segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Asas da Poesia * 147 *


Poema de
ROGÉRIO SALGADO
Belo Horizonte/MG

Sobre todas as coisas

O meu amor tem dessas coisas
de cultivar estrelas
no céu da tua boca
ser criança, como quem ama
adolescentemente
pela primeira vez.

O meu amor tem dessas coisas
de dizer silêncios
quando te observa e se encanta
no encontro de fazer milagres
no coração.

Assim, o me amor adormece
e acorda no acorde de ser canção
sobre todas as coisas assim
o meu amor tem dessas coisas
de sobre todas as coisas amar.
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Soneto de
FRANCISCO NEVES DE MACEDO  
Natal/RN 1948 – 2012

Iconoclastas do meio ambiente

As árvores são tanta e já floridas,
e são milhares, todas importantes,
mas sei também de muitas ressequidas,
que a moto serra, fez agonizantes.

Árvores tombam, tantas, tanta vidas,
por mãos e mentes, as mais ignorantes,
nas ambições nefastas desmedidas,
o que lhes tornam torpes ruminantes.

Do apocalipse, a “besta” da ambição,
com a maldita, moto serra à mão,
destruindo as irmãs da nossa gente.

Vem a mortal desertificação,
morte virá também ao falso irmão:
Iconoclasta do Meio Ambiente.
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Soneto de
CRUZ E SOUZA
Florianópolis/SC, 1861-1898, Antonio Carlos/MG

Cristais

Mais claro e fino do que as finas pratas
o som da tua voz deliciava...
Na dolência velada das sonatas
como um perfume a tudo perfumava.

Era um som feito luz, eram volatas
em lânguida espiral que iluminava,
brancas sonoridades de cascatas...
Tanta harmonia melancolizava.

Filtros sutis de melodias, de ondas
de cantos volutuosos como rondas
de silfos leves, sensuais, lascivos...

Como que anseios invisíveis, mudos,
da brancura das sedas e veludos,
das virgindades, dos pudores vivos.
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TROVA POPULAR

Dizem que o pito alivia
as mágoas do coração;
eu pito, pito e repito
e as mágoas nunca se vão.
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Soneto de
MARIA NASCIMENTO SANTOS CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ

Além da vida

Muitos dizem que a vida é uma tortura,
e o mundo é um vil celeiro de ilusão;
que, para cada dia de ventura,
vivem meses de plena solidão...

Que vegetam... Respiram desventura,
que a incerteza é mais forte que a razão;
que a cada instante morrem de amargura,
mas não ouvem a voz do coração.

Malgrado seja a vida uma incerteza,
não vou mesclar meus dias de tristeza
enquanto espero o dia da partida,

pois, voando nas asas do seu verso
o poeta transpõe todo o universo
e vive muito além da própria Vida!...
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Poema de
RAIMUNDO SAMPAIO COSTA
Aracaju / SE

O enigma do Eu

Não é preciso dares nome
À tua enfermidade moral.
Este teu puritanismo nas entranhas embutido
É a doença que vos infecta.
E, para satisfazeres a saga de tua insana mente
Atacas-nos qual abutre faminto invejando-nos o ser.
Enfim! Libertas-te das algemas sujas
Do calabouço moralista que vos aflige.
Procuras na pureza pura dos prazeres te encontrar.
A causa de tua imensa dor
É a crise interna do desamor.
O Enígma de teu Eu, é apenas teu.
Não se reprima, não se reprima.
Pouco importa se és Dagmar, Itamar ou Valdemar...
Cruzes, cruzes, cruzes.
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

A força do amor sofrido

Difícil de compreender
a força do amor sofrido,
mas bem fácil de entender
depois de tê-la sentido…

 A inquebrantável força de um amor
resiste ao tempo, à dor e à despedida;
ignora a culpa, esquece do amargor,
veemente, segue incólume na vida.

Atenta ao coração do sofredor,
leva a esperança e a calma comedida;
despreza a solidão e, sem pudor,
oferta-lhe a presença destemida.

Contudo, quando o amor, senil, cansar-se,
a força ativa, sem jamais quedar-se,
não deixará que prostre, entregue à sorte...

Honradamente irá retroagir,
o amor fará no sonho submergir...
Trará a ilusão, que pode adiar a morte!
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Poema de
ALESSANDRO BORGES DE MOURA
Rio Branco / AC

Magia infinda

Olha lá! O vento assanhando os cabelos verdes das árvores!
O moleque escorregando a ladeira com luvas
A correnteza levando os barquinhos de papel...
São crianças brincando na chuva.

Olha lá! A euforia subindo as montanhas!
A água turva se embalando;
O trovão montando na nuvem...
São crianças brincando na chuva.

Olha lá! Dezenas de pezinhos
Dançando sobre o barro vermelho!
A bola na rua fazendo curva,
As risadas sagradas da felicidade...
São crianças brincando na chuva.

Olha lá! Esse rio alegre de gente!
Não importam as trovoadas;
Essa chuva ainda vai longe...
Espalhando por toda terra
A magia infinita de toda essa criançada!
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Soneto de
CECIM CALIXTO
Pinhalão/PR, 1926 – 2008, Tomazina/PR

Testamento

Labuto em vão a costurar futuro
e a delinear as coisas que preciso.
Mas se me ligo, permanece escuro,
certo porão que se me hospeda o juízo.

Colhendo pedras ao projeto, aturo,
toda vileza que não tem aviso.
E já percebo que a sangrar procuro
as frágeis notas do obscuro siso.

E inalcançável tudo que imagino,
por isto aceito o freio ao meu destino,
na busca atroz de uma ilusão que existe.

Poeta...! Vale o teu anseio justo...
pois sabes bem que saberão o custo
todos que lerem teu soneto triste.
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Poema de
ANA CAROLINA VIANA FARIA
Belo Horizonte / MG

Frágil

Um monstro essa tal solidão
Que mata e envenena
Te rouba a razão
Te faz ir na contramão.

Um horror essa tal ilusão
Que afasta e queima
Um ou outro coração...
Sem hesitar.

Uma frágil emoção
Esse amor guardado em meu peito
Tão frágil que dá medo
Tão seguro que é frágil.

Parece que somos tão iguais...
E tão diferentes
Parece que somos tão unidos...
E tão distantes.

Não me pergunte por quê
E nem para onde
Só posso lhe dizer
Que agora eu quero você.
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun dos desajustados

TEMA:
Quando a família é rompida
por atos cegos, tiranos,
deixa destroços de vida,
restos de seres humanos.
Manoel Cavalcante 
Pau dos Ferros/RN

PANTUN:
Por atos cegos, tiranos,
por ciúme ou por loucura,
restos de seres humanos
são sobras da desventura.

Por ciúme ou por loucura,
as decisões mal tomadas,
são sobras da desventura
de vidas abandonadas.

As decisões mal tomadas,
as vezes gera a desgraça
de vidas abandonadas
jogadas no chão da praça.

As vezes gera a desgraça
das almas cheias de vida,
jogadas no chão da praça
quando a família é rompida.
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Hino de 
Guarapuava/PR

O Sol surgiu, um dia, mais brilhante
E foi, risonho as flores acordar
O riacho, sobre as pedras, a cantar
A cidade que surgia triunfante!

Com fervor, nós te saudamos, Guarapuava
Neste hino de Louvor!

Teu vulto sem igual
Pinheiro magistral
Eu sempre hei de cantar com ardor!
Vaqueiro colossal
Figura imortal
Guarapuava é meu grande amor!

O Sol doura o campo verdejante
A brisa, os trigais a balançar
Guarapuava é menina radiante
Com o ouro dos trigais a se enfeitar!

Com fervor, nós te saudamos, Guarapuava
Neste hino de Louvor!

Teu vulto sem igual
Pinheiro magistral
Eu sempre hei de cantar com ardor!
Vaqueiro colossal
Figura imortal
Guarapuava é meu grande amor!

O Sol doura o campo verdejante
A brisa, os trigais a balançar
Guarapuava é menina radiante
Com o ouro dos trigais a se enfeitar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
JOAQUIM EVÓNIO
(Joaquim Evónio Rodrigues de Vasconcelos)
Funchal/Portugal 1938 – 2012

Foi um Anjo

Foi um anjo, melodia
que voou para os meus braços
em amplexo tão ardente...
Curou todas as feridas
que me traziam doente...
 
Mas hoje, amanhã e sempre
trarei no peito em chamas
a triste recordação
do tempo que não vivi.
 
Foram dias, foram anos
vividos pelos pinhais,
sentindo como os navios
perdidos… órfãos de cais...
 
Com o sol nasceu encanto
abraçado aos braços dela...
Veio o Verão, Primavera,
guardando o meu Outono
numa caixa de Pandora...
 
Foi a aventura sincera
sem amargura nem dor,
foi tudo, foi quase nada,
apenas um grande amor.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Os dois touros e a rã

Dois touros brigavam, por causa de amores,
Não longe de nédia vaquinha louçã;
Do charco onde habita, notando os furores,
Assim, assustada, lhes fala uma rã:

«Que é isso?... não vedes que ao fim dessa briga
Será desterrado do campo um de vós,
O qual, suportando vergonha e fadiga,
Virá sobre os charcos pisar-nos a nós?

É justo soframos, sem ter pretendido
A posse da vaca?» — E a triste acertou!...
Fugiu para os charcos o touro vencido,
E rãs, sob as patas, às mil esmagou!

Famosa verdade! Mas, caros leitores,
Por muito sabida, não deve espantar:
As grandes toleimas dos grandes senhores
São sempre os pequenos que as têm de pagar!
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Eduardo Affonso (Kestão ou cuestão, eis a questão)


Você pronuncia “líkido” ou “lícuido” quando lê a palavra “líquido”?

Não, não se pergunte, ou vai descobrir que nunca pensou nisso e, agora que se perguntou, vai ficar na dúvida e experimentar uma e outra para descobrir que forma tem usado, e não vai chegar a conclusão nenhuma, porque ambas soam naturais, familiares.

Com “questão” é diferente.

Antigamente (antigamente de verdade, muito tempo atrás), ninguém tinha dúvida que fosse “cuestão”, inclusive porque tinha trema (“Responda às qüestões abaixo”, lembra?). A gente preenchia qüestionário, se qüestionava a respeito das coisas. Mas não sobre a pronúncia de questão. Agora, tudo mudou: a kestão prevaleceu sobre a cuestão, e isso é inkestionável.

Catorze ou quatorze? Quem nunca hesitou na hora de preencher o cheque? (Lembra do cheque? Era um papel retangular, tipo um dinheiro que a gente fazia em casa, do valor que quisesse. Ninguém tinha dúvida se era cheke ou chécue, mas todo mundo bambeava na hora do 14 por extenso). Cheguei a fazer um cheque de quinze e dizer pro entregador de pizza ficar com o troco (isso foi em Copacabana, década de 70, e nem sei mais se era cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, cruzado novo ou contos de réis, mas não esqueço o mico e o prejuízo de um cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, cruzado novo ou conto de réis que a ignorância me causou).

Liquidar (likidar) ou liquidar (licuidar)? Likidificador ou licuidificador? Likidez ou licuidez?  Likidação ou licuidação?

Quando havia o trema (que Tote – nome do meu avô e do deus egípcio do conhecimento e da escrita – o tenha), a gente tinha dúvida se era para pronunciar o U. Liquidaram o trema e agora a gente tem dúvida se é para não pronunciar.

A resposta é: tanto faz. As duas pronúncias são aceitas, pelo menos no Brasil. Naquela língua que falam em Portugal, no espanhol, no catalão, no italiano, a tendência é que o QU soe como K.

Já aqui a dupla pronúncia é antiquíssima (antikíssima ou anticuíssima, você decide). Claro que ninguém vai ao anticário, mas, se for, pode escolher entre comprar antigüidades ou antiguidades (suponho que as primeiras sejam mais caras, pois a pronúncia é mais velha).

Kestão e cuestão são, portanto, uma questão de gosto. De hábito. Eu digo “pôça d’água”; em Mato Grosso dizem “póça d’água”. Eu digo que algo me dá uma dó danada, porque dó (no feminino) para mim é pena, e no masculino é a nota musical. Pois a gramática insiste em dizer que falo errado, que dó é macho, vem de “dolus”. Eu cresci dizendo rúim, e só depois fiquei sabendo que o bom é dizer ruím.

Se o presidente prefere dizer cuestão, está no direito dele. É um anacronismo, mas o STL (Supremo Tribunal da Língua) não há de condená-lo por isso.

(PS. Nunca briguei tanto com o corretor de texto como neste texto. O desinfeliz corrigia todos os meus tremas, todas as minhas grafias fonéticas. Se eu fosse um escritor sanguinário – ou sangüinário – teria desinstalado o aplicativo, mas isso poderia aumentar o meu coeficiente – ou quoeficiente? – de erros, e abalar a crença de muita gente quanto ao meu quociente – ou cociente? – de inteligência. Deixei quieto. Mas sei que vamos nos estranhar de novo. É cuestão de tempo).

Fonte:
Blog do autor. 13.05.2020

domingo, 25 de janeiro de 2026

Autor Anônimo (Os três conselhos)


Um casal de jovens recém-casados, era muito pobre e vivia de favores num sítio do interior.

Um dia o marido fez a seguinte proposta para a esposa: "Querida eu vou sair de casa, vou viajar para bem longe, arrumar um emprego e trabalhar até ter condições para voltar e dar-te uma vida mais digna e confortável. Não sei quanto tempo vou ficar longe, só peço uma coisa, que você me espere e enquanto eu estiver fora, seja fiel a mim, pois eu serei fiel a você".

Assim sendo, o jovem saiu. Andou muitos dias a pé, até que encontrou um fazendeiro que estava precisando de alguém para ajudá-lo em sua fazenda. O jovem chegou e ofereceu-se para trabalhar, no que foi aceito.

Pediu para fazer um pacto com o patrão, o que também foi aceito. O pacto foi o seguinte: "Me deixe trabalhar pelo tempo que eu quiser e quando eu achar que devo ir, o senhor me dispensa das minhas obrigações. Eu não quero receber o meu salário. Peço que o senhor o coloque na poupança até o dia em que eu for embora. No dia em que eu sair o senhor me dá o dinheiro e eu sigo o meu caminho". 

Tudo combinado. Aquele jovem trabalhou durante vinte anos, sem férias e sem descanso. Depois de vinte anos chegou para o patrão e disse: "Patrão, eu quero o meu dinheiro, pois estou voltando para a minha casa".

O patrão então lhe respondeu: "Tudo bem, afinal, fizemos um pacto e vou cumpri-lo, só que antes quero lhe fazer uma proposta, tudo bem? - Eu lhe dou o seu dinheiro e você vai embora, ou lhe dou três conselhos e não lhe dou o dinheiro e você vai embora. Se eu lhe der o dinheiro eu não lhe dou os conselhos, se eu lhe der os conselhos, eu não lhe dou o dinheiro. Vá para o seu quarto, pense e depois me dê a resposta". 

Ele pensou durante dois dias, procurou o patrão e disse-lhe: - Quero os três conselhos.

O patrão novamente frisou: - Se lhe der os conselhos, não lhe dou o dinheiro.

E o empregado respondeu: - Quero os conselhos.

O patrão então lhe falou:
1. "Nunca tome atalhos em sua vida. Caminhos mais curtos e desconhecidos podem custar a sua vida.

2. Nunca seja curioso para aquilo que é mal, pois a curiosidade para o mal pode ser mortal.

3. Nunca tome decisões em momentos de ódio ou de dor, pois você pode se arrepender e ser tarde demais.

Após dar os conselhos, o patrão disse ao rapaz, que já não era tão jovem assim:

- Aqui você tem três pães, dois para você comer durante a viagem e o terceiro é para comer com sua esposa quando chegar a sua casa.

O homem então, seguiu seu caminho de volta, depois de vinte anos longe de casa e da esposa que ele tanto amava. 

Após o primeiro dia de viagem, encontrou um andarilho que o cumprimentou e lhe perguntou:

- Para onde você vai?

Ele respondeu:

- Vou para um lugar muito distante que fica a mais de vinte dias de caminhada por essa estrada.

O andarilho disse-lhe então:

- Rapaz, este caminho é muito longo, eu conheço um atalho que é dez, e você chega em poucos
dias.

O rapaz contente, começou a seguir pelo atalho, quando lembrou-se do primeiro conselho, então voltou e seguiu o caminho normal. 

Dias depois soube que o atalho levava a uma emboscada.

Depois de alguns dias de viagem, cansado ao extremo, achou uma pensão à beira da estrada, onde pode hospedar-se. "Pagou" a diária e após tomar um banho deitou-se para dormir. De madrugada acordou assustado com um grito estarrecedor. Levantou-se de um salto só e dirigiu-se à porta para ir até o local do grito. Quando estava abrindo a porta, lembrou-se do segundo conselho.

Voltou, deitou-se e dormiu.

Ao amanhecer, após tomar café, o dono da hospedagem lhe perguntou se ele não havia ouvido um grito e ele disse que tinha ouvido. O hospedeiro: e você não ficou curioso? Ele disse que não. No que o hospedeiro respondeu: Você é o primeiro hóspede a sair daqui vivo, pois meu filho tem crises de loucura, grita durante a noite e quando o hóspede sai, mata-o e enterra-o no quintal. 

O rapaz prosseguiu na sua longa jornada, ansioso por chegar a sua casa. Depois de muitos dias e noites de caminhada... já ao entardecer, viu entre as árvores a fumaça de sua casinha, andou e logo viu entre os arbustos a silhueta de sua esposa. Estava anoitecendo, mas ele pode ver que ela não estava só. Andou mais um pouco e viu que ela tinha no seu colo, um homem a quem estava acariciando os cabelos.

Quando viu aquela cena, seu coração se encheu de ódio e amargura e decidiu-se a correr de encontro aos dois e a matá-los sem piedade. Respirou fundo, apressou os passos, quando lembrou-se do terceiro conselho. Então parou, refletiu e decidiu dormir aquela noite ali mesmo e no dia seguinte tomar uma decisão. 

Ao amanhecer, já com a cabeça fria, ele pensou: - "Não vou matar minha esposa e nem o seu amante. Vou voltar para o meu patrão e pedir que ele me aceite de volta. Só que antes, quero dizer a minha esposa que eu sempre fui fiel a ela".

Dirigiu-se à porta da casa e bateu. Quando a esposa abre a porta e o reconhece, se atira em seu pescoço e o abraça afetuosamente. Ele tenta afastá-la, mas não consegue. Então com as lágrimas nos olhos lhe diz:

- Eu fui fiel a você e você me traiu...

Ela espantada lhe responde:

- Como? Eu nunca lhe trai, esperei durante esses vintes anos.

Ele então lhe perguntou:

- E aquele homem que você estava acariciando ontem ao entardecer?

E ela lhe disse:

- Aquele homem é nosso filho. Quando você foi embora, descobri que estava grávida. Hoje ele está com vinte anos de idade.

Então o marido entrou, conheceu, abraçou o filho e contou-lhes toda a sua história, enquanto a
esposa preparava o café. Sentaram-se para tomar café e comer juntos o último pão. 

Após a oração de agradecimento, com lágrimas de emoção, ele parte o pão e ao abri-lo, encontra todo o seu dinheiro, o pagamento por seus vinte anos de dedicação.

Muitas vezes achamos que o atalho "queima etapas" e nos faz chegar mais rápido, o que nem sempre é verdade...

Muitas vezes somos curiosos, queremos saber de coisas que nem ao menos nos dizem respeito e que nada de bom nos acrescentará...

Outras vezes, agimos por impulso, na hora da raiva, e fatalmente nos arrependemos depois... 

Espero que você, não se esqueça desses três conselhos e não se esqueça também de confiar (mesmo que a vida muitas vezes já tenha te dado motivos para a desconfiança).

Fonte:
Lendas para reflexão
Imagem criada com Microsoft Bing

Washington Daniel Gorosito Pérez (Chafariz de Versos) * 1 *

Tradução do Espanhol por José Feldman


ARCO-ÍRIS

O vagabundo urbano cinzento
caminha sem rumo,
chutando objetos que cruzam
seu caminho.

Entre sombras
e os detritos do tempo.

Desapontado e entediado,
buscando incessantemente o arco-íris da vida.

Os homens,
como os pássaros,
têm muitos destinos. 
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ESPERANÇA

Que se espatifa
no asfalto, fazendo-nos sentir
a queda amarga.

Às vezes,
é um crânio desdentado,
um suspiro rouco,
ansiedade,
inquietação.

Outras vezes,
um buraco negro.

Ternura íntima,
conforto,
amor,
respiração,
plenitude,
abrigo.

Vale a pena lutar por ela
antes que
a arranquem de nós. 
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FLOR DE CACTO, 
Poesia em Peralta*

As cinzas da aurora se dispersaram
e uma pomba-rola canta
aos raios do sol.

As nuvens dançam
e os ventos sopram
onde passado e presente convergem.

Pedra sobre pedra
carregadas de histórias
dormem hoje,
talvez tenham sido espectadoras
dos aviadores
memória nas paredes
do “recinto dos governantes”.

É abril, a terra está sedenta
um lagarto-de-colarinho-espinhoso
para abruptamente
e borboletas azuis esvoaçam
inquietas ao seu lado
uma coreografia magistral.

Em meio à vegetação raquítica e escassa
os cactos estoicos se destacam
esbeltos, testemunhas silenciosas do tempo.

Um deles me atrai
apresenta a dualidade da vida e da morte
parte do órgão parece seca
cor de ocre, outra resplandecente, muito verde.

Vestida com uma bela flor
coroada de espinhos
com a suavidade de suas pétalas abertas
ela cresce áspera e solitária.

Ao meu lado, graças a você
uma palavra vibra
uma palavra relâmpago
e versos germinam
ao longo dos caminhos pedregosos
de um poema que desabrocha docemente
como a flor do cacto.

*Peralta - Zona Arqueológica do Estado de Guanajuato. Foi um centro cívico, cerimonial e religioso das civilizações tolteca e chichimeca. Construída por volta de 300 d.C., possui magníficas estruturas, muitas delas de natureza cerimonial.
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GAIOLA POÉTICA

As grades estão vazias,
apenas uma sombra percorre os corredores.

O dia inexorável se encerra,
a borracha das consciências noturnas
foge pelas cornijas,
telhados mudos e úmidos.

À tarde,
choveu torrencialmente,
isto é, em torrentes.

Pela rua do tempo,
a poeira do esquecimento voa,
chicoteada pelo lento e doloroso açoite das horas.

Tudo permanecerá em seu lugar,
os livros afogados em suas tintas,
rios de letras enferrujadas
de cores acobreadas.

As palavras são testemunhas,
poesia eternamente eficaz,
verbos conjugados pelo sol e pela lua,
metáforas,
imagens cegas,
escritas em mesas tortas.

Dócil, frágil, volátil,
como uma folha seca
acariciada pelo vento.

Você está preso,
em sua gaiola de papel,
vivendo a solidão
fragilidade de uma pétala
como um grão
em uma ampulheta.
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LETRAS MISTERIOSAS

Minhas palavras
não são minhas,
eu as tomo emprestadas.

Minha poesia é inaudível,
guarda o mistério
de letras desbotadas,
e vence a morte
apenas com palavras. 
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MATANDO O TEMPO

Com palavras,
busco uma explicação.

Não estamos navegando
com certeza.

Às vezes, a náusea me domina
pela humanidade e pela sociedade.

Um homem que habita
o vazio.

Convencido de que nesta vida
só existe uma máxima
da qual não pode escapar:
matar o tempo,
quando os sonhos se desvanecem. 
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O FIM

A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.

Devo esperar
esperar…

Com muita paciência

Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.

Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.

As palavras se perdem
entre as sombras.

O ato criativo
desvanece lentamente.

É o fim da poesia. 
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PERCEPÇÃO

A morte
não mata a poesia,
se necessita algo mais.

Esse silêncio eterno
que nada quer,
o poeta o percebe.

Como a orquídea lilás
que tem um cheiro doce
e treme nua
no outono
esperando a última
carícia
do vento
que parece estar adormecido.
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PESCADOR DE VERSOS

Um bando de gaivotas
mergulha, arranhando o mar.

A vasta extensão azul-esverdeada é êxtase.

Há restos de barcos adormecidos nas rochas,
fragmentos de histórias de naufrágios
de pescadores e poetas
que compartilharam águas
povoadas por peixes esquivos
e versos à deriva.

Uma paixão marítima que atormenta
a consciência rebelde do homem,
buscando o caminho para a libertação
na brisa do mar
que acaricia suavemente as velas.

Enquanto isso…
As horas se esvaem,
as estrelas guiam a escrita,
e a palavra teimosa
deixa sua marca na água. 
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VENCIDOS

Uma gaivota solitária
anuncia a chegada
dos navios vencidos.

Não havia cardumes agitados de peixes
nas profundezas das águas
do Rio da Prata.

Um golpe fatal para os
pescadores.

No cais do porto, as águas afiadas
feriam as rochas ruidosas
que exalam sons harmoniosos.

Enquanto inúmeras
borboletas de espuma voam,
a tarde oxida
e a luz adormece.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991. Em 1999, obteve a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. É professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias. Alguns de seus poemas sobre a história uruguaia, como "Victoria Oriental en Las Piedras" e "El genocidio Charrúa", são material de estudo recomendado e também são recitados e apresentados em escolas e em eventos patrióticos oficiais. Seu poema "Gaucho del Uruguay" foi ilustrado pelo pintor Mario Giacoy.

sábado, 24 de janeiro de 2026

José Feldman (O silêncio ensurdecedor da solidão)

Caminha a passo bem lento,
na estrada que a vida armou;
Hoje está no esquecimento
de quem ele tanto amou.

Em um mundo que valoriza a velocidade, a eficiência e a produtividade, os idosos que não possuem um diploma de graduação universitária são frequentemente relegados ao esquecimento. São como folhas secas levadas pelo vento, esquecidas em um canto, sem valor aparente. A vida solitária e desanimadora desses indivíduos é um grito silencioso que ecoa nas ruas vazias, um lembrete cruel de que a sociedade pode ser cruel e injusta.

Eles se sentem desvalorizados, desprezados e rejeitados, como se suas realizações e experiências não tivessem importância. A falta de um diploma é como uma marca de inferioridade, um estigma que os impede de serem vistos como seres capazes e valiosos. Eles se fecham em casa, sem ânimo para sair, sem vontade de se arrumar, sem esperança de serem vistos e ouvidos.

E assim, os idosos se sentem cada vez mais isolados, como se fossem invisíveis aos olhos da sociedade. Eles começam a duvidar de si mesmos, a questionar sua própria capacidade de raciocínio, de julgamento, de decisão. Eles se sentem como se estivessem perdendo a noção de quem são, de o que são capazes.

A falta de reconhecimento e valorização é como um veneno lento, que se infiltra em suas mentes e corrói sua autoestima. Eles começam a acreditar que são realmente inferiores, que não são capazes de contribuir para a sociedade, que não têm nada de valor a oferecer.

E assim, eles se fecham ainda mais, se escondem do mundo, se protegem de mais rejeição e desvalorização. Eles se sentem como párias, como se estivessem à margem da sociedade, sem direito a voz, sem direito a serem ouvidos.

A solidão se torna uma companheira constante, uma sombra que os segue a todos os lugares. Eles se sentem como se estivessem morrendo por dentro, como se estivessem perdendo a vontade de viver.

A casa, que antes era um lar, se transforma em uma prisão, um lugar de isolamento e solidão. As coisas que antes traziam alegria e propósito agora são apenas objetos sem sentido, lembranças de uma vida que não foi vivida. A bagunça e a desordem se acumulam, refletindo a desordem interior, a sensação de vazio e inutilidade.

Mas, é importante lembrar que essas pessoas não são apenas vítimas da sociedade. Elas são seres humanos, com histórias, experiências e sabedoria para compartilhar. Elas são capazes de grandes realizações, de inspirar e motivar outros, de fazer a diferença no mundo.

O que é necessário é que as pessoas as enxerguem, as ouçam e as valorizem. É necessário que as pessoas entendam que um diploma não é o único indicador de valor e capacidade. É necessário que as pessoas reconheçam a dedicação, o esforço e a perseverança dessas pessoas, que muitas vezes trabalharam arduamente para se sustentar e para contribuir para a sociedade.

É necessário que as pessoas sejam empáticas, que se coloquem no lugar dessas pessoas e entendam o que elas estão passando. É necessário que as pessoas sejam gentis, que ofereçam um sorriso, um abraço, um ouvido atento.

Não é necessário ser um especialista para fazer a diferença. Basta ser humano, basta ser presente. Basta dizer "eu estou aqui", "eu te vejo", "eu te valorizo".

A vida é curta, e o tempo é precioso. Não se deve desperdiçá-la com julgamentos e preconceitos. Deve-se aproveitar cada momento para fazer a diferença, para tocar vidas, para inspirar e motivar.

É só olhar para os idosos com novos olhos, com respeito e admiração. Ouvir suas histórias, aprender com suas experiências. Valorizar suas realizações, celebrar suas vitórias, porque, no final, não é o diploma que define uma pessoa, é o seu coração, é a sua alma, é a sua capacidade de amar e ser amado. O que vale é fazer a diferença, fazer com que esses idosos se sintam vistos, ouvidos e valorizados. Fazer com que eles se sintam vivos novamente.

E, quem sabe, talvez um dia possam sair de casa, com a cabeça erguida, prontos para mostrar ao mundo que eles são mais do que um diploma, são homens de experiência, de sabedoria, e, acima de tudo, de valor. 
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Título Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”., “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas),
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas",  “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".