quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Recordando Velhas Canções (Tristeza de Caboclo)

(tanguinho, 1916) 


Compositores: Marcelo Tupinambá e Arlindo Leal

Quando na roça anoitece 
Fico sempre a meditá!..  
(Coro) Fica sempre a meditá!... (bis) 
Meu coração, que padece, 
 Não me deixa sossegá!... 
(Coro) Não o deixa sossegá!.. (bis)

Estribilho: 
Minh'arma, com fervô, 
Quando há lua 
Chora o seu amô 
E sem podê
se aconsolá 
Garra logo a suspirá!... 
(Coro) Quem ama, com fervô… (bis)

Meu coração, com tristeza, 
Quando surge o bom luá. 
(Coro) Quando surge o bom luá... (bis) 
Sabe, com muita firmeza, 
Seus queixumes disfarçá!... 
(Coro) Seus queixumes disfarçá!.. (bis)

Estribilho: 
Minh'arma, com fervô, 
Quando há lua 
Chora o seu amô 
E sem podê
se aconsolá 
Garra logo a suspirá!... 
(Coro) Quem ama, com fervô… (bis)

Quem sabe amá, com ternura, 
Nunca deixa de sonhá... 
(Coro) Nunca deixa de sonhá! (bis) 
Não sofre a negra amargura 
Que me anda a acabrunhá! 
(Coro) Que o anda a acabrunhá!.. (bis)

Estribilho:
Minh'arma, com fervô, 
Quando há lua 
Chora o seu amô 
E sem podê
se aconsolá 
Garra logo a suspirá!... 
(Coro) Quem ama, com fervô… (bis)

Quando eu pego na viola, 
Com vontade de cantá, 
(Coro) Com vontade de cantá!... (bis) 
Meu coração se aconsola, 
Alliviando seus pená!…
 (Coro) Alliviando seus pená!... (bis)

Fonte: https://cifrantiga3.blogspot.com/2006/03/tristeza-de-caboclo.html

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Varal de Trovas n. 613

 

José Feldman (Peripécias de um Jornalista de Fofocas)

Na redação da famosa revista de fofocas "Fuxicos e Fofocas", o clima era de agitação. O editor-chefe, um homem de bigode espesso e olhar afiado, caminhava de um lado para o outro como um tigre na jaula. Era dia de lançamento da nova edição, e o que todos esperavam era uma matéria bombástica sobre a última festa da alta sociedade.

No meio daquela confusão estava Pafúncio, o jornalista mais atrapalhado da equipe. Ele era conhecido por suas histórias engraçadas e sua habilidade inata de se meter em encrencas. Para ele, cada dia era uma nova aventura — ou desventura, dependendo do ponto de vista.

Na noite anterior, Pafúncio havia sido enviado para cobrir a festa de lançamento do novo perfume da atriz famosa, Catarina Monteiro. “Isso vai render uma capa!” gritou o editor, enquanto entregava a missão a Otávio, que balançou a cabeça, tomando um gole de café que quase lhe queimou a língua.

“Sem problemas, chefe! Vou tirar as melhores fotos!” prometeu, embora já tivesse esquecido onde havia colocado seus apetrechos.

Chegando ao evento, Pafúncio percebeu que, haviam várias coisas que ele havia esquecido: o nome da atriz, o endereço exato do local e, parece, toda a sua dignidade. A festa estava cheia de celebridades, e ele se sentiu um peixe fora d’água. Ele decidiu que o melhor a fazer seria se misturar à multidão e esperar que a sorte o ajudasse.

“Um brinde ao novo perfume!” anunciou Catarina, com um sorriso que poderia iluminar uma cidade inteira. As câmeras dos paparazzi dispararam, flashes iluminando o ambiente.

Pafúncio, com a mão suando, percebeu que tinha que agir rápido. “Preciso de uma foto! Preciso de uma foto!” repetia para si mesmo, enquanto tentava se aproximar da atriz.

Com um golpe de sorte, ele conseguiu um lugar na primeira fila. Mas, ao se agachar para ajustar a lente da câmera, Pafúncio se distraiu e, em um movimento desastrado, derrubou seu copo de bebida em cima do tapete. “Oh não!” ele gritou, enquanto tentava limpar a bagunça com as mãos.

Nesse momento crucial, ele se esqueceu completamente de sua câmera, que estava pendurada em seu pescoço. Ao se levantar, a câmera balançou, e antes que ele pudesse perceber, foi parar no chão, fazendo um barulho que ecoou pela sala. “Parece que alguém está com problemas!” ouviu alguém rir.

“Ah, ótimo!” pensou Pafúncio, enquanto tentava recuperar a dignidade. Mas ao olhar para o chão, percebeu que a câmera havia desaparecido.

“Não! Não! Não!” ele sussurrou desesperadamente. A única coisa que ele conseguiu tirar da festa era um belo retrato do seu próprio desespero.

Quando a festa terminou, Pafúncio decidiu que não podia voltar à redação de mãos vazias. “Preciso encontrar essa câmera!” pensou. Ele se lembrou de que, durante a festa, havia visto um garçom com um olhar curioso. “Ele pode ter visto alguma coisa!” Então, saiu em busca do garçom.

“Ei! Você viu uma câmera por aqui?” perguntou Pafúncio, tentando parecer confiante.

“O que é uma câmera?” respondeu o garçom, com um olhar de desprezo. “Desculpe, estou mais preocupado com os copos vazios.”

Desesperado, Pafúncio percorreu o local da festa, perguntando a todos os garçons e convidados se alguém havia visto sua câmera. O problema? Ele não conseguia se lembrar de como ela era. “Era uma câmera… grande… com uma lente… e um botão!” ele dizia, mas ninguém parecia entender.

Depois de horas de busca, Pafúncio finalmente se deu conta de que precisava de um plano B. Ele decidiu que a única solução era implorar para o editor que lhe desse outra câmera. Ao voltar à redação, ele se deparou com um olhar furioso do editor.

“O que aconteceu com a sua matéria?” o editor gritou, com os braços cruzados.

“Er… eu… perdi a câmera,” Pafúncio respondeu, sentindo-se pequeno como um grão de areia.

“Perdeu a câmera? Isso é tudo que você tem a dizer?!” o editor exclamou, quase se engasgando com sua própria indignação.

“Mas, chefe! Eu tenho uma ideia brilhante!” Pafúncio disse, tentando mudar de assunto. “E se eu fizesse uma matéria sobre a arte de perder coisas? Não é todo dia que alguém perde uma câmera na festa da Isabela Monteiro!”

O editor o olhou com uma mistura de incredulidade e raiva, mas, para surpresa de Pafúncio, ele começou a rir. “Você realmente tem um talento para arrumar encrenca, não é? Faça a matéria, mas se lembre: sem mais câmeras perdidas!”

E assim, o que começou como uma desventura desastrosa se transformou em uma crônica hilária sobre a arte de perder coisas, com Pafúncio como o protagonista de sua própria comédia. O artigo foi um sucesso, e a fama do jornalista atrapalhado cresceu na redação.

Na próxima festa, Pafúncio prometeu a si mesmo que não perderia a câmera. Mas, se isso acontecesse, ele sempre poderia escrever sobre “Como perder a dignidade em 10 passos”. Afinal, com ele, cada dia era uma nova aventura — ou desventura — e ele estava mais do que disposto a compartilhá-la com o mundo.

Fonte: José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Vereda da Poesia = 128 = Acertando Izo Quadra Hino



Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

"Casamento... - alguém já disse -
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa...a criançada..."
= = = = = = 




Trova Popular

Alma no corpo não tenho:
minha existência é fingida;
sou como o tronco quebrado,
que dá sombra sem ter vida.
= = = = = = 







Hino de 
Salto do Lontra/PR

Foi chegando o Bandeirante
Seu semelhante a irradiar
A esperança d'alma nobre
Na grandeza do lugar

Mais que a terra tão selvagem
Foi valente o sonhador
Fez brotar da terra bruta
O feijão, a paz e o amor.

(Refrão)
Salto do Lontra és coração do sudoeste
A Senhora Aparecida é quem vigia seu andar
Pelos caminhos da bonança que fizeste
Salto do Lontra és esperança, és Paraná (bis)

O Iguaçu vai junto ao Lontra
Procurando enriquecer
As colinas montanhosas
Onde o sol te viu nascer

De Caxias foi a Salto
Onde a beleza foi morar
No coração do sudoeste
Fiz meu canto, fiz meu lar.
= = = = = = 


Estante de livros (Cidades Mortas, Urupês e Ideias de Jeca Tatu, de Monteiro Lobato)


As obras de Monteiro Lobato oferecem uma rica análise da sociedade brasileira, abordando questões sociais, culturais e existenciais. Através de personagens memoráveis e narrativas envolventes, Lobato provoca reflexões críticas sobre a identidade nacional, a vida rural e a necessidade de mudança. Seu estilo direto e sua capacidade de evocar emoções tornam suas obras atemporais, ressoando com leitores contemporâneos e inspirando uma conscientização social que ainda é relevante hoje.

1. Urupês

"Urupês" é uma coleção de contos que retrata a vida rural no interior de São Paulo, focando especialmente na figura do "Jeca Tatu", um tipo de homem do campo que simboliza a preguiça e a falta de ambição. O livro é uma crítica social à vida no campo, onde Lobato expõe as condições de vida dos agricultores, a cultura popular e as tradições locais.

Os contos apresentam personagens variados, como o próprio Jeca Tatu, que vive em um ambiente de miséria e conformismo, e outros que representam a luta pela sobrevivência e a busca por melhorias. Lobato utiliza a linguagem coloquial e expressões regionais, dando vida à cultura e ao modo de vida do interior. Através das histórias, ele aborda temas como a saúde, a educação e a necessidade de uma reforma agrária.

"Urupês" é uma obra fundamental na literatura brasileira, pois oferece um retrato crítico e realista da vida rural. Lobato não apenas descreve a realidade do campo, mas também provoca reflexões sobre a identidade nacional e as mazelas sociais. O personagem Jeca Tatu, que se tornou ícone da literatura, representa a figura do homem simples que, embora tenha um potencial enorme, é sufocado pela pobreza e pela falta de oportunidades.

Lobato critica a romantização do ruralismo, mostrando que a vida no campo é repleta de dificuldades e desafios. Através de uma prosa direta e incisiva, ele denuncia a inação e a apatia que permeiam a vida dos personagens, sugerindo que a mudança é necessária e possível. O autor também enfatiza a importância da educação e da conscientização social como ferramentas para transformar a realidade.

2. Cidades Mortas

"Cidades Mortas" é uma coletânea de contos que explora temas de decadência, abandono e a memória de lugares outrora vibrantes. Lobato utiliza a metáfora das cidades mortas para refletir sobre a vida urbana e as transformações que ocorrem ao longo do tempo. Os contos apresentam paisagens desoladas, ruínas e personagens que vivem à sombra do passado, criando uma atmosfera de nostalgia e melancolia.

A narrativa enfatiza a relação entre o homem e o espaço, mostrando como as cidades, que foram uma vez centros de vida, se tornam lugares esquecidos e sem vida. Lobato utiliza descrições vívidas para evocar a sensação de desolação e perda, enquanto seus personagens se confrontam com suas próprias histórias e as memórias que carregam.

"Cidades Mortas" é uma reflexão profunda sobre a passagem do tempo e a efemeridade da vida. Através de suas descrições poéticas e detalhadas, Lobato provoca uma análise sobre a urbanização e a alienação que acompanha o crescimento das cidades. Ele questiona o que acontece com os espaços que foram habitados e como a história de um lugar pode desaparecer.

A obra também toca em questões existenciais, levando o leitor a refletir sobre a própria mortalidade e a inevitabilidade da mudança. Lobato utiliza a cidade como um personagem em si, mostrando como o ambiente pode influenciar e refletir as emoções e as experiências dos indivíduos. A nostalgia permeia os contos, transformando as cidades em símbolos de uma era perdida e despertando a consciência do leitor sobre a importância de preservar a memória.

3. Ideias de Jeca Tatu

"Ideias de Jeca Tatu" é uma obra que reúne ensaios e reflexões de Monteiro Lobato sobre a vida rural e a figura do Jeca Tatu. O livro explora a mentalidade do homem do campo, suas crenças, superstições e a relação com a natureza. Lobato utiliza o personagem Jeca Tatu como uma representação do povo simples, mas também como um veículo para criticar a falta de progresso e a resistência à mudança.

A obra discute temas como a educação, a saúde, a agricultura e a necessidade de modernização no campo. Lobato defende a ideia de que o progresso só é possível através da conscientização e do esforço coletivo, e que o povo rural deve ser despertado para sua própria condição e potencial. A narrativa é permeada por um tom de otimismo, sugerindo que a mudança é viável se houver vontade e dedicação.

"Ideias de Jeca Tatu" é uma obra que vai além da crítica social; é uma convocação à ação. Lobato acredita na capacidade do povo rural de se transformar e se modernizar, mas enfatiza que isso requer educação e um novo olhar sobre suas tradições e modos de vida. O autor utiliza a figura do Jeca Tatu para desafiar o leitor a refletir sobre preconceitos e estereótipos associados à vida no campo.

A prosa de Lobato é acessível e envolvente, misturando humor e ironia com um profundo senso de responsabilidade social. Ele consegue transmitir suas ideias de forma clara, utilizando a simplicidade do personagem Jeca Tatu como um espelho das questões mais complexas que afetam a sociedade. A obra é uma crítica à apatia e à falta de iniciativa, mas também uma celebração do potencial humano para mudar e evoluir.

Fonte: José Feldman. Estante de livros. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024.

Recordando Velhas Canções (Leva meu samba)


(samba, 1941) 

Compositores: Ataulfo Alves

Leva meu samba
Meu  mensageiro
Este  recado
Para  o  meu  amor  primeiro
Vai  dizer  que  ela  é 
A   razão  dos  meus  ais
Não,  não  posso  mais

Eu que pensava  
que  podia  te  esquecer
Mas  qual  o que  
aumentou  o  meu  sofrer
Falou  mais  alto  
no  meu  peito  uma  saudade
E  para  o  caso  
não  há  força  de  vontade
Aquele  samba  
foi  pra ver  se  comovia  
o teu  coração
Onde  eu dizia   
Vim  buscar  o  meu  perdão

A Saudade e o Perdão em 'Leva Meu Samba'
A música 'Leva Meu Samba' é uma expressão profunda de saudade e arrependimento. A letra revela um eu lírico que envia seu samba como mensageiro para seu amor primeiro, na esperança de reconquistar o coração perdido. A escolha do samba como veículo de comunicação não é aleatória; o gênero musical, com suas raízes profundas na cultura brasileira, carrega consigo uma carga emocional e histórica que amplifica a mensagem de saudade e desejo de reconciliação.

O eu lírico admite que subestimou a força de seus sentimentos, acreditando inicialmente que poderia esquecer seu amor. No entanto, a saudade se mostrou mais forte, revelando a profundidade de seu sofrimento. A letra destaca a luta interna entre a tentativa de seguir em frente e a realidade de um coração ainda preso ao passado. A saudade é personificada como uma força incontrolável, que fala mais alto no peito do eu lírico, evidenciando a intensidade de suas emoções.

O samba enviado como mensageiro é uma tentativa de comover o coração do amado, buscando o perdão e a reconciliação. A música termina com um apelo sincero, onde o eu lírico admite sua vulnerabilidade e o desejo de ser perdoado. A simplicidade e a sinceridade da letra, combinadas com a melodia envolvente do samba, criam uma obra que ressoa profundamente com qualquer pessoa que já tenha experimentado a dor da saudade e o desejo de reconciliação. Ataulfo Alves, com sua habilidade lírica e musical, consegue capturar a essência dessas emoções de maneira tocante e universal.
Fonte: – https://www.letras.mus.br/ataulfo-alves/221909/

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Carolina Ramos (Trovando) “26”

 

Humberto de Campos (Feminice)


(Sobre uma frase de Emile Faguet, 1847 – 1916)

D. Elisabeth Saldanha era apontada no Rio de janeiro como a senhora de vida mais acentuadamente elegante entre quantas, até hoje, possuiu a cidade. Honesta por educação e por temperamento, ninguém lhe apontou, jamais, um deslize, uma falha, uma simples leviandade de conduta. Em uma terra em que a maledicência enche as bochechas a cada canto da rua, ela fizera o milagre de conservar sempre limpo, sem a menor mancha do hálito da calunia, o espelho de cristal da sua reputação

Os seus hábitos mundanos não eram, entretanto, propícios à conservação desse conceito. Adorando o marido e sendo idolatrada por ele, havia uma vaidade que ela colocava acima de tudo na terra; e esta eram o teatro, os chás, os jantares, as conferências literárias, os concertos, e, sobretudo, a visita às amigas, num desperdício de tempo, de frases e de vestidos que lhe parecia verdadeiramente encantador.

Certo dia, porém, ao sair do Municipal, D. Elisabeth descuidou-se um pouco do mantô bordado de dragões de ouro e cegonhas de seda, e apanhou uma pneumonia. A ciência médica da cidade foi, toda ela, mobilizada em uma noite. E tal é o prestigio da medicina diante da morte, que, dois dias depois, o Dr. Alfredo Saldanha penetrava o portão do cemitério de São João Batista, segurando, sem tirar o lenço dos olhos, uma das alças do caixão funerário da sua querida Elisabeth.

Enquanto se dava isso aqui na terra, uma alma, imponderável como o ar e mais alva, talvez, que um floco de neve, batia, suave, à porta do Paraíso.

- Seu nome? - perguntou S. Pedro, abrindo a portinhola, encantado com tanta candura.

- Elisabeth Saldanha, meu santo.

O apostolo fitou-a com simpatia, e continuou no interrogatório:

- E que fizeste na tua vida, minha filha? – A recém-chegada franziu a testa morena e perfeita, como se consultasse a si mesma.

- Não ouviste, filha? Que é que fizeste na tua vida?

Elisabeth ia, pela primeira vez, se atrapalhando, mas, recobrando a serenidade, indagou:

- Eu?

E, com um sorriso, que lhe abotoava a boca num beijo:

- Eu fiz... muitas visitas!

São Pedro sorriu, bondoso, e a grande chave rangeu, faiscando estrelas, na enorme fechadura dourada.

Fonte: Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. Publicado originalmente em 1925. Disponível em Domínio Público.  

Recordando Velhas Canções (Vida de bailarina)


(samba-canção, 1954) 
Compositores: Américo Seixas e Chocolate

Quem descerrar a cortina
Da vida da bailarina
Há de ver cheio de horror
Que no fundo do seu peito
Existe um sonho desfeito
Ou a desgraça de um amor
Os que compram o desejo
Pagando amor a varejo
Vão falando sem saber
Que ela é forçada a enganar
Não vivendo pra dançar
Mas dançando pra viver!

Obrigada pelo ofício
A bailar dentro do vício
Como um lírio em lamaçal
É, uma sereia vadia
Prepara em noite de orgia
O seu drama, passional
Fingindo sempre que gosta
De ficar a noite exposta
Sem escolher o seu par
Vive uma vida de louca
Com um sorriso na boca
E uma lágrima no olhar

A Dualidade da Vida de uma Bailarina: Entre o Sonho e a Realidade
A música 'Vida de Bailarina', é uma profunda reflexão sobre a vida de uma bailarina que, por trás das cortinas, esconde uma realidade dolorosa e cheia de sacrifícios. A letra revela a dualidade entre a aparência glamorosa e a dura realidade enfrentada por essas artistas. A bailarina, que deveria viver para dançar, acaba dançando para sobreviver, sendo forçada a enganar e a se submeter a situações degradantes para manter-se financeiramente.

A canção utiliza metáforas poderosas para descrever a situação da bailarina. Comparando-a a um 'lírio em lamaçal', a letra sugere a pureza e a beleza que são manchadas pelas circunstâncias adversas. A bailarina é retratada como uma 'sereia vadia', uma figura mítica que, apesar de sua beleza e encanto, está presa em um ciclo de vícios e orgias noturnas. Essa imagem reforça a ideia de que, embora a bailarina possa parecer deslumbrante e feliz por fora, ela carrega um profundo sofrimento interno.

Além disso, a música aborda a questão da exploração e da objetificação das mulheres no mundo do entretenimento. A bailarina é obrigada a fingir prazer e a se expor, sem ter a liberdade de escolher seus parceiros ou seu destino. O contraste entre o 'sorriso na boca' e a 'lágrima no olhar' simboliza a máscara que ela é forçada a usar, escondendo sua verdadeira dor e tristeza. A letra de 'Vida de Bailarina' é um poderoso comentário social sobre as dificuldades e os sacrifícios enfrentados por muitas mulheres que trabalham no mundo do espetáculo, revelando a dura realidade por trás do brilho e do glamour.

Personagens típicas da noite carioca nos anos trinta e quarenta, essas bailarinas serviram de motivo a algumas composições como "Garota do Dancing", de Alberto Ribeiro e Jorge Faraj. Nenhuma, entretanto, alcançaria o prestígio de "Vida de Bailarina", lançada por Ângela Maria em 1954 e revisitada por Elis Regina, dezoito anos depois. Representante ilustre da classe foi Elizeth Cardoso, bailarina antes de se tornar cantora profissional.

Fontes:
– https://www.letras.mus.br/angela-maria/44140/
– Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. Vol. 1. Editora 34, 1997.

domingo, 6 de outubro de 2024

Edy Soares (Fragata da Poesia) 60: Primavera

 

Nilto Maciel (Insensatez)

Enquanto despejava o resto da terceira cerveja nos copos, Airton pigarreou e olhou para mim.

– Esse meu irmão é o gênio da publicidade.

Os três, ao mesmo tempo, agarramos os copos e, no engolir a bebida, perdi as palavras iniciais de Fernando.

– Jornalista frustrado, rabiscador de frases de encomenda, assessor da burguesia.

O primeiro soluço morreu nos corredores mal-assombrados do esôfago, tal o meu susto. Ora, para mim Fernando só podia estar feliz, por voltar ao trabalho e ao exercício da comunicação. Além do mais, pagavam-no relativamente bem.

– Não seja ingrato.

Pela calçada, os primeiros habitantes da noite engatinhavam, ainda farsantes, medrosos, macios.

– Olha que pernas!

Fernando não deu ouvidos ao irmão, nem desviou os olhos dos meus. Também neles não havia nenhuma cólera. Porém, me fulminaram suas palavras de agradecimento por ter-lhe tirado a barriga da miséria, tê-lo livrado da futura companhia dos mendigos e devolvido ao convívio dos comunicadores.

–  Nunca vou me esquecer disso, nem de você.

Airton continuava a farejar o rabo da noite, venta metida no copo, e eu pedia a Deus que a língua dele inventasse obscenidades e fizesse Fernando olhar e cheirar e desejar tudo, menos relembrar o passado.

– Apesar disso, eu quero mesmo é voltar ao jornal.

A quarta cerveja chegou menina pelas mãos do garçom e se dividiu pura para nós três. Nem ela, porém, fez menos amargo Fernando.

– Você não pode nem pensar nisso. Eles são capazes de acabar com a imprensa para impedir uma coisa dessas.

Do outro lado da calçada, letras vermelhas pintavam no muro palavras que os carros não me deixavam ler. E eu olhava por cima dos ombros de Fernando, como se suas orelhas me interessassem. Ele as alisava de vez em quando, irredutível em suas opiniões.

– Lá eu me sentia bem, coerente comigo mesmo, apesar das porradas.

As luzes dos bares e lupanares atraíam as mariposas para o festim de todas as noites. E Airton se debatia dentro do copo, incapaz de voar.

– Onde está a incoerência da publicidade?

Fiz um último esforço para ler o mural que a noite apagava. Um automóvel engoliu-o, antes de se meter nos labirintos do ouvido de Fernando.

– Cuidado!!!

Os irmãos se assustaram e rimos.

– Eu queria acordar o Airton.

O garçom trouxe outra cerveja, ofereceu tira-gosto, insistiu até perder a paciência.

– O publicitário é um propagandista do supérfluo, um camelô do capital. Quer dizer,  o leal conselheiro do rei, filósofo-bobo da corte, espécie vulgar de Maquiavel.

Pedi outra cerveja e a opinião de Airton, embora nenhuma das duas pudesse fazer Fernando se acalmar. Pelo contrário, quanto mais bêbado, mais se tornava amargo, e quanto mais enaltecido, mais se auto-criticava.

Airton voltou a chamá-lo de inteligente, a ponto de pensar pelos burgueses. Talvez ironizasse, talvez só falasse besteiras.

Fernando sorriu. Sim, era mais um dos fílósofos da burguesia. Apenas não escrevia ensaios.

Irritei-me, e de nada serviu minha irritação. Acusou-se de crápula. Aliás, não sabia a diferença entre ser e estar sendo. Tão sutil a diferença que outros podiam apenas estar sendo, enquanto ele podia ser o próprio.

Não, nem ele era nem estava sendo crápula. Éramos apenas empregados da burguesia.

Feriu-me. Eu ia terminar advogado de torturadores. Não entendi de imediato a frase. Explicou-me: sendo o publicitário e o torturador ambos meros trabalhadores, não são responsáveis por seus atos,  porque mandados. E não podem se recusar a cumprir suas tarefas, sob pena de demissão.

Chamei-o de simplista. O torturador era um criminoso pago pelo Estado ou por grupos do Poder, enquanto o publicitário um intelectual pago por agências de publicidade.

Concordou comigo. Apenas não abria mão de chamá-los de assessores do Poder. Ou instrumentos.

Fernando fazia questão de se torturar, de se proclamar um lacaio do capitalismo. Tive vontade de mandá-lo plantar batata ou virar guerrilheiro. Mas seria encerrar o assunto e eu queria ajudá-lo. E meti o jornalista no meio. O profissional que se sujeitava a trabalhar na imprensa burguesa. Sem falar, é claro, do que comunga com as ideias do dono do jornal. Era ou não um assessor do Poder?

Atingi-lhe o calcanhar. Perguntou se suas reportagens serviam ao Poder. Claro que não. Do contrário, não teria sido mandado para a rua. Logo, tornava-se impossível a coerência do jornalista consigo mesmo na imprensa burguesa.

Não havia salvação.

O assunto se esgotou aí e logo mais nos despedimos.

Encontramo-nos de novo, passado quase um mês. Parecia outro. Abraçou-me com euforia, mostrava-se alegre, otimista, satisfeito com o trabalho. Andava às voltas com a criação da melhor campanha de sua vida. Coisa de deixar qualquer gênio da propaganda com inveja.

De início, mantive-me reservado, embora procurasse retribuir a euforia. Supus estivesse me provocando. Não se tratava disso, porém. Nem uma só palavra sua soou falsa. Falava de dentro mesmo.

Interessei-me pelo título da campanha, pelos textos, por tudo, e ele me encheu de informações. Tratava-se de uma campanha patrocinada pelo Sindicato dos Produtores de Massas. A população ia trocar a carne, o arroz, o feijão, o leite pelo macarrão. Eu ia ver o povo gordo.

Não toquei na discussão passada, atento às suas palavras, feliz com sua felicidade, olhos mirados nele, quase sempre, ou nas muitas folhas de papel que carregava. Nelas, trazia anotadas frases, textos, poemas, tudo relacionado ao novo trabalho.

Convidou-me a acompanhá-lo, sem dizer para onde ia, e fomos. Apenas a caminhar pelas ruas, feito dois vagabundos. E falava sem parar, como se toda a fala do mundo desaguasse de sua boca. Até aí, porém, nada de imaginar isso ou aquilo. Se me ocorreu alguma ideia foi a de sempre – que cérebro aquele!

Ao avistar um conhecido, chamou-o. O rapaz assustou-se, escondeu-se e só não se perdeu de vista devido ao faro de Fernando. Talvez não fossem tão íntimos para uma cena daquelas. Além do mais, meu amigo havia se tornado mais conhecido por sua prisão, embora assinasse reportagens polêmicas. Estranhei a cara de espanto do outro e mais ainda os modos de Fernando. Pois, sem qualquer preâmbulo, pôs-se a repetir aos brados os motivos de sua alegria, a reler os manuscritos da campanha do macarrão. Para livrar o sujeito do embaraço, apresentei-me, dizendo-me amigo “desse grande Fernando Darque”. O malandro se aquietou. Logo, porém, alegou estar com pressa e se retirou.

Por um instante pensei em perguntar a Fernando se não achava ridículo chamar alguém aos gritos no meio da rua e, sobretudo, ler aquilo.

Nem bem arranjava palavras para a sabatina e lá apareceu outro conhecido. O mesmo vexame, a mesma lengalenga, macarrão aqui, macarrão ali, e o sujeito a se aborrecer, pedir licença para se retirar.

A essas alturas, não me restava nenhuma dúvida mais sobre o destino de Fernando. E, para fortalecer minha convicção, convidou-me a comer macarronada, embora tivéssemos almoçado fazia coisa de uma hora e fôssemos ambos avessos a massas. Procurei-lhe no rosto qualquer sinal de brincadeira e só alcancei a insistência para o convite. Se eu recusasse, não contasse mais com sua companhia e muito menos com sua amizade. E procuramos um restaurante e o encontramos e fiz das tripas coração para nem sonhar com uma indigestão.

Mal começou a comer, chamou o garçom, gabou-o, quis saber do nome do mestre-cuca, dos cozinheiros, deixou a mesa e correu à cozinha a enaltecer os empregados. Saí em seu auxílio, temeroso de mal-entendidos e, a piscar o olho para o pessoal, conduzi-o de volta ao salão. Nisso, o proprietário se apresentou. Para quê? Fernando se encheu de mais falas, fez o elogio da casa, da comida italiana, das massas alimentícias, do trigo, das fábricas de macarrão, sob os olhares espantados dos clientes famintos e do gordo dono do restaurante.

Só me restava pedir a conta, pagá-la, acrescida de boa gorjeta, inventar um compromisso urgente e conduzi-lo à rua.

Nunca deixei de me preocupar com Fernando, apesar de não o ter visto mais com vida. Andei ainda a procurá-lo na agência onde trabalhava, nos jornais, por toda a cidade. A correria do dia-a-dia, porém, logo ocupou meu espírito de outras preocupações. Quando parei, já não me restava fazer nada, a não ser lamentar a desgraça. E talvez não o salvasse, por mais que o seguisse, guiasse, guardasse. A loucura já o dominava. Pois não está louco quem armazena macarrão, por temor de sua escassez no mercado? E mil vezes insensato quem se joga a um panelão cheio de água fervente e deixa o bilhete: “Sirvam-se, que estou bem cozido”?

Fonte: Nilto Maciel. Punhalzinho Cravado de Ódio, contos. Secretaria da Cultura do Ceará, 1986. Enviado pelo autor.

Vereda da Poesia = Apollo Taborda França (Curitiba/PR, 1926 - 2017)



Jaqueline Machado (“Vidas secas”, de Graciliano Ramos)

Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos romances mais importantes do cenário literário brasileiro. Escrito em 1938, a obra nos leva a refletir e também a se indignar com o horror da desigualdade social. 

O romance fala de uma família que foge da seca pela caatinga, em busca de água e comida. 

O protagonista, é Fabiano, sua esposa é a sinhá Vitória que levava o filho mais novo escanchado no quadril. Um pouco atrás ia o filho mais velho e a cachorra: Baleia. 

Quase não conversavam. Primeiro, porque tinham pouco assunto. Depois, porque precisavam poupar as forças físicas. 

Os juazeiros se aproximavam, recuavam e sumiam.

Cansado, o filho mais velho se pôs a chorar e sentou no chão.   

- ‘Anda, condenado do diabo”! -  Gritou-lhe o pai. - Não obtendo resultado, o castigou com a ponta da bainha da faca. Acuado, sossegou, deitou, fechou os olhos.  

A família tinha um papagaio, que foi sacrificado para matar a fome. 

Exaustos, encontram uma fazenda aparentemente abandonada. Lá, buscaram refúgio. Fabiano encontra água no bebedouro dos animais. Baleia caça um preá. Eles ficam felizes, pois, finalmente, haviam encontrado água e comida.

Fabiano se vê dono daquela fazenda. Mas descobre que ela tem dono. E precisa negociar com o fazendeiro para não ter que voltar a seguir a caatinga rala com a família. Seus serviços, então, são trocados por abrigo e comida. 

Em certo momento, o filho faz uma pergunta. Fabiano fica irritado. Afinal, pensar não leva a nada. E lembrou do senhor Tomás da Bolandeira, que apesar de possuir muita cultura, morreu na seca. 

Ele queria desfrutar de uma vida melhor. Sua mulher sonhava ter uma cama igual ao do seu Tomás da Bolandeira. 

Permanecem por um tempo na fazenda. Conhecem pessoas, vão a algumas poucas festividades, mas na maior parte do tempo, desfrutavam mesmo dos sofrimentos. Um dos maiores foi a morte da cachorra Baleia, que estava muito debilitada. Depois, a seca voltou a castigar a terra, matando os animais de sede. E a família teve que fugir de novo, debaixo de um calor escaldante, sem destino. 

Ou seja, devido às más governanças e más distribuições de terra, o ciclo de dor e desalento se repete…

Fonte: Texto enviado pela autora 

Recordando Velhas Canções (Volta por cima)

(Samba, 1962) 

Compositor: Paulo Vanzolini

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei, qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei, qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava

Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher lhe venha dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei, qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei, quero ver

Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher venha dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Resiliência e Orgulho: A Mensagem de Superação em 'Volta Por Cima'
A música 'Volta Por Cima', é um hino de superação e resiliência. A letra fala sobre a experiência de passar por um momento difícil, chorar e sentir a dor da queda, mas, acima de tudo, sobre a capacidade de se reerguer e seguir em frente. A expressão 'dar a volta por cima' é uma metáfora para superar adversidades, mostrando que, apesar dos desafios, é possível se recuperar e continuar a jornada com dignidade e força.

O refrão da música destaca a importância da autoconfiança e do orgulho pessoal. O 'homem de moral' mencionado na letra simboliza alguém que, mesmo após enfrentar uma situação que o leva às lágrimas, não se deixa abater permanentemente. Ele não espera por ajuda externa, mas reconhece sua própria capacidade de se levantar e seguir em frente. A mensagem é clara: é essencial reconhecer os próprios erros ou fracassos, mas sem deixar que eles definam quem somos.

A canção também aborda a questão da vulnerabilidade e da autenticidade emocional. O narrador não tem vergonha de suas lágrimas e não se preocupa com a opinião alheia. Isso reflete uma atitude de honestidade com os próprios sentimentos, que é fundamental para o processo de cura e crescimento pessoal. 'Volta Por Cima' é, portanto, uma ode à força interior e à capacidade humana de superar obstáculos, mantendo a cabeça erguida e o coração aberto para novas possibilidades.

Não é verdade que “Volta por Cima” tenha alguma coisa a ver com a morte do filho do autor ocorrida anos depois de sua criação. A letra deste samba é isto sim, “uma questão de filosofia de vida, como eu gostaria de ser”, afirma o Dr. Paulo Vanzolini mestre em Zoologia pela Universidade de Harvard, diretor do Museu de Zoologia da USP e um dos mais festejados componentes do reduzido grupo de compositores paulistas de sucesso nacional.

Os versos ajudariam a popularização da expressão “dar a volta por cima”, citada no dicionário Aurélio como o ato de superar resolver uma situação difícil, desagradável, problemática.

Oferecido a alguns cantores, “Volta por Cima” acabou gravada pelo mineiro Noite Ilustrada, numa ocasião em que Vanzolini estava em viagem na Amazônia. Noite Ilustrada atuava na boate Moleque, onde os frequentadores costumavam fazer coro sempre que ele interpretava a composição. Então, atendendo à pretensão do sambista, o produtor Alfredo Borba autorizou a gravação, que teve um arranjo bem simples do clarinetista Portinho. Quando Vanzolini retornou a São Paulo, foi surpreendido com o seu samba tocando nas rádios e disputando as primeiras colocações nas paradas, para logo se fixar como o maior sucesso de Noite Ilustrada.

A propósito, este apelido pitoresco foi dado ao cantor (que se chama Mário de Souza Marques Filho) em 1951, quando ele participava de um show comandado por Zé Trindade na cidade mineira de Além Paraíba. No momento da apresentação, o comediante esqueceu o seu nome e, vendo-lhe num bolso um exemplar da revista Noite Ilustrada, não se apertou: “E agora com vocês a grande revelação... Noite Ilustrada.” Daí em diante o apelido pegou de tal forma que até Denise, mulher do cantor, o chama de o Noite. 
Fontes:
https://www.letras.mus.br/jorge-aragao/286389/significado.html
http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/06/volta-por-cima.html 

sábado, 5 de outubro de 2024

Therezinha Dieguez Brisolla (Trov’ Humor) 40

 

José Feldman (O Último Passeio)

Na pequena cidade de Vila Esperança, onde as ruas eram adornadas por flores e o canto dos pássaros ecoava pela manhã, viviam dois idosos, Dona Dora e Seu Domingues. Ambos eram conhecidos por sua amizade sincera e pela companhia de seus fiéis cães: Mel, uma labradora de pelagem dourada, e Pingo, um vira-lata esperto e brincalhão.

Com o passar dos anos, a vida trouxe desafios a Dona Dora, que perdeu seu marido recentemente, e a Seu Domingues, que lutava contra a solidão e a tristeza. Em um dia nublado, enquanto caminhavam juntos com seus cães, o ar parecia pesado, como se a cidade também carregasse suas dores.

Enquanto conversavam, Mel e Pingo, em sua inocência canina, começaram a brincar. De repente, os cães correram em direção a um parque abandonado, onde uma densa neblina se formou. Curiosos, os idosos seguiram seus animais.

Ao entrarem no parque, foram surpreendidos por um cenário mágico. As árvores, cobertas de flores brilhantes que nunca tinham visto, dançavam suavemente ao vento. O ar estava impregnado de um perfume doce, e uma luz suave parecia emanar do chão.

“É como se estivéssemos em outro mundo”, disse Dona Dora, maravilhada.

“Talvez seja”, respondeu Seu Domingues, com um sorriso. “Um lugar onde podemos deixar nossas preocupações para trás.”

Enquanto exploravam, encontraram um banco antigo, coberto de musgo. Sentaram-se, e a magia do lugar começou a trabalhar. As memórias de seus amores perdidos e de suas lutas começaram a se dissipar, como a neblina ao sol. Eles riram, contaram histórias de suas juventudes e, pela primeira vez em muito tempo, sentiram-se leves.

De repente, Mel e Pingo começaram a ladrar em direção a uma árvore gigante. Ao se aproximarem, notaram que a árvore tinha uma porta entre suas raízes. A curiosidade falou mais alto, e os quatro entraram.

Dentro, encontraram um mundo de possibilidades. Havia trilhas que levavam a diversas paisagens: campos floridos, montanhas majestosas e riachos cristalinos. Cada passo que davam parecia rejuvenescê-los, e seus corações, outrora pesados, agora pulsavam de alegria.

“Olhe, Dora! Vamos escalar aquela montanha!” exclamou Seu Domingues, com o entusiasmo de um jovem.

E assim, entre risadas e corridas, os dois idosos enfrentaram a montanha, desafiando seus limites. Enquanto escalavam, seus cães os seguiam, como guardiões da felicidade recém-descoberta.

No topo, a vista era deslumbrante. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa. Dona Dora e Seu Domingues, ofegantes, sentaram-se e contemplaram a beleza ao redor. Ali, no ápice, perceberam que as dificuldades da vida eram apenas montanhas a serem superadas.

“Não importa a idade, Dora. Sempre podemos encontrar novos começos”, disse Seu Domingues, olhando nos olhos dela.

“Sim, Domingues. A vida pode ser mágica, mesmo depois de tantas tempestades”, respondeu ela, com um sorriso.

Quando decidiram voltar, a neblina do parque os envolveu novamente, e em um instante, estavam de volta à realidade. Contudo, algo havia mudado. A tristeza que os acompanhava havia se dissipado, e a amizade e a esperança floresceram em seus corações.

Dali em diante, Dona Dora e Seu Domingues continuaram a passear juntos, agora com um novo olhar sobre a vida. As memórias de sua aventura mágica os inspiraram a enfrentar os desafios do dia a dia, sempre com um sorriso, acompanhados de Mel e Pingo, que, sem saber, foram os verdadeiros guias para a superação de seus obstáculos.

E assim, na pequena Vila Esperança, a vida continuou, cheia de cores e possibilidades, mesmo para aqueles que já haviam vivido tanto.
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Estrutura do Conto acima: 

Introdução
Apresentação dos personagens: Dona Dora e Seu Domingues, dois idosos amigos.

Contexto
A vida cotidiana em Vila Esperança e os desafios enfrentados por eles.

Desenvolvimento
Os idosos caminham com seus cães, Mel e Pingo.

A atmosfera pesada da tristeza é introduzida.

Os cães levam os idosos a um parque abandonado, onde encontram uma realidade mágica.

Clímax
Descoberta do banco antigo e a transformação emocional dos personagens.

A entrada na árvore mágica, que os transporta a um mundo de novas possibilidades.

Aventura
Exploração de paisagens mágicas e superação de desafios, como a escalada de uma montanha.

Momentos de alegria e rejuvenescimento.

Conclusão
Reflexão no topo da montanha sobre a vida e a superação de obstáculos.

Retorno à realidade, mas com uma nova perspectiva.

A continuação das caminhadas e o fortalecimento da amizade.

LIÇÕES TRANSMITIDAS AO LEITOR

1. Superação de Obstáculos
A vida pode apresentar desafios difíceis, mas é possível superá-los com coragem e apoio mútuo.

2. Valorização das Relações
A amizade e o apoio entre pessoas são fundamentais para enfrentar momentos difíceis. Conexões emocionais podem trazer conforto e alegria.

3. Redescoberta da Alegria
Mesmo após perdas e tristezas, é possível redescobrir a alegria e a magia da vida, basta estar aberto a novas experiências.

4. Importância do Presente
A história enfatiza viver o momento presente e aproveitar as pequenas oportunidades de felicidade que surgem no dia a dia.

5. Transformação e Crescimento Pessoal
Através da experiência compartilhada, os personagens se transformam, mostrando que o crescimento pessoal pode ocorrer em qualquer fase da vida.

6. O Valor da Curiosidade
A curiosidade e a disposição para explorar o desconhecido podem levar a descobertas valiosas e experiências enriquecedoras.

Fonte:
José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2024