vou impressionar o povo da cidade!", pensou. Com uma sacola de frutas frescas da fazenda para comer durante a viagem, ele partiu em direção à cidade.

A viagem de ônibus foi uma aventura à parte. Seu Zé, sentado ao lado de um grupo de jovens que mal conseguiam parar de olhar para as telas dos celulares, começou a se sentir um pouco deslocado. 

"Que coisa estranha é essa de ficar olhando para a tela? Na minha época, a gente olhava nos olhos das pessoas", murmurou, enquanto observava as pessoas na rodovia. Assim que chegou ao terminal rodoviário, a realidade da cidade o atingiu como um balde de água fria.

Logo, ele se viu cercado por carros, buzinas e um movimento frenético que o deixou atordoado. 

"Uai, mas onde estão as vacas?", pensou, enquanto tentava atravessar a rua sem se tornar uma estatística de trânsito.

Seu Zé decidiu começar sua jornada pelo centro da cidade. A primeira parada foi uma cafeteria, onde ele viu um cardápio escrito em uma língua que mais parecia um enigma. 

"Um 'cappuccino'? Isso é café ou remédio?", questionou, enquanto olhava para a barista com uma expressão de confusão. Afinal, pediu um simples café preto, mas não sem antes receber um olhar curioso da atendente, que provavelmente nunca havia visto um cliente tão despretensioso.

Depois de se reabastecer, decidiu explorar as lojas. Entrou em uma boutique cheia de roupas que pareciam mais uma pintura abstrata do que vestuário. 

"O que é isso? Um vestido ou uma bandeira de sinalização?", ele pensou, tentando entender como aquilo poderia ser considerado moda. 

A vendedora, tentando ajudar, ofereceu um vestido com estampa de flores. "Esse aqui, senhor, é super na moda!" 

Seu Zé olhou para o vestido e, com um sorriso, respondeu: "Na minha fazenda, só as vacas usam flores!"

Após algumas horas de exploração, Seu Zé decidiu que era hora de ver o que mais a cidade tinha a oferecer. Ele se aventurou em um shopping, onde as lojas pareciam labirintos e as pessoas andavam com uma pressa que o deixava tonto. 

"Uai, será que tem um concurso de quem chega primeiro na loja?", ele se perguntou, enquanto observava um grupo de jovens correndo em direção a uma promoção.

Ao passar por um corredor, viu uma máquina de refrigerante. Curioso, decidiu experimentar. "Um 'refri de limão'?", ele leu. Com a inocência genuína de quem nunca havia visto uma máquina dessas, decidiu apertar os botões. O resultado? Uma explosão de soda que o deixou encharcado e com uma expressão de espanto. 

"Pelo amor de Deus! Isso é um ataque de limão!", gritou, enquanto os jovens ao redor riam da cena.

Mas a verdadeira aventura estava apenas começando. Ao sair do shopping, Seu Zé decidiu que queria conhecer um pouco mais da cultura local. Assim, seguiu a música que saía de um parque próximo. 

Ao chegar, viu um grupo de pessoas dançando e fazendo uma espécie de "flash mob". Ele, que nunca tinha ouvido falar disso, decidiu que era sua vez de brilhar. Com um passo de dança bem caipira, começou a rodopiar, chamando a atenção de todos.

A cena era hilária: um fazendeiro dançando ao som de uma batida eletrônica, enquanto os jovens ao redor tentavam imitar seus passos. 

"Isso é como um forró, mas com mais luzes e menos sanfona!", pensou, rindo da situação. 

Em poucos minutos, Seu Zé virou a estrela do parque. As pessoas começaram a gravar e compartilhar, e ele se sentiu como um verdadeiro artista.

Ao final do dia, cansado mas feliz, Seu Zé decidiu que já era hora de voltar para casa. 

No ônibus de volta, ele refletiu sobre a aventura. "A cidade é cheia de coisas estranhas, mas também tem seu charme", pensou, enquanto olhava pela janela e via as luzes piscando. "Mas, no fundo, ainda prefiro meu campo, minhas vacas e o cheiro de terra molhada."

E assim, Seu Zé voltou para a fazenda, não apenas como um fazendeiro, mas como um verdadeiro "caipira urbano". A cidade havia lhe ensinado que, às vezes, é preciso sair da zona de conforto e se deixar levar pela vida, mesmo que isso signifique dançar com um grupo de desconhecidos e se encharcar de refrigerante. 

Afinal, a vida é feita de experiências, e cada uma delas, por mais estranha que seja, traz um sorriso e uma boa história para contar.

Quando Seu Zé finalmente chegou à fazenda, o sol já começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo. As vacas, que sempre esperavam ansiosas pelo retorno do fazendeiro, se aproximaram, como se também quisessem saber das novidades. Mas Seu Zé tinha algo muito mais emocionante para compartilhar com sua turma.

Ele se sentou na varanda, cercado por seus amigos, que já estavam prontos para ouvir as histórias da cidade. Com um sorriso no rosto e um brilho nos olhos, começou a narrar suas aventuras urbanas. A conversa continuou com histórias de outrora, risadas e lembranças. O crepúsculo já havia se instalado, e a fazenda, com seu charme rústico, parecia mais acolhedora do que nunca.

"Então, Seu Zé, quando você vai voltar à cidade?", perguntou um dos amigos, ainda rindo da dança.

"Ah, quem sabe no próximo verão, mas da próxima vez vou levar vocês comigo! Imaginem a cena: nós todos, com nossos chapéus de palha, tentando entender o que é um 'cappuccino' e dançando um forró no meio da cidade. Vai ser uma verdadeira farra!", respondeu Seu Zé, piscando.

E assim, entre risadas e histórias, a noite na fazenda seguia tranquila, com cada um refletindo sobre suas próprias aventuras, ou a falta delas. Afinal, a vida é feita de experiências, e, com um pouco de humor e a boa companhia de amigos, qualquer dia pode se tornar uma grande história para contar.

Fontes: 
José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Vereda da Poesia = Janete Francisco Sales Yoshinaga (São Paulo/SP)
















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Ítalo Moura (O fardo)


O dia se arrastou calmo e sereno, era chegada a hora de se recolher, afagar os filhos, comer alguma coisinha e dormir.

Bentinho, já fadado do sol quente, mal conseguiu se manter de pé, na mesa de jantar, Carlota, sua esposa, lhe servira um prato de sopa quente com um pedacinho de pão caseiro, feito ali mesmo, por suas próprias mãos. Bentinho só conseguia pensar nos afazeres do dia seguinte, tirar leite, arar a terra, colocar comida para os bichos e, por fim, se deitar novamente.

Não pôde deixar de notar que tudo isso lhe prendia muito e quanto tempo se passou sem que ele pudesse colocar os pés na cidade, desprender-se do campo por, pelo menos, um minuto, era um filme que nunca passou por sua cabeça, o fardo de cuidar daquelas terras lhe era grande o bastante para lhe prender.

A sua face murchou, não conseguia mais comer.

Bentinho acabou se esquecendo dos prazeres da vida, a vida no campo não tinha nenhuma regalia, mas oferecia tudo, o pão de cada dia, e foi assim que ele sempre viveu por ela, nunca pôde se ausentar. Mas, no fundo de sua consciência, prometeu que ao romper da aurora, junto com a Carlota, a cidade aos seus filhos ia mostrar, quem sabe um descanso, de alegria e não de pranto, haveriam de passar.

A noite se arrastou lentamente, caiu um sereno fino e singelo por sobre a terra, o orvalho se formava nas folhas da velha roseira vermelha, os sapos faziam uma orquestra estridente, o cenário pastoril contribuía para o clima de despedida.

A noite se fez dia, Bentinho cuidou dos seus últimos afazeres, ateou a carroça no seu velho pangaré, era chegada a hora.

A velha charrete de madeira se arrastou lentamente na estrada, a poeira formava nuvens singelas, os olhos dos meninos lacrimejavam, fitavam o velho casebre de madeira que sumia no horizonte, era a primeira vez que zarpava.
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O autor é de Porto Velho/RO

(Este conto obteve a menção honrosa no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.
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sábado, 9 de novembro de 2024

José Feldman (Guirlanda de Versos) * 7 *

 

Francisco Gabriel (A última aurora do lobisomem)

Toda minha infância eu vivi na zona rural. Nossa casa possuía um alpendre que sempre atraía visitantes para uma boa conversa. Tinha eu uns sete anos de idade quando, nesse alpendre, chegou um visitante desconhecido para mim. Mas, para minha surpresa, já era bem conhecido da minha mãe e da minha vó. Tratava-se de um andarilho de nome Quinca, que por diversas vezes já havia pousado em nossa casa, especificamente naquele alpendre.

Nesse dia, ele me contou muitas histórias cotidianas e fantásticas. Uma delas eu nunca esqueci. Foi a respeito de um suposto lobisomem que ele havia conhecido. 

Disse que, no seu tempo de rapaz, havia morado em lugar um tanto esmo, onde não havia mais do que dez casas. Uma delas era habitada por um velho, chamado Zebebé, que não tinha boa aparência e, entre os moradores da região, corria a Fama de que ele tinha a maldição de se transformar em lobisomem.

Sempre que aparecia um animal sangrando, diziam que havia sido o dito lobisomem quem havia feito tal estrago. Segundo diziam, Zebebé não dormia à noite, ficava no campo contemplando os astros até meia-noite; nesse horário, depois de espojar-se no chão em uma encruzilhada, ele era transfigurado em lobisomem, somente voltando à sua forma humana quando o dia começava a alvorecer. Só ia dormir depois de ver os primeiros raios da aurora, pela qual nutria um verdadeiro fascínio.

Certa noite, de quinta para sexta-feira, saiu para o campo, como sempre fazia e, estando na condição de lobisomem, a noite terminou e ele não conseguiu voltar à sua forma humana. E, sem perceber o ocorrido, ficou esperando o surgimento da aurora, como sempre fazia.

Extasiado, deparou-se com os primeiros raios de Sol, e isso lhe foi fatal.

Na manhã do mesmo dia, os moradores da região encontraram o corpo de uma criatura, meio homem e meio bicho; enterraram no em uma cova rasa, sem um reconhecimento preciso. O certo é que o velho Zebebé nunca mais apareceu no seu casebre. Certamente, foi a última aurora do lobisomem.
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O autor é de Natal/RN

(Este conto obteve a menção honrosa no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.
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Vereda da Poesia - Maria Conceição Alves de Lima (Ribeirão Preto/SP)

José Feldman (Visita dos Urbanos na Zona Rural)

Era uma manhã ensolarada quando a fazenda de Seu Zé Capim se preparou para receber uma visita muito especial: um grupo de amigos da cidade, aqueles que acham que a vida no campo é feita apenas de vacas pastando e pôr do sol cinematográfico. A expectativa era alta, mas a realidade seria ainda mais divertida.

Os visitantes chegaram em uma van, todos com suas roupas de grife, óculos escuros e uma expressão que misturava curiosidade e um ar de superioridade. Assim que desembarcaram, a primeira coisa que fizeram foi puxar os celulares para registrar o momento, como se estivessem em um safári. 

"Olha, o campo!" exclamou uma delas, enquanto apontava para um touro que, sinceramente, parecia estar mais interessado em comer capim do que em ser o foco de um ensaio fotográfico.

Seu Zé Capim, com seu chapéu de palha e sorriso no rosto, fez questão de dar as boas-vindas. 

"Bem-vindos à fazenda! Aqui, a gente vive na tranquilidade." 

Mas, a tranquilidade logo se tornaria um conceito relativo.

A primeira atividade programada era a ordenha das vacas. Ao ouvir isso, os citadinos trocaram olhares de perplexidade. 

"Ordenha? Como assim? Não é só apertar um botão?" perguntou um deles, enquanto sua amiga tentava entender a diferença entre a vaca e o boi. 

"É tudo a mesma coisa, né?" 

A risada de Seu Zé foi tão alta que até as galinhas pararam de ciscar para ver o que estava acontecendo.

Com um pouco de paciência — e algumas demonstrações de como se faz — os visitantes finalmente se aproximaram das vacas. 

A cena era digna de uma comédia: um deles, armado com um balde, se aproximou da vaca com uma cautela que mais parecia estar tentando conquistar uma celebridade do que fazer uma simples ordenha. 

"E se ela correr atrás de mim?", ele sussurrou, quase em pânico. 

A vaca, claro, estava mais preocupada com o seu lanche do que com a presença de um humano nervoso.

Depois de algum tempo e muitas risadas, a primeira ordenha foi realizada. 

"Olha, saiu leite! Como se faz para embalar isso?" 

Um outro amigo, que estava mais interessado em saber como o leite virava queijo, já estava desenhando planos de um negócio de laticínios. 

"Podemos fazer um delivery de queijo artesanal na cidade! O que vocês acham?" 

A ideia de colocar queijo de fazenda em uma embalagem causou gargalhadas na turma.

A próxima parada foi na horta. 

"Como assim, você planta as coisas aqui? E o supermercado, não faz nada disso?", perguntou uma moça, enquanto segurava um tomate como se fosse um artefato raro. "E se a gente não tiver água? Como as plantas vão crescer?" 

Seu Zé, já acostumado com a curiosidade dos urbanos, respondeu: "A gente rega, minha filha! Aqui a gente não tem água da torneira, mas a gente faz acontecer!" 

A expressão dela ao ouvir "água da torneira" era como se tivesse descoberto que o mundo não é plano.

A tarde avançou com uma trilha pela mata. 

"Aqui é tudo muito verde!", exclamou um dos rapazes, enquanto outro já tentava identificar se o som que ouvira era uma onça ou apenas um sapo. 

"É só um sapo, amigo! Para de ser medroso!", gritou um dos outros, que já começava a se sentir como um verdadeiro desbravador. A verdade é que a natureza, com suas folhas e barulhos, parecia tanto um mistério quanto um parque temático para eles.

Para completar a experiência rural, Seu Zé decidiu preparar um autêntico almoço caipira. 

"Vocês vão adorar a comida da roça!", disse, enquanto começava a fritar um frango. 

A expectativa era alta, mas quando os pratos chegaram à mesa, um dos amigos olhou para a farofa e perguntou: "E isso, é o que? Um acompanhamento ou um novo tipo de arroz?" 

A confusão era tanta que a farofa quase foi confundida com um novo prato gourmet. A refeição, por sua vez, acabou se tornando um concurso de quem conseguia comer mais, sem saber o que estava colocando na boca.

Os amigos até tentaram ajudar na cozinha, mas a situação rapidamente saiu do controle. Um deles, ao tentar fazer um suco de limão, acabou espremendo mais limão na roupa do que no copo. 

“É uma nova técnica de tempero!” gritou, enquanto todos riam e o limão escorria por suas mãos.

À medida que o dia chegava ao fim, as risadas e as histórias compartilhadas se tornaram o verdadeiro espírito do encontro. O campo, com suas simplicidades e suas complexidades, havia mostrado aos visitantes que a vida rural era muito mais do que eles imaginavam. As dificuldades do dia a dia, as alegrias simples e as risadas ao redor da mesa criaram uma conexão que superou qualquer preconceito que eles pudessem ter.

No final do dia, enquanto se preparavam para voltar à cidade, um dos amigos olhou para Seu Zé e disse: "Sabe, acho que vou começar a plantar um pé de alface na varanda." 

E Seu Zé, com um sorriso cúmplice, apenas respondeu: "É um bom começo! Mas não esquece de regar, tá?"

E assim, a visita dos urbanos à fazenda se tornou uma lembrança hilária e inesquecível, um lembrete de que, às vezes, é preciso sair da zona de conforto para descobrir que a vida, com suas simplicidades e desafios, é muito mais divertida do que parece — mesmo que isso signifique lidar com vacas e farofas!

Fontes: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Edy Soares (Fragata da Poesia) 64: Sombra e Luz

 

Flávio de Azevedo Levy (Faz de conto)

A aurora veio lentamente da escuridão, a luminosidade inicialmente rasa ia mostrando aos poucos a sua presença, acentuando-se na cadência do prenúncio da manhã. Uma ave sonora interpretava satisfeita um canto pelo introdutório deste espetáculo. Pássaros rasgavam o céu em formação de flecha e os vagalumes saíam de cena, como também a noitada fria. A temperatura ia aumentando, enquanto as rãs quedavam. Os caramujos teimavam em continuar a reproduzir o som dos mares e as gotas de orvalho passaram a fornecer, em tempo real, a transmissão da alvorada nas folhagens das plantas. O lusco-fusco perdeu seu equilíbrio quando 
a tocha vermelha apontou ao leste, despindo o primeiro clarão. Os contornos das formas superiores pareceram adquirir vida própria, e quanto mais a bola de fogo subia, iam descendo as bênçãos de mais um dia glorioso nesta parte privilegiada do planeta. A noite, como soprada, seguiu apagando as últimas imagens de um dia em paragens mais distantes, deixando descortinado este imenso palco onde o astro-rei todos os dia nos fornece um espetáculo único.

– Ainda não está bom - disse-me o professor Vinícius, devolvendo o texto que havia lhe entregado - parece que você exagera em tudo o que escreve! Tente ser mais realista. E claro que o leitor precisa sonhar, mas aquele que escreve não pode perder o senso e os parâmetros. Por favor - continuou ele - não quero desestimulá-lo de ser um escritor, mas seria bom se você simplesmente pudesse relatar algo que realmente possa estar acontecendo. Você já viu uma luminosidade rasa? Uma ave interpretar satisfeita um canto por algum introdutório? Vagalumes deixando um palco? Caramujos teimarem e, o mais absurdo, o orvalho transmitir em tempo real alguma coisa? Transmitir? Por favor, concentre-se melhor no texto. Pássaros rasgando o céu, em formação de flecha ainda vá lá, faz algum sentido...

Enquanto ele falava, um maravilhoso crepúsculo acontecia nas suas costas emoldurado pelo janelão da sala. O mar recebia o Sol como um anfitrião, oferecendo um caldo saboroso de luzes em águas salinas. O convidado, feliz, mergulhava radiante numa efervescente sopa marinha, enquanto a claridade diminuía, um grande prato branco vinha a seguir trazendo as primeiras estrelas da noite...
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O autor é de Campinas/SP

(Este conto obteve a menção honrosa no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fontes: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.
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Vereda da Poesia = A. A. de Assis (Maringá/PR)






José Feldman (O brilho dos antigos Carnavais [ou a falta dele])

Ah, o Carnaval! Essa época mágica do ano em que, por alguns dias, as regras sociais parecem ser colocadas de lado, e a fantasia toma conta das ruas. Mas, se você der um passo atrás e olhar para os carnavais dos tempos antigos, vai perceber que o clima era bem diferente do que encontramos nas festas modernas. 

Vamos fazer uma viagem no tempo, entre confetes, serpentinas para entender o que aconteceu com essa celebração tão rica.

Imagine-se no século XVIII, em uma pequena cidade do Brasil colonial. O Carnaval era uma explosão de cores e sons, com a população se reunindo para celebrar antes do jejum da Quaresma. As pessoas se fantasiavam, mas não era apenas para esconder a identidade; era uma oportunidade de quebrar as barreiras sociais. O rico se misturava ao pobre, o senhor ao escravo, todos dançando em harmonia enquanto o som dos tambores ecoava pelas ruas.

Era uma época em que a folia tinha um significado profundo. O Carnaval era quase uma válvula de escape, um momento em que as tensões sociais eram temporariamente dissolvidas. As pessoas podiam rir de seus problemas, zombar das autoridades e se sentir livres, mesmo que por um breve instante. Os pierrôs e as colombinas, representações de amor e desamor, dançavam sob os olhares divertidos da multidão, enquanto as máscaras escondiam não apenas rostos, mas também as frustrações do cotidiano.

Por outro lado, se você olhar para os carnavais contemporâneos, vai notar que, embora a festa ainda tenha seu brilho, algo parece um pouco… diferente. Hoje, o que vemos são escolas de samba competindo por prêmios, trios elétricos arrastando multidões e fantasias que custam mais do que meu salário mensal. E o que aconteceu com aquele espírito de união e liberdade? Ah, esse parece ter sido deixado em casa, ao lado da fantasia que nunca foi usada.

Nos tempos antigos, as pessoas se reuniam em praças para dançar, cantar e celebrar a vida. Não havia uma marca patrocinando cada bloco, nem uma equipe de marketing planejando como fazer o evento “viralizar” nas redes sociais. O que havia era uma alegria genuína, uma sensação de comunidade que fazia cada um se sentir parte de algo maior. As pessoas não precisavam de um "influencer" para lhes dizer como se divertir; elas já sabiam.

E não vamos esquecer do humor! Os antigos carnavalescos eram mestres na arte de fazer rir. As sátiras e as brincadeiras eram uma forma de crítica social, uma maneira de expor as hipocrisias da sociedade. Hoje, corremos o risco de levar tudo muito a sério. Se alguém decide se fantasiar de abacaxi, pode ser que acabe em uma discussão acalorada sobre apropriação cultural! Cadê o tempo em que a única preocupação era se o confete estava colado na fantasia ou se a serpentina ia acabar antes do final da festa?

Ah, e as músicas! As marchinhas de antigamente, com suas letras engraçadas e críticas sociais sutis, faziam todo mundo cantar junto. Hoje, você ouve uma batida eletrônica que não dá tempo nem de entender a letra. E, se você perguntar sobre o significado da música, a resposta provavelmente será: “É o ritmo, meu amigo! O importante é dançar!” Certamente, dançar é importante, mas um pouco de letra inteligente não faria mal a ninguém.

Além disso, o Carnaval antigo possuía uma capacidade única de refletir e criticar a sociedade. As pessoas se vestiam de figuras caricatas, fazendo sátiras de políticos e celebridades, enquanto hoje, muitos preferem se fantasiar de personagens de filmes ou séries da moda. O riso como forma de protesto foi substituído por um “like” nas redes sociais, onde a crítica é feita em 280 caracteres e a reflexão, muitas vezes, fica pelo caminho.

Por fim, é essencial reconhecer que, apesar das mudanças, o Carnaval ainda tem seu valor. A festa moderna continua a reunir pessoas, a promover a cultura e a celebrar a diversidade. No entanto, talvez seja hora de resgatar um pouco daquela essência dos antigos carnavais. Que tal trazer de volta o humor, a crítica e a verdadeira união?

Quem sabe, um dia, as pessoas voltem a se misturar nas ruas, não apenas para dançar, mas para se divertir, rir e refletir sobre a vida. Afinal, no fundo, o que importa é a alegria genuína, a conexão com o próximo e, é claro, a liberdade de ser quem você realmente é — mesmo que isso signifique se vestir de abacaxi. 

Que venha o Carnaval!

Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Ademar Macedo (Ramalhete de Trovas) 30

 

Anderson Almeida Nogueira (Vazio)

Uma dor angustiante
 sufoca seu peito. Há tempos está assim, mas agora chegou ao limite. Grita internamente. Seu urro é silencioso para os que com ela convivem, mas seus tímpanos parecem arrebentar com os ecos de seus lamentos agudos. Não suporta mais, é chegada a hora de acabar de vez com tudo. há um vazio em sua alma...

Não dormiu naquela noite. Insone, planejou cada passo. Por vezes desistiu, por outras teve certeza. Coragem, covardia, sensatez, insanidade, tudo misturado na noite fria do inverno na metrópole indiferente aos que vivem ali. Amanhece, é chegada a hora...

Atravessa as ruas, os quarteirões, as calçadas a pé, em ritmo cada vez mais acelerado. Não pode vacilar, se for devagar dá tempo de pensar, dá espaço à dúvida que não quer ter mais. Há um vazio em seu coração...

Entra no prédio alto de 30 andares, adentra o elevador lotado de pessoas que se distribuirão pelos corredores empilhados entre o térreo e a cobertura. 

Tem pressa, a cada nova parada de andar em andar se agita. Suor frio nas mãos, as batidas de seu coração parecem nos ouvidos, na garganta. 15o. andar, 18o., 21o., 25o., 28o. andar. Não aguenta, desce ali mesmo e sai em disparada escadas acima, quer chegar logo ao seu destino. Há um vazio em seu olhar..

Chega, enfim, ao seu destino. A corrida intensa é, por uma fração de segundos, um pouco contida. Mas logo retorna com a velocidade que os pulmões ofegantes lhe permitem. Corre em direção ao horizonte que vê ali do alto, separados apenas pelo muro baixo. O dia começa a amanhecer. Corre na direção da alvorada.

Salta por cima do muro. Há um vazio em seu entorno...

Na fração de 5 segundos entre o salto e a escuridão fatal, observa pelas janelas o cotidiano das pessoas c:onversando, rindo, gesticulando. O moço do café, o executivo engravatado, a mulher elegante, os casais apaixonados, as crianças brincando, tudo parece tão normal na vida das outras pessoas. 

Por que não foi assim comigo, pergunta-se? Por que não consegui ser feliz assim? 

O longo trajeto chega ao fim. Por um instante, pareceu tão longo, mas chegou tão rápido. Escuridão! Não há mais vida ali. Só resta um corpo vazio...

(Este conto obteve o 4. lugar no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fonte: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.

Vereda da Poesia = Márcia Jaber (Juiz de Fora/MG)


 

José Feldman (Cuchulainn* e Danned Dur)

Nota: Cuchulainn, nome do herói mitológico irlandês que aparece nas histórias do Ciclo de Ulster, bem como no folclore escocês e da Ilha de Man. O resto é ficção.
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Em tempos antigos, quando as lendas eram contadas ao redor das fogueiras e os deuses caminhavam entre os homens, havia um herói chamado Cuchulainn, da terra de Ulster. Ele era conhecido por sua coragem indomável e força sobre-humana, mas o que muitos não sabiam era que sua verdadeira força vinha de uma amizade profunda com um cão chamado Danned Dur (dentes de aço), um animal leal que sempre esteve ao seu lado.

Desde pequeno, Cuchulainn e Danned Dur eram inseparáveis. O cão, de pelagem dourada e olhos brilhantes, era mais do que um simples companheiro; era um guardião e amigo. Juntos, eles exploravam as florestas densas da Ulster, enfrentando desafios e desvendando mistérios. Danned Dur sempre estava lá, seja em momentos de alegria ou de tristeza.

Cuchulainn, ao crescer, passou a treinar com os mais valentes guerreiros e, durante suas aventuras, conquistou muitos inimigos poderosos. Mas Danned Dur estava sempre ao seu lado, defendendo seu mestre em batalhas e alertando-o sobre perigos iminentes. A conexão entre os dois era tão forte que muitos acreditavam que eles compartilhavam uma alma.

Certa manhã, enquanto Cuchulainn treinava nas margens do rio, uma voz ecoou em sua mente. Era a Deusa Morrigan, que se manifestava na forma de uma corvo negro. “Cuchulainn, herói de Ulster, um grande desafio se aproxima. Você deve preparar-se, pois os inimigos de sua terra estão a caminho, e você será o único a impedi-los.”

Ele sabia que o chamado da deusa não era em vão. Com Danned Dur ao seu lado, Cuchulainn preparou-se para a batalha, enfrentando não apenas guerreiros, mas também criaturas místicas que ameaçavam a paz de Ulster. Ele lutou bravamente, sua espada cortando o ar com precisão, e Danned Dur atacando ao seu lado, feroz e destemido.

A batalha culminante ocorreu em uma vasta planície, onde os inimigos de Ulster se reuniram em grande número. Cuchulainn, com a força dos deuses correndo em suas veias, enfrentou um inimigo de proporções titânicas, um gigante chamado Ferchtne, que vinha para desferir o golpe final em sua terra.

Durante a luta, Danned Dur lutou ao lado de Cuchulainn, atacando ferozmente, mas o gigante era forte. Em um momento de desespero, quando parecia que tudo estava perdido, Cuchulainn fez um sacrifício. Ele usou uma técnica secreta ensinada a ele por Morrigan, transformando-se em uma forma ainda mais poderosa, mas a um custo: seu corpo ficaria vulnerável após a transformação.

Com um grito de guerra, Cuchulainn derrotou Ferchtne, mas a vitória teve um preço alto. Danned Dur, ferido gravemente na batalha, caiu ao lado do herói.

A dor de perder Danned Dur foi insuportável. Cuchulainn, que havia enfrentado exércitos inteiros, agora se sentia completamente derrotado. Ele segurou a cabeça do cão em seu colo, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. “Você foi mais do que um amigo, Danned Dur. Você foi minha alma gêmea. Sem você, estou perdido.”

Com o coração partido, Cuchulainn construiu um túmulo para Danned Dur nas margens do rio onde costumavam treinar. Ele fez um voto diante da sepultura: “Nunca esquecerei sua lealdade. Eu lutarei em sua memória até meu último suspiro.” As estrelas começaram a brilhar intensamente, como se os deuses estivessem chorando junto com ele.

Nos dias que se seguiram, Cuchulainn mergulhou em uma tristeza profunda. Ele abandonou a espada e se isolou, incapaz de enfrentar o mundo sem seu fiel amigo. Foi então que a Deusa Morrigan apareceu novamente, em um sonho envolto em névoa e mistério.

“Cuchulainn,” disse ela, sua voz suave como a brisa, “a dor que você sente é real, mas não deve deixá-la consumir você. Danned Dur é um espírito livre agora, e ele sempre estará ao seu lado, mesmo que você não o veja.”

Cuchulainn se levantou, a luz da deusa penetrando em sua tristeza. “Mas como posso viver sem ele? Ele foi minha força, minha luz.”

“Você carrega o espírito dele em seu coração. Lute não apenas por Ulster, mas por Danned Dur. Ele viverá através de suas ações, em cada batalha que você travar. A honra dele deve ser preservada, e sua memória deve ser celebrada.”

A sabedoria de Morrigan ressoou em Cuchulainn. Ele entendeu que não poderia permitir que a dor o paralisasse. Com um novo propósito, ele se preparou para a próxima batalha que se aproximava. A memória de Danned Dur agora o guiava, como uma luz nas trevas.

Na batalha seguinte, Cuchulainn lutou com uma fúria renovada. Ele se movia como uma tempestade, cada movimento carregando a força de seu companheiro perdido. Ele gritou o nome de Danned Dur em cada golpe, cada ataque, e a presença do cachorro parecia estar com ele, lutando ao seu lado.

Ao final da batalha, quando a poeira assentou e os inimigos foram derrotados, Cuchulainn ergueu sua espada em homenagem a Danned Dur. “Você não está perdido, amigo. Você vive em cada vitória, em cada lembrança que guardo.”

Com a bênção de Morrigan, Cuchulainn aprendeu a equilibrar sua dor com sua coragem. Ele sabia que a vida continuaria, mas a memória de Danned Dur sempre estaria presente em seu coração. As lendas de Cuchulainn se espalharam ainda mais, agora não apenas como um herói, mas como um homem que conhecia a dor e a perda, e que encontrou força na amizade e no amor.

E assim, entre as histórias de bravura e batalhas, o nome de Danned Dur tornou-se parte da lenda, eternamente ligado ao de Cuchulainn, o grande herói de Ulster, que nunca esqueceu o amigo que o acompanhou em cada passo de sua jornada.

Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem: criação de JFeldman com Microsoft Bing

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Varal de Trovas n. 616

 

Ana Caroline de Oliveira (As sombras do que foram memórias)

Esticou o braço para os lençóis do outro lado da cama. Frio. Assustado, abriu os olhos. Ainda não era de manhã, já não era noite; uma suave luz da aurora penetrava pela janela do quarto, criava formas abstratas no teto. Mas sua mente vagava por outros caminhos. 

Sua esposa não estava ali. O frio dos lençóis não era normal, e nem o silêncio mórbido que ele sentiu pairar pela casa. Aquelas horas, os filhos o acordariam para fazer café; eles gostavam de ver o sol nascer e depois voltavam a dormir. Chamou pelos nomes de todos, e sua voz ecoou no silêncio.

Devagar, começou a caminhar pela casa. Não chamou por mais ninguém; de repente, ficou com medo de que o som dos seus nomes os arrancasse subitamente de uma realidade longínqua. Passou pela porta do quarto das crianças; as camas pequeninas estavam arrumadas, e não havia ninguém. Continuou andando pelos corredores à meia luz do amanhecer. Passou pela cozinha deserta, onde a filha mais nova às vezes se sentava por horas, encarando o padrão dos azulejos, pensando que passava despercebida. 

Olhou pela janela da sala, aquela que dava para o jardim, o jardim do qual sua mulher cuidava metodicamente todos os dias, logo depois do café da manha; não havia nem sinal dela ao redor das plantas. Andou pela sala, já desperto e deprimido, abrindo caminho para sair pelo restante da propriedade; num dos velhos sofás vermelhos e pesados, o garoto mais velho gostava de ficar lendo com a cabeça encostada no pelo do cachorro. O cachorro dormia ali sozinho, roncando alto, sem se incomodar com sua busca lamentável.

Lá fora, o céu se coloria de azul e rosa, cada vez mais brilhante. E ali, não havia ninguém. Estremeceu com o gelo da grama úmida sob seus pés. já não sabia há quanto tempo estava acordado e por quanto tempo estava procurando; sentia que ficou horas encarando cada cômodo escuro. A luz dos primeiros raios de sol tocou seus olhos, como num clarão de lucidez, e ele se lembrou. Não havia ninguém, porque não poderia haver.

Não era raro aquele esquecimento; surgia com essas ilusões na cabeça sempre que estava muito cansado, ou quando estava muito escuro para distinguir luz e sombras. A mulher e as crianças já haviam partido há algum tempo; perguntou-se por onde estariam agora. 

Passou a mão no rosto e voltou para dentro de casa, esgueirando-se entre a tristeza. Poderia dormir mais um pouco antes de o sol subir completamente, e refazer o dia em sua memória.

(Este conto obteve o 3. lugar no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fonte: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus

Vereda da Poesia = Maria Lúcia Spadarotto Neves



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José Feldman (Pafúncio no lançamento de um livro)

Era uma vez, em uma cidade onde a fofoca corria mais rápido que o vento, um jornalista chamado Pafúncio. Ele trabalhava para a renomada revista de fofocas "Fuxico & Fofocas", conhecida por suas histórias exageradas e manchetes que faziam até as pedras rirem. Pafúncio, um homem baixo e gordinho, tinha uma habilidade especial: ele conseguia transformar qualquer evento mundano em uma comédia tragicômica.

Um belo dia, a revista recebeu um convite para o lançamento do novo livro de um escritor famoso, o aclamado autor de romances, Aureliano Cabrito. O evento prometia ser o maior do ano, e Pafúncio estava determinado a ser o primeiro a descobrir todos os segredos por trás da obra. Com seu bloco de notas e caneta de tinta permanente (que estava mais permanente do que o próprio Pafúncio gostaria), ele se preparou para o grande dia.

No dia do evento, o salão estava repleto de celebridades. Havia atores, cantores e até aquele influenciador que ficou famoso por postar vídeos de gatos fazendo yoga. Pafúncio, com sua camiseta da revista e uma calça que parecia ter sido escolhida por um toureiro, se espremeu entre os convidados. Ele tinha um plano: entrevistar Aureliano e descobrir se ele realmente escrevia seus livros enquanto fazia malabarismos com laranjas, como alguns diziam.

Quando finalmente encontrou o escritor, ele estava cercado por fãs e jornalistas. Pafúncio, com sua voz de locutor de rádio, gritou: “Aureliano! Como você lida com a pressão de ser um autor tão famoso?” 

O escritor, surpreso, olhou para ele e respondeu: “Com muito café e algumas doses de solidão.”

Pafúncio, em sua mente, transformou isso em uma manchete: “Aureliano Confessa: Café e Solidão São Seus Melhores Amigos!” Mas ele não parou por aí. Com um olhar astuto, decidiu que era hora de fazer perguntas mais inusitadas. 

“E se você tivesse que escolher entre escrever um livro ou dançar tango com um gato, o que você escolheria?” Aureliano, sem saber se ria ou chorava, respondeu: “Bem, eu acho que o gato tem mais ritmo!”

Pafúncio, já rindo da sua própria piada, decidiu que precisava incluir o pato na matéria. Em um momento de pura inspiração, ele começou a imaginar como seria a capa da próxima edição da revista: “Aureliano e Seu Pato: A Revolução Literária da Dança!”

Mas a situação ficou ainda mais extravagante quando a assistente de Aureliano, uma mulher alta e elegante chamada Serena, decidiu que era hora de fazer a tradicional leitura de trechos do livro. Enquanto ela se preparava, Pafúncio avistou uma mesa com um bolo enorme, decorado com a imagem do escritor. 

Sem pensar duas vezes, ele se aproximou e, antes que alguém pudesse impedi-lo, cortou um pedaço generoso do bolo com uma colher de sopa.

Enquanto devorava o bolo, ele ouviu Serena começar a ler um trecho profundo e poético sobre o amor. Com a boca cheia de glacê, ele não pôde conter uma risada alta, que ecoou pelo salão. Todos os olhares se voltaram para ele, e Pafúncio, em sua típica falta de jeito, tentou se justificar. “Desculpem, mas essa passagem é muito doce… assim como o bolo!”

A plateia, entre risadas e olhares de desaprovação, começou a aplaudir a espontaneidade de Pafúncio. Vanessa, sem saber se ria ou se ficava brava, continuou a leitura. Mas ele, agora inspirado, começou a fazer comentários entre os trechos, criando uma espécie de stand-up literário.

“E quando Aureliano diz que ‘o amor é como um pássaro que voa para longe’, eu só consigo pensar: será que ele também dança tango com um gato?” 

A plateia, em um momento de cumplicidade, riu alto e a tensão do evento desapareceu.

No final do lançamento, ele saiu do evento não apenas com um pedaço de bolo na mão, mas com a certeza de que, em meio a tanta seriedade do mundo literário, sempre há espaço para uma boa dose de humor e, é claro, um gato dançarino.

Assim, Pafúncio voltou para a redação, onde escreveu sua matéria com entusiasmo, transformando o lançamento em um dos eventos mais cômicos da cidade. E assim, o jornalista e seu espírito travesso continuaram a fazer história nas páginas da revista, sempre prontos para a próxima fofoca que brotasse como um bolo em uma festa.

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

José Feldman (Grinalda de Versos) * 6 *


 

Jorge Ribeiro Marques (A Aurora que não veio)

Ninguém notou quando ele chegou com a mesma roupa surrada e seu saco de aniagem inseparável que lhe servia de travesseiro, sofá e armário.

Esgueirou-se por baixo da mesma marquise, recolheu-se num canto, colocou a muleta ao longo da soleira da loja, ajeitou o que lhe sobrara da perna direita e da garrafa pet de sempre e sorveu o último gole da branquinha.

Noite de Natal. Num frenesi eufórico, que beirava à histeria, pessoas vestidas em papel de presentes circulavam como se estivessem atrasadas, Inexplicável para um mês de dezembro fazer o frio que fazia, mesmo sendo São Paulo, e ainda não eram vinte e uma horas, como acusava o relógio da praça. Vez por outra uma lufada de vento mais forte renovava as folhas e os papéis espalhados de maneira disforme pelas ruas,

Num dos andares do prédio em frente, o pisca-pisca colorido, que parecia marcar o som alto, adornava simetricamente o pinheiro imperial num canto da sala. A todo esse minueto, Chico assistia com olhos de filmadora em câmera lenta, pneumonia mal curada, cíclica, coração débil, que a mendicância itinerante o tornava a cada dia mais fraco, com uma sensação esquisita de impotência. Tinha perdido a guerra contra a cidade grande. 

Tateou os bolsos rotos de sua farda diuturna, procurando uma guimba, sem encontrar. Com o frio aumentando, esgueirou-se melhor em si mesmo.

Invejou três rapazes, um pouco mais à direita, que fumavam um cigarro até aos dedos, de forma e cheiro estranho e de maneira sutil, parcimoniosa, apartando-se depois em meio à escuridão, companheira de suas noites.

Fechou os olhos e transportou-se até São José de Mipibu, viu Maria Rosa ao seu lado, curtindo as cores matizadas da aurora às margens do Rio Itaporanga, seu cachorro Fumaça e mais ninguém. 

A tosse de sempre e uma forte fisgada nas costas cancelaram a sua viagem, fizeram-no se encolher ainda mais e ficar inerte. O silêncio tinha preenchido os seus pensamentos.

O Bar da esquina tinha acabado de fechar para os clientes e Francisco de Assis Ferreira dos Santos, 61 anos, para a vida: Aurora-14 de setembro de 1958 - Ocaso- 24 de Dezembro de 2019.

(Este conto obteve o 2. lugar no Concurso de Contos, adulto nacional, do III Concurso Literário “Foed Castro Chamma”, 2020 – Tema: Aurora)

Fonte: Luiza Fillus/ Bruno Pedro Bitencourt/ Flávio José Dalazona (org.). III Concurso Literário “Foed Castro Chamma 2020”. Ponta Grossa/PR: Texto e Contexto, 2021. Livro enviado por Luiza Fillus.

Vereda da Poesia = Júlia Fernandes Heimann (Jundiaí/ SP)


José Feldman (Visitas ao Médico)

 Visitar o médico é uma daquelas experiências que pode ser tanto um drama quanto uma comédia, dependendo da sua perspectiva. A sala de espera, por exemplo, é um espaço que parece estar fora do tempo e do espaço, onde a normalidade dá lugar a um espetáculo de peculiaridades humanas.

Logo ao entrar, você é recebido por um cheiro familiar de desinfetante misturado com um toque sutil de ansiedade. A primeira coisa que se vê é a recepcionista, que tem a habilidade mágica de fazer a fila de espera parecer uma maratona. Ela é a guardiã da porta do conhecimento médico e, ao mesmo tempo, a porta-voz da boa e velha burocracia. Com um olhar que poderia congelar o mais corajoso dos pacientes, ela diz a frase que já virou um clássico: “O médico já vai atender”.

E ali está você, sentado em uma cadeira que parece ter sido projetada para torturar, cercado por uma variedade de personagens que poderiam facilmente ser protagonistas de um filme. 

À sua esquerda, uma senhora idosa que, com certeza, já passou por mais consultas do que você pode imaginar. Ela está equipada com um caderno e uma caneta, anotando tudo o que o médico diz, como se estivesse escrevendo um best-seller sobre “Como Sobreviver a Consultas Médicas”. A cada espirro e tosse, ela lança olhares severos, como se estivesse julgando a saúde de todos ao redor.

À sua direita, um jovem que parece recém-saído de uma festa “rave” tenta esconder o fato de que está ali por pura pressão social. Ele está com a cara de quem acabou de descobrir que o “mal-estar” que sentiu na noite passada não era apenas uma ressaca. Enquanto isso, ele observa nervosamente os outros pacientes, como se estivesse em um episódio de “Survivor”. A cada chamada do médico, ele dá um pequeno pulo, como se temesse que seu nome fosse o próximo.

E então, a conversa na sala de espera começa. O “Hipocondríaco” é o verdadeiro protagonista. Ele olha para o seu celular e faz uma pesquisa sobre os sintomas que não tem, mas que, se você perguntar, ele descreverá com detalhes que fariam qualquer médico levantar uma sobrancelha. 

“Você já sentiu essa dor estranha aqui?” ele pergunta, apontando para a parte mais improvável do corpo. Os outros pacientes, em sua maioria, tentam ignorá-lo, mas é impossível não se deixar levar pela espiral de paranoia que ele cria.

Quando o médico finalmente o chama, você tem a impressão de que a sala de espera inteira respira aliviada, como se um resgate tivesse ocorrido. 

Ao entrar no consultório, você se depara com o “médico zen”, que parece mais um guru do que um profissional de saúde. Ele está cercado por plantas, livros de autoajuda e um difusor de óleos essenciais que exala um aroma que poderia facilmente ser confundido com um spa. 

“Como você se sente hoje?” ele pergunta, enquanto você tenta encontrar as palavras entre a serenidade da sala e a ansiedade que lhe acompanha.

Enquanto você fala sobre seus sintomas, ele escuta com um olhar que mistura interesse genuíno e uma leve confusão, como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça. 

Quando você menciona que a dor é “como uma picada de abelha”, ele acena, como se tivesse acabado de descobrir a resposta para a última charada do jogo. 

“Vamos fazer alguns exames”, ele diz, e você se pergunta se isso significa que ele vai te transformar em um experimento de laboratório.

Após a consulta, você volta à sala de espera, onde o “Hipocondríaco” agora está em uma fase de autodiagnóstico avançado. Ele discute com a senhora idosa, que, para sua surpresa, parece estar concordando com suas teorias mirabolantes. É como assistir a um documentário sobre fauna e flora, mas com muito mais drama. A cada espirro, ele se inclina mais perto dela, em busca de uma validação que nunca chega.

Finalmente, chega a sua vez de sair do consultório. Você percebe que a sala de espera tem sua própria linguagem. Os olhares trocados entre os pacientes são como um código secreto que apenas eles entendem. Há um entendimento tácito de que todos ali estão enfrentando um mesmo desafio. E, enquanto você se despede do “Médico Zen” e sai do consultório, não consegue deixar de pensar que, apesar do estresse, a visita ao médico é uma verdadeira comédia humana.

Ao se encaminhar para a saída do consultório, você se depara com a recepcionista mais uma vez. Ela sorri, mas, ao mesmo tempo, parece estar esperando que você diga algo extraordinário. 

“E aí, tudo certo?” pergunta, como se a resposta pudesse mudar o curso da medicina. E você, em um momento de reflexões profundas, responde: “Sim, tudo ótimo, exceto por ter que voltar aqui na próxima consulta”.

E assim, você deixa o consultório, levando consigo não apenas receitas e conselhos médicos, mas também uma coleção de histórias. 

Visitas ao médico são, no fundo, uma mistura de comédia e drama, onde cada paciente é uma peça única no grande quebra-cabeça da saúde.

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.