quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Newton Sampaio (Tragédia das mãos)

| I |

— Maria! 

Nada.

— Mariiia! 

Nem assim. 

— Mariiiiia!

Atira longe o bagaço, salta em três tempos da laranjeira. 

— Já pra dentro, coisa-ruim!

Vai se chegando, desconfiada. 

— Potranquinha ardida!

O beliscão é aplicado com dignidade. Deixará marca no mínimo por dois dias.

A menina se morde toda, pisca os olhos repetidamente, não diz palavra. Vence num instante a escada do sótão.

— Que fim levou a coalhada daqui? 

— Não sei não, dona Orsina.

— Foi você, negrinho? 

— Juro por Nosso Senhor. 

— Quem foi, siá Chica?

— Não sei dizer. 

— Quero saber, já. (Tem uma ideia).

— Maria! Nada. — Mariia!

A filha continua virando a folhinha, na sala.

— Mariiiia! 

— Sinhora...

— Quem mexeu no armário? 

— Eu.

— Não sabia que a coalhada era pras visitas? 

— Sabia.

— E comeu tudo assim mesmo? 

— Comi.
(Desta vez o beliscão pega só o braço direito).

Dona Orsina não aguenta mais. Diz que a filha é pior que saci, e nem tem mais inocência para andar aí com os moleques, trepando nas árvores, destripando sanhaços e tico-ticos. Opta por um colégio de freiras, daqueles bem fechados.

Indalécio concorda vagamente. Só para não destemperar a mulher.

| II |

— Maria da Luz Fonseca. 

— Presente.

— Os exercícios... 

— Não fiz.

— Outra vez?

— Outra vez. É a quarta...

— Ainda tem o desplante de confessar? 

— Tenho.

(Passa mais uma semana sem marmelada no jantar).

— Maria da Luz… 

— ...

— Ma-ria-a da Luz.

— Não sou surda.

— Compareça ao Gabinete da Madre Superiora. 

— Já vou.

Acaba de arrumar o cabelo, desce ao pátio de recreio, displicentemente.

O brinquedo não dura cinco minutos, porque a vigilante a distingue no centro do grupo.

— Já foi à Madre Superiora? 

— Ainda não.

A disciplina leva um choque...

No Gabinete da Diretoria — bonito, arrumadinho, com um enorme a óleo do Santo Padre Pio XI — o encontro com o pai a surpreende.

O abraço de Indalécio é longo, sentido. Maria apanha, num relance, o significado daquele terno escuro, da gravata preta. Começa a soluçar, baixinho, agarrada ao velho.

Consola-a, como pode, a Madre Superiora. Passada a crise, retoma a severidade habitual. E diz que Maria da Luz era extremamente rebelde, estava em ponto de ser eliminada. Entretanto, a nova situação da família exigia um pouco mais de tolerância.

Pergunta-lhe se modificará a conduta, a partir daquele momento. Não obtém resposta.

(Os dentes da colegial fazem um barulhinho).

| III |

A professora de geografia tira os óculos, zangadíssima. 

— Quem jogou a bolinha?

Ninguém informa.

— Quero saber, imediatamente. Foi a senhora, dona Maria da Luz?

— Não.

— O quê? Perdeu também a coragem de confessar? (Recebe o castigo, sozinha).

O relógio da igreja anuncia duas horas.

Maria da Luz afunda a cabeça no travesseiro, aperta bem os olhos. Inútil.

Vira-se do lado esquerdo, encolhe as pernas, põe as mãos no peito. As mãos sobem e descem com a respiração.

(O sono aonde foi não chegou).

Levanta-se. Vai à única janela aberta do dormitório. A camisola com monograma azul se lhe encosta melhor à pele.

Fica pensando, um tempão. Depois atravessa o corredor, desce cuidadosamente a escada, procura o salão de estudos.

Acende a vela clandestina, sente logo um cheiro de igreja, começa a escrever:

Querido papai. Saúde e felicidades.
Escrevo estas mal traçadas linhas para perguntar como vão todos aí. Tenho muitas saudades de todos. O negrinho já sarou da mordida da cobra? O Gabriel da nhá Chica já voltou do serviço militar?

Quanto a mim, ando muito triste. Não quero mais ficar aqui, por causa da Irmã Teresa, que não me deixa sossegada nunca, me chamou hoje de nervosa e de um nome feio que não entendi bem. Escrevi uma carta ontem, mas elas não quiseram botar no correio e me proibiram de escrever outra vez, mas agora de noite eu resolvi escrever outra, só de raiva, porque me acham culpada de tudo, toda a vida. Juro que não fui eu que roubei o dinheiro da Josefina, mas a irmã não quer acreditar e bateu em mim com a palmatória uma porção de vezes. Isso é demais, eu chorei bastante, chorei, porque nunca neguei minhas feitorias mas agora não tenho culpa, juro por Deus.

Tenho chorado muito; às vezes, não sei por que, começo a chorar”.

O vento fresco agita a chama da vela, e sombras informes tremem na parede, como um aviso.

A menina sente cãibras nos dedos, por isso repousa a caneta até passar o incômodo.

Continua:
Minha mão ficou doendo por demais, inchou mesmo, parece que cresceu, sabe papai?

Larga a caneta, outra vez. Contrai os dedos, inquieta.

Agora eu estava é com medo. Mas isso é impressão, acho, todo mundo está dormindo, sozinha no salão de estudo a gente tem medo. Tive a impressão de que minha mão crescia mesmo, isso é cãibra”.

A impressão não desaparece. Ao contrário, se torna mais nítida.

Credo, papai. Acho que vou parar, minha mão...

De fato, interrompe a carta, solta um grito: — Jesus!

A mão direita cresce ainda, cresce mais, cresce sem parar, esbarra na vela de cera com cheiro de igreja, a chama treme, aumentam na parede as sombras informes, terríveis.

A mão vai à janela, volta à carteira colegial, mergulha nos cabelos de Maria da Luz, alcança a porta, é capaz de tocar os sinos da torre, está agora caminhando no espaço, furando as nuvens, furando tudo histericamente.
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NEWTON SAMPAIO natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938,  foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras:  Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.

Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.
Biografia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Newton_Sampaio
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

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