Nada.
— Mariiia!
Nem assim.
— Mariiiiia!
Atira longe o bagaço, salta em três tempos da laranjeira.
— Já pra dentro, coisa-ruim!
Vai se chegando, desconfiada.
— Potranquinha ardida!
O beliscão é aplicado com dignidade. Deixará marca no mínimo por dois dias.
A menina se morde toda, pisca os olhos repetidamente, não diz palavra. Vence num instante a escada do sótão.
— Que fim levou a coalhada daqui?
— Não sei não, dona Orsina.
— Foi você, negrinho?
— Juro por Nosso Senhor.
— Quem foi, siá Chica?
— Não sei dizer.
— Quero saber, já. (Tem uma ideia).
— Maria! Nada. — Mariia!
A filha continua virando a folhinha, na sala.
— Mariiiia!
— Sinhora...
— Quem mexeu no armário?
— Eu.
— Não sabia que a coalhada era pras visitas?
— Sabia.
— E comeu tudo assim mesmo?
— Comi.
(Desta vez o beliscão pega só o braço direito).
Dona Orsina não aguenta mais. Diz que a filha é pior que saci, e nem tem mais inocência para andar aí com os moleques, trepando nas árvores, destripando sanhaços e tico-ticos. Opta por um colégio de freiras, daqueles bem fechados.
Indalécio concorda vagamente. Só para não destemperar a mulher.
| II |
— Maria da Luz Fonseca.
— Presente.
— Os exercícios...
— Não fiz.
— Outra vez?
— Outra vez. É a quarta...
— Ainda tem o desplante de confessar?
— Tenho.
(Passa mais uma semana sem marmelada no jantar).
— Maria da Luz…
— ...
— Ma-ria-a da Luz.
— Não sou surda.
— Compareça ao Gabinete da Madre Superiora.
— Já vou.
Acaba de arrumar o cabelo, desce ao pátio de recreio, displicentemente.
O brinquedo não dura cinco minutos, porque a vigilante a distingue no centro do grupo.
— Já foi à Madre Superiora?
— Ainda não.
A disciplina leva um choque...
No Gabinete da Diretoria — bonito, arrumadinho, com um enorme a óleo do Santo Padre Pio XI — o encontro com o pai a surpreende.
O abraço de Indalécio é longo, sentido. Maria apanha, num relance, o significado daquele terno escuro, da gravata preta. Começa a soluçar, baixinho, agarrada ao velho.
Consola-a, como pode, a Madre Superiora. Passada a crise, retoma a severidade habitual. E diz que Maria da Luz era extremamente rebelde, estava em ponto de ser eliminada. Entretanto, a nova situação da família exigia um pouco mais de tolerância.
Pergunta-lhe se modificará a conduta, a partir daquele momento. Não obtém resposta.
(Os dentes da colegial fazem um barulhinho).
| III |
A professora de geografia tira os óculos, zangadíssima.
— Quem jogou a bolinha?
Ninguém informa.
— Quero saber, imediatamente. Foi a senhora, dona Maria da Luz?
— Não.
— O quê? Perdeu também a coragem de confessar? (Recebe o castigo, sozinha).
O relógio da igreja anuncia duas horas.
Maria da Luz afunda a cabeça no travesseiro, aperta bem os olhos. Inútil.
Vira-se do lado esquerdo, encolhe as pernas, põe as mãos no peito. As mãos sobem e descem com a respiração.
(O sono aonde foi não chegou).
Levanta-se. Vai à única janela aberta do dormitório. A camisola com monograma azul se lhe encosta melhor à pele.
Fica pensando, um tempão. Depois atravessa o corredor, desce cuidadosamente a escada, procura o salão de estudos.
Acende a vela clandestina, sente logo um cheiro de igreja, começa a escrever:
“Querido papai. Saúde e felicidades.
Escrevo estas mal traçadas linhas para perguntar como vão todos aí. Tenho muitas saudades de todos. O negrinho já sarou da mordida da cobra? O Gabriel da nhá Chica já voltou do serviço militar?
Quanto a mim, ando muito triste. Não quero mais ficar aqui, por causa da Irmã Teresa, que não me deixa sossegada nunca, me chamou hoje de nervosa e de um nome feio que não entendi bem. Escrevi uma carta ontem, mas elas não quiseram botar no correio e me proibiram de escrever outra vez, mas agora de noite eu resolvi escrever outra, só de raiva, porque me acham culpada de tudo, toda a vida. Juro que não fui eu que roubei o dinheiro da Josefina, mas a irmã não quer acreditar e bateu em mim com a palmatória uma porção de vezes. Isso é demais, eu chorei bastante, chorei, porque nunca neguei minhas feitorias mas agora não tenho culpa, juro por Deus.
Tenho chorado muito; às vezes, não sei por que, começo a chorar”.
O vento fresco agita a chama da vela, e sombras informes tremem na parede, como um aviso.
A menina sente cãibras nos dedos, por isso repousa a caneta até passar o incômodo.
Continua:
“Minha mão ficou doendo por demais, inchou mesmo, parece que cresceu, sabe papai?”
Larga a caneta, outra vez. Contrai os dedos, inquieta.
“Agora eu estava é com medo. Mas isso é impressão, acho, todo mundo está dormindo, sozinha no salão de estudo a gente tem medo. Tive a impressão de que minha mão crescia mesmo, isso é cãibra”.
A impressão não desaparece. Ao contrário, se torna mais nítida.
“Credo, papai. Acho que vou parar, minha mão...”
De fato, interrompe a carta, solta um grito: — Jesus!
A mão direita cresce ainda, cresce mais, cresce sem parar, esbarra na vela de cera com cheiro de igreja, a chama treme, aumentam na parede as sombras informes, terríveis.
A mão vai à janela, volta à carteira colegial, mergulha nos cabelos de Maria da Luz, alcança a porta, é capaz de tocar os sinos da torre, está agora caminhando no espaço, furando as nuvens, furando tudo histericamente.
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NEWTON SAMPAIO natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938, foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras: Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.
Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.
Biografia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Newton_Sampaio
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
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