domingo, 21 de junho de 2026

Asas da Poesia * 194 *


Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Amigo

É a verdade nua,
tantas vezes vertida na lágrima da palavra
que a mentira piedosa não conforta.

É o abraço fidedigno
estreitado no lamento das árduas horas
na improbabilidade da chegada.

É o doce afago,
que no coração não cansa
quando a distância não alcança.

É a incondicional compreensão
que as aparências não julga,
os erros não condena.

É o olhar cuidado
raio de sol cintilante,
que o tempo não ofusca.

É a saudade perene,
rosto que não se esvanece de ausência.
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Aldravia de
MADAGLOR DE OLIVEIRA
(Maria da Glória Jesus de Oliveira)
Porto Alegre/RS

rutila
seduz
olhos
de
mar
menina
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Soneto de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Mocidade

Lindo tempo o do sonho e da vontade!
Sem palavra, sequer, que bem o exprima,
o pensamento a erguer-se bem acima
da montanha da vida em claridade!

Tempo feliz da nossa mocidade
que a luz do amor e da ilusão sublima,
quando tudo nos prende e nos anima
ao fio e à teia da felicidade!

Não há quem não conheça, e, conhecendo,
não dê tudo de si para que nunca
deste tempo de paz vá se esquecendo.

Mágoas? Feliz de quem puder vencê-las,
e ver que a mão de alguém seus passos junca
de pérolas, de rosas e de estrelas!
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Trova de
CORIOLANO HENRIQUE CAMPOS 
Maringá/PR

- O que tens, minha netinha,
com este choro profundo?
- Morreu a sua filhinha...
E eu perdi tudo no mundo...
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Poema de
NÉLIO CHIMENTO
Rio de Janeiro/RJ

O cão não distingue cores
Mas percebe suas dores
Não sabe o seu salário
Não se importa se você é letrado
Ou se não conhece o dicionário 

É bálsamo que acalma
Que não trata com indiferença
As angústias de sua alma
Nos momentos de aflição

Não tem malícia nem dissimulação
Apenas amor no coração
Recebe sempre com gratidão
O que lhe é oferecido
Seja um alimento enriquecido
Ou apenas um pedaço de pão

Não importa se tem casa bonita
Ou vagueia pela avenida
Sua amizade é infinita
E sua "alma" por Deus bendita

O cão não magoa, não se ofende
Não te abandona por nada
Enfrenta qualquer parada
Na doença, no frio, na solidão...
Com a alegria sincera
De quem te ama de paixão

Um cão, ainda que combalido
Não te deixará desprotegido
Diante de qualquer perigo
Dizem que o amor não tem definição

Discordo, tem sim!
O amor se chama CÃO!
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TROVA POPULAR

Quem tem amores não dorme,
nem de noite, nem de dia;
dá tantas voltas na cama,
como o peixe na água fria.
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Poema de
ANTONIO CASTILHO
Avaré/SP

Trabalhar 

Olhando pela janela
Ouço os pássaros cantar
O sol se por
E vejo a lua brilhar

Depois de tantos anos
Só agora venho apreciar
Depois dos cabelos branco 
e da pele enrugar
De tanto trabalhar

Eu não pensava em nada
Não passeava muito menos ia viajar
Só queria ganhar dinheiro
Pra depois sossegar

Mas fiquei velho
Não vi o tempo passar
Hoje vivo no asilo, numa cama
Pois não posso mais andar

Nem família tenho pra me visitar
Nem filho pra me amparar
Amigos, tive pouco
E hoje não sei onde esta

Pra que tanto dinheiro
Se não tenho a onde gastar
De que me valeu trabalhar tanto
Se a juventude que perdi
O meu dinheiro não dá para comprar
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Trova de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR (1912 – 2004) Curitiba/PR

Para muitos a ventura
é clarão que vem e passa, 
um sorriso que não dura,
um reflexo na vidraça.
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Poema de
ATÍLIO ANDRADE
Curitiba/PR

Flores

Flores que enfeitam
O inverno que não vêm
Brancas, azuis, vermelhas tem
A beleza e o perfume  que encantam...
O soprar do vento une
O gosto das fragrâncias
No cheiro das distâncias
Que afogam no perfume
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Haicai de
VANICE ZIMERMAN FERREIRA
Curitiba/PR

névoa de inverno -
manhãs em tons de gris
oculta o telhado
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Soneto de
CIDOCA DA SILVA VELHO
São Luís do Paratinga/SP, 1920 – 2015, Jundiaí/SP

Poente da vida

É impossível voltar ao tempo antigo,
com tudo começando novamente!
Mesmo assim, quero ser o teu abrigo,
nesta fase da vida de sol poente!

Quantas horas perdemos, meu amigo,
na escalada dos tempos, tristemente!
E passou a ilusão que hoje eu bendigo,
por ver-te em minha estrada, frente a frente.

Foge do vento frio dos caminhos!
Escondido nos galhos farfalhantes,
vê quanto amor existe pelos ninhos.

Há de florir em versos palpitantes
o nosso amor, só feito de carinhos,
num turbilhão de rimas delirantes...
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Quadra Humorística de
IDEL BECKER
Porto Casares/Argentina, 1910 – 1994, São Paulo/SP

O amor dum estudante
não dura mais que uma hora:
toca o sino, vai pra aula,
vêm as férias, vai-se embora.
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Poema de
MARIA ANTONIETA GONZAGA TEIXEIRA
Castro/PR

Viver de Sonhos

Viver de sonhos
é alegrar-se com os detalhes,
é perambular pelas ruas
e voar pelos ares.
Viver de sonhos
é caminhar nos campos,
apreciar ao vento
madeixas sem grampos.
Viver de sonhos
é ser gente
que vislumbra o mundo
e vive contente.
Viver de sonhos
é ser caminhante,
amante da vida,
de sonho errante.
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Aldravia de
MARZO SETTE TORRES
Belo Horizonte/MG

tantos
falsos
deuses
tantos
descrentes
fazem
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Soneto de
COLBERT RANGEL COELHO
Pitangui/MG, 1925 - 1975, Rio de Janeiro/RJ

O luar de minha terra

Neste luar de minha terra vejo
matizes de saudade pelo espaço,
na evocação do meu primeiro beijo,
na timidez do meu primeiro abraço.

Este luar desperta meu desejo
e volto à juventude; e, passo a passo,
eis-me à beira do cais, no rumorejo
de um passado feliz que eu mesmo traço.

À tua espera, minha grande ausente,
pelo facho de luz que vem da serra,
vejo que surges como antigamente.

E, quando surges, neste mesmo cais,
revivem no luar de minha terra
noites distantes que não voltam mais.
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Trova de
LILINHA FERNANDES
Rio de Janeiro/RJ, 1891 – 1981

- Sábio, na vida tão rude,
quem te dá força? - A oração.
- Quem te dirige? - A virtude.
- Quem é teu mestre? - A razão.
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Ela
Era onda de alegria.
Ia
Ria...
Até no bater do peito 
Pois sabia que de outro jeito,
Era um quase nada,
Espumas,
Era um recuar de maré.
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Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Vinha quente o tempo.
De repente vira o vento,
volte o vinho então.
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

O medo 

Sucinto, te sinto
às vezes silente
em raro decanto

ou pressinto teu mavioso canto.
Um instinto quase animal revela
teu êxtase, em peculiar encanto.
Escorres por minhas frestas em
ecos, és o labirinto sacrossanto.
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Trova sobre Casamento de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
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Hino de 
CASTRO/ PR

De pequena freguesia
e pousada de tropeiro
se elevou a vila um dia
pelos bravos pioneiros.

Já cidade em belo trilho
no mérito das conquistas
exaltou com grande brilho
a alma dos seus artistas

Castro, cidade alegria
orgulho e prazer nos dá
Castro, cidade poesia
jardim do meu Paraná.

Engastada em verde mata
e traçada em linhas retas
quando em flores se desata
como inspira seus poetas.

Tem recanto de turismo,
tem belezas naturais,
tem poesia e tem lirismo
e tem lindos pinheirais.
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Castro: A Poesia e Orgulho do Paraná
A música 'Hino de Castro - PR' celebra a história e as belezas naturais da cidade de Castro, localizada no estado do Paraná. A letra começa destacando a origem humilde da cidade, que começou como uma pequena freguesia e pousada de tropeiros. Esses tropeiros eram responsáveis pelo transporte de gado e mercadorias, e a cidade se desenvolveu graças ao esforço e coragem dos pioneiros que a elevaram ao status de vila.

O hino continua exaltando as conquistas da cidade, que se transformou em uma bela cidade, reconhecida pelo mérito de suas realizações. A letra destaca a importância dos artistas locais, cuja alma e talento contribuíram para o brilho e a cultura de Castro. A cidade é descrita como um lugar de alegria, orgulho e prazer, sendo um verdadeiro jardim no estado do Paraná.

A música também enfatiza a beleza natural de Castro, mencionando suas matas verdes, linhas retas e flores que inspiram poetas. A cidade é apresentada como um recanto de turismo, com belezas naturais, poesia, lirismo e lindos pinheirais. A letra do hino é uma ode à cidade, celebrando sua história, cultura e paisagens deslumbrantes, e reforçando o sentimento de orgulho e pertencimento dos seus habitantes. 
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Poetrix de
ODETE RONCHI BALTAZAR
Criciúma/SC

Outono

As árvores, nuas,
exibem silhuetas
de provocar inveja.
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Soneto de
ELTON CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994

Lavrador

Nem bem surgiu o rubro da alvorada,
nem bem a noite se aquietou no monte,
já vai o lavrador levando a enxada
e se perde nos longes do horizonte.

E, após uma exaustiva caminhada,
antes mesmo, sequer, que o sol desponte,
rega a terra querida e abençoada
o suor que lhe escorre pela fronte!

Os que tratam da terra todo o dia
e fazem do trabalho uma alegria
têm a chama divina dos heróis.

Há centelhas de luz nos seus destinos:
lavradores são deuses pequeninos
que, da terra e do nada, criam sóis!
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Trova de
ARTHUR EDUARDO PEREIRA
Brusque/SC

Quando há segredo de amores,
como envelopes lacrados,
se abertos são como flores
e eternos, quando fechados.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O financeiro e o remendão

O remendão cantava noite e dia,
Era um gosto escutá-lo!
Feliz em sua pobreza, parecia
Um nababo nadando em opulência.

Seu vizinho não tinha igual regalo,
Nem quieto repouso.
Apesar da riqueza, a consciência
Trazia-o cuidadoso.

Era um grão financeiro o tal vizinho;
Vivia maldizendo a Providência
Por não ter feito o sono e a alegria
Uma mercadoria
Que se comprasse como o pão e o vinho.

Se às vezes dormitava,
Do remendão o canto o acordava!

Fê-lo ir à sua casa o financeiro
E perguntou-lhe: «Ó mestre, quanto ganha
Você num ano inteiro?

— Não posso calcular conta tamanha...
Tantos santos há hoje na folhinha
Causando feriados,
Que não ouso dizer, por vida minha,
Minha renda anual... Alguns cruzados.

Para não morrer de fome chega apenas
O que faço por dia,
Miserando salário,
Após muito trabalho, rudes penas!...

— Pois toma esta quantia,
Retruca o milionário,
Quero dar-te a fartura.
Não mais trabalharás em tua vida.»
E entregou-lhe uma bolsa bem sortida.

Foi às nuvens o pobre sapateiro!
Julgou-se logo o dono
De todo o ouro da terra!
Apressado correu ao seu telheiro,
Aonde esconde e enterra
Não só o ouro... a alegria e o sono!

Adeus, ledas cantigas!
Qualquer ruído o põe em sobressalto;
Se dorme, escuta vozes inimigas,
E treme até do leve andar do gato!

O mísero maldiz do seu contrato,
E prestes o desfaz;
Vai ter com o financeiro,
Que tranquilo dormia,
E diz-lhe: «Aqui tem o seu dinheiro,
Guarde-o, eu guardarei a cantoria,
E o meu dormir em paz!»
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Colaborações: gralha1954@gmail.com

Mensagem na Garrafa 189 = A Tentação do Repouso


FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(Pedro Leopoldo/MG, 1910 - 2002, Uberaba/MG)

Num campo de lavoura, grande quantidade de vermes desejava destruir um velho arado de madeira, muito trabalhador, que lhes perturbava os planos e, em razão disso, certa ocasião se reuniram ao redor dele e começaram a dizer:

- Por que não cuidas de ti? Estás doente e cansado...

- Afinal, todos nós precisamos de algum repouso...

- Liberta-te do jugo terrível do lavrador!

- Pobre máquina! A quantos martírios te submetes!...

O arado escutou... escutou... e acabou acreditando.

Ele, que era tão corajoso, que nem sentia o mais leve incômodo nas mais duras obrigações, começou a queixar-se do frio da chuva, do calor do Sol, da aspereza das pedras e da umidade do chão.

Tanto clamou e chorou, implorando descanso, que o antigo companheiro concedeu-lhe alguns dias de folga, a um canto do milharal.

Quando os vermes o viram parado, aproximaram-se em massa, atacando-o sem compaixão.

Em poucos dias, apodreceram-no, crivando-o de manchas, de feridas e de buracos. 

O arado gemia e suspirava pelo socorro do lavrador, sonhando com o regresso às tarefas alegres e iluminadas do campo ...

Mas, era tarde.

Quando o prestimoso amigo voltou para utilizá-lo, era simplesmente um traste inútil.

A história do arado é um aviso para nós todos.

A tentação do repouso é das mais perigosas, porque, depois da ignorância, a preguiça é a fonte escura de todos os males. Jamais esqueçamos que o trabalho é o dom divino que Deus nos confiou para a defesa de nossa alegria e para a conservação de nossa própria saúde.

José Feldman (A Visita do Tio Teodorico)


Na nossa família, o protocolo burguês sempre foi tratado com a seriedade de um tratado de paz da ONU. Minha mãe, criatura que mede a dignidade humana pelo número de fios do lençol e pela prataria brilhando na cristaleira, passou a semana inteira em estado de pré-infarto. O motivo de tanto frenesi cívico era um só: a iminente chegada do Tio Teodorico.

Teodorico era o irmão mais moço do meu pai, uma espécie de ovelha negra que, em vez de se formar em Direito para virar burocrata, resolveu sumir no mundo e virar "consultor de assuntos aleatórios" no interior de Goiás. Ninguém sabia direito o que ele fazia, mas todos tinham certeza de que ele não usava gravata. E na cartilha da nossa respeitável família da classe média alta, um homem sem gravata é um homem sem caráter.

Para receber o parente exótico, minha mãe montou uma operação de guerra que faria o cerco de Stalingrado parecer uma brincadeira de estalar bombinha de São João. O cardápio foi minuciosamente calculado para demonstrar uma opulência discreta, que é o ápice da sofisticação de Botafogo. Nada de feijoada ou churrasco, que são coisas muito telúricas e perigosas para o fígado da nossa fidalguia. O prato principal seria um coq au vin, que nada mais é do que um frango metido a besta que morreu afogado no vinho barato, acompanhado por arroz com amêndoas liofilizadas — seja lá o que isso signifique.

Às oito da noite, papai já estava devidamente engomado, usando um terno de linho que o impedia de dobrar os cotovelos, exalando um perfume importado tão forte que os mosquitos do bairro caíam mortos na calçada. Minha irmã, coitada, fora fantasiada de debutante tardia, com um vestido de pregas que pinicava até a alma. Eu, por ordens expressas da gerência doméstica, fui proibido de falar gírias e obrigado a manter as mãos fora dos bolsos. A ordem era fingir que éramos uma pintura a óleo do século dezenove.

O interfone tocou com a precisão de um gongo de execução. Minha mãe deu o último retoque no laquê do cabelo, respirou fundo o aroma do desinfetante de lavanda fina que impregnava a sala e abriu a porta com o sorriso congelado de quem tirou o primeiro lugar no concurso de miss simpatia.

Entrou o Tio Teodorico.

A primeira quebra de protocolo foi visual. Enquanto a sala inteira parecia um comercial de banco privado, ele vestia uma camisa de botão estampada com tucanos tropicais, calça jeans visivelmente confortável e uma sandália de couro de bode que emitia um odor persistente de curral. Na mão esquerda, trazia uma mala de lona remendada com fita isolante; na direita, uma gaiola com um papagaio mudo.

— Boa noite, patota! — berrou, com a voz de quem anuncia quilo de tomate na feira livre.

Minha mãe cambaleou dois passos para trás, tateando o ar à procura do colar de pérolas para se segurar. O "boa noite, patota" ecoou pelas paredes estucadas como um palavrão na missa de sétimo dia.

— Teodorico, meu querido... que surpresa agradável — gaguejou papai, tentando manter a pose enquanto estendia uma mão rígida para um aperto de mão protocolar.

Teodorico ignorou a mão engomada e desferiu um abraço de urso no meu pai, daqueles que deslocam a vértebra e deixam o sujeito sem ar por três minutos. Em seguida, cravou dois beijos estalados na bochecha da minha mãe, deixando uma leve marca de gordura de pastel que ele provavelmente havia comido na rodoviária.

A noite avançou num crescente de absurdos e constrangimentos calculados. Sentados à mesa de jantar, sob a luz de um candelabro que minha mãe comprou num antiquário fingindo que era herança de família, a etiqueta começou a sangrar.

Enquanto minha mãe tentava puxar assuntos elevados, como a última exposição de arte abstrata ou a alta do dólar que encarecia a temporada em Miami, Tio Teodorico queria debater a mecânica de caminhões a diesel e o preço da arroba do boi gordo. Quando o coq au vin foi servido pela empregada — que também fora fantasiada com um avental branco que parecia saído de uma peça de teatro de época —, ele olhou para o prato com sincera compaixão.

— Mas que diabo é isso, cunhada? O frango pegou uma pneumonia antes de ir para a panela? Tá roxo!

Minha mãe quase engoliu o garfo de peixe por engano.

— É uma receita tradicional francesa, Teodorico. Frango ao vinho — explicou ela, com uma voz tão fria que daria para conservar carne nela.

— Pois lá na minha terra a gente bota cachaça e joga um colorau que fica uma beleza. Mas vamos encarar o bicho — disse o tio, agarrando a coxa do frango com as próprias mãos, ignorando o faqueiro de prata alemã que repousava ao lado do prato.

Minha irmã fechou os olhos, rezando por um arrebatamento bíblico imediato. Papai começou a suar frio através do linho. E eu, confesso, comecei a achar que o Tio Teodorico era o único sujeito são num raio de cinco quilômetros.

O golpe de misericórdia na empáfia burguesa da noite aconteceu na hora da sobremesa. Minha mãe trouxe um petit gâteau feito com chocolate belga e uma pitada de flor de sal, a última palavra em frescura gastronômica. Teodorico provou uma colherada, mastigou com a buraqueira de quem procura um dente perdido e decretou:

— Olha, o bolinho tá meio cru por dentro, cunhada. Acho que o forno de vocês tá com problema no termostato. E o doce passou da conta, tá meio salgado. Mas não esquenta não, que eu trouxe o remédio para rebater esse negócio!

Sem esperar resposta, o homem levantou-se da mesa, foi até a sua mala de lona e retirou de lá um pote de vidro de maionese reaproveitado, cheio até a boca com um doce de leite pastoso e escuro, de fabricação caseira ilegal.

— Isso aqui sim é sobremesa de macho! — exclamou, cravando a colher de servir diretamente no pote de maionese e distribuindo pelotas de doce de leite em cima dos pratos de porcelana de Macau.

A essa altura, o verniz da civilidade já tinha derretido por completo. Minha mãe aceitou a sua colherada de doce de leite com a resignação dos mártires cristãos que enfrentavam os leões no Coliseu. Comeu. E para o desespero do seu próprio ego aristocrático, o doce de leite do curral era a coisa mais gostosa que já havia entrado naquela casa desde a fundação do edifício.

Quando a visita finalmente recolheu-se ao quarto de hóspedes, arrastando seus chinelos de bode e cantarolando uma modinha sertaneja de duplo sentido, a sala de jantar parecia o cenário de um bombardeio. O candelabro de prata parecia meio torto, o terno do papai estava amarrotado e o orgulho da mamãe jazia no chão, ao lado de um pedaço de osso de frango que o tio havia limpado com os dentes.

Olhei para a minha mãe, que mantinha os olhos fixos no pote de maionese vazio sobre a mesa. A fragilidade das nossas aparências havia sido exposta por um pote de doce de leite e uma camisa de tucanos. A burguesia dita as regras, cria os talheres certos, inventa os vinhos franceses, mas basta um tio esquisito vindo do interior com a verdade nos dentes para provar que, no fundo, todo mundo só quer comer com a mão e palitar os dentes depois do almoço.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.

Fernando Sabino (Empregadas )


DESAVENÇA

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:

– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.

Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:

– Então isso não pode causar um incêndio?

FALAR DIFÍCIL

A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.

Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:

– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!

Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:

– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

OS SIMPLES DE CORAÇÃO

Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:

– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?

A empregada veio anunciar o almoço:

– Gente, tá na hora de murçá.

– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.

E ela, imperturbável:

– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O TAL DA TELEVISÃO

Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:

– Telefonou um moço para o senhor.

– Deixou o nome?

– Disse que era o tal da televisão.

Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…

No dia seguinte, a mesma coisa:

– O tal da televisão tornou a telefonar.

– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.

Da terceira vez, perdi a paciência:

– Eu não disse que era para perguntar o nome?

– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.

Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.

Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:

– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.

Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

COME E DORME

E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

SÓ UMA VEZ

Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.

Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:

– O padeiro.

– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?

Ela ergueu os ombros, com um suspiro:

– Deus quis…
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. Livro Aberto. Publicado originalmente em 2001.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

Rubem Braga (Viúva na praia)

Ivo viu a uva; eu vi a viúva. Ia passando na praia, vi a viúva, a viúva na praia me fascinou. Deitei-me na areia, fiquei a contemplar a viúva.

0 enterro passara sob a minha janela; o morto eu o conhecera vagamente; no café da esquina. a gente se cumprimentava às vezes, murmurando “bom dia”; era um homem forte, de cara vermelha; as poucas vezes que o encontrei com a mulher ele não me cumprimentou, fazia que não me via; e eu também. Lembro-me de que uma vez perguntei os horas ao garçom, e foi aquele homem que respondeu; agradeci; este foi nosso maior diálogo. Só ia à praia aos domingos, mas ia de carro, um “Citroen”, com a mulher, o filho e a barraca, para outra praia mais longe. A mulher ia às vezes à praia com o menino, em frente à minha esquina, mas só no verão. Eu passava de longe; sabia quem era, que era casada, que talvez me conhecesse de vista; eu não a olhava de frente.

A morte do homem foi comentada no café; eu soube, assim, que ele passara muitos meses doente, sofrera muito, morrera muito magro e sem cor. Eu não dera por sua falta, nem soubera de sua doença.

E agora estou deitado na areia, vendo a sua viúva. Deve uma viúva vir à praia? Nossa praia não é nenhuma festa; tem pouca gente; além disso, vamos supor que ela precise trazer o menino, pois nunca a vi sozinha na praia. E seu maiô é preto. Não que o tenha comprado por luto; já era preto. E ela tem, como sempre, um ar decente; não olha para ninguém, a não ser para o menino, que deve ter uns dois anos.

Se eu fosse casado, e morresse, gostaria de saber que alguns dias depois minha viúva iria à praia com meu filho — foi isso o que pensei, vendo a viúva. É bem bonita, a viúva. Não é dessas que chamam a atenção; é discreta, de curvas discretas, mas certas. Imagino que deve ter 27 anos; talvez menos, talvez mais, até 30. Os cabelos são bem negros; os olhos são um pouco amendoados, o nariz direito, a boca um pouco dentucinha, só um pouco; a linha do queixo muito nítida.

Ergueu-se, porque, contra suas ordens, o garoto voltou a entrar n’água. Se eu fosse casado, e morresse, talvez ficasse um pouco ressentido ao pensar que, alguns dias depois, um homem — um estranho, que mal conheço de vista, do café — estaria olhando o corpo de minha mulher na praia. Mesmo que olhasse sem impertinência, antes de maneira discreta, como que distraído.

Mas eu não morri; e eu sou o outro homem. E a ideia de que o defunto ficaria ressentido se acaso imaginasse que eu estaria aqui a reparar no corpo de sua viúva, essa ideia me faz achá-lo um tolo, embora, a rigor, eu não possa lhe imputar essa ideia, que é minha. Eu estou vivo, e isso me dá uma grande superioridade sobre ele.

Vivo! Vivo como esse menino que ri, jogando água no corpo da mãe que vai buscá-lo. Vivo como essa mulher que pisa a espuma e agora traz ao colo o garoto já bem crescido. 0 esforço faz-lhe tensos os músculos dos braços e das coxas; é bela assim, marchando com a sua carga querida.

Agora o garoto fica brincando junto à barraca e é ela que vai dar um mergulho rápido, para se limpar da areia. Volta. Não, a viúva não está de luto, a viúva está brilhando de sol, está vestida de água e de luz. Respira fundo o vento do mar, tão diferente daquele ar triste do quarto fechado do doente, em que viveu meses. Vendo seu homem se finar; vendo-o decair de sua glória de homem fortão de cara vermelha e de seu império de homem da mulher e pai do filho, vendo-o fraco e lamentável, impertinente e lamurioso como um menino, às vezes até ridículo, às vezes até nojento…

Ah, não quero pensar nisso. Respiro também profundamente o ar limpo e livre. Ondas espoucam ao sol. O sol brilha nos cabelos e na curva de ombro da viúva. Ela está sentada, quieta, séria, uma perna estendida, outra em ângulo. 0 sol brilha também em seu joelho. O sol ama a viúva. Eu vejo a viúva.
(Rio, setembro, 1958)
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RUBEM BRAGA (Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1913 — 1990, Rio de Janeiro/RJ). Iniciou-se no jornalismo profissional ainda estudante, aos 15 anos, no Correio do Sul, de Cachoeiro de Itapemirim, fazendo reportagens e assinando crônicas diárias no jornal Diário da Tarde. Formou-se pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte, em 1932, mas não exerceu a profissão. Neste mesmo ano, cobriu a Revolução Constitucionalista deflagrada em São Paulo, na qual chegou a ser preso. Transferindo-se para o Recife, dirigiu a página de crônicas policiais no Diário de Pernambuco. Nesta cidade, fundou o periódico Folha do Povo. Em 1936, lançou seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho, e fundou em São Paulo a revista Problemas, além de outras. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira. Fez diversas viagens ao exterior, onde desempenhou função diplomática em Rabat/Marrocos, atuando também como correspondente de jornais brasileiros. Após seu regresso, exerceu o jornalismo em várias cidades do país, fixando domicílio no Rio de Janeiro, onde escreveu crônicas e críticas literárias para o Jornal Hoje, da Rede Globo. Sua vida como jornalista registra a colaboração em inúmeros periódicos, além da participação em várias antologias, entre elas a Antologia dos Poetas Contemporâneos. Em 1987, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal. Morreu de insuficiência respiratória no Rio de Janeiro.

Fonte:
Rubem, Braga. “Ai de ti, Copacabana”. RJ: Ed. do Autor, 1960.

Aparecido Raimundo de Souza (Cochinchina)


FUI MORAR com uma mulher, não para namorar com ela, mas para dividir despesas, tipo aluguel, água, luz, supermercado, condomínio, essas coisas. A beldade trabalha o dia inteiro, de segunda a sexta, e praticamente todo final de semana viaja. 

Não pode ver uma excursão, se mete nela e fica uma semana, até duas fora. A última vez que caí na besteira de perguntar para onde estava indo, a danada sorriu matreira e me disse na maior cara de pau que visitaria os confins da Cochinchina.

— Cochinchina? Onde fica?

— Não sei, nunca fui lá...

— E por qual motivo optou por essa escolha?

— Pela curiosidade...

— E se a Cochinchina não lhe agradar?

Ela sorriu de novo e, desta vez mais graciosa, mandou a bomba:

— Se eu não gostar, mando a droga toda da tal Cochinchina pra Cochinchina.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.